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quarta-feira, 17 de maio de 2017

[as melhores do serviço de urgência] uma reanimação improvável


Como já vos tenho contado em diversos números anteriores, o Hospital de Curry Cabral foi o primeiro hospital onde trabalhei e de que guardo memórias fantásticas. Uma das quais é a sensação de ter de morder o lábio inferior para não sorrir quando os familiares dos doentes utilizavam a expressão "ir ao Rego*" como se fosse a coisa mais normal do mundo...

Outra das imagens que me ficaram para sempre aconteceu em certa noite de verão, uma noite já bem entrada na madrugada... estava eu de banco no SO - que era assim uma espécie de unidade de cuidados intensivos, mas com porta para a rua e de acesso quase direto - calmamente a transcrever umas análises, quando de repente, na sala contígua, oiço um bip longo de um alarme de um monitor, seguido de um ruído de arrastar de camas. Levantei-me de imediato para ir acudir à situação de perigo que se me desenhava na mente: uma paragem cardíaca e um enfermeiro zeloso que se precipitara para a cama do doente para iniciar manobras de reanimação, mas que inexplicavelmente não tinha gritado por ajuda. Ainda nem tinha chegado à porta quando oiço um berro abafado de um homem, seguido de um ruído de luta corpo a corpo e um estrondo enorme. Entro na sala e, incrédula, vejo um dos doentes que estava internado com um enfarte agudo do miocárdio, de pijama, em cima do doente da cama do lado, com este último a debater-se furiosamente para o tirar de cima de si, e vários objetos da mesa de cabeceira e os suportes dos soros a serem atirados ao chão no meio da inusitada batalha campal que se instalara na pacata enfermaria... Já os cateteres saltavam das veias, com soros, medicação e sangue derramados, quando os enfermeiro acorreram para os separar e restabelecer a ordem pública...

Levou-me algum tempo a perceber que raio é que se tinha passado... Ora o doente com um enfarte agudo do miocárdio que saltara da cama para cima do doente do lado não estava com uma crise psicótica nem possuído por um desejo mórbido e louco, mas era antes cardiologista. Pois... isso mesmo! Foi essa a explicação que ele me deu de imediato quando perguntei, furiosa, o que é que se passava ali... "Eu sou cardiologista, eu sou cardiologista." - dizia ele.

Explicou-me que estava a dormir tranquilamente quando, de súbito, despertou com o bip longo do monitor do doente do lado, olhou para o traçado eletrocardiográfico do monitor e viu uma linha isoelétrica (uma linha direita contínua) e o doente parado. Com o raciocínio levemente toldado pelo sono, pelos tranquilizantes que lhe tinham dado e pela sensação de morte iminente que vivera horas antes, concluiu de imediato que se tratava de uma paragem cardíaca e decidiu iniciar manobras reanimação cardiorrespiratória. A versão do vizinho do lado era ligeiramente diferente... O vizinho do lado, por seu lado, que não estava em paragem cardiorrespiratória coisa nenhuma, apenas desligara inadvertidamente os fios do monitor quando se tinha virado enquanto dormia, tinha acordado espavorido com um homem em pijama a dar-lhe um murro no peito quase a ponto de lhe partir as costelas e a soprar-lhe pela boca adentro (sim, na altura a respiração boca-a-boca ainda fazia parte do suporte básico de vida)... Obviamente que se tinha tentado defender com unhas e dentes do homem que o estava a assediar!

De onde se conclui que até para sobreviver a um internamento é preciso ter sorte, vizinhos simpáticos e sentido de humor...

*Rego - Hospital de Curry Cabral

segunda-feira, 1 de maio de 2017

[as melhores do serviço de urgência] no melhor pano cai a nódoa...

Hoje, ao ler um artigo desastroso sobre dietas e cenas saudáveis lembrei-me de um episódio que já aconteceu há mais de cinco anos. No serviço de urgência, ao ver um menino com uma alergia cutânea provavelmente alimentar, a mãe responde:

- Alergia? Como, alergia?! O meu filho nunca comeu nada que não fosse feito em casa, nada com corantes ou conservantes, temos imenso cuidado na escolha da comida que lhe damos. É tudo biológico e evitamos a carne e o peixe.
- Mas ele não come carne nem peixe de todo?
- De vez em quando come, também não somos fundamentalistas. Mas no dia a dia optamos por proteínas vegetais de alto valor biológico. E cozinhamos tudo sem sal.
- Muito bem... mas olhe, a partir dos 12 meses [de facto ele já tinha cinco anos] já se pode começar a colocar um pouco de sal na comida, até porque eles estão a crescer e precisam de sódio.
- Ah, não, doutora, mas nós não pomos mesmo sal nenhum. Só usamos Caldo Knorr.

(suspiro...)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

[psiquiatrices] uma crise de soluços improvável


Abril é o mês em que me lembro sempre, com um sorriso, desta improbabilidade que me aconteceu há já mais de 10 anos... Perdoem-me os que já leram e releram este post. Mas eu não resisto a contar de novo esta história...

O mentor espiritual desta blogger mulata certa vez teve uma crise de soluços. Nada há de extraordinário nisto, não fosse dar-se o facto de a crise ter sido desencadeada por um desgosto de amor e ter sido tão prolongada que o colocou em perigo de vida...

Dois dias depois do início da crise, exausto de tanto soluçar involuntariamente (sem nunca ter chorado, obviamente, que um homem não chora!) telefonou-me. A início não liguei nada. Que mal poderia advir de uma crise de soluços? Quase levei a peito. Mais valia que chorasse a sério no meu ombro e não deixasse o corpo chorar por si nesse chove-não-molha tão incomodativo. Retorquiu que não era nada disso. Estava com uma grande ansiedade, sim senhor, estava de coração partido, era verdade, mas que não tinha vontade de chorar. Tudo bem, respondia eu, que era certamente tudo verdade, que o Psiquiatra era ele, mas que isso era o corpo a chorar por ele, que viesse tomar café comigo que era o que fazia melhor... Não veio. De onde se conclui que um homem que não chora também não toma café com as amigas.

Mas no dia seguinte, depois de uma noite sem conseguir adormecer, ele estava uma lástima e com sensação de morte iminente. Com o otimismo que me caracteriza quando trato de pessoas de quem gosto e com os remorsos de quem tinha desvalorizado a situação clínica, comecei a pensar em coisas selvagens: um abcesso subfrénico, um tumor do tronco cerebral, uma neoplasia da pleura... Lá nos fizemos ao caminho para o hospital e, metodicamente, começámos numa ponta (na TAC de crânio, obviamente) e acabámos na eco abdominal. Nada. Saudável que nem um pêro, que um homem que não chora e que não toma café com as amigas também nunca tem nada de grave, ora essa, era só o que faltava.

Ficámos a olhar um para o outro... O que fazer a seguir? Seria desta, então, que íamos tomar café? Também não... Que a sensação de morte iminente não passava, que já quase não tinha forças, que se sentia mesmo mal, que estava quase a desfalecer. A sorte dele é que conseguia mesmo parecer o que dizia, respondi, de outra forma já estaríamos fora dali, na Versailles, a tomar café. E lá fomos para o laboratório fazer uma gasimetria. E qual não foi o meu susto, que ele estava com uma alcalose respiratória descompensada, com uma hipocaliémia e hipocalcémia (era grave, meus amigos, era grave...).

Pronto, já estava convencida. Que tínhamos de resolver aquilo (caraças para os homens que não choram, que são sãozinhos que nem um pêro, que não tomam café com as amigas e ainda por cima as deixam assim em situações difíceis) e só havia uma maneira: tinha de ficar internado e fazer uma injeção intramuscular de cloropromazina...

Que não, que nem pensar! Que me estava a esquecer que era Psiquiatra naquele mesmo hospital e que não podia ficar internado a fazer um antipsicótico. Nem que fosse life-saving. Ora, que como eu própria sempre dizia, ele que não se preocupasse, que mesmo que um Psiquiatra desse em doido nunca perderia a reputação entre os doentes. Nem mesmo entre os enfermeiros. Que não me fizesse de engraçadinha, que nem por sombras ficaria no hospital!

Estaria eu a ouvir bem? Para minha casa?! Nestas condições, se ocorresse alguma complicação havia risco de mortalidade (que 20% não era brincadeira!), mas foi inamovível. Ou em minha casa ou preferia morrer. Caraças para os homens que não choram mas que em situações destas se tornam drama-queens! (E vamos lá despachar a coisa, que a história já vai longa e a nossa vida não é isto!). Então resumindo, passei uma das piores noites da minha vida com ele a dormir placidamente, depois de os soluços terem passado. Doze horas depois, acordou muito bem disposto, embora a falar à "Prlesidente da Xunta" e a dizer que achava que se calhar precisava de um café para acordar...

De onde se conclui que os homens que não choram, também vão às vezes tomar café com as amigas, mas em pijama, depois de uma noite em casa delas... e só depois de uma dose valente de antipsicóticos..

sexta-feira, 10 de junho de 2016

[as melhores do serviço de urgência] febre a subir...

Do capítulo dos "Sinais Absolutamente Inequívocos de Febre Interior", uma das doenças tradicionais portuguesas mais intangíveis*:

No serviço de urgência de pediatria com uma amiga minha...
- O menino quando chegou estava com febre?
- Não, doutora, por isso não lhe deram nada na triagem. Mas agora tem febre interior a subir outra vez de certeza, doutora. Eu sei porque está com a pilinha murcha...

* A par com os apesar de tudo mais palpáveis "bucho virado" e a "espinhela caída".

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

[improbabilidades] uma vela a santa rita de cássia

Ontem na consulta do hospital, vi um menino pela primeira vez. Pareceu-me um menino um pouco tristonho, meio macambúzio, tímido, reservado, respondia com monossílabos, mas olhava-me com um olhar expressivo, intenso, como se quisesse compensar com o olhar o que não conseguia encontrar palavras para dizer. Educado, com vontade de agradar, coisa rara em pré-adolescentes (e, para mim, mau sinal, que um pré-adolescente a tentar agradar-me sem me conhecer de lado nenhum deixa-me sempre com a orelha levantada de que pode estar deprimido...).

- Então o que a traz a esta consulta? - pergunto à mãe.
- Doutora, eu vim aqui porque não sou de automedicar os meus filhos, eu tenho muito medo e só me automedico a mim e aos meus filhos com receita médica. Mas ele há uns tempos para cá que anda assim muito distraído, parece-me desmotivado. Lê uma coisa e no momento a seguir esquece-a, sabe uma coisa num dia, no outro dia já não sabe. Vai para os testes uma pilha de nervos... eu já pensei em acender uma vela a Santa Rita (piscadela de olho), mas tenho medo que não resulte ou que lhe faça reação...
- Uma vela a Santa Rita? Mas Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis?
- Sim, doutora.
- Bem, mal não faz, miminhos e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Mas isto é uma consulta de Desenvolvimento, não veio aqui para lhe ensinar a rezar a Santa Rita, pois não?
- Ó doutora, eu já experimentei com a Santa Rita e não deu resultado, por isso pensei na outra Rita... (nova piscadela de olho)
(Eu já incomodada com tanta piscadela de olho desadequada...) - Na outra Rita? Qual outra Rita, a Ritalina?
- Sim, doutora, a Ritalina! É que o irmão toma. Eu experimentei-lhe a dar e ele deu-se muito bem, mas como não sabia se lhe podia continuar a dar resolvi pedir esta consulta.

(Custou a desembuchar! Só me fez lembrar aquela anedota do século passado do senhor muito bem posto que vai à farmácia e pergunta: "Tem camisas com colarinhos e botões de punho prateados?" "Não, senhor, isto é uma farmácia, não vendemos camisas dessas." "Então dê-me das outras." Quanto ao resto, não comento!)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

[as melhores do serviço de urgência] dentes sexy

Na urgência da semana passada, enquanto colhia a história de uma adolescente que iria ficar internada:

- A menina alguma vez foi operada?
- Não doutora, só fiz uma vez uma circuncisão a um siso!

(Maravilha! Esta menina tinha um dente masculino...)

terça-feira, 16 de junho de 2015

[as melhores do serviço de urgência] urina de 24 horas

Esta não é minha, mas não resisti a partilhar convosco...

Um colega meu, patologista clínico, teve um encontro imediato com uma senhora que lhe apareceu na sala de colheitas com um pedido de "urina de 24 horas". Olhou para o frasquinho pequenino, com umas gotinhas de um líquido meio transparente lá dentro.

- Isso o que é, minha senhora?
- É a urina que o senhor doutor pediu.
- Mas como é que fez a colheita? Foi só isso?
- Como dizia nas instruções "COLHER PARA UM RECIPIENTE TODA A URINA" eu coloquei com uma "COLHER DE SOPA" e só consegui esta...

[Confesso que a mim só me aconteceu o contrário: ver chegar um senhor com um garrafão de 5 litros e desculpar-se: "Ai, doutora, fui sair com os amigos e bebi umas cervejas, mas não quis deixar de vir aqui trazer a análise que disse que era importante!" Enfim, por estas e por outras, quando eu trabalhava com adultos tinha momentos mais divertidos...]

terça-feira, 5 de maio de 2015

[vozes brancas] kiss my eyes

Tenho uma dor horrível no olho... No sábado, durante a urgência de pediatria, mal conseguia manter o olho aberto. Tudo por causa de um malfadado vírus que estava obviamente a sofrer maus tratos no nariz de um baby que eu vi na urgência da semana passada e que portanto resolveu pedir asilo político ao meu olho direito. Ora pois que o meu olho direito se compadeceu do bicho, coitadinho, catapultado de minuto a minuto em violentíssimos espirros e resolveu armar-se em alto comissário para os refugiados. Vai daí, arranjou-lhe alojamento e despachou-o para o seu vizinho do lado esquerdo, que ele, como olho diretor, tinha mais que fazer, ora essa, era o que mais faltava, ser alto comissário e ainda ter de fazer tudo nesta casa.

De tudo isto, só tive conhecimento na semana seguinte, quando no dia de urgência acordei com o olho à Camões. Sou sempre a última a saber destas andanças...

Mas como eu ia dizendo, no sábado estava miserável. Uma dor excruciante. A meio da manhã já não aguentava mais, a dor trespassava-me o crânio e latejava-me nas têmporas, e fui pedir à enfermeira que me tapasse o olho. Foi então que me entrou no gabinete um menino de quatro anos, acompanhado por uma mãe muito empática que me olhava compadecida. Já o menino olhava para mim absolutamente boquiaberto. Deixou-me fazer tudo o que lhe pedi sem um protesto. Por fim ganhou coragem e perguntou-me baixinho:

- És pirata?
- Sim, sou uma amiga do Jake, vim da Terra do Nunca para te ajudar a curar esse dói-dói.
- Mas essa coisa no olho não era preta?
- Sim, mas as princesas piratas usam uma pala branca, os piratas meninos é que usam uma pala preta. Agora tens uma missão: para salvar a princesa pirata lá da Terra do Nunca tens de ir fazer análises.

O menino estava fascinado, respondeu-me muito compenetrado que sim, que iria fazer então as análises. Regressou sem uma lágrima e com um desenho para a princesa pirata da pala branca.

[Tenho ou não tenho a melhor profissão do mundo?]

domingo, 3 de maio de 2015

[as melhores do serviço de urgência] uma questão de boa educação...

Três da manhã, Urgência de Pediatria ainda muito movimentada. A avó de um menino de quatro anos que conheço desde que nasceu, com múltiplos problemas de saúde e que em tempos difíceis reanimei duas vezes na mesma noite, entra-me, esbaforida, no gabinete.

- Mais uma convulsão, doutora.
- Boa noite, avó, não há meio de uma pessoa se habituar a isto, não é verdade?
- Pois não, doutora, coitadinho do meu menino. Desta vez foram dois minutos.
- Mas passou sozinha desta vez? - resposta afirmativa da avó - Que medicamento é que o menino está a tomar para a epilepsia?
[Baixinho, a medo] - É o "Dá práqui".
[Pausa para reflexão fonética]- O Depakine? - Arrisquei.
[Sorriso de orelha a orelha, aliviado, voz muito mais assertiva] - Isso, o "Dê práqui"! Afinal era fácil!

Isso! É só uma questão de tratar o medicamento por você em vez de o tratar por tu.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

[as melhores do serviço de urgência] prémio "fia-te na virgem e não corras"!

E o primeiro candidato ao Grande Prémio "Fia-te-na-Virgem-e-Não-Corras" 2015 chegou ao serviço de urgência do meu hospital na semana passada!


Ora pois que o episódio se inicia estava eu, pacatamente, no gripódromo em que se transformou o serviço de urgência nas últimas semanas (metade do país está de cama e a outra metade ou já esteve ou vai ficar), que é como quem diz, no ram-ram do "Boa noite, então o que se passa com @ menin@", assim mesmo mas sem o @, que parecendo que não, é difícil de articular com clareza. Ao que os pais respondiam invariavelmente com o "Febre-tosse-e-ranho-desde-há-três-dias,-mas-é-só-por-descargo-de-consciência-que-se-não-fosse-o-terceiro-dia-nem-vinha-aqui-que-eu-nem-sou-muito-de-vir-às-urgências-mas-é-que-lá-da-creche-pedem-o-papel-do-médico-e-pronto". E lá continuava eu, com a preocupação de, no meio dos cinquenta que tinham gripe, não deixar escapar aqueles 1,2 meninos que tinham pneumonia ou o 0,3 que tinha meningite*.


Eis senão quando, no ecrã me aparece um menino classificado como laranja. Prioridade quase máxima. Num relance reconheço o nome: é o filho de uma colega minha. Teve uma convulsão com febre em casa e ainda está sonolento. Sonolento mas mais lento do que com sono, felizmente, sinal de que estava a recuperar.


A minha colega vinha pálida, impaciente, exaltada como nunca a tinha visto. Não era para menos, que uma convulsão num filho é coisa para assustar o mais experiente dos médicos, mas acabou por me explicar o motivo da enervação:


- O Rafael estava ao meu colo, muito murchito. Chamei a empregada e pedi-lhe um Ben-U-ron porque me parecia que a febre estava a querer subir e foi então começou a convulsar.
- E depois o que fizeste?
- Chamei a empregada outra vez e ela lá veio espavorida. Pedi-lhe outra vez o Ben-U-ron e toalhas molhadas, mas ela só se agarrava a mim e dizia: "Ai reze, menina, reze!" E eu respondia, "Eu rezo, Maria, eu rezo, mas vá-me lá buscar umas toalhas molhadas e um Ben-U-ron". Ela desapareceu para a cozinha, mas só quando voltou com uma velinha acesa e sem as toalhas é que percebi que tinha se ser eu a fazer tudo. Deixei-o no chão em posição de segurança e fui eu própria buscar tudo e ligar para o INEM.
- E no meio disso tudo, ele já tinha parado?
- Sim, graças a Deus, não deve ter durado mais do que dois minutos, mas a Maria só dizia que tinha sido da velinha ao Santo António. "Ai, menina, palavra como não sei como é que me saíram as palavras do responso! Fiquei tão nervosa!" Só me apetecia esganá-la.


Entretanto eu já tinha completado a observação, que era normal, e o Rafael aninhava-se, bem disposto, ao colo da mãe.


- Margarida, ri-te que agora já podes, o menino está ótimo! Tem calma, que não foi nada.




* Valor estatístico meramente especulativo, ok? Não me citem em nenhum trabalho científico, por amor de santa Escolástica.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

as melhores do serviço de urgência [dos leites de lata]

Uma das maravilhas da jovem maternidade, quando por azar do destino, opção materna ou problemas de outras ordens e desordens não se pode amamentar, é a variedade de leites de lata que existem no mercado. Ele é com bífidos e probióticos, ele é com L-PUFAs, ele é anti-obstipantes, ele é anti-refluxo, ele é pró-conforto, ele é anti-cólicas. Ultimamente apareceram ainda os que acumulam: os que são anti-cólicas e hipoalergénicos, os que são anti-refluxo e hipoalergénicos. E há mercado para tudo isto, que as crianças choram, os pais desesperam, criam-se necessidades e o mercado é cada vez mais refinado, mais gourmet e exigente. Sobretudo no que toca ao leite, bode expiatório de quase todos os males, acusado de vilanagem porque tantas vezes, em vez de nutrir, desnutre... em vez de confortar, desconforta... e em vez de acalmar só enerva!

Não que não seja útil esta variedade. E o baby-de-mulata esteve durante tempos a fazer um leite medicinal que para ele foi importantíssimo, a 60 euros a lata pequena. E continuaria a pagar de bom grado cada cêntimo se fosse necessário. É a redundância de marcas, a publicidade descarada e desenfreada e o acenar com bandeiras para marcar pequenas diferenças que me deixa cética...

Serve esta pequena introdução para vos contar que há dois dias, no serviço de urgência perguntei a uma mãe de um bebé que chorava como um bezerro desmamado: "Que leite está a dar ao menino".

- A marca não dei, doutora, mas é um leite higiénico.
- Higiénico?
- Ai... caspofungénico (true story!)
- Hipoalergénico?
[um sorriso enorme, aliviado.] - Isso!

sábado, 29 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] diagnósticos brilhantes!

Serviço de Urgência, quinta feira passada. São 16:00 num dos dias mais movimentados do ano. Há trinta crianças que aguardam ser vistas, várias delas classificadas como urgentes ou muito urgentes. Temos duas horas e meia de espera para os não urgentes. Eu estou quase pelos cabelos. Não almocei, que não tive coragem de deixar a equipa mas estou quase a capitular. Decido que vou ver só mais um menino não urgente e depois vou mesmo ter de ir comer qualquer coisa...

Chamo o menino que segue. Tem quatro anos e entra-me no gabinete ostentando, orgulhoso, a sua pulseirinha verde, que para nós quer dizer "Não Urgente", mas que para ele quer dizer "Spooorting!". Olha para mim, tira-me as medidas e pergunta:

- Tu és médica do cérebro?
- Não, meu querido, sou médica de meninos. Mas porquê?
- É que eu preciso muito de uma médica do cérebro.
- Ah, está bem, daqui a nada já vou ali chamá-la - franzo o sobrolho e troco um olhar com a mãe, tão espantada como eu: o relatório de triagem dizia apenas que o menino vinha por ardor a urinar -, mas o que é que se passa contigo?
- É que o meu cérebro deve estar baralhado. Eu sinto vontade de fazer chichi a toda a hora, mas não sai nada da minha pilinha. E quando sai chichi, arde-me!

Eu e a mãe íamos rebentando a rir, mas contivemo-nos!

- Ah, olha, querido, eu acho que é o teu chichi que deve ter um micróbio e isso que deve estar a baralhar o teu cérebro.
- Ah...
- Vamos fazer uma análise ao teu chichi.
- Uma quê?
- Uma análise.
- Vão ver o meu chichi ao microscópio?
- Isso mesmo!
- Também posso ver?
- Claro! Eu depois mostro-te uma fotografia do chichi ao microscópio.
- Boa! Vamos então!

[Que maravilha! Vai longe, este miúdo!]

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] ouvido por aí...

 
Relatórios Médicos do Serviço de Urgência
(Daqui...)
 
Para os que não compreendem bem o Inglês, aqui vai, salvo melhor tradução...
 
1. A doente não tinha arrepios ou calafrios, mas o marido descreve-a como escaldante na cama na noite anterior... [Demasiada informação clínica, diria eu...]
 
2. O exame dos genitais revelou que o senhor era circo cisado. [Pobrezinho, cortado no circo... Mas em Inglês resulta melhor, que se depreende que o senhor era de tamanho circense...]
 
3. Visto que a doente não consegue engravidar com o marido, pensei que poderias querer vê-la. [Em Inglês também resulta melhor, lamento...]
 
4. A doente apresentava-se chorosa, lamentando-se constantemente. Também parecia estar deprimida. [Faz-me lembrar a senhora que tinha uma com estenose da válvula aórtica e insuficiência cardíaca. E também tinha um sopro no coração.]
 
5. A doente tem estado deprimida desde que começou a ser seguida por mim, em 1993. [O clássico paradigma do "não és tu, sou eu."]
 
6. Relatório do estado do doente na alta: Vivo, contra parecer médico. [Não se faz a ninguém! Anda um médico aqui a esfalfar-se, a não dormir, a dar tudo por tudo e para depois o doente não cumprir as prescrições...]
 
7. Um doente decrépito aparentemente saudável de 69 anos, mentalmente alerta, mas demente. [Faz-me lembrar uma fantástica tirada minha, dos meus tempos de faculdade: "Há quanto tempo é que o senhor tem falta de memória?" "Ai, menina, não me lembro...]
 
8. O doente recusou autópsia. [Mas resolvi dar-lhe tempo para poder repensar a decisão...]
 
9. O doente não tem qualquer história prévia de suicídio. [Nem o próprio médico, aparentemente...]
 
10. O doente deixou os glóbulos brancos noutro hospital. [E o médico, onde teria deixado a cabeça?]
 
11. Os antecedente pessoais da doente eram absolutamente irrelevantes, com apenas um aumento ponderal de 20 quilos nos últimos 3 dias. [Talvez quisesse dizer irrelefantes...]
 
12. A doente comeu waffles ao pequeno almoço e anorexia ao almoço. [Qual deles o mais indigesto...]
 
13. Entre si e mim, temos de ser capazes de fazer esta senhora engravidar. [Idem.]
 
14. Ao segundo dia, o joelho estava melhor e, no terceiro dia, tinha desaparecido. [Um clássico "Vanishing knee syndrome"...]
 
15. Ela sentia-se dormente dos pés para baixo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] para (re)animar

Ainda não me saíram da cabeça as palavras de uma mãe no sábado passado. Eu estava a ver o filho dela, que estava com dificuldade respiratória e acabara de o mandar fazer um segundo tratamento com broncodilatadores, quando me vieram chamar de urgência a uma enfermaria. Uma criança que esteve em convusão mais de meia hora, seguida de paragem respiratória e uma reanimação difícil... Muitas lágrimas dos pais por susto, fadiga e dificuldade em gerir mais uma situação inesperada num filho que sempre fora doente, mas que nunca estivera tão perto da morte...

Por fim, desci novamente para a urgência. À minha espera estava ainda o menino que eu tinha visto com dificuldade respiratória. Deu-me um aperto no coração... Com a correria para a enfermaria, o caso não tinha sido passado a ninguém...

Mas nestas circunstâncias os pais costumam "desenrascar-se": perguntam a qualquer outro colega pelo médico que o estava a ver, ele apercebe-se que o colega foi chamado a uma reanimação e assumem o caso. A equipa de enfermagem também costuma dar uma ajuda. Mas desta vez, pelos vistos, tal não tinha acontecido...

Pedi desculpa à mãe pela demora e disse-lhe que podia ter pedido a outro médico para ver o filho. Ao que ela me respondeu: "Não se preocupe, Doutora! Eu preferi que o meu filho fosse visto por si. Eu percebi que foi chamada a uma situação complicada e fiquei por aqui a rezar pelo menino lá de cima. Pedi muito a Deus por ele e por si. O meu que esperava o tempo que fosse preciso, mas que se salvasse o menino! Ele ficou bem?"

- Ficou, sim, obrigada por ter rezado por nós...

A sério que ainda estou comovida...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] foi por um triz!

Serviço de Urgência, a noite avança madrugada adentro. No ecrã do computador aparece um nome e uma idade: lactente de três meses e, embora para o caso pouco interesse, do sexo feminino. Imagino-a na chegada, vestida de rosa carregado das botinhas à touca.

Sua mãe entra, esbaforida, no corredor da urgência, gritando: "Por favor, por favor, é uma emergência!".

Todos saímos rapidamente dos gabinetes para acudir ao corredor da triagem. A número dois da equipa, neste caso esta vossa humilde serva que se assina beijo-de-mulata, de arraiais assentes desde o início do turno no gabinete mais próximo da triagem, foi a primeira a chegar, igualmente esbaforida. A última vez que ouvi este grito, a criança tinha uma septicémia e foi direta para os cuidados intensivos, onde lutou heroicamente pela vida durante semanas.

A bebé, cuja mãe gritava com voz de juízo final, dormia tranquilamente o sono dos justos. "O que se passa, mamã?", perguntamos com calma, habituados a estas andanças. A mãe, vendo-me de estetoscópio ao pescoço, ignorou olimpicamente toda uma equipa de enfermagem que a rodeava em seu auxílio e declarou-me dramaticamente: "Doutora, a menina tem um cabelo MEU enrolado no dedo! Já lá deve estar há uns três dias e a ponta do dedo está a ficar inchada!" (Suspiro... Controla-te beijo-de-mulata, a vida é curta demais!) "Tenha calma, mãe, os senhores enfermeiros vão ajudá-la."

Viro costas e volto calmamente para o meu gabinete. Mais ao longe ainda oiço a mãe perguntar, enquanto o enfermeiro com uma tesourinha corta o cabelo enrolado à volta do dedinho da princesa: "Enfermeiro, acha que a médica demora a chamar? Ai que eu acho que morro! Acha que o dedo se salva?"

Mas porquê, meu Deus?

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] não, eu não quero!


Foto dali mesmo...

Há uns dias interrompi as férias para fazer 24 horas de urgência no meu hospital. Assim mesmo, sem aquecimento e com uma baixa na equipa à última da hora, que não deu para colmatar. Sim, eu sei, estou uma garganeira, a fazer-me indecentemente à medalha de cortiça do SNS, mas eu tenho uma equipa fantástica, em que três pessoas fizeram o mesmo estas férias, portanto não tenho nada que me queixar. Só tenho é de me recompor e dar graças a Deus porque entre mortos e feridos todos escapámos razoavelmente vivos às duas reanimações, um choque séptico, um neurolúpus e vários traumatismos cranianos! Quanto aos doentes, também todos sobreviveram à nossa presença e encontram-se a recuperar, felizmente. Obrigada por perguntarem.

Mas serve o presente post para vos contar que, pelas quatro da manhã, me veio um menino que não teria mais de quatro anos, vindo diretamente de uma pista de dança.

E perguntam vocês, meus queridos amigos, o que é que fazia um menino de quatro anos às quatro da madrugada numa pista de dança? Ora pois que fazia um grande galo na cabeça...

O miúdo era amoroso! Embora tivesse sido um traumatismo craniano e tanto, de uma altura considerável (ao que parece estava a dançar em cima de uma coluna, qual adolescente ligeiramente etilizado), e estivesse sonolento, continuava com sentido de humor, colaborante e afirmou que queria ir conhecer o túnel de que eu lhe falava, que era lindo, cheio de golfinhos e gaivotas e ia ficar mesmo muito caladinho para ouvir o som da baleia escondida... Dirigi-me à mãe:.
- Então vai ali fazer uma TAC e quando estiver despachado volta para aqui ter comigo. A Senhora enfermeira vai acompanhá-lo.

Três quartos de hora depois, o menino regressou, lavado em lágrimas, ao colo da mãe e acompanhado pela enfermeira, ambas com ar exaurido e tristes pelo insucesso retumbante daquela ida à TAC que tanto prometia... .

- Eu não entro naquele eletrodoméstico! - chorava o menino.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

[as melhores do serviço de urgência] obstinação

 
No serviço de urgência, a mãe de uma criança responde-me à pergunta: "Ela tem sido saudável?"
 
- Não, doutora, é obstripada desde que nasceu.
- Como? - genuinamente não percebi...
- Obstripada, doutora, é muito presa das tripas...

sábado, 12 de julho de 2014

[as melhores do serviço de urgência] resistência à frustração

 


Há dias um colega de curso postou no seu mural do facebook uma pérola que não resisto a partilhar convosco. Nas suas palavras: "o equivalente à carta do monopólio para não ir para a prisão":

O meu colega, sobre os antecedentes pessoais da senhora:

- Dona Maria, diga-me então, por favor, que doenças tem ou já teve.
- Ai, xotor, sou muito doente... sofro muito dos nervos, sou muito nervosa...
- Então?...
- Sim, xotôr, sou mesmo muito nervosa, qualquer coisinha me faz disparar o coração, fico desnorteada e não vejo mais nada à minha frente. E então às vezes caio para o chão e outras vezes faço asneiras...

- Que tipo de asneiras?
- Parto coisas, atiro tudo ao chão. E às vezes no fim também caio... 
- E chega a magoar-se quando cai?
- Não, felizmente, xotôr, em trinta anos que isto me dá nunca me aleijei. Até estava ali a pensar na sala de espera... será que o xotôr me podia passar uma declaração médica para andar na carteira a dizer que não posso ser contrariada?

domingo, 6 de julho de 2014

[as melhores do serviço de urgência] a minha vida dava um filme cigano

Ontem, na urgência, um casal bem meu conhecido (aliás, conhecido de todos nós, que fazemos urgências de pediatria) vinha com o filho de dois anos e meio, bem disposto, cheio de vitalidade apesar da febre. Olho para o histórico enquanto o chamo pelo intercomunicador do meu gabinete: é a quarta vinda ao serviço de urgência no período de 24 horas (suspiro).

Mais de 60 vindas ao serviço de urgência no último ano. Motivo da presente vinda à urgência: febre. Das outras vezes também. Uma febre que não baixa, "tem tido 38, doutora, às vezes vai mesmo aos 38 e meio!" Replico, numa voz que pretende tranquilizar, que se trata de uma febre baixa. O pai responde-me, de súbito muito exaltado, que a temperatura normal dele é 35,9ºC, pelo que os 38 valem por quase 40, e com 37,8ºC já começa a ficar completamente de rastos e a tremer. (Suspiro) Enfim, um clássico. Vejo no processo que o menino tem história de convulsões febris. Daí o pânico dos pais, concluo.

Vejo também que já teve consultas de Neurologia por causa das convulsões, já fez exames que excluíram doenças graves e epilepsia. Que o pai também teve convulsões febris na infância. Está tudo escrito em todos os registos.

Tentei explicar que as convulsões febris são situações benignas, que o menino já estava medicado, que inclusivamente tinha mudado o antibiótico horas antes, da última vez que viera à urgência (certamente tinha feito a cabeça em água à minha antecessora) e que agora era preciso dar tempo ao tempo.

Nada feito. Do alto do seu metro e oitenta e muitos, o pai declarava-me que podia ser cigano, mas que também era médico de medicina chinesa, eu que não me atrevesse a contestar o que ele dizia. Que ele é que conhecia o menino. E sabia muito bem que quando o menino passava dos 38,2ºC, a parte do corpo do umbigo para baixo gelava, ao passo que a parte do corpo do umbigo para cima aquecia, e o cérebro ficava baralhado, sem saber se haveria de arrefecer a parte de cima ou aquecer a parte de baixo. E vai daí, pifava e fazia uma convulsão, capaz de o matar em dois minutos!

- Mas não adianta tentar evitar as convulsões, e as convulsões do seu menino são benignas e não deixam sequelas.
- Não são nada benignas, doutora, eu também as tive e chegaram a dizer à minha mãe que eu tinha morrido.
- Pois, mais me ajuda! E aqui está o senhor, saudável e sem problemas nenhuns. [Desta última parte não tenho tanta certeza, mas ficava bem na argumentação!]

Nada feito. O pai exigia que eu fizesse como os meus colegas costumavam fazer e que desse um medicamento na veia ao menino para lhe baixar a febre.

Mas eu, talvez por ter a parte do corpo acima do umbigo à mesma temperatura que a parte de baixo, não me deixei baralhar e afirmei-lhe que não iria agredir o menino com medicação na veia coisa nenhuma, que não havia razão para isso.

Levanta-se o pai e aproxima-se, com cara de quem me vai bater nos próximos segundos:

- Eu sou médico de medicina chinesa, mas também sou cigano, ouviu? Tenho a minha família ali fora! Vai ou não vai fazer o que eu lhe estou a pedir?
- Escute, o seu menino está bem, não há necessidade de o picar! E não nos resolve o problema, que daqui a quatro horas temos outra vez a febre a subir! Se calhar os senhores deviam ir novamente à consulta de Neurologia para se tranquilizarem. Temos centenas de meninos com convulsões febris e nenhuma família faz o que os senhores fazem. Não é normal, acreditem!  [Oh, valha-me Santa Rita de Cássia, estou mesmo a pedi-las, é desta que vou levar porrada dentro do hospital!]
- Está bem, doutora. Mas enquanto a febre não baixar não vamos embora daqui.
- Pronto, é convosco [Ufa...], mas então vão para o jardim, não fiquem na sala de espera que ainda levam daqui outro bicho. [Desisto, se ficarem à porta da sala de reanimação também é com eles...]

Ao fim do dia saíram dali com indicação para procurarem um psicólogo...

sábado, 5 de julho de 2014

[vozes brancas] as melhores do serviço de urgência

Esta noite, no serviço de urgência, um menino de 9 anos, regressava do serviço de imagiologia, onde fora fazer uma TAC por uma dor de cabeça que o fazia vomitar todas as manhãs desde há mais de uma semana. Vinha nitidamente mais bem disposto, depois da medicação de choque que eu lhe dera logo à chegada.

- Então, querido, já vens com outra cara! Estás melhor?
- Assim, assim...
- Olha, mas se não estás, pareces! Há bocado até estavas aflito com as dores.
- Não, não era com as dores, eu estava aflito porque ouvi que ia fazer um "ataque" e fiquei com medo, mas afinal não custou nada!