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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

[vozes brancas] primeiras impressões da maternidade


Cateter venoso. Foto obviamente da net, que não me ocorreu fotografar o meu...


Já nasceu a mini-baby-de-mulata! Estamos bem e muito felizes! E perguntam vocês: "Beijo-de-mulata, como reagiu o baby ao ver a mãe internada na maternidade?"

Lindamente! Mr. Shaka e eu tínhamos combinado que o baby só subiria para ver a mana depois de esta devidamente colocada a dormir tranquilamente no leito e eu conseguisse estar levantada e deambulante. Aconteceu nas primeiras 24 horas, felizmente. Chegou ao meu quarto e fui recebê-lo à porta com um troféu de irmão mais velho nas mãos. Ficou radiante de receber a taça do melhor irmão do mundo! Mas logo em seguida reparou no meu cateter venoso na mão. Arregalou os olhos:

- Mãe, é assim que tu tratas dos doentes?
- Sim, às vezes tem de ser mesmo por aqui, filho.
- Isso é para água ou para medicamentos?
- Pode ser para água, mas geralmente é para medicamentos, querido.
- Mas... mas... que espetáculo! Mas esse canhão dispara mesmo medicamentos para os doentes daqui do hospital? Mostra, mãe, dispara lá!

(Ups... Não te rias, mantém a compostura, aguenta, aguenta!)

- Agora não é preciso, já disparei há pouco tempo, mas se alguém mais precisar eu mostro...

[Boys will be boys!]

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

[notícias do segundo andar] de quantas semanas estás, beijo-de-mulata?


Só nos resta andar muito e fazer compras...

Estou de "depois-de-nove-meses-de-repouso-acho-que-vamos-a-prolongamento-e-quem-sabe-a-penalties" semanas de gestação.

Eu no fundo sempre desconfiei que vinha lá uma mini-baby-de-mulata do cluster B. Das que ameaça e depois não faz. Das que põe tudo em polvorosa e depois assobia para o lado. Das que faz das suas pela calada e depois não foi nada com ela... Então aqui a inquilina do segundo andar ameaça rescindir contrato de alojamento temporário desde as primeiras semanas, re-pe-ti-da-men-te!, põe os pais em pânico e agora nada de dar um ar da sua graça? 

Enfim, podia ser pior, confesso. Adoro andar a pé e fazer compras, ainda consigo dormir a noite toda e subir escadas a correr. Há quem diga que o melhor dos concertos é sempre o encore. Estamos nessa! Obrigada, princesa, este "só mais uma" está a saber bem...

[Sim, não temos outro assunto. Está tudo bem por aí fora no mundo, não é verdade?]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

[instinto de ninho] afinal quem é a grávida aqui?!


Foto obviamente da net...

Há dias descobri que o instinto de ninho é contagioso... Isto já vem desde o princípio da gravidez, em que suspeitei que estava de esperanças porque Mr. Shaka e o baby-de-mulata tiveram desejos de comida exótica... Eu continuava na minha dieta habitual e nada! Mas como é um fenómeno que está descrito amplamente nos anais de obstetrícia, lá me dignei a fazer o teste e... o resto é história!

Agora na reta final, o meu instinto de ninho já acalmou depois de montar o berço, fazer o enxoval, instalar a cadeirinha, mandar lavar os cueiros, escolher a banheira e abastecer a despensa e só me apetece descansar e comer pouco. Já Mr. Shaka está ao rubro. Ontem era vê-lo a limpar os cantos inexploráveis do corredor. E o baby-de-mulata, de limpa-vidros e pano em punho, a limpar azulejos e janelas:

- Mãe, quando estiveres no hospital eu vou ficar aqui a limpar tudo para a mana não apanhar nenhuma bactéria!

Menino mai lindo de sua mãe... Mas está tudo grávido nesta casa?! E a menos grávida pelos vistos sou eu...

quinta-feira, 22 de junho de 2017

[welcome to mozambique] a seleção de esperanças!


"Os meninos das Irmãs" - Escolinha da Santa Cruz, Nampula
Não sei quais deles são meus filhados, possivelmente nenhum, porque só tenho rapazes e veem-se sobretudo meninas a dançar, mas sei que são felizes e lhes é permitido ser criança!
(Moçambique)

No mês da criança, no dia em que é divulgado o relatório da OCDE em que se faz a revelação bombástica de que "uma melhor educação na primeira infância aumenta as hipóteses das crianças desenvolverem todo o seu potencial, ao mesmo tempo que reduz as desigualdades sociais e é a principal determinante da mobilidade social" (como se ninguém o soubesse há anos), as irmãs de São João Baptista postaram este vídeo delicioso! Podia ser qualquer jardim de infância de qualquer país do mundo, mas fica num dos bairros mais pobres de Nampula e se vos disser que há anos que fazem coisas tão extraordinárias e defendem a infância com unhas e dentes podem crer que é verdade!

Coisas extraordinárias como combater o tráfico e rapto de crianças. Sabem como? Chamam o senhor da conservatória de 6 em 6 meses à escolinha e registam cada uma das crianças que nasce no bairro! Desde que o fazem nunca mais houve um único rapto de crianças, que era um flagelo que assolava toda a província! Desapareceram os raptores. Foram para a Tanzânia, diz-se. Mas nunca mais! Podem rir-se. É um ovo de Colombo, é certo, mas como todos os ovos postos por esse senhor, absolutamente genial.

Na escolinha asseguram que todas as crianças aprendem a falar Português e se familiarizam com livros, letras e números antes de iniciar o primeiro ciclo. Porque nenhuma criança consegue aprender a ler numa língua estrangeira (e em Nampula, nas casa de família, fala-se Macua). A biblioteca das irmãs, por pobre que seja, tem um movimento de 400 pessoas diariamente! É uma ilha, um oásis! E o número de crianças que consegue aprender efetivamente a ler é incomensuravelmente superior aos meninos de outras escolas.

Proporcionam a alimentação, vestuário e material escolar a cada uma das crianças. Por escassa que seja a alimentação, todas as crianças (e asseguro-vos que as observei a todas, uma por uma!) estavam dentro das curvas de crescimento da OMS.

Quanto gastam as irmãs com cada uma das crianças? Com cada um dos nossos afilhados? Preparem-se: 70 euros por ano! Em roupa, alimentação, educação e material escolar. E acima de tudo, as crianças têm sempre um sorriso! Digo-vos, que só quem lá esteve sabe a força que um sorriso pode ter.

É isto. A vida é simples. Os 70 euros por ano que gasto com os meus afilhados valem cada cêntimo! Tenham um bom dia!

(Se me perguntarem: Beijo-de-mulata, alguma coisa te custa, nisto de ser mãe? Eu respondo que há uma coisa. É não poder tão cedo voltar a Moçambique... A saudade aperta tantas vezes... Mas não se aflijam que sou feliz do lado de cá!)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

[querido, vesti o miúdo] semana mundial do babywearing


Esta é a Semana Mundial do Babywearing!


[Ainda bem que os meus amigos moçambicanos não me leem habitualmente, de outro modo achariam tudo isto ridículo e estariam a olhar para mim com cara de "Duh, qualquer dia nós também fazemos a Semana Nacional de Comer a Sopa com Colher ou a Semana Mundial de Usar Roupa Interior só para gozar convosco! Há lá outra maneira de transportar as crianças!"]

Eu sou uma fervorosa adepta do babywearing, que tem inúmeras vantagens para as crianças e o seu desenvolvimento e usava sempre uma capulana moçambicana para transportar o baby-de-mulata. Era pro em colocar o menino às costas, num exercício africano de equilíbrio e destreza que deixava sempre a minha mãe sem respirar e a conter-se para não dizer "Cuidado que me deixas cair o desgraçado!", mas depois de o colocar nas costas (não há outra maneira, com uma capulana), trazia-o sempre para a frente porque prefiro olhar o meu filho nos olhos. Não o deixava nas costas, embora até achasse que ele não se importaria de ir a apreciar a paisagem. Depois rendi-me a uma solução mais prática, com panos que dão para colocar diretamente à frente. Quase tive pena de deixar a tradição moçambicana, mas as minhas costas e as coronárias da minha família (que, vá se lá saber porquê, não confia na minha fantástica agilidade e destreza corporal*) agradeceram.

* E têm razão, pronto...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

[iAgora na prática] presente do dia da mãe

Ontem foi o final da semana mundial sem ecrãs. No sábado o baby-de-mulata perguntou-me se, para além do presente da escola (que já me tinha dado na sexta-feira porque sim), haveria alguma coisa que pudesse fazer para eu me sentir feliz no dia da mãe.

Fiquei a babar-me. E respondi que o melhor que ele poderia fazer por mim era acordar e não ir ver televisão, como de costume e ficarmos a brincar, montar legos, desenhar. O que lhe apetecesse.

Acordou-me (ouch!) às 07:00 da madrugada (sim, mães de lactentes, eu sei que não me posso queixar, mas ainda assim...) com uma caixa de lego na mão, um sorriso de orelha a orelha e um: "Parabéns, mamã, vamos montar este?". Amor de sua mãe [ou isso ou sou mesmo uma fácil...]! O rapaz adora ver televisão aos fins de semana, pelo que lhe deve ter custado tanto como a mim me custa não tomar café, por exemplo, sacrifício valente!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

[a arte é para os leigos!] glossário de termos musicais





Meus caros amigos, poucos saberão que sou uma expert em música. Sobretudo em ópera. E posso prová-lo: assevero-vos que já dormi em quase todas as grandes óperas compostas nos últimos séculos. Umas proporcionaram-me um sono mais profundo do que outras, é certo, mas a admiração profunda é por Wagner. Certa vez, no São Carlos, eu dormia na última fila da plateia ao lado de um senhor que, por sua vez, também dormia. Íamos acordando à vez e virando-nos para o lado contrário e ele, volta e meia, olhava para mim e comentava: "Eles têm mesmo resistência!" E eu, que estava sem palavras, não respondia, mas pensava que aquela ópera, entrecortada por um sono com sonhos, era a metáfora perfeita da vida. O mundo avança enquanto nós vamos na nossa vidinha. Uns são protagonistas, outros, raros, seguem-nos atentamente, outros vão vendo, fazendo interpretações oníricas sobre o que se vai passando. Outros ainda, mais lá para os camarotes e frisas, completamente a leste do paraíso, namoram, dormem, comem, e tudo o que honestamente se possa fazer entre três paredes e um palco acontece...

E posso dizer, mãe babada, que o baby-de-mulata vai pelo mesmo caminho. Não há concerto nenhum em que não adormeça! Epigenética rules!

Posto isto, posso então dizer que a música, tal como a ópera, é para ser entendida e vivida. E que ninguém se atrapalhe!

Como muita gente se queixa que os termos musicais são herméticos e não são imediatamente compreensíveis por amadores resolvi aproveitar este espaço para construir um pequeno glossário que alguns poderão achar completamente básico mas que talvez ajude uma ou outra pessoa a compreender de forma mais esclarecida e assertiva algumas peças musicais.

- A cappella – Vamos tentar sem piano!
- Accellerando – Despachem-se, o maestro saltou uma página!
- Accopiato – Foi copiado!
- Acidente – Foi sem querer…
- Ad libitum – É como virar frangos…
- Adagio ma non troppo – Um iogurte apenas.
- Adagio molto – Um litro de iogurte.
- Afinado – Pelo menos vamos tentar começar na mesma nota…
- Al fine – Do inglês: Tudo bem.
- Allargando – Toquem devagar que o maestro está perdido…
- Appoggiatura – Desculpem, saltou-me um dedo…
- A prima vista – Para quem acredita no amor…
- A solo – No chão.
- A tempo – Mesmo em cima da hora.
- Baixo implícito – Um baixo que se insinua.
- Bocca chiusa – Como em “Tens a boca suja”.
- Bisbigliando – Meter o nariz, bisbilhotar.
- Brioso – Jogador do Académica.
- Brunette – Morena selvagem (valha-me Nossa Senhora do Google se com isto vêm cá parar mais horny bastards).
- Canon – Melhor que uma Sony (não confundir com Maria), mas pior que uma Nikon.
- Coloratura – Um desenho para colorir.
- Contratempo – Percalço, revés.
- Croma – Mais um elemento da caderneta.
- Da capo – Do princípio, mas desta vez sem erros!
- Dissonante – Nunca desafinado, ora essa!
- Flat – Sem ondas, como em “O mar hoje está flat.”
- Forte – Com algum excesso de peso.
- Fortissimo – Obeso.
- Gustoso – Saboroso.
- Harmonia – Quando atinamos com o acorde…
- Homofonia – Como diria o Bispo de Lichinga: “Tá mal!”
- Improvvisando – Não sei muito bem como era…
- Incalzando – “My shoes were killing me…”
- Legato – Herança.
- Mancando – Coxeando.
- Meno mosso – Homens, cantem mais baixo!
- Monofónico – Sem piadinha nenhuma…
- Ouvido absoluto – Sim, tenho a certeza de que foi aquilo que ele tocou!
- Órgão – Parte vital de um músico.
- Parafonia – Como diria o Bispo de Lichinga: “Tá mal!”
- Più mosso – Homens, cantem mais alto!
- Pizzicato – Uma com queijo, sem tomate.
- Pochettino – O marido da outra senhora.
- Polifonia – Ou como diria o Bispo de Lichinga: “Tá mal!”
- Precipitando – Está a chover.
- Presto – Como em “Eu não presto”.
- Prima Donna – A Diva.
- Prima volta – A prima já vem.
- Recitativo – Não encontro a música, mas estou à procura…
- Semicroma – Menos croma que a outra…
- Silenzio – Calem-se!
- Simile – Do inglês: Sorriam!
- Síncope – Colapso.
- Soprano – Aquele que sopra…
- Sotto voce – Só vozes, mas muito baixinho…
- Tardo - … mas não falho!
- Tónico – Tudo o que puder ser tomado com Gin.
- Traste – Velhaco, desonesto. Nota do autor: Esta qualificação pode ter gradações subtis, sempre definidas segundo o critério da maestrina, como primeiro traste, segundo traste… Já segundo os critérios das Divas, quanto mais trastes melhor.
- Tremolo – Um pouco nervoso.
- Triângulo – De comum acordo ou, como diria mais uma vez o Bispo de Lichinga…
- Trio – Um a mais!
- Uníssono – Vai ser desta que começamos na mesma nota!
- Variação – Desculpem, enganei-me outra vez…

quarta-feira, 19 de abril de 2017

[he was the forerunner] para bens atrasados!



O Senhor Mandará os Seus Anjos

Ontem fizeste anos... A passagem do tempo é tão neuroticamente precisa que os aniversários calham sempre em dias certos. Eu é que sou tudo menos neurótica. Mas hoje quero agradecer-te por teres nascido, e por me teres preparado os caminhos que percorri. E por me lembrares por vezes de que, em tempos, também já consegui acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço.

Deixo-te uma pérola musical do meu primo João Andrade Nunes, de que tenho a certeza que vais gostar! Para bens! Por tudo, tudo! Que a fruta te esteja sempre madura no verão e que Aloysius nunca fique insuportável...

terça-feira, 11 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #3

As Famílias Não São Todas Iguais

Este é um livro que ajuda a aplacar angústias e a normalizar a diferença. Põe o dedo na ferida, mas mostra muitas outras, e o mal de muitos alívio é. Quando os meninos perguntam: porque é que o João tem duas casas, a da mãe e a do pai? Porque é que eu não vivo com o meu pai? Porque é que eu tenho uma cor diferente da cor dos meus pais? Porque é que tenho duas mães? Porque é que fui adotado e os outros meus colegas não?

"As Famílias Não São Todas Iguais" ajuda os pais a responderem a todas estas questões e ajuda a criança a chegar à conclusão simples de que família é quem dá amor e quem ajuda a criar esperança!

Divórcio, família reconstruída, adoção interracial, monoparentalidade e adoção homoafetiva são contempladas lado a lado no livro.

A questão punha-se-me mais há uns anos, na altura em que era mãe solteira e me imaginava a responder a questões sobre a ausência do pai. Comecei cedo a ler este livro ao baby e planeava responder simplesmente: "as famílias são todas diferentes. Tu tiveste um pai e uma mãe, como toda a gente, mas depois, como não puderam cuidar de ti, eu fui pedir ao juiz para ser tua mãe para sempre. E agora a família somos nós!" Mas como somos uma família mais tradicional agora ainda não fez grandes perguntas sobre as famílias. Já sobre as barrigas... mas essa é outra história.

domingo, 9 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #2



Os Ovos Misteriosos de Luísa Ducla Soares

"Os Ovos Misteriosos" é um livro maravilhoso, delicioso e absolutamente genial, ou não fosse da Luísa Ducla Soares. Faz parte do Plano Nacional de Leitura para leitura orientada no primeiro ano de escolaridade, mas da minha experiência pode ser lido a partir dos três anos. Mas, claro, nestas coisas não há como ler primeiro (ou ver o vídeo acima) e ver se o nível de desenvolvimento dos filhos se coaduna já com a compreensão do texto.

A história é de uma galinha órfã de filhos, a quem o dono roubava os ovos todas as manhãs. Até que, corajosa. decidiu ir para a floresta chocar um ovo sozinha. Passado pouco tempo, e de forma misteriosa, vários ovos apareceram no seu ninho: uns grandes, outros pequenos, uns mais claros, outros mais escuros. E todos os outros lhe perguntavam por que ia chocar ovos que não eram dela. E ela respondia. amorosamente, como todas as mães adotivas: estão no meu ninho, vão ser meus filhos! Embora admirada, chocou todos os ovos, dos quais viria a nascer uma insólita ninhada: um papagaio, uma serpente, uma avestruz, um crocodilo e também um pinto. Todos irmãos, e todos diferentes, formavam uma ninhada engraçada, que a mãe-galinha tinha dificuldade em controlar e em alimentar.

Mas no fim, numa grande aventura, todos, de modos também diferentes, defenderam o irmão pinto quando o viram ameaçado, dando sentido a todos os esforços da galinha.

Este é um livro em que a enorme ternura que o atravessa não impede o humor e o ritmo tão próprios desta autora. Para ser lido e relido e colocar e responder a perguntas sobre adoção, sobre as diferenças entre os irmãos e as necessidades de cada um e a forma como cada um deve ser tratado, não com igualdade, mas segundo as suas características. Pode ainda ser lido como uma abordagem à multiculturalidade ou à inclusão de crianças com necessidades especiais.

segunda-feira, 27 de março de 2017

[vozes brancas*] uma corrida de automóveis



Há poucos dias, na escola, chamei à atenção o baby-de-mulata porque não deveria tratar a diretora do colégio por tu. Delicadamente e meio na brincadeira, claro, que o caso não era para zangas e o baby é ultrassensível  aos meus estados de espírito:

- Querido, é "Onde vai, Irmã?" e não "Onde vais?".
- Ah, onde vai, Irmã?

Mudou de imediato o registo para a terceira pessoa e assim continuou, o que a deixou orgulhosa do seu "neto" (a diretora foi minha educadora quando eu era criança).

Horas depois, lá em casa, o baby falou-me no assunto. Pelos vistos, do alto dos seus cinco aninhos já fica a matutar em questões (mais parecido com sua mãezinha não poderia ser, caramba!, é isso e a tendência para inventar teorias sobre tudo... epigenética rules!):

- Mãe, desculpa ter tratado a Irmã por "tu".
- É normal, querido, ainda não estás habituado. Os crescidos estão mais habituados do que as crianças.
- Pois, eu sei que tenho de a tratar por "Irmã", mas é como se fosse uma corrida de carros... Eu vou explicar: o "tu" é um Ferrari mal-criado e "Irmã" é um carro normal. Por isso, quando eu falo, o Ferrari atropela o carro normal, faz batota e chega sempre primeiro.
- Sim, mas depois o carro normal chegou e tomou conta da corrida. E estiveste muito bem.
- [Sorriu, aliviado] Ah, está bem, mãe, então só tenho de praticar mais...

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

domingo, 19 de março de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #3

(continuando a minha história de amor...)

Imagem obviamente da web...

Dias depois da saga na Santa Casa voltei ao centro de acolhimento temporário. O menino já tinha começado a frequentar o jardim de infância, mas nem por isso estava mais integrado, mais aberto a comunicar ou a confiar nas pessoas que o rodeavam... Já era mais fácil de cuidar, mas as preocupações continuavam as mesmas: não olhava nos olhos, não comunicava de forma nenhuma, não se interessava por brinquedos nem fazia qualquer esforço para os alcançar, parecia absorto no seu mundo, abria e fechava portas e janelas sempre que tinha oportunidade de as alcançar. Dessa vez e das vezes seguintes a cena da primeira visita repetia-se, deixando-me cada vez mais preocupada e triste.

Eu tinha estado a pensar e, já que o menino abria e fechava portas compulsivamente, talvez se interessasse por outro tipo de movimentos no ar, como o das bolas de sabão e dos balões, que quando os soltamos fazem movimentos irreverentes e imprevisíveis. Levava bolas, balões, brinquedos com luzes e música. Tudo para ver se o interessava noutra coisa que não a malfadada janela daquela sala de visitas. Mas eram frações de segundos... Tudo era demasiado intenso, demasiada informação, demasiado assustador. O calor era imenso, o que o deixava irritado, transpirado e a mim exausta. Afastava-se de mim ostensivamente, pesando-me cada vez mais no colo, por vezes aceitava água no biberão, mas não me deixava dar-lhe, tirava-mo da mão para beber sozinho. De todas as vezes fiz de tudo para captar a sua atenção, mas nada. Nem cantando, nem ficando calada, nem apontando para os carros que passavam na rua, nem fingindo que íamos cair...

Até que certa vez tenho ideia de ter começado a escurecer. Não sei bem como, se era julho e eu só tinha duas horas de visita (mais porque as funcionárias amorosamente fechavam os olhos), mas não eram horas de anoitecer, disso tenho a certeza... talvez uma nuvem tivesse tapado o sol, não me lembro. Sei que começou a escurecer. Eu já estava exaurida e ele cheio de sono, quando lhe peguei na mão e acendi a luz com os seus dedos moles e sem vontade... mostrei-lhe com entusiasmo que tinha sido ele a acender a luz, saltei e festejei aquele "feito". Miraculosamente, aqueles saltos e festejos tiveram o condão de o fazer sorrir pela primeira vez. Apaguei a luz com a mão dele. Mostrei-lhe que a luz se tinha apagado e depois acendemo-la novamente. O menino saltou-me no colo de imediato, como quem diz: "Então, salta, como fizeste há pouco!". Saltei novamente e ele sorriu de novo, agora numa gargalhada. Eu estava estupefacta! Como era possível um milagre destes, tão gratuito e tão simples? Ah... a força que um sorriso pode ter!

Então, mas... bastava saltar para o fazer rir?! Mas não tinha muito mais tempo, estavam quase a vir buscar o menino... continuei a abrir e a fechar a luz e a saltar com ele ao colo até que parei de propósito. Olhei para ele e, por um instante, cruzou os olhos com os meus. Pegou-me na mão e acedeu com ela o interruptor... Pela primeira vez parecia estar a dar conta da minha presença, a "instrumentalizar-me" eu sei, mas pelo menos a manifestar uma vontade... Pela primeira vez senti que afinal não era louca em ter esperança e em ignorar os cochichos das funcionárias: "Mas ela é médica, ela deve perceber que ele não é normal. Deve saber o que está a fazer e o que quer levar para casa..."

(Continua, pois, que não acabou mesmo!)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

[bullying no jardim de infância] histórias de fora de casa

Correu tudo bem, felizmente, obrigada pelo vosso apoio e preocupação. No dia seguinte estivemos a treinar o que fazer e o que responder em caso de novas investidas do pequeno bully lá da escola. Teatro cá em casa até à hora de dormir:

- Vá, baby, faz uma cara feliz. E agora uma cara triste. E agora uma cara de corajoso! Boa!

E ele lá ia fazendo as caras e nós quase nos desmanchávamos a rir.
- E que cara achas que poderias fazer se ele viesse outra vez para te bater?
- Uma cara de corajoso!
- Isso, vamos a isso! E agora o que podes dizer?
- Não me podes bater, ou nunca mais brincas comigo!
- Boa, mas desviaste os olhos, assim ele não te leva a sério. Tens de olhar para a cor dos olhos dele, vamos, olha para a cor dos meus olhos e diz!

E o papá tirava-lhe um brinquedo à má fila e ele olhava-o nos olhos com "cara de corajoso":
- Alto aí, aguenta os cavalos! Eu é que estava a brincar com isso!
- Boa, filho!

Quando o fui buscar à escola perguntei como lhe tinha corrido o dia.
- Correu bem, mãe, quando o B. veio para me bater eu olhei para a cor dos olhos dele e disse-lhe "as regras".
- [Fiquei espantada, não tínhamos falado em regras] - Que regras?
- Disse que se me batesse eu ia chamar o meu pai, que era o chefe das tropas e que nunca mais brincava comigo!
- [O chefe das tropas? Mas de onde é que isto veio?] E ele?
- Ele ficou a olhar e depois fugiu. Mas depois veio perguntar-me se eu queria brincar às preguiças.
- Ah... e tu?
- Eu fui brincar com ele.
- E depois?
- Brincámos às preguiças ao pé do escorrega. E depois às escondidas...

Ah, a beleza da infância! A vida é simples, felizmente... Ainda é cedo, eu sei, mas já se passaram dias e nem mais uma queixa!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

[vozes brancas*] reforço positivo

Há dias, numa consulta de desenvolvimento, os pais de um menino com autismo manifestavam a sua perplexidade com o programa de treino intensivo [cujo nome obviamente não posso mencionar] em que tinham inscrito o filho:

- Sabe, doutora, eles fazem sempre o reforço positivo com comida. Mas em todas as sessões observam que ele responde muito melhor às palmas e aos elogios do que à comida.
- A na sessão seguinte?
- Como são sempre terapeutas diferentes, acabam por fazer o mesmo. Mas depois vêm dizer-nos que ele é muito sociável e que responde melhor aos elogios e palmas do que à comida, que ele tem muito boas características pessoais.
- Ah... e o que é que acham disso?
- Achamos que se calhar vamos procurar outro programa, o que acha, doutora?
- Claro! Onde é que já se viu um programa em que o terapeuta é sempre diferente e se vê que o menino responde melhor de uma maneira e não se ajusta nada ao menino na sessão seguinte? Ele quer ligar-se ao terapeuta e vai evoluir muito melhor de outro modo!

(E depois lembrei-me de uma cena familiar em casa dos meus pais: Há quase um ano, tinha o baby-de-mulata quatro anos e pouco. Depois de Mr. B, o meu sobrinho de sete anos, ter anunciado que queria ser engenheiro civil como o pai, o baby-de-mulata anunciou ao mundo em geral, e ao primo e a mim em especial que o estávamos a ouvir, que quando crescesse haveria de ser treinador de golfinhos. Já eu me perguntava quando tinha sido a última vez que tínhamos ido ao jardim zoológico ver golfinhos e nem me lembrava, e ele continuava:

- Sabes, é que eu já sei treinar golfinhos.
- Já sabes? - pergunta Mr. B, olhando para mim incrédulo.
- Sim, é muito fácil, queres que te ensine?
Fiz o mesmo olhar de espanto: - Sim, então como é que se treina um golfinho, filho?
- É canja! Quando ele faz bem, dás peixe!

E Mr. B, filho e neto de psicólogos, responde à letra ao que ele está a dizer:
- Tu não me digas que a tua mãe te dá chocolates quando tu fazes alguma coisa bem!

Ao que, muito ofendido, o baby-de-mulata responde:
- Claro que não, a minha mãe bate palmas e diz que está muito contente. Mas os golfinhos não percebem o que nós dizemos, por isso tens de dar peixe!

Pronto, era só um desabafo...)

* Voz branca - timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata

Nestes dias, talvez porque o baby tem estado em casa dos avós há um dia e meio e as saudades me apertam o peito, tenho-me lembrado dos dias em que o ia visitar, ainda antes de saber se o poderia levar para casa, ainda antes de me terem declarado apta para ser mãe dele, durante o processo de "escrutínio" que demora seis meses, em que somos entrevistados, submetidos a testes e provas e temos de provar quem somos e o que realmente queremos.

Tinha conhecido o baby no meu hospital um mês antes e, antes desse mesmo dia terminar, decidira que não o iria deixar ficar sem mãe. Se não aparecesse uma família para ele, eu própria iria lutar para que fosse meu filho para sempre. Nem quinze dias depois o baby teve alta do hospital e eu mal tinha tido tempo de o conhecer bem e de brincar com ele. Foi para um CAT (Centro de Acolhimento Temporário) a mais de uma centena de quilómetros de Lisboa, que se tornou o meu local de peregrinação nos meses seguintes. Não assisti à saída dele. As enfermeira depois relataram-me que tinham ficado inconsoláveis de o terem entregue depois de mais de um ano a cuidar dele, tão ligadas que estavam. Que só esperavam que fosse adotado depressa para ir finalmente para uma família...

No primeiro dia de visita o coração pulava-me, as borboletas na barriga saltavam: será que ele me vai reconhecer? Será que vai aceitar vir para os meus braços? Como será que as senhoras da instituição me vão tratar? Será que aceitam a visita de uma desconhecida que quer adotar o menino mas que ainda não tem autorização legal para tal? Será que me vão dar condições para vir visitar novamente amanhã? Ou vão impedir que crie laços com o menino se não têm a certeza de que vou ser mãe dele, já que depois vai ser ainda mais difícil para ele adaptar-se a outra família... E eu? Será que vou conseguir no meio disto tudo sobreviver se no fim não me entregarem o menino? E se não me declararem apta para adotar? Será boa ideia passar por isto sem ao menos me proteger um pouco?

Foi então que toquei à porta e a auxiliar da instituição me abriu a porta com o baby ao colo... O coração gelou-se-me... O baby não me sorriu, não deu qualquer sinal de me reconhecer, nem sequer olhou para mim. Antes da alta do hospital ele sorria para quem quer que fosse, como qualquer criança que não tem uma vinculação com ninguém em especial. Pensei que me estava a estranhar. Afinal de contas já não me via há um bom par de dias. Mas não, também não olhava para a auxiliar... Perguntei-lhe o que achava sobre isso. Respondeu-me que ele evitava o contacto ocular. Que no primeiro dia depois de ter chegado do hospital tinha dormido o dia todo, não lhe tinham conseguido quase dar de comer, tinha-se recusado a levantar-se da cama. Mas nos dias seguintes, com alguma insistência lá se tinha adaptado à rotina da casa. Já lhe conseguiam dar de comer. Desde há alguns dias também já lhe conseguiam pegar ao colo. Mas era um uma fita das antigas para mudar a fralda e dar banho... Estavam preocupadas e desconcertadas. Perplexas. Não sabiam o que se estava a passar. Ninguém lhes tinha dito que o menino tivesse assim tantos problemas de desenvolvimento... "Problemas de desenvolvimento" (!), foi o termo que a auxiliar usou, certamente já verbalizado pela psicóloga da instituição...

Uma fúria surda encheu-me o coração. Eu sabia que tinham ido buscar o meu menino ao hospital assim sem mais nem menos. Sem uma única hora de transição. "Viemos busca-lo, deem-no cá!" E foram-se embora com ele para o CAT. Eu sei que são instituições públicas, que não havia mães no processo, que as duas instituições distavam mais de cem quilómetros uma da outra. Que os recursos humanos são escassos e que um hospital e um centro de acolhimento têm dificuldade em dispensar dois elementos durante vários dias para fazer uma transição. Mas isto não se faz a um bebé! O meu menino, já de si tão frágil, abandonado à nascença, sem vínculo com ninguém em especial, que já tinha passado por oito cirurgias e mil tratamentos dolorosos, tinha perdido de um dia para o outro todas as referências e estava num sofrimento atroz!

Entregou-me o menino e fomos os dois para a sala de visitas. Era julho. Ou junho, aliás. Recordo-me do calor que se fazia sentir, que me sufocava, do olhar do baby que se me esquivava, dos seus movimento do tronco inclinando-se para a janela. Sem comunicar de forma nenhum. E, ao meu colo mas de costas para mim, abria e fechava a janela sem parar, alheado de tudo. Sem olhar para mim, sem olhar para o que se passava na rua. Apenas concentrado no movimento da janela a abrir e fechar. Eu tinha levado livros, brinquedos. Tentei diversas vezes chamar-lhe a atenção para o que trazia, mas em vão. De cada vez que lhe tentava captar a atenção, desencadeava uma birra descomunal. Se lhe mostrava um livro, levava com uma rosnadela. Uma hora e meia de visita passou-se deixando-me exausta, triste e frustrada. E ao baby também. Quando o entreguei, sem que lhe tivesse conseguido captar o olhar ou provocar um sorriso, estava destroçada e só pensava: "Será que vou aguentar voltar aqui? Será que aguento mais um dia disto? O que será que se está a passar?"

Fiquei arrasada. Não consegui contar a ninguém o que se tinha passado nem o que tinha sentido. Não consegui dizer o que se passava com o meu baby. Eu própria não compreendia muito bem. E tinha receio que alguém dissesse o que eu efetivamente vim a ouvir, ipsis verbis, semanas depois (que o menino tinha tido "uma regressão autística") e que me tentasse demover do meu projeto meio louco.

Agora sei, mas na altura não sabia: o meu menino tinha uma depressão da primeira infância! Uma depressão tão grave que se confundiu com autismo. Pela primeira vez vacilei. Mas não podia desistir. Com o diagnóstico de autismo então é que não apareceriam candidados a adoção e o menino ficaria sem família. E era este o menino que eu sempre imaginara que me cairia nos braços: um menino que mais ninguém quisesse. A única certeza que eu tinha é que era este o menino. Mas já não sabia se seria capaz de cuidar dele...

(talvez continue...)

sábado, 16 de julho de 2016

[vozes brancas*] e vidas pequeninas...

Até há pouco mais de duas semanas eu tinha mais um menino do que tenho hoje na minha consulta. Desde há pouco mais de duas semanas que não o tenho... Mas é precisamente desde há duas semanas que tenho uma história aqui atravessada nos dedos para vos contar.

Eu sei que não é o timing, deixem-me flagelar-me... Nunca é, também... Portugal foi campeão do Europeu e, mal um gajo teve tempo de inchar de ser Português e já temos de ser franceses outra vez e vamos lá ver se não temos de ser turcos já amanha. Os acontecimentos sucedem-se a uma escala que não é a da minha consulta, porque lá as vidas são pequeninas. Pequenas demais para se verem do alto do facebook. Mas se só vivermos à escala mundial acontece-nos como a uma amiga minha, que há uns tempos se queixava de que a indecisão entre o aquecimento global e a vinda de uma nova era glacial estava a deixar o seu sistema imunitário louco. Confesso que admiro profundamente quem consegue perspetivar à escala planetária aquilo que acontece na sua mucosa nasal (e o que escorre dela). Mas eu continuo a ser loira. Loira com dois neurónios, um dos quais viúvo. Por isso só me ocorreria que a minha amiga teria uma rinite. Mas isso tem a modesta vantagem de, em vez de aconselhar o Protocolo de Quioto, quase impossível de cumprir e que, na melhor das hipóteses, só poderá reverter as alterações climáticas dentro de várias décadas, prescrever antes um anti-histamínico e, em calhando, no dia seguinte a minha amiga estaria boa! Ou pelo menos melhor. O que se perderia em superioridade moral ganhar-se-ia em simplicidade e qualidade de vida. Mas enfim, longe de mim ditar tendências.

Mas vá, tudo isto para dizer que tenho a história de uma vida pequenina para vos contar: encham-se lá de paciência, meus amigos... Ninguém vos obriga a vir aqui, que isto já não é o mato divertido de uma loira anónima mas, já que cá estão, não se vão embora sem tomar uma pinga de chá. O meu menino não era o Cristiano Ronaldo, mas era um bom menino. E tem uma história que merece ser contada. É rápida, de qualquer forma. E conta-se em três penadas:

Tenho um menino na minha consulta que viveu numa instituição praticamente desde o dia em que nasceu, abandonado pela mãe na maternidade. Prematuro de 28 semanas porque a sua progenitora consumia cocaína e, num pico de tensão enquanto snifava mais uma dose, teve um descolamento de placenta. Extremo baixo peso ao nascer. Tinha menos de um quilo quando nasceu, esteve ventilado mais de um mês, teve várias septicémias. Na primeira ecografia cerebral percebeu-se que o descolamento de placenta e a cocaína tinham tido consequências ainda mais graves do que a própria prematuridade: o menino tinha tido um AVC que lhe destruíra uma parte importante do cérebro. Para cúmulo, meses depois confirmou-se mais um presente envenenado: infeção vertical por VIH.

Foi este menino que me chegou há um ano à consulta. Era um menino sorridente e bem disposto. Persistente. Depois de meses de fisioterapia começou a andar apesar do cérebro que lhe faltava. Chorava quando se ia embora da consulta porque estava ávido de qualquer atenção. Tentava sempre levar um brinquedo de cima da minha secretária numa carência de afeto indescritível. Dizia algumas palavrinhas (água, papa, olá). Graças ao zelo das funcionárias do lar tinha uma carga viral indetetável desde o primeiro dia. Sorria com confiança para todos à sua volta porque as pessoas que cuidavam dele, apesar de não serem família, sempre lhe tinham sorrido de volta.

Mas há duas semanas, na hora da consulta dele, vi chegar um casal holandês com uma cadeirinha de passeio. Lá dentro vinha o meu menino, a cantar uma canção em holandês. Contra todas as expetativas, o menino tinha sido adotado cinco semanas antes e vinha à consulta já com os pais adotivos. Estavam os três radiantes! Desde há cinco semanas os pais tinham assistido a uma explosão de desenvolvimento. O menino, outrora com um atraso de desenvolvimento grave, que só começara a andar com meses e meses de fisioterapia, tinha começado a correr, a subir escadas, a saltar. Já compreendia holandês. Cumpria todas as ordens que a mãe gentilmente lhe dava: "Vai dar um beijinho à doutora", "Vai arrumar este livro na caixa azul". Já fazia frases em holandês. Estava feliz. Mesmo feliz. Mas no momento em que a mãe lhe disse: "Agora vamos para casa", fez menção de chorar, como fazia habitualmente. Começou a fazer beicinho. Agarrou-se a mim e aos brinquedos que tinha na mão para os levar com ele, no desespero de quem tenta prolongar o momento de atenção e alegria que vivera ali. Gelei por instantes, pelo desconforto que os pais poderiam estar a sentir. Pela angústia de separação do menino. Foi então que de repente, os olhos do menino brilharam novamente. Olhou de novo para a mãe como quem pensa: "Alto, espera aí...". Ela estava ali, à sua espera! Agora tinha uma mãe! E um pai! Afinal já não estava triste. Afinal tinha um sítio para onde ir que era muito mais feliz e seguro do que aquele. E saiu novamente a cantar, na sua cadeirinha, uma canção em holandês, que não me sai da cabeça desde então.

É tão, mas tão bom ver alguém fintar o destino!

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

quinta-feira, 10 de março de 2016

[inspiração para uma despedida] até sempre, irmã

Quem me conhece ou acompanha há mais tempo este blogue sabe que houve um blogue-antes-do-baby-blogue. Antes de ser mãe-do-baby-de-mulata eu era a beijo-de-mulata, e escrevia um blogue de aventura e saudade, um blogue que escrevia para manter vivas as recordações das missões em Moçambique, para que não me fugissem as imagens, nem os cheiros, nem as palavras, nem as músicas... nem a Irmã Lourdes. A irmã que me ajudou em tudo, que foi minha mãe, amiga, companheira, orientadora, animadora, mediadora cultural. Foi com os olhos dela que aprendi a amar o povo macua, compreender os seus paradoxos, as suas angústias, perdoar as suas negligências e atrocidades, admirar o amor incondicional que tinham pelas crianças, respeitar as tradições que protegiam as mulheres, as crianças e os idosos. Com ela aprendi a conhecer crenças, ritos, feitiços, aprendi a compreender de que falavam as pessoas no hospital quando me falavam de doença e o que esperavam de mim. E aprendi que só conhecendo a cultura podemos tratar verdadeiramente as pessoas, conquistar a sua confiança e comunicar.

Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."

Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.

"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.

Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.

Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.

Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.

Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.

E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!

Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!

Até sempre!"

terça-feira, 14 de julho de 2015

[instantes ilustrados] melguices...

Esta noite, estava eu sentada com o meu baby-de-mulata, no sofá, de mãos dadas, a ver um filme da Disney, quando recebo um MMS de uma mãe aflita. Geralmente são fotos que me apresso a apagar porque apesar de compreender que os pais queiram ilustrar o sofrimento que descrevem e sentem literalmente na pele dos seus bebés (e que não se sintam à vontade para descrever com propriedade vocabular as alterações que veem), invariavelmente colocam-me um pouco desconfortável quando se trata de assaduras e candidíases de zonas íntimas. Há fotos que não me importo de ver, mas que não quero manter na memória do telefone...

A imagem, desta feita, mostrava uma criança serenamente a dormir, com uma borbulha tipo vesícula bem focada sobre o olho... E a pergunta: "Será varicela, Doutora?"

Seguiu-se mais uma troca de mensagens animada. A mãe respondia que não, que não tinha muitas borbulhas mais, só mais dus ou três dispersas pelo tronco. Que havia um primo que tinha inciado a doença dias antes. Ao que respondi que o período de incubação não é tão curto, só se se tivessem infetado ao mesmo tempo há duas ou três semanas. Enfim, chegámos à conclusão de que era necessário aguardar a evolução para fazer o diagnóstico.

Horas depois, pelas 04:00 da madrugada recebo nova MMS. Desta feita, uma mancha vermelha meio esborratada, ao lado de um ponto preto, num fundo branco. Meio estremunhada, com cara de ponto de interrogação ensonado leio a mensagem: "Doutora, acho que matei "varicela". Estava cheia de sangue e agora jaz na parede do quarto. Obrigada pela atenção."

E pronto. Paz à sua alma...

segunda-feira, 25 de maio de 2015

[vozes brancas] pequenos milagres!



Tenho um menino de 8 anos que sigo há vários anos. Teve um diagnóstico de autismo depois da primeira infância (já nem sei aos três ou quatro anos), mas entretanto, com o investimento da mãe e múltiplos profissionais envolvidos, fez uma evolução notável. Não quero agora discutir se o diagnóstico estaria correto. Olhando para trás e tendo em conta a evolução, podemos pensar que não estaria. Eu não sei, não fui eu que fiz o diagnóstico e não estava lá para ver, o que eu sei é que ele evolui de dia para dia. Atualmente é um menino doce, que se explica muito bem verbalmente, já tem até algum sentido de humor e começa a ter criatividade e imaginação. É também incrivelmente impulsivo, agitado, difícil de acalmar nas múltiplas birras que continua a fazer por dia. Na última consulta, depois de o ter conseguido acalmar, pedi-lhe que me fizesse um desenho.
 
Saiu esta obra magnífica e colorida! Perguntei-lhe o que era. Respondeu-me que era um "super-jardineiro, amigo do ambiente". Já estou habituada a surpresas deste tipo, mas quase que choro só de me lembrar como estava este menino da primeira vez que o vi em consulta...
 
A sério que da próxima vez que alguém me disser que baixa os braços perante de um diagnóstico de autismo lhe mostro este desenho!

Tal como há poucos meses um menino com um autismo profundo, sem linguagem funcional, de repente começou a escrever no computador. E meses depois estava a usar a linguagem escrita para fazer pedidos simples. A mãe perguntava-me, incrédula se isso queria dizer que o menino sabia ler...

Respondi-lhe que temos de aceitar os milagres! Tal como ela nunca desistiu do filho e sempre aceitou o diagnóstico e fez por ele tudo quanto conseguiu fazer, também tinha de saber aceitar as coisas boas.

terça-feira, 5 de maio de 2015

[vozes brancas] kiss my eyes

Tenho uma dor horrível no olho... No sábado, durante a urgência de pediatria, mal conseguia manter o olho aberto. Tudo por causa de um malfadado vírus que estava obviamente a sofrer maus tratos no nariz de um baby que eu vi na urgência da semana passada e que portanto resolveu pedir asilo político ao meu olho direito. Ora pois que o meu olho direito se compadeceu do bicho, coitadinho, catapultado de minuto a minuto em violentíssimos espirros e resolveu armar-se em alto comissário para os refugiados. Vai daí, arranjou-lhe alojamento e despachou-o para o seu vizinho do lado esquerdo, que ele, como olho diretor, tinha mais que fazer, ora essa, era o que mais faltava, ser alto comissário e ainda ter de fazer tudo nesta casa.

De tudo isto, só tive conhecimento na semana seguinte, quando no dia de urgência acordei com o olho à Camões. Sou sempre a última a saber destas andanças...

Mas como eu ia dizendo, no sábado estava miserável. Uma dor excruciante. A meio da manhã já não aguentava mais, a dor trespassava-me o crânio e latejava-me nas têmporas, e fui pedir à enfermeira que me tapasse o olho. Foi então que me entrou no gabinete um menino de quatro anos, acompanhado por uma mãe muito empática que me olhava compadecida. Já o menino olhava para mim absolutamente boquiaberto. Deixou-me fazer tudo o que lhe pedi sem um protesto. Por fim ganhou coragem e perguntou-me baixinho:

- És pirata?
- Sim, sou uma amiga do Jake, vim da Terra do Nunca para te ajudar a curar esse dói-dói.
- Mas essa coisa no olho não era preta?
- Sim, mas as princesas piratas usam uma pala branca, os piratas meninos é que usam uma pala preta. Agora tens uma missão: para salvar a princesa pirata lá da Terra do Nunca tens de ir fazer análises.

O menino estava fascinado, respondeu-me muito compenetrado que sim, que iria fazer então as análises. Regressou sem uma lágrima e com um desenho para a princesa pirata da pala branca.

[Tenho ou não tenho a melhor profissão do mundo?]