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sábado, 27 de maio de 2017

[cada mulher é uma ilha] o dia em que o mar desapareceu...


 O dia em que o Índico se tornou frio e distante e decidiu esquivar-se ao contacto íntimo e envolvente com o seu corpo... Nesse dia, a mulher, alheia a tudo quanto já tinha deixado de existir em seu redor, apanhava marisco na maré-vaza...


...no final do dia, a mulher, com o cesto cheio, levantou a cabeça e seguiu o seu caminho por entre as águas, acreditando ainda que pelo menos o mar e o céu são garantidos... e nunca chegou a perceber que o mar nos toca apenas porque quer. E o céu só ilumina quem ama...

(Ilha de Moçambique, Nampula)

[Agradecendo as graças desta vida, passe o pleonasmo, e abraçando a saudade que o Índico nos imprime na pele*! Como diria a Helena Araújo, a primeira dama dos dois dedos de conversa: "Da minha vida vê-se o Índico..."]

* Não vivemos sem uma vírgula de Oxford.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

[a vida é curta, a arte é longa] batik



Hoje mandei emoldurar um batik moçambicano que encontrei no fundo de uma gaveta, comprado a caminho do Hospital Central de Maputo, numa tarde de despedida... talvez por ter sabor a tristeza e a regresso me tenha esquecido dele... até o som dos batuques me bateu mais forte no coração! É preciso abraçar a saudade...

domingo, 7 de maio de 2017

[mamãs africanas] dia da mãe sem medo, nem dó, nem drama...









Mamãs de Nampula e da Zambézia
(Moçambique)

Dizem os portugueses que "quem tem mãe tem tudo, que não tem mãe não tem nada". Dizem os africanos, em jeitos de sinónimo (que todos os provérbios importantes existem com tradução): "casa sem mãe é um deserto".

sábado, 6 de maio de 2017

[welcome to gorongosa] encontro com um pangolim


Pôr do sol na Gorongosa e Pangolim
(Gorongosa, Sofala, Moçambique)


Transcrevo uma parte de um texto que me tocou particularmente. A Gorongosa representa a parte de mim que acredita que há de regressar a Moçambique: é que eu sei que vou voltar porque nunca fui à Gorongosa! Daqui.

1 Maio, 2017


Maximillian Prager, Harvard University, Turma de 2019, Biologia Orgânica e Evolutiva

No verão de 2014 encontrei-me pela primeira vez em África, pela primeira vez vivendo longe dos meus pais, e pela primeira vez colocando a fascinação da minha vida pela fauna bravia em ação. Eu era um estudante do ensino médio de Nova York, a estudar no Laboratório de Biodiversidade E. O. Wilson, com os biólogos e conservacionistas do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. Mais especificamente eu estava a trabalhar com Piotr Naskrecki, um entomologista, fotógrafo de natureza, diretor do Laboratório Wilson, e meu mentor e amigo. Ao voar para o Parque, eu não sabia que iria “gastar” os meus dois verões seguintes neste lugar, e que ficaria tão encantado com a paisagem, a fauna bravia, as pessoas e a causa da conservação da natureza.

A minha primeira curta visita ficou repleta de experiências inesquecíveis. No meu breve tempo no Parque, segui bandos de leões acompanhado por especialistas, segurei uma inhala que dava coices enquanto um veterinário a tentava anestesiar e colocar uma coleira de rádio, apanhei morcegos em redes de malha fina, e fui continuamente mordido, arranhado, picado e pulverizado por uma miríade de pequenos répteis e invertebrados. No entanto, o episódio mais memorável desse primeiro verão em Moçambique foi o meu envolvimento no resgate de uma mãe pangolim e do seu bebé.

O pangolim terrestre (Smutsia temminckii) é um mamífero bizarro nativo da África subsaariana. O pangolim movimenta-se lentamente mas é surpreendentemente elusivo, e alimenta-se de térmites; preenche um nicho ecológico semelhante, embora totalmente alheio, aos tatus das Américas. Com a sua cauda longa, garras escavadoras arredondadas, e uma armadura de placas queratinosas, o pangolim é uma verdadeira quimera. Pode ser encontrado em várias formas em toda a Ásia e África, algumas terrestres e outras arbóreas. Nunca poderíamos supor que o pangolim é o mamífero mais traficado ilegalmente do planeta. Os pangolins têm muita procura na China e no Vietname, onde sua carne é considerada uma guloseima, e as suas escamas são falsamente acreditadas como a cura para o reumatismo e a artrite. A prevalência de uma infeliz e desnecessária causa de morte dessa incrível criatura não passa de uma farsa.

Os pangolins não são fáceis de encontrar. Ao longo dos seus anos de investigação, não só em Moçambique, mas em toda a metade sul da África, Piotr nunca “tropeçou” num pangolim. Na verdade, parecia que o pangolim sempre se escapava à sua vista; ao voltar ao acampamento uma noite, ele poderia ouvir dizer que outro cientista tinha visto um, mas que não sabia onde Piotr estava na altura, ou que não tinha uma câmara à mão. O pangolim era a baleia branca de Piotr, como me foi lembrado repetidamente nos dias que antecederam o encontro.

No dia anterior ao que eu tinha programado para deixar a Gorongosa, recebemos a notícia de que um caçador furtivo numa aldeia próxima tinha dois pangolins na sua posse, uma mãe e um bebé. Ele estava anunciar a sua venda por 23.000 Meticais, na altura o equivalente a cerca de $750 US. Alguns guardas do Parque partiram para prender o ladrão e recuperar os animais. O par foi recuperado com segurança, pelo que soubemos naquela noite, e permaneceu num quarto de armazenamento até à sua libertação. Seria nossa responsabilidade encontrar um lar adequado para eles e entregá-los de volta ao Parque.

Na manhã seguinte, horas antes de sair do Parque, eu saltei para a nossa Toyota Hilux com o Piotr e a Jen Guyton, uma mamalogista, e fomos buscar os pangolins. Estacionámos o carro, e Piotr entrou na pequeno quarto de armazenamento para ir buscar os pangolins. Minutos mais tarde, ele ressurgiu com os braços em torno de uma esfera pesada e com escamas que se assemelhava a uma alcachofra gigante. Colocou-a nos braços de Jen e ligou o carro. Depois de algum tempo o esfera descontraiu-se, e um focinho longo, semelhante ao de um galgo, emergiu para provar o ar exterior pela primeira vez em poucos dias. Levantando mais a cabeça, revelou um pálido recém-nascido, coberto por uma pele de escamas que lembravam unhas frágeis. As mães pangolins, quando ameaçadas, enrolam-se em torno dos seus bebés para os proteger. O odor do bebé era mais comparável ao cheiro de uma caixa de parto após um cão ou gato ter dado à luz, ligeiramente suave, mas acentuado pelo aroma do leite doce. Sobressaltada pelos solavancos da condução, a mãe desdobrou-se mais uma vez, derramando o bebé no meu colo. Piotr disse-me para agir rapidamente - eu tinha que segurar o bebé perto do meu peito e protegê-lo. O bebé tremia nos meus braços. Ele era muito delicado para ser movimentado. Assim segurei-o de forma apertada enquanto acelerávamos em direção ao nosso destino.

O ponto de libertação foi uma área de mato arenoso pontilhada com termiteiras; a mãe pangolim teria muita comida aqui. Jen colocou o par no chão, com a mãe desenrolada. O poderoso pangolim parecia um gigante de madeira, como uma montanha com garras, apenas encolhido para o tamanho de um cão de raça “beagle”. Ela colocou o bebé às costas tal como esperávamos. A montanha em miniatura ergueu o seu longo focinho e começou a caminhar para o mato. Quando ela desapareceu, o farfalhar da relva e o estalar de pequenos galhos foram ficando cada vez mais fracos.

(Ler mais aqui)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

[welcome to mozambique] as pulseiras mais fashion



Feira do Pau Preto, fotos daqui, que nem por sombras levaria a minha máquina fotográfica para as compras na feira... O que ganharia em registo gráfico perderia em poder negocial.
(Nampula, Moçambique)

[Esta manhã o facebook teve a gentileza de me recordar este episódio. E não resisto a contar-vos de novo a mesma história!]

Uma das coisas que mais gosto de comprar e que sei que as minhas amigas mais apreciam são as pulseiras exóticas, feitas em pau preto, sândalo e pau rosa que se vendem na chamada Feira do Pau Preto, aos domingos em Nampula, onde se pode comprar de tudo, desde vassouras feitas com fibra de coco até lamparinas feitas de latas de conserva vazias, passando pelas inevitáveis capulanas e medicamentos tradicionais e, claro, aquilo que dá nome à feira, as famosas obras de arte lindíssimas em pau preto, feitas de uma só peça, apenas com um canivete, por homens que aprenderam sozinhos, ou com alguém próximo, a difícil e paciente arte de talhar a madeira.

Certa vez, uma amiga pediu-me que lhe trouxesse como lembrança uma pulseira de rabo de elefante. Segundo ela, era do mais fashion que existia, em termos de acessórios exóticos africanos. Fiquei horrorizada. Eu não sou capaz de comprar marfim ou tartaruga, por mais bonitas que sejam as peças de arte. Por mais que me digam que os elefantes não são mortos para lhes retirar as presas, só as retiram de elefantes encontrados já mortos acidentalmente e que as tartarugas não são mortas de propósito. É fácil iludirmo-nos com estas desculpas ingénuas... Mas uma pulseira de cauda de elefante? Que estranho e, ao mesmo tempo, que curioso. É que não lembra ao menino Jesus, quanto mais ao rabudo... Certo domingo, quando já estava a regressar a casa vinda da feira, mesmo em frente ao delicioso estádio do Sporting Clube de Nampula, vi estas pulseiras a vender e resolvi parar o carro e investigar por conta própria, num rasgo de inspiração:

- Bom dia, senhor, novidades*?
- Tudo bem, não sei do seu lado...
- Salama**, obrigada.
- Ah... Senhora, estou a vender pulseira.
- Sim estou a ver, estas pulseiras são de quê?
- Rabo de elefante...
- Ah, muito bem. E custam quanto?
- Está a 20 cada uma...
- A 20 meticais? E quanto me faz se levar cinco?
- Fica a 15 cada uma.
. Está bem... E quem fez as pulseiras?
- Eu mesmo, mamã!
- Ah, muito bem, parabéns, são muito bonitas! Mas onde é que arranjou o rabo de elefante?
- É um caçador que vende.
- Um caçador? E onde é que ele caça?
- Não sei, mamã...
- Mas ele mata os elefantes para lhes cortar o rabo?
- [Atrapalhado, sem saber o que dizer a esta mukunya***, que nem comprava nem desgrudava literalmente do seu pé...] Não... corta o rabo, só.
- Hum... Olhe, pode dizer, que eu levo na mesma...
- O quê, mamã?
- Não são de elefante, pois não?
- [Com pouca convicção] São sim...
- Mas pode dizer, não tem problema...
- [Baixando os olhos, envergonhado e baixando também a voz...] Ah, mamã... São di pineu...
- De quê?
- Di pineu, mamã.
- Mas o que é um pineu?
- Um pineu, mamã!
- Pineu? Mas isso é um bicho? É parecido com quê?
- Pineu... Não sabe o que é pineu? Pineu di carro!
- De pneu?!
- Sim, mamã. Nós corta o pineu di carro e dentro do pineu tem o miolo que faz o fio...
- Ah... Levo cinco, então!

* Novidades - Como está [de saúde]?

** Tudo bem.
*** Mukunya - Branca

domingo, 23 de abril de 2017

[zambézia, uma história de origens] filhos do coração



Vistas do Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)

(continuando...)

Reconheceram-se ainda assim. O perfume dos cabelos de Gigi era ainda o perfume delicado do céu e das flores do frangipani. E a barba de Trovão guardava o cheiro a terra molhada e a raiz de embondeiro. Reconheceram-se e amaram-se, como se tinham amado desde sempre. Mas a criação divina estava ainda no seu início, e os métodos de gerar vida eram ainda mais que imperfeitos. Os olhos de Gigi a cada dia transbordavam de um mar maior, e os olhos quentes de Trovão iam arrefecendo o desejo de criar filhos com olhos de céu e cabelos de embondeiro.

Procuraram em vão quem lhes revelasse os segredos dos antepassados, mas gerar vida está só nas mãos de Muluku, era a resposta invariável.

Foi então que decidiram aventurar-se a tornar a subir o Monte Namúli. Mas o monte onde outrora corriam felizes e despreocupados era agora o grande tabu da criação. Dizia-se que nenhum adulto deveria subir ao monte de onde viera o primeiro homem, sob pena de sucumbir ao mais pérfido desejo telúrico. Mas já só isso lhes fazia sentido, para desfazer a tristeza e a maldição em que viviam. Não temiam nunca mais encontrar o caminho de volta porque já só tinham um caminho. E era um caminho só de ida… Tinham de ir devolver ao embondeiro as raízes que secavam o ventre de Gigi.

E, numa madrugada, ainda cobertos de bruma e cinza, prostraram-se pedindo a Muluku que os protegesse e perdoasse na subida. O peito pulava-lhes na ânsia do interdito, num misto de medo e desejo, quando iniciaram a viagem... Mas a montanha parecia chamá-los. Os espinhos encolhiam à sua passagem, as bagas amadureciam, plenas de néctares açucarados e as folhas pareciam cantar: "Não temam, pois tudo recomeça." Nunca o Namúli lhes parecera tão convidativo, tão quente e húmido de vida.

Chegaram, por fim, ao cimo da montanha. Os olhos de Gigi iluminaram-se de bons presságios quando viu que, da gruta revestida a raiz de embondeiro, jorrava agora uma nascente de águas mornas. Os olhos de Trovão prenderam-se num frangipani, cujas flores caíam, delicadas sobre a nascente, perfumando o ar com o cheiro da sua doce mulher. Sonhava por instantes, acordado, que Gigi estava em toda a parte, dissolvida e pulverizada por todo o céu da montanha, quando um grito o fez despertar daquele deslumbramento.

Gigi gritava, toda ela assombro e abismo, que aquela nascente era de água salgada! Assistiram então, aturdidos, ao derradeiro jorro de água, que secou a nascente, mar de súbito vazio, deixando em redor um manto de sangue vivo. E depois de um momento, onde coube toda a dor, medo e desesperança do mundo, ouviu-se, de dentro da gruta, um gemido. Seguido da gargalhada inconfundível de uma criança. Precipitaram-se para dentro da gruta. Ao fundo, ainda coberta de sangue e raízes, uma criança com olhos de céu, cabelos de embondeiro e perfume de frangipani. Era uma menina. Uma menina linda e, espanto dos espantos, já com dentes de leite. Os mesmos dentes de leite de seus pais. E trazia dentro dela uma semente de embondeiro, sinal de que Muluku aperfeiçoara a criação e que não queria que os seus netos tivessem de passar por todo aquele sofrimento para gerar vida. Felizes, agradeceram a Muluku.

Mas Muluku avisou-os: Não vos esqueceis de que, a partir de hoje, toda a criação e futuro provirá desta criança, de cabelos perfumados e olhos de céu e de mar, mas lembrai-a sempre de honrar a seus pais, que tanto sofreram por terem filhos de sementes plantadas fora do corpo. Porque toda a criança é desejada e filha do coração.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

[momentos para sempre] um dia deixo de escrever histórias clínicas...

... e escrevo uma história de encantar... Amanhã será o dia!

 Houve tempos em que a viagem dos meus sonhos era ir até às plantações de chá do Gurué, perto das margens do rio Zambeze.
Um dia hei-de voltar... com o baby-de-mulata e Mr. Shaka e os que mais vierem!
(Gurué, Zambézia)

Como pano de fundo, o verde arrebatador e o mito da origem do primeiro homem ali mesmo, nas nascentes do Monte Namúli. Segundo a lenda macua-lomué, foi precisamente nesta montanha que a humanidade teve origem, e o primeiro homem terá surgido numa madrugada, germinado nas raízes de um embondeiro e, depois de beber das águas perfumadas das montanhas*, desceu calmamente em direção à planície e começou a espalhar a sua semente pelo mundo.

Hoje em dia, o Monte Namúli está envolto em mitos e tabus... Diz-se que só se pode subir depois de uma cerimónia longa e difícil levada a cabo por um régulo e com permissão dos antepassados, depois de rezas, oferendas e respeitos. Segundo o mito, e à maneira deliciosamente macua, o guardião do Monte Namúli começa a falar com os viajantes incautos de tal forma rápido que estes se baralham e nunca mais conseguem encontrar o caminho para casa...

(Adenda, por respeito à Prof. Doutora Ruiva, amiga deste mato: gostava que existisse um mito de origem da primeira mulher, mas suspeito que o primeiro homem macua se teve de desenrascar sozinho...)


*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflacionista de águas gourmet

segunda-feira, 17 de abril de 2017

[mozambique revisitado] um surto de sarampo





A Casa do Gaiato de Maputo (a capela, os meninos, o refeitório e o berçário para as crianças desnutridas da aldeia mais próxima).

(Boane, Maputo)

Em 2003, era ainda estudante de Medicina quando parti pela primeira vez para Moçambique em voluntariado. Já contei muitas vezes estas histórias, mas nunca contei a história do surto de sarampo que por lá aconteceu na minha estadia. Não é, de facto, algo que goste de recordar... Mas também nunca pensei, confesso, que a haveria de contar nestas circunstâncias, em plena ameaça de surto de sarampo no nosso país...

Há mais de 10 anos, no meu hospital, quando o diretor perguntou a todos os internos mais novos se alguém já tinha visto um caso de sarampo fui a única a levantar a mão. Os meus colegas olharam-me com curiosidade, meios incrédulos. "Onde?", perguntaram. "Vi mais de 100 casos em Moçambique. Em Portugal nunca." "Ah", responderam, "em Moçambique está bem." 

Foi ali, em Boane, próximo da barragem dos Pequenos Libombos, a 50 km de Maputo, que conheci Moçambique... Foram os encantos de primeira vez em África. Na Casa do Gaiato, com o Padre Zé Maria, a Irmã Quitéria, a tia Cármen, a D. Virgínia, de quem já vos falei, e os meninos mais adoráveis que alguma vez tinha conhecido e que viviam no orfanato... Rendi-me a eles no primeiro dia, em que me vieram adornar a mesa-de-cabeceira com uma flor selvagem que crescia numa casca de coco, "para titia sentir o cheiro da terra antes de dormir". Se me pedissem uma só prova de que é possível crescer e que vale a pena investir em Moçambique, eu saberia o que responder.

Era no centro de saúde, a 5 km da Casa do Gaiato, que começavam os meus dias. Depois do mata-bicho* com os meninos, o António, um dos mais velhos, que já tinha carta de condução, ia levar-me ao centro de saúde através de uma picada fabulosa, quase desaparecida por uma vegetação rasteira de savana seca a perder de vista, e onde, a espaços, emergiam as micaias, as árvores que eu amo desde o primeiro dia, com os seus espinhos e a sensação de serem as únicas sobreviventes no meio da secura atroz da planície.
 
Eu ia à frente no machibombo**, ao lado do António. Os meninos que não tivessem aulas nesse dia também iam connosco atrás, para ajudarem em pequenas tarefas do centro de saúde: encarregavam-se da inscrição dos doentes, ver temperaturas, medir tensões arteriais, varrer o pátio, ajudar os doentes a perceber como se tomava a medicação.

Um dia vieram-me mostrar um menino que estava muito doente. Era filho de um professor da escola da aldeia. Tinha 8 meses e não parava de tossir. Prostrado. Não mamava e não aceitava comer mais nada. Tinha os olhos injetados, o nariz congestionado e, desde essa manhã, tinha-lhe aparecido um exantema (borbulhas). Não era fácil ver o exantema, dada pigmentação escura do bebé, mas à luz via-se perfeitamente que as borbulhas lhe cobriam todo o corpo. A história fez-me soar os três C do livro de microbiologia (cough, coryza and conjunctivitis). Procurei o sinal de Koplik, inequívoco, diziam os meus livros, patognomónico, dizia a minha professora


Peguei na lanterna e procurei pequenos grãos de sal na mucosa junto aos dentes molares... Estavam lá, de facto, mas eram muito mais pequenos do que eu tinha ideia. "Como grãos de sal" lembrava-me eu das aulas da faculdade. Mas... só se fosse sal de mesa e não sal de cozinha, ocorreu-me... Ai, valesse-me Nossa Senhora dos aflitos, então o menino estava ali doentíssimo, prostrado, quase sem respirar e eu com dúvidas se o sinal de Koplik era do tamanho de grãos de sal de mesa ou de sal de cozinha?! Mas como era possível? No meio da savana uma dúvida existencial deste calibre... Mas tinha de ir esclarecer a dúvida. Não tinha outro meio de diagnóstico. Não havia net móvel em Moçambique. Muito menos banda larga ou satélite para me valer do meu Santo António do Google. Fui à sala onde tinha deixado os meus livros, que por sorte tinha levado nesse dia. E lá estava: "like table-salt grains". Era mesmo sarampo, caramba! 

Mas o menino, Ângelo era o seu nome, apesar de filho de um professor e de uma funcionária do centro de saúde, estava ligeiramente desnutrido. Tinha nascido com baixo peso e os pais, apesar de terem um salário que os mantinha ligeiramente acima do limiar da pobreza, comiam carne apenas duas vezes por semana e muito poucas verduras e fruta. O preço destes géneros alimentares, luxuosos em Moçambique, era abolutamente proibitivo para eles. Mas era uma alimentação manifestamente insuficiente para uma grávida, já mãe de quatro filhos mais velhos. Para agravar a situação o bebé ainda mamava quase exclusivamente e a diversificação alimentar apenas começara no mês anterior...

Estava com febre. O teste da malária foi positivo, infelizmente, compondo o quadro. Prescrevi-lhe tudo o que pude que o pudesse ajudar: antibiótico para a pneumonia óbvia, broncodilatador, antimalárico, polivitamínico, vitamina A em dose gigante. E uma solução de reabilitação nutricional. Os olhos do pai escureceram quando leu "desnutrição ligeira" na ficha do filho: "Nós damos tudo o que podemos, mas a comida é muito cara..."
 - Eu sei, pai...

 Foi difícil tratá-lo nestas circunstâncias. Eu fiquei horas à cabeceira do menino, com medo que me morresse ali mesmo... tenho sempre a fantasia de que se não arredar pé dali, a morte não se atreve a ir buscá-los. O menino melhorou lentamente. Veio novamente no final da minha estadia para se vacinar. Já tinha 9 meses. E o pai perguntou-me então:
- Lá em Portugal também há sarampo?
- Não, senhor professor, lá em Portugal não há sarampo.
- Mas como? Vacinam os meninos à nascença? Aqui em Moçambique só se vacina aos 9 meses.
- Não, em Portugal vacinamos aos 15 meses [Em 2003 o Programa Nacional de Vacinação era mais otimista do que agora e a nossa cobertura vacinal ainda maior...]
- Afinal?! Então como não têm sarampo?
- Todas as pessoas estão vacinadas. Não há sarampo em Portugal!

Os olhos dele brilharam, como se lhe tivesse confirmado que o paraíso existia na terra:
- Gostava de conhecer Portugal, Doutora. Deve ser um país lindo...
- Ora, professor, lindo é Moçambique! - respondi.

Mas nas semanas que mediaram estes dois episódios, tive alguns dos piores dias da minha estadia. A mãe do Ângelo tinha-o levado dias antes do seu agravamento à enfermaria das crianças desnutridas. Tinha lá ido levar umas roupinhas que já não lhe serviam para oferecer às mães dos bebés desnutridos. O filho tinha ido com ela, obviamente, às suas costas na capulana...

Já estão a imaginar o que aconteceu naqueles dias... O pior surto que já vi, entre os meninos mais vulneráveis de todos. O Padre José Maria ia desesperando... tanto esforço humano e económico para reabilitar aquelas crianças e uma doença maldita vinha agora dizimá-las. Ainda assim tivemos "apenas" 10% de mortalidade! E digo "apenas" porque o que dizem os livros é mortalidade de 50% em crianças desnutridas. Era essa a taxa de mortalidade no Hospital Central de Maputo... Ainda sei de cor, passados estes anos todos, o nome dos meninos que não resistiram apesar dos nossos esforços naqueles dias negros... 

Foi preciso ir a Maputo comprar mais antibióticos e mais antimaláricos e mais polivitamínicos e mais não sei quantos medicamentos para reforçar a reserva que quase se esgotou nos dois primeiros dias. Foi difícil convencer os responsáveis do distrito de que era necessário vacinar de emergência todas as crianças que ainda não tinham sido vacinadas. Demorou semanas a conter o surto... Mas graças ao esforço de todos, o surto apagou-se, tal como veio... 

Mas ainda nem posso acreditar que ontem uma adolescente foi ligada a um ventilador no meu hospital por esta mesma doença, anacrónica e maldita!

domingo, 16 de abril de 2017

[iapala revisitada] as flores do frangipani


Esta é a flor do frangipani, uma árvore de xicuembos* e xipocos**, a árvore dos deuses e dos antepassados, de flores românticas e perfumes noturnos... O frangipani tem as flores das manhãs claras, que vêm enfeitar os cabelos das jovens, das noivas, das virgens e os adros das igrejas nos dias felizes.
(Iapala, Nampula)

Como diria o meu amigo Lépido, nós não temos estilos, temos momentos... E eu também tenho direito a dias pirosos! Pronto, era só isto. Aqui no mato-que-já-não-é-mato não temos livro de reclamações. Nem mesmo o Sr. Pompisk, o maior comerciante da Zambézia tinha tal modernice! Para ele, se nos estiver a ouvir, aquele abraço. Tenham um bom dia e que a Páscoa  (ou a Primavera, o que vos disser mais) vos renove.

* Deuses
** Fantasmas