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sábado, 31 de agosto de 2013

[welcome to mozambique] inseticida...

A pedido de ainda mais famílias, aqui fica mais um pequeno excerto do meu livro:

Deixo-me ficar na cama ainda mais uns minutos depois do alarme do telemóvel tocar. Recordo-me desta noite... Ainda nem acredito que recebi um recém-nascido em Moçambique, à luz das velas, como nas mais antigas histórias que ouvia contar! (…)
Cumprimento a Amélia, a minha discreta companheira de quarto, uma osga simpática e madrugadora, que a esta hora já se encontra colada aos vidros da janela ao sol (desconfio que terá passado ali a noite...), com as patinhas esticadas numa enorme preguiça, à espera do pequeno-almoço esvoaçante (este sim, literalmente um “mata-bicho”). Instalou-se no meu quarto há três dias, trazida pelo cozinheiro ante o meu olhar de ponto de interrogação. Eu tinha-lhe pedido inseticida pois não tinha rede mosquiteira no quarto, ao que ele respondera:

– Não sei o que é set'cida, doutora...
– Remédio para os mosquitos – reformulei.

– Ah, não tem problema!
E horas depois regressou com a Amélia... A verdade é que esta minha inquilina é uma exímia caçadora de mosquitas, mosquitos e moscas e ainda não precisei de usar inseticida.

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

sábado, 17 de agosto de 2013

[nomes que afinal não dizem tudo] welcome to mozambique

 
Mamã com crianças...
(Iapala, Nampula)

A pedido de várias famílias, aqui fica um pequeno excerto do meu livro. É sobre um episódio no dia da chegada à missão de Iapala...
"Antes do jantar, recebemos a visita de uma jovem com um bebé de poucos meses adormecido às costas. O menino vinha no seu traje de gala, com um conjunto de gorro e meias de lã, amarelo com uma risquinha verde, amorosamente tricotado à mão por uma das irmãs.  
– A touquinha e as peuguinhas de lã são o melhor presente que se pode dar a uma mamã – explicou-me depois a irmã Lurdes.  
– Com este calor?
– Não me perguntes porquê, mas todas as mamãs adoram. 
Realmente, como diria Mark Twain, os costumes mais absurdos são sempre os que permanecem mais enraizados... A "touquinha", como a irmã lhe chamava, era um gorro de inverno, de aspeto bastante quente, com direito a pompom e tudo! A jovem era mulher de um dos empregados da missão. Sabia que a irmã Conceição tinha chegado e vinha dar notícias da sua ida a Nampula para registar o menino.
– Não me deixaram pôr o nome que a irmã disse – lamuriou-se.
– Porquê? – Espantou-se a irmã Conceição.
– Disseram que não era nome normal. 
– Mas que estranho...
A jovem mamã tinha ido, dias antes, ter com as irmãs a Nampula porque estava com dificuldades na escolha do nome do bebé. Era o primeiro filho, o que tornava o processo muito mais complexo, com uma grande responsabilidade. Queria dar-lhe o nome de um padre, porque os missionários eram as pessoas mais importantes da região, mas não sabia que nome escolher. A irmã lembrara-se então que o pai do menino, em tempos, trabalhara para um padre em Nampula e tinham ficado particularmente amigos.

– Porque não lhe põe o nome dele?
A sugestão tinha sido bem aceite...
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar? – Perguntei, curiosa.
– Padre Arlindo...  
A jovem estava desolada, mas eu tive de deixar cair um brinco no chão para poder esconder a cara, porque só me apetecia sorrir às gargalhadas com aquela cena digna de uma comédia dos anos ’30. Depois de uma longa explicação das irmãs, a jovem saiu um pouco mais conformada.
– Acho que não vai muito convencida... Só Arlindo parece que não diz tudo – notei.
– Também me parece... Mas ainda bem que o funcionário do Registo Civil foi sensato, senão o menino tinha ficado com um Arlindo nome! E se fôssemos jantar?"

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

sábado, 12 de janeiro de 2013

[deve ser pecado] janela indiscreta...

Deve ser pecado partilhar ainda mais isto convosco, valha-me São Paulo do cavalo bravo... Mas não não vou deixar de o fazer... Como dizia um padre amigo meu, não preciso de ir para o céu, que os meus amigos também não vão para lá! Ontem tive uma surpresa agradável quando uma amiga me ligou a dizer que fosse depressa ouvir a Antena 1. Não fui, que o baby-de-mulata estava a acordar do seu sono de beleza. Mas ouvi depois em Podcast. Obrigada, Pedro Rolo Duarte!

Bom fim de semana!

domingo, 6 de janeiro de 2013

[eu não mereço, eu sei] mas soube tão bem...

A Sónia Morais Santos, jornalista de mão cheia e uma força de trabalho impressionante, autora do blogue "Cocó na Fralda", como obviamente saberão (até porque com grande probabilidade vieram cá dar a partir dele), escreveu um artigo sobre esta apaixonada pelo mato moçambicano nas Selecções do Reader's Digest, a revista que eu lia quando era mais nova e que me ensinou tanta coisa. Julgava-a extinta, calculem...

Não sei como foi que ela, só com notas tiradas à mão, sem gravador, escreveu aquilo que eu disse, textualmente!, e ainda interpretou o que eu não disse mas gostaria de ter dito... Até fiquei com vontade de conhecer aquela senhora que descreve. Não devo ser eu, certamente. Mas soube mesmo bem.

P.S. - Antes que perguntem, o vestido, que eu adoro, é feito com panos africanos, mas infelizmente não foi feito em Moçambique. Foi comprado em Londres, no Spitalfields Market a uma tiazoca bem disposta.

domingo, 25 de novembro de 2012

[bloguismo] ontem conheci a patanisca!

Ontem fui ao evento "Há festa no Palácio", no Palácio Foz, lindo e cheio de gente... A minha editora tinha-me convidado para lá ir dar alguns autógrafos do meu livro e, ao mesmo tempo, chegou a Sónia Pereira, a autora d'As Receitas da Patanisca, que recentemente lançou um livro: 234 Receitas para Robôs de Cozinha...

Amorosa, recebeu-me como se já nos conhecêssemos há séculos! Falou-me da sua atividade profissional como psicóloga numa escola no [inegavelmente problemático!] bairro do Picapau Amarelo, na margem sul. Alunos com perturbações do comportamento, famílias disfuncionais, violência domestica, agressões a professores, tentativas de suicídio e o diabo a quatro (ou a sete, que já sabemos, e costumamos teorizar desde que este blogue é blogue, que um diabo nunca vem só, quanto mais quatro diabos e, bem vistas as coisas, começando com quatro diabos, se eles acabarem por ser só sete, já é muito bom, mas adiante), tudo o que se pode pensar que pode existir de mau numa escola num bairro problemático lhe tem vindo parar em mãos...

Contou-me que, apesar de ter um contrato de apenas um ano, iniciou um projeto fantástico com os alunos, que inclui workshops de culinária como prémio para os que não têm faltas disciplinares ou participações. Com o projeto (inteiramente financiado por ela, que um contrato a termo certo não se compadece com os tempos das burocracias e das respostas da Câmara Municipal) entretanto já conseguiu que os miúdos ganhassem imenso em termos de auto-estima, autonomia e organização. Alguns descobriram que afinal sabem fazer contas e regras de três, que na sala de aula não conseguiam aplicar. Muitos alunos melhoraram o comportamento para poderem ter acesso aos workshops.

E, melhor do que tudo, neste contexto, conseguiu chamar muitos pais para a escola, para revelarem segredos das cozinhas dos respetivos países. Para muitos, foi a primeira vez que entraram na escola dos filhos (a maioria recusa-se a comparecer se for chamada para "ouvir dizer mal dos meninos") e claro que ela aproveitou para os colocar ao corrente da situação das suas crianças e dos problemas que os incapacitam.

Uma ideia genial posta em prática por uma pessoa especial! Parabéns, Patanisca!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

[eu vou!] há festa no palácio




A minha editora (Verso da Kapa) convidou-me para estar presente no evento "Há Festa no Palácio", no Palácio Foz, neste sábado pelas 16:00 para autografar o meu livro e eu aceitei de imediato (como não?).

Livros, peças de joalharia, decoração, fotografia, pintura, artesanato, roupa e outros artigos a preço de saldo. Todas as receitas revertem a favor de várias instituições, como a Ajuda de Mãe e a Fundação LVida, que apadrinha crianças em Moçambique. Fica a sugestão para este fim de semana.

sábado, 17 de novembro de 2012

[pode-se desidratar de tanta baba?] isto anda mesmo do piorio...

Então não é que ontem me mandaram o link de um artigo no Capeia Arraiana sobre o meu livro "A Missão"? Ainda para mais o Capeia Arraiana é um blogue que me toca profundamente porque versa sobre a terra da bisavó do meu baby-de-mulata, a mulher maravilhosa de que vos falei anteontem. O Sabugal é ainda sede da confraria mais improvável do país, a Confraria do Bucho Raiano, de que planeio fazer parte nos próximos meses!

E depois querem que me mantenha limpinha e hidratada... Entre baby, livro, entrevistas e tudo e tudo, vou perdendo litros de baba a torto e a direito...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

[instantes] e, de repente... olha!



 
A Missão está ali, na mão direita de Jesus Cristo... Sou o bom ladrão, portanto. E, sim, confirma-se: ainda hoje tenho o paraíso. Está aqui a dormir ao meu lado. [No quarto ao lado, leia-se, exmos. colegas pediatras, que eu nem sou muito contra o co-sleeping, mas o baby gosta de dormir sozinho, graças a Deus! ]
(FNAC, Chiado)
Foto da minha amiga M.