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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

[vozes brancas] primeiras impressões da maternidade


Cateter venoso. Foto obviamente da net, que não me ocorreu fotografar o meu...


Já nasceu a mini-baby-de-mulata! Estamos bem e muito felizes! E perguntam vocês: "Beijo-de-mulata, como reagiu o baby ao ver a mãe internada na maternidade?"

Lindamente! Mr. Shaka e eu tínhamos combinado que o baby só subiria para ver a mana depois de esta devidamente colocada a dormir tranquilamente no leito e eu conseguisse estar levantada e deambulante. Aconteceu nas primeiras 24 horas, felizmente. Chegou ao meu quarto e fui recebê-lo à porta com um troféu de irmão mais velho nas mãos. Ficou radiante de receber a taça do melhor irmão do mundo! Mas logo em seguida reparou no meu cateter venoso na mão. Arregalou os olhos:

- Mãe, é assim que tu tratas dos doentes?
- Sim, às vezes tem de ser mesmo por aqui, filho.
- Isso é para água ou para medicamentos?
- Pode ser para água, mas geralmente é para medicamentos, querido.
- Mas... mas... que espetáculo! Mas esse canhão dispara mesmo medicamentos para os doentes daqui do hospital? Mostra, mãe, dispara lá!

(Ups... Não te rias, mantém a compostura, aguenta, aguenta!)

- Agora não é preciso, já disparei há pouco tempo, mas se alguém mais precisar eu mostro...

[Boys will be boys!]

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

[notícias do segundo andar] de quantas semanas estás, beijo-de-mulata?


Só nos resta andar muito e fazer compras...

Estou de "depois-de-nove-meses-de-repouso-acho-que-vamos-a-prolongamento-e-quem-sabe-a-penalties" semanas de gestação.

Eu no fundo sempre desconfiei que vinha lá uma mini-baby-de-mulata do cluster B. Das que ameaça e depois não faz. Das que põe tudo em polvorosa e depois assobia para o lado. Das que faz das suas pela calada e depois não foi nada com ela... Então aqui a inquilina do segundo andar ameaça rescindir contrato de alojamento temporário desde as primeiras semanas, re-pe-ti-da-men-te!, põe os pais em pânico e agora nada de dar um ar da sua graça? 

Enfim, podia ser pior, confesso. Adoro andar a pé e fazer compras, ainda consigo dormir a noite toda e subir escadas a correr. Há quem diga que o melhor dos concertos é sempre o encore. Estamos nessa! Obrigada, princesa, este "só mais uma" está a saber bem...

[Sim, não temos outro assunto. Está tudo bem por aí fora no mundo, não é verdade?]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

[instinto de ninho] afinal quem é a grávida aqui?!


Foto obviamente da net...

Há dias descobri que o instinto de ninho é contagioso... Isto já vem desde o princípio da gravidez, em que suspeitei que estava de esperanças porque Mr. Shaka e o baby-de-mulata tiveram desejos de comida exótica... Eu continuava na minha dieta habitual e nada! Mas como é um fenómeno que está descrito amplamente nos anais de obstetrícia, lá me dignei a fazer o teste e... o resto é história!

Agora na reta final, o meu instinto de ninho já acalmou depois de montar o berço, fazer o enxoval, instalar a cadeirinha, mandar lavar os cueiros, escolher a banheira e abastecer a despensa e só me apetece descansar e comer pouco. Já Mr. Shaka está ao rubro. Ontem era vê-lo a limpar os cantos inexploráveis do corredor. E o baby-de-mulata, de limpa-vidros e pano em punho, a limpar azulejos e janelas:

- Mãe, quando estiveres no hospital eu vou ficar aqui a limpar tudo para a mana não apanhar nenhuma bactéria!

Menino mai lindo de sua mãe... Mas está tudo grávido nesta casa?! E a menos grávida pelos vistos sou eu...

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

[atualidades] de quantas semanas estás, beijo-de-mulata?


Estou de "o-baby-de-mulata,-espantado-com-o-tamanho-da-minha-barriga,-perguntou-me-ontem:-mãe,-tens-aí-tanta-água-será-que-a-mana-ainda-tem-pé?" semanas de gestação.

Go, mini-baby-de-mulata! A manter-se à tona desde 2017!

(Sim, é verdade, voltámos! Fizemos uma tentativa de migração para o Sapo porque fazia sentido, dado estarmos inchadíssimas, mas não nos entendemos com aquilo, por isso cá estamos...)

terça-feira, 6 de junho de 2017

[vozes brancas*] memórias de infância



Ainda a propósito da notícia do Público que deixou metade do país indignada, onde era referido que 43 crianças tinham sido "devolvidas" durante o período de pré-adoção no ano passado, houve quem tivesse comentado qualquer coisa como: "Pelo menos a maioria eram bebés. Ao menos não se vão lembrar de nada."

Não sei que formação têm as pessoas que verbalizaram coisas deste calibre... Com boa intenção, claro, não duvido, quase que para se consolarem e defenderem da catástrofe emocional que é saber que uma criança foi abandonada segunda vez. Mas a noção de que as experiências dos primeiros anos de vida são incrivelmente importantes e ficam gravadas a fogo na memória e no inconsciente tem mais de 100 anos e é irrefutável! Não por ser freudiana, mas por ser verdadeira.

Posso até provar-vos: O baby-de-mulata tinha 16 meses no dia em que chegou a casa e lhe nasceu uma mãe (para mim ele já tinha nascido antes, mas acho que nos adotamos verdadeiramente um ao outro nesse dia). Contei-vos a história há poucos dias. Pois que há quase dois anos, um dia, depois de um passeio no jardim chegamos a casa e ele disse-me:
- Mamã, pega-me ao colo...

E já no meu colo:
- Mãe, agora a fingir que eu tinha chegado de muito longe e tu me ias mostrar a casa...

E ao meu colo, conseguiu reproduzir a sequência com que lhe mostrei a sua nova casa no momento em que chegamos. E mais, por fim quis ir para a sala, pegou num livro e pediu-me para lho ler. No mesmo local onde lhe mostrei o álbum de fotografias de família...

E eu, que sabia de tudo, quase não consegui deixar de me emocionar e de me espantar. Os bebés guardam memória dos dias importantes. Por mais que não lhes consigam atribuir um significado. Por isso não lhes podemos falhar tão redondamente!

domingo, 4 de junho de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #6


(Continuando a história da longa caminhada que me levou o baby-de-mulata para casa... É desta que chegamos ao fim! Obrigada por me terem acompanhado neste relato. Para que se veja, portanto, que a adoção é um mundo maravilhoso e não é porque alguns com menos fé desistem que devemos deixar de acreditar.)

De uma forma ou de outra, no jardim de infância ou no hospital, lá tinha conseguido voltar a visitar o meu amor pequenino no meio daquele calor tórrido que é a planície a 150 km de Lisboa. Continuavam as minhas angústias, os dias maus em que ele só abria e fechava janelas e portas, mas lentamente ia conseguindo atingir alguns marcos do desenvolvimento. Já fazia carga nos membros inferiores (tentava alegremente ignorar que ele já tinha 15 meses e esse é um marco dos 6 meses, mas adiante), por vezes tolerava a posição de gatinhar, já o conseguia frustrar sem que se retirasse de todo e voltasse a alhear-se completamente. Eu via que ele estava a evoluir. Lentamente, mas estava!

Do outro lado da maré, tinha ainda de remar com a equipa de adoções da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. As entrevistas já tinham terminado. Seguiram-se os testes psicológicos, os testes de personalidade e um "teste de memórias de infância" que achei delicioso. A sério que achei o teste genial! É que o princípio da parentalidade é muito simples: ninguém, em princípio, consegue dar o que não teve. A forma como somos pais espelha muito os pais que tivemos e a forma como fomos tratados em criança. O teste de "memórias de infância" faz-nos reviver e tornar conscientes da forma como os nossos pais nos viam. Se nos valorizavam, se nos encorajavam quando não conseguíamos fazer algo, se nos elogiavam em frente a estranhos ou, se pelo contrário, faziam queixas ou nos humilhavam. É bom ver como se preocupam com questões deste tipo e depois nos põem à prova com casos práticos plausíveis, para ver como nos desenvencilhamos de uma situação grave com um hipotético filho.

Faltavam ainda muitos passos a dar. Cheguei à parte das formações obrigatórias. As tais formações B e C, que duram meses. Importantíssimas, não duvido, mas que não ocorreriam naquele mês e que iriam atrasar todo o processo. Fiquei desesperada! Tanta correria e agora ficava tudo parado por causa de duas formações? Mas corria o ano de 2012. Lembram-se? Eu reavivo a vossa memória, se me permitirem. Rebentara o escândalo porque Miguel Relvas, o então Ministro dos Assuntos Parlamentares, tinha uma licenciatura de cujo plano curricular, com 36 cadeiras, tinha tido equivalência a 32! Foi então que em conversa com uma amiga ela me perguntou o que iria eu aprender nessas formações que não soubesse já e nos veio, num rasgo de loucura, a ideia peregrina! Pois com certeza que pediria também "equivalência"! Não foi bem assim que falei com a equipa que me acompanhava, claro, mas perguntei com bons modos se achavam indispensável a formação ou se a poderia até fazer depois. Disseram-me que então ficaria pendente, dada a urgência do caso e que se eu sentisse necessidade poderia sempre requerer a formação depois. (Mais um passo dado! Mas a "ideia brilhante" por associação com o Ministro Relvas ficou para a história da família!).

Chegámos, por fim, à parte das entrevistas com a família alargada. Sendo eu solteira, tinha de provar que tinha uma aldeia inteira para me socorrer e ajudar a criar o baby que ali vinha. Já era agosto, mas a equipa, incansável e maravilhosa, fez questão de só ir de férias quando o processo estivesse terminado e com parecer dado. Eu não esperava tanto. Os meus pais estavam de férias a centenas de quilómetros quando percebi que afinal lhes ia ter de pedir para virem. A psicóloga ainda disse que poderia entrevistar os meus irmãos, mas os meus pais fizeram questão de vir. Sabiam bem que seriam a pièce de resistance! E, de facto, depois da entrevista com eles, senti que se tinham dissipado todas as nuvens. O parecer iria ser positivo. Estava tudo encaminhado! E, sete dias depois, já em casa vinda do hospital, tive um pressentimento. Voltei a descer as escadas e no correio lá estava a carta da Santa Casa dirigida à minha pessoa, certificando que Beijo-de-Mulata estava apta a adotar uma criança!!! Finalmente o "teste de gravidez" vinha positivo! É difícil descrever esse momento...

Depois da histeria total que partilhei com as melhores amigas, telefonei à diretora do centro de acolhimento. Iria ter autorização para ir visitar o menino? Claro, respondeu-me! E até poderia levá-lo a passear!

Foi uma delícia voltar a entrar naquela casa! De manhã fui comprar uma cadeirinha para o carro e levei o meu irmão e a minha cunhada a conhecer o sobrinho e afilhado. Foi um passeio lindo e ao fim do dia ainda me deixaram dar-lhe banho. Acreditem que foi um momento mágico que fez toda a diferença para mim!

Estava eufórica! Os 20 dias seguintes demoraram séculos a passar. Tive de esperar que a equipa de adoções local regressasse de férias para pegarem no processo. Imagino o que sentem os pais que esperam anos. Às tantas já estava desesperada, com a agravante de ter de deixar todas as noites o menino a chorar quando me vinha embora. Chorava ele e chorava eu depois em casa... E a outra agravante que era estar a terminar o internato e não conseguir prever se me apresentaria a exame ou não, dado que o prazo era dentro de dias. A psicóloga da Santa Casa era um amor. Aturou-me nesses dias todos. "Tenha calma, se ele fica a chorar é porque se está a vincular. É bom sinal, o seu dia vai chegar. Decida a sua vida profissional sem entraves, tudo o que decidir está bem decidido."

E foi assim, com muita impaciência, que chegou finalmente o dia em que o baby-de-mulata veio para minha casa e se tornou meu filho do coração! Já passaram quase cinco anos desde que a minha vida deu uma volta e o meu coração se encheu de gargalhadas, canções infantis e palhaçadas! E de ralhetes e recados e alegrias pelas pequenas e grandes conquistas. Foi há quase cinco anos que me levantei da cama com a confiança de que iria ao centro de acolhimento onde ele estava para me vir embora com o colo cheio, a cadeirinha de trás ocupada e a alma a transbordar. A minha mãe fez questão de vir comigo apesar de nesse dia estar doente.

Foi também nesse dia que passei a acreditar em milagres no desenvolvimento das crianças. O meu baby, que tinha o diagnóstico de "autismo", quando me viu chegar, radiante de alegria, pela primeira vez olhou-me diretamente nos olhos e estendeu-me os braços para que lhe pegasse! Eu nem queria acreditar! O resto da reunião com a equipa de adoções foi todo com ele ao meu colo. As senhoras ficaram encantadas com o que estavam a ver.

Mas o melhor estava para vir. Tenho isto para vos dizer desde que comecei, em agosto do ano passado, a contar a história desta caminhada. E só por isso a tenho vindo a contar, sem desistir de a escrever. É porque queria partilhar convosco o momento de pura magia que se seguiu. Parece patetice, mas só me ocorreria o canto de Simeão, depois de ver Jesus no templo, para descrever o que senti nesse momento: "Já vivi para ver isto! Já tive toda a alegria que se pode ter na vida. Já posso, a partir de agora, ir em paz."

Depois de uma viagem de 150 km, chegámos a casa. Ele ia assustado. Tenso. Durante o caminho adormecera com as mãos cerradas. Já me conhecia, mas mais uma vez sentia que estava a mudar de vida, que algo de irreversível estava a acontecer e ainda não sabia se era bom ou mau...

Chegámos a casa, peguei-lhe ao colo e fui apresentar-lhe o espaço. Mostrei-lhe o sítio das coisas por analogia com o centro de acolhimento. O que imaginava que viriam a ser os seus locais preferidos. O sítio das Bolachas Maria, a casa de banho com uma banheira enorme e alegre (acho que fiquei aprovada quando ele viu a banheira!), o quarto dele, o quarto das brincadeiras onde já tinha colocado alguns brinquedos iguais ao que ele tinha no centro de acolhimento. Reconheceu-os e sorriu. Pela primeira vez olhava exatamente para onde eu apontava. Sem esforço nenhum da minha parte. Sem precisar de lhe captar a atenção e exagerar os gestos. Parecia que compreendia tudo e deixava que lhe falasse. E foi então que fomos para a sala ver o álbum de fotografias de família que tinha preparado. Mostrei-lhe os tios, os avós, os primos e o milagre aconteceu: a dada altura reconheceu-me numa fotografia. Fez-me parar de desfolhar o álbum. Pegou nele com as suas mãozinhas, deu um beijo na minha fotografia e depois olhou para mim e sorriu-me. Olhos nos olhos! "Sim, sou eu, eu sou a tua mãe!", disse-lhe. E, pela primeira vez, encostou-se no meu peito. Foi nesse momento que me nasceu um filho! Nascemos um para o outro.

Um mês depois, com 17 meses, o baby já gatinhava, dava os primeiros passos e eu assistia a uma explosão de linguagem com palavras novas de dia para dia. Compreendia tudo e conhecia toda a gente da família. Dois meses depois fomos a uma consulta de desenvolvimento e o teste mais exigente para esta idade (Escala de Griffiths) era normal. Inteiramente normal. Pontuou 100 em 100! E claro, o melhor está sempre para vir!

Já vi muitos milagres na minha vida. Já me aconteceram vários. Sei sempre que tenho de me esforçar para os aceitar, porque não é imediato sentir que os mereço. Mas depois sinto que tenho de fazer alguma coisa com eles. Por causa deles. Foi por causa do primeiro que me tornei pediatra. Foi por causa deste que decidi que me iria dedicar ao desenvolvimento. Porque é preciso agradecer todos os dias!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

[histórias de desamor na adoção] as crianças devolvidas


Ontem, dia da criança, tentei ignorar uma notícia. E ainda dizem por aí (e até há quem cante!) que a dor da gente é coisa que não sai no jornal. Fiquei com um nó na garganta porque, em pouco mais de um ano, 43 crianças não chegaram ao fim do processo de adoção e foram "devolvidas" às instituições de onde provinham. Estive até ao fim à espera de ver que pelo menos 90% teriam mais de 13 anos, que seriam pré-adolescentes difíceis, com histórias de vida complexas e psiques intrincadas. Que pudessem ter doenças graves. Daquelas mesmo graves como o meu baby-de-mulata, que tinha "autismo" e um intestino que era um molho de brócolos. Mas não, o nó na garganta não se desatou no final. Quase metade tinha menos de 2 anos. Um número irrisório tinha problemas de saúde graves. O que foi que se passou?

É claro que há coisas de que ninguém fala! Que a depressão pós-adoção é tão real como a depressão pós-parto, mas muito menos falada e tolerada. Que os candidatos passam anos a idealizar o dia em que o telefone toca, a ansiar por esse dia. A telefonar de seis em seis meses para ver como vai o andamento da "gravidez" virtual de que já receberam o teste positivo há tanto tempo (a declaração de que se está apto para adotar), mas não há bebé à vista. E no meio deste tempo, cada um faz a sua vida como pode. Há casais que se desfazem. Que colocam o sonho de maternidade em stand by. Que se anestesiam, que adormecem à pancada os relógios biológicos. Que procuram outras formas de contactar com crianças. Que se dedicam aos sobrinhos, à carreira profissional, um doutoramento. Que se defendem como podem do sofrimento que é saber que a "gravidez" pode não chegar ao fim. Há os que vão tentando FIV atrás de FIV com desilusões atrás de desilusões.

Mas no dia em que o telefone toca, anos depois do tal teste de gravidez positivo (às vezes três anos, às vezes seis anos), o dia nunca é propício. Claro! A vida está sempre programada sem filhos. Até para mim, que quem acompanhou o processo sabe que não pensava em mais nada, o dia não foi propício. No preciso dia em que o baby me foi entregue tinha de entregar o currículo para terminar a especialidade. No MESMO DIA, caramba! Tive uma semana para reorganizar o meu projeto de vida profissional e colocar oportunidades e carreira para segundo plano. Eufórica, claro! Mas sem saber se no final da licença de maternidade ainda teria as mesmas oportunidades de contrato. A vida sempre me foi madrinha e foi o melhor que me poderia ter acontecido. Sei que fiz o que estava certo, mas estava preparada, à espera do que veio a acontecer. Mas e os outros, que esperaram seis anos? É que temos de ser realistas: sempre me custou ouvir isto dos muitos pais de filhos adotados que conheço profissionalmente, mas seis anos depois, o sonho já não é o mesmo! O encanto já não é o mesmo. O deslumbramento, a excitação, a felicidade sabem um pouco mais a frio... Há alguns pais que relatam a minha euforia. Mas muitos (um número arrepiante!) relatam este desencanto. Um parto doloroso e inesperado. E o transtorno e a reviravolta que uma gravidez de dez dias em vez de nove meses pode trazer a uma vida? Em poucos dias é preciso meter férias, preparar o quarto, comprar roupas, fazer um álbum de família e o diabo a sete. As famílias podem não ter um pé-de-meia preparado para fazer face a uma despesa inesperada como esta. E há sempre uma viagem, uma tese, um projeto que tem de ficar por terminar.

E depois vai-se ao desconhecido. Os pais querem um filho. E os filhos querem uma família. Mas se perguntarem a um casal se era mesmo "aquele" filho que queriam. Inicialmente não, claro! Tal como se perguntarem a uma criança se era "daquela mãe" que ele estava à espera. Claro que não! Mãe é a pessoa que dá o amor maior e tudo quanto uma criança necessita. Se não há vínculo não há amor. Não é aquela senhora que é a "MÃE" que se idealizou. Não é aquele senhor que é o PAI com que a criança sonhava. São feios e tensos. Claro que não são os meus pais, dizem as crianças que já falam! É claro que não era nada daquilo...

Se não se está à espera disto, o desencanto pode ser avassalador. Os vínculos não são imediatos. Mesmo com os filhos biológicos, carregados nove meses no ventre. Os vínculos demoram, o amor leva tempo.

É natural que a primeira reação seja de rejeição. Por parte da criança e até de parte a parte. É natural que a criança diga coisas como "vocês não são os meus pais nem nunca serão!" Pode até dizê-lo para os testar, mas isto custa ouvir. E custa muito! E ainda mais se a instituição onde os pais adotivos os foram buscar for a mesma instituição onde a mãe biológica um dia prometeu que os ia buscar e nunca mais voltou. A criança continua à espera que a sua mãe volte e se for com os "novos pais", está a trair a mãe biológica e, pior, ela nunca mais os encontrará! Alguém terá feito o trabalho de casa e preparado a criança para ir para uma família? Nem sempre! Há instituições onde nada disto é feito. Onde as crianças continuam à espera que as mães as venham buscar. E há crianças que apesar do trabalho que é feito não conseguem ultrapassar a imagem da mãe a dizer que voltava.

Se os pais idealizaram a relação perfeita, pior um pouco. Se forem mais preparados talvez seja mais fácil. Se os técnicos conseguirem descortinar o que se passa e traduzir por palavras o que todos estão a sentir também é mais simples, mas nem sempre é simples. E depois de anos a tentar engravidar pelas vias mais naturais, isto pode saber mesmo a um "filho de segunda". Um filho de recurso... "Com um filho biológico nada disto aconteceria", pensam as mães, para quem o mito da "voz do sangue" é tão portuguesmente verdade.

E podemos pensar que um bebé é diferente. Um bebé não fala, não agride, não diz coisas que magoam. Mas reage à rejeição com ansiedade e tensão. Um bebé que ainda não conseguiu estabelecer uma vinculação segura não olha nos olhos, não sorri, não come, cospe a comida, fica irritado com tudo, não dorme bem, não se encosta ao peito da mãe. Está sempre em alerta e tenso. Nada a ver com o bebé fofinho que dorme tranquilo nos braços da mãe que toda a gente idealiza.

Eu, que sou pediatra, às tantas tive de ir perguntar a uma grande amiga pedopsiquiatra se estaria a fazer alguma coisa de errado porque o príncipe insistia em adormecer na cama dele e não chamava quando acordava. Ficava alegremente a palrar no berço. Há tempos perguntei-lhe por que não queria dormir ao meu colo. Respondeu-me: "Mamã, desculpa, eu gosto muito de ti. Mas é que me faz muito calor!" Às vezes a realidade é muito diferente das nossas fantasias...

É preciso muita maturidade e um GPS emocional muito potente para conseguir lidar com isto e sobreviver. Sobretudo sem experiência e sem preparação. Felizmente a maioria das crianças está ávida de amor e afeto. E os pais também estão ávidos de serem pais. Geralmente há uma amiga, uma avó, uma prima com experiência e que passou pelo mesmo. Quem nunca conheceu ninguém que teve um filho que não dormia de noite, não comia ou que chorava por tudo e por nada. Passado algum tempo tudo se sana... Lembro-me bem que o meu baby só se apaixonou verdadeiramente por mim meses depois de lá estar em casa. Sim, meses. Dois meses, acho eu. Dou muitas vezes este exemplo aos pais. Mesmo o meu, que era bebé, demorou tempo. O amor leva tempo!

Os técnicos que acompanham o processo são pessoas competentes e preparadas. Psicólogos, assistentes sociais. São quem pode ajudar os pais a ultrapassar os seus receios, descodificar o que se passa com as crianças, tranquilizar os pais. O problema é que por melhor que sejam os técnicos, eles são os mesmos que os estão a avaliar. São eles que no fim vão emitir um parecer positivo ou negativo sobre se deve ou não ser requerida a adoção plena. Do mesmo modo que alguns alunos têm receio de "fazer má figura" ao colocar questões aos professores, muitos pais não conseguem expor os seus receios, dúvidas e zangas aos técnicos. Mas a falta de vínculo não lhes escapa. Salta à vista! Os pais têm seis meses para mostrar o que valem. A criança tem seis meses para se adaptar. Se estes seis meses são passados a lutar com sentimentos contraditórios, com uma depressão pós-adoção, com uma adaptação difícil ao novo papel de pai e mãe e com a reorganização do casal em torno da criança, é difícil a criação de uma vinculação segura. E qual é o técnico irresponsável que ao fim de seis meses, vendo que a criança e os pais não estão seguros e felizes, que rejeitam, negligenciam e não têm empatia com o filho, deixa a criança com esta família? A isto se chama devolução. Um projeto que não aconteceu... Quantos casais "biológicos" se desfazem no primeiro ano de vida de uma criança? Os primeiros tempos são muito exigentes, extenuantes emocionalmente e fisicamente!

Mas teremos maneira de melhorar? Claro que sim! Tem de haver equipas de recurso, que sejam diferentes das que estão a avaliar o processo. Preparadas para intervir neste período crítico. Se virmos o caso de uma criança que está o tempo todo tensa, irritada, que não come nem dorme, essa criança está doente! Profundamente doente. A vinculação com pais maduros, disponíveis e seguros pode reparar esta ferida imensa. Mas por vezes é preciso um médico. Sobretudo se a mãe se deprimir também com isto tudo. Facilmente se cai na asneira de pensar que "O bebé não é do meu sangue. Geneticamente nada disto me estava destinado." Se for preciso colocar um pedopsiquiatra na equipa, que se coloque! Eles fazem milagres com casos muito mais difíceis! Mas tem de haver um caminho para que não se ouçam mais notícias destas!

terça-feira, 30 de maio de 2017

[vozes brancas*] fofices


Há exatamente um ano, tentando motivar o baby-de-mulata para reconhecer a delícia que é ter um irmão mais novo, mostrei-lhe um Nenuco:
- Olha, querido, não é tão fofo? - perguntei, abraçando e embalando o boneco.

Com o ar mais dahh que alguma vez lhe tinha visto e, olhando com um desprezo colossal pelo canto do olho, respondeu-me:
- Sim, mãe, fofinho como uma grua num salão de baile!

(Sempre vi que tinha aqui um público difícil).

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

domingo, 21 de maio de 2017

[vozes brancas*] massa cinzenta

[Este é o post nº 1500 deste blogue, desde a sua criação, há 7 anos, vários meses e várias telhas e amuos, lutos e lutas e aventuras.]



Há uns dias, eu estava a ameaçar zangar-me com o baby-de-mulata porque não se queria sentar à mesa para almoçar e teimava em levantar-se a desafiar-me com a sua irreverência, alegando os clássicos: "dói-me-a-barriga-não-tenho-fome-ainda-não-brinquei-nada-o-que-há-nesta-gaveta?-é-sempre-peixe-etc.-etc." E eu a respirar fundo, tentando não me transformar em momster, que como sabemos, torna a comida em geral indigesta (e o peixe em particular, segundo dizem). Foi então que o baby se aproximou de mim, olhou-me nos olhos, segurou-me a cabeça como costumava fazer, apaixonado, há uns anos (e ainda faz às vezes quando acorda, benza-o Deus) e perguntou-me:

- Mãe, o que tens dentro da tua cabeça?
- O mesmo que tu, baby, o cérebro.
- Ah, e como é feito o cérebro?
- É feito de massa branca e massa cinzenta.
- Então quando eu me estou assim a portar mal, é a massa cinzenta ou a massa branca a mandar?

(Coisa mai fofa de sua mãe! Até me apeteceu explicar que a parte que pensa é a cinzenta, mas clivagem em minha casa, não obrigada!)

- São as duas, meu bem, quando pensamos ou fazemos alguma coisa são sempre as duas em conjunto a trabalhar. E tu não te estás a portar mal, tu já vens para a mesa.
- Está bem, mãe. Vou já, é só que não me apetecia ir lavar as mãos, mas vou já.

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

[vozes brancas*] o lançamento de um livro


Ontem o baby-de-mulata chegou a casa desolado. Tinha ido entusiasticamente ao lançamento do livro do tio-avô, Rostos da Emigração, da editora Orfeu. Um livro para adultos, obviamente, sobre um tema pesado e muito descurado na literatura portuguesa, que é a emigração portuguesa nos anos 60-90 e os seus dramas sociais, numa escrita livre, escorreita e deliciosa (tive o privilégio de o poder ler antes do lançamento).

Falou-se muito e de forma séria, mas o baby aguentou estoicamente na sua cadeira, na expetativa do clímax apoteótico que fantasiava para o final. Mas, no final, nada mais aconteceu. Toda a gente se foi despedindo e seguindo o seu caminho para fora da sala, sem fazer a pergunta incómoda que já lhe queimava a língua. No final perguntou ao avô: "Mas, avô, quando é o lançamento?"
- Já foi, querido!
- Já foi?! Não vi nada! Então a luta de livros? Ninguém vai atirar nada?! Já no ano passado, no lançamento do livro da prima Joana foi a mesma coisa! Toda a gente falou e pronto. Mais nada. Não é justo!

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

[querido, vesti o miúdo] semana mundial do babywearing


Esta é a Semana Mundial do Babywearing!


[Ainda bem que os meus amigos moçambicanos não me leem habitualmente, de outro modo achariam tudo isto ridículo e estariam a olhar para mim com cara de "Duh, qualquer dia nós também fazemos a Semana Nacional de Comer a Sopa com Colher ou a Semana Mundial de Usar Roupa Interior só para gozar convosco! Há lá outra maneira de transportar as crianças!"]

Eu sou uma fervorosa adepta do babywearing, que tem inúmeras vantagens para as crianças e o seu desenvolvimento e usava sempre uma capulana moçambicana para transportar o baby-de-mulata. Era pro em colocar o menino às costas, num exercício africano de equilíbrio e destreza que deixava sempre a minha mãe sem respirar e a conter-se para não dizer "Cuidado que me deixas cair o desgraçado!", mas depois de o colocar nas costas (não há outra maneira, com uma capulana), trazia-o sempre para a frente porque prefiro olhar o meu filho nos olhos. Não o deixava nas costas, embora até achasse que ele não se importaria de ir a apreciar a paisagem. Depois rendi-me a uma solução mais prática, com panos que dão para colocar diretamente à frente. Quase tive pena de deixar a tradição moçambicana, mas as minhas costas e as coronárias da minha família (que, vá se lá saber porquê, não confia na minha fantástica agilidade e destreza corporal*) agradeceram.

* E têm razão, pronto...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

[iAgora na prática] presente do dia da mãe

Ontem foi o final da semana mundial sem ecrãs. No sábado o baby-de-mulata perguntou-me se, para além do presente da escola (que já me tinha dado na sexta-feira porque sim), haveria alguma coisa que pudesse fazer para eu me sentir feliz no dia da mãe.

Fiquei a babar-me. E respondi que o melhor que ele poderia fazer por mim era acordar e não ir ver televisão, como de costume e ficarmos a brincar, montar legos, desenhar. O que lhe apetecesse.

Acordou-me (ouch!) às 07:00 da madrugada (sim, mães de lactentes, eu sei que não me posso queixar, mas ainda assim...) com uma caixa de lego na mão, um sorriso de orelha a orelha e um: "Parabéns, mamã, vamos montar este?". Amor de sua mãe [ou isso ou sou mesmo uma fácil...]! O rapaz adora ver televisão aos fins de semana, pelo que lhe deve ter custado tanto como a mim me custa não tomar café, por exemplo, sacrifício valente!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #5


Um quarto de bebé ao estilo Montessori. Daqui.

(Continuando a história da longa caminhada que me levou o baby-de-mulata para casa... Interrompemos por causa do 25 de abril, de um surto de sarampo em Moçambique e outro em Portugal, de um devaneio literário por terras da Zambézia e o mito de origem da primeira mulher Moçambicana, em honra à Exma. Prof. Doutora Ruiva, mas sobretudo uma alegoria à adoção e infertilidade, e de uma, já lendária, crise de soluços de proporções épicas, mas estamos de volta. Não é fácil escrever sobre isto, essa é que é essa, portanto não se admirassem se demorasse ainda mais a continuar... Animem-se que desta vez já estamos mais perto do fim, não era preciso terem reclamado tanto, que diabo. Isto custa. Muito)

Uma semana depois de a diretora do centro de acolhimento onde estava o baby me ter ligado a dizer que enquanto não tivesse o certificado da Santa Casa em como estava apta para adoção não poderia ir mais visitar o menino, o baby foi ao meu hospital. Tinha consulta marcada e uma série de exames para fazer. Eu nem consigo descrever em que estado estava. Tinha voltado a chorar todos os dias, ainda para mais com a agravante de ser julho, o mês em que o meu "quase filho" tinha falecido... Grief is the price to pay for love, ia repetindo, resignada...

Estava no corredor do hospital, completamente absorta na minha dor quando me cruzei com ele. Sabia que vinha, claro, mas não o esperava tão cedo. Vinha acompanhado por duas funcionárias do centro de acolhimento, que não me conheciam. Fiquei radiante por vê-lo, mas ele estava completamente alheado, olhando para o lado e evitando qualquer contacto ocular. Agora percebo, mas na altura não conseguia relacionar todos estes acontecimentos, que ele estava profundamente magoado porque estava a reconhecer o espaço onde tinha vivido e de onde tinha sido levado sem uma única hora de transição, sem entender o que se passava. Magoado com as pessoas que estava a reconhecer e que, na cabeça dele, o tinham abandonado. E confuso por não saber se o traziam para ficar na casa que o abandonara ou se o levariam para a casa de que ainda não gostava, mas a que começava a habituar-se. Estava aterrorizado...

Tentei tirá-lo do carrinho e pegar-lhe ao colo. Estava eufórica porque ele estava ali comigo, mas ele também estava magoado comigo porque deixara de aparecer para o visitar. E pior, estava de bata branca, como todos os da casa maldita que o abandonara! Resistiu à minha tentativa de lhe pegar ao colo. Agarrou-se ao carrinho com todas as suas forças. A amiga que estava comigo ficou tão incomodada com aquele espetáculo angustiante que teve de se ir embora. Resolvi não o forçar. Claramente estava tudo a ser demais para ele.

Perguntei o que se passava às funcionárias.
- Não sabemos, ele hoje está estranho. Não é só consigo. Até vinha bem disposto, mas quando entrou no hospital ficou assim. Até chorou para a médica dele e não quis ir para o colo dela. Eles tinham uma adoração um pelo outro.
- E ela, o que disse?
- Disse que achava que era bom que ele a estivesse a estranhar, que queria dizer que se estava a vincular a outras pessoas.

Mas não, não era nada bom. Ele estava era muito triste porque todos se tinham esquecido dele e para um bebé é impossível elaborar tantas perdas. Tantas mudanças e tantos lutos para fazer, tantas ameaças juntas no mesmo espaço e no mesmo momento.

Demorou muito tempo a reconhecer-me. Tirei a bata. Cantei-lhe as nossas músicas, fiz as nossas brincadeiras. Até que por fim começou a sorrir, mais descontraído. Mas continuava a não olhar para mim nem para ninguém.

Ao final do dia eu já não estava em mim. Grief is the price to pay for love? Não, não me conformava. O meu menino não podia pagar esse preço. Eu podia, mas ele não! Tinha testemunhado o sofrimento do meu menino e percebido que era cada vez mais difícil chamá-lo à realidade e fazê-lo descontrair-se. Ele estava a perder-se "do lado de lá".

Falei com a equipa da Santa Casa, pessoas extraordinárias, disponíveis e incansáveis, que me disseram que não sabiam por que razão a equipa de adoções local me estava a impedir de ir visitar o menino e que não existia qualquer recomendação nesse sentido. Foi então que liguei de novo à diretora do centro de acolhimento. Com a minha voz de quem não aceita um não como resposta. Que não podia ser. Que o menino estava num sofrimento brutal. Que não podia aceitar que as coisas andassem assim até já não haver solução para ele.

Respondeu-me que não podia mesmo ir contra a decisão da equipa local, mas que se o quisesse ir visitar ao jardim de infância ela não seria obrigada a reportar as visitas. Só as que eu fizesse no centro de acolhimento.

Acho que me nasceu uma alma nova! No dia seguinte estava de folga, pelo que me pus a caminho. A educadora estava à minha espera e acolheu-me muito bem. Cheguei na hora da sesta da manhã, mas ele era o primeiro a ser acordado para ter tempo de fazer a medicação toda que ainda tomava antes de almoço.

- Quer ir dar-lhe a medicação e o almoço para a outra sala?
- Claro! - os olhos brilhavam-me.

Comparada com a sala de visitas do centro de acolhimento, despida e tórrida, aquela sala de jardim de infância era o paraíso! Mesmo para sala de berçário era genial! Bem ao estilo Montessori, tinha espelhos ao nível das crianças, uma piscina de bolas, uma tenda, várias bolas de pilates e brinquedos bem arrumados e ao alcance dos meninos. Ele ainda não gatinhava nem se deslocava de qualquer forma, embora já tivesse 14 meses. Mas dessa vez aceitou vir-me para o colo. Continuava a evitar o olhar, mas, surpresa das surpresas, começou a seguir o que eu fazia. A olhar para as fitas que revoluteavam presas a um boneco. Até que começou a seguir o que eu fazia no espelho. E, de repente, ao seguir as fitas que eu agitava mais à altura dos meus olhos, encontrou-se com os meus no espelho. Foi a primeira vez que olhou nos meus olhos! No espelho. E, milagre dos milagres, desprevenido, sorriu-me! Foi um encontro demorado. Dei-lhe o boneco e começou a imitar os meus gestos.

Sentei-me no chão, com ele no meu colo, voltados para o espelho e comecei a cantar uma canção com gestos e ele começou a imitar-me. Como se soubesse imitar desde sempre! Nesse momento a educadora entrou para me levar o almoço dele. Encontrou-nos a fazer gestos e caretas ao espelho e ficou estupefacta.

- Mas ele não imitava! Que milagre foi esse?
- Pois não, nem olhava, mas ao espelho imita e já me olhou nos olhos!
- Que maravilha! O amor faz milagres. Então veja se lhe consegue dar a sopa e a fruta. Ele connosco não come fruta de maneira nenhuma. Pode ser que consigo coma.
- Obrigada.

Ao almoço aconteceu outro milagre. Ele comia a sopa lindamente, desde que não tivesse grumos, mas cerrava a boca para a fruta e não abria mais. Nem com palhaçadas nem com nada que eu fizesse. Até que quando lhe estava a tentar dar a fruta novamente me tocou no braço e apontou para a sopa. Assim como quem diz, "É aquilo que eu quero, será que tenho de explicar tudo?"

Então o meu menino olhava nos olhos, imitava e apontava? Mesmo que por breves instantes. Não podia ter autismo nenhum! Agora sim, tinha a certeza de que estava no caminho certo! Fui falar com a diretora. Estava feliz! Mesmo feliz! Agradeci-lhe muito. E ela também me agradeceu:
- A educadora já me veio dizer! Olhe, mesmo que ele não venha a ser o seu filho, já nos salvou o menino! Já não sabíamos o que lhe fazer...

Claro que isto foram momentos fugazes. Ele não olhava consistentemente. Não voltou a apontar nas semanas seguintes nem a tentar comunicar de maneira nenhuma. Quase a ponto de me fazer duvidar do que tinha visto, mas estava feliz demais para me colocar em causa. Eu estava a travar a maior luta da minha vida. Não tinha espaço interior para duvidar...

No dia seguinte era sexta-feira e eu estava angustiada porque tinha de trabalhar nesse dia e não o poderia ver no fim de semana. Felizmente o menino ficou doente e foi internado no hospital local. Uma bronquiolite e uma otite. Nada de grave, mas decidiram interná-lo por precaução, dados os antecedentes tão graves. Fiquei eufórica. Estava no meu elemento! Ia poder vê-lo todos os dias enquanto estivesse internado. Vesti a bata e fui para o hospital, onde os meus colegas me conheciam e me deixaram ficar todo o tempo. A funcionária que estava com ele e com outra bebé do centro de acolhimento agradeceu-me porque comigo ali poderia ficar mais livre para cuidar da bebé que estava muito mais doente do que ele! Eu é que agradecia, respondi.

Nesses dias o baby parecia que tinha renascido. Olhou-me muitas vezes, começou a tentar deslocar-se sentado, muito inseguro, mas lá avançava uns centímetros de cada vez. Eu sou chata como a potassa e aproveitei cada momento para puxar por ele... Saiu do internamento a seguir tudo com o olhar, a deslocar-se melhor e a rir às gargalhadas.

(continua...)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

[comentários que valem um post] diversidade familiar

A doce Maria Bê escreveu um comentário no post abaixo, sobre diversidade familiar.

A Mia, no ano passado, tinha uma coleguinha de escola a quem os meninos chamavam, quando se referiam a ela, "Faith, she has two moms". A Faith, vim a descobrir, era uma criança filha de meth addicts que foi violada aos três meses... uma história horrível. Foi adotada por duas enfermeiras da unidade de cuidados intensivos, que se apaixonaram por ela. (Fim de aparte que só dá contexto).

Para os meninos como os meus, privar de muito cedo com este tipo de realidades, desde a adopção convencional à adopção gay, é um privilégio, sabes. Quando começou a fazer perguntas sobre as barrigas, respondemos-lhe que todos os meninos precisam de um papá e de uma mamã para nascer, mas depois nascem no coração de outros pais, que ficam muito felizes com o poder cuidar deles. Não lhe faz impressão que uma mãe/pai fique sem/dê o seu bebé, o que é engraçado. Um dia mais tarde talvez faça mas por ora fica satisfeita. Um beijo!

terça-feira, 11 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #3

As Famílias Não São Todas Iguais

Este é um livro que ajuda a aplacar angústias e a normalizar a diferença. Põe o dedo na ferida, mas mostra muitas outras, e o mal de muitos alívio é. Quando os meninos perguntam: porque é que o João tem duas casas, a da mãe e a do pai? Porque é que eu não vivo com o meu pai? Porque é que eu tenho uma cor diferente da cor dos meus pais? Porque é que tenho duas mães? Porque é que fui adotado e os outros meus colegas não?

"As Famílias Não São Todas Iguais" ajuda os pais a responderem a todas estas questões e ajuda a criança a chegar à conclusão simples de que família é quem dá amor e quem ajuda a criar esperança!

Divórcio, família reconstruída, adoção interracial, monoparentalidade e adoção homoafetiva são contempladas lado a lado no livro.

A questão punha-se-me mais há uns anos, na altura em que era mãe solteira e me imaginava a responder a questões sobre a ausência do pai. Comecei cedo a ler este livro ao baby e planeava responder simplesmente: "as famílias são todas diferentes. Tu tiveste um pai e uma mãe, como toda a gente, mas depois, como não puderam cuidar de ti, eu fui pedir ao juiz para ser tua mãe para sempre. E agora a família somos nós!" Mas como somos uma família mais tradicional agora ainda não fez grandes perguntas sobre as famílias. Já sobre as barrigas... mas essa é outra história.

domingo, 9 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #2



Os Ovos Misteriosos de Luísa Ducla Soares

"Os Ovos Misteriosos" é um livro maravilhoso, delicioso e absolutamente genial, ou não fosse da Luísa Ducla Soares. Faz parte do Plano Nacional de Leitura para leitura orientada no primeiro ano de escolaridade, mas da minha experiência pode ser lido a partir dos três anos. Mas, claro, nestas coisas não há como ler primeiro (ou ver o vídeo acima) e ver se o nível de desenvolvimento dos filhos se coaduna já com a compreensão do texto.

A história é de uma galinha órfã de filhos, a quem o dono roubava os ovos todas as manhãs. Até que, corajosa. decidiu ir para a floresta chocar um ovo sozinha. Passado pouco tempo, e de forma misteriosa, vários ovos apareceram no seu ninho: uns grandes, outros pequenos, uns mais claros, outros mais escuros. E todos os outros lhe perguntavam por que ia chocar ovos que não eram dela. E ela respondia. amorosamente, como todas as mães adotivas: estão no meu ninho, vão ser meus filhos! Embora admirada, chocou todos os ovos, dos quais viria a nascer uma insólita ninhada: um papagaio, uma serpente, uma avestruz, um crocodilo e também um pinto. Todos irmãos, e todos diferentes, formavam uma ninhada engraçada, que a mãe-galinha tinha dificuldade em controlar e em alimentar.

Mas no fim, numa grande aventura, todos, de modos também diferentes, defenderam o irmão pinto quando o viram ameaçado, dando sentido a todos os esforços da galinha.

Este é um livro em que a enorme ternura que o atravessa não impede o humor e o ritmo tão próprios desta autora. Para ser lido e relido e colocar e responder a perguntas sobre adoção, sobre as diferenças entre os irmãos e as necessidades de cada um e a forma como cada um deve ser tratado, não com igualdade, mas segundo as suas características. Pode ainda ser lido como uma abordagem à multiculturalidade ou à inclusão de crianças com necessidades especiais.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção


A Mother for Choco (Comprei na Amazon)

Há muito poucas histórias sobre adoção dirigidas a crianças, infelizmente. Então livros em português são mais raros que um bom tratado de anatomia topográfica (brincando, ok, meus amigos?)... É uma lacuna grave, já que há tantas crianças adotadas em todo o mundo, e dez vezes mais crianças que, não sendo adotadas, têm contacto com crianças que o foram ou sofreram perdas semelhantes e poderiam elaborar melhor essas perdas através de uma história pedagógica e com final feliz. 

Quando o baby-de-mulata tinha dois anos e ainda estava na fase do repete-repete-repete-rotina, gostava sempre que lhe contasse a mesma história vezes a fio. Inventou nomes para cada uma das personagens (a minha preferida era o "porquinho-bifinho"), ria-se com as palhaçadas da mamã ursa e pedia-me vezes sem conta para fazer tarte de maçã.

Agora de vez em quando ainda pega nela e gosta de recordar e fazer perguntas. E eu também faço perguntas, embora ele a mim não me responda... Há vários níveis a que se pode ler a história e vários ângulos e perspetivas, desde a adoção interracial até à questão da monoparentalidade (ou não, podemos sempre imaginar que o pai estava a chegar a casa) e da partilha e diferenças entre irmãos.

terça-feira, 4 de abril de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #4

(Continuando a epopeia amorosa e trágico-burocrática, que já vai longa...)

Aviso à navegação: Esta parte é difícil e dolorosa. E não adianta grande coisa. Claro que quem vem aqui ao mato-que-já-não-é-mato, vem sempre à sua própria responsabilidade e ninguém é obrigado a ler nada do que está aqui, mas ainda assim deixo o aviso. Para não se queixarem. Este blogue não possui livro de reclamações. A parte boa, como diz a Zu, assídua visitadora e companheira de viagem, é que desta vez sabemos de antemão que a história acaba bem.

Passadas talvez duas semanas, ou menos até, tenho ideia, foi autorizado o meu estudo de caso pelo Senhor Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Dada a situação do menino, já com medida de adotabilidade decretada em tribunal e sem candidatos à vista, o estudo foi considerado prioritário. Fui então chamada para a primeira entrevista. Ia receosa. Sabia que me iria sujeitar a um escrutínio de toda a minha vida pessoal, passada e atual. Isso estava bem patente no questionário de 40 páginas que já tinha preenchido, em que tudo era perguntado, desde relações amorosas atuais e anteriores até à vida familiar e profissional atual.

Mas a equipa era extraordinária, humana e profissional. Não estava à espera que tivessem lido tudo com tanta atenção, sabiam exatamente o que já tinha respondido no questionário e o que faltava esclarecer, poupando-me à exaustão da repetição. No fundo, apesar de toda a minha vida ter sido desfilada naquelas horas, senti que acabou por ser mais uma conversa amigável do que um escrutínio desconfiado das minhas intenções. Estavam inicialmente curiosas de qual a razão que me levava a querer levar para casa uma criança com tantos problemas, mas perceberam que eu estava perdidamente apaixonada. E que sabia ao que ia. Eu já tinha tido uma quase-experiência de adoção do meu menino Gaiato. E quando se teve um menino que morreu, tudo o que se pode pedir é um que não morra. Apenas e só. Lembravam-se bem de outros dois casos de meninos, que entretanto, por felicidade do destino e inteiramente por acaso, são agora meus doentes, em que as mães adotivas se tinham vindo candidatar nas mesmas circunstâncias. Ambos casos de sucesso. Portanto não foi difícil perceberem o que me movia e que tinha perfeita noção do que implicava a minha decisão.

Saí da Santa Casa horas depois, com o coração mais leve e com a certeza de que mais um passo estava dado. Mas no dia seguinte recebi um telefonema do Centro de Acolhimento onde estava o meu menino, que me deitou novamente as esperanças por terra: a equipa de adoções local não via com bons olhos as minhas visitas ao menino e não permitia que o fosse visitar antes do meu processo estar concluído. Assim sem mais, como se houvesse algo de interdito e ilegal nas minhas intenções.

Dois passos para trás! E logo nessa altura, em que já se viam pequenos sinais de melhoria no menino. Já ficava mais calmo na minha presença, já não passava o tempo todo a abrir e fechar a janela, já sorria de vez em quando com as minhas palhaçadas, já olhava ocasionalmente para os brinquedos que lhe levava. Nem queria acreditar... por mais voltas que desse à cabeça não conseguia perceber em que sentido é que as minhas visitas o poderiam prejudicar. Mesmo que viesse a estabelecer alguma relação mais forte e privilegiada comigo, isso não seria diferente da relação que estabeleceria com os técnicos ou as funcionárias da instituição ou até mesmo com a educadora do jardim de infância que entretanto tinha começado a frequentar. Que mal poderia fazer ao menino que uma pessoa fosse exclusivamente visitá-lo frequentemente? Apenas a ele, que era mais um entre tantos? Só poderia fazer bem... Mas não havia volta a dar. A própria diretora do Centro de Acolhimento também estava desolada com o meu desapontamento. Desde que me conhecera que tinha ficado a torcer por mim, acabou por me dizer depois... Não sabia o que pensar... Nos dias seguintes tentei fazer várias diligências, apelar ao bom-senso de quem de direito, mas em vão...

(continua...)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

[o que vês da tua janela, beijo de mulata?] autismo e consciência


Ao fundo, bem antes da linha do horizonte, adivinha-se o Cristo Rei pintado de azul, por ser o dia mundial da consciencialização do autismo.

A propósito do tema, e porque tem um menino na turma com autismo, o baby interessou-se pelo assunto. Expliquei-lhe o que sente um menino com autismo perante os estímulos normais do dia-a-dia. E perguntou ele, sempre com as suas preocupações metalinguísticas:
- Mas porque é que se chama, autismo, mãe? Devia chamar-se "esmagadismo", porque os meninos se sentem esmagados pelos sons, pelas luzes e pelas caras das pessoas.
- Pois, mas como é muito difícil para eles perceberem o que as outras pessoas estão a sentir ou a tentar comunicar, ficam muito fechados em si mesmos, daí o nome autismo, ou seja, "em si mesmo", percebeste?
- Mãe, eu tinha autismo quando era pequeno? [De facto, em tempos teve esse diagnóstico...]
- Não, querido, quem te disse isso?
- Ninguém, mãe, é só que me lembro que quando era pequeno era tudo muito forte para mim. [Como é que é possível, valha-me Deus, que ele tenha consciência disso?]
- Não filho, claro que não, é só que eras muito bebé...
- E o autismo passa?
- Às vezes, quando é muito fraquinho, pode passar. Outras vezes só melhora mas não passa.
- Como o João? Ele já está muito melhor, agora até já fala e antes não falava.
- Sim, como o João, filho. Boa noite.

segunda-feira, 27 de março de 2017

[vozes brancas*] uma corrida de automóveis



Há poucos dias, na escola, chamei à atenção o baby-de-mulata porque não deveria tratar a diretora do colégio por tu. Delicadamente e meio na brincadeira, claro, que o caso não era para zangas e o baby é ultrassensível  aos meus estados de espírito:

- Querido, é "Onde vai, Irmã?" e não "Onde vais?".
- Ah, onde vai, Irmã?

Mudou de imediato o registo para a terceira pessoa e assim continuou, o que a deixou orgulhosa do seu "neto" (a diretora foi minha educadora quando eu era criança).

Horas depois, lá em casa, o baby falou-me no assunto. Pelos vistos, do alto dos seus cinco aninhos já fica a matutar em questões (mais parecido com sua mãezinha não poderia ser, caramba!, é isso e a tendência para inventar teorias sobre tudo... epigenética rules!):

- Mãe, desculpa ter tratado a Irmã por "tu".
- É normal, querido, ainda não estás habituado. Os crescidos estão mais habituados do que as crianças.
- Pois, eu sei que tenho de a tratar por "Irmã", mas é como se fosse uma corrida de carros... Eu vou explicar: o "tu" é um Ferrari mal-criado e "Irmã" é um carro normal. Por isso, quando eu falo, o Ferrari atropela o carro normal, faz batota e chega sempre primeiro.
- Sim, mas depois o carro normal chegou e tomou conta da corrida. E estiveste muito bem.
- [Sorriu, aliviado] Ah, está bem, mãe, então só tenho de praticar mais...

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.