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quinta-feira, 10 de março de 2016

[inspiração para uma despedida] até sempre, irmã

Quem me conhece ou acompanha há mais tempo este blogue sabe que houve um blogue-antes-do-baby-blogue. Antes de ser mãe-do-baby-de-mulata eu era a beijo-de-mulata, e escrevia um blogue de aventura e saudade, um blogue que escrevia para manter vivas as recordações das missões em Moçambique, para que não me fugissem as imagens, nem os cheiros, nem as palavras, nem as músicas... nem a Irmã Lourdes. A irmã que me ajudou em tudo, que foi minha mãe, amiga, companheira, orientadora, animadora, mediadora cultural. Foi com os olhos dela que aprendi a amar o povo macua, compreender os seus paradoxos, as suas angústias, perdoar as suas negligências e atrocidades, admirar o amor incondicional que tinham pelas crianças, respeitar as tradições que protegiam as mulheres, as crianças e os idosos. Com ela aprendi a conhecer crenças, ritos, feitiços, aprendi a compreender de que falavam as pessoas no hospital quando me falavam de doença e o que esperavam de mim. E aprendi que só conhecendo a cultura podemos tratar verdadeiramente as pessoas, conquistar a sua confiança e comunicar.

Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."

Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.

"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.

Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.

Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.

Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.

Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.

E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!

Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!

Até sempre!"

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

[para a joana] nada temas, porque tudo recomeça...

 
Amanhecer no Índico...
(Praia das Chocas, Nampula)


Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te em nome seja de quem for (...)

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu


Ruy Belo

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

[outras palavras] inspiração para uma despedida



Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes, como uma moeda,
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que só tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
E porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?

Caiu o livro que sempre escolhíamos ao crepúsculo
e como um cão ferido rolou a meus pés a minha capa.

Sempre, sempre te afastas nas tardes
para onde o crepúsculo corre, apagando as estátuas.

Pablo Neruda in Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada

domingo, 13 de maio de 2012

[inspiração para uma despedida] bernardo

 «Pareceu-te um dia bom para nos deixares, Bernardo. O sol apetecia e as fotos, que tanto amavas, chamavam-te para a beira da falésia. Como viveste, também foi no precipício que derradeiramete te apeteceram os imensos dons com que brilhaste. (...) Sempre te achei um pequeno génio escondido num corpo grande e numa bondade estonteante. Diferente de tudo, de todos, da Música que eras por dentro, foste diferente ao nos deixares tão sós, tão perto do medo, tão frágeis. Diferente foste ao partir tão cedo, Bernardo. Esperar-te-ei sempre (...) a ocupares com as tuas imensas mãos o piano que nunca soou tão bem, a inundares de vida e ruptura este mundo que tanto necessitava agora de ti. Descansa enfim, meu amigo. Há pianos onde estás, tenho a certeza»
Pedro Abrunhosa

domingo, 29 de janeiro de 2012

[inspiração para uma despedida] o tesouro que te deixo...

Tenho apenas uma certeza. É que te deixei um tesouro. É verdade isto que te digo! Talvez um dia o compreendas, não agora, que sei que o desconforto ainda não se foi. Aquilo de mais precioso que te deixo não são as recordações do que vivemos, por mais bonito que tenha sido, mas a verdade que viste nos meus olhos quando te reflectiam, e a minha confiança inabalável em ti. Eu sei, não acreditavas nessa imagem de perfeição. Era um disparate, dizias. Era um delírio meu, pensavas. Talvez em algum momento tenhas quase acreditado, não sei. Mas isso é tão irrelevante... A única verdade é que tu gostavas dessa imagem. E é esse o motor de todas as vidas. E também o rumo e o sentido de todas elas: a vontade de se assemelhar a uma imagem reflectida.

De resto, deixo-te o que não vivemos. Acrescentado de um bocadinho de flor-de-sal: a convicção de que terias sido capaz. E que portanto é possível. Não comigo, obviamente, que já não estarei aqui. Mas tenho uma fé indestrutível de que vais ser feliz!

[Variações de Raoul Follereau]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

[hoje há...] silêncio

Pela Guiné-Bissau... Rezemos/ pensemos/ façamos/ tentemos torcer pela paz.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

[o regresso a iapala] em jeito de epílogo...






O regresso a Iapala...
(Nampula, Moçambique)

(...continuando a história que começou aqui...)

E no final da semana voltámos para Iapala. Íamos todos eufóricos e de coração leve. O carro, que à ida tinha parecido o carro dos loucos, parecia agora o carro do circo, connosco a cantar estrada fora. Eu com uma alma nova, já com o sono atrasado em dia, a Inês e o Sr. Rafael totalmente renascidos e o Cachimo felicíssimo ao meu lado, amoroso e trocando comigo olhares cúmplices. A família a quem tínhamos dado boleia para o Hospital Central bateu-nos à porta dias antes da partida e partilharam o carro connosco. Claro que tivemos outro furo. No mesmo pneu, que não devia ter ficado bem consertado na oficina… Desta vez, sem crianças doentes e sem angústias, mudámo-lo nós. Todos juntos, num trabalho em equipa, os risos que se diluíam no meio do silêncio e do cheiro da savana. A Inês foi recebida em euforia pelas outras meninas da casa, a Irmã Lurdes ficou comovidíssima e a madrinha dela cumpriu de alma e coração a intenção de lhe pagar os estudos até ao fim da faculdade.

Foi na semana seguinte, em Iapala, que conheci o J. F., director da ONG com que colaboro. Chegou com um padre comboniano para visitar a Missão e o trabalho da Irmã Lurdes com os leprosos. Encontrou-me no hospital. Vinha a comentar, na sua boa disposição, que se devia ter inadvertidamente transformado num homem muito mais respeitável durante viagem, porque todos os polícias por que tinha passado o tinham tratado por “Sr. Padre”.

– Ou terá sido só da barriga? É que o Padre Alberto é muito mais magro do que eu e os polícias acharam todos que ele era o meu empregado. Ahaha!
– Sim, só pode ter sido isso – brincava o Padre Alberto – eu ao menos tenho cara de empregado de padre, sempre me “emprestas” alguma dignidade. Podia ser pior. Podia ter cara de empregado das finanças…

Foi uma noite de boa disposição! Falou-me do trabalho da associação na luta para a erradicação da lepra e na assistência médica e moral aos doentes. Eu estava tocadíssima pela história da Inês. Nunca antes tinha sentido tão na pele o sentido da palavra “estigma”. Daí que quando, meses depois, me convidaram para ir novamente para Moçambique integrada no programa de combate à lepra emocionei-me. Claro que aceitaria. Por pouco tempo que fosse. Se pudesse devolver a vida a alguém que ainda tivesse vida, a minha própria vida teria mais sentido.

E pronto, foi assim que tudo começou. O que se seguiu, talvez um dia vos conte... Acompanhei outros voluntários no seu trabalho lindíssimo. E fui testemunha de verdadeiros milagres. E assisti à alegria de ver devolvido um futuro a muitas vidas que afinal não tinham terminado!

No ano seguinte a Irmã Lurdes fundou a missão do Gilé, na Zambézia (como foi que ele teve coragem de deixar Iapala é coisa que ainda hoje me intriga...). A Inês foi com ela porque em Iapala só havia escola até à 7ª classe. Completou a 12ª no Gilé e foi depois estudar enfermagem para Quelimane. A última vez que soube dela, estava a trabalhar em Tete, já com o curso tirado e, imagino, casada e já com filhos. Os pais ainda hoje de vez em quando me telefonam ou mandam SMS a agradecer o que fiz pela filha. Por vezes, quando alguma das Irmãs vem a Portugal, mandam-me pequenos presentes: castanha de caju, café da sua machamba, desenhos feitos pelos irmãos mais novos da minha menina. Enchem-me a alma. Quero acreditar que ela é feliz.

Obrigada a todos os que vieram comigo nesta viagem...
(um) beijo de mulata

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

[outras palavras] reconstruir-se...



Homem triste à janela...
(Ilha de Moçambique, Nampula)
Foto da net. Mais uma vez lamento mas não tenho o link...


Demoro-me no outro lado de mim
porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
... para que seja ainda eu

Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.

Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.

Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.

Mia Couto

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

[aviso à navegação] a história da inês chegou ao fim!

Dois meses depois, com angústias pelo meio, reclamações, unhas roídas, desistências, risos e desesperos, a história da Inês e do Sr. Rafael chega ao fim com todos vivos e saudáveis. Há ainda umas pontas soltas e por isso vou ter de fazer um epílogo (sim, que qualquer história que se preze tem sempre um epílogo), até porque ainda vos vou contar como foi que regressámos a Iapala e, mais importante do que tudo o resto, o que foi que fiz com o que esta história me ensinou, que não foi nada pouco... A todos os que conseguiram chegar ao fim da história: os meus parabéns! A vida afinal também pode ser simples.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

[inspiração para uma despedida] requiem em mal menor


Girl with umbrella 
 (Street art by Banksy, New Orleans)

Menina, o céu às vezes vinha sacudir as nuvens sobre os teus olhos para que o teu corpo as temperasse de sal (ou de saudade, que é a flor-de-sal à tona da memória)... e então o teu corpo transbordava. E o céu chovia. Ou chuviscava, pelo menos, que dizem que a chuva molha-tolos reaviva as memórias delicadas e reaquece as recordações que teimam em esfriar...

Mas sabes, esta noite sentiste o sol queimar-te a pele e então percebeste que era o sal do teu corpo que estava exausto. Eu sei quando foi que aconteceu. Foi quando o céu deixou de chorar por ti. Agora podes escolher: ir ao fundo da memória e chorar sozinha, com o sal grosseiro e sujo que não se esgota, ou ser feliz, sob um céu sem nuvens. E chorar só de vez em quando, com a caixinha de flor-de-sal que guardaste para as memórias felizes.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

[beijo de mulata não cresce aqui] mas devia...


(Paris)

Era aqui que eu queria estar esta noite e, infelizmente, não posso... Resta-me rezar para que a despedida seja o menos dolorosa possível e que os que ficam encontrem forças para se apoiarem. A mãe deles disse-lhes, pouco antes de morrer (eram eles ainda crianças): "Levo-vos atravessados no meu coração. Amo-vos tanto..." Ele há uns dias disse-lhe o mesmo. E ela, irmã dele e Irmã do mundo inteiro, vai ficando, mas cada vez com mais partes de si longe deste mundo. Há tantos caminhos para a santidade...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

[a sul da zambézia] o amor é um palco de guerra...



Um tanque de guerra feito cama sob as estrelas em Marromeu...
(Marromeu, Sofala)

Marromeu, uma terra encostada à Zambézia, na margem sul do rio que marca o fim da terra dos meus encantos. Há quem diga que foi um indigente que aqui dormiu...

Mas eu pergunto, não pode este carro armado ter sido antes a cama onde duas pessoas se amaram, sob o tecto negro e tórrido do cruzeiro do sul? Não pode a rede mosquiteira ter sido o garante da nudez tranquila de dois corpos que se queriam conhecer sem urgência e saborear o abraço conjunto e a proximidade dos corações? Não pode a chapa fria ter sido coberta pela capulana que ela recebera de presente nesse mesmo dia? Não pode o cantar rítmico das aves nocturnas e dos insectos ter sido a banda sonora mais bonita daquela dança quente a dois? Não pode o mesmo ruído da noite se ter transformado depois na canção de embalar que a savana lhes cantou até de manhã, celebrando aquele amor? Um amor provavelmente impossível, possivelmente proibido... proibitivamente caro, como são todos os amores proibidos?

E por ali ficou, palco de guerra abandonado, testemunha muda dos momentos em que dois corações bateram de repente ao mesmo tempo e depois ficaram por ali, abrandando lentamente, tentando perceber o tamanho do vazio que ficaria quando a manhã rompesse. Terá sido um até sempre? Isso talvez até seja fácil de saber... Se por lá estiver pelo menos um coração destroçado é porque o amor perdeu a guerra...

Divagações sobre este post...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

[inspiração para uma despedida] medos...

- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo de que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porque então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti...
Mia Couto in Venenos de Deus Remédios do Diabo

[improbabilidades] a explicação dos sapos...


Wise Up, por Aimee Mann
(Cena de Magnólia, 1999)

Quando sapos cobriram o Egipto, no livro do Êxodo, foi sinal de graves problemas. E essa foi somente a segunda praga das dez que implacavelmente o atingiram antes que o faraó abrisse os olhos e libertasse Israel da escravidão! Uma chuva repentina de sapos é um dos eventos mais bizarros que pode acontecer mas, meus caros amigos, podem acreditar que não é assim tão incomum...

Claro que os estimados leitores nunca foram tranquilamente à casa de banho lavar os dentes e deram de caras com um sapo no lavatório ou no balde com que tomavam banho, quanto mais com centenas de sapos caídos numa estrada nocturna, algures no meio do Alentejo, depois de um fim de semana de sonho, em que sabiam que dentro de poucas horas haveriam de acordar para nunca mais em toda a sua vida sonhar com a mesma tranquilidade. Ou pelo menos não de um sono só... Mas esta vossa amiga já.

Aquela cena final de Magnólia, que deixou de queixo caído, com nojo e um pouco impressionado quem viu o filme é um retrato quase fiel do fenómeno. Contudo, há uma explicação simples para aquela aparente fantasia bíblica: ela envolve redemoinhos de ventos e criaturas de baixo peso. Os sapos podem pesar somente alguns gramas e, mesmo os mais pesados, podem ser facilmente arrastados centenas de metros por ventos fortes.

E sim, é verdade, meus amigos, choveram sapos nesse dia. Há precisamente um ano atrás. Não foi por causa da chuva e dos sapos que nunca mais dormi de um sono só... mas esta chuva, para mim, é como para o faraó egípcio: it's not going to stop 'til you wise up!

(Adaptado daqui)

domingo, 11 de setembro de 2011

[inspiração para uma despedida] a força que um abraço pode ter!

Ontem, depois de um fim de semana maravilhoso, no meio de um abraço de despedida, houve uma frase que me tocou fundo e veio coroar mais de seis mil quilómetros, em que cada centímetro valeu a pena: "Foi tão bom ter-te cá... eu sinto que foi... foi um milagre ter-te aqui comigo!" A vida às vezes é tão simples...

"E todas as pessoas vivem, não pelo amor que têm por si próprias, mas pelo amor por elas que existe nos outros."
L. Tolstoi

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

[estados de espírito] paixão é fogo...

O fogo que me pode aquecer e iluminar a minha vida é o mesmo fogo que me pode queimar profundamente. Está escuro e tenho frio... mas agora tenho medo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

[inspiração para uma despedida] decisões difíceis...

"Sempre tive uma tendência terrível para adiar coisas inadiáveis. Sempre que há um prazo para cumprir eu sou aquela que entrega as coisas já a pisar o limite. Tenho tendência a adiar, deixar para depois que hoje não apetece. Não me orgulho mas é verdade. Sou assim com as minhas relações (sentido lato) também, felizmente não tanto, felizmente não chego ao limite. Dou por mim a ignorar sinais de "abuso", dou por mim descontente mas a agarrar-me a migalhas como se disso pudesse depender a minha subsistência, dou por mim a ser ignorada e dou pelas minha energias a baterem no casco. E tolero durante algum tempo, tempo esse em que vou emitindo avisos. Deixo porque gosto, porque tenho carinho, porque são amizades longas e com muito tempo de história, porque não fazem por mal, porque dizer não dá muito trabalho, porque tenho alguma capacidade de sacrifício, porque o céu é azul e porque hoje estão 27ºC. Assisto a uma morte lenta enquanto agonizo até ao dia em que me lembro que sou a favor da eutanásia. Eu acredito que numa situação irremediável, há vários fins possíveis. Quanto mais o protelarmos, pior será a versão. Não sei o máximo que valho, mas sei o mínimo pelo qual mereço ser reconhecida. Com alguém que me veja abaixo disso, é impossível relacionar-me."
Por Nervos em Frangalhos

Este texto não podia descrever melhor aquilo que sinto... Está decidido. Vou trocar de frigorífico!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

[inspiração para uma despedida] et in arcadia ego

I went to the gardenroom this morning and was so very sorry...
Lady Marchmain

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

[and now, for something completely different...] irritações domésticas

O meu frigorífico anda a pisar o risco. Anda de uma frigidez agressiva, capaz até de congelar uma alface no tabuleiro dos frescos! Ontem foi uma meloa inteira para o lixo, queimadinha, queimadinha que até fazia aflição... Hoje pu-lo de castigo na varanda para lhe dar uma coça nos entrefolhos, a ver se aprende. E não me venham dizer que ele é capaz de gostar e de se habituar a coças daquelas, que eu quando quero não sou nada meiga... Ele que não se arme ao pingarelho comigo, que eu sou muito bem capaz de viver sem ele. E para colar post-its qualquer parede serve. Em último caso troco-o por outro! Manias de prima donna, é o que ele tem. Ah, mas ele que não se atreva a boicotar a minha galinha à zambeziana de amanhã, que lhe canto um sermão que nunca mais se arma em Polo Norte!

Pronto. Era só isto. Já me sinto mais aliviada. A emissão segue assim que conseguir resolver a questão do molho de bróculos congelado (grande metáfora para algumas vidas!).

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

[inspiração para uma despedida] uma última vez

Meu amor, lá onde estiveres, seja onde for, por favor não cresças! Não cresças sem mim! Deixa-me chegar a tempo quando for a minha vez… Não te custa nada continuar a gostar de legos e das canções dos anúncios da televisão, e de carrinhos e de aviões.
Se eu tivesse sabido que aquela era a última noite que te ia ter nos meus braços, que no dia seguinte te levariam de mim sem me avisarem, como se eu não fosse a tua mãe e não tivesse de ser tida ou achada no processo, se eu soubesse que depois não chegaria a Moçambique a tempo de te ver uma vez mais… Se eu soubesse, meu amor…

Se eu soubesse que aquela noite ia ser a última, tinha-te deixado chapinhar um pouco mais no banho e não me teria importado que os outros meninos da enfermaria esperassem uns minutos mais. Eles não gostavam tanto do banho como tu. Não ficavam fascinados com uma banheira cheia de água morna e bolhinhas de sais de banho perfumadas, e óleos que deixavam a pele macia. Eles não sabiam que lá onde nasceste a água não vem das torneiras da casa de banho e que a água quente é um luxo que ninguém tem. Os outros meninos não ligavam aos brinquedos no banho. Tu conseguias tirar som e ritmo de qualquer brinquedo que caísse na água e dançar sob qualquer pretexto. Repetias qualquer frase minha ao acaso, fazias dela um refrão e dançavas ao som daquela música improvável, no prazer de gozar comigo, de ver chegar a minha paciência ao limite e de me fazer rir ao mesmo tempo: “Deixa-me só pôr-te o champô. Deixa-me só pôr-te o champô. Deixa-me só pôr-te o champô.”

Tu tinhas os teus tempos, deixavas-te lavar, mas só de vez em quando. Tinhas de fazer pausas para dançar e continuar aquele jogo comigo. No hospital nunca soube respeitar esses tempos porque me sentia pressionada pelos outros doentes. Só lá em casa brincámos a sério, lembras-te? Mas se eu soubesse que era a nossa última noite não te tinha apressado. Até te tinha deixado comer os morangos e os chocolates que me tinhas pedido ali mesmo. Há lá coisa melhor do que um banho de imersão com chocolate e morangos?

Se eu soubesse que era a última noite não te tinha posto na cama, tinha-te deixado adormecer nos meus braços, tinha-te deixado lutar contra o sono o tempo que quisesses. Às vezes, à noite, partias-me o coração porque estavas sempre a abrir os olhos para ver se eu ainda estava ali contigo, se não me ia embora. Estavas sempre de vigia. Tivesse eu sabido e não te tinha dito para fazer silêncio porque os outros meninos do quarto já dormiam e os outros pais precisavam de descansar. Não me tinha importado com o exame de Cirurgia III na semana seguinte e teria passado a noite contigo ao colo a olhar para ti, a sentir-te respirar, como na primeira noite em que te vi… Não te lembras, eu sei. Ainda bem que não te lembras. Quase me morreste nessa noite…

Se eu ao menos suspeitasse, meu amor… Tinha telefonado à enfermeira Susana, aquela que tu adoravas e brincava contigo e te fazia rir como eu nunca consegui. Ela também teria ficado contente de te ver uma vez mais… A Susana deixava-te correr e brincar à vontade, sem ir atrás de ti como eu, sempre com medo que essa perna marota que tinha deixado de se mexer te traísse, e caísses e te magoasses. Mas claro, quando estavas com ela defendias-te mais, andavas com cuidado. Assim que eu chegava afoitavas-te como se o chão não existisse, seguro de que te agarrava em voo, seguro de que não te deixaria cair, mesmo que tivesse de parecer uma barata tonta a correr atrás de ti. E depois gozavas comigo porque mais uma vez tinhas visto que eu estava garantida. E estava, meu amor. Mas comigo eras tão esquivo… Sempre a fazer birras e exigências, como que a ver se eu queria mesmo estar ali contigo, se não te ia deixar, se gostava mesmo de ti. Mas sabias que sim. Eu, aliás, não sei ser de outra maneira. Só sei ser incondicional. Mas isso terias compreendido muitos anos mais tarde, não naquela altura… Com os outros eras o menino mais doce e mais tranquilo da enfermaria. Mas eu sempre compreendi isso, sempre percebi que se agias assim era porque dos outros não te importava saber se gostavam mesmo de ti. 

Se soubesse que era a última vez, tinha-te deixado comer as gomas que a mãe do Bernardo te trouxe naquela noite. Ela adorava ver-te comer! Aliás, todos os outros pais ficavam magnetizados com o prazer com que comias, ainda para mais porque os meninos deles estavam doentes e sem apetite nenhum… E o Bernardo já não conseguia comer desde que tinha tido o traumatismo craniano. Alimentava-se por uma sonda. Lembras-te do dia em que entraste no quarto dele e me perguntaste o que era aquele tubo que ele tinha no nariz? Expliquei-te o melhor que soube, mas olhaste depois a mãe dele com estranheza. Como é que ela, que te dava tantos chocolates a ti, não os dava ao filho dela? Será que não gostava dele? Que espécie de mãe seria aquela? Não sei se te consegui fazer entender que era precisamente por isso que ela adorava ver-te comer as guloseimas que te dava. E até sabia que tinhas passado fome em pequeno, daí o teu fascínio por comida. Mas nessa noite já tinhas lavado os dentes. E sabe Deus o que eu penava todas as noites e que histórias tinha de inventar para te convencer a lavá-los…

Se eu soubesse, meu querido, não me tinha demorado no jantar a falar com a mãe do Diogo, que estava destroçada porque o filho tinha a mesma doença que tu. Procurava conforto em mim porque me achava forte e sabia que eu não era tua mãe biológica. Aliás, saltava à vista que não podias ser meu filho. Mas eras. Sempre foste, desde o primeiro dia, o meu menino do coração. Nunca me achei no direito de chorar à tua frente ou à frente de quem quer que fosse, mesmo quando me lembrava que estavas doente. De qualquer modo tu não me davas vontade de chorar, fazias-me esquecer a doença com o teu sorriso e acreditar que esse sorriso que me derretia era uma conquista minha. Que tinha sido eu a conseguir limpar a tristeza do teu olhar.

E quase acreditava genuinamente que amanhã não viria. “Amanhã não existe!”, repetia para mim mesma de todas as vezes que as angústias me assaltavam. Tu só me fazias rir com as tuas brincadeiras e com as danças africanas que gostavas de imitar. Se tivesses crescido tinhas sido um actor talentoso, tinhas continuado a fazer sorrir às gargalhadas os pais mais tristes do mundo.

Perdoa-me, meu amor, mas eu também não sabia… Naquela noite tinha-te por garantido e estava no meu papel de mãe. Se soubesse, ter-te-ia explicado para onde ias. Eu sei que querias voltar para a tua casa em Moçambique, apesar de os teus pais não estarem lá. Era naquela casa que estava o teu irmão e todas as tuas referências. Mas tenho a certeza de que tiveste medo quando te puseram no avião. Não sabias para onde ias. Como poderias acreditar que ias para casa se da última vez que te tinham posto num avião sozinho te levaram para aquele hospital, para um quarto de isolamento? O que foi que pensaste de mim? Eu sei que os cinco anos são a idade da angústia e da culpabilidade. Claro que ninguém te explicou que eu não desapareci da tua vida por te teres portado mal. Claro que ninguém te explicou que não te abandonei e que sofri horrores quando te foste embora. Ninguém te disse que não estava a mentir quando te respondi nessa manhã, depois de uma noite mal dormida naquelas cadeiras horríveis, que sim, que voltaria nessa tarde. Que só ia trabalhar para outro hospital, ver outros meninos e já voltava.

Eu voltei, meu amor, juro que voltei. Com mais um livro de animais, daqueles que tu adoravas. Ainda o tenho lá em casa… Tu é que já não estavas. As enfermeiras nessa tarde abanaram a cabeça, perplexas. “Mas não sabia? Nós também não sabíamos… Não sabíamos que ele ia voltar hoje para Moçambique. Ninguém sabia. Até foi sem nota de alta e tudo. Parece que lhe arranjaram lugar num voo muito mais barato e aproveitaram. Vieram buscá-lo logo ao fim da manhã. De qualquer forma já tinha terminado os tratamentos, já não estava cá a fazer muito mais…” Agora compreendes, não compreendes? Por isso peço-te, por favor, não cresças sem mim. Deixa-me um dia, ao menos uma vez, chegar a tempo.