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quinta-feira, 22 de junho de 2017

[welcome to mozambique] a seleção de esperanças!


"Os meninos das Irmãs" - Escolinha da Santa Cruz, Nampula
Não sei quais deles são meus filhados, possivelmente nenhum, porque só tenho rapazes e veem-se sobretudo meninas a dançar, mas sei que são felizes e lhes é permitido ser criança!
(Moçambique)

No mês da criança, no dia em que é divulgado o relatório da OCDE em que se faz a revelação bombástica de que "uma melhor educação na primeira infância aumenta as hipóteses das crianças desenvolverem todo o seu potencial, ao mesmo tempo que reduz as desigualdades sociais e é a principal determinante da mobilidade social" (como se ninguém o soubesse há anos), as irmãs de São João Baptista postaram este vídeo delicioso! Podia ser qualquer jardim de infância de qualquer país do mundo, mas fica num dos bairros mais pobres de Nampula e se vos disser que há anos que fazem coisas tão extraordinárias e defendem a infância com unhas e dentes podem crer que é verdade!

Coisas extraordinárias como combater o tráfico e rapto de crianças. Sabem como? Chamam o senhor da conservatória de 6 em 6 meses à escolinha e registam cada uma das crianças que nasce no bairro! Desde que o fazem nunca mais houve um único rapto de crianças, que era um flagelo que assolava toda a província! Desapareceram os raptores. Foram para a Tanzânia, diz-se. Mas nunca mais! Podem rir-se. É um ovo de Colombo, é certo, mas como todos os ovos postos por esse senhor, absolutamente genial.

Na escolinha asseguram que todas as crianças aprendem a falar Português e se familiarizam com livros, letras e números antes de iniciar o primeiro ciclo. Porque nenhuma criança consegue aprender a ler numa língua estrangeira (e em Nampula, nas casa de família, fala-se Macua). A biblioteca das irmãs, por pobre que seja, tem um movimento de 400 pessoas diariamente! É uma ilha, um oásis! E o número de crianças que consegue aprender efetivamente a ler é incomensuravelmente superior aos meninos de outras escolas.

Proporcionam a alimentação, vestuário e material escolar a cada uma das crianças. Por escassa que seja a alimentação, todas as crianças (e asseguro-vos que as observei a todas, uma por uma!) estavam dentro das curvas de crescimento da OMS.

Quanto gastam as irmãs com cada uma das crianças? Com cada um dos nossos afilhados? Preparem-se: 70 euros por ano! Em roupa, alimentação, educação e material escolar. E acima de tudo, as crianças têm sempre um sorriso! Digo-vos, que só quem lá esteve sabe a força que um sorriso pode ter.

É isto. A vida é simples. Os 70 euros por ano que gasto com os meus afilhados valem cada cêntimo! Tenham um bom dia!

(Se me perguntarem: Beijo-de-mulata, alguma coisa te custa, nisto de ser mãe? Eu respondo que há uma coisa. É não poder tão cedo voltar a Moçambique... A saudade aperta tantas vezes... Mas não se aflijam que sou feliz do lado de cá!)

domingo, 4 de junho de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #6


(Continuando a história da longa caminhada que me levou o baby-de-mulata para casa... É desta que chegamos ao fim! Obrigada por me terem acompanhado neste relato. Para que se veja, portanto, que a adoção é um mundo maravilhoso e não é porque alguns com menos fé desistem que devemos deixar de acreditar.)

De uma forma ou de outra, no jardim de infância ou no hospital, lá tinha conseguido voltar a visitar o meu amor pequenino no meio daquele calor tórrido que é a planície a 150 km de Lisboa. Continuavam as minhas angústias, os dias maus em que ele só abria e fechava janelas e portas, mas lentamente ia conseguindo atingir alguns marcos do desenvolvimento. Já fazia carga nos membros inferiores (tentava alegremente ignorar que ele já tinha 15 meses e esse é um marco dos 6 meses, mas adiante), por vezes tolerava a posição de gatinhar, já o conseguia frustrar sem que se retirasse de todo e voltasse a alhear-se completamente. Eu via que ele estava a evoluir. Lentamente, mas estava!

Do outro lado da maré, tinha ainda de remar com a equipa de adoções da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. As entrevistas já tinham terminado. Seguiram-se os testes psicológicos, os testes de personalidade e um "teste de memórias de infância" que achei delicioso. A sério que achei o teste genial! É que o princípio da parentalidade é muito simples: ninguém, em princípio, consegue dar o que não teve. A forma como somos pais espelha muito os pais que tivemos e a forma como fomos tratados em criança. O teste de "memórias de infância" faz-nos reviver e tornar conscientes da forma como os nossos pais nos viam. Se nos valorizavam, se nos encorajavam quando não conseguíamos fazer algo, se nos elogiavam em frente a estranhos ou, se pelo contrário, faziam queixas ou nos humilhavam. É bom ver como se preocupam com questões deste tipo e depois nos põem à prova com casos práticos plausíveis, para ver como nos desenvencilhamos de uma situação grave com um hipotético filho.

Faltavam ainda muitos passos a dar. Cheguei à parte das formações obrigatórias. As tais formações B e C, que duram meses. Importantíssimas, não duvido, mas que não ocorreriam naquele mês e que iriam atrasar todo o processo. Fiquei desesperada! Tanta correria e agora ficava tudo parado por causa de duas formações? Mas corria o ano de 2012. Lembram-se? Eu reavivo a vossa memória, se me permitirem. Rebentara o escândalo porque Miguel Relvas, o então Ministro dos Assuntos Parlamentares, tinha uma licenciatura de cujo plano curricular, com 36 cadeiras, tinha tido equivalência a 32! Foi então que em conversa com uma amiga ela me perguntou o que iria eu aprender nessas formações que não soubesse já e nos veio, num rasgo de loucura, a ideia peregrina! Pois com certeza que pediria também "equivalência"! Não foi bem assim que falei com a equipa que me acompanhava, claro, mas perguntei com bons modos se achavam indispensável a formação ou se a poderia até fazer depois. Disseram-me que então ficaria pendente, dada a urgência do caso e que se eu sentisse necessidade poderia sempre requerer a formação depois. (Mais um passo dado! Mas a "ideia brilhante" por associação com o Ministro Relvas ficou para a história da família!).

Chegámos, por fim, à parte das entrevistas com a família alargada. Sendo eu solteira, tinha de provar que tinha uma aldeia inteira para me socorrer e ajudar a criar o baby que ali vinha. Já era agosto, mas a equipa, incansável e maravilhosa, fez questão de só ir de férias quando o processo estivesse terminado e com parecer dado. Eu não esperava tanto. Os meus pais estavam de férias a centenas de quilómetros quando percebi que afinal lhes ia ter de pedir para virem. A psicóloga ainda disse que poderia entrevistar os meus irmãos, mas os meus pais fizeram questão de vir. Sabiam bem que seriam a pièce de resistance! E, de facto, depois da entrevista com eles, senti que se tinham dissipado todas as nuvens. O parecer iria ser positivo. Estava tudo encaminhado! E, sete dias depois, já em casa vinda do hospital, tive um pressentimento. Voltei a descer as escadas e no correio lá estava a carta da Santa Casa dirigida à minha pessoa, certificando que Beijo-de-Mulata estava apta a adotar uma criança!!! Finalmente o "teste de gravidez" vinha positivo! É difícil descrever esse momento...

Depois da histeria total que partilhei com as melhores amigas, telefonei à diretora do centro de acolhimento. Iria ter autorização para ir visitar o menino? Claro, respondeu-me! E até poderia levá-lo a passear!

Foi uma delícia voltar a entrar naquela casa! De manhã fui comprar uma cadeirinha para o carro e levei o meu irmão e a minha cunhada a conhecer o sobrinho e afilhado. Foi um passeio lindo e ao fim do dia ainda me deixaram dar-lhe banho. Acreditem que foi um momento mágico que fez toda a diferença para mim!

Estava eufórica! Os 20 dias seguintes demoraram séculos a passar. Tive de esperar que a equipa de adoções local regressasse de férias para pegarem no processo. Imagino o que sentem os pais que esperam anos. Às tantas já estava desesperada, com a agravante de ter de deixar todas as noites o menino a chorar quando me vinha embora. Chorava ele e chorava eu depois em casa... E a outra agravante que era estar a terminar o internato e não conseguir prever se me apresentaria a exame ou não, dado que o prazo era dentro de dias. A psicóloga da Santa Casa era um amor. Aturou-me nesses dias todos. "Tenha calma, se ele fica a chorar é porque se está a vincular. É bom sinal, o seu dia vai chegar. Decida a sua vida profissional sem entraves, tudo o que decidir está bem decidido."

E foi assim, com muita impaciência, que chegou finalmente o dia em que o baby-de-mulata veio para minha casa e se tornou meu filho do coração! Já passaram quase cinco anos desde que a minha vida deu uma volta e o meu coração se encheu de gargalhadas, canções infantis e palhaçadas! E de ralhetes e recados e alegrias pelas pequenas e grandes conquistas. Foi há quase cinco anos que me levantei da cama com a confiança de que iria ao centro de acolhimento onde ele estava para me vir embora com o colo cheio, a cadeirinha de trás ocupada e a alma a transbordar. A minha mãe fez questão de vir comigo apesar de nesse dia estar doente.

Foi também nesse dia que passei a acreditar em milagres no desenvolvimento das crianças. O meu baby, que tinha o diagnóstico de "autismo", quando me viu chegar, radiante de alegria, pela primeira vez olhou-me diretamente nos olhos e estendeu-me os braços para que lhe pegasse! Eu nem queria acreditar! O resto da reunião com a equipa de adoções foi todo com ele ao meu colo. As senhoras ficaram encantadas com o que estavam a ver.

Mas o melhor estava para vir. Tenho isto para vos dizer desde que comecei, em agosto do ano passado, a contar a história desta caminhada. E só por isso a tenho vindo a contar, sem desistir de a escrever. É porque queria partilhar convosco o momento de pura magia que se seguiu. Parece patetice, mas só me ocorreria o canto de Simeão, depois de ver Jesus no templo, para descrever o que senti nesse momento: "Já vivi para ver isto! Já tive toda a alegria que se pode ter na vida. Já posso, a partir de agora, ir em paz."

Depois de uma viagem de 150 km, chegámos a casa. Ele ia assustado. Tenso. Durante o caminho adormecera com as mãos cerradas. Já me conhecia, mas mais uma vez sentia que estava a mudar de vida, que algo de irreversível estava a acontecer e ainda não sabia se era bom ou mau...

Chegámos a casa, peguei-lhe ao colo e fui apresentar-lhe o espaço. Mostrei-lhe o sítio das coisas por analogia com o centro de acolhimento. O que imaginava que viriam a ser os seus locais preferidos. O sítio das Bolachas Maria, a casa de banho com uma banheira enorme e alegre (acho que fiquei aprovada quando ele viu a banheira!), o quarto dele, o quarto das brincadeiras onde já tinha colocado alguns brinquedos iguais ao que ele tinha no centro de acolhimento. Reconheceu-os e sorriu. Pela primeira vez olhava exatamente para onde eu apontava. Sem esforço nenhum da minha parte. Sem precisar de lhe captar a atenção e exagerar os gestos. Parecia que compreendia tudo e deixava que lhe falasse. E foi então que fomos para a sala ver o álbum de fotografias de família que tinha preparado. Mostrei-lhe os tios, os avós, os primos e o milagre aconteceu: a dada altura reconheceu-me numa fotografia. Fez-me parar de desfolhar o álbum. Pegou nele com as suas mãozinhas, deu um beijo na minha fotografia e depois olhou para mim e sorriu-me. Olhos nos olhos! "Sim, sou eu, eu sou a tua mãe!", disse-lhe. E, pela primeira vez, encostou-se no meu peito. Foi nesse momento que me nasceu um filho! Nascemos um para o outro.

Um mês depois, com 17 meses, o baby já gatinhava, dava os primeiros passos e eu assistia a uma explosão de linguagem com palavras novas de dia para dia. Compreendia tudo e conhecia toda a gente da família. Dois meses depois fomos a uma consulta de desenvolvimento e o teste mais exigente para esta idade (Escala de Griffiths) era normal. Inteiramente normal. Pontuou 100 em 100! E claro, o melhor está sempre para vir!

Já vi muitos milagres na minha vida. Já me aconteceram vários. Sei sempre que tenho de me esforçar para os aceitar, porque não é imediato sentir que os mereço. Mas depois sinto que tenho de fazer alguma coisa com eles. Por causa deles. Foi por causa do primeiro que me tornei pediatra. Foi por causa deste que decidi que me iria dedicar ao desenvolvimento. Porque é preciso agradecer todos os dias!

domingo, 19 de março de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #3

(continuando a minha história de amor...)

Imagem obviamente da web...

Dias depois da saga na Santa Casa voltei ao centro de acolhimento temporário. O menino já tinha começado a frequentar o jardim de infância, mas nem por isso estava mais integrado, mais aberto a comunicar ou a confiar nas pessoas que o rodeavam... Já era mais fácil de cuidar, mas as preocupações continuavam as mesmas: não olhava nos olhos, não comunicava de forma nenhuma, não se interessava por brinquedos nem fazia qualquer esforço para os alcançar, parecia absorto no seu mundo, abria e fechava portas e janelas sempre que tinha oportunidade de as alcançar. Dessa vez e das vezes seguintes a cena da primeira visita repetia-se, deixando-me cada vez mais preocupada e triste.

Eu tinha estado a pensar e, já que o menino abria e fechava portas compulsivamente, talvez se interessasse por outro tipo de movimentos no ar, como o das bolas de sabão e dos balões, que quando os soltamos fazem movimentos irreverentes e imprevisíveis. Levava bolas, balões, brinquedos com luzes e música. Tudo para ver se o interessava noutra coisa que não a malfadada janela daquela sala de visitas. Mas eram frações de segundos... Tudo era demasiado intenso, demasiada informação, demasiado assustador. O calor era imenso, o que o deixava irritado, transpirado e a mim exausta. Afastava-se de mim ostensivamente, pesando-me cada vez mais no colo, por vezes aceitava água no biberão, mas não me deixava dar-lhe, tirava-mo da mão para beber sozinho. De todas as vezes fiz de tudo para captar a sua atenção, mas nada. Nem cantando, nem ficando calada, nem apontando para os carros que passavam na rua, nem fingindo que íamos cair...

Até que certa vez tenho ideia de ter começado a escurecer. Não sei bem como, se era julho e eu só tinha duas horas de visita (mais porque as funcionárias amorosamente fechavam os olhos), mas não eram horas de anoitecer, disso tenho a certeza... talvez uma nuvem tivesse tapado o sol, não me lembro. Sei que começou a escurecer. Eu já estava exaurida e ele cheio de sono, quando lhe peguei na mão e acendi a luz com os seus dedos moles e sem vontade... mostrei-lhe com entusiasmo que tinha sido ele a acender a luz, saltei e festejei aquele "feito". Miraculosamente, aqueles saltos e festejos tiveram o condão de o fazer sorrir pela primeira vez. Apaguei a luz com a mão dele. Mostrei-lhe que a luz se tinha apagado e depois acendemo-la novamente. O menino saltou-me no colo de imediato, como quem diz: "Então, salta, como fizeste há pouco!". Saltei novamente e ele sorriu de novo, agora numa gargalhada. Eu estava estupefacta! Como era possível um milagre destes, tão gratuito e tão simples? Ah... a força que um sorriso pode ter!

Então, mas... bastava saltar para o fazer rir?! Mas não tinha muito mais tempo, estavam quase a vir buscar o menino... continuei a abrir e a fechar a luz e a saltar com ele ao colo até que parei de propósito. Olhei para ele e, por um instante, cruzou os olhos com os meus. Pegou-me na mão e acedeu com ela o interruptor... Pela primeira vez parecia estar a dar conta da minha presença, a "instrumentalizar-me" eu sei, mas pelo menos a manifestar uma vontade... Pela primeira vez senti que afinal não era louca em ter esperança e em ignorar os cochichos das funcionárias: "Mas ela é médica, ela deve perceber que ele não é normal. Deve saber o que está a fazer e o que quer levar para casa..."

(Continua, pois, que não acabou mesmo!)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

[vozes brancas] o infinito...

Pergunta-me o baby-de-mulata, acabado de acordar, espreguiçando-se com um ar muito pensativo, enquanto recebia a minha massagem de acordar (a massagem-de-pôr-o-bacalhau-no-esqueleto, como a minha mãe lhe chamava):
- Mãe, o que há para além do universo?

(Ai, valha-me Santo Ambrósio, agora o que é que eu respondo um caramelo a quem a modorra da manhã dá para filosofar? Logo eu que de manhã nunca tenho nada de poético para dizer... Quando era mai nova também me interrogava sobre a origem do universo e os seu caráter infinito, agora interrogo-me mais sobre o que poderá ser o jantar e se a roupa estará enxuta para a Dona Teresa passar a ferro...)

- Para além do universo? Hum... Bem... só se for o céu do Jesus...
- Então, mamã, eu gosto de ti até ao céu do Jesus... e voltar!

(Caí em mim... sou a mãe mais feliz do mundo!)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

[reduzir, reutilizar, reciclar] exercícios ecológicos

Ontem, o baby-de-mulata mais uma vez foi comigo e com Mr. Shaka, seu papá, ao ecoponto mais próximo levar o lixo reciclável. Para ele, tudo o que envolva sair de casa e ajudar os seus papás a fazer coisas de crescidos é um programão! E, claro, é sempre uma atividade pedagógica que promove o conhecimento dos materiais de utilização corrente  ("isto é papel, isto é vidro, isto é plástico"). E a minha convicção pessoal é que em matéria de ambiente, educação para a cidadania e resíduos sólidos urbanos nunca é cedo demais para começar!


E lá íamos nós:
- E como se chama um caixote do lixo para colocar... vidro?
- É um vidrão.
- Que lindo, baby, tu sabes muitas coisas! E um caixote do lixo para pôr papel?
- É um papelão.
- E um caixote do lixo para pôr embalagens?
- É um embalão.


E foi então que a coisa começou a descambar...
- E um caixote do lixo para pôr colchas?
- ... É um colchão! [Um sorriso e depois uma gargalhada de quem percebeu o trocadilho...]


- E um caixote do lixo para pôr... trambolhos?
- É um t'ambolhão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr... Carrilhos?
- É um carrilhão!


- E um caixote do lixo para pôr... túbaros?
- É um tubarão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr caixas?
- É um caixão!


- E um caixote do lixo para pôr... calças?
- É um calção!


- E um caixote do lixo para pôr boias?
- É um boião!


- E um caixote do lixo para pôr... diversos?
- É uma diversão! - ...um ar confuso... - Pois é, mãe?


- Sim, meu amor! E um caixote do lixo para pôr confusos?
- É uma confusão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr fogos?
- É um fogão!


- E um caixote do lixo para pôr... solteiras?
- É um solteirão! [Esta ele não percebeu, mas pode ser que se vá entranhando...]


O baby ria, nós desfazíamo-nos à gargalhada com ele, e eu fiquei mesmo feliz porque o meu menino já consegue manipular sílabas, derivar palavras e ainda por cima tem sentido de humor e consciência fonológica. Mais um passo para o conhecimento metalinguístico e preparar a leitura e escrita. Também para isso nunca é cedo demais...

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

[a força que um sorriso pode ter!] viver a diferença...

 
Peyton McCubbin é uma menina com esquizocefalia (uma doença semelhante à paralisia cerebral), a quem os pais todos os anos, constroem fantasias impressionantes em torno da sua cadeira de rodas para a festa do Halloween... este ano a menina desfilou como princesa Leia na sua nave espacial, acompanhada pelo seu orgulhoso irmão, "Luke". Amar um filho com todas as suas diferenças e limitações é isto. Agradecer porque há meninos que nos unem também! Daqui.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

[welcome to my hospital] deliciosa farda!


 
A enfermeira Catarina é o máximo! Bem disposta, sempre sorridente, cool para os adolescentes e com uma paciência de Job para os pré-adolescentes, motiva, brinca, faz palhaçadas. E ostenta com orgulho as obras de arte dos seus doentes crónicos inscritas na bata! Deliciosa! Não liguem ao que ela tem na mão direita. Com um bocadinho de insistência, os meninos convencem-na a deixar...
(Hospital Dona Estefânia, Lisboa)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

[vozes brancas] el hospital del pajarito


 
Delicioso! Absolutamente delicioso e encantador! Fez-me lembrar o deslumbramento dos primeiros meninos que me trouxeram os seus bonecos para eu os tratar, a cara de espanto quando o Rx revelava um diagnóstico certeiro e o divertimento deles a ajudar-me a pôr um penso ou uma ligadura no Hospital da Bonecada. Mas isto, senhores, isto é em bom!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

[ser criança em moçambique] brincando ao faz de conta...


 
Na escolinha das Irmãs de São João Batista, em Nampula, onde estão os meus "afilhados à distância", que só conheço por fotografia... As Irmãs lutam todo o ano para lhes dar roupa, bibes, comida, assistência médica e educação. Para que a vida destas crianças seja simples e o desenvolvimento se faça dentro da família, mas longe do trabalho, da exploração e dos maus tratos, num ambiente acolhedor e intelectualmente estimulante! Tudo a que todas as crianças deveriam ter direito!
(Bairro de Muahivire, Nampula)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

[a força que um sorriso pode ter!] nariz vermelho



 
Os doutores-palhaços da Operação Nariz Vermelho
 

Não sei se já vos falei deles. Andam pelos hospitais pediátricos portugueses, metem-se com os meninos, arrancam sorrisos mesmo a quem embirra com eles. Sobretudo a esses, aliás. Eu, confesso, não lhes ligava muito quando comecei as minhas andanças na pediatria. Não esperava que me ligassem de todo. Não me via como um alvo a ser atingido por eles. Achava a iniciativa genial, mas era para os meninos, eu tinha outro papel, não padecia de nenhum mal tratável por eles...

Talvez por isso, começaram a perseguir-me. Entravam no serviço, olhavam para mim e eu dizia, muito profissional: "Hoje no quarto 1 temos a Luísa, que está em jejum para ir ao bloco operatório, deve agradecer muito a vossa ajuda para se distrair e o João do quarto 3 passou a noite sem a mãe, está um pouco triste... Todos os outros vocês já conhecem. A Teresinha é que continua em isolamento." Mas eles depois nunca me deixavam sair da sala. Atravancavam-me a saída, caiam para cima uns dos outros, fugiam da minha caneta teimando que era uma pena de pavão, tentavam que o meu estetoscópio produzisse um esguicho de água (de vez em quando conseguiam!), isto até me arrancarem uma gargalhada que se ouvisse no corredor. Eu achava um desperdício perderem tempo comigo. Mas nos dias em que o circo subia à enfermaria, eu ia sempre com um sorriso diferente ver os meninos... Agora já não trabalho no internamento. A última vez que os vi, foi na secretaria da direção, estava eu a tratar da declaração de IRS e eles começaram a cantar-me: "Faça da sua declaração de IRS/ uma declaração de amooooor!!!" E eu dei a melhor gargalhada do dia! Hoje li uma história que só podia ser deles:
"O Francisco, um menino de cinco anos que esteve internado no Instituto Português de Oncologia. Quando o pai do Francisco soube que os doutores-palhaços vinham todas as terças-feiras ao hospital, ficou em pânico, porque o filho tinha muito medo de palhaços. 
Quando chegámos à porta do quarto do Francisco, o pai estava no corredor com a porta do quarto fechada para avisar que o seu filho tinha medo de palhaços. Ou seja: não havia hipóteses nenhumas de comunicarmos com o Francisco. Procurámos falar com o pai para nos deixar tentar uma aproximação ao Francisco mas ele olhou-nos determinado: “Não, não, não, por favor não entrem, ele não quer ver palhaços nem de longe.” 
Passaram umas duas semanas sem que o pai do Francisco nos desse uma oportunidade. Um dia eu voltei a tentar. Sugeri que ele pegasse num chinelo e dissesse ao filho: “olha, estão ali os chatos dos palhaços outra vez e eu vou dar-lhes com o chinelo no rabo”. O pai concordou e encenamos o combinado. Vimos abrir a porta e, pela primeira vez, conseguimos avistar o Francisco de longe. O pai pegou no chinelo e veio atrás de nós enquanto gritávamos no corredor: “está bem, não vamos ver o Francisco, vamos embora”. A nossa rotina no quarto do Francisco passou a ser esta. Todas as semanas o Francisco divertia-se a ver o pai expulsar-nos à chinelada. 
Fomo-nos aproximando cada vez mais da porta e passamos a abrir a porta para dizer: “só viemos buscar o nosso pontapé!” Levávamos o pontapé e seguíamos viagem.
O Francisco deixou o internamento e passou a frequentar o hospital de dia, local que também visitamos. A primeira vez que nos encontrámos com o Francisco na sala de espera, o pai implorou que não entrássemos, alegando que nem estavam muitas crianças no serviço. A aflição dele era tanta que lhe fizemos a vontade naquele dia. Obviamente não podíamos deixar de visitar as outras crianças só porque o Francisco estava presente.
Na semana seguinte, assim que o pai viu que tínhamos chegado à sala de espera, pegou no filho e escondeu-o atrás de um armário!!! Eu aproximei-me lentamente e comecei a dizer: “Eu quero um pontapé do Francisco!... Só saio daqui com um pontapé do Francisco!” O Francisco saiu cauteloso de trás do armário e, sorrindo, deu-me um pontapé. Depois deu outro, e mais outro, entrando no jogo e rindo. Nesse dia, perdeu o medo dos Palhaços.
Semanas mais tarde, o pai do Francisco veio receber-nos à porta do serviço com um sorriso de ansiedade no rosto. Expectante dirigiu-se a nós: “Vocês hoje vão visitar os quartos?”. Dissemos que sim. O pai fez-nos prometer que visitaríamos o Francisco.
Quando chegámos ao quarto, batemos com delicadeza. A porta abriu-se e vimos o Francisco, sentado na cama a olhar para nós, com um nariz de palhaço!"

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

[refrões de uma vida] a força que um sorriso pode ter!

 
A irmãzinha bebé de um dos meus afilhados de Nampula foi fazer a sua primeira visita à escolinha ao fim da tarde, para ir buscar o irmão.
(Escolinha da Santa Cruz, Nampula)

terça-feira, 2 de julho de 2013

[filhos do coração] coisas para pensar...


Tenho várias amigas que ponderam atualmente adotar uma criança. Cada uma por razões diferentes...

Ou porque são solteiras, ou porque têm doenças graves cujos tratamentos as tornaram estéreis, ou porque apesar de cinquenta mil tentativas (estimulação da ovulação, inseminação artificial, cirurgias de todos os tipos, várias FIV, e o diabo a quatro, ou-o-diabo-a-sete-que-um-diabo-nunca-vem-só-valha-nos-Nossa-Senhora-do-Ó-acreditem-em-mim-que-sou-versada-em-diabologia,-ou-em-diabetologia,-que-na-gíria-do-nosso-povo-é-exatamente-a-mesma-coisa-e-para-o-caso-até-me-dá-imenso-jeito), ainda não conseguiram engravidar, ou porque tiveram um primeiro filho com problemas graves e não se querem arriscar a repetir o gene que nunca se chegou a identificar, ou porque viveram uma gravidez anterior complicadíssima e não ficaram arrebatadas com a experiência de quase-morte, não lhes apetece escrever um livro sobre isso e, de facto, também não estão para se arriscar a patinar outra vez, que isto é como aquela história do Anaxágoras: se me enganas uma vez a culpa é tua, se me enganas duas vezes a culpa é minha!

Eu digo sempre que recomendo! Que é algo de maravilhoso de repente ter a oportunidade de acompanhar uma criança, recebê-la na família e vê-la crescer numa explosão de desenvolvimento, como são os primeiros meses numa casa com uma família que acolhe, estimula, aplaude e fica feliz com todas as conquistas...

Mas depois há quem diga que as motivações das minhas amigas e das pessoas que querem adotar em geral, não servem o superior interesse das crianças. Que o objetivo primordial das pessoas que querem adotar é satisfazer o desejo egoísta de ter um filho e não de dar uma família a uma criança que foi abandonada ou retirada a uns pais que a maltratavam ou negligenciavam. Que todo o processo de adoções está errado porque deveria ser concebido para encontrar uma família para cada criança que dela necessite e não "arranjar bebés" para pessoas que não podem conceber...

Não sei sequer se me deveria debruçar sobre esta questão. A vida para mim é simples demais para estarmos com estes senãos. O amor entre duas pessoas adultas é uma improbabilidade incrível. Já o amor entre os pais e os seus filhos é um milagre muito mais provável, quase garantido! O que é que interessa a motivação de uma pessoa, desde que esteja de boa-fé para aceitar a criança, seja ela como for? A relação perfeita pode não se estabelecer de imediato, claro, é preciso amadurecer o amor, deixá-lo vir devagarinho e saborear o processo. Sabemos que nem o processo, nem os pais nem as crianças são perfeitos. Mas é o processo que temos e é com as pessoas que existem nele que temos de funcionar!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

[vozes brancas*] dar e receber...


Ontem, a propósito de um dia muito importante que se avizinha, o diretor da minha ONG foi convidado para falar numa escola, a pedido dos alunos de uma turma do 3º ano. Eles estavam sobretudo interessados em saber como era a vida em África, que doenças tratávamos, como eram as escolas, as casas, os transportes, a internet... Em que consistiam os projetos.

Por fim, houve um que lhe perguntou como poderiam ajudar também e ele respondeu que poderiam ficar com um mealheiro da ONG e recolher pequenas contribuições de familiares, amigos e vizinhos. "Porque ninguém é tão pobre que não possa ajudar com a moeda mais pequenina."
- E ninguém é tão rico que não possa também receber - apressou-se a acrescentar a professora.

Nisto, o tal aluno, com pouco mais de 8 anos acrescentou, meio pensativo:
- Nem ninguém é tão feliz que não precise de dar alguma coisa...

Fiquei derretida e impressionada com a clarividência desta frase...

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

[olha, também há babyshower blogosférico por aqui] obrigada, bê!



"In the light of the moon, a little egg lay on a leaf."

Começa assim o maravilhoso clássico para crianças que a minha querida Maria Bê, exímia caçadora de escorpiões americanos, uma mulher que se lembra de todo o tipo de cenas e acha isso um defeito, mãe de duas crias maravilhosas, enviou do Arizona para o meu baby-de-mulata! Ele adorou! Baby M., o seu primo pseudo-gémeo também não desgrudou do livro o dia todo. Com toda a propriedade, diz Maria Bê que foi esse o primeiro livro da filha mais velha. Eu digo que foi com este livro que descobri que o baby-de-mulata sabe contar até cinco!

Desde então tenho-lhe cantado a música da borboleta para dormir:
 
Borboleta, borboleta
D'asa às cores e cara preta
Tu já foste uma lagarta
Verde e gorda, feia e farta...
 
Claro que ele, como futuro homem de barba rija que se preze, ao terceiro verso começa a gritar: "Não, não! O popó!" (Prefere a música do popó, humpf, como é possível?!) Mas é uma questão de tempo e de não perder o ritmo... Obrigada, Bê!

sábado, 27 de outubro de 2012

[sem palavras] embora venham por aí certamente umas quantas!

Ontem foi um dia tão rápido. Talvez rápido demais para o ter sentido passar por mim! Um dia cheio de milagres.

De manhã adoro ouvir o baby no quarto ao lado acordar, senti-lo dar-se conta uma vez mais de que tem um cãozinho na cabeceira e começar a palrar com ele, num discurso com muitos ão-ão-ãos e muitos pa-pa-pas, que só ele sabe o que quererão dizer... Depois conversa mais um pouco com o urso e só depois, para aí meia hora depois, é que me chama... (Sim, eu sei que isto é um discurso um bocado mete-nojo, mas ando mesmo babada e a achar que o baby é perfeito, pelo que peço desculpa aos pais cujos filhos acordam antes das seis da matina, retemperados por cinco horas de sono e fazem soar a sirene para que todos se apercebam do facto...)

Mas ontem quase nem tive tempo de o ficar a ouvir. Levantei-o assim que acordou porque havia que estar pronto a tempo. Era o dia em que íamos conhecer a Sónia Morais Santos, a blogger mais querida da blogosfera nacional, que me deixou boquiaberta há uns dias, ao me convidar para uma entrevista! E sim, é tão simpática ao vivo como parece no blogue! O baby colaborou e dormiu o tempo todo que durou a entrevista. Mesmo quando me tive de "disfarçar" de africana (num estilo afro-chic, que se não existia acabou de ser inventado) e sair para tirar fotos, ele continuou a dormir placidamente.

Eu não gosto de tirar fotos, não gosto de me expor, nunca gosto de me ver depois, e fico desconfortável, sobretudo ao pé de profissionais, mas já que tinha de ser, que agarrasse o toiro pelos cornos... E lá tentei fazer o meu melhor.

Mas o melhor ainda estava para vir... A sala do Colombo estava cheia de pessoas maravilhosas que me encheram o coração! Alguns amigos de sempre, muitos colegas e amigos que sempre admirei mas que, no caso de alguns, não via há séculos, outras pessoas que quase não tinha esperança que viessem... Estava o missionário a quem devo a minha primeira ida e o inicio da minha paixão por Moçambique, as amigas R. e F., que embarcaram comigo para Moçambique, nesta aventura que é viver com quase nada, os digníssimos representantes da APARF, sem os quais talvez não tivesse tido a coragem de ir tantas vezes... As pessoas da clínica fantástica onde trabalho, desde o segurança até aos recepcionistas, passando pela directora, os colegas da Estefânia... E, calculem, estavam também a Ursa Maior, o que me deixou incrédula (e, confirma-se, pode carregar as culpas de toda a humanidade no peito!), a São João, a Cocó na Fralda, a Zu e alguns leitores anónimos deste mato!

E a minha querida Helena Marujo, ja anteriormente linkada, teceu-me um elogio tão rasgado que provavelmente só vou receber um elogio maior no meu funeral... Milagres que eu um dia gostava de fazer por merecer...

Obrigada a todos!

sábado, 29 de setembro de 2012

[uma história de amor] e é quando o baby-de-mulata entra no blogue

Meus queridos amigos, tenho a dizer-vos que vamos ter de regressar do mato para Lisboa durante uns tempos. É que este blogue é capaz de se transformar num family blog dentro em breve...
Estive a pensar se haveria de vos falar do amor que me tem ocupado os dias e cheguei à conclusão que sim. Que tinha de ser. Porque neste momento não tenho outro assunto. Vocês sabem que eu sou aquela que fala, fala, fala, mas não fala sobre si própria. Conta muitas histórias, mas não conta história nenhuma de dentro de casa. Mas hoje, depois de ter conhecido tantas pessoas que gentilmente me vieram e continuam a vir visitar ao mato, depois de tantas pessoas me terem dito que sabem a razão pela qual não se deve passar por debaixo de um cajueiro se não se ouvirem passarinhos a cantar, acho que faz todo o sentido partilhar convosco a alegria que tive!
A história começa há quase dez anos. As pessoas que me conhecem bem sabem que em tempos tive um quase-filho. Um menino moçambicano que conheci na Casa do Gaiato e que veio para Portugal porque tinha um tumor no cérebro. Fui eu que tomei conta dele enquanto esteve em Portugal e foi até por causa dele que decidi ir para Pediatria, que antes nem sequer me tinha passado pela cabeça que pudesse ter algum jeito para crianças...

Depois de ele morrer, fiquei com uma tristeza enorme. Mas, durante todos estes anos, tive a convicção, um pouco nas traseiras da mente, de que me haveria de voltar a cair um filho nos braços... Acreditava que só tinha de olhar bem para todos os lados, para ver de onde é que ele podia vir, e agarrá-lo bem quando ele chegasse. Claro que tinha de ser um menino que mais ninguém quisesse. Há tanta gente a querer adotar, que não seria justo passar à frente de quem quer que fosse. Sempre imaginei que seria um menino africano... Mas, pronto, era um devaneio, não era nada em concreto, não era um plano estruturado.

Pois... E sabem aquela coisa do "amor à primeira vista", em que eu nunca acreditei? Aconteceu... Foi por alturas da Páscoa, no meu hospital, num banco trocado com outra colega, em que fui chamada a uma enfermaria onde quase nunca entro... O baby-de-mulata, na altura com 11 meses, estava na sala das enfermeiras, sentado numa cadeirinha a olhar para mim. Achei-o lindo! E era tão simpático, tão tranquilo ali sentado a olhar para quem passava, já na altura com um ar meio gozão...

Perguntei quem era e o que tinha, o que fazia ali. E disseram-me que era um menino que tinha sido abandonado pela mãe à nascença e que tinha tudo para ser adotado, mas que provavelmente nunca iria ter uma família que o quisesse porque tinha uma doença grave e já tinha tido mil complicações. Operado várias vezes, internado desde o dia em que nascera. Já tinha havido um casal, amigo dos pais de outra criança internada naquela enfermaria, que se mostrara interessado, mas ele entretanto tinha piorado novamente e o casal desistira. Que estava estável naquele momento e que estava para ir para uma instituição, mas não tinha vaga ainda...

Perguntei-lhe: "Queres ir lá para casa? Tens vaga lá em casa! E mais dois meninos para brincar." E foi então que me caiu o que tinha dito. O meu coração disparou... "Será que é este?" E o baby continuava a sorrir-me. [Ah, a força que um sorriso pode ter!]

Tentei afastar aquela ideia impossível da minha cabeça. Tentei não me lembrar daquele sorriso. Não era o timing certo. Ainda não tinha uma vida definida, o meu futuro profissional estava cada vez mais uma incógnita... solteira... Tudo contra, portanto...

Mas ele não me saía da cabeça. Como é que eu podia deixar assim um menino sozinho? Não era o meu menino africano, é certo, mas seria justo discriminar uma criança só porque era loira?, gracejava eu, de mim para comigo.

Perguntei à minha mãe o que ela achava e ela respondeu-me que eu é que sabia, que me apoiaria incondicionalmente na minha decisão. Que também achava que não era o timing, mas eu é que sabia... Perguntei à minha amiga de infância, mãe de dois filhos, sensata e meiga e que passou por um processo destes na primeira pessoa. E ela disse-me que ia ser uma experiência muito dura e demasiado exigente para uma pessoa só, que pensasse bem. E que amadurecesse a ideia. Disse-me ainda que isto não podia ser uma "ideia brilhante", tinha de ser um projeto de vida! E aquilo que se quer é que uma ideia brilhante para um projeto de vida continue a ser uma ideia brilhante para sempre.

Vacilei. Fiquei a mastigar a ideia. Demorei a decidir-me. Mas em Maio, na despedida de solteira de uma amiga minha, já não aguentava mais. No jantar, por coincidência, estava uma enfermeira que trabalhava na enfermaria onde ele estava internado e disse-lhe que andava a pensar em propor-me para adotar o baby-de-mulata.

Ela não me conhecia de lado nenhum, mas deu-me imensa força e foi ela que depois me deu os contactos do centro de acolhimento para onde ele foi e me disse o que fazer para ir até lá. Fui falar com a assistente social, que também me apoiou e explicou-me como é que podia dar início ao processo. Ainda demorei mais um bocado a decidir-me e fui várias vezes visitar o menino à instituição para onde acabou por ir. E então lá me decidi.

No final de Junho inscrevi-me na Santa Casa da Misericórdia para o adotar. Mil coisas para entregar, documentos, formações, entrevistas, questionários, um escrutínio da minha vida toda... Mas, felizmente (ou por milagre, já nem sei), elas perceberam rapidamente que o baby não ia mesmo ter mais ninguém e que era melhor apressarem o meu processo para ele não sofrer mais.

Meses depois recebi uma carta dizendo que tinha sido considerada apta como candidata à adoção do menino! Fiquei louca de alegria! O menino podia ter um atraso de desenvolvimento, um intestino que era um "molho de bróculos", outros problemas de várias ordens, mas era o meu menino! O meu baby-de-mulata entrava finalmente na minha história!

domingo, 9 de setembro de 2012

[a força que um sorriso pode ter!] a paciência...

 
Só quem tem paciência pode conceber uma criança bonita!
Provérbio africano.
Via Afritorial.

domingo, 2 de setembro de 2012

[hoje inventei uma palavra nova] sonhar...

 
Lançamos os balões, agarramo-nos ao sonho. Mas quem voa é sempre o vento!
(Variações de Mia Couto, Street art by Banksy)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

[a força que um sorriso pode ter!] alegria masaai

 
O olhar irresistível de uma criança masaai!
Via Afritorial.