segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

[pelo sonho é que vamos!] dobrando 2012

Até tenho pena de deixar este ano... É quase isso que eu sinto. Este 2012 começou turvo, cinzento e triste, mas foi o ano em que me reinventei, em que deixei de chorar todos os dias, de me entristecer com ausências, foi o ano em que me enamorei à primeira vista pelo baby-de-mulata, sonhei que seria mãe dele nesse mesmo dia e, ao contrário do meu enorme desgosto que aconteceu há quase dez anos, desta vez cheguei a tempo! Melhor, muito melhor: há quase dez anos não cheguei a tempo de me despedir do meu amor pequenino. Este ano cheguei a tempo de ser mãe de um menino encantador, e com uma força interior admirável!

Ao lado disso, tudo o resto que me aconteceu este ano, desde o lançamento do livro até ter sido eleita para a direção de uma das maiores ONG do país, nada me parece extraordinário! Mas, pronto, para que conste em ata e antes que venha a piadola: também já plantei uma árvore. Foi em 2010, na Zambézia, com o coração apertado, quase na despedida de Moçambique. Um momento simbólico, porque naquele momento acreditei, com todas as minhas forças, que se a árvore vingasse, voltaria àquele lugar que eu amo. Hoje continuo a acreditar que voltarei, até porque a árvore, dizem-me, já deu frutos. Só não vos provo o que vos digo com uma foto da minha pessoa a plantar a dita porque estou numa posição muito pouco digna e-eu-agora-sou-mãe-de-família-tenho-que-me-dar-ao-respeito... Mas vem aqui gente que não me deixa mentir!

Chego a 2013 sobretudo profundamente grata! Grata pela vida e grata a todos os que me provaram, mais uma vez, que a vida é simples. Desejo-vos a todos mais um ano muito feliz.

sábado, 29 de dezembro de 2012

[aliterações de lisboa] um olhar de alta resolução

 
"Só um olhar verdadeiro percebe uma mentira"... Em Português, mesmo sem a aliteração, soa muito melhor, não concordam?
(Calvário, Lisboa)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

[músicas para o baby-de-mulata] a banda sonora deste natal


 
O baby-de-mulata, graças a Deus, a Santa Cecília e ao seu dedicado professor de música para bebés, é um menino muito-afinadinho-benza-o-Deus e já sabe cantar comigo esta música de Natal, composta pelo meu querido primo J... Um rio de baba escorre desta casa...

[as melhores do serviço de urgência] uma entorse de trazer por casa...

Na consulta de um amigo meu, médico de família na margem sul, onde em tempos também trabalhei, entrou uma mãe de cinco filhos com o seu mai novo a coxear depois do corta-mato da escola.

[Trata-se, aliás, de um corta-mato famoso em todos os estabelecimentos de saúde da margem sul, porque, sempre que se realiza, o corpo clínico é devidamente avisado com a antecedência necessária e, dos cerca de 100 participantes, quase todos acabam por ir parar com os costados à urgência. Uns com dores no peito por razões que não sabem explicar, outros com sensação de falta de ar depois de terem corrido à maluca quase uma hora sem aquecimento e sem treino prévio, outros com crises de asma de esforço, traumatismos vários, outros só porque todos-vão-faltar-amanhã-com-atestado-e-eu-não-vou-porquê?-não-sou-nenhum-totó-também-vou-meter-atestado. Uns de ambulância, outros transportados pelos pais, já de sobreaviso e chamados à pressa a comparecer na escola, outros poucas horas depois, já chegados a casa...

Houve um ano em que estava de urgência e cheguei a observar quase todos os miúdos com os números seguidos do 5 ao 25. Ao fim da tarde, vendo que não aparecia o 24, perguntei ironicamente ao rapaz que tinha sido o nº 50 se ele sabia alguma coisa do nº 24, se não andaria perdido à procura do hospital... É que já só faltava ele. Ao que me respondeu que o nº 24 era um grande amigo dele, mas que como já tinha 17 anos tinha ido à urgência dos adultos...]

Mas voltando à consulta do meu colega, o rapaz, depois do famosíssimo corta-mato entrou a coxear no gabinete de consulta, numa daquelas alterações da marcha que até o porteiro diagnosticava como fictícia ainda o rapaz vinha ao fundo da rua...

- Então o que tem o seu filho?
- Ele diz que pôs mal o pé durante o corta-mato da escola e hoje à tarde começou a doer-lhe.
- Já em casa?
- Sim, disse que lhe doía cada vez mais e às tantas já chorava desesperado, por isso é que vim.
- Deu-lhe alguma coisa para as dores?
- Só lá tinha daqueles comprimidos que são para tomar com água a ferver, mas ele não os conseguiu tomar. Ainda tentou, coitado, mas queimou a língua e eu não o obriguei mais.
- Com água a ferver? Que comprimidos são esses?
- São daqueles comprimidos que se metem na água a ferver e se desfazem.
- E fazem bolhinhas, minha senhora?
- Sim, esses mesmo, senhor doutor.
- Ah, então anda bem que ele não tomou. Ninguém merece. Paracetamol efervescente... cozido!
- Como?
- Deixe estar que eu já lhe explico. Senta-te ali, rapaz!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

[se belém fosse em ocua] um conto de natal

 
Um Quase Conto de Natal

Já vos contei esta história. É verídica. É o mais bonito conto de Natal que conheço e passou-se em Ocua, Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique... Gosto de recordar esta história porque ela me ensinou que há pessoas (certamente mais felizes do que todos nós) que conseguem ver poesia e mistério em momentos únicos...
Em Dezembro, em Ocua, era Natal e entardecia sem que por perto qualquer sinal nos pudesse dar testemunho da data. Tempo de fome, de seca e calor asfixiante, em que a chuva tardava como uma noiva cruel, abandonando as sementeiras e o povo no altar, no desespero de uma boda por mil vezes não consumada, de uma promessa de frescura mil vezes adiada... Era Natal e o calor era irrespirável. Era Natal e ao entardecer não havia luzes nas ruas, ninguém a correr a comprar os presentes de última hora, nenhuma árvore ornamentada. Era Natal e, inquietantemente, faltava o cenário, faltava o tom que o pano de fundo imprime no estado de espírito... mas aparentemente só nós o sentíamos. Tudo o resto, alheio à inquietude que nos vivia por dentro, decorria na rotineira placidez de África. 
Se Jesus menino tivesse nascido em Dezembro em Moçambique, uma capulana teria bastado para o aquecer. E se Belém fosse em Ocua, em vez da vaquinha e do burrinho no estábulo, talvez uma qualquer ave do mato tivesse batido as asas num leque improvisado, oferecendo um sopro refrescante ao seu corpinho de menino... Que nestes casos a poesia da religião e o seu lado de Alice no País das Maravilhas, de fábula, magia e metáfora têm sempre forçosamente de assomar. 
Mas foi precisamente aqui que a Natureza nos declarou, estridentemente, o quanto tínhamos sido injustos. Que tudo quanto a Europa faz de uma forma sistemática, asséptica e geométrica, África improvisa e encanta.  
E foi quando, em Ocua, em frente à casa da Missão, o cajueiro se encheu de centenas de pirilampos, numa árvore de Natal natural erguida na noite, com mil pequenas luzes piscando.

domingo, 23 de dezembro de 2012

[o espírito dos natais passados] recordar é sorrir


 
Um interlúdio de Natal, uma autêntica pérola para recordar... Boas festas!

sábado, 22 de dezembro de 2012

[eu bem vi nascer o sol] algures no fim do mundo...



 O nascer do sol, vindo das águas mornas do Índico... São imagens do local mais próximo do fim do mundo onde alguma vez estive. Éramos as únicas pessoas naquela praia paradisíaca, para além de dois ou três pescadores que saíam de madrugada para tentar a sorte desse dia no mar.
A imagem perfeita de que todos os dias são um renascer! Boas festas!
(Praia das Chocas, Nampula)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

[para a joana] nada temas, porque tudo recomeça...

 
Amanhecer no Índico...
(Praia das Chocas, Nampula)


Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te em nome seja de quem for (...)

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu


Ruy Belo

domingo, 16 de dezembro de 2012

[o magnum mysterium] grande é a poesia, a bondade e as danças...


 
Obrigada ao Francisco Campos, sj por ter partilhado este post do João que me tinha escapado... Acima de tudo, uma imagem de como a vida e a amizade podem ser simples! Bom domingo a todos...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

[um dador para a arina] acreditar no milagre!

 
A nossa princesa há pouco mais de duas semanas!
(Hospital Dona Estefânia)
 
Já foi há mais de dez anos que li um livro de viagens - Sul - escrito pelo Miguel Sousa Tavares (MST). Ainda não conhecia Moçambique. Não tinha, na altura, qualquer ideia romântica sobre África e estava a anos-luz de imaginar que um dia me haveria de apaixonar perdidamente por um país que não é o meu e que viria a sofrer profundamente de cada vez que regressasse do meu paraíso. Sul é um livro muito irregular no estilo, mas o capítulo sobre Cabo Verde tocou-me particularmente. No texto Um Rio Há de Correr em Cabo Verde, MST fala do otimismo obstinado de todo um  povo, do amor que têm ao país e da vontade de o fazer andar para a frente. Um otimismo que conheci na primeira pessoa quando visitei o país algum tempo depois.
"Vinte anos de independência, vinte anos de luta contra a seca, vinte anos de teimosia. Podem dez pequenas ilhas, metade África metade Atlântico sobreviver como país? Eles acreditam que sim e fazem por isso. Talvez porque aqui, pesem todas as adversidades, se mantém o deslumbramento. Quem viu as ilhas não as esquece mais." MST
 
Há tempos falei-vos da Arina, a menina adorável, natural de S. Nicolau (Cabo Verde), internada há mais de um ano no meu hospital com uma aplasia medular gravíssima e a precisar de um transplante de medula óssea urgente. Por tudo o que já sabia, quase não me surpreendeu que a mãe mantivesse sempre a firme convicção de que iria encontrar um dador e nunca desistiu de puxar pela sua menina, prepará-la para a vida quando melhorasse e tivesse alta! Também vos falei disso. Uma atitude absolutamente admirável, uma fé a toda a prova que me ensinou muito como médica, e agora como mãe!

Mas dentro da improbabilidade que é encontrar um dador de medula óssea fora da família, o caso da Arina era, se possível, mil vezes ainda mais improvável, porque tinha uma combinação genética muito rara. Cheguei a pensar que era impossível. Cheguei a pensar que o melhor que os pais tinham a fazer era tentar quanto antes ter outro filho compatível. Tive grandes conversas com os meus colegas sobre a ética do diagnóstico pré-implantatório de embriões e seleção de acordo com a histocompatibilidade. (Eu por princípio não sou contra, se é que querem saber...) Mas o pai continuava em Cabo Verde a cuidar do filho mais velho e a trabalhar para sustentar a família. Não era possível.

A única esperança verdadeira era, portanto, apelar para toda a comunidade de Cabo Verde residente em Portugal ou noutros países ditos desenvolvidos - em Cabo Verde não há banco de medula óssea. Lançou-se uma campanha. Campanha essa que tenho a certeza de que falava ao coração dos cabo-verdianos porque continha uma mensagem de esperança e otimismo (Djuntu nu ta konsigi, Juntos vamos conseguir!).

A campanha deu a volta ao mundo. As minhas bloggers favoritas também fizeram eco dela: a Paracuca, a Cocó na Fralda, a AL do ma-schamba, a Glittering. Falou-se na televisão, na rádio, no facebook. A mensagem correu  por mails coletivos. Teve uma adesão admirável.

E há poucas semanas o milagre aconteceu! O dador apareceu no outro lado do mundo, provando-nos que vale a pena acreditar e que a mãe estava certa! Admiro muito a fé inabalável de algumas pessoas...

A nossa princesa mais linda foi esta semana transferida para fazer o transplante. Em nome da Arina, muito obrigada a todos os que leram e divulgaram este caso e a todos os que rezaram por mais este sucesso.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

[genialidades] vício versus vantagem

 
O Narhinel faz mais pela sua saúde e pela do seu bebé. E tem filtro!
Mas, meninas, não desprezem à partida um vício (ou um viciado) que desconhecem. Mesmo o mais agarrado pode ser reconvertido num bom pai de família, haja sentido de humor, vontade e optimismo!
(O que eu me ri com este post...)

domingo, 2 de dezembro de 2012

[grande é a poesia, a bondade e as danças...] vidas pequeninas





 
Uma criança ainda pré-púbere toma conta do irmãozinho mais novo...
(Nampula, Moçambique)
As fotos não são minhas, mas não me recordo do link, mais uma vez as minhas desculpas... 

sábado, 1 de dezembro de 2012

[vozes brancas* #84] em nome do pai e do filho...


Na consulta de uma menina de quatro anos, que conheço desde a barriga da mãe, senhora de muitas vitórias, com quem passei vários apertos e muitas alegrias, os pais, babadíssimos com a sua pequena lutadora, fazem sempre questão de me ir pondo ao corrente de todos os progressos:

- Sabe, doutora, a Matilde agora anda a aprender o Pai-Nosso. Devagarinho, que aquilo também é muito complicado e ela não deixa nada por meias palavras, quer perceber tudo e faz perguntas difíceis.
- Pois, realmente, não é nada fácil de explicar, só aquele "não nos deixeis cair em tentação"...
- Sim, e essa nem foi a mais difícil... No outro dia, começámos: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" e ela: "Não, não quero assim, isso é muito injusto!"
- Injusto? - Admirei-me.
- Sim, e começou a dizer que achava muito mal que só lá estivesse o pai e o filho. "Então e a mãe e a filha? Não estão aqui porquê?"

Ah, my little feminist!

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

[sagrada família] da bicicleta

 
Sagrada família da bicicleta.
Presépio Irmãos Baraça.

 
Família na bicicleta, Moçambique.
Imagem deliciosa daqui.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

[histórias do baby-de-mulata] maturidade


O baby de mulata, devido a várias doenças no primeiro ano de vida, começou a andar há pouco mais de um mês... Mas, como qualquer criança com mais de um ano e meio, está em plena fase do negativismo. Diz que não a tudo, nunca se quer vestir, não se quer despir, não me quer dar a mão na rua, procura explorar (quase com método científico!) o que sabe que é proibido, e foge num passo trôpego, o mais rápido que consegue, quando lhe digo que vamos vestir, ou mudar a fralda, ou comer... ou o que quer que seja, desde que lhe dê para isso.

O grande problema é que esta diferença entre as capacidades físicas e a maturidade resultam em quedas, tropeções, arranhões, galos, hematomas e o diabo a quatro (pronto, pronto, sobre isto já falámos, não me vou repetir a teorizar sobre com quantos diabos ficamos se começarmos com quatro). Geralmente as marcas de guerra são em locais bem visíveis. Há tempos, andou mais de quinze dias com o olho "à Belenenses" depois de me ter tentado fugir na hora do banho e ter batido com o canto do olho na banheira...

As pessoas olhavam para ele na rua e vinham ter comigo para me dizer: "Que grande queda, foi um acidente muito mau, coitadinho! Os meus nunca tiveram nada disso..." E só me apetecia responder: "Não, não vê que não foi nada disso? Andou foi a digladiar-se com um colega na escola e o outro ainda ficou pior do que ele!" Mas calava-me, pronto.

Ontem, dei por mim a pensar que é terrível este desfasamento entre a maturidade e as capacidades físicas... Mas depois lembrei-me que na adolescência acontece precisamente o oposto e que ainda vou achar que ele era um santo nesta idade. E, pronto, mudei de assunto e assobiei para o ar....

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

[moçambique no seu melhor] o segredo da felicidade...

 
Que delícia, a "Casa do Liga Mais Tarde"! E calculem também que esta casa nos revela que o segredo da felicidade está numa barriga cheia.
(Quissico, Inhambane)
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

[alhos e blogalhos] valha-me nossa senhora do google


Meus queridos amigos, eu não gosto de vos importunar com "bloguices" aqui do mato, até porque qualquer vizinho de morada do blogspot também deve ter histórias igualmente engraçadas...

A verdade é que hoje venho aqui carpir as minhas mágoas. Muito me agradaria continuar a dizer que a maioria dos visitantes que aqui desagua, navegando à boleia do google, vem à procura de "mulatas nuas" e de "mulatas selvagens", mas infelizmente, nos últimos tempos, o top 10 das pesquisas tornou-se, lamentavelmente, mais educado e decente. Eu sempre confiei que o nome deste mato pudesse atrair para sempre pesquisas mais interessantes, mas parece que já não conseguimos enganar ninguém...

O que ainda me vale, para animar o sitemeter, são os senhores que têm a bússola cibernética avariada e vêm naufragar aqui ao mato com pesquisas que não lembram ao menino Jesus.

Ora então temos as últimas pesquisas pertinentes que vieram aqui aportar:

- Imagens de Santo Mé e Príncipe (!) - Oh, valha-me São Mé, santo padroeiro dos ovinos e caprinos, segundo o nosso comentador honoris causa.

- Lista de todas as vadias de Nampula até Cuamba - Credo, ó senhores... Mas precisava mesmo de ser uma lista de todas, todas? Se fosse assim umas quatro ou cinco ainda se conseguia arranjar. Eu própria conheci e tratei algumas no hospital de Iapala e ainda me recordo dos nomes, mas mais do que isso não conseguimos. De qualquer modo, aqui ficam os meus sinceros parabéns pelo otimismo! Acreditar que é possível, num qualquer recanto blogosférico, encontrar uma lista deste calibre é algo digno de um homem de fé!

A Santa do Eixo da Via - Ora que bela ideia! Deve ser a santa padroeira dos chapas! Eles andam a velocidades suicidas sem nunca se desviarem um milímetro do meio da estrada. E nós, os condutores com algum apego à vida, acabamos por ir parar à berma o mais rapidamente possível, mesmo arriscando a pele no voo lateral...

- Pode-se tomar pau de cabinda com o mata-bicho? - Bem, poder pode. Com o mata-bicho, com uma cerveja, com um café... Mas com a namorada penso que seria mais agradável. Mas cada um sabe de si.

- Baptiza Qualquer Rato - Meu senhor, não vejo por que não! Que mal pode haver nisso? Qualquer rato também é filho de Deus e produto da Sua divina criação, passe o pleonasmo. Em tempos houve um bispo em Utrecht que chegou a batizar uma mola hidatiforme! Uma mola hidatiforme de uma condessa, é certo, mas ainda assim... E aqui a história assevera-nos, mais uma vez, que um bispo nunca se atrapalha, que um bispo enrascado é pior que um anestesista bêbado. E reza, pois, a história que o digníssimo clérigo dividiu aquela massa vesiculosa em 365 partes iguais e batizou metade com o nome de João e a outra metade com o nome de Isabel e mandou depois fazer-lhes um funeral condigno.

- Banhos para atrair mulheres funcionam mesmo? - Por acaso esta já tinha aparecido antes... Bem, meus senhores, estudos científicos por acaso não temos. Mas temos uma teoria ...

Afinação para vinte vozes brancas - Ai, meu amigo, deixe-se disso... Esqueça! Mesmo. Dedique-se a outra coisa. Vai ser uma canseira sem proveito nenhum. O próprio Bach nunca passou da afinação para quatro vozes. E mesmo assim sabe Deus!

A todos estes senhores, que conseguiram cá chegar com apenas estas coordenadas, os meus parabéns e o meu mais sincero obrigada pelos sorrisos que me proporcionaram!

domingo, 25 de novembro de 2012

[bloguismo] ontem conheci a patanisca!

Ontem fui ao evento "Há festa no Palácio", no Palácio Foz, lindo e cheio de gente... A minha editora tinha-me convidado para lá ir dar alguns autógrafos do meu livro e, ao mesmo tempo, chegou a Sónia Pereira, a autora d'As Receitas da Patanisca, que recentemente lançou um livro: 234 Receitas para Robôs de Cozinha...

Amorosa, recebeu-me como se já nos conhecêssemos há séculos! Falou-me da sua atividade profissional como psicóloga numa escola no [inegavelmente problemático!] bairro do Picapau Amarelo, na margem sul. Alunos com perturbações do comportamento, famílias disfuncionais, violência domestica, agressões a professores, tentativas de suicídio e o diabo a quatro (ou a sete, que já sabemos, e costumamos teorizar desde que este blogue é blogue, que um diabo nunca vem só, quanto mais quatro diabos e, bem vistas as coisas, começando com quatro diabos, se eles acabarem por ser só sete, já é muito bom, mas adiante), tudo o que se pode pensar que pode existir de mau numa escola num bairro problemático lhe tem vindo parar em mãos...

Contou-me que, apesar de ter um contrato de apenas um ano, iniciou um projeto fantástico com os alunos, que inclui workshops de culinária como prémio para os que não têm faltas disciplinares ou participações. Com o projeto (inteiramente financiado por ela, que um contrato a termo certo não se compadece com os tempos das burocracias e das respostas da Câmara Municipal) entretanto já conseguiu que os miúdos ganhassem imenso em termos de auto-estima, autonomia e organização. Alguns descobriram que afinal sabem fazer contas e regras de três, que na sala de aula não conseguiam aplicar. Muitos alunos melhoraram o comportamento para poderem ter acesso aos workshops.

E, melhor do que tudo, neste contexto, conseguiu chamar muitos pais para a escola, para revelarem segredos das cozinhas dos respetivos países. Para muitos, foi a primeira vez que entraram na escola dos filhos (a maioria recusa-se a comparecer se for chamada para "ouvir dizer mal dos meninos") e claro que ela aproveitou para os colocar ao corrente da situação das suas crianças e dos problemas que os incapacitam.

Uma ideia genial posta em prática por uma pessoa especial! Parabéns, Patanisca!

[improbabilidades] o presépio

 
Presépio de Machado de Castro
Séc. XVII - Barro Policromado

A propósito do recente desaparecimento da vaquinha e do burrinho do presépio, já em tempos vos tinha citado esta frase brilhante do Brideshead Revisited:

The gospel is simply a catalogue of unexpected things. It’s not to be expected that an ox and an ass should worship at the crib. Animals are always doing the oddest things in the lives of the saints. It’s all part of the poetry, the Alice-in-Wonderland side, of religion.
Lady Marchmain in Brideshead Revisited

sábado, 24 de novembro de 2012

[as melhores do serviço de urgência] drogas legais


A propósito do caso do post anterior, gostaria de referir que o adolescente que foi internado com uma crise psicótica aguda nos deu água pela barba durante horas seguidas. Isto porque a história que a mãe nos contava era que o filho entrara em psicose completamente "do nada", depois de uma saída para a discoteca com os amigos. Mas os delírios com helicópteros e envenenamentos - perfeitamente banais em contexto de psicose - eram acompanhados de uns, não tão banais assim, suores, arritmia, hipertensão e pupilas dilatadíssimas, o que nos fazia pensar que havia algum consumo ilícito por ali. Mas a mãe jurava, com quantos dentes tinha (embora já não tivesse assim tantos), que o filho jamais-seria-capaz-de-tocar-em-drogas-que-um-raio-fulminasse-já-ali-a-vaquinha-e-o-burrinho-do-presépio (o menino Jesus e a sua mãe claro que não, que blasfémia!) e, de facto, a pesquisa de drogas na urina e no sangue acabou por vir toda negativa.

Depois de o estabilizar, já nos preparávamos para avançar nos exames dirigidos para doenças muito mais improváveis, quando a mãe nos veio dizer que os amigos, aflitos com o que se passava, lhe tinham confessado que haviam experimentado "miau-miau". Mas que apenas o Igor Joaquim tinha ficado assim "mais estranho"... [Mas, claro, o que é que esperavam de um Igor Joaquim? E mais uma vez se confirma a minha teoria sobre os nomes de mau prognóstico.]

Senti-me uma velha desdentada numa casa bafienta a cheirar a urina de gato. "Miau-miau"? Mas que raio seria o "miau-miau", valesse-me Nossa Senhora do Google? Ou S. Vito das Noites Brancas. O que tivesse mais força. Ou pelo menos o que me pudesse esclarecer minimamente...

Valeu-me a (inegavelmente virgem!) Nossa Senhora do Google, que me explicou que "miau-miau" era o nome dado popularmente a mefedrona, um fertilizante vendido legalmente em muitas lojas de plantas e que era consumido em larga escala por jovens como droga recreativa até ter sido recentemente tornada ilegal. Claro que não acusa em teste nenhum de pesquisa de tóxicos.

Rapidamente encontrei um site sobre os "cuidados a ter para tomar drogas legais de forma segura"! Isto é absolutamente inacreditável! Um site que dá dicas aos jovens, fazendo crer que é segura a toma de algo que lhes pode deixar sequelas para o resto da vida...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

[as melhores do serviço de urgência] reanimação!

Há alguns meses, no final de uma manhã de trabalho na urgência de pediatria, ouvimos o telemóvel da reanimação tocar, com o seu toque estridente e propositadamente irritante para que ninguém o confunda com o seu próprio toque e inadvertidamente o desligue. Desligar o telefone da reanimação é, diga-se de passagem, um acontecimento altamente improvável para quem for minimamente atento, mas lá pelas quatro da madrugada, antes do pico do cortisol, nunca se sabe, há gente que pode não responder por si... Mas como eu ia dizendo, era o fim da manhã, quase hora da passagem de turno, e o som do telefone ecoou pelo corredor. O semblante de todos carregou-se de repente, atitude em sentido, ritmos cardíacos a galope... Quem seria desta vez? O chefe de equipa tirou o telefone do bolso da bata e atendeu:

- Estou! - E escutava em silêncio. Do outro lado ouvia-se alguém a falar muito exaltado e o meu chefe ouvia, de sobrolho cada vez mais carregado.

A seu lado, nós já estávamos organizados: quem vai ajudar na reanimação, quem fica a assegurar a urgência, quem vai já abrir a porta com código e desimpedir o caminho. Esperávamos apenas que nos dissesse para onde era suposto corrermos. Mas o telefonema demorava e durava. Do outro lado, a pessoa que falava não se calava. O que se passaria? O telefone da reanimação é sagrado, nunca se usa para conversas casuais ou informais. Algo de grave se passava, pela cara do meu chefe... Até que...

- Ah, és tu, Igor? Tem calma que ninguém te faz mal. Onde estás é tudo boa gente, acredita, mas se for preciso vamos lá, claro. - E desligou.
- Então, chefe?
- Era o Igor, o adolescente que tivemos aqui ontem internado com uma crise psicótica. Diz que o prenderam na enfermaria e que o querem envenenar. Por isso ligou para a reanimação para estarmos preparados. Quando ele for envenenados já sabemos do que se trata e vamos logo lá!
- Pronto, pelo menos confia em nós, chefe!
- Pois, nada mau, já deve estar melhor, que ontem não confiava em ninguém e os amigos dele vinham cá buscá-lo de helicóptero.
- Ah, sim, pois foi - respondeu o chefe -, ele também disse para ligarmos para os amigos dele. Começou por dizer que só ligou para nós porque é o único número desbloqueado da enfermaria!

Pronto. Mais uma dica para o meu "Manual Prático para Dar com uma Equipa Médica em Doida no Internamento". Para dar com uma equipa de enfermagem em doida ver aqui.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

[eu vou!] há festa no palácio




A minha editora (Verso da Kapa) convidou-me para estar presente no evento "Há Festa no Palácio", no Palácio Foz, neste sábado pelas 16:00 para autografar o meu livro e eu aceitei de imediato (como não?).

Livros, peças de joalharia, decoração, fotografia, pintura, artesanato, roupa e outros artigos a preço de saldo. Todas as receitas revertem a favor de várias instituições, como a Ajuda de Mãe e a Fundação LVida, que apadrinha crianças em Moçambique. Fica a sugestão para este fim de semana.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

[a riqueza] feliz dia mundial da criança!



 
 
As crianças são, no dizer do povo, a riqueza mais preciosa de Moçambique...
(Murrupula e Gilé, Zambézia)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

[post atrasado] serviço público

Há algum tempo que ando para dizer isto... Agora já passou o timing, mas mais vale tarde que nunca.

Então mas aquela senhora cujos filhos usam um copo de água para lavar os dentes, em vez de água corrente, nunca ouviu falar da campanha "spit don't rinse", ainda mais amiga do ambiente e dos dentes saudáveis?

Pronto, era só isto. De nada. Um prazer fazer serviço público!

[moçambique no seu melhor] um curandeiro tentacular...

 
Um post novamente dedicado ao meu amigo com nome de filósofo (não, meus amigos, todos sabemos que não é o Sócrates!): já temos uso para dar ao polvo quando terminarmos os nossos dias, desiludidos com a vida e com o mundo, numa praia a fazer pesca submarina... Obrigada, Dr. Mwanachiipeta, pela inspiração* Seremos pescadores na maré alta e curandeiros na maré vaza!
Para variar não me recordo onde encontrei esta pérola. Se alguém souber que mande o link. Gracias.
 
* Ver penúltimo parágrafo do anúncio.

domingo, 18 de novembro de 2012

[angola no seu melhor] manter a compostura...

 
Um aviso emitido pelo Corpo de Segurança e Auto-Protecção do Ministério da Saúde no sentido de manter a moral, os bons costumes, o decoro e os ombros cobertos. Mas... alguém me explica o que são camisolas parte-escorno? Como é que uma pessoa sabe que está decente se nem sequer sabe o que não pode vestir?
Foto descaradamente reproduzida daqui...

sábado, 17 de novembro de 2012

[pode-se desidratar de tanta baba?] isto anda mesmo do piorio...

Então não é que ontem me mandaram o link de um artigo no Capeia Arraiana sobre o meu livro "A Missão"? Ainda para mais o Capeia Arraiana é um blogue que me toca profundamente porque versa sobre a terra da bisavó do meu baby-de-mulata, a mulher maravilhosa de que vos falei anteontem. O Sabugal é ainda sede da confraria mais improvável do país, a Confraria do Bucho Raiano, de que planeio fazer parte nos próximos meses!

E depois querem que me mantenha limpinha e hidratada... Entre baby, livro, entrevistas e tudo e tudo, vou perdendo litros de baba a torto e a direito...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

[instantes] e, de repente... olha!



 
A Missão está ali, na mão direita de Jesus Cristo... Sou o bom ladrão, portanto. E, sim, confirma-se: ainda hoje tenho o paraíso. Está aqui a dormir ao meu lado. [No quarto ao lado, leia-se, exmos. colegas pediatras, que eu nem sou muito contra o co-sleeping, mas o baby gosta de dormir sozinho, graças a Deus! ]
(FNAC, Chiado)
Foto da minha amiga M.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

[exercícios africanos] terceira lição

 
Exercícios africanos. Terceira lição: Na vida, o que importa não é para onde vamos, mas com quem viajamos! E está tudo dito...

[histórias de dentro de casa] a bisavó

Por estes dias fomos visitar a minha avó, uma senhora maravilhosa, com 99 anos e meio, lúcida como sempre esteve, quase independente... O pilar da família é uma mulher doce, a quem a viuvez e a morte recente de dois dos seis filhos ainda não conseguiu tirar o sorriso dos lábios e a esperança do olhar... Já vos falei dela quando vos revelei um segredo quase infalível contra a infertilidade (ou, pelo menos, é aquela história de sempre: com ela resultou!).

Eu queria muito contar-lhe do baby-de-mulata pessoalmente. Não queria que soubesse por outras pessoas nem por telefone. Toda a família me fez a vontade. Penso que desejava muito a aprovação dela... E surpreendeu-me! Como sempre... Quando lhe expliquei que o baby não era da minha barriga, mas que tinha sido adotado, a bisavó do meu menino respondeu, sem pestanejar:

- Filha, e isso que mais dá? Olha, não te preocupes, porque o que os filhos sentem é o amor que temos por eles. Isso é que é o mais importante...

Fiquei mesmo comovida... E tenho muita esperaça de que a vida para ele também seja simples e desta clareza.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

[exercícios africanos] pronto, rendi-me...

Depois de ver o último post dos "exercícios africanos" que faço com o baby-de-mulata para ele se habituar a uma hipotética babá por terras de áfrica (e também para me poupar as costas e ele sentir o contacto quase pele com pele, mas isso é tão óbvio que escusava de o dizer), houve uma amiga que se compadeceu de mim e me levou a casa um presente maravilhoso! Eu não tenho um marsúpio porque não os acho muito giros (sim, eu sei, sou loira, pronto) e também porque não encontrei nenhum que desse para mais de 12 quilos, que é o que aqui o bacorinho pesa... E acho muito mais engraçada a capulana.

Mas ontem fui iniciada nas maravilhas do K'tan! (Eu nem acredito que me rendi em dois minutos! Quase me sinto uma traidora...)

O K'tan - neste caso não era bem um K'tan mas uma traquitana daqui - é realmente muito mais seguro, mais fácil, mais rápido, o bebé vem diretamente para a frente, não é necessário deixá-lo sozinho nas nossas costas, em perigo de cair (sim, que para além de loira sou um pouco accident-prone, não é segredo para ninguém), e faz as mesmas vezes, pronto... [Sniff, sniff...De qualquer forma, a prática da capulana já ninguém nos tira!]

Hoje ninguém olhou para mim como se eu fosse bicho curioso quando fui ao jardim com o baby... Enfim, rendi-me. Em Roma não sejas Moçambicano!



terça-feira, 13 de novembro de 2012

[exercícios africanos] how do i do it

 
video
 
A pedido de várias famílias, algumas já constituídas, outras em projeto, partilho convosco como é que eu faço os exercícios africanos com o baby-de-mulata para o preparar para uma ida a Moçambique. No vídeo podemos apreciar a D. Catarina, a parteira de Iapala, a colocar a neta na capulana.
(Iapala, Nampula)
Em voz-off, os comentários da minha amiga F.
 
Eu sei que faz impressão aquele momento em que a criança fica sem qualquer apoio nas costas dela mas, nesta técnica, não há mesmo outra maneira: as crianças têm de ficar muito quietinhas e a mãe não se pode mover para os lados, sob pena de a criança cair. Elas aprendem facilmente que não se podem mover. E também sentimos se a criança começar a resvalar, portanto conseguimos ampara-la. Mas enfim, eu, pessoalmente, como sou um pouco azelha e o baby não tinha prática destes assados, começámos por praticar em cima da cama e com alguém ao lado para amparar. A pouco e pouco fomos ganhando prática e agora já conseguimos levar a cabo todo o processo sem ajuda de mais ninguém (embora com alguém por ali para dar uma mãozinha se for preciso) e sem cama ou tapete por baixo!
 
E pronto, é isto. Não precisam de agradecer! Sabem que gostamos de fazer serviço público. E de ter as mãos livres...
 
Adenda: Esqueci-me de referir que o baby-de-mulata não gosta de ver o mundo a partir das minhas costas, portanto tenho de passar rapidamente por baixo do braço para que ele venha para a frente... E eu também gosto mais de o ter nessa posição de canguru.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

[vozes brancas* #83] quando for grande quero ser pediatra!

Há já quase dois anos, na consulta de um menino de oito anos, perguntei-lhe que atividades extracurriculares fazia, ao que, muito prolixamente, me respondeu que tocava piano, andava no Inglês e nos Escuteiros, mas que estava a pensar desistir dos Escuteiros porque era tudo muito giro e rebeu-beu-beu-pardais-ao-ninho-que-de-lá-não-caem-sem-fazer-barulho-e-eu-estou-aqui-concentradíssimo-sócio mas que a catequese e a missa eram uma seca e ele não estava para aturar secas, que ouvir pessoas a falar de coisas que não interessavam ao menino Jesus era uma coisa que ele não estava disposto a fazer... O miúdo era giro, mas havia mais coisas para conversar. Interrompi, muito a custo, aquela verborreia para lhe perguntar (já a medo) o que gostaria de fazer quando crescesse...

- Quando for grande quero ser veterinário... Ou então pediatra, ainda não sei bem.
- Ah, que giro! São atividades com algumas semelhanças, sabes?
- Porquê?
- Porque nem os animais nem as crianças muito pequenas falam e temos de descobrir, por pequenos sinais, aquilo que eles têm.
- Ah, isso deve ser muito giro, deve ser como o trabalho de um detetive! Mas com as crianças deve ser mais giro...
- Isso mesmo, com as crianças muitas vezes temos grandes desafios - respondi, completamente derretida. - Mas vamos observar-te.

Enquanto o auscultava, via a garganta e os ouvidos, ele ia sempre perguntando, com imensa curiosidade e bastantes conhecimentos, para que servia cada coisa. Entretanto pediu-me para experimentar o esteto e claro que o deixei (eu sou uma fácil, já se sabe...). No fim, quando estava a ver-lhe os ouvidos tentou convencer-me a que o deixasse também experimentar aquele aparelho fascinante. Hesitei, mas perante aquele "futuro colega" brilhante, respirei fundo (detesto que me vejam os ouvidos!) e pus-me a jeito. Ele espreitou e declarou, solenemente:

- Ai, que nojo!

Ups... Tempos depois voltei a consultar o menino. Queria ser futebolista...

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

[sentido de oportunidade] obama em angola!

 
Em tempos tivemos um post com uma imagem de um salão de cabeleireiro em Moçambique que anunciava, precisamente, que a cliente entrava feia (pronto, isso era ponto assente, a realidade não deve ofender ninguém), mas sairia garantidamente bonita! Mas esta barbearia em Luanda supera absolutamente tudo! No sentido de oportunidade, no marketing, na variedade de oferta (quem, no seu perfeito juízo, perderia uma oportunidade para carregar um telemóvel enquanto faz "barba e cabelo"?), na ortografia, na caligrafia e no sentido estético.
(G'amei do facebook, Luanda)

[vozes brancas* #82] a roda dos alimentos

Há tempos, voltei a ver em consulta de rotina uma menina, agora já com quatro anos, com uma história pesadíssima de doença cardíaca congénita, operada múltiplas vezes nos primeiros meses de vida. Neste momento é uma princesa bem disposta, cheia de energia e graça, uma menina que dá mesmo gosto rever! Nesta consulta, para além de ter tratado dos problemas de saúde que continua a ter, falei com ela sobre estilos de vida saudável, a roda dos alimentos, higiene, o comportamento na escola, que não anda a ser dos melhores... Disse-me que adorava o ballet e a ginástica e que gostava muito de andar de bicicleta.

- Ai, que linda! Muito bem, esse exercício todo faz-te muito bem ao coração e ficas ainda mais bonita!
- Tia, P…
- Sim, princesa?
- Os chocolates e as batatas f'itas fazem mal ao co'ação?
- Sim, linda, fazem muito mal. E é por isso que nem sequer fazem parte da roda dos alimentos. Vê lá se encontras chocolate e batatas fritas aqui na roda dos alimentos.
- Ah… Não, não estão aqui. Mas estão aqui batatas…
- Sim, mas cozidas. As coisas fritas não fazem parte da roda dos alimentos.
- E as gomas?
- Gomas também não estão aqui, fazem mal ao coração e muito mal aos dentes!
- Ah, e roer as unhas também faz mal aos dentes?
- Sim, querida, e pior, as unhas são a parte mais suja do nosso corpo. Têm muitos, muitos micróbios que fazem mal à barriga.
- Mas depois vêm os “blogues” brancos e matam os mic’óbios todos!
- Sim, mas a barriga ainda dói durante muito tempo até os glóbulos brancos os matarem todos. Às vezes não te dói a barriga? [A quem não dói a barriga de vez em quando?]
- Sim, dói muitas vezes… Os “blogues” são lentos?
- Sim, demoram muitos dias, às vezes, até conseguirem comer os micróbios todos.

Continuei a falar com a mãe enquanto a menina, aparentemente alheada da conversa, fazia um desenho na mesa de atividades. De repente:

- Mãe, olha!
- Sim, linda?
- Hoje à noite vou fazer uma sobremesa muito especial!
- Então? O que vai ser?
- Batatas f'itas COZIDAAAS!

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

[gémeos] um só par é para meninos!

De vez em quando não resisto a voltar a este assunto... Tenho uma amiga que foi enfermeira durante a vida toda no Hospital Pediátrico de Coimbra. A Eugénia é uma mulher de armas que parece pelo menos 20 ou 30 anos mais nova do que a idade que tem! Competente, bem-humorada, cheia de energia. (Ela não lê este blogue, não lhe estou a fazer nenhum elogio gratuito!) Há alguns anos, depois de reformada, resolveu partir para Moçambique para ajudar na missão do Marrere, uma localidade próxima de Nampula, a capital do Norte.

O Marrere tem um dos melhores hospitais da região (em termos humanos e organizacionais) e é lá que passa os dias, apoiando os mais doentes de todos: as crianças desnutridas e os doentes com VIH, sobretudo as grávidas e as crianças suas filhas. Há tempos enviou-nos esta foto e a seguinte explicação:


 
O senhor Lino Mesa e a Dona Arlinda Botão foram pais pela décima nona vez, dando deste modo um enorme contributo para a taxa de natalidade da província, para além de serem um caso raro de extrema fertilidade! Das doze gestações nasceram dezanove filhos – cinco gravidezes gemelares, uma gravidez de trigémeos e as restantes de apenas um filho ou seja metade das gravidezes foram gemelares*. É obra! Esta última gravidez gemelar foi seguida aqui na consulta de grávidas.

 Apenas catorze dos filhos estão vivos... Os bebés João e Joana frequentam o centro de nutrição e são apoiados com leite adaptado, roupa, biberões e fraldas. Os irmãos Orlando e Orlanda**, que frequentaram no ano de 2009 a nossa consulta, estão de boa saúde. São um casal muito unido e bem-disposto e o papá Lino acompanha sempre a esposa à consulta dos seus filhos. 

* Este post é dedicado à Ana F. e à Sílvia, as minhas amigas que atualmente estão à espera de gémeos, e também à Ana D., cujos filhos fazem cinco anos!
**Já vos falei das peculiaridades dos nomes dos gémeos em Moçambique, se não se lembram podem ir rever...

domingo, 4 de novembro de 2012

[socorro! tenho uma mãe beata!] histórias do baby-de-mulata

O baby-de-mulata e baby M., seu primo pseudo-gémeo, andam nas aulas de música para bebés desde que a escola de música abriu em Setembro. As aulas são muito dinâmicas e divertidas e assim sempre se apazigua o trauma da sua mãezinha, que já contava 17 primaveras bem passadas no dia em que, por milagre, um professor de canto que não a conhecia de lado nenhum, na primeira aula lhe colocou a voz em 5 minutos! (Rezei por ele durante anos, que o que aquele homem fez pela minha autoestima, nem uma estátua com o meu busto no Marquês de Pombal! E, portanto, ó gentes vos juro, no meu saber de experiência feito: "no peito dos desafinados também bate um coração", é certo, mas estamos sempre a tempo de afinar!)

Nas aulas de música para bebés, depois de um acolhimento e do "Bom Dia", descalçam-se os meninos, e a aula inicia-se com pais e filhos de joelhos, mãos para cima e um "pá-pá-rá-rá-pááááá... pum!", num exercício de tónicas e dominantes algo espalhafatoso para lhes captar a atenção e fazê-los rir!

Ora, no outro dia, na missa, o baby brincava no chão enquanto sua mamãe cantava no coro, quando ele se deu conta de que se tinha feito silêncio e as pessoas estavam ajoelhadas. Largou os carrinhos, ajoelhou-se também e, em posição, vá de "pá-pá-rá-rá-pááááá... pum!"

E enquanto os meus amigos sorriam e desviavam o olhar para não se rirem, eu mandava-o calar, babando discretamente. Sim, que o menino podia ainda não ter captado a mística da religião, mas tinha apanhado a tónica e a dominante da música que tínhamos acabado de cantar! Cada um é para o que nasce, já sabemos...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

[zambézia versus paris versus new york] criaturas lendárias...

 
Nova Iorque tem o King Kong, Paris o Quasimodo, mas...
a Zambézia é exótica!
 
Este é um repost sobre o mito de origem dos macuas, o povo que habita algumas províncias do norte de Moçambique... Sobre o guardião do monte Namúli, vale a pena ler a explicação do Vítor, correspondente honoris causa deste mato, atualmente residente na Dinamarca, mas que viveu na Alta Zambézia durante anos...

Perto de Guruè, na Zambézia, fica o Monte Namúli, que é a segunda montanha mais alta de Moçambique e é, para as pessoas da região, os macuas-lómuès, o berço da Humanidade. Dizem que lá se podem ver as pegadas do primeiro homem. Mas não se devia poder. Quer dizer, ninguém devia poder vê-las. Parece que as coisas mudaram um bocado desde que eu vivi naquela província, e vi guias de viagens recentes que aconselham caminhadas no Monte Namúli. Antigamente só se podia escalar a montanha até um determinado sítio. A partir daí, era proibido, porque era terra sagrada. O castigo de quem se aventurasse até à parte de cima do monte era (como é muitas vezes, nesta parte do mundo, o castigo de quem viola alguma regra costumária) a pessoa perder-se e nunca mais encontrar o caminho para casa. 
O que é original – e delicioso, na minha opinião – na lenda macua é a maneira como a pessoa se perde: se o guardião eterno da montanha lá apanhar alguém, começa a falar com essa pessoa tanto e tão depressa que a confunde completamente; e ela, de tão baralhada que fica, nunca mais encontra o caminho de volta.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[the silver lining] a (des)humanidade da crise

 
Imagem também daqui.

Com os sucessivos pacotes de austeridade, o governo grego determinou que os cidadãos que não possuíssem seguro de saúde tinham de pagar do próprio bolso os tratamentos hospitalares... Eu e os meus colegas temos falado muito nisto. Ainda estamos longe, esperamos, de uma situação semelhante... Mas eu sei que tentaria desobedecer até que me ameaçassem de despedimento. Depois provavelmente não conseguiria continuar a trabalhar. Não foi para isto que fiz um juramento de Hipócrates! Mas houve um grupo de médicos gregos que fez muito mais do que recusar-se a trabalhar... A notícia completa está aqui, mas não aconselho a pessoas sensíveis...
Elena conta que ficou chocada por, como parte do resgate, o Estado grego ter recuado em relação a um pilar de proteção da sociedade. Mas o facto de os médicos e os cidadãos comuns se organizarem para ajudar naquilo em que o Estado falhava deu-lhe esperança nos momentos mais sombrios. "Aqui, há pessoas que se preocupam", disse.
Para o Dr. Vichas, a terapia mais poderosa podem não ser os tratamentos mas a confiança que o grupo de médicos dá àqueles que quase tinham desistido. "O que ganhámos com a crise foi termo-nos aproximado", observa.
"Isto é resistência", acrescenta, olhando para os voluntários e doentes, que se movimentam pela clínica. "É uma nação, um povo que consegue voltar a pôr-se de pé, com a ajuda que as pessoas dão umas às outras."

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

[zambézia revisitada] histórias para o baby-de-mulata




 Houve tempos em que a viagem dos meus sonhos era ir até às plantações de chá do Gurué, perto das margens do rio Zambeze... Um dia hei-de voltar... com o baby-de-mulata!
(Gurué, Zambézia)

Como pano de fundo, o verde arrebatador e o mito da origem do primeiro homem mesmo ali ao lado, nas nascentes do Monte Namuli. Segundo a lenda macua, foi precisamente aqui que tudo começou, e o primeiro homem terá surgido na bruma de uma madrugada glaucomatosa, coberto de capim e de folhas, germinado a partir das raízes de um embondeiro e, depois de um urro original que tenho para mim que só não faz parte do mito porque ainda não estava lá mais ninguém para ouvir (porque homem que é homem grita quando nasce, e o primeiro homem só pode ter gritado de prazer olhando aquele céu de paraíso), depois de agradecer a Muluku, o Deus dos antepassados e beber das águas perfumadas das montanhas*, desceu calmamente em direcção à planície e começou a espalhar a sua semente pelo mundo.

(Adenda, por respeito à Prof. Doutora Ruiva, amiga deste mato: gostava que existisse um mito de origem da primeira mulher, mas suspeito que o primeiro homem macua se teve de desenrascar sozinho...)

*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflaccionista de águas gourmet.

domingo, 28 de outubro de 2012

[vozes brancas* #81] o tapete do rato...

A filha de uma amiga, depois de horas a brincar ao pé da mãe, enquanto esta terminava um artigo de Medicina...

- Mãe, o que é isto?
- Bem... é um tapete para o rato.
- Ah... Mas tu queres mesmo que o rato venha? E se o rato vier ele precisa mesmo disto? O que é que ele faz com um tapete? Um tapete de actividades como o do mano?

sábado, 27 de outubro de 2012

[sem palavras] embora venham por aí certamente umas quantas!

Ontem foi um dia tão rápido. Talvez rápido demais para o ter sentido passar por mim! Um dia cheio de milagres.

De manhã adoro ouvir o baby no quarto ao lado acordar, senti-lo dar-se conta uma vez mais de que tem um cãozinho na cabeceira e começar a palrar com ele, num discurso com muitos ão-ão-ãos e muitos pa-pa-pas, que só ele sabe o que quererão dizer... Depois conversa mais um pouco com o urso e só depois, para aí meia hora depois, é que me chama... (Sim, eu sei que isto é um discurso um bocado mete-nojo, mas ando mesmo babada e a achar que o baby é perfeito, pelo que peço desculpa aos pais cujos filhos acordam antes das seis da matina, retemperados por cinco horas de sono e fazem soar a sirene para que todos se apercebam do facto...)

Mas ontem quase nem tive tempo de o ficar a ouvir. Levantei-o assim que acordou porque havia que estar pronto a tempo. Era o dia em que íamos conhecer a Sónia Morais Santos, a blogger mais querida da blogosfera nacional, que me deixou boquiaberta há uns dias, ao me convidar para uma entrevista! E sim, é tão simpática ao vivo como parece no blogue! O baby colaborou e dormiu o tempo todo que durou a entrevista. Mesmo quando me tive de "disfarçar" de africana (num estilo afro-chic, que se não existia acabou de ser inventado) e sair para tirar fotos, ele continuou a dormir placidamente.

Eu não gosto de tirar fotos, não gosto de me expor, nunca gosto de me ver depois, e fico desconfortável, sobretudo ao pé de profissionais, mas já que tinha de ser, que agarrasse o toiro pelos cornos... E lá tentei fazer o meu melhor.

Mas o melhor ainda estava para vir... A sala do Colombo estava cheia de pessoas maravilhosas que me encheram o coração! Alguns amigos de sempre, muitos colegas e amigos que sempre admirei mas que, no caso de alguns, não via há séculos, outras pessoas que quase não tinha esperança que viessem... Estava o missionário a quem devo a minha primeira ida e o inicio da minha paixão por Moçambique, as amigas R. e F., que embarcaram comigo para Moçambique, nesta aventura que é viver com quase nada, os digníssimos representantes da APARF, sem os quais talvez não tivesse tido a coragem de ir tantas vezes... As pessoas da clínica fantástica onde trabalho, desde o segurança até aos recepcionistas, passando pela directora, os colegas da Estefânia... E, calculem, estavam também a Ursa Maior, o que me deixou incrédula (e, confirma-se, pode carregar as culpas de toda a humanidade no peito!), a São João, a Cocó na Fralda, a Zu e alguns leitores anónimos deste mato!

E a minha querida Helena Marujo, ja anteriormente linkada, teceu-me um elogio tão rasgado que provavelmente só vou receber um elogio maior no meu funeral... Milagres que eu um dia gostava de fazer por merecer...

Obrigada a todos!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

[welcome to mozambique] ou bem... em lisboa...

 
 E pronto, meus amigos, foi de vez: habemus librum! Já temos título (a editora recusou Beijo de Mulata como título, não se compreende... lol), temos capa, temos prefácio (dois prefácios, aliás, que não há fome que não resulte em fartura, lá diz o povo!), temos resumo, dedicatória, agradecimentos e tudo o mais que era preciso para sair um livro como deve ser. E temos também apresentadora, a minha querida Helena Marujo, a mulher mais optimista e encantadora que conheço! Parece-me que podemos avançar que, na sexta-feira, a FNAC vai ser mato!

sábado, 20 de outubro de 2012

[vozes brancas* #80] poesia em estado puro

Há crianças em cujas vozes conseguimos ouvir e rever a poesia e sensibilidade das mães...

Ontem o filho de uma amiga, agora com sete anos, dizia que acharia lindo que nós pudéssemos nascer de dentro da terra e não da barriga das mães. Ao que ela retorquiu que os bebés estão certamente mais confortáveis dentro do útero materno. "Mas nós somos pessoas do mundo e filhos da terra!", foi a resposta dele...

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

[ihali sahu] notícias nossas

Interrompemos este silêncio para explicar que andamos muito ocupados porque o baby-de-mulata está a aprender a andar! Eu, que não sabia o que era uma dor de costas até baby M. (o meu sobrinho mais novo) ter nascido, estou agora a começar a perceber nos costados o sentido da palavra "cruzes"... Eu achava-me imune a esse tipo de achaques, calculem! Mas tem valido a pena.

Quando chegou cá a casa, há um mês, o baby não se conseguia sequer pôr de pé! Na primeira noite, de tal forma estava excitado e com vontade de sair da cama de grades que se pôs de pé uma vez e eu fiquei louca. Mas depois, durante duas semanas não repetiu a façanha... Andava apenas com o apoio dos dois braços e mesmo assim conseguia cair de joelhos várias vezes por dia. 

Entretanto encontrámos várias soluções, desde empurrar o carrinho de passeio na rua até empurrar uma cadeira, comigo, as usual, a "cantar" o som que ele produzia, e com ele a rir que nem um perdido pela casa fora...  Andámos literalmente quilómetros. Aqui no bairro já se metiam com ele, chamavam-lhe "o menino da cadeirinha" e achavam a nossa técnica genial. Agora, de tanto praticar, ontem ganhou confiança, largou-me a mão na sala e correu para o sofá! Deixou-me em pânico um segundo, mas controlei-me e consegui não gritar. E depois ficámos os dois em êxtase! Hoje está farto de andar pela casa toda! Graças a Deus, a bem das minhas costas e da autoestima dele!

sábado, 13 de outubro de 2012

[vozes maduras] poupar a todo o custo!


O meu melhor amigo tinha um tio, entretanto já falecido, que era sovina in stadius ultimus. Nunca tomava café fora de casa, andava sempre de transportes públicos ou a pé, exceto quando a relação custo-benefício justificava o gasóleo que tinha de colocar no carro, havia anos que não comia num restaurante. Mesmo para comprar uma máquina de café lá para casa fora o cabo dos trabalhos para a mulher o convencer. Paradoxalmente, era uma das pessoas mais ricas da família, com negócios milionários do ramo imobiliário em Portugal e além-fronteiras.

Ora então, há vários anos, quis o destino, que essa personagem tivesse de ir fazer o exame médico para renovação da carta de condução ao centro de saúde onde eu estava a estagiar. A mulher dele veio então ter comigo, desesperada, pedindo por tudo que não deixasse a médica de saúde pública renovar-lhe a carta.

- Doutora, é que, sabe, eu já não aguento andar de carro ao lado dele. Ele não vê a cinco metros de distância, mas recusa-se a comprar uns óculos! Eu nem consigo desviar os olhos um milímetro da estrada e se não fosse eu a gritar-lhe já tínhamos morrido os dois há anos. Não faz nem cinco mil quilómetros e já tem os pneus completamente carecas de tantas travagens bruscas!
- Mas porque é que ele não usa óculos, nem que seja só para conduzir?
- Ele diz que não é preciso! “Óculos?”, diz ele, “Isso é um luxo! Eu não preciso de ver ao longe. Eu vejo quando chegar lá!”

A minha tutora conseguiu, felizmente, convencer este senhor da Troika avant la lettre a “investir” nuns óculos! Viveu e conduziu até aos 86 anos!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

[vozes brancas* #79] contra o consumismo!

Há tempos, na consulta, estava a avaliar um menino de três anos com uma perturbação grave da linguagem. Escuso de dizer que era um menino maravilhoso, amoroso e lindo porque, como certamente sabem, eu não tenho crítica para esse tipo de julgamentos, portanto nem vale a pena debruçarmo-nos sobre o assunto porque para mim, aos três anos, eles são todos encantadores e fim de conversa que isto hoje tem de ser rápido e todos temos de ir trabalhar. Eu não tenho, que estou de licença de maternidade, mas também vou ali lamber a cria que dorme...

Num esforço para perceber o leque de vocabulário que ele possuía, perguntei-lhe, a certa altura:

- Com que é que tu mais gostas de brincar, Rafael?
[Nada. Sem resposta. Apenas sorrisos...]
- Quais são os teus brinquedos favoritos? Tu tens tantos... - perguntou-lhe a mãe.
- O pai e a mãe - articulou com dificuldade, muito baixinho mas com um sorriso rasgado...
- Não, filho, a doutora está a perguntar com que brinquedos é que tu gostas de brincar.
- Deixe estar - respondi - ele deu a resposta certa. Os "brinquedos" favoritos das crianças são, felizmente, o pai e a mãe!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

[vozes brancas* #78] a palavra a mr. b

Foi há vários meses que a minha irmã, futura madrinha do baby-de-mulata, começou a preparar Mr. B, o meu sobrinho de quatro anos, para a vinda do primo. E pergunta Mr. B, a minha primeira paixão pequenina e também a principal voz branca deste blogue:

- Mãe, o que é um primo?
- Um primo é um bebé em casa da titi.
- Ah, é um mano?
- Não, querido, um mano é um bebé cá em casa. Um primo é um bebé em casa da titi.
- Ah... Mas não é da barriga, pois não?
- Não, querido, o bebé da titi não está na barriga dela, está no hospital.
- Está doente?
- Sim.
- Tem o quê?
- Tem um dói-dói na barriga.
- Ah... o nome do menino?
[São sempre estas as perguntas que ele me faz quando sabe que venho do hospital: o nome dos meninos que vi e as doenças que eles tinham. Já não pergunta o que foi que eu lhes fiz porque a resposta é, invariavelmente: "Depois a titi deu xarope e os meninos ficaram bons." Ficou radiante quando soube o nome do baby porque é precisamente o nome do pai dele!]
- E ele não pode ir para casa da titi, mãe? A titi cuida dele em casa. Ela também cuida de mim quando estou doente.
- Sim, foi isso que a titi disse aos senhores do hospital.
- E eles deixaram?
- Sim. Qualquer dia já vem para casa dela!
- Boa, mãe! Vamos ter um primo!

Pronto, a vida é simples para as crianças, não é verdade?

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

[africanidades] a capulana

 
Tenho a comunicar-vos, meus queridos amigos, com os olhos marejados de orgulho, que o meu baby-de-mulata ontem começou a dizer "lana", expressão que, no seu linguarejar incipiente de menino, quer dizer: "Quero um colinho de capulana, se faz favor, minha querida mãe." Lentamente, o trabalho de inculturação começa a dar frutos! Quando chegar a hora, tenho a certeza de que ele vai querer ir comigo...
(Imagem: mamã com filho na capulana. Gilé, Zambézia)

sábado, 29 de setembro de 2012

[uma história de amor] e é quando o baby-de-mulata entra no blogue

Meus queridos amigos, tenho a dizer-vos que vamos ter de regressar do mato para Lisboa durante uns tempos. É que este blogue é capaz de se transformar num family blog dentro em breve...
Estive a pensar se haveria de vos falar do amor que me tem ocupado os dias e cheguei à conclusão que sim. Que tinha de ser. Porque neste momento não tenho outro assunto. Vocês sabem que eu sou aquela que fala, fala, fala, mas não fala sobre si própria. Conta muitas histórias, mas não conta história nenhuma de dentro de casa. Mas hoje, depois de ter conhecido tantas pessoas que gentilmente me vieram e continuam a vir visitar ao mato, depois de tantas pessoas me terem dito que sabem a razão pela qual não se deve passar por debaixo de um cajueiro se não se ouvirem passarinhos a cantar, acho que faz todo o sentido partilhar convosco a alegria que tive!
A história começa há quase dez anos. As pessoas que me conhecem bem sabem que em tempos tive um quase-filho. Um menino moçambicano que conheci na Casa do Gaiato e que veio para Portugal porque tinha um tumor no cérebro. Fui eu que tomei conta dele enquanto esteve em Portugal e foi até por causa dele que decidi ir para Pediatria, que antes nem sequer me tinha passado pela cabeça que pudesse ter algum jeito para crianças...

Depois de ele morrer, fiquei com uma tristeza enorme. Mas, durante todos estes anos, tive a convicção, um pouco nas traseiras da mente, de que me haveria de voltar a cair um filho nos braços... Acreditava que só tinha de olhar bem para todos os lados, para ver de onde é que ele podia vir, e agarrá-lo bem quando ele chegasse. Claro que tinha de ser um menino que mais ninguém quisesse. Há tanta gente a querer adotar, que não seria justo passar à frente de quem quer que fosse. Sempre imaginei que seria um menino africano... Mas, pronto, era um devaneio, não era nada em concreto, não era um plano estruturado.

Pois... E sabem aquela coisa do "amor à primeira vista", em que eu nunca acreditei? Aconteceu... Foi por alturas da Páscoa, no meu hospital, num banco trocado com outra colega, em que fui chamada a uma enfermaria onde quase nunca entro... O baby-de-mulata, na altura com 11 meses, estava na sala das enfermeiras, sentado numa cadeirinha a olhar para mim. Achei-o lindo! E era tão simpático, tão tranquilo ali sentado a olhar para quem passava, já na altura com um ar meio gozão...

Perguntei quem era e o que tinha, o que fazia ali. E disseram-me que era um menino que tinha sido abandonado pela mãe à nascença e que tinha tudo para ser adotado, mas que provavelmente nunca iria ter uma família que o quisesse porque tinha uma doença grave e já tinha tido mil complicações. Operado várias vezes, internado desde o dia em que nascera. Já tinha havido um casal, amigo dos pais de outra criança internada naquela enfermaria, que se mostrara interessado, mas ele entretanto tinha piorado novamente e o casal desistira. Que estava estável naquele momento e que estava para ir para uma instituição, mas não tinha vaga ainda...

Perguntei-lhe: "Queres ir lá para casa? Tens vaga lá em casa! E mais dois meninos para brincar." E foi então que me caiu o que tinha dito. O meu coração disparou... "Será que é este?" E o baby continuava a sorrir-me. [Ah, a força que um sorriso pode ter!]

Tentei afastar aquela ideia impossível da minha cabeça. Tentei não me lembrar daquele sorriso. Não era o timing certo. Ainda não tinha uma vida definida, o meu futuro profissional estava cada vez mais uma incógnita... solteira... Tudo contra, portanto...

Mas ele não me saía da cabeça. Como é que eu podia deixar assim um menino sozinho? Não era o meu menino africano, é certo, mas seria justo discriminar uma criança só porque era loira?, gracejava eu, de mim para comigo.

Perguntei à minha mãe o que ela achava e ela respondeu-me que eu é que sabia, que me apoiaria incondicionalmente na minha decisão. Que também achava que não era o timing, mas eu é que sabia... Perguntei à minha amiga de infância, mãe de dois filhos, sensata e meiga e que passou por um processo destes na primeira pessoa. E ela disse-me que ia ser uma experiência muito dura e demasiado exigente para uma pessoa só, que pensasse bem. E que amadurecesse a ideia. Disse-me ainda que isto não podia ser uma "ideia brilhante", tinha de ser um projeto de vida! E aquilo que se quer é que uma ideia brilhante para um projeto de vida continue a ser uma ideia brilhante para sempre.

Vacilei. Fiquei a mastigar a ideia. Demorei a decidir-me. Mas em Maio, na despedida de solteira de uma amiga minha, já não aguentava mais. No jantar, por coincidência, estava uma enfermeira que trabalhava na enfermaria onde ele estava internado e disse-lhe que andava a pensar em propor-me para adotar o baby-de-mulata.

Ela não me conhecia de lado nenhum, mas deu-me imensa força e foi ela que depois me deu os contactos do centro de acolhimento para onde ele foi e me disse o que fazer para ir até lá. Fui falar com a assistente social, que também me apoiou e explicou-me como é que podia dar início ao processo. Ainda demorei mais um bocado a decidir-me e fui várias vezes visitar o menino à instituição para onde acabou por ir. E então lá me decidi.

No final de Junho inscrevi-me na Santa Casa da Misericórdia para o adotar. Mil coisas para entregar, documentos, formações, entrevistas, questionários, um escrutínio da minha vida toda... Mas, felizmente (ou por milagre, já nem sei), elas perceberam rapidamente que o baby não ia mesmo ter mais ninguém e que era melhor apressarem o meu processo para ele não sofrer mais.

Meses depois recebi uma carta dizendo que tinha sido considerada apta como candidata à adoção do menino! Fiquei louca de alegria! O menino podia ter um atraso de desenvolvimento, um intestino que era um "molho de bróculos", outros problemas de várias ordens, mas era o meu menino! O meu baby-de-mulata entrava finalmente na minha história!