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segunda-feira, 15 de maio de 2017

[o milagre dos pastorinhos] e os meus milagres particulares



I once had a hospital in Africa...
(Gilé, Zambézia)

Confesso que ainda não consigo ler ou ouvir a história do menino Lucas, que sustenta a canonização dos pastorinhos de Fátima, sem me emocionar. Eu sou médica e ainda para mais trabalhei no meio do mato em Moçambique numa zona completamente desprovida de meios, onde a fé das pessoas é enorme, só superada pelo amor pelas crianças. Um povo fascinante, tem de concordar quem já lá viveu. É obvio que já vi e vivi muitas situações-limite! Assisti a curas prodigiosas. Posso dizer, em tom metafórico, que já vi muitos milagres na vida! Mas não. Não vi.

Milagres autênticos, não explicáveis pela fisiopatologia, acho que só vi um. Ou dois, pronto. Um e meio, já que para o primeiro ainda ponho hipóteses explicativas. Já vos contei as histórias (podem ir ali atrás ler esta história, e a outra também, mas aviso desde já que esta última é longa e difícil), talvez um pouco parecida com a do Lucas: Uma criança em descerebração acabou por recuperar sem sequelas! A situação era de tal forma grave que me cheguei a arrepender de ter insistido no tratamento. Quando vi que o menino estava reagir em descerebração fiquei horrorizada. A minha convicção foi apenas que o menino haveria de ficar com sequelas gravíssimas. Da mesma forma que os médicos que reanimaram o Lucas antes de o operar pela primeira vez poderão ter duvidado se tinham feito o que era correto... Não sei o que sentiram neste caso. Eu pessoalmente sei que reanimaria, mas haveria de duvidar por dentro se estaria a fazer o que era melhor para o menino.

Mas depois avisaram os pais do Lucas de que o menino poderia ficar com sequelas muito graves, possivelmente em estado vegetativo antes de o transferir para um hospital maior. Talvez tenham mesmo chegado a fazer a pergunta que este aviso quer dizer: "Querem mesmo que se continue o tratamento ou preferem que paremos por aqui, já que a situação é desesperada? No final vão aceitar cuidar o menino se ele ficar com sequelas graves?" Eu própria fiz a mesma pergunta aos pais do meu menino. Eu não tinha para onde o transferir, perguntei apenas se queriam que o menino fosse morrer a casa. Mas tudo o resto foi igual. Tenho a imagem do milagre gravada na minha mente. O menino acordou, horas depois, e começou a brincar com o meu estetoscópio vermelho. A minha cara de espanto e felicidade deve ter sido muito expressiva, porque a mãe sorriu e chorou comigo. Não sei se se chegou a aperceber do quão extraordinária foi a cura do filho.

Aquilo a que assisti não tenho a certeza se foi milagre, mas já perguntei a muitos colegas especialistas nesta área e ninguém viu semelhante coisa. O cérebro é plástico, isso eu sei e não é novidade para ninguém. Mas há limites. E a descerebração é onde eu traço o meu.

Se foi milagre de algum santo em particular não sei. Nunca saberei. Nem me ocorreu rezar, de tal forma estava convencida de que o desfecho seria trágico. Não tenho registos. Por acaso tenho uma testemunha, mas não há maneira de haver provas. Sei que a Irmã Lurdes rezou por ele ao seu santo de particular devoção. Mas não sei mais nada. Isto para dizer que todos os dias há milagres. E quando não são milagres, são graças enormes. E que vale a pena acreditar, porque quem não acredita (que é quase sempre o meu caso,  infelizmente) sofre mais!

Se aprendi a rezar por milagres? Acho que não. Mas devia. Talvez ainda vá a tempo...

terça-feira, 2 de maio de 2017

[welcome to mozambique] always dancing


Moçambique, país de danças e sorrisos!

Enquanto não me volta a vontade de escrever, fiquem com este vídeo de danças deliciosas em Nampula e Iapala (norte de Moçambique). Palavras para quê? A emissão segue dentro de momentos...

domingo, 16 de abril de 2017

[iapala revisitada] as flores do frangipani


Esta é a flor do frangipani, uma árvore de xicuembos* e xipocos**, a árvore dos deuses e dos antepassados, de flores românticas e perfumes noturnos... O frangipani tem as flores das manhãs claras, que vêm enfeitar os cabelos das jovens, das noivas, das virgens e os adros das igrejas nos dias felizes.
(Iapala, Nampula)

Como diria o meu amigo Lépido, nós não temos estilos, temos momentos... E eu também tenho direito a dias pirosos! Pronto, era só isto. Aqui no mato-que-já-não-é-mato não temos livro de reclamações. Nem mesmo o Sr. Pompisk, o maior comerciante da Zambézia tinha tal modernice! Para ele, se nos estiver a ouvir, aquele abraço. Tenham um bom dia e que a Páscoa  (ou a Primavera, o que vos disser mais) vos renove.

* Deuses
** Fantasmas

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

[marasmo] autismo e depressão...

 
As crianças desnutridas na varanda da enfermaria de Pediatria.
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Mas a minha amiga Fátima não me deixou parar. "Estas mulheres dizem isto porque não têm filhos desnutridos, se não nunca iam desistir também!" Decidi continuar para não desiludir a minha amiga, mas eu própria estava vacilante.

Felizmente, no dia seguinte o menino recuperou o peso que perdera e não voltou a vomitar com a sonda nasogástrica. Já não sei dizer quantos dias depois começou a aceitar a solução nutricional pela colher e a aumentar de peso. As feridas começavam finalmente a sarar. Mas continuava a guinchar à nossa aproximação, a não se interessar pelos brinquedos com que o tentávamos estimular, a não olhar para o que a mãe lhe mostrava, a não comunicar de forma nenhuma. Agora que recuperava um pouco o peso e tinha mais energia, fazia uns movimentos bizarros com as mãos que se assemelhavam a estereotipias. O Dino tinha uma perturbação do espetro do autismo, concluímos. Fora por isso que a introdução da alimentação tinha sido tão difícil e que tudo o que se seguiu fora uma batalha terrível... Mas a mãe estava feliz e agradecida! Já tinha tido o seu milagre! O filho era assim difícil, mas estava vivo e a salvo, era tudo o que ela queria. Aceitava-o incondicionalmente, tal como ele era.

Entrava por fim em velocidade de cruzeiro na recuperação do peso e era uma questão de dias ou semanas até ter alta. Passaram-se mais uns dias sem que o víssemos com muita atenção. A mãe também aproveitou para ir um fim-de-semana a casa com o filho. Lembro-me vagamente de nessa altura ela me confidenciar tristemente: "Sabe, doutora, o meu filho quando era mais menino sorria muito..." Um murro no estômago... Não soube o que dizer naquele momento. Pus-lhe a mão nas costas e penso que ainda disse qualquer coisa como: "Força!" ou algo que o valha.

Acho que foi por isso que me surpreendi tanto quando, uma semana depois, o vi chegar a sorrir para mim, a andar pelo seu pé e a brincar com um brinquedo que eu lhe dera semanas antes! Onde estava o menino apático a quem tínhamos diagnosticado autismo? O que acontecera? "Nada!", dizia a mãe a sorrir, "Foi de repente. Num dia estava apático, no dia seguinte começou a olhar para as coisas que lhe mostrava, começou a sorrir, a falar um pouco. E ontem voltou a andar!" E a mãe já descobrira o que lhe tinha provocado a doença. Ela sempre suspeitara: fora o pão! Em casa tinha-lhe dado pão e ele vomitara, queixara-se da barriga e a diarreia regressara. Por isso cortara totalmente com o pão. Dentro de casa dela não voltaria a haver esse alimento, afirmava!

O pão?! Ai, valha-me Deus! Uma doença celíaca? O que acham vocês, meus colegas médicos? Eu não sei. Não posso ter a certeza, que não lhe fiz mais exames nenhuns. Mas finalmente tudo fazia sentido. Na introdução precoce dos alimentos, o Dino, miúdo difícil e obstinado, dera conta que algum alimento lhe fazia doer a barriga e preferiu não comer nada. Nem mesmo leite materno. Começou por ser uma defesa. O único alimento em que "confiava" era no milho e, por isso, restringiu a sua alimentação a este cereal. Durante uns tempos a situação manteve-se estável. O milho tem proteínas e conseguia dar-lhe as calorias necessárias para se sustentar. Mas falta-lhe um aminoácido essencial. Mesmo com o feijão, que comia ocasionalmente, não foi suficiente para manter aquele equilíbrio precário. Daí às lesões na pele e à regressão do desenvolvimento foi um pequeno passo, que uma doença febril acabou por atirar pelo precipício, levando ao marasmo grave que o fizera ser admitido no hospital.

E podia continuar a discorrer por aqui afora, falar de nutrição infantil, de aminoácidos essenciais, vitaminas, dos riscos da alimentação à base de milho, tão frequente na cultura macua, mas não foi para isso que escrevi este post. Só te queria dizer, Maria, que sei bem o que sentes quando falas de fome e desnutrição. Mais, que sei que uma criança desnutrida não sorri, não brinca, às vezes nem responde aos nossos esforços mais persistentes e ou às macacadas mais improváveis.

E pior, muito pior: há dias em que acreditamos na expressão de desalento das crianças. E quando uma criança deixa de sorrir é como se o futuro deixasse de fazer sentido. Ficamos sem chão.

É nessas alturas que tens de te lembrar de respirar fundo, princesa, e recordar as razões pelas quais em África se vive um dia de cada vez: é que com a fome nunca há batalhas ganhas. A guerra recomeça todos os dias.

Mas como dizia a minha amiga, nestas coisas não podemos querer 100%. Não vamos nunca conseguir salvar o mundo com os meios que temos, mas tentaremos com todas as nossas forças ajudar quem se cruzar connosco. E fazer como a Fátima: não acreditar nas vozes que nos dizem que as crianças não querem viver. É raro uma criança desistir. Mas elas podem: são crianças. Nós é que não podemos. Força, Maria! Carter não era enfermeiro. Nunca viu ninguém sorrir depois de ter estado às portas da morte. Nunca viu o olhar de agradecimento de uma mãe. Carter estava na profissão errada, confia em mim!

sábado, 31 de agosto de 2013

[welcome to mozambique] inseticida...

A pedido de ainda mais famílias, aqui fica mais um pequeno excerto do meu livro:

Deixo-me ficar na cama ainda mais uns minutos depois do alarme do telemóvel tocar. Recordo-me desta noite... Ainda nem acredito que recebi um recém-nascido em Moçambique, à luz das velas, como nas mais antigas histórias que ouvia contar! (…)
Cumprimento a Amélia, a minha discreta companheira de quarto, uma osga simpática e madrugadora, que a esta hora já se encontra colada aos vidros da janela ao sol (desconfio que terá passado ali a noite...), com as patinhas esticadas numa enorme preguiça, à espera do pequeno-almoço esvoaçante (este sim, literalmente um “mata-bicho”). Instalou-se no meu quarto há três dias, trazida pelo cozinheiro ante o meu olhar de ponto de interrogação. Eu tinha-lhe pedido inseticida pois não tinha rede mosquiteira no quarto, ao que ele respondera:

– Não sei o que é set'cida, doutora...
– Remédio para os mosquitos – reformulei.

– Ah, não tem problema!
E horas depois regressou com a Amélia... A verdade é que esta minha inquilina é uma exímia caçadora de mosquitas, mosquitos e moscas e ainda não precisei de usar inseticida.

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

terça-feira, 20 de agosto de 2013

[welcome to mozambique] a música é a alma de um povo!



Já vos falei disto dezenas de vezes. Assistir a uma cerimónia ou uma celebração em Moçambique é coisa para nos deixar sem ar de tal forma os nossos sentidos são intensamente invadidos. Pelas cores vivas das capulanas das mulheres e das flores que dão vida ao espaço (onde nunca faltam os ubíquos beijos-de-mulata, que, como sabemos, nascem em qualquer degredo e se criam em qualquer chão!) e que parecem flutuar, suspensos nos fios que cruzam o espaço bem acima das nossas cabeças. Somos quase impercetivelmente inebriados pelo suave perfume das flores do frangipani que nos evoca o cheiro exótico da noite africana e pelo cheiro da terra, da erva, dos rios que correm próximo e das flores silvestres, a que se mistura o odor a corpos, que longe de ser desagradável, subitamente faz sentido naquela mescla de sensações que nos prende com toda a força à realidade!

E a música é arrebatadora! O ritmo quente dos batuques e a harmonia espontânea das várias vozes preenche-nos a mente e instiga-nos a dançar, nem que seja em fantasias, numa energia que nos sacode a alma. Tudo parece um milagre, de tão fácil e intuitivo que aparenta. Quase diríamos que não era possível haver quem cantasse ou tocasse assim sem nunca ter tido aulas de música. Mas várias vezes assisti ao prodígio de ensinar uma música às meninas que viviam com as irmãs e, à quarta ou quinta vez que a cantavam, já havia duas ou três que entoavam uma segunda voz, criada no momento, acrescentando à melodia cores e profundidades anteriormente insuspeitadas. São dons de quem, "desde a capulana de sua mãe"*, foi ensinado a que saber cantar e dançar é tão importante como saber falar ou ter boas maneiras em sociedade.

* Expressão equivalente a "desde o berço".

sábado, 17 de agosto de 2013

[nomes que afinal não dizem tudo] welcome to mozambique

 
Mamã com crianças...
(Iapala, Nampula)

A pedido de várias famílias, aqui fica um pequeno excerto do meu livro. É sobre um episódio no dia da chegada à missão de Iapala...
"Antes do jantar, recebemos a visita de uma jovem com um bebé de poucos meses adormecido às costas. O menino vinha no seu traje de gala, com um conjunto de gorro e meias de lã, amarelo com uma risquinha verde, amorosamente tricotado à mão por uma das irmãs.  
– A touquinha e as peuguinhas de lã são o melhor presente que se pode dar a uma mamã – explicou-me depois a irmã Lurdes.  
– Com este calor?
– Não me perguntes porquê, mas todas as mamãs adoram. 
Realmente, como diria Mark Twain, os costumes mais absurdos são sempre os que permanecem mais enraizados... A "touquinha", como a irmã lhe chamava, era um gorro de inverno, de aspeto bastante quente, com direito a pompom e tudo! A jovem era mulher de um dos empregados da missão. Sabia que a irmã Conceição tinha chegado e vinha dar notícias da sua ida a Nampula para registar o menino.
– Não me deixaram pôr o nome que a irmã disse – lamuriou-se.
– Porquê? – Espantou-se a irmã Conceição.
– Disseram que não era nome normal. 
 Mas que estranho...
A jovem mamã tinha ido, dias antes, ter com as irmãs a Nampula porque estava com dificuldades na escolha do nome do bebé. Era o primeiro filho, o que tornava o processo muito mais complexo, com uma grande responsabilidade. Queria dar-lhe o nome de um padre, porque os missionários eram as pessoas mais importantes da região, mas não sabia que nome escolher. A irmã lembrara-se então que o pai do menino, em tempos, trabalhara para um padre em Nampula e tinham ficado particularmente amigos.

– Porque não lhe põe o nome dele?
A sugestão tinha sido bem aceite...
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar? – Perguntei, curiosa.
– Padre Arlindo...  
A jovem estava desolada, mas eu tive de deixar cair um brinco no chão para poder esconder a cara, porque só me apetecia sorrir às gargalhadas com aquela cena digna de uma comédia dos anos ’30. Depois de uma longa explicação das irmãs, a jovem saiu um pouco mais conformada.
– Acho que não vai muito convencida... Só Arlindo parece que não diz tudo – notei.
– Também me parece... Mas ainda bem que o funcionário do Registo Civil foi sensato, senão o menino tinha ficado com um Arlindo nome! E se fôssemos jantar?"

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

[alhos e blogalhos] valha-me nossa senhora do google


Meus queridos amigos, eu não gosto de vos importunar com "bloguices" aqui do mato, até porque qualquer vizinho de morada do blogspot também deve ter histórias igualmente engraçadas...

A verdade é que hoje venho aqui carpir as minhas mágoas. Muito me agradaria continuar a dizer que a maioria dos visitantes que aqui desagua, navegando à boleia do google, vem à procura de "mulatas nuas" e de "mulatas selvagens", mas infelizmente, nos últimos tempos, o top 10 das pesquisas tornou-se, lamentavelmente, mais educado e decente. Eu sempre confiei que o nome deste mato pudesse atrair para sempre pesquisas mais interessantes, mas parece que já não conseguimos enganar ninguém...

O que ainda me vale, para animar o sitemeter, são os senhores que têm a bússola cibernética avariada e vêm naufragar aqui ao mato com pesquisas que não lembram ao menino Jesus.

Ora então temos as últimas pesquisas pertinentes que vieram aqui aportar:

- Imagens de Santo Mé e Príncipe (!) - Oh, valha-me São Mé, santo padroeiro dos ovinos e caprinos, segundo o nosso comentador honoris causa.

- Lista de todas as vadias de Nampula até Cuamba - Credo, ó senhores... Mas precisava mesmo de ser uma lista de todas, todas? Se fosse assim umas quatro ou cinco ainda se conseguia arranjar. Eu própria conheci e tratei algumas no hospital de Iapala e ainda me recordo dos nomes, mas mais do que isso não conseguimos. De qualquer modo, aqui ficam os meus sinceros parabéns pelo otimismo! Acreditar que é possível, num qualquer recanto blogosférico, encontrar uma lista deste calibre é algo digno de um homem de fé!

A Santa do Eixo da Via - Ora que bela ideia! Deve ser a santa padroeira dos chapas! Eles andam a velocidades suicidas sem nunca se desviarem um milímetro do meio da estrada. E nós, os condutores com algum apego à vida, acabamos por ir parar à berma o mais rapidamente possível, mesmo arriscando a pele no voo lateral...

- Pode-se tomar pau de cabinda com o mata-bicho? - Bem, poder pode. Com o mata-bicho, com uma cerveja, com um café... Mas com a namorada penso que seria mais agradável. Mas cada um sabe de si.

- Baptiza Qualquer Rato - Meu senhor, não vejo por que não! Que mal pode haver nisso? Qualquer rato também é filho de Deus e produto da Sua divina criação, passe o pleonasmo. Em tempos houve um bispo em Utrecht que chegou a batizar uma mola hidatiforme! Uma mola hidatiforme de uma condessa, é certo, mas ainda assim... E aqui a história assevera-nos, mais uma vez, que um bispo nunca se atrapalha, que um bispo enrascado é pior que um anestesista bêbado. E reza, pois, a história que o digníssimo clérigo dividiu aquela massa vesiculosa em 365 partes iguais e batizou metade com o nome de João e a outra metade com o nome de Isabel e mandou depois fazer-lhes um funeral condigno.

- Banhos para atrair mulheres funcionam mesmo? - Por acaso esta já tinha aparecido antes... Bem, meus senhores, estudos científicos por acaso não temos. Mas temos uma teoria ...

Afinação para vinte vozes brancas - Ai, meu amigo, deixe-se disso... Esqueça! Mesmo. Dedique-se a outra coisa. Vai ser uma canseira sem proveito nenhum. O próprio Bach nunca passou da afinação para quatro vozes. E mesmo assim sabe Deus!

A todos estes senhores, que conseguiram cá chegar com apenas estas coordenadas, os meus parabéns e o meu mais sincero obrigada pelos sorrisos que me proporcionaram!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

[exercícios africanos] how do i do it

 
 
A pedido de várias famílias, algumas já constituídas, outras em projeto, partilho convosco como é que eu faço os exercícios africanos com o baby-de-mulata para o preparar para uma ida a Moçambique. No vídeo podemos apreciar a D. Catarina, a parteira de Iapala, a colocar a neta na capulana.
(Iapala, Nampula)
Em voz-off, os comentários da minha amiga F.
 
Eu sei que faz impressão aquele momento em que a criança fica sem qualquer apoio nas costas dela mas, nesta técnica, não há mesmo outra maneira: as crianças têm de ficar muito quietinhas e a mãe não se pode mover para os lados, sob pena de a criança cair. Elas aprendem facilmente que não se podem mover. E também sentimos se a criança começar a resvalar, portanto conseguimos ampara-la. Mas enfim, eu, pessoalmente, como sou um pouco azelha e o baby não tinha prática destes assados, começámos por praticar em cima da cama e com alguém ao lado para amparar. A pouco e pouco fomos ganhando prática e agora já conseguimos levar a cabo todo o processo sem ajuda de mais ninguém (embora com alguém por ali para dar uma mãozinha se for preciso) e sem cama ou tapete por baixo!
 
E pronto, é isto. Não precisam de agradecer! Sabem que gostamos de fazer serviço público. E de ter as mãos livres...
 
Adenda: Esqueci-me de referir que o baby-de-mulata não gosta de ver o mundo a partir das minhas costas, portanto tenho de passar rapidamente por baixo do braço para que ele venha para a frente... E eu também gosto mais de o ter nessa posição de canguru.

domingo, 13 de maio de 2012

[iapala] a convalescença...


 A beber soro...
(Iapala, Nampula)


(continuando...)

Ao fim do dia o menino já estava melhor. Ainda não tinha forças para se sentar, mas começou a pedir comida e já tinha conseguido comer um pouco de arroz e feijão. Ia ser uma noite mais tranquila para mim.

Pouco dias depois, o menino estava pronto para ter alta. O avô veio ter comigo: “Irmã, menino está vivo, graças a Deus!” Eu estava, se possível, ainda mais grata. Estava feliz porque tinha conseguido impedir que o único filho daquele casal morresse e porque tinha aprendido muita coisa com aquela família. Só agora, por fim, compreendia que o facto de o avô me ter dirigido a palavra e se ter disposto a expor-me os seus pontos de vista, tinha sido afinal um momento raro e extraordinário. Mais do que um confronto, mais do que um pedido de explicações, mais do que o questionar do tratamento e dos meus métodos, o que ele me tinha vindo fazer tinha sido um voto de confiança. Foi assim que a irmã Lurdes interpretou a conversa que depois lhe relatei. Ele fizera-o certamente e apenas porque tinha percebido que eu me interessara pelo neto e soubera que eu tinha ido visitar o menino várias vezes no dia anterior, até mesmo durante a noite, e insistido no tratamento. De outro modo teria fugido com a família assim que eu voltasse costas, sem me dar qualquer explicação e o menino teria morrido. 

Nas semanas seguintes passou a ser muito mais fácil tratar as crianças com diarreia grave. Graças àquele avô, eu tinha percebido alguns vícios de raciocínio enraizados na cultura macua e comecei a conseguir antecipar algumas dificuldades. E depois, havia um outro fator facilitador: é que as mães, quando entravam na enfermaria viam sempre uma ou outra mãe a dar soro aos filhos com um sorriso nos lábios e certamente falavam umas com as outras, portanto, era muito mais fácil convencê-las de que o soro não era “choro”, que as crianças choravam porque queriam mais e que não era o soro que provocava a diarreia. Também nunca mais houve fugas durante a noite…

terça-feira, 8 de maio de 2012

[iapala] e a terceira lei de murphy

(continuando...)

[Terceira lei de Murphy: se duas coisas puderem potencialmente correr mal e você conseguiu evitar ambas, então ocorrerá invariavelmente uma terceira, muito mais complexa... Bem, tenho de ir ver o que se passa.]

– Até já, mamã, que vou ali perguntar uma coisa...

Fui ter com o enfermeiro que era o mesmo que tinha estado de serviço no dia anterior.
– Sr. Enfermeiro, o menino do berço 3 tomou mesmo a medicação ontem?
– Sim, tomou.
– Mas ele ainda não está melhor... Ele tomou mesmo à sua frente? Não terá cuspido os medicamentos?
– Não. Ele tomou à minha frente.
– Então se calhar era melhor dar-lhe mais uma dose de ciprofloxacina...
– Ciprofloxacina não tem…
– Não tem? Como assim, não tem?
– Não tem. Não tem ciprofloxacina...
– Mas disse-me que ele tomou a medicação!
– Sim, tomou o que havia. O que não havia não tomou.
– Então o que é que ele tomou ontem?
– Tomou multivitamina e paracetamol.
– Mas ontem, quando internei o menino, perguntei-lhe se tinha e disse-me que sim.
– Sim, tem.
– Então? – aquilo não me podia estar a acontecer, valesse-me Santa Rita de Cássia!
– Mas hoje não tem...
– E ontem?
– Ontem também não.
– Mas porque é que não me disse?!
– Irmã?
– Pronto, deixe estar. Obrigada, já percebi. Então tem tetraciclina?
– Tem sim.
– Hoje tem?
– Sim, tem, doutora!
– Vamos então dar ao menino. Não se importa de ir buscar?
– Doutora, tetraciclina nós não damos a criança.
– Está a brincar comigo?
– Não, doutora. Tetraciclina é prejudicial para criança.
– Por favor! Isso são mariquices da Europa!
– Irmã?
– O máximo que lhe pode acontecer por causa da tetraciclina é ficar com manchas amareladas nos dentes.
Af’nal? Mancha nos denti? E então?
– E então pergunto eu! Ele está a morrer. Os pais de certeza que preferem um filho vivo com pequenas manchas nos dentes do que um filho morto com dentes perfeitos!

Olhava para mim como se eu fosse de outro planeta…
– Pois… tetraciclina, é?
– Sim, pode ir buscar, por favor?
– Ah, mas está no armazém. Só quem tem a chave é o Sr. Agostinho.
– E onde está o Sr. Agostinho?
– Está em casa.
– Pronto, está bem, eu desisto. Eu devo ter cipro em casa!

Senhor, dai-me paciência, que eu não sei onde foi que deixei a minha… e sabedoria para entender este povo. Ou, como diria o meu melhor amigo: “Senhor, dai-me paciência, que se me derdes força, vou acabar por lhes bater!”

Fui buscar ciprofloxacina a casa e voltei para a enfermaria. A mãe desta vez entregou-me ela própria a seringa, com um sorriso meio cúmplice. Finalmente já não achava que eu estava a fazer mal ao seu menino. O comprimido que lhe dei fê-la ficar muito mais bem-disposta. Sim, afinal havia um comprimido que ajudaria a tratar o menino. Só o soro nunca seria suficiente aos seus olhos.

(continua...)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

[iapala] e as leis de murphy

(continuando...)

Olhei bem mais no fundo dos olhos daquela mamã e, tempos depois, também de outras mães com crianças em agonia. Para lá da passividade, do olhar que parecia imperturbável, para lá do eterno sorriso, vi um desespero, uma amargura, um quase abandono. Claro que não podia ser indiferença! Perguntei-lhe:

– Quantos filhos tem, mamã?
– Quatro...
– E quantos estão vivos?
– Este só...  

Que coração tão maltratado... E o seu único filho, o seu “menino de ouro” em risco de morrer ali mesmo, longe de casa… O seu olhar escurecia ainda mais de vez em quando. Mas havia que continuar. A batalha estava longe de estar ganha. Ele continuava com diarreia a cada cinco ou dez minutos, sem sinais de abrandar. Eu parecia uma bomba infusora, mas mais persistente do que eu era o menino que, apesar de prostrado, continuava a abrir a boca e a beber tudo o que eu lhe dava. Mas era hora da sesta. Tinha de o deixar descansar pelo menos uma hora, ou acabaria por ficar exausto. Disse à mãe para o colocar ao peito para o adormecer e deixá-lo dormir um pouco. Saí por um instante da enfermaria. Precisava de ir a casa levar os panos do menino para mandar o empregado lavá-los com água a ferver, não fosse alguma mulher mais diligente lembrar-se de os ir lavar ao rio… Encontrei a irmã Lurdes no caminho, que vinha visitar-me. Achou muito bem a minha iniciativa de impedir que os panos fossem lavados no rio.

– E como está o menino?
– Ainda… – respondi, sorrindo, com sotaque moçambicano.
– Mas nem sequer um pouco melhor?
– Hum… nem por isso…
– Bem, há que ter paciência, amiga, não desistas. Mas é estranho… já lhe deste antibiótico?
– Sim, ontem…

A Irmã Lurdes tinha razão. Ele já era para estar a melhorar, ou pelo menos era o que diziam os meus livros… eu sei que os doentes não estudam por tratados de Medicina, mas que era estranho lá isso… Pois… se calhar era preciso começar do início e rever o que podia ter corrido mal. Sim, estamos em Moçambique e tudo o que puder correr mal vai mesmo correr mal. As leis de Murphy podiam ter sido inventadas aqui. Pois é… lá terá que ser… Vamos a isso:

[Primeira lei de Murphy: se o aparelho não funciona, teste a tomada.]
– O enfermeiro ontem deu medicação ao menino? – pergunto à mãe.
– Sim, tomou. Ontem. 

[Segunda lei de Murphy: se mais do que uma coisa puder correr mal, correrão todas mal ao mesmo tempo. Hummm... Se calhar então tem mais qualquer coisa... Malária, por exemplo, embora o teste tenha sido negativo.]

– Ontem ou esta noite teve febre?
– Nada, não teve.
– Tosse?
– Nada, não tosse.
– Queixou-se de alguma dor?
– Não.

[Terceira lei de Murphy: se duas coisas puderem potencialmente correr mal e você conseguiu evitar ambas, então ocorrerá invariavelmente uma terceira, muito mais complexa... Bem, tenho de ir ver o que se passa.]

(continua...)

domingo, 6 de maio de 2012

[iapala] a semântica das doenças...

(continuando...)

A meio da tarde, o avô entrou novamente na enfermaria. Pediu novamente a palavra e sentou-se.

– Sim, papá?
– Vai continuar a dar “choro” à criança?
– Sim, claro. Até ele ficar melhor.
Isshhh… – abanava a cabeça em desaprovação.
– O que foi, papá?
Isshhh… criança sofre – lamentava-se tristemente.
– Papá, o seu neto é muito bonito. E tem muita vontade de viver! Ele está a lutar muito para continuar vivo no meio desta doença. Não há outra maneira de tratar o menino a não ser com soro!
– Sim, irmã. Mas criança sofre com “choro”!
– O soro é muito importante. Ele está a perder muitos líquidos, temos de lhe dar a mesma quantidade que está a perder – eu tentava explicar o melhor que conseguia. Pausadamente. Procurando palavras simples. Mas será que isto não é intuitivo? Será que não se consegue perceber estes conceitos sem se ter estudado Fisiologia?
– Mas criança sofre… Não tem outro tratamento? Quinino?
– Não, quinino é para a malária. Menino tem diarreia.
– Mas não tem quinino de diarreia?
– Não, papá. Remédio de diarreia é soro mesmo.
Isshh… criança sofre…
– Sim, está a sofrer, é verdade, mas vai morrer se não lhe dermos soro.
– Irmã, mas irmã não vê que quando lhe dá “choro”, a criança sofre e tem mais diarreia?
– Como?!

Foi então que me ocorreu uma ideia. Absolutamente improvável, mas plausível. Pouco tempo antes, ainda em Lisboa, tinha lido uma notícia no jornal que relatava que vários voluntários da Cruz Vermelha tinham sido mortos numa aldeia no norte de Moçambique, acusados de propagar a cólera quando estavam a distribuir cloro pela população para desinfetar a água. Um sociólogo, chamado a comentar o assunto, falava da importância das crenças e da linguagem. Ele aconselhava as pessoas a falar em lixívia porque, segundo a sua opinião, o que motivara aqueles crimes tinha sido em parte a confusão fonética entre “cólera” e “cloro”. A notícia parecera-me absurda, mas enfim… tudo era possível… E agora o avô dizia insistentemente a palavra “choro” e não “soro”… seria possível? Resolvi fazer a experiência.

– Mas papá, isto é “soro”, não é “choro”! Isto é medicamento. É remédio.

Pareceu surpreendido.
Af’nal? Soro é o quê?
– É remédio para a diarreia. Remédio líquido.
– Ah… mas menino chora quando toma. E tem mais diarreia.
– Mas diarreia não vai parar se ele deixar de beber, não é o soro que lhe está a provocar a diarreia. E ele chora porque quer mais! Ora pergunte-lhe se quer esta água.

Arrisquei demasiado. Deixar assim a decisão de um tratamento nas mãos de uma criança de dois anos... Por sorte, ele respondeu que sim à pergunta. A face do ancião iluminou-se. De repente tinha compreendido tudo, e o que eu dizia fazia sentido. Eu também finalmente compreendia um pouco melhor a atitude da mãe. Abracei-a. Pobre mamã… Ela tinha-me visto fazer mal ao seu menino durante horas seguidas e chorara em silêncio a dor que era assistir, impotente, ao menino a sofrer às minhas mãos… Pedi ao avô para lhe explicar o que eu dissera, mas fez-se desentendido. Voltou para o pátio e vi-o falar com os restantes homens da família. Aquilo era um assunto “importante”, era preciso analisar a questão e deliberar em conformidade. Era um assunto de homens! As mulheres só tinham de cuidar das crianças e do resto da família.

 (continua...)

sábado, 5 de maio de 2012

[iapala] a tradição...



Ao início da tarde fiz uma pausa para o almoço. Saí do hospital pela porta da frente e passei a uma distância próxima mas segura de um dos perus (a fêmea, percebi depois), que estava sozinha e voltada para o outro lado do alpendre. De repente, vi um objeto enorme cair sobre mim e só tive tempo de me desviar do “marido”, que estava empoleirado sobre o telhado da sala de esterilização e fez um voo picado sobre mim quando passei pelo “seu território”. Foi um susto valente e tentei enxotá-lo, naquela confusão de asas e penas esvoaçantes, mas ele estava de tal forma furioso, que achei por bem acelerar o passo e afastar-me rapidamente daquele cenário de bélico, antes que alguém se magoasse! Que bizarria... Um casal de perus ressabiados permanentemente estacionado à porta do hospital… Mas não haveria ninguém que os removesse dali?

Almocei à pressa e voltei o mais rápido que pude para junto do menino, que dormitava com uma respiração um pouco mais tranquila ao colo da mãe. Ao seu lado, junto da cama, havia uma cara nova. Era o avô materno, que tinha chegado da aldeia para ver o que se passava com o neto.

– Boa tarde.
– Boa tarde, irmã.

Assim que me viu, o menino agitou-se. Recomeçou a gemer. Voltei a dar-lhe soro. Sempre que eu parava ele gemia e reclamava por mais. A família voltou a sair da enfermaria, deixando-me com a mãe, que não arredava pé da cabeceira do filho. Pouco depois, o avô voltou para junto de nós. Pediu a palavra com um gesto e sentou-se.

– Irmã…
– Sim?
– Irmã, peço alta para esta criança.
– Como?!
– Irmã, estou a pidir alta do hospital. Queremos ir para casa.
– Mas a criança está muito doente, os senhores não a podem levar assim, ele vai morrer no caminho se se forem embora agora!

Calou-se, pensativo. Procurava outros argumentos.

– Irmã… não ficou mais família nenhuma em casa. Podemos ser roubados a qualquer momento. Temos de voltar ou então perdemos tudo.
– Mas o senhor pode voltar. O menino e os pais vão depois, quando ele estiver melhor.
– Mas irmã não vai curar o menino…
– Vou pelo menos tentar. Esta mamã é sua filha?
– É a minha filha, sim.
– Ela é testemunha de que ainda não saí do lado desta criança.
– Sim, eu sei.
– Eu estou a tentar tratá-lo!

Silêncio. Ganhava fôlego para novo argumento:
– Irmã, mas esta também é uma doença que vem da trad’ção. Irmã não vai conseguir curar o menino e ele vai morrer aqui.

Então era isso? A questão era morrer ali no hospital e não propriamente morrer… Tinha aprendido dias antes com a irmã Lurdes que na tradição macua, se as pessoas morressem num local distante de onde tinham nascido, os seus espíritos não encontrariam o caminho de volta e poderiam transformar-se em espíritos malignos, que atormentariam a família até ao fim dos seus dias.

– Papá, escute uma coisa: prometo-lhe que se o menino morrer eu vou levá-los a casa! Dou-lhe a minha palavra.

Pensou um pouco. Anuiu, por fim, com um gesto e saiu novamente para o pátio. Continuei a dar soro ao menino, enquanto as dejeções líquidas continuavam. A tia de vez em quando entrava para substituir os panos e as capulanas que serviam de fralda. Ofereci-me para levar os panos ao nosso empregado para ser ele a lavá-los. Estava em pânico que a família os fosse lavar ao rio e desencadeasse um surto de cólera por ali também. À cautela, de manhã tinha levado um frasco de lixívia para desinfetar as mãos dos familiares e a cama, mas todo o cuidado era pouco. Assentiram, com um esgar de surpresa, sem coragem de recusar. Quando a esmola é grande o santo desconfia...

(continua...)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

[iapala] uma luta contra o tempo...



O ameaçador casalinho de perus de Iapala...
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Acordei cedo, mas obriguei-me a ir primeiro tomar o pequeno-almoço. Já sabia que quando começasse a trabalhar não voltaria a parar até me virem buscar para o almoço…

Fui direita à Pediatria, passando ao largo dos perus que, naquele momento, perseguiam os primeiros doentes da manhã que chegavam à urgência. O menino estava na sua cama, rodeado pela família, que o olhava com o mesmo olhar que eu vira à família do menino de Murralelo. Como se velassem um cadáver. Era o único que ainda estava no berço. Todos os outros meninos, na capulana das respectivas mães, já cirandavam pelo pátio. O menino, tal como eu temia, estava pior. Cada vez mais desidratado e com a respiração superficial dos doentes em agonia. Os lençóis da cama estavam encharcados por aquele líquido sem cheiro que lhe saía do corpo. A diarreia tinha continuado e ele não tinha voltado a beber líquidos. O soro continuava intacto, no mesmo nível em que o tinha deixado. Mas controlei-me.

– Mamã, deu soro à criança?
– Está a negar…
– Posso dar eu?

Encolheu os ombros… Dei-lhe soro novamente. Abriu a boca sem dificuldade e bebeu tudo. Repeti o processo.

– Vê, mamã? Ele não nega! 

Fiquei ali um bom bocado até serem 7 horas da manhã, tempo de ir receber as ocorrências e ouvir os “inventários”, sempre iguais, sem tirar nem pôr. O enfermeiro que tinha estado ao serviço durante a noite não mencionou qualquer ocorrência. Tudo normal. Medicação administrada. Doentes a evoluir como previsto. Respirei fundo, a ver se não perdia completamente a cabeça logo no segundo dia…

– O menino do berço 3 está com uma diarreia grave. Parece cólera. E a mãe, por qualquer razão, não lhe tem estado a dar soro.
– Se calhar não preparou soro como nós dissemos, doutora – respondeu o director.
– Sim, é verdade, não preparou. Mas quando vi que não tinha preparado, fui a casa e preparei eu própria e dei-o à mãe. Mas ela mesmo assim não lhe deu.

Olharam-me como quem pensa: “Mas onde é que esta estacionou a nave?”
– Ah, doutora, os doentes nunca fazem nada do que nós dizemos. É escusado.
– Mas porquê?
– São do povo. É esta a nossa cultura. Não compreendem o que é medicamento.
– Então é preciso ficar ali e ver se dão os medicamentos aos meninos.
– Doutora, não podemos estar sempre com o mesmo doente. Temos o hospital inteiro para cuidar. E os doentes nunca estão nas camas, são muito indisciplinados!

Em parte era verdade. Só havia um único enfermeiro por turno. Mas perceberia rapidamente que não estavam assim tão sobrecarregados com trabalho. Os enfermeiros passavam a maior parte do tempo sentados debaixo do cajueiro. Limitavam-se a distribuir a medicação à hora regulamentar, sentados na sua sala de trabalho, com os doentes em fila por ordem do número da cama. E se eu fizesse o que quer que fosse eles iam-se embora imediatamente: ora pois, se eu ia trabalhar, eles deixavam de ser necessários ali, como está bem de ver…

– Tudo bem, vamos trabalhar – disse o director.
– Sim, vamos – respondi –, mas depois da visita nas enfermarias não vou para a urgência. Ontem deixaram-me lá sozinha. Depois vou para a enfermaria de Pediatria cuidar do menino.
– Sim, doutora.

A meio da manhã voltei para a cabeceira do menino. Felizmente era o único doente verdadeiramente grave do hospital e podia dedicar-me a ele. Assim que me viu, a mãe pegou na seringa e fingiu que estava a dar soro ao filho. Mas era óbvio que não lhe tinha dado uma gota que fosse.

– Mas porque é que não lhe dá soro, mamã? Não vê que ele vai morrer se não lhe der?

Não respondeu. Peguei eu própria na seringa e continuei a dar-lhe soro. O resto da família saiu, deixando-nos às duas e ao menino ali… O director entrou na enfermaria ao fim da manhã, com um ar de gozo. Estava curioso de ver o que estaria eu a fazer ali há tanto tempo.

– Doutora, que está a fazer?
– Estou a dar soro ao menino.
Isshhh… É escusado, doutora. A mamã não vai dar soro à criança.
– Por isso mesmo estou a dar eu.
– Mas menino já está muito grave. Vale a pena ir morrer a casa…
– Sr. Sousa! Temos de tentar.
– Está bem. Doutora é que sabe.

O menino, ainda agarrado à vida, continuava a abrir-me a boca para o soro e a beber como se não houvesse amanhã. Mas a diarreia não abrandava. Comecei a estranhar. Já estava a fazer 24 horas que tinha sido internado e que eu lhe tinha prescrito o antibiótico. Já era tempo de estar a melhorar… Mas enfim, mais tarde ou mais cedo o antibiótico começaria a fazer efeito e haveríamos de ganhar terreno naquela batalha contra a desidratação.
(continua...)

terça-feira, 1 de maio de 2012

[iapala] uma noite absolutamente desconcertante...

(continuando...)

Voltei ao hospital, empunhando a minha lanterna. O casalinho de perus já tinha recolhido à intimidade do lar, e as luzes do hospital estavam desligadas àquela hora.
  
Dirigi-me à enfermaria da Pediatria, que já tinha a porta fechada. Os familiares dormiam cá fora, deitados sob o alpendre, as mulheres cobertas com capulanas, os homens cobertos com mantas ou sem nada. Passei cuidadosamente entre as pessoas, tentando não acordar ninguém, mas percebi que não dormiam. Estavam apenas deitados porque não havia luz e portanto não havia mais nada que fazer. Na enfermaria, deitadas nos berços, sob as redes mosquiteiras abertas, as crianças dormiam, embaladas pelo doce cantar de duas ou três mamãs, a várias vozes. Sempre a várias vozes! Parece que não há outra maneira de cantar nesta terra se não da forma mais bonita e harmoniosa que existe… Não compreendo o que dizem. Semanas mais tarde haveria de aprender a música e trauteá-la para uma das irmãs moçambicanas, que me traduziu esta música tradicional macua que as mamãs cantam para adormecer os filhos:

“Quero agradecer-te por teres nascido
dorme, meu amor, fica tranquilo
porque enquanto estiveres a dormir
eu fico aqui a repetir o teu nome.”

Que poema lindo! A mãe do meu menino já dormia, recostada na cama do filho. Detive-me um pouco a observá-lo. O menino dormia também, mas tinha a respiração acelerada de quem tem uma desidratação grave e está em sofrimento, prestes a entrar em choque… A mãe acordou sobressaltada com a minha presença, parecia assustada por me ver ali.
– Como está a criança?
– Ainda*…

Olhei para o chão. Ao lado da cama, o soro que tinha preparado estava praticamente intacto! A mãe não lho tinha dado! Não percebia o que se passava, palavra… Resolvi jogar ao ataque, com o meu ar paternal-zangado nº 45:
– Mamã, tem de dar soro ao menino, senão ele vai morrer!
– Menino não quer… Tem dor di barriga – agora, que já tinha um pouco mais de confiança em mim, começava a responder às minhas perguntas. Afinal entendia Português. E falava um bocadinho…
– Tem de insistir! Ele morre se não lhe der!
– É custoso… – articulou com dificuldade.
Peguei eu própria no soro e na seringa que tinha dado à mãe e acordei o menino. Tomou tudo o que lhe dei num ápice. Gemeu a seguir, voltando-se para mim, e teve nova dejecção diarreica. Ofereci-lhe mais soro e abriu a boca de imediato. Não tive dificuldade nenhuma em dar-lhe mais de meio litro quase de seguida. De cada vez que eu fazia uma pausa, com medo que ele vomitasse, recomeçava a gemer. A mãe chorava em silêncio, como se estivesse a assistir, impotente, ao sacrifício do seu filho. Nem eu nem ela compreendíamos as razões de cada uma… Ela não percebia a razão da minha zanga, eu não percebia como é que ela, tendo soro à disposição, não o dava ao filho e o deixava morrer nos braços! As outras mães tinham acordado e olhavam-nos surpreendidas, em silêncio. A família do menino tinha entrado e olhava-me também, com um ar impenetrável, sem dizer palavra. Mas o que é que se estava a passar? Ao cabo de uma hora, o menino tinha bebido quase três quartos do soro e chorava com mais vigor.
– Se calhar quer peito, mamã. Ponha-o à mama…

A mãe não se moveu. Coloquei-o eu própria ao peito da mãe e mamou com alguma força, adormecendo em seguida. A mãe chorava, sempre em silêncio. Eu continuava sem perceber o que quer que fosse. Fui a casa preparar mais soro e entreguei-o à mãe. 

– Sempre que o menino acordar tem de lhe dar!
– Sim, irmã.
O pai, pela primeira vez dirigiu-me a palavra:
– Obrigado!
– De nada, papá. Até amanhã, boa noite.
Fui-me deitar, preocupada e completamente desconcertada com o que tinha acabado de acontecer. O que teria aquela mãe? Mil e uma hipóteses absurdas me passavam pela cabeça. Acabei por adormecer de exaustão.

* Expressão abreviada que quer dizer "ainda não".

(continua...)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

[instantes] uma missa em iapala


Missa cantada em Macua...
(Iapala, Nampula)

[iapala] nada é simples...

(continuando...)

Eram horas da missa e depois tínhamos de ir jantar. Não queria perder nem por nada a minha primeira missa em Iapala, onde as meninas dançariam mais uma vez, numa dança mais sóbria, mas ainda assim lindíssima, perfeitamente sincronizada e com cânticos de enfeitiçar o ouvido mais duro… Ao jantar desabafei com as irmãs sobre o sucedido no hospital. Não pareceram de todo surpreendidas. “Aqui nesta terra é sempre assim. A irmã Sarala esgota-se no hospital. Tem de se estar permanentemente em cima de tudo. Não sei como não morrem muito mais pessoas… Aqui é tudo por Deus!”
Mas como era possível?! 

– Aqui o povo não confia na medicina do hospital. Só vêm em último recurso, depois de terem ido ao curandeiro. E depois há muitas crenças e tabus que vão radicalmente contra aquilo que lhes é dito para fazer e também ninguém lhes explica as coisas da melhor maneira… – a irmã Lurdes transmitia-me o seu amor pelo povo, apaziguando a minha zanga com a calma da sua experiência.
– Mas a mãe parecia que não se importava! Nem para nós olhava…
– Se não se importasse não tinha vindo ao hospital. Olha que é um esforço muito grande para eles. As pessoas têm de arranjar mantimentos, pedir a vários familiares que os acompanhem, e deixar os outros filhos entregues à família. Eles são de onde?
– De uma aldeia a 20 quilómetros daqui. Não fixei o nome…
– Pois… ninguém se desloca 20 quilómetros a pé, com a família toda se não se importar com a criança doente. A Dona Ana é que deve ter falado com ela de forma muito malcriada, como sempre.
– Sim, é verdade.
– Quase todos os enfermeiros e serventes tratam muito mal as pessoas do povo, parece que têm gosto em humilhar as pessoas e não lhes explicam nada do que elas devem fazer. E para uma pessoa que já não confia no hospital, é muito difícil seguir uma recomendação dada naquele tom…
– Nem posso acreditar!
– Há excepções, claro, mas a maior parte são profissionais muito mal formados. E pouco competentes.
– Pois… por um lado achei que podia ser isso, mas a mãe também podia ter ido ter com o enfermeiro para pedir para lhe explicar como é que se dava o soro.
– Nem lhe deve ter ocorrido, coitada, ela nem sequer deve saber para que serve o soro… E depois se calhar tem medo de ser maltratada pelo enfermeiro, ou que ele lhe peça um suborno. Ela de certeza que não tem dinheiro…
– Credo!
– É assim, amiga. Nem todos os profissionais fazem isso. E, mesmo os que fazem, não fazem isso sempre, nem a qualquer pessoa. Mas a fama persegue-os…
– Isto parte o coração…
– É verdade! Temos recebido muito voluntários aqui na missão que vêm com algumas ideias românticas sobre o país, mas isto não é um mar de rosas. Há muita gente que se deprime e não aguenta o choque de ver tanto sofrimento e tanta indiferença…
– Não admira…
– Sim… África… não é para todos!
– Pois… não deve ser, não… Bem, é melhor voltar lá para ver como estão a correr as coisas.

 Voltei ao hospital, empunhando a minha lanterna. O casalinho de perus já tinha recolhido à intimidade do lar, e as luzes do hospital estavam desligadas àquela hora.
(continua...)

domingo, 29 de abril de 2012

[iapala] como funciona um hospital no mato?


Tomando soro oral pela mão da R.
(Gilé, Zambézia)

(continuando...)

Falaram um pouco, a Dona Ana sempre no mesmo tom malcriado quando se dirigia à mãe, até que chegou a uma conclusão:
– O enfermeiro tentou colocar cateter, mas desconseguiu.
Olho para as mãos e os braços da criança. Não há qualquer sinal de picada.
– Tem a certeza? Não tentou sequer.
A Dona Ana voltou a dirigir-se à mamã. Por fim, esta admitiu que tinha recusado que o enfermeiro colocasse soro ao filho. Mas porquê? O que é que se tinha passado? A Dona Ana não respondia, fitando o chão, como se só tivesse vontade de desaparecer dali o mais depressa possível. Enquanto falávamos, a criança ia tendo dejeções diarreicas de água, apenas água, sem cheiro, sem cor. A mãe, impassível, apenas a afastava do seu corpo, para que aquela água que saía do corpo do filho caísse diretamente na terra do pátio, e continuava a ouvir o que nós dizíamos, fitando o infinito.
– Está bem, mas explicaram mesmo à senhora para que era o soro na veia? E que para fazer soro oral era preciso abrir o pacote, deitar o conteúdo em água fervida e dar à criança? É que ele agora está muito pior. Agora está muito mais desidratado!

[Silêncio. Parecia que nada daquilo lhes dizia respeito. Perdi a paciência. Era necessário agir. E depressa!]
– Bem… eu já venho.
Fui a casa, preparei soro e fui dá-lo à mãe, com indicação para dar à criança uma boa quantidade de cada vez que tivesse diarreia. Pois… já tinha percebido que não ia ser fácil trabalhar ali. Estava zangada. Muito zangada. Comigo própria por ter deixado passar tanto tempo antes de reavaliar a criança. E não sabia com quem mais deveria estar zangada, se com a mãe, que não tinha dado o soro ao filho por não ter perguntado ao enfermeiro como se fazia, se com o enfermeiro por não lhe ter explicado e não ter ido confirmar se a terapêutica estava mesmo a ser cumprida… se com o caos de organização que era aquele hospital.
Expliquei como dar o soro à criança, exemplifiquei várias vezes. O menino, mal viu o soro na seringa, precipitou-se para ele e bebeu sofregamente. Chorou quase sem energia. Queria mais!
– Vamos continuar, mamã!
– Sim.
 (continua...)