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quinta-feira, 4 de maio de 2017

[welcome to mozambique] as pulseiras mais fashion



Feira do Pau Preto, fotos daqui, que nem por sombras levaria a minha máquina fotográfica para as compras na feira... O que ganharia em registo gráfico perderia em poder negocial.
(Nampula, Moçambique)

[Esta manhã o facebook teve a gentileza de me recordar este episódio. E não resisto a contar-vos de novo a mesma história!]

Uma das coisas que mais gosto de comprar e que sei que as minhas amigas mais apreciam são as pulseiras exóticas, feitas em pau preto, sândalo e pau rosa que se vendem na chamada Feira do Pau Preto, aos domingos em Nampula, onde se pode comprar de tudo, desde vassouras feitas com fibra de coco até lamparinas feitas de latas de conserva vazias, passando pelas inevitáveis capulanas e medicamentos tradicionais e, claro, aquilo que dá nome à feira, as famosas obras de arte lindíssimas em pau preto, feitas de uma só peça, apenas com um canivete, por homens que aprenderam sozinhos, ou com alguém próximo, a difícil e paciente arte de talhar a madeira.

Certa vez, uma amiga pediu-me que lhe trouxesse como lembrança uma pulseira de rabo de elefante. Segundo ela, era do mais fashion que existia, em termos de acessórios exóticos africanos. Fiquei horrorizada. Eu não sou capaz de comprar marfim ou tartaruga, por mais bonitas que sejam as peças de arte. Por mais que me digam que os elefantes não são mortos para lhes retirar as presas, só as retiram de elefantes encontrados já mortos acidentalmente e que as tartarugas não são mortas de propósito. É fácil iludirmo-nos com estas desculpas ingénuas... Mas uma pulseira de cauda de elefante? Que estranho e, ao mesmo tempo, que curioso. É que não lembra ao menino Jesus, quanto mais ao rabudo... Certo domingo, quando já estava a regressar a casa vinda da feira, mesmo em frente ao delicioso estádio do Sporting Clube de Nampula, vi estas pulseiras a vender e resolvi parar o carro e investigar por conta própria, num rasgo de inspiração:

- Bom dia, senhor, novidades*?
- Tudo bem, não sei do seu lado...
- Salama**, obrigada.
- Ah... Senhora, estou a vender pulseira.
- Sim estou a ver, estas pulseiras são de quê?
- Rabo de elefante...
- Ah, muito bem. E custam quanto?
- Está a 20 cada uma...
- A 20 meticais? E quanto me faz se levar cinco?
- Fica a 15 cada uma.
. Está bem... E quem fez as pulseiras?
- Eu mesmo, mamã!
- Ah, muito bem, parabéns, são muito bonitas! Mas onde é que arranjou o rabo de elefante?
- É um caçador que vende.
- Um caçador? E onde é que ele caça?
- Não sei, mamã...
- Mas ele mata os elefantes para lhes cortar o rabo?
- [Atrapalhado, sem saber o que dizer a esta mukunya***, que nem comprava nem desgrudava literalmente do seu pé...] Não... corta o rabo, só.
- Hum... Olhe, pode dizer, que eu levo na mesma...
- O quê, mamã?
- Não são de elefante, pois não?
- [Com pouca convicção] São sim...
- Mas pode dizer, não tem problema...
- [Baixando os olhos, envergonhado e baixando também a voz...] Ah, mamã... São di pineu...
- De quê?
- Di pineu, mamã.
- Mas o que é um pineu?
- Um pineu, mamã!
- Pineu? Mas isso é um bicho? É parecido com quê?
- Pineu... Não sabe o que é pineu? Pineu di carro!
- De pneu?!
- Sim, mamã. Nós corta o pineu di carro e dentro do pineu tem o miolo que faz o fio...
- Ah... Levo cinco, então!

* Novidades - Como está [de saúde]?

** Tudo bem.
*** Mukunya - Branca

quinta-feira, 13 de abril de 2017

[psiquiatrices] uma crise de soluços improvável


Abril é o mês em que me lembro sempre, com um sorriso, desta improbabilidade que me aconteceu há já mais de 10 anos... Perdoem-me os que já leram e releram este post. Mas eu não resisto a contar de novo esta história...

O mentor espiritual desta blogger mulata certa vez teve uma crise de soluços. Nada há de extraordinário nisto, não fosse dar-se o facto de a crise ter sido desencadeada por um desgosto de amor e ter sido tão prolongada que o colocou em perigo de vida...

Dois dias depois do início da crise, exausto de tanto soluçar involuntariamente (sem nunca ter chorado, obviamente, que um homem não chora!) telefonou-me. A início não liguei nada. Que mal poderia advir de uma crise de soluços? Quase levei a peito. Mais valia que chorasse a sério no meu ombro e não deixasse o corpo chorar por si nesse chove-não-molha tão incomodativo. Retorquiu que não era nada disso. Estava com uma grande ansiedade, sim senhor, estava de coração partido, era verdade, mas que não tinha vontade de chorar. Tudo bem, respondia eu, que era certamente tudo verdade, que o Psiquiatra era ele, mas que isso era o corpo a chorar por ele, que viesse tomar café comigo que era o que fazia melhor... Não veio. De onde se conclui que um homem que não chora também não toma café com as amigas.

Mas no dia seguinte, depois de uma noite sem conseguir adormecer, ele estava uma lástima e com sensação de morte iminente. Com o otimismo que me caracteriza quando trato de pessoas de quem gosto e com os remorsos de quem tinha desvalorizado a situação clínica, comecei a pensar em coisas selvagens: um abcesso subfrénico, um tumor do tronco cerebral, uma neoplasia da pleura... Lá nos fizemos ao caminho para o hospital e, metodicamente, começámos numa ponta (na TAC de crânio, obviamente) e acabámos na eco abdominal. Nada. Saudável que nem um pêro, que um homem que não chora e que não toma café com as amigas também nunca tem nada de grave, ora essa, era só o que faltava.

Ficámos a olhar um para o outro... O que fazer a seguir? Seria desta, então, que íamos tomar café? Também não... Que a sensação de morte iminente não passava, que já quase não tinha forças, que se sentia mesmo mal, que estava quase a desfalecer. A sorte dele é que conseguia mesmo parecer o que dizia, respondi, de outra forma já estaríamos fora dali, na Versailles, a tomar café. E lá fomos para o laboratório fazer uma gasimetria. E qual não foi o meu susto, que ele estava com uma alcalose respiratória descompensada, com uma hipocaliémia e hipocalcémia (era grave, meus amigos, era grave...).

Pronto, já estava convencida. Que tínhamos de resolver aquilo (caraças para os homens que não choram, que são sãozinhos que nem um pêro, que não tomam café com as amigas e ainda por cima as deixam assim em situações difíceis) e só havia uma maneira: tinha de ficar internado e fazer uma injeção intramuscular de cloropromazina...

Que não, que nem pensar! Que me estava a esquecer que era Psiquiatra naquele mesmo hospital e que não podia ficar internado a fazer um antipsicótico. Nem que fosse life-saving. Ora, que como eu própria sempre dizia, ele que não se preocupasse, que mesmo que um Psiquiatra desse em doido nunca perderia a reputação entre os doentes. Nem mesmo entre os enfermeiros. Que não me fizesse de engraçadinha, que nem por sombras ficaria no hospital!

Estaria eu a ouvir bem? Para minha casa?! Nestas condições, se ocorresse alguma complicação havia risco de mortalidade (que 20% não era brincadeira!), mas foi inamovível. Ou em minha casa ou preferia morrer. Caraças para os homens que não choram mas que em situações destas se tornam drama-queens! (E vamos lá despachar a coisa, que a história já vai longa e a nossa vida não é isto!). Então resumindo, passei uma das piores noites da minha vida com ele a dormir placidamente, depois de os soluços terem passado. Doze horas depois, acordou muito bem disposto, embora a falar à "Prlesidente da Xunta" e a dizer que achava que se calhar precisava de um café para acordar...

De onde se conclui que os homens que não choram, também vão às vezes tomar café com as amigas, mas em pijama, depois de uma noite em casa delas... e só depois de uma dose valente de antipsicóticos..

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

[as melhores do serviço de urgência] prémio "fia-te na virgem e não corras"!

E o primeiro candidato ao Grande Prémio "Fia-te-na-Virgem-e-Não-Corras" 2015 chegou ao serviço de urgência do meu hospital na semana passada!


Ora pois que o episódio se inicia estava eu, pacatamente, no gripódromo em que se transformou o serviço de urgência nas últimas semanas (metade do país está de cama e a outra metade ou já esteve ou vai ficar), que é como quem diz, no ram-ram do "Boa noite, então o que se passa com @ menin@", assim mesmo mas sem o @, que parecendo que não, é difícil de articular com clareza. Ao que os pais respondiam invariavelmente com o "Febre-tosse-e-ranho-desde-há-três-dias,-mas-é-só-por-descargo-de-consciência-que-se-não-fosse-o-terceiro-dia-nem-vinha-aqui-que-eu-nem-sou-muito-de-vir-às-urgências-mas-é-que-lá-da-creche-pedem-o-papel-do-médico-e-pronto". E lá continuava eu, com a preocupação de, no meio dos cinquenta que tinham gripe, não deixar escapar aqueles 1,2 meninos que tinham pneumonia ou o 0,3 que tinha meningite*.


Eis senão quando, no ecrã me aparece um menino classificado como laranja. Prioridade quase máxima. Num relance reconheço o nome: é o filho de uma colega minha. Teve uma convulsão com febre em casa e ainda está sonolento. Sonolento mas mais lento do que com sono, felizmente, sinal de que estava a recuperar.


A minha colega vinha pálida, impaciente, exaltada como nunca a tinha visto. Não era para menos, que uma convulsão num filho é coisa para assustar o mais experiente dos médicos, mas acabou por me explicar o motivo da enervação:


- O Rafael estava ao meu colo, muito murchito. Chamei a empregada e pedi-lhe um Ben-U-ron porque me parecia que a febre estava a querer subir e foi então começou a convulsar.
- E depois o que fizeste?
- Chamei a empregada outra vez e ela lá veio espavorida. Pedi-lhe outra vez o Ben-U-ron e toalhas molhadas, mas ela só se agarrava a mim e dizia: "Ai reze, menina, reze!" E eu respondia, "Eu rezo, Maria, eu rezo, mas vá-me lá buscar umas toalhas molhadas e um Ben-U-ron". Ela desapareceu para a cozinha, mas só quando voltou com uma velinha acesa e sem as toalhas é que percebi que tinha se ser eu a fazer tudo. Deixei-o no chão em posição de segurança e fui eu própria buscar tudo e ligar para o INEM.
- E no meio disso tudo, ele já tinha parado?
- Sim, graças a Deus, não deve ter durado mais do que dois minutos, mas a Maria só dizia que tinha sido da velinha ao Santo António. "Ai, menina, palavra como não sei como é que me saíram as palavras do responso! Fiquei tão nervosa!" Só me apetecia esganá-la.


Entretanto eu já tinha completado a observação, que era normal, e o Rafael aninhava-se, bem disposto, ao colo da mãe.


- Margarida, ri-te que agora já podes, o menino está ótimo! Tem calma, que não foi nada.




* Valor estatístico meramente especulativo, ok? Não me citem em nenhum trabalho científico, por amor de santa Escolástica.

domingo, 13 de outubro de 2013

[outras palavras] não mais me queixarei dos roncadores


Eu sempre me queixei que os maiores roncadores do mundo tendiam a sentar-se ao meu lado nos aviões. Sobretudo nas viagens que fazia mais cansada e a precisar de dormir. E nas de longo curso. Agora que penso melhor, era sobretudo nessas. E quanto mais longa a viagem, pior o síndrome de Pickwick: mesmo que eu tentasse distraí-los e mantê-los acordados em conversa, adormeciam pelos cantos, no intervalo entre duas frases. E lá recomeçava o pesadelo...

Acho que a minha atração magnética sobre os grande roncadores da humanidade atingiu o seu zénite numa viagem de 14 horas para o outro lado do mundo, onde tinha de um lado uma amiga que dormiu o tempo todo e nem na aterragem conseguiu acordar e, do outro, o maior ressonador que já vi ao vivo (e olhem que conheço muitos ortopedistas!). Cheguei a pensar em fazer um apelo geral por um aparelho de CPAP a bordo. Ou uma aterragem de emergência. A sério, o senhor fazia apneias de meia noite e cheguei a temer pela vida dele, sobretudo numa apneia prolongadíssima que terminou num ronco que quase me matou a mim do coração. Por fim cheguei a temer pela minha sanidade mental. Os comissários de bordo tentaram oferecer-me, por diversas vezes, tampões para os ouvidos, mas a vibração, assim, a seco, sem banda sonora, era ainda mais aflitiva. A mulher dele tinha, mui inteligentemente dado de frosques e encontrava-se a uma distância prudente, mais de quinze lugares atrás, mas eu reconheci-a por ser a única pessoa que passou por mim tentando fingir que ignorava o senhor e que não me lançou um olhar de compaixão. Ah, e que usava um par de tampões de silicone nos ouvidos.

Mas mal o apanhei acordado, só saiu de lá com a ameaça de que teria de ir ao médico quando regressasse de férias, que eu era menina para fazer uma denúncia pública e nunca mais o deixar viajar de avião, a bem da pureza sonora da atmosfera a bordo e da sua própria saúde.

Mas hoje rendi-me. Há uma pessoa mais azarada do que eu, valha-me Nossa Senhora do Ar! Não volto a queixar-me.

sábado, 12 de outubro de 2013

[vozes brancas*] filhos do coração? ups, cuidado!


Há tempos, na consulta, um menino de 4 anos e meio, muito desenvolto e comunicativo, brincava comigo enquanto a mãe se demorava na casa de banho com a mais nova, que estava no treino da fralda. Conheci-o quando estava prestes a fazer dois anos, acabado de chegar a casa dos pais adotivos, que se apressaram a levá-lo à consulta para que eu o olhasse de alto a baixo e declarasse, para todo o sempre naquela família: "Temos homem! Que filho mais querido... Acho mesmo que saiu o Euromilhões a cada um!"

Os pais suspiraram de alívio. Mais tarde confidenciaram-me que apenas o sentiram filho de verdade depois da consulta. Fiquei contente mas chocada ao mesmo tempo. Eu ainda não tinha conhecido o baby-de-mulata e estava muito mais longe destas realidades e dos sentimentos que vêm devagarinho. Só depois percebi que os caminhos que levam da infertilidade à adoção não são lineares nem isentos de pedregulhos. Também demorei muito tempo a perceber que a adoção não é para todos, e que, para muitos casais inférteis, a ideia de adotar uma criança é incrivelmente perturbadora: lá bem no fundo, quase significa desistir do sonho de ser pai e mãe. Não critiquem, não julguem, talvez seja preciso passar pela dor de não poder conceber para saber o que se faria num caso destes.

Mas avancemos, que este menino estava ali mesmo na minha sala de consulta e brincava com um pato e dois patinhos pequeninos de cores diferentes. Sensível às questões da cor da pele, perguntou-me:

- Estes patinhos são filhos da barriga ou também são filhos do coração?
- Não sei - respondi - temos de perguntar à mãe pata. Mas o que é que tu achas?
- Eu acho que são filhos do coração.
- Pois, eu também acho. E ela gosta dos patinhos?
- Sim, gosta muito.
- E se fossem da barriga, também gostava?
- Sim. No outro dia vi uma senhora muito gorda e a minha mãe disse que ela tinha ficado assim porque tinha tido um bebé na barriga.
- Pois, os bebés fazem a barriga crescer muito para conseguirem caber lá dentro.

Nisto, ficou de repente com um brilho no olhar, como se tivesse tido, nesse momento, uma revelação. E a mãe regressou à consulta, mesmo a tempo de o ouvir afirmar:
- Ah, por isso é que a minha mãe ficou com as maminhas tão grandes. Foi para eu caber no coração dela!

Engoli em seco, esverdeada pelo comentário... Felizmente a mãe achou graça e riu-se da saída do filho.

Seguiu-se uma longa explicação à criança. E uma pequena explicação à mãe: cuidado com as metáforas! Antes dos seis ou sete anos as crianças não têm capacidade de abstração suficiente para compreenderem a diferença entre sentido literal e sentidos figurados. Fica aqui o aviso. E esta ficou para a história!

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

[as melhores do serviço de urgência] lamento, mas esta é mesmo só para médicos...

No serviço de urgência:
- Doutor, ando com uma dor aqui na anca, é melhor mandar-me fazer um raio x das carnes moles.

(Cortesia de um colega meu de Medicina Geral e Familiar, daqueles que têm mesmo doentes a sério, dos que tomam Sexodil para dormir e Omeprozac de manhã por causa dos azedumes. Agora que leio melhor, acho que este último seria um medicamento vencedor, como é que ainda mais ninguém se lembrou disto?)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

[nomes que dizem tudo] coincidências felizes!

 
Só me faz lembrar o meu menino da consulta, o Manuel Arranhado*, que tinha uma dermatite atópica e lesões de coceira por todo o lado, ou aquele senhor de quem já vos falei, o Sr. Francisco Pão Costa, que tinha um tumor de Pancoast**. Mas isto é mesmo humor refinado.*** Ninguém pode dizer que este não é um verdadeiro homem desta terra!

* Nome próprio obviamente fictício.
** Felizmente ficou curado, de outro modo não estaria aqui a brincar com a doença.
*** Sim, eu sei, sou provavelmente a centésima pessoa da blogosfera a postar sobre isto, mas deixem-me dizer-vos que dei a minha primeira gargalhada em vários dias! (Sim, estou enclausurada a fazer um relatório gigantesco. Não, não me perguntem mais nada. Sim, já tive dias melhores.)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

[improbabilidades] nomes que dizem tudo

 
Mais um impagável táxi/ chapa em Maputo!
Foto da querida Daniela. Obrigada!

sábado, 17 de agosto de 2013

[nomes que dizem tudo] toponímica improvável

 
Deliciosa Rua de Santiago de Compostela. Parece que também há - embora seja um facto ainda não fotograficamente comprovado - uma Rua da Algalia de Arriba, o que, convenhamos, é um procedimento médico tecnicamente muito mais fácil.
 
(Foto roubada indecentemente à São João, senhora de uma rinite alérgica sazonal de ler e espirrar por mais!)

[nomes que afinal não dizem tudo] welcome to mozambique

 
Mamã com crianças...
(Iapala, Nampula)

A pedido de várias famílias, aqui fica um pequeno excerto do meu livro. É sobre um episódio no dia da chegada à missão de Iapala...
"Antes do jantar, recebemos a visita de uma jovem com um bebé de poucos meses adormecido às costas. O menino vinha no seu traje de gala, com um conjunto de gorro e meias de lã, amarelo com uma risquinha verde, amorosamente tricotado à mão por uma das irmãs.  
– A touquinha e as peuguinhas de lã são o melhor presente que se pode dar a uma mamã – explicou-me depois a irmã Lurdes.  
– Com este calor?
– Não me perguntes porquê, mas todas as mamãs adoram. 
Realmente, como diria Mark Twain, os costumes mais absurdos são sempre os que permanecem mais enraizados... A "touquinha", como a irmã lhe chamava, era um gorro de inverno, de aspeto bastante quente, com direito a pompom e tudo! A jovem era mulher de um dos empregados da missão. Sabia que a irmã Conceição tinha chegado e vinha dar notícias da sua ida a Nampula para registar o menino.
– Não me deixaram pôr o nome que a irmã disse – lamuriou-se.
– Porquê? – Espantou-se a irmã Conceição.
– Disseram que não era nome normal. 
 Mas que estranho...
A jovem mamã tinha ido, dias antes, ter com as irmãs a Nampula porque estava com dificuldades na escolha do nome do bebé. Era o primeiro filho, o que tornava o processo muito mais complexo, com uma grande responsabilidade. Queria dar-lhe o nome de um padre, porque os missionários eram as pessoas mais importantes da região, mas não sabia que nome escolher. A irmã lembrara-se então que o pai do menino, em tempos, trabalhara para um padre em Nampula e tinham ficado particularmente amigos.

– Porque não lhe põe o nome dele?
A sugestão tinha sido bem aceite...
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar? – Perguntei, curiosa.
– Padre Arlindo...  
A jovem estava desolada, mas eu tive de deixar cair um brinco no chão para poder esconder a cara, porque só me apetecia sorrir às gargalhadas com aquela cena digna de uma comédia dos anos ’30. Depois de uma longa explicação das irmãs, a jovem saiu um pouco mais conformada.
– Acho que não vai muito convencida... Só Arlindo parece que não diz tudo – notei.
– Também me parece... Mas ainda bem que o funcionário do Registo Civil foi sensato, senão o menino tinha ficado com um Arlindo nome! E se fôssemos jantar?"

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

[hipocondria] tão bom que já me tinha esquecido como era!



Durante o curso de Medicina, não há estudante que se preze que não tenha tido uma preocupação grave com a sua própria saúde, por curta que fosse, sobretudo no terceiro ou quarto ano, em que as doenças e os doentes começaram a surgir em catadupa nas nossas vidas.

Mas, como em tudo, há os que abusam. Eu fui uma delas. E desde cedo! Ao todo umas cento e tal doenças ligeiras, quinze graves e dez fatais! Ele era aneurismas da aorta abdominal, ele era cancros em vários orgãos e sistemas, ele era todo o tipo de doenças infecciosas e parasitárias, incuindo as que existem exclusivamente em locais recônditos de África ou da América do Sul. Recordo-me particularmente de uma insuficiência renal aguda no segundo ano, que durou dois dias, altura em que terminei de estudar o aparelho urinário e passei a ter uma azia de caixão à cova porque me meti (assim à maluca!) a estudar o aparelho digestivo. Recordo-me também de um linfoma no terceiro ano, que só passou com uma autoridade em Hematologia a dar um murro na mesa e dizer-me que não me fazia biópsia nenhuma porque não tinha indicação. Rezei por ele durante anos!

A verdade é que todos passámos por isso. E à medida que o tempo passava, os sintomas tornavam-se cada vez mais sofisticados e consistentes. Qualquer dormência que surgisse, seguia uma distribuição por dermátomos, as dores abdominais exacerbavam-se sempre à descompressão, como na apendicite aguda... Mas claro que tínhamos crítica. Claro que minutos ou, na pior das hipóteses, horas depois fazíamos o percurso mental inverso e desmontávamos os sintomas e somatizações. Riamos de nós próprios, que é sempre o melhor remédio. O problema é que também este processo falhava por vezes. Tenho inclusivamente uma colega que só se rendeu à evidência de que tinha mesmo uma apendicite aguda e não uma somatização (estávamos no estágio de Cirurgia II) quando chegou à fase de "ventre em tábua"...

Depois tudo passou, felizmente! Não tenho saudades, confesso. Muitos dos meus colegas ficaram alérgicos e não suportam doentes hipocondríacos. Eu, pelo menos, continuo sensível ao tema. E achei delicioso ler no outro dia a São João, que dizia com imensa graça: "Não sou hipocondríaca. Eu somatizo é muito!" E responde a Mariana, logo ali, com o mesmo sentido de humor: "Eu também nunca invento sintomas, tenho é muitos. E geralmente todos graves!" Benza-vos Deus, minhas queridas, que não há doença que vos resista à boa disposição!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

[as melhores do serviço de urgência] uma entorse de trazer por casa...

Na consulta de um amigo meu, médico de família na margem sul, onde em tempos também trabalhei, entrou uma mãe de cinco filhos com o seu mai novo a coxear depois do corta-mato da escola.

[Trata-se, aliás, de um corta-mato famoso em todos os estabelecimentos de saúde da margem sul, porque, sempre que se realiza, o corpo clínico é devidamente avisado com a antecedência necessária e, dos cerca de 100 participantes, quase todos acabam por ir parar com os costados à urgência. Uns com dores no peito por razões que não sabem explicar, outros com sensação de falta de ar depois de terem corrido à maluca quase uma hora sem aquecimento e sem treino prévio, outros com crises de asma de esforço, traumatismos vários, outros só porque todos-vão-faltar-amanhã-com-atestado-e-eu-não-vou-porquê?-não-sou-nenhum-totó-também-vou-meter-atestado. Uns de ambulância, outros transportados pelos pais, já de sobreaviso e chamados à pressa a comparecer na escola, outros poucas horas depois, já chegados a casa...

Houve um ano em que estava de urgência e cheguei a observar quase todos os miúdos com os números seguidos do 5 ao 25. Ao fim da tarde, vendo que não aparecia o 24, perguntei ironicamente ao rapaz que tinha sido o nº 50 se ele sabia alguma coisa do nº 24, se não andaria perdido à procura do hospital... É que já só faltava ele. Ao que me respondeu que o nº 24 era um grande amigo dele, mas que como já tinha 17 anos tinha ido à urgência dos adultos...]

Mas voltando à consulta do meu colega, o rapaz, depois do famosíssimo corta-mato entrou a coxear no gabinete de consulta, numa daquelas alterações da marcha que até o porteiro diagnosticava como fictícia ainda o rapaz vinha ao fundo da rua...

- Então o que tem o seu filho?
- Ele diz que pôs mal o pé durante o corta-mato da escola e hoje à tarde começou a doer-lhe.
- Já em casa?
- Sim, disse que lhe doía cada vez mais e às tantas já chorava desesperado, por isso é que vim.
- Deu-lhe alguma coisa para as dores?
- Só lá tinha daqueles comprimidos que são para tomar com água a ferver, mas ele não os conseguiu tomar. Ainda tentou, coitado, mas queimou a língua e eu não o obriguei mais.
- Com água a ferver? Que comprimidos são esses?
- São daqueles comprimidos que se metem na água a ferver e se desfazem.
- E fazem bolhinhas, minha senhora?
- Sim, esses mesmo, senhor doutor.
- Ah, então anda bem que ele não tomou. Ninguém merece. Paracetamol efervescente... cozido!
- Como?
- Deixe estar que eu já lhe explico. Senta-te ali, rapaz!

sábado, 13 de outubro de 2012

[vozes maduras] poupar a todo o custo!


O meu melhor amigo tinha um tio, entretanto já falecido, que era sovina in stadius ultimus. Nunca tomava café fora de casa, andava sempre de transportes públicos ou a pé, exceto quando a relação custo-benefício justificava o gasóleo que tinha de colocar no carro, havia anos que não comia num restaurante. Mesmo para comprar uma máquina de café lá para casa fora o cabo dos trabalhos para a mulher o convencer. Paradoxalmente, era uma das pessoas mais ricas da família, com negócios milionários do ramo imobiliário em Portugal e além-fronteiras.

Ora então, há vários anos, quis o destino, que essa personagem tivesse de ir fazer o exame médico para renovação da carta de condução ao centro de saúde onde eu estava a estagiar. A mulher dele veio então ter comigo, desesperada, pedindo por tudo que não deixasse a médica de saúde pública renovar-lhe a carta.

- Doutora, é que, sabe, eu já não aguento andar de carro ao lado dele. Ele não vê a cinco metros de distância, mas recusa-se a comprar uns óculos! Eu nem consigo desviar os olhos um milímetro da estrada e se não fosse eu a gritar-lhe já tínhamos morrido os dois há anos. Não faz nem cinco mil quilómetros e já tem os pneus completamente carecas de tantas travagens bruscas!
- Mas porque é que ele não usa óculos, nem que seja só para conduzir?
- Ele diz que não é preciso! “Óculos?”, diz ele, “Isso é um luxo! Eu não preciso de ver ao longe. Eu vejo quando chegar lá!”

A minha tutora conseguiu, felizmente, convencer este senhor da Troika avant la lettre a “investir” nuns óculos! Viveu e conduziu até aos 86 anos!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

[a força que um sorriso pode ter!] amor à primeira vista...

Nestes últimos meses cheguei a uma conclusão brilhante. Sabem por que é que quase não existem romances em que acontece um grande amor à primeira vista? Não é porque eles não existam, ao contrário do que eu imaginava. É porque é tudo tão perfeito desde o princípio que não se consegue construir uma trama credível. Seria uma autêntica seca. No máximo consegue-se um conto dos pequeninos, mas sem qualquer densidade literária. (Suspiro)

E perguntam vocês: Tens a certeza de que foi mesmo à primeira vista, beijo-de-mulata? Tenho, respondo eu, tenho a certeza absoluta. Porque só o vi uma vez e a improbabilidade aconteceu. E depois o segredo foi acreditar com muita força que a vida é simples. E depois, beijo-de-mulata? E depois agarrei este amor com toda a energia que ele me deu.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

[caderneta de cromos] as mulheres do técnico...

O meu irmão é um convicto engenheiro do Técnico. Um engenheiro que gostou de estudar no Técnico. E que ainda hoje se orgulha em ter sido do Técnico. Durante os seus tempos de faculdade levou a sério a vivência do espírito académico: não faltava a um arraial, fazia parte da associação de estudantes, inventava piadas sobre todo o tipo de pessoas e situações do IST, contribuía religiosamente para a ração do Nabunda, o rafeiro de estimação da associação de estudantes, que acabou por falecer no seu ano de finalista com um carcinoma do fígado, depois de mais de metade dos alunos se ter quotizado para lhe pagar os tratamentos de quimioterapia.

O meu pai também era então professor do Técnico (agora, felizmente, mudou de faculdade, que ao menos sempre se variam as piadas e os assuntos). Na altura ambos se divertiam com as piadolas do IST (por ex.: "Há vários tipos de mulheres: as mulheres bonitas, as assim-assim, as feias, as horríveis e as do Técnico!"). Ora, certa vez, o meu pai, grande defensor do estatuto da mulher e da igualdade de direitos e capacidades, comentou:

- O Técnico está a mudar. Já era tempo, realmente. Tenho uma turma do curso de Gestão e Engenharia Industrial que é só de mulheres.

E responde o meu irmão:
- Não, pai, estás enganado, não há nenhuma turma no Técnico que seja só de mulheres. E mesmo que houvesse, já tinha sido invadida por homens. Mas não há, tenho a certeza.
- Não, filho, tenho uma turma que é só de mulheres. Ou pelo menos maioritariamente, que nunca lá vi nenhum homem.
- Não, pai, não há turmas só de mulheres.

E o meu pai lá foi confirmar. Realmente estavam muitos homens inscritos naquela turma, mas nas aulas só havia invariavelmente mulheres. Até que o meu irmão desvendou o mistério: as aulas eram às 17:00. E às 17:00 os rapazes do Técnico estavam todos a ver o Dragon Ball.

E pronto. A Caderneta de Cromos do Nuno Markl vai acabar e eu estou triste. Um dos últimos cromos foi sobre o Dragon Ball e esta é a minha singela contribuição.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

[nomes que dizem tudo #30] uma dupla imbatível



Missa dominical na Comunidade de Oito Quilómetros... Reparem no pormenor dos beijos-de-mulata suspensos no tecto, alegrando o ambiente!
(Ribáuè, Nampula)


Há alguns anos, na comunidade de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Oito Quilómetros*, em Ribáuè (Nampula), o Padre Gasolina nomeou como animador paroquial o Sr. Cinco Litros.

E durante os anos em que Gasolina e Cinco Litros foram parceiros, a paróquia de Oito Quilómetros foi de vento em popa e floresceu como nenhuma outra na província. Dezenas de jovens descobriram em Oito Quilómetros a sua vocação religiosa. É bonito ver como podem coexistir a harmonia, a fé, a esperança e a concordância sintáctica numa mesma comunidade...

* Uma aldeia assim designada por se situar ao quilómetro 8 da estrada que liga Iapala a Ribáuè. O nome da paróquia pode ler-se inscrito na parede atrás do altar na primeira foto. Para não pensarem que invento nomes e situações... É o problema do costume: a realidade não tem a menor obrigação de ser verosímil.

sábado, 11 de agosto de 2012

[outras paragens] momento national geographic



Uma improvável crise maníaca nas profundezas do Quénia...
Via Nunca é Tarde, um site que só descobri ontem, quando estes simpáticos senhores me vieram visitar... mas enfim, nunca é tarde.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

[welcome to africa] o alfaiate maasai


Improbabilidades da savana...  Fashionism a toda a prova!
Via Afri Tailor

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

[improbabilidades] conversas de snack-bar

No bar do meu hospital:
- Boa tarde, por favor, tem batatas fritas de pacote?
- Sim, que sabor?
- Batata frita simples, sabor a batata frita.
- Isso não temos. Temos batata frita com sabor a presunto, batata frita com sabor a ketchup, batata frita com sabor queijo...

Pronto. Era só isto. Estamos na silly season e temos de nos comportar como tal. Fiquem também com esta... Maravilhosa!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

[acreditar no milagre] coragem, mãe coragem!

Já vos falei da nossa princesa, a Arina, a menina Cabo-Verdiana de quatro anos que está internada desde Outubro no nosso hospital. Que mais vos posso contar sobre ela?

 A mãe, ainda jovem, era educadora de infância em São Nicolau. O pai, igualmente jovem é fotógrafo e continua em Cabo Verde com o filho mais velho, a trabalhar para o poder sustentar e ainda ajudar um pouco a mulher e a filha em Lisboa. A filha adoeceu em Agosto do ano passado, e perceberam rapidamente que algo de muito grave se passava com ela. Cheia de nódoas negras, com pouca energia para brincar... Os médicos não lhes deram esperança nenhuma em Cabo Verde. Se ficasse não conseguiria sobreviver. Tinha de ser transferida para Lisboa. Era a única esperança.

E a mãe continua agarrada a essa esperança. Eu pessoalmente não sei o que faria nessas circunstâncias. Sabendo que a probabilidade de a minha filha sobreviver era assim tão escassa, o mais provável seria que a mimasse até à exaustão. Que lhe fizesse as vontades todas. Que fizesse questão de gozar o mais intensamente possível o tempo que passava com ela. Todos os dias. E que chorasse, que desesperasse, que vivesse naquele eterno dilema: se lhe imponho limites e castigos, depois posso arrepender-me de ter sido demasiado severa, se não lhe imponho limites, corro o risco de não a preparar para viver no mundo real.

Não é o que esta mãe faz! Não há uma hesitação. Todos os dias nos olha com um sorriso. Todos os dias inventa jogos didácticos para a filha, ensina-lhe as letras e os números, faz desenhos, puxa por ela. Desde o início do internamento que a nossa princesa já aprendeu poemas e canções, largou as fraldas à noite, fala Português tão bem como Crioulo sem se enganar em que língua se deve dirigir a quem, come correctamente com os talheres à mesa... No outro dia ouvi-a repreender a filha por não ter agradecido à enfermeira que lhe foi medir a tensão à noite.

É assim que se reconhecem os optimistas! É assim que se percebe que esta mãe não perdeu a esperança e acredita a cada momento que a filha vai conseguir. Como podemos nós não acreditar?

Seja como for, em qualquer circunstância, vai sempre valer a pena ter lutado!