Há dias, na urgência de pediatria, encontrei um menino de 8 anos de etnia cigana que sigo na consulta por dificuldades de aprendizagem e alterações do comportamento gravíssimas. Um menino para quem o simples exercício de 7 e 7 são 14 com mais 7 são 21, em calhando num dia mau, pode fazer despoletar uma batalha campal em plena sala de aula e certa vez deixou o meu gabinete de consulta revirado durante 3 dias tal foi a frustração que o menino sentiu quando ouviu uma pergunta que o obrigaria a concentrar-se e não estava capaz. Mas enfim, são vidas, contextos e famílias, e o menino lá andava a melhorar, devagarinho mas ia (a sério que ia), com alguma paciência e muito trabalho de sua mãe e dos professores da escola.
O problema foi que a dada altura, após a morte do avô, começou a regredir a olhos vistos e as alterações do comportamento atingiram patamares a raiar o nível do autoproclamado "estado islâmico", quer no recreio quer na sala de aula. A professora ligou-me, preocupada. A mãe ligara-me dias antes, desesperada. Concordei que seria então necessário marcar uma consulta de urgência e medicar o menino. A consulta teve lugar dias depois, em conjunto com a família e as professoras.
Duas semanas depois vi-o então na urgência.
- Então, mãe, o menino como está? Melhorou alguma coisa com a medicação?
- Não, doutora, nã teve melhoras nenhumas.
- Ai, não me diga, mas continua tudo na mesma?
- Sim, doutora, já nã sei o que fazer. Até me parece que está cada vez pior... Já viu a minha vida?
- Pior? Ai, valha-me Deus! Mas vamos lá ver, a que horas lhe dá o medicamento?
- Ah, doutora, nã lhe di...
- Não lhe deu? Mas porquê?
- Eu saí da consulta a achar que lhe ia dar, mas depois o mê marido chegou a casa e teve a ler o medicamento po dentro, e teve medo que o remédio lhe apanhasse o cérebro. Por isso nã lhe demos.
...
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quarta-feira, 8 de abril de 2015
domingo, 6 de julho de 2014
[as melhores do serviço de urgência] a minha vida dava um filme cigano
Ontem, na urgência, um casal bem meu conhecido (aliás, conhecido de todos nós, que fazemos urgências de pediatria) vinha com o filho de dois anos e meio, bem disposto, cheio de vitalidade apesar da febre. Olho para o histórico enquanto o chamo pelo intercomunicador do meu gabinete: é a quarta vinda ao serviço de urgência no período de 24 horas (suspiro).
Mais de 60 vindas ao serviço de urgência no último ano. Motivo da presente vinda à urgência: febre. Das outras vezes também. Uma febre que não baixa, "tem tido 38, doutora, às vezes vai mesmo aos 38 e meio!" Replico, numa voz que pretende tranquilizar, que se trata de uma febre baixa. O pai responde-me, de súbito muito exaltado, que a temperatura normal dele é 35,9ºC, pelo que os 38 valem por quase 40, e com 37,8ºC já começa a ficar completamente de rastos e a tremer. (Suspiro) Enfim, um clássico. Vejo no processo que o menino tem história de convulsões febris. Daí o pânico dos pais, concluo.
Vejo também que já teve consultas de Neurologia por causa das convulsões, já fez exames que excluíram doenças graves e epilepsia. Que o pai também teve convulsões febris na infância. Está tudo escrito em todos os registos.
Tentei explicar que as convulsões febris são situações benignas, que o menino já estava medicado, que inclusivamente tinha mudado o antibiótico horas antes, da última vez que viera à urgência (certamente tinha feito a cabeça em água à minha antecessora) e que agora era preciso dar tempo ao tempo.
Nada feito. Do alto do seu metro e oitenta e muitos, o pai declarava-me que podia ser cigano, mas que também era médico de medicina chinesa, eu que não me atrevesse a contestar o que ele dizia. Que ele é que conhecia o menino. E sabia muito bem que quando o menino passava dos 38,2ºC, a parte do corpo do umbigo para baixo gelava, ao passo que a parte do corpo do umbigo para cima aquecia, e o cérebro ficava baralhado, sem saber se haveria de arrefecer a parte de cima ou aquecer a parte de baixo. E vai daí, pifava e fazia uma convulsão, capaz de o matar em dois minutos!
- Mas não adianta tentar evitar as convulsões, e as convulsões do seu menino são benignas e não deixam sequelas.
- Não são nada benignas, doutora, eu também as tive e chegaram a dizer à minha mãe que eu tinha morrido.
- Pois, mais me ajuda! E aqui está o senhor, saudável e sem problemas nenhuns. [Desta última parte não tenho tanta certeza, mas ficava bem na argumentação!]
Nada feito. O pai exigia que eu fizesse como os meus colegas costumavam fazer e que desse um medicamento na veia ao menino para lhe baixar a febre.
Mas eu, talvez por ter a parte do corpo acima do umbigo à mesma temperatura que a parte de baixo, não me deixei baralhar e afirmei-lhe que não iria agredir o menino com medicação na veia coisa nenhuma, que não havia razão para isso.
Levanta-se o pai e aproxima-se, com cara de quem me vai bater nos próximos segundos:
- Eu sou médico de medicina chinesa, mas também sou cigano, ouviu? Tenho a minha família ali fora! Vai ou não vai fazer o que eu lhe estou a pedir?
- Escute, o seu menino está bem, não há necessidade de o picar! E não nos resolve o problema, que daqui a quatro horas temos outra vez a febre a subir! Se calhar os senhores deviam ir novamente à consulta de Neurologia para se tranquilizarem. Temos centenas de meninos com convulsões febris e nenhuma família faz o que os senhores fazem. Não é normal, acreditem! [Oh, valha-me Santa Rita de Cássia, estou mesmo a pedi-las, é desta que vou levar porrada dentro do hospital!]
- Está bem, doutora. Mas enquanto a febre não baixar não vamos embora daqui.
- Pronto, é convosco [Ufa...], mas então vão para o jardim, não fiquem na sala de espera que ainda levam daqui outro bicho. [Desisto, se ficarem à porta da sala de reanimação também é com eles...]
Ao fim do dia saíram dali com indicação para procurarem um psicólogo...
Mais de 60 vindas ao serviço de urgência no último ano. Motivo da presente vinda à urgência: febre. Das outras vezes também. Uma febre que não baixa, "tem tido 38, doutora, às vezes vai mesmo aos 38 e meio!" Replico, numa voz que pretende tranquilizar, que se trata de uma febre baixa. O pai responde-me, de súbito muito exaltado, que a temperatura normal dele é 35,9ºC, pelo que os 38 valem por quase 40, e com 37,8ºC já começa a ficar completamente de rastos e a tremer. (Suspiro) Enfim, um clássico. Vejo no processo que o menino tem história de convulsões febris. Daí o pânico dos pais, concluo.
Vejo também que já teve consultas de Neurologia por causa das convulsões, já fez exames que excluíram doenças graves e epilepsia. Que o pai também teve convulsões febris na infância. Está tudo escrito em todos os registos.
Tentei explicar que as convulsões febris são situações benignas, que o menino já estava medicado, que inclusivamente tinha mudado o antibiótico horas antes, da última vez que viera à urgência (certamente tinha feito a cabeça em água à minha antecessora) e que agora era preciso dar tempo ao tempo.
Nada feito. Do alto do seu metro e oitenta e muitos, o pai declarava-me que podia ser cigano, mas que também era médico de medicina chinesa, eu que não me atrevesse a contestar o que ele dizia. Que ele é que conhecia o menino. E sabia muito bem que quando o menino passava dos 38,2ºC, a parte do corpo do umbigo para baixo gelava, ao passo que a parte do corpo do umbigo para cima aquecia, e o cérebro ficava baralhado, sem saber se haveria de arrefecer a parte de cima ou aquecer a parte de baixo. E vai daí, pifava e fazia uma convulsão, capaz de o matar em dois minutos!
- Mas não adianta tentar evitar as convulsões, e as convulsões do seu menino são benignas e não deixam sequelas.
- Não são nada benignas, doutora, eu também as tive e chegaram a dizer à minha mãe que eu tinha morrido.
- Pois, mais me ajuda! E aqui está o senhor, saudável e sem problemas nenhuns. [Desta última parte não tenho tanta certeza, mas ficava bem na argumentação!]
Nada feito. O pai exigia que eu fizesse como os meus colegas costumavam fazer e que desse um medicamento na veia ao menino para lhe baixar a febre.
Mas eu, talvez por ter a parte do corpo acima do umbigo à mesma temperatura que a parte de baixo, não me deixei baralhar e afirmei-lhe que não iria agredir o menino com medicação na veia coisa nenhuma, que não havia razão para isso.
Levanta-se o pai e aproxima-se, com cara de quem me vai bater nos próximos segundos:
- Eu sou médico de medicina chinesa, mas também sou cigano, ouviu? Tenho a minha família ali fora! Vai ou não vai fazer o que eu lhe estou a pedir?
- Escute, o seu menino está bem, não há necessidade de o picar! E não nos resolve o problema, que daqui a quatro horas temos outra vez a febre a subir! Se calhar os senhores deviam ir novamente à consulta de Neurologia para se tranquilizarem. Temos centenas de meninos com convulsões febris e nenhuma família faz o que os senhores fazem. Não é normal, acreditem! [Oh, valha-me Santa Rita de Cássia, estou mesmo a pedi-las, é desta que vou levar porrada dentro do hospital!]
- Está bem, doutora. Mas enquanto a febre não baixar não vamos embora daqui.
- Pronto, é convosco [Ufa...], mas então vão para o jardim, não fiquem na sala de espera que ainda levam daqui outro bicho. [Desisto, se ficarem à porta da sala de reanimação também é com eles...]
Ao fim do dia saíram dali com indicação para procurarem um psicólogo...
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
[vozes brancas*] anjo da guarda...
A propósito do post de ontem, e falando sobre formas peculiares de rezar, na oração do Anjo da Guarda o baby-de-mulata também faz umas variações muito próprias.
É que "alma", enquanto elo entre o espírito e a matéria, fonte última responsável pela comunhão humana com Deus, é um conceito que penso que o baby ainda tem um pouco mal sedimentado. Por isso, ele substituiu-o por um conceito ligeiramente mais percetível e concreto, e pede todas as noites ao Anjo da Guarda: "Guardai a minha ÁGUA de noite e de dia." E a mãe do baby (esta que vos fala), senhora de uma consciência ecológica considerável e fervorosa defensora dos objetivos do milénio para o desenvolvimento, aprova! E de forma completamente acrítica, baba-se!
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
É que "alma", enquanto elo entre o espírito e a matéria, fonte última responsável pela comunhão humana com Deus, é um conceito que penso que o baby ainda tem um pouco mal sedimentado. Por isso, ele substituiu-o por um conceito ligeiramente mais percetível e concreto, e pede todas as noites ao Anjo da Guarda: "Guardai a minha ÁGUA de noite e de dia." E a mãe do baby (esta que vos fala), senhora de uma consciência ecológica considerável e fervorosa defensora dos objetivos do milénio para o desenvolvimento, aprova! E de forma completamente acrítica, baba-se!
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
[o erro em medicina] e tu, o que já fizeste por causa de um?
Há alguns anos atrás, ainda interna do primeiro ano, acabadinha de chegar ao hospital, durante uma urgência caótica de Inverno enganei-me na dose de um antibiótico. Lembro-me bem, era o Floxapen para uma celulite do tornozelo. Coisa simples. A dose não era muito mais elevada que a dose máxima e o antibiótico mais do que inócuo.
O meu problema é que eu só tinha prescrito duas embalagens e com aquela dose o antibiótico não ia dar nem para cinco dias. Com tão pouco tempo de tratamento, a infecção ia piorar a seguir de certeza. E era uma família cigana que me tinha parecido muito desorganizada, numerosa, com pouca capacidade de cuidar das crianças, condições de higiene no limiar do aceitável. Sabe Deus até se lhe iam dar o antibiótico mesmo. [Já aqui tivemos uma história parecida, sim, eu sei. A minha vida, definitivamente, dava um filme cigano...]
Fiquei preocupada. Fui buscar o processo e liguei para o número de telefone que lá estava. Atendeu-me uma mulher muito malcriada que me respondeu que não tinha filhos e que não tinha ido a hospital nenhum e que a antiga dona daquele número devia de certeza dinheiro a muita gente porque estava sempre a receber telefonemas estranhos. E que até já tinha recebido ameaças de morte. E que já estava arrependida de ter comprado aquele número. E que para a próxima ia era a uma agência autorizada e não voltava a comprar telefones na rua!
Desliguei o telefone sem me despedir. ["Mas onde é que eu me fui meter, valha-me Nossa Senhora Cigana?"] Olhei para a morada do menino: Quinta do Mocho. Pois... aquilo prometia! Liguei para a PT e expliquei a situação. Pedi o telefone correspondente à morada. Nada. Não tinha telefone atribuído. Fui ter com o polícia do hospital. Se ele me podia saber se haveria algum telemóvel associado àquela morada. Duas horas depois vinha a resposta: não, não havia telefone nenhum.
E agora, que fazer? Fui ter com a minha chefe de equipa. Eu continuava preocupada. O que é que ela achava que eu podia fazer?
- Mas estás preocupada porque disseste para fazer 8 mL de Floxapen em vez de 5 mL? Estás louca? Não tem problema nenhum!
- Sim, mas assim não vai conseguir terminar o tratamento e o miúdo vai piorar.
- Está bem, pronto. Se estás preocupada, o que podemos fazer é mandar a polícia lá a casa.
- E levar-lhes um recado?
- Não, eles não levam recados. Têm de os trazer e nós falamos com eles.
- Talvez seja melhor, então...
Duas horas depois, sou chamada à triagem. À porta estão dois polícias enormes acompanhando um homem com mau aspecto que mal reconheço, mas sim, era aquele o pai do menino. Ladeado por polícias em posição de alerta o homem ainda tinha mais ar de traficante do que antes... Vejo-lhe a expressão do rosto. Está aterrorizado!
- Boa tarde, fui eu que vi o seu filho há pouco. Tentei ligar-lhe mas não consegui, por isso mandei-o chamar aqui. A dose do antibiótico é 5 mL e não 8 mL.
- Hãn? É só isso?!
- Sim, peço desculpa...
- Está bem, está bem, doutora, não há problema - o homem só faltava pular de alegria... e virando-se para os polícias - então isso quer dizer que me posso ir embora?
[Assim como se dissesse: "Então eu tenho meio quilo de coca na minha casa, entram-me dois polícias por ali adentro, dizem-me para os acompanhar e nem mais uma palavra, metem-me no carro, trazem-me para o hospital e no fim de contas vem uma médica loira dizer-me que afinal tenho de dar 5 mL do xarope ao miúdo e não 8 ou lá o que é?! Esta gente não regula bem!"]
Pronto... A minha história é esta. Alguém quer partilhar mais alguma? O que é que já fizeram por causa de um erro médico?
O meu problema é que eu só tinha prescrito duas embalagens e com aquela dose o antibiótico não ia dar nem para cinco dias. Com tão pouco tempo de tratamento, a infecção ia piorar a seguir de certeza. E era uma família cigana que me tinha parecido muito desorganizada, numerosa, com pouca capacidade de cuidar das crianças, condições de higiene no limiar do aceitável. Sabe Deus até se lhe iam dar o antibiótico mesmo. [Já aqui tivemos uma história parecida, sim, eu sei. A minha vida, definitivamente, dava um filme cigano...]
Fiquei preocupada. Fui buscar o processo e liguei para o número de telefone que lá estava. Atendeu-me uma mulher muito malcriada que me respondeu que não tinha filhos e que não tinha ido a hospital nenhum e que a antiga dona daquele número devia de certeza dinheiro a muita gente porque estava sempre a receber telefonemas estranhos. E que até já tinha recebido ameaças de morte. E que já estava arrependida de ter comprado aquele número. E que para a próxima ia era a uma agência autorizada e não voltava a comprar telefones na rua!
Desliguei o telefone sem me despedir. ["Mas onde é que eu me fui meter, valha-me Nossa Senhora Cigana?"] Olhei para a morada do menino: Quinta do Mocho. Pois... aquilo prometia! Liguei para a PT e expliquei a situação. Pedi o telefone correspondente à morada. Nada. Não tinha telefone atribuído. Fui ter com o polícia do hospital. Se ele me podia saber se haveria algum telemóvel associado àquela morada. Duas horas depois vinha a resposta: não, não havia telefone nenhum.
E agora, que fazer? Fui ter com a minha chefe de equipa. Eu continuava preocupada. O que é que ela achava que eu podia fazer?
- Mas estás preocupada porque disseste para fazer 8 mL de Floxapen em vez de 5 mL? Estás louca? Não tem problema nenhum!
- Sim, mas assim não vai conseguir terminar o tratamento e o miúdo vai piorar.
- Está bem, pronto. Se estás preocupada, o que podemos fazer é mandar a polícia lá a casa.
- E levar-lhes um recado?
- Não, eles não levam recados. Têm de os trazer e nós falamos com eles.
- Talvez seja melhor, então...
Duas horas depois, sou chamada à triagem. À porta estão dois polícias enormes acompanhando um homem com mau aspecto que mal reconheço, mas sim, era aquele o pai do menino. Ladeado por polícias em posição de alerta o homem ainda tinha mais ar de traficante do que antes... Vejo-lhe a expressão do rosto. Está aterrorizado!
- Boa tarde, fui eu que vi o seu filho há pouco. Tentei ligar-lhe mas não consegui, por isso mandei-o chamar aqui. A dose do antibiótico é 5 mL e não 8 mL.
- Hãn? É só isso?!
- Sim, peço desculpa...
- Está bem, está bem, doutora, não há problema - o homem só faltava pular de alegria... e virando-se para os polícias - então isso quer dizer que me posso ir embora?
[Assim como se dissesse: "Então eu tenho meio quilo de coca na minha casa, entram-me dois polícias por ali adentro, dizem-me para os acompanhar e nem mais uma palavra, metem-me no carro, trazem-me para o hospital e no fim de contas vem uma médica loira dizer-me que afinal tenho de dar 5 mL do xarope ao miúdo e não 8 ou lá o que é?! Esta gente não regula bem!"]
Pronto... A minha história é esta. Alguém quer partilhar mais alguma? O que é que já fizeram por causa de um erro médico?
sábado, 5 de novembro de 2011
[a minha vida dava um filme cigano] celulite...
Serviço de Urgência na semana passada, um menino ciganito de 9 meses de idade, com um o pezito num trambolho, febre ininterrupta há dez dias, mas com o ar pacato de quem não é nada com ele, desde que, obviamente, ninguém lhe tocasse no pé, altura em que, se o seu olhar falasse, se tornava num misto entre o queixume miserável de quem sofre, e uma proto-linguagem de carroceiro indignado*... Os dois pais, muito jovens, provavelmente com menos de 18 anos, com um ar muito preocupado.
Eu, incrédula, perguntava: "Então mas só agora é que vêm ao médico?" Se há coisa que não é habitual é os meninos ciganos não serem protegidos na doença. Pelo contrário, uma criança doente mobiliza famílias inteiras. Alguma coisa de muito anormal se teria passado.
E os pais iam respondendo que sim, que já o tinham levado ao centro de saúde e que lhes tinham dito que o menino tinha uma celulite do pé.
- Precisamente, é isso mesmo. Mas então deram-lhes antibiótico para o menino tomar...
- Sim, Doutora - respondia o pai -, mas a médica disse que se o antibiótico não funcionasse o menino se calhar tinha de ser lancetado. E eu ganhei medo e então nã lhe dei...
- Mas isso faz algum sentido?
- Não, Doutora, eu sei que já fiz asneira... Mas depois a minha mulher foi pedir uma segunda opinião.
- Então?
- Eu depois fui à farmácia pedir tratamentos para a celulite - continuava a mãe -, e eles venderam-me uns cremes para pôr ao menino. Caríssimos, Doutora, e não lhe fizeram nada!
- Cremes para a celulite? Mas isso é para a celulite das senhoras, não é para este tipo de celulite! Isto é uma infecção!
- Pois, eles também acharam estranho que o menino tão pequenino já tivesse celulite, mas eu então disse que era para mim.
Mais uma história tragico-cómica, valha-me Nossa Senhora Cigana...
- Mas há quanto tempo é que isso foi?
- Foi há oito dias. Mas como o menino não melhorava, nós decidimos vir aqui - defendia-se o pai.
- Mas ele não melhorava porque também não deixava muito bem pôr os cremes - explicava a mãe -, os cremes eram frescos e ele até se sentia bem ao princípio, mas depois deixou de fazer efeito.
- Os senhores têm é muita sorte, que o menino é rijo, se não a estas horas a infecção já lhe tinha atacado os ossos!
- Sim, Doutora.
- Bem, então vamos lá ver se nos entendemos. Têm aqui a receita do antibiótico, mas vão fazer mesmo? É preciso ter muita atenção. Qual dos dois é que sabe ler bem?
- A minha mulher.
- Sim, Doutora, eu não sou cigana!
Pronto, estava tudo explicado! Era um casal de miúdos e o pai tinha sido expulso da família de certeza, por ter casado fora da tradição. Daí aquela desprotecção do menino e os disparates atrás de disparates sem que ninguém tivesse vindo atrás para defender a criança e obrigar os pais a ir ao médico.
- Vamos lá, então, é uma colher cheia de 8/8 horas. Sabe como é que se faz um medicamento de 8/8 horas?
- Então... É às oito da noite... e às oito da manhã.
- Bem... se calhar é melhor o menino ficar internado aqui connosco, o que é que acham?
* Quer dizer, nós já tivemos algures esta conversa... Já não existem carroceiros, eu sei, mas a língua portuguesa evolui mais lentamente do que os meios de transporte.
Eu, incrédula, perguntava: "Então mas só agora é que vêm ao médico?" Se há coisa que não é habitual é os meninos ciganos não serem protegidos na doença. Pelo contrário, uma criança doente mobiliza famílias inteiras. Alguma coisa de muito anormal se teria passado.
E os pais iam respondendo que sim, que já o tinham levado ao centro de saúde e que lhes tinham dito que o menino tinha uma celulite do pé.
- Precisamente, é isso mesmo. Mas então deram-lhes antibiótico para o menino tomar...
- Sim, Doutora - respondia o pai -, mas a médica disse que se o antibiótico não funcionasse o menino se calhar tinha de ser lancetado. E eu ganhei medo e então nã lhe dei...
- Mas isso faz algum sentido?
- Não, Doutora, eu sei que já fiz asneira... Mas depois a minha mulher foi pedir uma segunda opinião.
- Então?
- Eu depois fui à farmácia pedir tratamentos para a celulite - continuava a mãe -, e eles venderam-me uns cremes para pôr ao menino. Caríssimos, Doutora, e não lhe fizeram nada!
- Cremes para a celulite? Mas isso é para a celulite das senhoras, não é para este tipo de celulite! Isto é uma infecção!
- Pois, eles também acharam estranho que o menino tão pequenino já tivesse celulite, mas eu então disse que era para mim.
Mais uma história tragico-cómica, valha-me Nossa Senhora Cigana...
- Mas há quanto tempo é que isso foi?
- Foi há oito dias. Mas como o menino não melhorava, nós decidimos vir aqui - defendia-se o pai.
- Mas ele não melhorava porque também não deixava muito bem pôr os cremes - explicava a mãe -, os cremes eram frescos e ele até se sentia bem ao princípio, mas depois deixou de fazer efeito.
- Os senhores têm é muita sorte, que o menino é rijo, se não a estas horas a infecção já lhe tinha atacado os ossos!
- Sim, Doutora.
- Bem, então vamos lá ver se nos entendemos. Têm aqui a receita do antibiótico, mas vão fazer mesmo? É preciso ter muita atenção. Qual dos dois é que sabe ler bem?
- A minha mulher.
- Sim, Doutora, eu não sou cigana!
Pronto, estava tudo explicado! Era um casal de miúdos e o pai tinha sido expulso da família de certeza, por ter casado fora da tradição. Daí aquela desprotecção do menino e os disparates atrás de disparates sem que ninguém tivesse vindo atrás para defender a criança e obrigar os pais a ir ao médico.
- Vamos lá, então, é uma colher cheia de 8/8 horas. Sabe como é que se faz um medicamento de 8/8 horas?
- Então... É às oito da noite... e às oito da manhã.
- Bem... se calhar é melhor o menino ficar internado aqui connosco, o que é que acham?
* Quer dizer, nós já tivemos algures esta conversa... Já não existem carroceiros, eu sei, mas a língua portuguesa evolui mais lentamente do que os meios de transporte.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
[a minha vida dava um filme cigano] ...não tinha as cédulas necessárias
Ontem encontrei no corredor do hospital a mãe de uma menina cigana, já muito minha conhecida de "outros carnavais", que tinha sido internada no dia anterior para uma cirurgia programada.
- Boa tarde, então a sua menina já foi operada?
[Desconsolada] - Não, Doutora, nã foi...
- Então?
- Disseram que não tinha cédulas...
- Não tinha cédula? Mas não está registada a menina?!
- Nã sei, Doutora, disseram que nã tinha as cédulas necessárias para ser operada...
- Mas isso é muito estranho...
- Pois, Doutora, eles também disseram que era estranho e por isso mudaram-na de enfermaria...
- Mudaram-na de enfermaria?!
- Sim, porque tinha as cédulas baixas não podia estar ali, tinha de ficar no isolamento...
[Ai, valha-me Santo Inácio, que já percebi tudo...]
- Então foi transferida porque tinha as células do sangue baixas?
- Isso, Doutora. Eles até achavam que tinha uma dulcemia, mas afinal parece que nã é nada disso! Já está melhor...
- Ah... Ainda bem... Então as melhoras.
- Boa tarde, então a sua menina já foi operada?
[Desconsolada] - Não, Doutora, nã foi...
- Então?
- Disseram que não tinha cédulas...
- Não tinha cédula? Mas não está registada a menina?!
- Nã sei, Doutora, disseram que nã tinha as cédulas necessárias para ser operada...
- Mas isso é muito estranho...
- Pois, Doutora, eles também disseram que era estranho e por isso mudaram-na de enfermaria...
- Mudaram-na de enfermaria?!
- Sim, porque tinha as cédulas baixas não podia estar ali, tinha de ficar no isolamento...
[Ai, valha-me Santo Inácio, que já percebi tudo...]
- Então foi transferida porque tinha as células do sangue baixas?
- Isso, Doutora. Eles até achavam que tinha uma dulcemia, mas afinal parece que nã é nada disso! Já está melhor...
- Ah... Ainda bem... Então as melhoras.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
[a minha vida dava um filme cigano] aprender a falar...
No corredor do hospital no mês passado, um colega meu Neuropediatra encontrou o pai de um menino cigano de cinco anos, que tinha ido à sua consulta no ano anterior por um atraso gravíssimo da linguagem. Nunca mais regressara à consulta apesar dos esforços do médico em contactar a família, já que a situação era muito preocupante (um clássico: os números de telefone nestes casos nunca são verdadeiros...). O Neuropediatra, senhor de uma memória fotográfica de fazer inveja, faz parar o pai, que assobiava para o lado, tentando passar de fininho...
- Então o senhor nunca mais me apareceu na consulta com o menino?
- [Olhando para baixo...] Hã... Doutori... Pois foi. Nunca mais... [E, de repente, com a face iluminada por um sorriso...] Mas é que ele está muito melhori!
- Está melhor? Então? Mas já diz alguma coisa?
- [Com um grande entusiasmo!] Sim, Doutori, vêja lá que o cabr*** já diz fi*** da p***!
Enfim, como diria o Lépido, tem de se começar por algum lado...
- Então o senhor nunca mais me apareceu na consulta com o menino?
- [Olhando para baixo...] Hã... Doutori... Pois foi. Nunca mais... [E, de repente, com a face iluminada por um sorriso...] Mas é que ele está muito melhori!
- Está melhor? Então? Mas já diz alguma coisa?
- [Com um grande entusiasmo!] Sim, Doutori, vêja lá que o cabr*** já diz fi*** da p***!
Enfim, como diria o Lépido, tem de se começar por algum lado...
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
terça-feira, 23 de novembro de 2010
[a minha vida dava um filme cigano] os doentes devem estar loucos
Esta tarde na consulta com um adolescente cigano e a sua família (felizmente apenas os pais e dois irmãos mais novos):
- Então, Mário, como é que tens passado das tuas alergias e das faltas de ar?
- [Com um ar de enfado] Estou naaa mesma!
- Na mesma?
- [Com o mesmo ar de que aquilo era uma seca que não tinha nada a ver com ele] Sim, naaa mesma!
- É mesmo verdade, mãe?
- [Com uma cara igualzinha à do filho] Sim, Sotôra, ele está na mesma, nã teve melhoras nenhumas desde que cá veio...
- Mas fez bem a medicação que eu lhe passei?
- Não, Sotôra, ele não tomou nada!
(Is it just me or...)
- Então, Mário, como é que tens passado das tuas alergias e das faltas de ar?
- [Com um ar de enfado] Estou naaa mesma!
- Na mesma?
- [Com o mesmo ar de que aquilo era uma seca que não tinha nada a ver com ele] Sim, naaa mesma!
- É mesmo verdade, mãe?
- [Com uma cara igualzinha à do filho] Sim, Sotôra, ele está na mesma, nã teve melhoras nenhumas desde que cá veio...
- Mas fez bem a medicação que eu lhe passei?
- Não, Sotôra, ele não tomou nada!
(Is it just me or...)
sábado, 30 de outubro de 2010
[as melhores do serviço de urgência] esta urgência dava um filme cigano
Há alguns anos atrás, numa cálida noite de verão, estavam três colegas meus, ainda alunos do último ano de Medicina na sala de pequena cirurgia do São José - essa grandiosa urgência de Lisboa - quando entra um jovem cigano trazido de maca após ter sido esfaqueado num ombro, com a roupa cheia de sangue e inconsciente. Era o terceiro doente esfaqueado nessa noite numa esquina do Martim Moniz pelo mesmo assaltante, que entretanto só acabou por ser preso de madrugada...
Enquanto um deles ia chamar os colegas mais velhos que estavam noutra sala a tratar dos primeiros esfaqueados da noite, os outros dois colegas e o enfermeiro de serviço apressaram-se a calçar umas luvas e socorrer o doente. Ora acontece que, há alguns anos atrás, os meus colegas eram alguns anos mais novos (mais uma vez este blog presta homenagem aos jovens soldados foliões que imortalizaram o Marquês de la Palice) e consta que o enfermeiro que estava de serviço era igualmente alguns anos mais jovem e também bastante novinho...
Foi aí que começou o grande aperto: o doente vinha inconsciente e a sangrar activamente do ombro e os meus colegas, tal como mandam os bons preceitos do suporte de vida, em vez de tentarem estancar a hemorragia começaram a avaliar os sinais vitais enquanto o enfermeiro, absolutamente ignorado, os olhava, parado, à espera de instruções:
Colega 1 [posicionando a via aérea] - Vê lá se respira...
Cinco segundos depois:
Colega 2 - Acho que não... [Olhando anelante para a porta, à espera de ver aparecer a qualquer momento os colegas mais velhos e palpando o pescoço em busca do pulso carotídeo... a aflição crescendo cada vez mais...] ...e também não tem pulso. Está em paragem!
Colega 1 - Dá-lhe um murro no peito. Temos de começar massagem cardíaca!
Nisto o doente, muito a custo, abre um olho, tenta levantar o pescoço e diz em voz arrastada mas muito indignado:
- Eh, lá... ê só tou bêbado!
Enquanto um deles ia chamar os colegas mais velhos que estavam noutra sala a tratar dos primeiros esfaqueados da noite, os outros dois colegas e o enfermeiro de serviço apressaram-se a calçar umas luvas e socorrer o doente. Ora acontece que, há alguns anos atrás, os meus colegas eram alguns anos mais novos (mais uma vez este blog presta homenagem aos jovens soldados foliões que imortalizaram o Marquês de la Palice) e consta que o enfermeiro que estava de serviço era igualmente alguns anos mais jovem e também bastante novinho...
Foi aí que começou o grande aperto: o doente vinha inconsciente e a sangrar activamente do ombro e os meus colegas, tal como mandam os bons preceitos do suporte de vida, em vez de tentarem estancar a hemorragia começaram a avaliar os sinais vitais enquanto o enfermeiro, absolutamente ignorado, os olhava, parado, à espera de instruções:
Colega 1 [posicionando a via aérea] - Vê lá se respira...
Cinco segundos depois:
Colega 2 - Acho que não... [Olhando anelante para a porta, à espera de ver aparecer a qualquer momento os colegas mais velhos e palpando o pescoço em busca do pulso carotídeo... a aflição crescendo cada vez mais...] ...e também não tem pulso. Está em paragem!
Colega 1 - Dá-lhe um murro no peito. Temos de começar massagem cardíaca!
Nisto o doente, muito a custo, abre um olho, tenta levantar o pescoço e diz em voz arrastada mas muito indignado:
- Eh, lá... ê só tou bêbado!
terça-feira, 19 de outubro de 2010
[a minha vida dava um filme cigano] uma questão de mentalização
Há tempos, uma amiga minha estava no Serviço de Urgência, quando chega uma adolescente cigana de seus 15 anos, pequenita, enfezadita, a arder em febre mas com um ar de esperteza vivaça, acompanhada por sua mãe, uma matriarca obesa vestida de preto, com a cabeça coberta por um lenço e com um ar que anunciava "Eu tive dez filhos e só por milagre é que sobreviveram todos..." E a adolescente, de seu nome Sueli (mais um dos tais nomes que não auguram nada de bom), pequenita, enfezadita, quase não conseguia engolir a própria saliva tal era o calibre da amigdalite, que literalmente lhe transbordava até às orelhas...
Mal a menina abriu a boca, o diagnóstico ficou feito e a minha colega começou a tentar convencer a matriarca de que uma injecção de penicilina é que era o melhor tratamento. E que os sintomas passariam mais rápido e que a menina não estava em condições de conseguir tomar comprimidos e que depois os pais iam para venda e a menina ficava em casa e não-ia-tomar-a-medicação-que-a-gente-sabe-muito-bem-como-é que-são-as-coisas-já-tivemos-a-idade-dela-não-é... E que depois ela tinha de tomar conta dos irmãos e não podia. (Sim, que não vale a pena tentar fingir que não sabemos que a menina não anda na escola desde os 10 anos e que vai ficar aferrolhada em casa a tomar conta dos irmãos até se casar). E que rebeubeubéu-pardais-ao-ninho...
A menina é que não estava pelos ajustes. Que não queria injecção nenhuma, que não queria, não queria, não queria... e rapidamente entrámos na fase da baba e do ranho e do lamento cigano que bem conhecemos, meio carpido, meio gemido, meio cantado (e não me venham dizer outra vez que bem feitas as contas isso dá lamento e meio, que eu para contar tenho jeito para histórias e mesmo assim só às vezes...). A mãe, já por seu lado, por um lado estava de acordo com a injecção, por outro lado não tinha mão na filha. E, como também não tinha poder de persuasão, chegou-se a um impasse.
- Bem - disse a minha colega, tentando manter a calma - talvez seja melhor então chamar o pai para decidir... ele está lá fora?
- Sim, sim, Sotôra. É melhor chamá-lo.
- Como é que ele se chama?
- É Nando.
- Fernando quê?
- Nã é Fernando, é Armando.
- Armando quê? [Continuando a tentar manter a calma.]
- Armando Silva.
Dez segundos depois entra o Sr. Armando Silva com um ar de poucos amigos:
- Entã o que é que se passa?
- Olhe, a sua filha está com uma infecção na garganta e precisa de tomar uma injecção de penicilina para isto passar mais rápido e de vez.
[O lamento da menina continuava em ruído de fundo.]
- Está bem. E depois?
- Mas ela está muito receosa da injecção e não quer tomar. Se calhar é melhor irem lá fora conversar um pouco com ela e tentar mentalizá-la de que tem mesmo de tomar a injecção para a doença passar mais rápido.
[O ruído de fundo cada vez mais alto.]
- Está bem, Sotôra.
- Sim, então vão lá [suspirando de alívio e preparando-se para chamar o próximo doente] e depois voltem aqui.
Saem os três da sala de consulta para o corredor e ouve-se uma voz masculina num grande chorrilho de palavrões, acompanhado de um "Ai Nando, nã batas na tua filha!".
Nem tempo tinha tido de chamar o doente seguinte, quando entram novamente na sala, com a adolescente com as faces muito coradas e caladinha que nem um rato num autoclismo.
- Pronto, Sotôra, já está mentalizada! Vamos lá rápido que temos de voltar para a venda!
Mal a menina abriu a boca, o diagnóstico ficou feito e a minha colega começou a tentar convencer a matriarca de que uma injecção de penicilina é que era o melhor tratamento. E que os sintomas passariam mais rápido e que a menina não estava em condições de conseguir tomar comprimidos e que depois os pais iam para venda e a menina ficava em casa e não-ia-tomar-a-medicação-que-a-gente-sabe-muito-bem-como-é que-são-as-coisas-já-tivemos-a-idade-dela-não-é... E que depois ela tinha de tomar conta dos irmãos e não podia. (Sim, que não vale a pena tentar fingir que não sabemos que a menina não anda na escola desde os 10 anos e que vai ficar aferrolhada em casa a tomar conta dos irmãos até se casar). E que rebeubeubéu-pardais-ao-ninho...
A menina é que não estava pelos ajustes. Que não queria injecção nenhuma, que não queria, não queria, não queria... e rapidamente entrámos na fase da baba e do ranho e do lamento cigano que bem conhecemos, meio carpido, meio gemido, meio cantado (e não me venham dizer outra vez que bem feitas as contas isso dá lamento e meio, que eu para contar tenho jeito para histórias e mesmo assim só às vezes...). A mãe, já por seu lado, por um lado estava de acordo com a injecção, por outro lado não tinha mão na filha. E, como também não tinha poder de persuasão, chegou-se a um impasse.
- Bem - disse a minha colega, tentando manter a calma - talvez seja melhor então chamar o pai para decidir... ele está lá fora?
- Sim, sim, Sotôra. É melhor chamá-lo.
- Como é que ele se chama?
- É Nando.
- Fernando quê?
- Nã é Fernando, é Armando.
- Armando quê? [Continuando a tentar manter a calma.]
- Armando Silva.
Dez segundos depois entra o Sr. Armando Silva com um ar de poucos amigos:
- Entã o que é que se passa?
- Olhe, a sua filha está com uma infecção na garganta e precisa de tomar uma injecção de penicilina para isto passar mais rápido e de vez.
[O lamento da menina continuava em ruído de fundo.]
- Está bem. E depois?
- Mas ela está muito receosa da injecção e não quer tomar. Se calhar é melhor irem lá fora conversar um pouco com ela e tentar mentalizá-la de que tem mesmo de tomar a injecção para a doença passar mais rápido.
[O ruído de fundo cada vez mais alto.]
- Está bem, Sotôra.
- Sim, então vão lá [suspirando de alívio e preparando-se para chamar o próximo doente] e depois voltem aqui.
Saem os três da sala de consulta para o corredor e ouve-se uma voz masculina num grande chorrilho de palavrões, acompanhado de um "Ai Nando, nã batas na tua filha!".
Nem tempo tinha tido de chamar o doente seguinte, quando entram novamente na sala, com a adolescente com as faces muito coradas e caladinha que nem um rato num autoclismo.
- Pronto, Sotôra, já está mentalizada! Vamos lá rápido que temos de voltar para a venda!
quinta-feira, 22 de julho de 2010
[as melhores do serviço de urgência] a minha vida dava um filme cigano
Serviço de Urgência, mãe com bebé ranhosíssimo, a transbordar de secreções arejadas por todos os orifícios respiratórios. E uma pediatra condoída com o resfolegar aflito, quase equídeo, de uma criança tão pequena.
- Bem, então vai dar-lhe uma colher de café deste xarope, duas vezes por dia nos próximos cinco dias.
- Ah... uma colher de café?
- Sim, duas vezes por dia. Mas não lhe pode dar mais do que cinco dias...
- Não mais do que cinco dias, está bem.
- Vai tudo escrito na receita. Alguém sabe ler bem lá em casa?
- O meu marido sabe. Obrigada.
A senhora faz menção de voltar costas, mas de repente, com um ar de quem se lembra de qualquer coisa, volta para trás:
- Doutora, disse uma colher de café...
- Exactamente, uma colher pequenina.
- Pode ser Nescafé?
- Bem, então vai dar-lhe uma colher de café deste xarope, duas vezes por dia nos próximos cinco dias.
- Ah... uma colher de café?
- Sim, duas vezes por dia. Mas não lhe pode dar mais do que cinco dias...
- Não mais do que cinco dias, está bem.
- Vai tudo escrito na receita. Alguém sabe ler bem lá em casa?
- O meu marido sabe. Obrigada.
A senhora faz menção de voltar costas, mas de repente, com um ar de quem se lembra de qualquer coisa, volta para trás:
- Doutora, disse uma colher de café...
- Exactamente, uma colher pequenina.
- Pode ser Nescafé?
domingo, 4 de julho de 2010
[alhos e blogalhos] nossa senhora do google, rogai por nós
Ao senhor investigador - ou senhora, não faço a menor ideia, os IP não vêm com género, mas imaginei um homem, não sei porquê - que veio aqui ao mato, ou ao meu cantinho, como habitualmente se diz na blogosfera, à boleia do google para aprender a falar com sotaque cigano, posso sugerir* três formas honestas e igualmente eficazes:
a) Pode ir trabalhar para o meu hospital: um dia naquele Serviço de Urgência e até fica a saber como é possível um bebé chorar num choro gritado com sotaque (verdade, verdadinha!). Três dias depois já consegue certamente gemer um lamento cigano (em dó menor, eles gemem sempre em dó menor...). E se lá ficar noites suficientes a vaguear pelas enfermarias, como bónus ainda pode ter a sorte de aprender as canções de embalar mais bonitas que existem, que são as que as mães ciganas cantam para os filhos. Eu própria às vezes, quando sou chamada a uma enfermaria durante a noite, me demoro um bocadinho a ouvi-las...;
b) Pode ir fazer trabalho de voluntariado para a Cova da Moura ou outro bairro afim;
c) Pode tentar seduzir uma cigana e fugir com ela dois dias depois para escapar à ira da família. No fim casa-se com ela em segredo (eu disse que era uma forma honesta e portanto, se é para ser honesto, é para casar, ok?).
Boa sorte!
* Na qualidade de expert no assunto.
a) Pode ir trabalhar para o meu hospital: um dia naquele Serviço de Urgência e até fica a saber como é possível um bebé chorar num choro gritado com sotaque (verdade, verdadinha!). Três dias depois já consegue certamente gemer um lamento cigano (em dó menor, eles gemem sempre em dó menor...). E se lá ficar noites suficientes a vaguear pelas enfermarias, como bónus ainda pode ter a sorte de aprender as canções de embalar mais bonitas que existem, que são as que as mães ciganas cantam para os filhos. Eu própria às vezes, quando sou chamada a uma enfermaria durante a noite, me demoro um bocadinho a ouvi-las...;
b) Pode ir fazer trabalho de voluntariado para a Cova da Moura ou outro bairro afim;
c) Pode tentar seduzir uma cigana e fugir com ela dois dias depois para escapar à ira da família. No fim casa-se com ela em segredo (eu disse que era uma forma honesta e portanto, se é para ser honesto, é para casar, ok?).
Boa sorte!
* Na qualidade de expert no assunto.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
[vozes brancas* #17] com sotaque cigano
Esta manhã, na consulta, estive a ver um menino de etnia cigana de 11 anos, com um humor irritável até à quinta casa, muito mal disposto por ter de estar ali sentado na consulta e com uma linguagem de insultar um taxista. Digo taxista porque hoje em dia já não existem carroceiros. Nem mesmo entre os ciganos. Se bem que comparar a linguagem daquele miúdo à de um taxista talvez fosse pouco. Só se fosse um taxista pouco polido e com uma história anterior de acidente isquémico do lobo frontal. Só que hoje em dia também não devem existir assim tantos, sobretudo com aquele pormenor do AVC... Mas pronto, se calhar já perceberam a ideia e arrematávamos por aqui, que esta é a melhor comparação que consigo arranjar neste momento: o rapaz tinha uma linguagem de fazer corar um taxista pouco polido e com o lobo frontal avariado.
Adiante. Ora, eu precisava de lhe medir o volume dos testículos, procedimento para o qual se utiliza uma espécie de colar, com contas progressivamente maiores que se comparam com o tamanho dos "amiguinhos". Como o menino se recusasse a ser observado, mandei buscar os homens da família para o imobilizar (por uma vez na vida agradeci que nesta etnia fossem sempre famílias inteiras a acompanhar as crianças ao hospital). E com o pai, o avô e o padrinho com cara de poucos amigos dentro da sala, o menino lá se dispôs "voluntariamente" a despir-se e medi-o rapidamente.
- Estás a ver, Moisés, o direito tem... 2 e o esquerdo... deixa cá ver... olha, também!
Responde o menino, com um ar maroto:
- Ah... entã isso deve ser o que vamos teri hoje à noite!
A minha cara de oh,valha-me Deus deve ter sido bastante expressiva, porque a mãe se apressou a explicar de imediato:
- Nã ligue, Doutora, que ele está a falari é do jogo de futeboli! Está a dizeri que hoje vamos empatari 2 a 2 no Portugal-Brasil...
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
Adiante. Ora, eu precisava de lhe medir o volume dos testículos, procedimento para o qual se utiliza uma espécie de colar, com contas progressivamente maiores que se comparam com o tamanho dos "amiguinhos". Como o menino se recusasse a ser observado, mandei buscar os homens da família para o imobilizar (por uma vez na vida agradeci que nesta etnia fossem sempre famílias inteiras a acompanhar as crianças ao hospital). E com o pai, o avô e o padrinho com cara de poucos amigos dentro da sala, o menino lá se dispôs "voluntariamente" a despir-se e medi-o rapidamente.
- Estás a ver, Moisés, o direito tem... 2 e o esquerdo... deixa cá ver... olha, também!
Responde o menino, com um ar maroto:
- Ah... entã isso deve ser o que vamos teri hoje à noite!
A minha cara de oh,valha-me Deus deve ter sido bastante expressiva, porque a mãe se apressou a explicar de imediato:
- Nã ligue, Doutora, que ele está a falari é do jogo de futeboli! Está a dizeri que hoje vamos empatari 2 a 2 no Portugal-Brasil...
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
domingo, 30 de maio de 2010
[a minha vida dava um filme cigano]
Serviço de Urgência há duas semanas. Uma menina cigana com sinais meníngeos, febre elevadíssima, muito prostrada. Mãe cigana muito jovem e muito assustada. [Isto promete...] Explico-lhe, com muito cuidado, que temos de "tirar líquido da espinha" à menina para ver se é mesmo meningite.
- Mas isso dói, Senhora Doutora?
- É mais ou menos como fazer uma epidural. Quando teve a sua menina fez epidural?
- Sim.
- E não doeu muito, pois não?
- Não. É a mesma coisa?
- Sim, não se preocupe. O problema é que ela tem de ficar quieta e por isso temos de a agarrar. Ela vai ter medo.
- Está bem.
[Bem, isto se calhar é capaz de nem correr muito mal...] Levamos a menina para a sala de tratamentos com a jovem mãe assustada, a chorar num choro meio carpido, meio gemido, meio cantado [o que daria, bem contadinho, um choro e meio, mas escusam de reclamar, que isto é apenas um blogue, não é contabilidade]. Quando está tudo a postos convido-a a sair da sala porque é um procedimento "que faz muita impressão", mas ela recusa. Deixo-a ficar, sob o olhar reprovador do enfermeiro-chefe, que achava que seria melhor a mãe sair.
Durante a punção lombar a menina debate-se, tenta espernear e a mãe descontrola-se. Sob o olhar de "Eu bem avisei!" do enfermeiro-chefe, a jovem mãe grita, chora, arrepela os cabelos, chama-me nomes. Só não me agride porque estou resguardada entre dois enfermeiros e a marquesa. A punção, felizmente, corre sem problemas. [De onde se constata que se a situação bem prometia, melhor cumpriu, que a situação é uma situação cigana, pobrezinha mas honrada, ora essa.]
- Mas porque é que está tão aflita, mãe? Eu prometo-lhe que vamos cuidar bem da sua menina.
A mãe cai em si e começa a chorar mais controlada. [Obrigada, minha Nossa Senhora dos Aflitos, a ver se isto 'inda se compõe...]
- Também estou aqui sozinha... - desabafa - vou telefonar à minha mãe.
- Isso, vá chamar a sua mãe - respondo, solícita -, olhe que nós também sabemos que isto é dose, não deve passar por tudo sozinha...
[O olhar do enfermeiro-chefe, agora absolutamente furibundo, faz-me perceber que se calhar acabei de perder mais uma oportunidade para ficar calada...]
- Muito bem, Doutora! Agora, para além de termos uma menina com meningite para cuidar, vamos ter de pôr a polícia à porta para não deixar a família toda invadir o serviço.
- Mas, Sr. Enfermeiro, ela é tão jovem e estava tão desnorteada... Metia dó. [Bem... nada me garante que a mãe vai conseguir acalmá-la... Realmente em matéria de histeria, pior do que uma cigana, só mesmo uma família inteira de mulheres ciganas... O melhor é não dizer mais nada.]
O líquido sai límpido, como cristal de rocha. Um suspiro de júbilo de toda a equipa. A menina fica muito melhor depois da punção. Diz que a cabeça deixou de doer, quer deitar-se e adormece tranquilamente. É uma meningite viral!
Vou ter com a mãe e dou-lhe a boa notícia, que a filha ficou logo muito melhor e que a meningite afinal parece ser causada por um vírus. Uma longa explicação sobre o que é que isso quer dizer...
A mãe, felizmente, percebeu a explicação e acreditou em mim, porque dali a pouco veio uma enfermeira dar-me os parabéns por ter conseguido acalmar a mãe:
- Ouvi-a dizer ao telefone que a menina tinha uma "mingite" na cabeça, mas que era fraca e por isso não era preciso vir a família toda!
- Mas isso dói, Senhora Doutora?
- É mais ou menos como fazer uma epidural. Quando teve a sua menina fez epidural?
- Sim.
- E não doeu muito, pois não?
- Não. É a mesma coisa?
- Sim, não se preocupe. O problema é que ela tem de ficar quieta e por isso temos de a agarrar. Ela vai ter medo.
- Está bem.
[Bem, isto se calhar é capaz de nem correr muito mal...] Levamos a menina para a sala de tratamentos com a jovem mãe assustada, a chorar num choro meio carpido, meio gemido, meio cantado [o que daria, bem contadinho, um choro e meio, mas escusam de reclamar, que isto é apenas um blogue, não é contabilidade]. Quando está tudo a postos convido-a a sair da sala porque é um procedimento "que faz muita impressão", mas ela recusa. Deixo-a ficar, sob o olhar reprovador do enfermeiro-chefe, que achava que seria melhor a mãe sair.
Durante a punção lombar a menina debate-se, tenta espernear e a mãe descontrola-se. Sob o olhar de "Eu bem avisei!" do enfermeiro-chefe, a jovem mãe grita, chora, arrepela os cabelos, chama-me nomes. Só não me agride porque estou resguardada entre dois enfermeiros e a marquesa. A punção, felizmente, corre sem problemas. [De onde se constata que se a situação bem prometia, melhor cumpriu, que a situação é uma situação cigana, pobrezinha mas honrada, ora essa.]
- Mas porque é que está tão aflita, mãe? Eu prometo-lhe que vamos cuidar bem da sua menina.
A mãe cai em si e começa a chorar mais controlada. [Obrigada, minha Nossa Senhora dos Aflitos, a ver se isto 'inda se compõe...]
- Também estou aqui sozinha... - desabafa - vou telefonar à minha mãe.
- Isso, vá chamar a sua mãe - respondo, solícita -, olhe que nós também sabemos que isto é dose, não deve passar por tudo sozinha...
[O olhar do enfermeiro-chefe, agora absolutamente furibundo, faz-me perceber que se calhar acabei de perder mais uma oportunidade para ficar calada...]
- Muito bem, Doutora! Agora, para além de termos uma menina com meningite para cuidar, vamos ter de pôr a polícia à porta para não deixar a família toda invadir o serviço.
- Mas, Sr. Enfermeiro, ela é tão jovem e estava tão desnorteada... Metia dó. [Bem... nada me garante que a mãe vai conseguir acalmá-la... Realmente em matéria de histeria, pior do que uma cigana, só mesmo uma família inteira de mulheres ciganas... O melhor é não dizer mais nada.]
O líquido sai límpido, como cristal de rocha. Um suspiro de júbilo de toda a equipa. A menina fica muito melhor depois da punção. Diz que a cabeça deixou de doer, quer deitar-se e adormece tranquilamente. É uma meningite viral!
Vou ter com a mãe e dou-lhe a boa notícia, que a filha ficou logo muito melhor e que a meningite afinal parece ser causada por um vírus. Uma longa explicação sobre o que é que isso quer dizer...
A mãe, felizmente, percebeu a explicação e acreditou em mim, porque dali a pouco veio uma enfermeira dar-me os parabéns por ter conseguido acalmar a mãe:
- Ouvi-a dizer ao telefone que a menina tinha uma "mingite" na cabeça, mas que era fraca e por isso não era preciso vir a família toda!
sábado, 15 de maio de 2010
[circularidades de uma pediatra loira] a minha vida dava um filme cigano

Há alguns anos, era eu uns anos mais nova (com a devida vénia aos soldados gozões que imortalizaram o Marquês de la Palice), quando uma noite, estando de urgência no meu hospital, uma colega me veio chamar porque estava a ver um menino de etnia cigana e suspeitava que ele podia ter uma displasia ectodérmica (tinha dois anos, ainda não tinha dentinho nenhum - e, ao contrário da outra mãe, esta nunca o tinha pensado em levar ao dentista - tinha muito pouco cabelo, não transpirava e tinha infecções respiratórias umas atrás das outras).
A mãe, como qualquer cigana que se preze, estava apenas preocupada com as "inginas" e com o "gómitos" e completamente a leste do quadro global. Expliquei-lhe que lhe ia marcar uma consulta para esclarecermos melhor o que se passava, mas a mãe começou de imediato a desvalorizar a situação. E que tinha de ir todos os dias com o marido para a venda e que não ia ter tempo, que até já uma vez tinha andado lá no hospital nas consultas com o irmão mais velho porque "era atrasado" e que até o "tinham posto a dormir para fazer uma sornância" e nunca se tinha descoberto nada. Que não, que não ia, que ela não era pessoa para acreditar em médicos e andar em hospitais a perder tempo.
Lá me enchi de paciência e expliquei à mãe que a consulta era para ver se o menino deixava de ter tantas vezes falta de ar, para perceber se ele transpirava ou não porque se não transpirasse de todo podia ter um golpe de calor - e até podia ter convulsões - e para esclarecer por que é que ainda não tinham nascido os dentinhos ao menino. Isto, pelo menos, é o que eu me recordo de ter dito. Como se a mãe tivesse ficado razoavelmente convencida, marquei a consulta para a semana seguinte.
Na segunda-feira, chego de manhã ao hospital e deparo-me com um acampamento de ciganos por todo o jardim, as carrinhas nas traseiras do hospital, fogões de ar livre estrategicamente montados mesmo em frente ao reservatório de gases medicinais e vários grupos dispersos, sentados aqui e ali como quem espera alguma notícia importante e pensei: "Deve estar algum ciganito muito doente internado por aí em alguma enfermaria..." E fui trabalhar.
Ao início da tarde deixei a enfermaria e fui para o pavilhão das consultas. De súbito, reconheci os pais do menino que eu tinha mandado vir à minha consulta, notei que estavam numa posição de destaque no grupo, que pareciam tensos e que cochicharam qualquer coisa para um homem mais velho, após o que todos se voltaram na minha direcção... E foi mais ou menos assim que percebi que aquele ajuntamento étnico estava à espera... da minha pessoa. E preparavam-se para me seguir para dentro do pavilhão.
Engoli em seco e lá fiz das tripas coração, dirigi-me à mãe, cumprimentei-a e perguntei-lhe quem era o sogro. Este apresentou-se de imediato e convidei-o para entrar como acompanhante dos pais. Para meu alívio, ele fez o que se espera de um chefe de família: voltou-se para a multidão e ordenou-lhes que esperassem, que ele ia ali a uma consulta com o neto e já vinha.
Lá entrámos, comigo intrigadíssima por aquele aparato todo, com a mãe e o pai a desfazerem-se em lágrimas e com o avô com um ar muito circunspecto. "Isto promete...", pensei. Já na consulta, depois de algumas perguntas, fiquei a saber que a mãe tinha percebido que eu lhe tinha dito que o menino não teria dentes.
- Como?! - exclamei para mim mesma. Mas verdade verdadinha é que, embora eu não me lembrasse de lhe ter dito isso, lá que existia essa possibilidade, existia... E então, ó valesse-me Nosso Senhor dos Aflitos, como é que eu ia descalçar aquela bota assim sem mais nem menos? Lá peguei no telefone e expliquei à técnica de radiologia que precisava de uma ortopantomografia urgente. Que sabia que não era um exame para se pedir àquela hora, que sabia que era preciso marcar com antecedência, que sabia que só excepcionalmente se fazia a uma criança de dois anos, mas que compreendesse que era uma absoluta emergência médica... A técnica, estupefacta e desconfiada, mas compadecida da minha voz aflita, lá anuiu num "Venha lá, então." como quem diz "Olhe que se continua a preocupar-se tanto com os meninos vai morrer cedo."
Meia hora depois, naquele hospital havia mais uma família aliviada, mais uma médica histericamente feliz (embora por razões ligeiramente diversas), mais uma técnica de radiologia a pensar "Estas pediatras d'agora são loucas!", menos um ajuntamento étnico - que dispersou em menos de um ai. E mais uma consulta começou tranquilamente...
A mãe, como qualquer cigana que se preze, estava apenas preocupada com as "inginas" e com o "gómitos" e completamente a leste do quadro global. Expliquei-lhe que lhe ia marcar uma consulta para esclarecermos melhor o que se passava, mas a mãe começou de imediato a desvalorizar a situação. E que tinha de ir todos os dias com o marido para a venda e que não ia ter tempo, que até já uma vez tinha andado lá no hospital nas consultas com o irmão mais velho porque "era atrasado" e que até o "tinham posto a dormir para fazer uma sornância" e nunca se tinha descoberto nada. Que não, que não ia, que ela não era pessoa para acreditar em médicos e andar em hospitais a perder tempo.
Lá me enchi de paciência e expliquei à mãe que a consulta era para ver se o menino deixava de ter tantas vezes falta de ar, para perceber se ele transpirava ou não porque se não transpirasse de todo podia ter um golpe de calor - e até podia ter convulsões - e para esclarecer por que é que ainda não tinham nascido os dentinhos ao menino. Isto, pelo menos, é o que eu me recordo de ter dito. Como se a mãe tivesse ficado razoavelmente convencida, marquei a consulta para a semana seguinte.
Na segunda-feira, chego de manhã ao hospital e deparo-me com um acampamento de ciganos por todo o jardim, as carrinhas nas traseiras do hospital, fogões de ar livre estrategicamente montados mesmo em frente ao reservatório de gases medicinais e vários grupos dispersos, sentados aqui e ali como quem espera alguma notícia importante e pensei: "Deve estar algum ciganito muito doente internado por aí em alguma enfermaria..." E fui trabalhar.
Ao início da tarde deixei a enfermaria e fui para o pavilhão das consultas. De súbito, reconheci os pais do menino que eu tinha mandado vir à minha consulta, notei que estavam numa posição de destaque no grupo, que pareciam tensos e que cochicharam qualquer coisa para um homem mais velho, após o que todos se voltaram na minha direcção... E foi mais ou menos assim que percebi que aquele ajuntamento étnico estava à espera... da minha pessoa. E preparavam-se para me seguir para dentro do pavilhão.
Engoli em seco e lá fiz das tripas coração, dirigi-me à mãe, cumprimentei-a e perguntei-lhe quem era o sogro. Este apresentou-se de imediato e convidei-o para entrar como acompanhante dos pais. Para meu alívio, ele fez o que se espera de um chefe de família: voltou-se para a multidão e ordenou-lhes que esperassem, que ele ia ali a uma consulta com o neto e já vinha.
Lá entrámos, comigo intrigadíssima por aquele aparato todo, com a mãe e o pai a desfazerem-se em lágrimas e com o avô com um ar muito circunspecto. "Isto promete...", pensei. Já na consulta, depois de algumas perguntas, fiquei a saber que a mãe tinha percebido que eu lhe tinha dito que o menino não teria dentes.
- Como?! - exclamei para mim mesma. Mas verdade verdadinha é que, embora eu não me lembrasse de lhe ter dito isso, lá que existia essa possibilidade, existia... E então, ó valesse-me Nosso Senhor dos Aflitos, como é que eu ia descalçar aquela bota assim sem mais nem menos? Lá peguei no telefone e expliquei à técnica de radiologia que precisava de uma ortopantomografia urgente. Que sabia que não era um exame para se pedir àquela hora, que sabia que era preciso marcar com antecedência, que sabia que só excepcionalmente se fazia a uma criança de dois anos, mas que compreendesse que era uma absoluta emergência médica... A técnica, estupefacta e desconfiada, mas compadecida da minha voz aflita, lá anuiu num "Venha lá, então." como quem diz "Olhe que se continua a preocupar-se tanto com os meninos vai morrer cedo."
Meia hora depois, naquele hospital havia mais uma família aliviada, mais uma médica histericamente feliz (embora por razões ligeiramente diversas), mais uma técnica de radiologia a pensar "Estas pediatras d'agora são loucas!", menos um ajuntamento étnico - que dispersou em menos de um ai. E mais uma consulta começou tranquilamente...
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