Mostrar mensagens com a etiqueta malária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta malária. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 21 de junho de 2013

[outras palavras] febre... pois...



Mitande, Niassa

A minha amiga Maria está desde Janeiro deste ano em Mitande, no Niassa (no norte de Moçambique), em missão de voluntariado através da ONG de que orgulhosamente faço parte... É enfermeira, tem um espírito prático e aventureiro como poucas pessoas têm e escreve deliciosamente! A propósito do post anterior sobre o conceito de febre na Guiné-Bissau, lembrei-me deste post dela, no Querida Lamparina:

No outro dia assisti à seguinte consulta de um jovem estudante no Centro de Saúde:
- Preciso de medicamento para malária.
- Como sabes que tens malária?
- Sinto uma malária muito forte.
- Mas o que sentes?
- Dói-me o corpo todo.
- E tens tido frio? [ter frio = febre]
- Não, só tenho uma malária que me faz doer o corpo todo. [e, baixinho, acrescenta] e comichão.
- Comichão onde?
- Aqui - diz rapidamente, sem apontar para sitio nenhum -, preciso de medicamento para a malária. Tenho malária muito grande.
- Comichão onde, mesmo?
- Aqui.

[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
Para evitar estas coisas de culpar a Malária de todos os males, resolvi dar uma “aula” às minhas meninas acerca de febre.
- Sabem o que e isto?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Para saber se pessoa está doente. Por debaixo do braço, esperar e depois ler se está muito doente ou pouco doente.

Lá expliquei o que é um termómetro e o conceito de temperatura e de febre. Esforcei-me por deixar bem claro que febre não significa malária necessariamente: afinal era esse o meu objectivo com estas explicações todas. Sugeri que experimentassem colocar o termómetro, a mais pequena não quis, tinha medo que se descobrisse alguma doença, mas a mais velha, mais corajosa, colocou o tal aparelho na axila. “Tem 36,5ºC. Não está doente!”
- Então vamos ver na B.
- Tenho 39,2ºC...
- O que significa?
- Tem malária!
[Definitivamente não sou boa professora...]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

[iapala] um quase-milagre, ou o epílogo, pronto

(continuando a história que começou aqui...)

Assisti à transfusão ao fim da tarde, com o sangue ainda quente, acabado de colher, que não havia tempo a perder em contemplações. Já nem sabia por que estava a fazer aquilo. Era só por descargo de consciência, para não me sentir culpada depois, porque o menino não tinha quase hipótese nenhuma! Em coma profundo há mais de 48 horas, com uma anemia gravíssima e insuficiência cardíaca. Já tinha estado com hipertensão intracraniana tão grave que tinha quase morrido, não fosse uma viagem intempestiva ao hospital mais próximo para fazer uma medicação de emergência. Tínhamos decidido fazer transfusão de manhã e já eram cinco da tarde quando a começámos... Tudo a correr mal, como sempre! O Sr. Cachimo brincava com os pais:

- É sangui di branca! Branca bem alimentada. É sangui forte! Minino vai ficar bom.
- Não diga isso, Sr. Cachimo, o menino está muito doente, não devemos dar esperanças aos pais.
  
E posso poupar-vos aos pormenores do que se passou em seguida. Posso dizer-vos que continuámos o tratamento e, ou pela medicação, ou porque o menino ainda tinha a fontanela* aberta e portanto o crânio suportou todas as mudanças de volume do cérebro, ou por milagre… por mil razões que desconheço, na manhã seguinte, contra todas as expectativas, contra as minhas convicções mais profundas, quando o fui visitar não o encontrei na cama. Estava ao colo da mãe no pátio, em silêncio, a mamar olhando para ela... Não tinha metade do corpo paralisada, como eu temia. De facto, não aparentava sequelas nenhumas. Teve alta dias depois.

Eu não queria acreditar! Mais uma vez me reconciliava com o povo macua e com os seus valores de família e da vida. E admirava a calma e a sabedoria da Irmã Lurdes… Podem dizer-me que os doentes não lêem os livros. Eu também sei disso.

Mas só voltei a ver uma situação parecida uma vez no Gilé, na Zambézia. Um menino que também esteve em coma com malária cerebral. Depois de ter começado o tratamento e de o ter estabilizado constatei, horrorizada, que quando o estimulava, ele reagia em descerebração (um dos sinais mais graves de lesão cerebral e com prognóstico quase invariavelmente fatal; quando os doentes permanecem vivos ficam sempre com sequelas). Mais uma vez me arrependi em silêncio de o ter estabilizado e percebi que era fútil tentar medidas heróicas para o tratar. Mas, dias depois, o menino acordou enquanto eu o estava a observar, olhou para a mãe, sorriu e lançou as mãos ao meu estetoscópio vermelho, que balançava em frente aos seus olhos e começou a brincar com ele. Ainda estava um pouco lento… Mas dias depois brincava como uma criança normal! Sinceramente, meus amigos, não conheço nenhum médico que tenha visto uma criança recuperar sem sequelas depois de ter estado em descerebração. Já perguntei a muita gente que trabalha em cuidados intensivos e nunca ninguém viu um fenómeno destes. Não estou a inventar. Tenho testemunhas!
  
Mas não gosto de pensar que foi um milagre. Perturba-me ter de recorrer a uma explicação não científica para compreender um fenómeno destes. Por isso peço-vos, meus amigos, para eu não estar sozinha neste mato sem saber o que pensar, respondam-me: O que acham disto? Alguma vez se arrependeram amargamente de ter reanimado alguém e depois tiveram uma surpresa deste tipo?

Agradecida...

* Fontanela – Nome técnico dado à separação entre os ossos frontal e parietais na abóbada craniana, designado popularmente por “moleirinha”.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

[iapala] armar-se em deus...

(continuando  a história que começou aqui...)
– Não me parece que estes pais o queiram levar para casa. Eles devem ser pessoas esclarecidas. Nem tempo tive para perguntar, mas o pai até me parece que é professor numa das aldeias onde nós vamos vacinar. Parece-me que o conheço. Olha que até foram a Ribáuè com ele quase a morrer. Arriscaram-se a muito. Ele podia ter morrido longe de casa!
– Mas acha que os pais o vão querer depois nestas condições? Acha que vão cuidar dele com carinho, não o vão maltratar ou negligenciar? Se ficar consciente vai sofrer horrores…
– Ainda não conheces bem esta cultura. Podes perguntar amanhã aos pais o que querem fazer. Se estás com essas dúvidas podes sempre dar-lhes a escolher. Mas eu já sei a resposta.
– Qual é?
– Já tive esta conversa muitas vezes com a Irmã Sarala e com os pais das crianças. E os pais querem sempre os filhos. Seja em que circunstâncias for. Eles dizem “os filhos são a nossa riqueza.” E só são ricos se tiverem muitos filhos, mesmo que não lhes consigam dar muitas coisas materiais. Os macuas adoram crianças. É o que mais me encanta neste povo. 

Na manhã seguinte o menino estava muito pior. Os lábios quase sem cor, o coração a bater a galope, num esforço enorme para bombear aquele sangue quase aguado, que claramente tinha sido devastado pela malária, a respiração agora acelerada, num gemido contínuo… A paralisia de metade do corpo não era tão evidente. Provavelmente pela simples razão de que ele estava agora em coma mais profundo. Eu continuava terrivelmente desconfortável. Mas a que propósito é que eu me tinha “armado em Deus” numa situação mais do que desesperada? Para prolongar o sofrimento da criança e da família? Às vezes o melhor que temos mesmo a fazer, o mais sensato, o mais humano é abstermo-nos de medidas heróicas [ou fúteis, melhor dizendo] e tentar apenas confortar os meninos e acompanhar a família…

Mas a resposta dos pais foi a que a Irmã Lurdes tinha previsto. Nem sequer perceberam à primeira o que lhes estávamos a perguntar. Até porque a palavra macua para “estar bem” é a mesma que significa “estar vivo”. Portanto primeiro perceberam que lhes estávamos a perguntar se queriam levar o filho para casa para morrer ou se queriam que o filho ficasse melhor no hospital. Os pais olharam-me chocados. Depois optámos por explicar em Português. Aí compreenderam. Mas mesmo explicando que a criança podia ficar profundamente deficiente nem lhes passava pela cabeça interromper o tratamento e levá-lo para casa.

A Irmã Lurdes sorriu-me:
– Pronto, aqui tens as tuas dúvidas esclarecidas.
– Bem, então já que é assim, temos de lhe fazer uma transfusão de sangue. Não temos banco de sangue em Iapala, por isso os senhores têm de ir ter com o Sr. Cachimo com este papel para serem os senhores a dar-lhe sangue.
– Sim, Irmã…
– E temos de o alimentar, vamos colocar uma sonda até ao estômago para lhe dar comida.

– Tudo bem, até já. Se precisares de mais alguma coisa estou no escritório – despediu-se a Irmã Lurdes, alegre.
E depois só para mim: “Eles não acreditaram, claro. Eles têm esperança. E eu também tenho. Já vi muitos milagres acontecerem nesta terra.” 

– Os milagres não são para estas coisas, Irmã, o menino está mesmo muito mal. E há muito tempo. Continuo a achar que o melhor era mesmo deixá-lo em paz…
– Não digas isso.
– Está bem, Irmã, eu não vou desistir.

(continua...)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

[iapala] os dilemas e a minha própria consciência

(continuando a história que começou aqui...)

E agora? Mas o que é que eu fui fazer? Para que é que eu tinha embarcado naquela loucura de ir a Ribáuè com uma criança tão obviamente em sofrimento cerebral? Mais valia ter assumido que havia pouco a fazer por ela, no estado em que tinha chegado… A mãe começou a chorar quando percebeu a minha reacção. Eu nem tinha disfarçado. Quando sei que não há nada a fazer acho sempre que é melhor demonstrar que também estou triste… Nem sabia o que dizer. Abracei-a, dei um beijo ao bebé e despedi-me. Já todos estavam a dormir àquela hora. Era tarde demais para estar acordar a família toda com aquelas notícias…

A Irmã Lurdes esperava-me em casa.
– Que cara é essa? Não está melhor?
– Não, Irmã…
– Paciência, amiga. Fizemos tudo o que pudemos, tudo o resto está nas mãos de Deus.
– Mas é muito pior do que isso, Irmã. O menino se calhar vai sobreviver, mas vai ficar com sequelas muito graves. Se calhar até vai continuar em coma até ao fim da vida.
– Bem… resta-nos esperar…
– Nem sei o que fazer…
– Temos de apoiar os pais e consolar a família…
– É que nem sei se vale a pena continuar o tratamento nestas condições. O menino ou vai morrer ou fica com sequelas graves.
– É assim tão grave?
– Provavelmente não vai voltar a ver, a andar, a falar, a ouvir, comunicar. Nada. É grave! Se eu soubesse que isto ia acontecer…
– Que horror… Mas não digas isso, fizemos o que era o nosso dever. O menino era um menino saudável antes, era preciso tratá-lo. Não podíamos adivinhar.
– Mas agora tenho de lhes dizer. Não é justo dar aos pais esperanças e no final entregar-lhes uma criança totalmente dependente e sem esperança nenhuma de recuperar.
– Agora não! Não é correcto prever o futuro e fazer prognósticos. Temos de ter respeito por esta cultura. Isso é uma intrusão no terreno dos espíritos e dos antepassados. De qualquer forma eles têm sempre esperança até ao fim.
– Mas se eu lhes disser agora, se calhar vão querer levá-lo para casa e é melhor que termine os dias em casa ao colo da família e não no hospital. E se ficar no hospital se calhar vai sobreviver e ficar com sequelas horríveis.

(continua...)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

[iapala] de volta ao hospital...

(continuando, já que insistem...)
– Mas as pessoas não têm mais nada que fazer? Aceitam ir a todas as cerimónias? Isso acontece muitas vezes?
– Para aí uma vez por ano para cada menina…
– Bem, com estas famílias grandes as pessoas não devem fazer mais nada! Se morre alguém são três dias, se alguém está doente podem ser semanas no hospital, se uma menina acaba o namorico, são mais dois dias…
– Sim, mas isto é geralmente ao fim de semana. Não interfere muito com a vida das pessoas. Pior é mesmo quando têm de ir para o hospital longe de casa. Isso é que desloca a família toda muitos dias e não conseguem mesmo trabalhar nada nessa altura… Chegam a perder as colheitas todas por causa disso, infelizmente…
– Por isso mesmo, deviam trabalhar sempre que fosse possível.
– Mas eles trabalham. As pessoas aqui são trabalhadoras. Mas pensa assim: a cerimónia do “muru tokotokho” é como se fosse um pretexto para reunir a família por causa de alguém. Nós também fazemos isso. Nos aniversários, por exemplo. É bonito. Faz bem. Dá uma sensação de união, uma noção de que se é importante… Muita gente me critica por mandar as meninas fazer cerimónia a casa, mas eu acho importante que elas tenham o apoio da família.
– Tem razão, realmente… Mas deve ser difícil lidar com tudo isto.
– Às vezes é difícil, sim, amiga… Todos temos a nossa cruz e eu tenho a minha, que é ajudar estas meninas… Mas é preciso ter muita fé e acreditar muito que vai tudo correr bem. É como o teu menino de hoje.
– Ah, ele só se houver um milagre… Ele está muito mal, Irmã. Nem sei se fizemos bem em dar esperanças à família. Por falar nisso, já passou uma hora, tenho de lá ir outra vez ver se pelo menos ainda está vivo.
– Está de certeza, não se ouviram gritos…

Nem de propósito, naquele momento ouviu-se um alarido enorme vindo do hospital…
– Ai… foi ele, de certeza, Irmã!
– Não… deixa ouvir… Ah, foi uma menina que nasceu! Não foi o teu menino. Os gritos são diferentes…
– Bem, tenho de lá ir…

Voltei para o hospital. O menino continuava deitado no berço, sem se mover. A respiração estava mais tranquila, o coração batia mais certo, mas continuava em coma. Olhei melhor para ele... Alguma coisa na face se tinha alterado... Belisquei-o para ver se pelo menos reagia à dor e fiquei horrorizada! Em resposta à dor ele tinha mexido levemente apenas um dos braços… Tinha metade do corpo paralisada! As lágrimas começaram a correr-me. Tinha sofrido danos cerebrais graves…

(continua...)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

[não é vergonha roubar] vergonha é roubar e ser apanhado!

(continuando...)

Fomos jantar. Eu estava perturbadíssima, mal conseguia falar. Se tivéssemos a chave do armazém não teria sido preciso tomar aquelas medidas heróicas [heróicas ou ridículas?] e tínhamos começado a medicação mais cedo. Podia ser que assim o menino sobrevivesse. Da forma como ele estava agora, era quase certo que estava condenado!

– Tens razão, mas isto está sempre a acontecer. Antes de o Sr. Sousa ir para Nampula eu pedi-lhe a chave do armazém. Já sabia que isto ia suceder. Mas ele disse que não, que não era preciso, que tinha abastecido os armários com os medicamentos essenciais e que não dava a chave a ninguém!
– Os medicamentos essenciais? Nem adrenalina havia… nem havia manitol!

– Pois, mas o que é que queres? A ti perguntou-te alguma coisa? Se sugerias algum medicamento para ficar à disposição?
– Não, claro. Nem sequer me avisou que ia a Nampula.

– É por isso que a Irmã Sarala está exausta. Ela é indiana e pertence a uma família muito importante na Índia. São ministros, directores de grandes empresas, donos de hospitais… Antes de ir de férias até foi uns dias para a praia para ver se recuperava um pouco a disposição e eles não a verem naquele estado. Qualquer dia a família não a deixa regressar…
– Pois… não admira.

– Mas possivelmente não nos deixou a chave porque ele próprio deve ter roubado muitos medicamentos e foi vendê-los a Nampula.
– Credo! O Sr. Sousa?

– Sim, o Sr. Sousa! Ele até é boa pessoa, trabalhador, interessa-se pelos doentes e é muito nosso amigo. Tem-nos ajudado muito. Mas quando rouba, não rouba só um ou dois comprimidos, é logo aos milhares.
– Mas... E não há ninguém que o denuncie?

– Para quê? Ele é do Partido*, portanto está protegido. Quando muito é transferido para outro lado e metem aqui um pior do que ele. Este ao menos interessa-se pelos doentes e trabalha.
– Nem sei o que diga, Irmã! Mas como é que ele é capaz? Ele está a roubar os irmãos dele! Ele sabe que vai haver gente a morrer por falta de medicação! Pode até ser alguém da família dele.

– Pois, mas é mesmo verdade, para eu estar a dizer isto é porque tenho a certeza.
– Eu sei, Irmã. Mas como é que ele é capaz?

– Ah… e não lhe pesa nada na consciência. Para ele é simples: de onde aqueles medicamentos vêm, hão de vir mais. É uma fonte que não seca. Quando ele voltar de Nampula vai estar na altura da entrega da próxima remessa e ninguém vai dar conta de nada.
– Mas como é que a Irmã consegue dizer que ele é boa pessoa e depois dizer que não lhe pesa na consciência roubar medicamentos que fazem tanta falta?

– É uma questão cultural. Os princípios deste povo não são os mesmos que os nossos. Por muito que nos custe, para eles o que é errado não é apropriar-se de uma coisa que não lhes pertence. O que é errado é que outras pessoas se apercebam disso.
– Ou seja, vergonha não é roubar, vergonha é roubar e ser apanhado! O meu pai também teoriza sobre isso: ele diz que é a diferença entre a “Educação Ética” e a “Educação Estética".

* "O Partido" refere-se, obviamente à Frelimo.
 
(continua...)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

[malária] para grandes males, grandes remédios...



No hospital de Ribáuè...
(Ribáuè, Nampula)

(continuando...)

Apesar de o menino estar claramente em perigo de vida, a família anuiu e pusemo-nos rapidamente a caminho. A Irmã Lurdes no seu pragmatismo habitual de “para grandes males grandes remédios” e eu com a cólera de quem vê uma desgraça prestes a acontecer por causa de incompetências e falta de planeamento.

Mas era quase de noite e tinha chovido, por isso demorámos muito tempo a chegar. Tempo demais… A criança ia quase morta… E claro, não há milagres. No hospital de Ribáuè os medicamentos também estavam no armazém, que já estava fechado. Foi preciso mandar chamar o farmacêutico a casa, o que só fizeram por especial consideração para com a Irmã Lurdes, o anjo da guarda daquele povo. Todas as pessoas das redondezas tinham pelo menos um familiar que já tinha sido ajudado por ela.

Quanto a mim… estava louca! De raiva, de preocupação e insegura por ter arrastado a Irmã Lurdes e a família toda para aquele devaneio. E suspeitava que o motor daquela atitude desesperada não tinha sido a convicção de que o menino ainda podia sobreviver, mas a fúria contra o director do hospital! Não teria sido melhor deixar o menino em paz, ao colo da família, em vez de estar a forçar toda a gente àquele suplício de solavancos, angústias e frustrações?

Começámos a medicação mesmo in extremis. Por fim, perguntei à família se queriam ficar ou voltar connosco para Iapala. Talvez fosse melhor o menino ficar em repouso e não regressar por aquela estrada horrível, onde o carro escorregava como se estivesse a dançar sobre sabão. Mas eles queriam voltar, claro. Nem lhes tinha passado pela cabeça que havia hipótese de ficar em Ribáuè, de outro modo, provavelmente não se teriam sequer metido no carro…

Tinham-se decidido a vir porque estavam desesperados e nós lhes tínhamos dado uma saída, mas o terror de qualquer família macua é que um ente querido morra longe do local onde estão enterrados os antepassados, e esta família não era excepção. Tinham de voltar. Era preciso estar mais perto de casa se uma desgraça acontecesse, sob pena de a família ficar assombrada para sempre pelo espírito do menino.

Voltámos para Iapala já era noite fechada. Com a medicação, o coração tinha voltado a bater mais rápido e o cérebro já não dava tantos sinais de sofrimento, mas o menino continuava em coma. Estava na hora da segunda dose de quinino. Não havia mais nada a fazer senão esperar…

(continua...)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

[iapala] malária... a malária é difícil


No pátio do hospital, com o menino a dormir...
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Ia voltar para casa mas, já na rua, assaltou-me um pressentimento e tive de dar meia volta. Voltei para a cabeceira do menino. De repente, apesar do cansaço (ou por causa dele, não sei bem…), fiquei insegura. E se ele afinal não estivesse assim tão bem? E se convulsivasse novamente sem ninguém dar conta? E se de repente a malária resolvesse fazer das suas e entrasse em coma? Ele ainda estava a dormir, não tinha sequer aberto os olhos e a febre ainda não tinha cedido completamente… Era melhor ficar por ali.

A malária assusta-me! Cada vez mais… É imprevisível. Nunca consigo ter a certeza de que vai mesmo tudo correr bem. Não tenho análises nem outros exames à disposição, só tenho os meus olhos e a minha intuição, mas esta semana fiquei ainda mais insegura e quase deixei de confiar nela… Foi por causa de uma criança de 15 meses com malária que chegou ao fim da tarde, aqui há uns cinco dias. O menino, quase bebé, vinha completamente inconsciente.

Segundo a mãe, mais uma vez, a doença tinha começado nesse dia e não tinha ido procurar tratamento tradicional. Mas nunca sei se é verdade ou não… e geralmente não é verdade. O problema é que muitas vezes, quando a situação é grave, é difícil perceber se o que se passa com a criança é resultado da doença, do tratamento tradicional ou das duas coisas… E alguns medicamentos que os curandeiros usam são terrivelmente tóxicos! Tudo se encontra na natureza: alcalóides, pesticidas, antibióticos, antiparasitários, medicamentos contra o cancro*...

E o bebé estava ali, em coma profundo e gelado. Não estava desidratado, mas tinha a respiração acelerada das doenças graves. E o coração não estava a bater como devia, estava lento…

– Teve febre hoje, mamã?
– Nada, não teve.
– O corpo ficou quente? – tenho sempre de perguntar a mesma coisa de várias maneiras, que há palavras que as pessoas não conhecem ou não atribuem o mesmo significado.
– Sim, muito quente, só arrefeceu agora.
– E quando é que deixou de estar acordado?
– Há bocado…
– Nada, mamã! A criança está assim há muito tempo! Olhe como está a respirar. Pode dizer, eu não fico zangada… quando começou a doença?
– De manhã, Irmã…
– E teve convulsões?
– Sim. Duas vezes.

Das duas uma, ou tinha malária cerebral ou uma infecção generalizada. Mas o exame neurológico mostrava-me que o cérebro também estava em sofrimento. O mais provável era que fosse malária cerebral. Mas à cautela comecei o tratamento para as duas coisas enquanto esperava o resultado do teste da malária e tentava estabilizar a criança. Mas, ao fim de algumas horas, o menino tinha piorado. A respiração estava mais lenta, o coração também mais lento, continuava em coma. Levantei-lhe novamente as pálpebras: as pupilas estavam diferentes… Estava a acontecer o que eu temia: o cérebro tinha inchado de tal maneira que estava comprimido contra as paredes do crânio. Perguntei ao enfermeiro se havia os medicamentos de que eu precisava.

– Não, Doutora, não tem.
– Mas não tem no hospital todo? Ou estão no armazém?

Ao que o enfermeiro respondia que não sabia, mas que achava que existiam no armazém. O problema é que quem tinha a chave era o Director, que estava em Nampula.
– Mas não há outra chave? – indignei-me.
– Nada, Doutora, ele não deixa a chave com mais ninguém, senão os funcionários roubam tudo.
– Valha-me Deus!

Mandei chamar a Irmã Lurdes… Estava desorientada. Capaz até de arrombar o armazém se me tivessem dado a certeza de que o medicamento existia mesmo por detrás daquela porta!

– Posso ir ao hospital de Ribáuè – ofereceu-se –, é um hospital maior, pode ser que tenham os medicamentos. Se eu pedir dão-mos de certeza, a mim nunca me negaram nada. Eles conhecem-me bem. Sabem que é para salvar uma vida…

Mas provavelmente não havia sequer tempo de ir ao hospital de Ribáuè pedir a medicação e voltar. Só se o levássemos connosco e ele fizesse a medicação lá.

– Isso é mais complicado… A família não deve querer, eles sabem que a situação é grave**.
– Temos de os convencer! Mamã, percebeu o que estamos a dizer? – perguntei.
– Não, Irmã.

(continua...)

* Aliás, o nome deste blogue vem precisamente de uma situação em que inesperadamente descobri que do beijo-de-mulata de extrai um medicamento contra o cancro...
** Já em tempos vos expliquei isto... para os Macuas, se alguém morrer longe de casa, o seu espírito nunca vai encontrar o caminho de volta e permanece para sempre retido "do lado de cá", assombrando e trazendo desgraças os vivos.

sábado, 21 de janeiro de 2012

[uma noite, em iapala] os meandros da malária...


Mamã com menino...
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Já no hospital, em dois minutos, a história clínica ficou colhida e iniciou-se a terapêutica da malária cerebral. Diagnósticos definitivos só no fim, que nestes casos não há tempo a perder à espera de análises laboratoriais. Nem o Sr. Cachimo, o técnico do laboratório se encontrava no hospital àquela hora...

Dizem-me que a doença começou hoje e que não foram ao curandeiro. Neste caso resolvi acreditar porque a doença parece ter começado agora mesmo. A malária cerebral costuma ter um início violento e provavelmente vieram ao hospital porque era de noite e não iam acordar o curandeiro àquela hora. [Sim, que curandeiro é criatura imponderável, poderosa, com contactos privilegiados com os mortos e legitimidade para influir no destino dos vivos. Quem, no seu perfeito juízo, se arriscaria a ir perturbar o sono de semelhante autoridade?] Por isso achei que era razoavelmente seguro dar-lhe o dobro da dose de quinino na primeira toma, como está preconizado na malária grave. Quase nunca o faço porque sei que os curandeiros usam precisamente o quinino para tratar a malária [o quinino extrai-se da casca de uma árvore] e duvido que consigam controlar as doses que preparam. E, portanto, se eu administrar uma dose mais “generosa” isso pode levar a uma intoxicação fatal! Ou seja, mais uma vez se confirmaria a crença do povo de que o “hospital é sítio para morrer”, onde apenas se deve ir em último caso…

Mas já descobri um truque para perceber se tomaram esses medicamentos ou não, desde que não venham inconscientes: o quinino provoca uma surdez transitória, portanto tudo quanto tenho de fazer é perguntar aos pais se a criança costuma ouvir bem e depois, de repente, bater palmas com muita força para ver se a criança se assusta. Se não se assustar nem olhar é porque tomou quinino e tenho de ter cuidado com a dose que lhe dou...

O menino está sonolento por causa da medicação que eu lhe dei, mas o exame neurológico não está muito alterado. Este caso também há de correr bem! Agora não há mais nada a fazer a não ser esperar que a medicação actue e rezar para que o menino reaja favoravelmente...

Só depois de termos a veia canalizada e o tratamento a correr é que arranjamos um colchão para instalar o menino. Apesar de estarmos na estação seca, em que a taxa de hospitalização é mínima, as camas estão todas ocupadas e temos de o acomodar no corredor... E então na estação das chuvas as condições são ainda mais precárias: o número de doentes hospitalizados é tal que têm de dormir no parrô, um abrigo amplo, com telhado mas sem parede completa até ao tecto, cheio de correntes de ar e onde a chuva entra livremente… Nem quero imaginar o que é este hospital durante os surtos de cólera…

Demoro-me um pouco a escrever no processo e só quando saio do gabinete me apercebo de que um homem ainda jovem chora baixinho, ajoelhado à cabeceira do menino.

– O senhor é o pai?
– Não, esse menino é meu sobrinho.
Talvez compreenda Português, pensei.
– O menino não está em coma, está só a dormir por causa do medicamento que nós lhe demos para parar as convulsões.

Não deu sinais de me ter compreendido. Fui chamar o enfermeiro, que traduziu a minha explicação para Macua. O tio afinal tinha-me compreendido, mas não acreditava que o menino pudesse sobreviver. Expliquei-lhe que ainda era muito cedo para saber o desenlace, mas que era muito possível que o menino ficasse bem. Parou de chorar.

– Obrigado.
Nem por um momento deixou de fitar o menino...

(continua...)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

[continua a saga da inês e do sr. rafael] lepra e delirium tremens, isto não está fácil...

(...continuando a história que começou aqui...)

“Bonito!”, ironizei comigo própria. “Está um pobre homem aqui ao pé de ti em perigo de vida e tu nem ponderas levá-lo para o hospital, só te ocorre mandar chamar o rapaz que te fez bater o coração há dois dias… Isto está bonito, sim, senhora!”

– Mas tem razão, acho que nem sequer conseguíamos levá-lo para o hospital. Ele é tão pesado... Acha que o consegue tratar aqui?
– Sim, se ele não tiver malária e conseguir engolir água acho que sim, Irmã… Tenho ali tranquilizantes e tudo o resto que é preciso. E duvido que no Hospital Central saibam tratar um delirium tremens…
– Pois, é melhor ele ficar aqui, então… O Sr. Rafael é um homem muito bom. Durante a guerra andou sempre connosco. Apesar dos perigos de andar na estrada, ele era incansável, defendeu-nos sempre, nunca houve dia nenhum em que saíssemos com o carro que ele não nos acompanhasse, às vezes até doente.
– Sim, é um homem muito bom, também já percebi isso.
– Uma vez ele estava com malária, mesmo no meio de uma crise, a tremer de frio e cheio de dores, quando caímos num buraco e furámos um pneu…
– Ui… Déjà vu…
– Pois… Mas precisamente à frente desse buraco estava uma mina. Foi por Deus que não passámos por cima dela.
– Credo!
– E foi ele quem se levantou e nos foi ajudar a sair do buraco e trocar o pneu. Nem sei como é que ele teve coragem de fazer aquilo tudo a tremer com uma crise de paludismo a dois ou três centímetros da mina… Foi mesmo por um triz que não morremos todas. Ele conseguia fazer aquilo de olhos fechados. Se não fosse ele já nenhuma de nós estava aqui para contar estas histórias. E foram muitas vezes mesmo. É o mínimo que podemos fazer por ele…
– Parece que o estou a ver. Ainda hoje ele tem essa capacidade de se compor e entrar em ação quando é necessário. À vinda para cá fez precisamente o mesmo, mas estava alcoolizado, não estava com malária… Bem, temos de o despir e arrefecer.
– Sim, vamos a isso. Mas o que terá acontecido para ter isto agora? Ele já bebe há tanto tempo…
– Ele ontem de manhã disse-me que ia deixar de beber… Estava muito envergonhado pela figura que fez durante a viagem. E pelos vistos tentou cumprir…
– Sabe, nós já vimos isto acontecer muitas vezes. O alcoolismo é uma praga aqui em Moçambique. E o povo também conhece bem o delirium tremens. Sabem que mata mesmo. Mas acham que os bichos que eles vêem nas alucinações são os antepassados da família enfurecidos com qualquer coisa. E motivos para os espíritos se zangarem nunca faltam, claro, basta pensar um pouco e encontram logo duas ou três situações em que se quebraram tabus.
– Pois, ainda hoje o tio da Inês…
– Ah, é verdade, como é que correu a conversa com o tio?

As Irmãs iam-me ajudando a despir e a arrefecer o Sr. Rafael com toalhas molhadas.

– Parece-me que correu bem. Mas pode ser só impressão minha. Vamos ver se ele faz mesmo aquilo que disse, que já percebi que as pessoas aqui são muito de resistência passiva. Dizem sempre que sim e depois só fazem o que querem.
– Pois, é mesmo isso. Mas o que foi que ele disse?
– Disse que achava que a Inês tinha lepra…
– Ai, pobrezinhos… Sabe, aqui a lepra é uma humilhação que se estende à família inteira. A maior parte das vezes, quando alguém fica a saber, a vida das pessoas fica destroçada. Não admira que a tenham tentado esconder…
– Mas eles não sabem que a lepra tem cura?
– Claro que não! Para eles nem sequer é uma doença. Para eles é um castigo que vem dos antepassados.
– Começo a ficar cansada desta “tradição”!
– Então nós que já cá estamos há tantos anos… nem nos diga nada. Mas temos de respeitar. E temos de os compreender. Isto é uma outra religião completamente diferente. Não estamos aqui para impor nada, só queremos ajudar as pessoas.

(continua...)

domingo, 27 de novembro de 2011

[e agora, só para compor o ramalhete...] delirium tremens

(...continuando a história que começou aqui...)

Regressei a casa perturbada, mas feliz. Finalmente estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Só esperava poder cumprir a minha promessa de que haveria de curar a Inês. Será que encontraria algum medicamento para ela em Nampula? Que raio de doença para se ter no fim do mundo…


Mas o dia ainda não tinha terminado. E a noite era ainda uma criança… Ao portão, o guarda esperava-me com a notícia de que o Sr. Rafael estava doente. Que estava “com espíritos”, mas que as Irmãs não tinham dado autorização para ele ir buscar um curandeiro.

– Com espíritos, Sr. Revenda?
– Sim, Doutora, ele não está a falar certo, fala com os espíritos, treme as mãos e os braços e parece que vê bichos…
– Delirium tremens! Valha-me Deus! E já estava a ficar assim ontem de manhã… Vi-o tremer quando lhe fui levar o mata-bicho, mas naquele momento nem sequer associei a nada, achei que seria fraqueza porque não tínhamos jantado… Ele hoje também continuava com as mãos a tremer?
– Não sei, Doutora, de manhã fomos ao Anchilo procurar a minina Inês e durante o resto do dia estive a dormir só...
– Pois... calculo. E eu hoje de manhã nem fui vê-lo, com a preocupação de irmos ao Anchilo. Era só o que nos faltava agora um delirium tremens...
– Tremes? O que é isso, Doutora?
– É a doença dos homens que bebem muito. O corpo fica envenenado pelo álcool e já não passa sem ele. Basta ficar um ou dois dias sem beber e começa a tremer, a ver coisas e ouvir coisas…
– Não, Doutora, não é isso. Isto são espíritos maus. Maus mesmo. Quando os espíritos vêm na forma di bichos, as pessoas morrem quase sempre. É preciso chamar curandeiro para tirar os espíritos. As Irmãs não acreditam em mim!
– Sim, Sr. Revenda, tem razão, esta doença provoca alucinações com bichos e pode matar, é mesmo isso! Mas eu também sei tratar esta doença, não são só os curandeiros.

O guarda estava perplexo. Devia achar que eu era completamente tonta. Não compreendia como é que eu podia, na mesma frase, concordar com ele, que era um facto que o Sr. Rafael estava a ver bichos, e depois dizer que conseguia tratá-lo sem a ajuda de um curandeiro.

– Doutora não está a perceber… Isto é uma doença que vem da tradição! Ele vai morrer se não lhe tirarem os espíritos.
– Está bem, Sr. Revenda, mas não se preocupe que ele vai ficar bem…

O guarda olhava-me incrédulo e assustado. Claramente não acreditava em mim e provavelmente estava cheio de medo de morrer também, receoso de que aqueles espíritos violentos e malignos o atacassem por tabela, já que o Sr. Rafael estava em sua casa… Não valia a pena insistir na conversa. Não falávamos de todo a mesma linguagem e eu nesse dia já tinha tido irritação suficiente com a “tradição” para conseguir sentar-me e explicar-lhe com calma que raio era isso de delirium tremens. E no fundo não valia a pena, não ia conseguir. Era uma doença impressionante demais para alguém mudar assim de opinião.

Entrei no quarto. Deitado na cama, o Sr. Rafael tremia por todos os lados com uma expressão de terror, alagado em suor e, fazia movimentos bruscos com as mãos, como se tentasse apanhar insectos ou afastar qualquer coisa que só ele via e que parecia que o ameaçava. Tomei-lhe o pulso, que batia descompassado, ardia em febre e debatia-se sem me reconhecer… Tartamudeava qualquer coisa em macua que não entendia: “Massi, massi.”

– Que diz ele, Sr. Revenda?
– Está a dizer "água".
– Traga-me água, então, numa garrafa para beber e num alguidar também, que temos de o arrefecer. E depois vá buscar o Sr. Cachimbo a Namutequeliwa, é a terceira casa ao lado do portão das Irmãs da Apresentação. Diga-lhe que preciso que me venha fazer um teste de malária, que isto pode ser também malária cerebral…
– Sim, Doutora.

Minutos depois chegavam as Irmãs com a água que eu tinha pedido.

– Não acha que é melhor levá-lo para o hospital? Não sei se nós sozinhas conseguimos tratar dele…

“Bonito!”, ironizei comigo própria. “Está um homem aqui ao pé de ti em perigo de vida e tu nem sequer ponderas levá-lo para o hospital, só te ocorre mandar chamar o homem que te fez bater o coração há dois dias [e reflectir sobre a vida emocional dos pinguins]… Isto está bonito, sim, senhora!”

(continua...)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

[nampula] mas o que foste lá tu fazer, beijo-de-mulata?


Na escolinha das Irmãs.
(Nampula)
(continuando...)

E perguntam vocês, caríssimos amigos: "Mas afinal o que foste tu, beijo-de-mulata, fazer sozinha para Nampula? Já percebemos que acabaste por procurar a Inês do post ali abaixo. Mas tu já estavas quase a caminho quando a Irmã Lurdes te pediu que a fosses procurar."

E eu respondo: "Sim, Senhor! Muito atentos que vocês são todos, amigos do meu coração!"

Bem, a verdade é que, se bem se recordam, em Iapala não havia rede de telemóvel e estava a ser um pouco duro para mim estar incomunicável... Mas não foi essa, obviamente, a principal razão. O resto do mundo podia esperar mais um pouco.

A minha ida a Nampula tinha sido em resposta ao apelo das Irmãs, sempre preocupadas com a saúde dos meninos a quem davam apoio na escolinha . Mais de trezentas crianças seleccionadas entre as famílias mais pobres dos bairros vizinhos. Com a ajuda dos “padrinhos”, pessoas anónimas na Europa que contribuíam especificamente para cada criança, as Irmãs conseguiam dar-lhes comida, vestuário e material escolar durante todo o ano. Ainda apoiavam a família das crianças, e incentivavam as mães das crianças a estudar gratuitamente no Centro de Alfabetização, que funcionava ao lado da escolinha. A teoria delas é que se as mães conseguissem aprender a ler, nunca deixariam os filhos desistir da escola e poderiam dar-lhes algum apoio nos estudos. Da experiência daquele projecto, acumulada em tantos anos, quando as mães conseguiam terminar a quarta classe, a maior parte dos filhos formava-se pelo menos num curso médio e as filhas não abandonavam a escola para casar! E eram cada vez mais os “afilhados” que já tinham terminado cursos superiores.

A grande preocupação das Irmãs era mesmo a assistência médica. Os centros de saúde e os hospitais eram caóticos. Ainda são, aliás. Raramente dão uma resposta satisfatória a não ser que se trate de um caso simples de malária ou de parasitose intestinal… Quando suspeitavam de alguma doença mais grave, as Irmãs levavam-nas a uma clínica privada, onde a assistência era ligeiramente superior mas, ainda assim, as melhoras quase nunca eram muito visíveis. Nesse sentido, as Irmãs tinham-me pedido para fazer uma consulta de rastreio a todas as crianças com menos de 5 anos que frequentavam a escolinha. Tudo somado, tinha 150 consultas para fazer em poucos dias… Com o apoio de uma enfermeira e um rastreio auditivo e visual prévios… Seria capaz? Não sabia, de facto, se seria capaz, mas iria certamente dar o meu melhor. Aquela consulta seria provavelmente a primeira consulta de Saúde Infantil que aquelas crianças iriam ter.

(continua...)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

[instantes] pode uma mulher apaixonar-se na savana?



Hidratando uma criança no hospital. Num outro dia...
(Iapala, Nampula)

(continuando... vá, não desanimem...)

Ah, aqueles homens no seu melhor! Moçambique no seu melhor! Sorri, agradecida por aquele momento de tranquilidade e, de repente, voltei a ouvir o silêncio da savana e a sentir o cheiro do mato. A sensação de perigo e o pânico tinham-se desvanecido. Voltei para dentro do carro à procura do estetoscópio e da bolsa dos medicamentos. Preparei soro oral, consegui encontrar duas seringas dentro da minha mala-safari e voltei para o pé das meninas. Entretanto as mulheres, à boa maneira moçambicana, já se tinham instalado numa esteira no chão e aguardavam sentadas, calmamente, o resultado dos testes.

– Então, Sr. Cachimbo?
– Positivos, Doutora!
– Os dois?
– Sim, os dois. Doutora tem medicamento de malária?
– Tenho aqui quinino em comprimido para a mais nova.
– Para a mais velha eu tenho Coartem. Ando sempre com uma dose porque posso precisar…
– Óptimo! Pode ir buscar, então. Deixe-me só observá-las para ver se precisam de mais alguma coisa.

Observei-as, auscultei-as, vi-lhes os ouvidos, a boca, a garganta, a barriga... Era tudo só malária e desidratação grave. Ofereci-lhes soro na seringa e ambas tiveram a mesma reacção: precipitaram-se, ávidas e sôfregas para o líquido que lhes entrava enfim no corpo. Finalmente alguém as compreendia! Olhavam-me nos olhos e seguravam a seringa com ambas as mãos enquanto bebiam o soro, como uma criança olha a mãe e lhe toca no seio enquanto está a mamar com fome e prazer. Tomaram o paracetamol, o quinino e o Coartem sem qualquer dificuldade.

[Fico sempre admirada pela forma como estes meninos conseguem tomar comprimidos mais amargos que veneno sem um esgar de repulsa, sem o esboçar de um vómito, sem tentar cuspir…]

Quase ao mesmo tempo, o carro estava novamente pronto para partir.
– Vamos embora, então, que temos ainda muito que andar.
– Eu vou lá atrás na caixa do carro – ofereceu-se o Sr. Cachimbo.
– Atrás? Claro que não, Sr. Cachimbo, cabemos quase todos dentro do carro.
– Não, Doutora. As crianças não têm fralda. Têm de ir lá fora porque se não vão sujar o carro todo e as mamãs não vão aceitar.
– Acha?
– Sim, Doutora. Eu vou com elas para controlar se tomam soro.
– Está bem, então. Obrigada por fazer isso.
– Sim, Doutora.

Ajudou as mamãs a subir para a caixa aberta do jipe e entreguei-lhe as meninas, uma a uma e ele aproximou-se e envolveu-as nos meus braços, num abraço conjunto a três que durou um momento, mas o tempo suficiente para me transmitir uma ternura tal que quase me deixou atordoada. Pegou nelas com a delicadeza genuína de um pai enorme e desajeitado que tem receio de magoar as suas meninas doentes e entregou-as à mãe e à tia. Olhei-o, desarmada e ele sorriu-me, olhos nos olhos, brevemente, compenetrado no seu papel de enfermeiro de ambulância.

Partimos novamente. Os quatro adultos a quem íamos dar boleia com um sorriso aliviado nos lábios: as mulheres com um novo brilho no olhar e os homens ainda maravilhados por terem visto de perto a roda de um jipe e descoberto segredos que nunca imaginariam ao seu alcance. O Sr. Cachimbo subiu também para a caixa aberta, certamente de coração mais leve por ter sido prestável, por me ter impressionado e por se ter livrado da discussão azeda com o Sr. Rafael. E este, no banco ao meu lado, seguia agora finalmente tranquilo e disposto a dormir. O carro novamente estável e previsível, e com a direção alinhada. Em menos de meia hora o carro dos loucos tinha ganho uma alma nova. É incrível como às vezes há situações que parece que têm o condão de ir buscar o melhor que há em cada um e ressincronizar o bater dos corações.

(continua...)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

[welcome to mozambique] medicina tradicional

Uma banca de medicina tradicional numa rua de Nampula.

(Nampula, Moçambique)

E para quem se interessa pelo assunto: no plano mais afastado de quem aprecia a imagem está a famosa batata africana (namuassa para os macuas e Hypoxis rooperi para os entendidos, para os armados em bons e para os investigadores). Há alguns anos estava muito em voga para tratamento da SIDA, antes de os anti-retrovirais estarem tão disponíveis e difundidos no país. Eu própria também tive oportunidade de ver alguns doentes de SIDA que começaram a tomar batata africana em Iapala e verifiquei que, apesar de não melhorarem da doença, melhoravam do apetite e, consequentemente, do estado nutricional, acabando por quebrar um ciclo vicioso que a breve trecho seria fatal... Hoje em dia já se vê muito menos batata africana à venda pelas estradas. Curiosamente, na Europa, o grande boom da utilização da batata africana foi na Alemanha e para tratamento médico da hiperplasia benigna da próstata. Mas acho que entretanto foi abandonado porque não dava grande resultado...

Ao centro, uma casca de cinchona, de onde de extrai o quinino para tratamento da malária. Mais perto de nós, à esquerda, as "escovas de dentes macuas" para uma higiene dentária profunda e coloração da boca, língua e gengivas de um laranja quente, sinal de status na rara classe média do Norte de Moçambique (os mais pobres não lavam os dentes e os mais ricos utilizam dentífrico importado). À direita, carvão vegetal que imagino que seja utilizado para afecções intestinais. E, ao centro, umas plantas fibrosas que dizem que são incrivelmente eficazes nas parasitoses intestinais (ouvi descrições quase apocalípticas em primeira mão, a que vos vou obviamente poupar, sob pena de nunca mais ninguém querer vir aqui ao mato ouvir mais histórias de África...). Tudo o resto acho que não conheço.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

[improbabilidades] das coisas que, decididamente, só me acontecem a mim...

Os meus anti-retrovirais...

(continuando e concluindo)

Telefonei ao director do hospital, que foi um querido e, em menos de meia hora, arrancou o farmacêutico da cama e foi ao hospital entregar-me pessoalmente os medicamentos que tinha disponíveis para profilaxia: um esquema triplo, com zidovudina, lamivudina e... efavirenz. Não havia mais nada. Era o melhor que tinha. O esquema mais sofisticado! Anti-retrovirais dentro do prazo de validade (por pouco, mas pronto...), em genérico e made in India. Um autêntico milagre, considerando que há muito poucos anos não era sequer possível encontrar anti-retrovirais em todo o território moçambicano, quanto mais assim do pé para a mão e no meio do mato... Agradeci-lhe a amabilidade e a disponibilidade, desculpei-me pelo incómodo e voltámos para casa.

Já em casa, eu e a R. sentámo-nos a fazer aquilo que qualquer médico abomina que os doentes façam: lemos as bulas de uma ponta à outra para nos inteirarmos das reacções adversas possíveis que a medicação me poderia provocar. E do exame cuidado da literatura inclusa concluímos que a reacção adversa mais provável que eu poderia ter era... uma crise psicótica! Isto, com a agravante de estar já a tomar mefloquina para profilaxia da malária, também ela sobejamente conhecida por conseguir provocar psicoses assim gratuitamente. Valesse-me São Vito se para além da infâmia de vir a ter insónias de meia-noite, ainda fosse desta que havia de dar em doida. 

Acho que nem dei pelo dia seguinte. Passei-o a dormir profundamente, com um sono quase patológico. Só me lembro de acordar de quando em vez com o pensamento absurdamente reconfortante de não estar a ter insónias, contente por ainda não ter dado em doida e com a imagem amorosa da R., que não arredou pé dali o dia inteiro, sentada na minha cama, ao meu lado, a ler um livro e a olhar para mim tentando descortinar uma réstia de sentido no absurdo que estava a acontecer. Tudo isto enquanto tentava acalmar as Irmãs, explicando-lhes que aquilo era tudo normal. Que era normalíssimo eu não acordar há quase 24 horas e que só estava a tomar aqueles medicamentos por excesso de zelo, já que a bem dizer, no fundo, no fundo não havia perigo nenhum...

No dia seguinte o sono já não era nada comigo. Insónias também não. Quanto aos outros efeitos secundários possíveis, as náuseas, vómitos, dores de cabeça, diarreia, crises psicóticas, crises maníacas, depressão, ansiedade, mucosites, icterícia, falência hepática, pedras nos rins e o diabo a quatro (ou a sete, que como sabem um diabo nunca vem só e quatro diabos trazem no mínimo mais três, atrelados, como damas de companhia), nem ao de leve me pegaram! E foi assim que concluí que estava certamente a tomar um placebo. Também, o que é que eu havia de querer de uns pobres anti-retrovirais genéricos made in India adquiridos pela Direcção Distrital da Saúde do Gilé? Mas à cautela lá os fui tomando.

Só comecei a pensar que se calhar os medicamentos afinal talvez não fossem só Farinha Amparo quando uma madrugada acordei a vomitar e percebi, horas depois, que estava com malária: os anti-retrovirais tinham-me certamente baixado os níveis de mefloquina no sangue e portanto tinha deixado de estar protegida. Mas a confirmação de que afinal os anti-retrovirais não eram de contrafacção só a tive em Lisboa quando fiz as análises da praxe: 350 de colesterol, 300 de triglicéridos, função hepática pelas ruas da amargura e... VIH negativo! Decididamente os medicamentos tinham funcionado. Thank you, India!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

[bem, vamos lá acabar com a história] antes que cheguem à fase das ameaças...

(É desta que a história termina. A sério que é. Não era preciso era terem reclamado tanto, que se não a terminei antes foi porque não pude... estive a trabalhar até às 21:00, depois entrei de Urgência durante a noite e, vai daí, como já estava com as mãos na massa, continuei a trabalhar até às 18:00. Como queriam que ainda escrevesse alguma coisa? Só se dissesse aos doentes, Ah e tal, tenho ali umas coisas para acabar de escrever, volte mais tarde...)




Num segundo tudo ficou pronto para partir, foi como se alguém tivesse ligado novamente a câmara rápida. Até o menino se tentou colocar de pé, mas foi impedido pelo próprio tio, que insistiu em carregá-lo às cavalitas. Quando chegamos, o carro já está pronto para partir porque o Padre Filomeno já imaginava a gravidade da situação. O menino, surpreendentemente, depois de tomar a água com açúcar não voltou a ter outra convulsão e parece ter já um novo brilho no olhar... Mas até quando? Subimos para o carro. Não há lugares sentados para todos, por isso a família vai na caixa aberta do jeep, juntamente com outros doentes que pediram para ser transportados para o hospital: uma grávida em fim de tempo, uma menina com um abcesso dentário e celulite da face e um menino desnutrido, todos com as respectivas famílias. Não podemos avançar muito rápido porque a estrada é péssima, o carro vai muito carregado [não vai como o da imagem acima, mas para lá caminha...] e ainda temos de passar pela outra aldeia para vacinar as crianças.

– Para a semana temos de ir a uma aldeia aqui perto. Nessa altura podemos fazer um desvio e vir também a esta. Vou só descer para os avisar que levamos um doente grave mas que voltamos para a semana, decidiu a Irmã.

Quando a Irmã Lurdes sobe novamente para o carro traz uma má notícia. O menino acabou de ter nova convulsão e desta vez ainda não recuperou a consciência. Só me apetece chorar... Subitamente vêm-me à memória as aulas de Infecciologia… Como pude ser tão auto-confiante e insistir para que o menino viesse? Aquela melhoria aparente pode não ter sido por termos tratado uma possível hipoglicémia, podem ter sido as típicas "melhoras da morte" da malária cerebral! Por que fui eu dar falsas esperanças e deslocar uma família tão pobre? Para os deixar com uma dor ainda maior? Olho novamente para trás. O menino acordou de novo. Parece que não aguento mais tanta angústia... Dão-lhe mais água com açúcar e mais uma vez parece melhorar... A Irmã parece ler os meus maus pensamentos:

– Estamos a fazer o que podemos, já não seria o primeiro doente a morrer-nos no caminho. Mas Nossa Senhora há-de nos ajudar, vamos rezar por ele.
A Martine também me tenta confortar:
– Não podemos fazer mais do que aquilo que estamos a fazer.

Parece que as palavras delas me acalmam um pouco... Não sei quantas vezes mais o menino convulsiva até chegarmos ao hospital, com ele completamente inconsciente há mais de 15 minutos. Já levo a medicação programada e as contas todas feitas. Enquanto os enfermeiros lhe colocam uma via de acesso venoso, ajudo os outros doentes a descer do carro. Um dos meninos está a tremer de frio... (Arrefeceu durante o fim da tarde). Tento abraçá-lo para o aquecer, mas tem medo de mim. Claramente nunca viu uma mulher branca. Entrego o meu casaco de malha à mãe para vestir o menino, mas tenho de correr para dentro para preparar a medicação, "Meu Deus, não me falhes, se conseguimos chegar até aqui com ele vivo, não é justo que ele nos morra agora, lutou tanto..." A febre volta a subir, mas desta vez foi mais fácil arrefecê-lo e, uma hora depois, já está novamente fresco.

– Vá lá, acorda, ainda tens tanto para viver!

O quinino vai correndo gota a gota, lentamente para dentro da veia. Ainda faltam três horas para terminar a primeira dose. Quase ao fim das quatro horas abre os olhos e, pela primeira vez, volta a falar. Pergunta onde está, que lugar é aquele. O exame neurológico não mostra alterações. Contra todas as expectativas, está vencida a batalha, felizmente! Ao menos valeu a pena tanto sofrimento… Nimutthapele Muluku!

Já me posso preocupar com os outros doentes. A grávida está bem, mas é o décimo filho e ainda não há qualquer sinal do trabalho de parto. Vão ser uns dias longos por aqui... A menina do abcesso dentário e celulite da face vai começar o antibiótico e o menino desnutrido está ao colo do cozinheiro do hospital, o Sr. Manuel, que já lhe começou a preparar as soluções de recuperação nutricional, feitas segundo os preceitos da Organização Mundial de Saúde, com um toque da alta cozinha Iapalense, “uns pozinhos do Sr. Manuel”, como o próprio faz questão de dizer.

Foi um dia rápido! Rápido demais, talvez, para digerir tudo quanto vi... Ontem não podia mesmo imaginar que viria a ter mesmo um curso relâmpago de inculturação no primeiro dia. Só espero terminar a minha estadia compreendendo um pouco melhor este povo. A Irmã Lurdes move-se no meio deles como peixe na água, tenho isso a meu favor, pelo menos...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

[welcome to mozambique] a doença a céu aberto

(Continuação do post de ontem, como prometido. Está aqui mesmo coladinho abaixo, mas o link vai na mesma.)


Chegamos por fim a casa do menino, após uma caminhada que deve ter demorado uns bons 15 minutos quase a correr. A família está reunida cá fora sob o alpendre da casa, fitando o menino com um ar consternado, como se estivessem a velar um caixão. O menino deitado no chão, com a cabeça apoiada sobre os joelhos de um outro jovem está vivo! Consciente e orientado. Suspiro de alívio. Graças a Deus! Mas está a arder em febre. Deve ter tido uma crise convulsiva e depois entrado em coma durante alguns minutos e a família pensou que tinha morrido. Tem malária cerebral de certeza! Está prostradíssimo, suado e com a tonalidade acinzentada que só se vê nas doenças graves. Temos de o levar para o hospital o mais rápido possível, mas sabe Deus se lá conseguirá chegar vivo... Começo a observar o menino, que no mesmo instante começa a fazer movimentos periódicos com os olhos. Vai convulsivar novamente.
– Vamos deitá-lo, que é melhor.

Durante minutos intermináveis o menino é sacudido por movimentos clónicos dos quatro membros, ante o choro manso da família.

– Temos de o levar para o hospital o mais rápido possível, senão morre de certeza! – digo à família, mas ninguém me parece ter compreendido. Peço ao senhor Rafael para me traduzir para macua, mas também ele permanece calado, como se nem tivesse prestado atenção. O que será que se passa? Por que é que de repente ficou tudo em câmara lenta? Por que é que ninguém se move, ninguém fala, ninguém faz nada para salvar este menino?

– O que é que se passa, Irmã, não vamos?
– Espera um pouco, não te impacientes, o pai e a mãe estão a decidir se levam ou não o menino para o hospital.
(Terei ouvido bem?)
– A decidir se o levam ou não?! Mas não sabem que o menino vai morrer de certeza se não o levarem?
– Tem calma, esta cultura é muito especial, há valores que se sobrepõem a todos os outros. Se por acaso acontece o menino morrer longe daqui, a sua alma nunca mais vai encontrar o caminho de volta, nunca poderá ser feliz na outra vida e a família vai sentir-se responsável por isso.

O menino começa novamente a convulsivar e ajoelho-me para o amparar enquanto a família se coloca de pé em redor, com uma face solene.
– Estão a dizer que os antepassados tomaram conta do menino, já estão no corpo dele. Para eles é como se já estivesse morto...

De facto, que outra interpretação é que uma cultura que nunca teve contacto com a ciência, poderia dar a uma convulsão? Se calhar foi por isso que disseram há pouco que ele tinha morrido, quando era óbvio que ainda estava vivo. Mas assim não vai haver maneira de convencer a família de que o menino ainda pode sobreviver... A Irmã continua a tentar. Fala calmamente com os pais, expondo os seus argumentos, ajudada pelo Sr. Rafael. Diz que podemos tratar a doença do menino e, se ele sobreviver, os antepassados não vão entrar no corpo dele.

Eu estou completamente fora de mim, estamos a perder um tempo precioso, já podíamos estar a chegar ao carro e o menino está com convulsões quase de cinco em cinco minutos. Os pais, por fim, dão sinal de anuimento e a mãe desaparece dentro de casa, para colocar roupa, comida e uma panela dentro de um cesto para irem para o hospital.

– Então, vamos?
– Ainda não, foram chamar o tio.
– Como?! Chamar o tio para quê, se os pais já concordaram? Agora é preciso ir chamar a família toda?!
– Fala mais baixo, que eles podem compreender-te! Entre os macuas quem tem direito e exerce o poder paternal sobre as crianças não é o pai, mas o irmão mais velho da mãe. O pai pode dar a sua opinião, mas quem tem efectivamente o poder de decisão é o tio, e isso é incontornável.

Subitamente recordo que alguém me tinha dito antes de vir que a sociedade macua era matrilinear, mas nunca me tinha dado ao trabalho de interiorizar e operacionalizar essa informação... Nem me tinha passado pela cabeça que nunca conseguiria exercer Medicina sem conhecer a estrutura e o funcionamento da sociedade. São tantas as coisas que damos como adquiridas quando nos movemos em terreno conhecido... Os próprios macuas têm um provérbio que diz: Quando chegamos ao mar, as leis do rio já não servem...

Mais uma convulsão. A situação é crítica, mas temos de tentar mantê-lo vivo até chegarmos ao hospital. Só então começo a raciocinar em termos médicos, vamos arrefecê-lo, dar-lhe paracetamol e cloroquina. Nada disto vai resolver o problema, mas pode ser que o ajude a não piorar. Outra causa tratável de convulsão é a hipoglicémia, que é muito frequente na malária maligna.
– Vamos dar-lhe água com açúcar.
A família olha-me, consternada:
– Não temos açúcar, Irmã...

Meu Deus, como é possível uma pobreza a este ponto? O que é que eu estou aqui a fazer, no meio de uma cultura que não conheço e não compreendo e ainda por cima com a fantasia de que consigo tratar alguém sem meios nenhuns... Procuro na carteira, esperançada de encontrar algum pacote esquecido de um café de Lisboa e, de facto, lá encontro alguns pacotes de açúcar Delta®, que coloco num copo de água que me trazem.
– Como se chama o menino? – aproveito para perguntar.

Levítico é o nome. O tio chega, finalmente, espavorido e com lágrimas nos olhos, estava na machamba, um pouco longe dali. Ficou contente com a proposta de levar o menino para o hospital e deu o seu acordo de imediato.

(Bem, já se percebeu que a história ainda não terminou... Mas continua.)