segunda-feira, 15 de agosto de 2016

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata

Nestes dias, talvez porque o baby tem estado em casa dos avós há um dia e meio e as saudades me apertam o peito, tenho-me lembrado dos dias em que o ia visitar, ainda antes de saber se o poderia levar para casa, ainda antes de me terem declarado apta para ser mãe dele, durante o processo de "escrutínio" que demora seis meses, em que somos entrevistados, submetidos a testes e provas e temos de provar quem somos e o que realmente queremos.

Tinha conhecido o baby no meu hospital um mês antes e, antes desse mesmo dia terminar, decidira que não o iria deixar ficar sem mãe. Se não aparecesse uma família para ele, eu própria iria lutar para que fosse meu filho para sempre. Nem quinze dias depois o baby teve alta do hospital e eu mal tinha tido tempo de o conhecer bem e de brincar com ele. Foi para um CAT (Centro de Acolhimento Temporário) a mais de uma centena de quilómetros de Lisboa, que se tornou o meu local de peregrinação nos meses seguintes. Não assisti à saída dele. As enfermeira depois relataram-me que tinham ficado inconsoláveis de o terem entregue depois de mais de um ano a cuidar dele, tão ligadas que estavam. Que só esperavam que fosse adotado depressa para ir finalmente para uma família...

No primeiro dia de visita o coração pulava-me, as borboletas na barriga saltavam: será que ele me vai reconhecer? Será que vai aceitar vir para os meus braços? Como será que as senhoras da instituição me vão tratar? Será que aceitam a visita de uma desconhecida que quer adotar o menino mas que ainda não tem autorização legal para tal? Será que me vão dar condições para vir visitar novamente amanhã? Ou vão impedir que crie laços com o menino se não têm a certeza de que vou ser mãe dele, já que depois vai ser ainda mais difícil para ele adaptar-se a outra família... E eu? Será que vou conseguir no meio disto tudo sobreviver se no fim não me entregarem o menino? E se não me declararem apta para adotar? Será boa ideia passar por isto sem ao menos me proteger um pouco?

Foi então que toquei à porta e a auxiliar da instituição me abriu a porta com o baby ao colo... O coração gelou-se-me... O baby não me sorriu, não deu qualquer sinal de me reconhecer, nem sequer olhou para mim. Antes da alta do hospital ele sorria para quem quer que fosse, como qualquer criança que não tem uma vinculação com ninguém em especial. Pensei que me estava a estranhar. Afinal de contas já não me via há um bom par de dias. Mas não, também não olhava para a auxiliar... Perguntei-lhe o que achava sobre isso. Respondeu-me que ele evitava o contacto ocular. Que no primeiro dia depois de ter chegado do hospital tinha dormido o dia todo, não lhe tinham conseguido quase dar de comer, tinha-se recusado a levantar-se da cama. Mas nos dias seguintes, com alguma insistência lá se tinha adaptado à rotina da casa. Já lhe conseguiam dar de comer. Desde há alguns dias também já lhe conseguiam pegar ao colo. Mas era um uma fita das antigas para mudar a fralda e dar banho... Estavam preocupadas e desconcertadas. Perplexas. Não sabiam o que se estava a passar. Ninguém lhes tinha dito que o menino tivesse assim tantos problemas de desenvolvimento... "Problemas de desenvolvimento" (!), foi o termo que a auxiliar usou, certamente já verbalizado pela psicóloga da instituição...

Uma fúria surda encheu-me o coração. Eu sabia que tinham ido buscar o meu menino ao hospital assim sem mais nem menos. Sem uma única hora de transição. "Viemos busca-lo, deem-no cá!" E foram-se embora com ele para o CAT. Eu sei que são instituições públicas, que não havia mães no processo, que as duas instituições distavam mais de cem quilómetros uma da outra. Que os recursos humanos são escassos e que um hospital e um centro de acolhimento têm dificuldade em dispensar dois elementos durante vários dias para fazer uma transição. Mas isto não se faz a um bebé! O meu menino, já de si tão frágil, abandonado à nascença, sem vínculo com ninguém em especial, que já tinha passado por oito cirurgias e mil tratamentos dolorosos, tinha perdido de um dia para o outro todas as referências e estava num sofrimento atroz!

Entregou-me o menino e fomos os dois para a sala de visitas. Era julho. Ou junho, aliás. Recordo-me do calor que se fazia sentir, que me sufocava, do olhar do baby que se me esquivava, dos seus movimento do tronco inclinando-se para a janela. Sem comunicar de forma nenhum. E, ao meu colo mas de costas para mim, abria e fechava a janela sem parar, alheado de tudo. Sem olhar para mim, sem olhar para o que se passava na rua. Apenas concentrado no movimento da janela a abrir e fechar. Eu tinha levado livros, brinquedos. Tentei diversas vezes chamar-lhe a atenção para o que trazia, mas em vão. De cada vez que lhe tentava captar a atenção, desencadeava uma birra descomunal. Se lhe mostrava um livro, levava com uma rosnadela. Uma hora e meia de visita passou-se deixando-me exausta, triste e frustrada. E ao baby também. Quando o entreguei, sem que lhe tivesse conseguido captar o olhar ou provocar um sorriso, estava destroçada e só pensava: "Será que vou aguentar voltar aqui? Será que aguento mais um dia disto? O que será que se está a passar?"

Fiquei arrasada. Não consegui contar a ninguém o que se tinha passado nem o que tinha sentido. Não consegui dizer o que se passava com o meu baby. Eu própria não compreendia muito bem. E tinha receio que alguém dissesse o que eu efetivamente vim a ouvir, ipsis verbis, semanas depois (que o menino tinha tido "uma regressão autística") e que me tentasse demover do meu projeto meio louco.

Agora sei, mas na altura não sabia: o meu menino tinha uma depressão da primeira infância! Uma depressão tão grave que se confundiu com autismo. Pela primeira vez vacilei. Mas não podia desistir. Com o diagnóstico de autismo então é que não apareceriam candidados a adoção e o menino ficaria sem família. E era este o menino que eu sempre imaginara que me cairia nos braços: um menino que mais ninguém quisesse. A única certeza que eu tinha é que era este o menino. Mas já não sabia se seria capaz de cuidar dele...

(talvez continue...)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

[vozes brancas*] voar mais alto do que a vista imagina...

Há poucos dias, antes da sesta, a minha mãe contava pela enésima vez ao baby-de-mulata a história do David e Golias (a quem o baby teima em chamar Gorilas), quando aquela alminha resolveu puxar mais um assunto difícil...

- Avó, o Rei David já morreu?
- Já, meu querido, o Rei David já morreu há muitos, muitos anos, que esta história aconteceu ainda antes de o Jesus ter nascido...
- Ah... pois, avó... Eu sabia, foi há mesmo muitos anos. [Ainda não era aqui que ele queria chegar, certamente.] Mas ele morreu porquê?
- Porque era muito velhinho, querido. [A resposta chapa-cinco lá de casa, não há cá mais explicação nenhuma antes dos sete ou oito anos, altura em que entrará a nuance chapa-sete à baila, das doenças e dos acidentes, muito mais ansiogénica e que por enquanto, felizmente, ainda não apareceu.]
- Ah. Pois, avó, era velhinho... E para onde é que ele foi?
- Foi para o céu.
- E quando eu morrer também vou para o céu? [Ah, era aqui que ele queria chegar!]
- Sim, querido, quando morrermos vamos todos para o céu.
- Tu também vais? [E aqui também...]
- Sim, filho, eu também.
- Ah, então já sei! Posso ir ao teu colo?
- Claro que sim, querido! [A minha mãe, já com a voz embargada... Como se explica o que nem nós próprios compreendemos? Como aplacar a angústia do desconhecido de uma criança?]
- Pronto, então está decidido, quando morrer vou para o céu ao colo da vovó! E depois, avó?... Voltamos cá para baixo?

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 26 de julho de 2016

[vozes brancas*] planos para o futuro

Na consulta de desenvolvimento, hoje, estava a ver um menino com uma perturbação de identidade de género, com um conflito latente enorme com o pai, que fica literalmente doente quando vê o menino a dançar ballet. Tem um ataque de nervos, sobe-lhe a tensão, sente-se desfalecer, fica com dores no peito, falta de ar, tem de ir para o hospital, que lhe dá um fanico, dois chiliques e três achaques. Haveria certamente quem dissesse que esta reação também é um pouco exagerada, mas enfim, cada um reage como pode (e aqui para nós, é assim que a gente percebe que o-menino-tem-a-quem-sair,-mas-enfim,-eu-não-disse-nada).

- O que é que queres ser quando fores crescido?
- Quero ser bailarino! - responde com um brilho nos olhos, de quem a mera palavra "bailarino" enche a alma.
- Que bonito, e o que gostarias de ser se não fosses bailarino?
- Acho que tinha também jeito para ser médico.
- Ah, acho que sim, que terias muito jeito! Sabes falar muito bem com as pessoas. E olha, aquele teu amigo, o David, aquele que gosta de dançar Hip-hop e pratica capoeira. O que é que ele quer ser quando for crescido?
- Ele quer ser Presidente da República... Ou então condutor do metro.

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

sábado, 16 de julho de 2016

[vozes brancas*] baby-de-mulata

Ouvido da cozinha:
- Filhote, anda aqui ajudar o pai - chamava Mr. Shaka da sala.
- Não posso, pai, estou aqui a treinar este gorila para o combate com o leão!

E tenho a dizer que assisti ao combate horas depois e quem ganhou foi o gorila! Temos Fernando Santos!

(Depois da vitória de Portugal parece que todos acreditamos mais um bocadinho...).


*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

[vozes brancas*] e vidas pequeninas...

Até há pouco mais de duas semanas eu tinha mais um menino do que tenho hoje na minha consulta. Desde há pouco mais de duas semanas que não o tenho... Mas é precisamente desde há duas semanas que tenho uma história aqui atravessada nos dedos para vos contar.

Eu sei que não é o timing, deixem-me flagelar-me... Nunca é, também... Portugal foi campeão do Europeu e, mal um gajo teve tempo de inchar de ser Português e já temos de ser franceses outra vez e vamos lá ver se não temos de ser turcos já amanha. Os acontecimentos sucedem-se a uma escala que não é a da minha consulta, porque lá as vidas são pequeninas. Pequenas demais para se verem do alto do facebook. Mas se só vivermos à escala mundial acontece-nos como a uma amiga minha, que há uns tempos se queixava de que a indecisão entre o aquecimento global e a vinda de uma nova era glacial estava a deixar o seu sistema imunitário louco. Confesso que admiro profundamente quem consegue perspetivar à escala planetária aquilo que acontece na sua mucosa nasal (e o que escorre dela). Mas eu continuo a ser loira. Loira com dois neurónios, um dos quais viúvo. Por isso só me ocorreria que a minha amiga teria uma rinite. Mas isso tem a modesta vantagem de, em vez de aconselhar o Protocolo de Quioto, quase impossível de cumprir e que, na melhor das hipóteses, só poderá reverter as alterações climáticas dentro de várias décadas, prescrever antes um anti-histamínico e, em calhando, no dia seguinte a minha amiga estaria boa! Ou pelo menos melhor. O que se perderia em superioridade moral ganhar-se-ia em simplicidade e qualidade de vida. Mas enfim, longe de mim ditar tendências.

Mas vá, tudo isto para dizer que tenho a história de uma vida pequenina para vos contar: encham-se lá de paciência, meus amigos... Ninguém vos obriga a vir aqui, que isto já não é o mato divertido de uma loira anónima mas, já que cá estão, não se vão embora sem tomar uma pinga de chá. O meu menino não era o Cristiano Ronaldo, mas era um bom menino. E tem uma história que merece ser contada. É rápida, de qualquer forma. E conta-se em três penadas:

Tenho um menino na minha consulta que viveu numa instituição praticamente desde o dia em que nasceu, abandonado pela mãe na maternidade. Prematuro de 28 semanas porque a sua progenitora consumia cocaína e, num pico de tensão enquanto snifava mais uma dose, teve um descolamento de placenta. Extremo baixo peso ao nascer. Tinha menos de um quilo quando nasceu, esteve ventilado mais de um mês, teve várias septicémias. Na primeira ecografia cerebral percebeu-se que o descolamento de placenta e a cocaína tinham tido consequências ainda mais graves do que a própria prematuridade: o menino tinha tido um AVC que lhe destruíra uma parte importante do cérebro. Para cúmulo, meses depois confirmou-se mais um presente envenenado: infeção vertical por VIH.

Foi este menino que me chegou há um ano à consulta. Era um menino sorridente e bem disposto. Persistente. Depois de meses de fisioterapia começou a andar apesar do cérebro que lhe faltava. Chorava quando se ia embora da consulta porque estava ávido de qualquer atenção. Tentava sempre levar um brinquedo de cima da minha secretária numa carência de afeto indescritível. Dizia algumas palavrinhas (água, papa, olá). Graças ao zelo das funcionárias do lar tinha uma carga viral indetetável desde o primeiro dia. Sorria com confiança para todos à sua volta porque as pessoas que cuidavam dele, apesar de não serem família, sempre lhe tinham sorrido de volta.

Mas há duas semanas, na hora da consulta dele, vi chegar um casal holandês com uma cadeirinha de passeio. Lá dentro vinha o meu menino, a cantar uma canção em holandês. Contra todas as expetativas, o menino tinha sido adotado cinco semanas antes e vinha à consulta já com os pais adotivos. Estavam os três radiantes! Desde há cinco semanas os pais tinham assistido a uma explosão de desenvolvimento. O menino, outrora com um atraso de desenvolvimento grave, que só começara a andar com meses e meses de fisioterapia, tinha começado a correr, a subir escadas, a saltar. Já compreendia holandês. Cumpria todas as ordens que a mãe gentilmente lhe dava: "Vai dar um beijinho à doutora", "Vai arrumar este livro na caixa azul". Já fazia frases em holandês. Estava feliz. Mesmo feliz. Mas no momento em que a mãe lhe disse: "Agora vamos para casa", fez menção de chorar, como fazia habitualmente. Começou a fazer beicinho. Agarrou-se a mim e aos brinquedos que tinha na mão para os levar com ele, no desespero de quem tenta prolongar o momento de atenção e alegria que vivera ali. Gelei por instantes, pelo desconforto que os pais poderiam estar a sentir. Pela angústia de separação do menino. Foi então que de repente, os olhos do menino brilharam novamente. Olhou de novo para a mãe como quem pensa: "Alto, espera aí...". Ela estava ali, à sua espera! Agora tinha uma mãe! E um pai! Afinal já não estava triste. Afinal tinha um sítio para onde ir que era muito mais feliz e seguro do que aquele. E saiu novamente a cantar, na sua cadeirinha, uma canção em holandês, que não me sai da cabeça desde então.

É tão, mas tão bom ver alguém fintar o destino!

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

[as melhores do serviço de urgência] febre a subir...

Do capítulo dos "Sinais Absolutamente Inequívocos de Febre Interior", uma das doenças tradicionais portuguesas mais intangíveis*:

No serviço de urgência de pediatria com uma amiga minha...
- O menino quando chegou estava com febre?
- Não, doutora, por isso não lhe deram nada na triagem. Mas agora tem febre interior a subir outra vez de certeza, doutora. Eu sei porque está com a pilinha murcha...

* A par com os apesar de tudo mais palpáveis "bucho virado" e a "espinhela caída".

quinta-feira, 10 de março de 2016

[inspiração para uma despedida] até sempre, irmã

Quem me conhece ou acompanha há mais tempo este blogue sabe que houve um blogue-antes-do-baby-blogue. Antes de ser mãe-do-baby-de-mulata eu era a beijo-de-mulata, e escrevia um blogue de aventura e saudade, um blogue que escrevia para manter vivas as recordações das missões em Moçambique, para que não me fugissem as imagens, nem os cheiros, nem as palavras, nem as músicas... nem a Irmã Lourdes. A irmã que me ajudou em tudo, que foi minha mãe, amiga, companheira, orientadora, animadora, mediadora cultural. Foi com os olhos dela que aprendi a amar o povo macua, compreender os seus paradoxos, as suas angústias, perdoar as suas negligências e atrocidades, admirar o amor incondicional que tinham pelas crianças, respeitar as tradições que protegiam as mulheres, as crianças e os idosos. Com ela aprendi a conhecer crenças, ritos, feitiços, aprendi a compreender de que falavam as pessoas no hospital quando me falavam de doença e o que esperavam de mim. E aprendi que só conhecendo a cultura podemos tratar verdadeiramente as pessoas, conquistar a sua confiança e comunicar.

Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."

Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.

"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.

Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.

Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.

Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.

Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.

E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!

Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!

Até sempre!"

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

[vozes brancas*] tecnologias...

Numa sociedade em que as crianças têm cada vez mais acesso precoce a perigosos distratores visuais - televisão, tablet, telefone, computador - o processamento verbal e auditivo e, por conseguinte, a leitura e escrita podem ficar seriamente comprometidos. Eu tento proteger o meu filho com unhas e dentes (sem fundamentalismo, claro, apenas prego uma valente rabecada de alto a baixo a quem se atrever a chegar perto da minha cria com um dispositivo eletrónico) e tendo cativá-lo para atividades mais físicas e apelativas. Ontem, ao jantar, o baby-de-mulata queixava-se de que a cadeira abanava. Foi então que descobri que alguém anda a boicotar as minhas nobres intenções. Virou-se para o tio que jantava connosco e disse com um olhar de entendido:

- Acho que tens de fazer uma atualização a esta cadeira!

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

[improbabilidades] uma vela a santa rita de cássia

Ontem na consulta do hospital, vi um menino pela primeira vez. Pareceu-me um menino um pouco tristonho, meio macambúzio, tímido, reservado, respondia com monossílabos, mas olhava-me com um olhar expressivo, intenso, como se quisesse compensar com o olhar o que não conseguia encontrar palavras para dizer. Educado, com vontade de agradar, coisa rara em pré-adolescentes (e, para mim, mau sinal, que um pré-adolescente a tentar agradar-me sem me conhecer de lado nenhum deixa-me sempre com a orelha levantada de que pode estar deprimido...).

- Então o que a traz a esta consulta? - pergunto à mãe.
- Doutora, eu vim aqui porque não sou de automedicar os meus filhos, eu tenho muito medo e só me automedico a mim e aos meus filhos com receita médica. Mas ele há uns tempos para cá que anda assim muito distraído, parece-me desmotivado. Lê uma coisa e no momento a seguir esquece-a, sabe uma coisa num dia, no outro dia já não sabe. Vai para os testes uma pilha de nervos... eu já pensei em acender uma vela a Santa Rita (piscadela de olho), mas tenho medo que não resulte ou que lhe faça reação...
- Uma vela a Santa Rita? Mas Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis?
- Sim, doutora.
- Bem, mal não faz, miminhos e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Mas isto é uma consulta de Desenvolvimento, não veio aqui para lhe ensinar a rezar a Santa Rita, pois não?
- Ó doutora, eu já experimentei com a Santa Rita e não deu resultado, por isso pensei na outra Rita... (nova piscadela de olho)
(Eu já incomodada com tanta piscadela de olho desadequada...) - Na outra Rita? Qual outra Rita, a Ritalina?
- Sim, doutora, a Ritalina! É que o irmão toma. Eu experimentei-lhe a dar e ele deu-se muito bem, mas como não sabia se lhe podia continuar a dar resolvi pedir esta consulta.

(Custou a desembuchar! Só me fez lembrar aquela anedota do século passado do senhor muito bem posto que vai à farmácia e pergunta: "Tem camisas com colarinhos e botões de punho prateados?" "Não, senhor, isto é uma farmácia, não vendemos camisas dessas." "Então dê-me das outras." Quanto ao resto, não comento!)

domingo, 20 de dezembro de 2015

[vozes brancas] a carta ao pai natal


 
Há dias, antes da história de adormecer, lá nos resolvemos, eu e o baby-de-mulata, a escrever "a carta" ao Pai Natal, que dezembro já ia bem avançado e urgia ter ideias claras sobre os desejos do rapaz para na hora da verdade fazer os seus olhos brilhar. Ditou-me a carta como se tivesse escrito cartas toda a sua vida (acho que aprendeu com um vídeo do YouTube do que costuma ver com Mr. Shaka, o seu papá-maravilha... um vídeo do Monstro das Bolachas da Rua Sésamo que faz rir os dois à gargalhada ante o meu olhar atónito. Para mim não tem grande graça, mas os dois ficam horas perdidas deliciados a repetir o mesmo vídeo, procurem e depois digam-me o que acham, se sou só eu que sou sisuda e exigente ou o sketch tem mesmo piada...).

Depois de me ditar três ou quatro objetos do seu ímpeto consumista, perguntou-me:
- Mas, mãe, o Pai Natal verdadeiro também pode pedir presentes?!
- Penso que não, filho, só as crianças é que podem pedir - respondi, divertida - mas porquê? Se fosses tu a pedir para ele, o que é que tu gostavas de pedir?
- Um Pai Natal igual a ele, para poderem brincar! Ele deve sentir-se muito sozinho e viajar com companhia é mais giro...

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

[vozes brancas] o anjo-de-mulata ou a alegoria da autonomia

Há dias, no colégio do baby-de-mulata, tivemos mais um TPC dos tais que me assustam e me deixam sempre a tremer com a sensação de "mas agora como é que eu vou pegar nisto, valha-me-Nossa-Senhora-e-o-Menino-e-tudo-e-tudo-e-tudo, mas esta gente julga que eu consigo fazer alguma coisa das minhas mãozinhas que não seja palpar barrigas e passar receitas?"...

Nestas alturas vêm-me sempre recordações dos suores frios das aulas de educação visual e de trabalhos manuais, em que achava que não ia conseguir fazer o que me era pedido e em que tudo era tudo muito penoso. Mas, enfim, lá acabava por achar uma solução: fazia composições com os pintores surrealistas, procurava inspiração em revistas e enciclopédias, copiava, imprimia, texturava... tão diferente de alguns colegas que faziam tudo de forma espontânea e criavam com as suas mãos em minutos o que me demorava horas a planear... No final dos períodos os professores acabavam sempre por me dar 5 "porque era muito esforçada e muito criativa, muito cumpridora e muito motivada". Nas informações finais apareciam todos os elogios mas jeito era mesmo o que eu não tinha de todo... E gosto então... zero! Quando cheguei ao 10º ano pensei que estava livre para sempre. Até o baby-de-mulata ter ingressado no jardim de infância...

Ora desta feita tínhamos um anjo para fazer a partir de... um rolo de papel de cozinha!

Com ar de pânico, desabafei com a auxiliar da sala, que foi a minha auxiliar também quando eu própria andei naquele colégio: "Ah, e agora? Será que vou ser capaz?" "Claro que és capaz!" (Ainda me trata por tu, aquela fofura...) E foi então que me enchi de brios e lá planeei a empreitada. O problema eram as asas. Mas como é que se faziam umas asas de anjo?! Foi então que me veio a solução: o meu anjinho seria um anjinho-engenhocas e em vez de asas teria...bem... outra coisa! O baby-de-mulata adorou a ideia e ajudou-me a inventar uma história, que fez vibrar os amiguinhos:


"Era uma vez um anjinho pequeno chamado anjo-de-mulata, que vivia com a mãe, a anja Rafaela, o pai, o anjo Gabriel e o irmão mais novo, o anjinho Miguel. [Aqui houve algum desentendimento inicial, dado que o baby-de-mulata queria que o irmão se chamasse Mr. B, e a mãe queria que se chamasse David, pelo que acabou por se chamar Miguel, como conforme as escrituras].

O anjo-de-mulata era um anjinho muito bem disposto e alegre, que adorava voar pelos céus, sobre o mar, atrás das gaivotas. Também adorava fazer coro com os pássaros da floresta, tocando trompete e, todos os dias, ao fim da tarde, ia jogar à bola, entre as nuvens, com as andorinhas que sobrevoavam o rio. Todas as manhãs, antes de sair de casa, os pais do anjinho recomendavam-lhe: “Não voes muito perto do sol, meu querido, voa baixinho porque as tuas asas ainda foram coladas há pouco tempo e a cola pode derreter com o calor do sol”. E, claro, o anjo-de-mulata tinha sempre cuidado quando o sol estava muito rijo, e só começava a voar mais alto ao fim da tarde, depois de o sol se pôr.

Até que um dia, distraído atrás de uma gaivota divertida, voou um pouco mais para cima e não reparou que o calor do sol lhe estava a derreter as asas… Quando deu conta que as asas estavam a cair já era tarde demais e… catrapum! As asas caíram e o anjinho, não tendo onde se segurar, caiu também, desamparado no chão. A sorte foi ter caído sobre um monte de roupa que as senhoras à beira do rio estavam a lavar e rebolou para a relva [aqui a história também difere da história de Ícaro porque o baby não concordou que o anjinho caísse no mar porque nada nos garante que os anjinhos saibam nadar, e a água do mar é muito fria. Por isso, preferiu rebolar para a relva porque é mais fofinha…]

A partir desse dia, o anjo-de-mulata deixou de conseguir voar. Mas o pai, Gabriel, fazia tudo para que ele não se sentisse sozinho: andava com ele às cavalitas pelo céu adentro, jogava com ele à bola todas as tardes depois da escola, com o pequeno anjo a guiar: “Pai, mais para a esquerda, pai, mais para a direita, olha ali atrás da nuvem, vem aí a andorinha avançada, ora bolas, golo!” Mas o pai às vezes atrapalhava-se e em vez de ir para a esquerda ia para a direita e os golos acabavam por entrar na sua baliza. E o pior era que o anjo-de-mulata estava a crescer e a ficar muito pesado. E o pai estava a ficar velho e cansado… O anjo-de-mulata só pensava: “Se eu pudesse voar sozinho não precisava de estar sempre à espera do meu pai, a cansá-lo, às cavalitas dele, podia voar como eu quisesse e brincar onde e quando me apetecesse…”

E foi então que o anjo-de-mulata começou a pensar. E pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia brilhante:

- Pai, eu não posso voar como um pássaro porque já não tenho asas… mas há mais coisas que voam, não há?
- Sim, meu filho, há mais coisas que voam: aviões, helicópteros, balões…
- Sim, pai! Tenho uma ideia, se eu não posso voar como um pássaro, talvez possa voar como um helicóptero. Basta pôr uma hélice no lugar das asas!

E foi então que o anjo-de-mulata se transformou num anjo-a-jacto, bem disposto, veloz e feliz!"

Feliz Natal a todos!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

[vozes brancas] o infinito...

Pergunta-me o baby-de-mulata, acabado de acordar, espreguiçando-se com um ar muito pensativo, enquanto recebia a minha massagem de acordar (a massagem-de-pôr-o-bacalhau-no-esqueleto, como a minha mãe lhe chamava):
- Mãe, o que há para além do universo?

(Ai, valha-me Santo Ambrósio, agora o que é que eu respondo um caramelo a quem a modorra da manhã dá para filosofar? Logo eu que de manhã nunca tenho nada de poético para dizer... Quando era mai nova também me interrogava sobre a origem do universo e os seu caráter infinito, agora interrogo-me mais sobre o que poderá ser o jantar e se a roupa estará enxuta para a Dona Teresa passar a ferro...)

- Para além do universo? Hum... Bem... só se for o céu do Jesus...
- Então, mamã, eu gosto de ti até ao céu do Jesus... e voltar!

(Caí em mim... sou a mãe mais feliz do mundo!)

sábado, 17 de outubro de 2015

[nomes que dizem tudo] mas, caramba, não deviam!

No outro dia, quase no final de uma reunião de trabalho bem disposta no hospital, a psicóloga que trabalha connosco levantou-se para ir atender um menino em consulta de primeira vez.
- Quem vai ver - perguntei, interessada -, algum dos meus?
- Não, vou ver um menino de primeira vez que vem referenciado de outra consulta por suspeita de atraso da linguagem.

Olhámos para o nome escrito no processo: Samir Semedo Tavares*, e o brainstorming começou: Um nome tão invulgar com apelidos tão portuguesinhos-da-silva... Eu disse que me parecia um nome de origem africana, mais porque valorizei os apelidos e não o nome próprio, outra colega apostava na etnia cigana, onde abundam nomes invulgares, outra colega mais versada em onomástica, dizia que um Samir teria necessariamente raízes ou inspiração asiática, que Samir em árabe queria dizer "jovial, bom companheiro" e que em Sânscrito queria dizer "ar e vento"...

No dia seguinte alguém se lembrou do Samir:


- Então, percebeu qual era a origem da família?

- Ah, sim, lamento mas ninguém acertou! Eram de Santarém. Portuguesíssimos!
- Mas perguntou a origem do nome?
- Perguntei, pois! Eles eram um bocado desconcertantes, com uma diferença de idades grande, a mãe com 40 anos e o pai com 23 anos, ele com um ar magro, vestido de preto, muito calado e sinistro e ela cheia de piercings, muito exuberante. Eles lá contaram então que o menino se chamava Samir em memória ao rio Sabor, "onde nos conhecemos pela primeira vez, doutora", disse-me a mãe com sorriso malicioso... E eu já arrependida de ter perguntado, não fosse a mãe desembrulhar ainda mais pormenores da intimidade. "Nós queríamos chamar-lhe Sabor, como o rio, mas no registo não aceitaram e, portanto, o mais parecido que havia era Samir".


[Acho que esta rubrica "Nomes que dizem tudo" qualquer dia vai ter uma subrubrica intitulada "Nomes que desbobinam tudo, tudo, mas mesmo tudo!"]


* Nome obviamente fictício: o primeiro nome tem uma letra trocada e os apelidos são equivalentes do ponto de vista da sua frequência e origem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

[vozes brancas] e teorias irrepreensíveis

Tenho um menino na minha consulta que quer ser cientista. Conheci-o há uns anos, muito aflito após a separação dos pais, com algumas birras perfeitamente compreensíveis. Agora está mesmo feliz, com uma vida cheia de futuros! Está no pré-escolar e, a propósito das primeiras chuvas de outono, a professora ensinou-lhe o ciclo da água, o que o deixou fascinado.

Há dias, durante a consulta, olhou pela janela, viu os grossos pingos de chuva que se agarravam ao vidro e comentou:
- Eu bem sabia que ia chover!
- Então, filho - perguntou a mãe, bem disposta - como é que sabias?
- É que ontem te vi a passar a ferro e percebi que o vapor de água estava a fugir pela janela. É por isso que hoje está a chover!

terça-feira, 14 de julho de 2015

[instantes ilustrados] melguices...

Esta noite, estava eu sentada com o meu baby-de-mulata, no sofá, de mãos dadas, a ver um filme da Disney, quando recebo um MMS de uma mãe aflita. Geralmente são fotos que me apresso a apagar porque apesar de compreender que os pais queiram ilustrar o sofrimento que descrevem e sentem literalmente na pele dos seus bebés (e que não se sintam à vontade para descrever com propriedade vocabular as alterações que veem), invariavelmente colocam-me um pouco desconfortável quando se trata de assaduras e candidíases de zonas íntimas. Há fotos que não me importo de ver, mas que não quero manter na memória do telefone...

A imagem, desta feita, mostrava uma criança serenamente a dormir, com uma borbulha tipo vesícula bem focada sobre o olho... E a pergunta: "Será varicela, Doutora?"

Seguiu-se mais uma troca de mensagens animada. A mãe respondia que não, que não tinha muitas borbulhas mais, só mais dus ou três dispersas pelo tronco. Que havia um primo que tinha inciado a doença dias antes. Ao que respondi que o período de incubação não é tão curto, só se se tivessem infetado ao mesmo tempo há duas ou três semanas. Enfim, chegámos à conclusão de que era necessário aguardar a evolução para fazer o diagnóstico.

Horas depois, pelas 04:00 da madrugada recebo nova MMS. Desta feita, uma mancha vermelha meio esborratada, ao lado de um ponto preto, num fundo branco. Meio estremunhada, com cara de ponto de interrogação ensonado leio a mensagem: "Doutora, acho que matei "varicela". Estava cheia de sangue e agora jaz na parede do quarto. Obrigada pela atenção."

E pronto. Paz à sua alma...

sexta-feira, 3 de julho de 2015

[as melhores do serviço de urgência] dentes sexy

Na urgência da semana passada, enquanto colhia a história de uma adolescente que iria ficar internada:

- A menina alguma vez foi operada?
- Não doutora, só fiz uma vez uma circuncisão a um siso!

(Maravilha! Esta menina tinha um dente masculino...)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

[o que vês da tua janela, beijo-de-mulata?] ontem à noite...

 
É isto. Todos os dias... Acho que isto explica a razão pela qual ando tão calada.
(Lisboa)

terça-feira, 16 de junho de 2015

[as melhores do serviço de urgência] urina de 24 horas

Esta não é minha, mas não resisti a partilhar convosco...

Um colega meu, patologista clínico, teve um encontro imediato com uma senhora que lhe apareceu na sala de colheitas com um pedido de "urina de 24 horas". Olhou para o frasquinho pequenino, com umas gotinhas de um líquido meio transparente lá dentro.

- Isso o que é, minha senhora?
- É a urina que o senhor doutor pediu.
- Mas como é que fez a colheita? Foi só isso?
- Como dizia nas instruções "COLHER PARA UM RECIPIENTE TODA A URINA" eu coloquei com uma "COLHER DE SOPA" e só consegui esta...

[Confesso que a mim só me aconteceu o contrário: ver chegar um senhor com um garrafão de 5 litros e desculpar-se: "Ai, doutora, fui sair com os amigos e bebi umas cervejas, mas não quis deixar de vir aqui trazer a análise que disse que era importante!" Enfim, por estas e por outras, quando eu trabalhava com adultos tinha momentos mais divertidos...]

segunda-feira, 25 de maio de 2015

[vozes brancas] pequenos milagres!



Tenho um menino de 8 anos que sigo há vários anos. Teve um diagnóstico de autismo depois da primeira infância (já nem sei aos três ou quatro anos), mas entretanto, com o investimento da mãe e múltiplos profissionais envolvidos, fez uma evolução notável. Não quero agora discutir se o diagnóstico estaria correto. Olhando para trás e tendo em conta a evolução, podemos pensar que não estaria. Eu não sei, não fui eu que fiz o diagnóstico e não estava lá para ver, o que eu sei é que ele evolui de dia para dia. Atualmente é um menino doce, que se explica muito bem verbalmente, já tem até algum sentido de humor e começa a ter criatividade e imaginação. É também incrivelmente impulsivo, agitado, difícil de acalmar nas múltiplas birras que continua a fazer por dia. Na última consulta, depois de o ter conseguido acalmar, pedi-lhe que me fizesse um desenho.
 
Saiu esta obra magnífica e colorida! Perguntei-lhe o que era. Respondeu-me que era um "super-jardineiro, amigo do ambiente". Já estou habituada a surpresas deste tipo, mas quase que choro só de me lembrar como estava este menino da primeira vez que o vi em consulta...
 
A sério que da próxima vez que alguém me disser que baixa os braços perante de um diagnóstico de autismo lhe mostro este desenho!

Tal como há poucos meses um menino com um autismo profundo, sem linguagem funcional, de repente começou a escrever no computador. E meses depois estava a usar a linguagem escrita para fazer pedidos simples. A mãe perguntava-me, incrédula se isso queria dizer que o menino sabia ler...

Respondi-lhe que temos de aceitar os milagres! Tal como ela nunca desistiu do filho e sempre aceitou o diagnóstico e fez por ele tudo quanto conseguiu fazer, também tinha de saber aceitar as coisas boas.

terça-feira, 5 de maio de 2015

[vozes brancas] kiss my eyes

Tenho uma dor horrível no olho... No sábado, durante a urgência de pediatria, mal conseguia manter o olho aberto. Tudo por causa de um malfadado vírus que estava obviamente a sofrer maus tratos no nariz de um baby que eu vi na urgência da semana passada e que portanto resolveu pedir asilo político ao meu olho direito. Ora pois que o meu olho direito se compadeceu do bicho, coitadinho, catapultado de minuto a minuto em violentíssimos espirros e resolveu armar-se em alto comissário para os refugiados. Vai daí, arranjou-lhe alojamento e despachou-o para o seu vizinho do lado esquerdo, que ele, como olho diretor, tinha mais que fazer, ora essa, era o que mais faltava, ser alto comissário e ainda ter de fazer tudo nesta casa.

De tudo isto, só tive conhecimento na semana seguinte, quando no dia de urgência acordei com o olho à Camões. Sou sempre a última a saber destas andanças...

Mas como eu ia dizendo, no sábado estava miserável. Uma dor excruciante. A meio da manhã já não aguentava mais, a dor trespassava-me o crânio e latejava-me nas têmporas, e fui pedir à enfermeira que me tapasse o olho. Foi então que me entrou no gabinete um menino de quatro anos, acompanhado por uma mãe muito empática que me olhava compadecida. Já o menino olhava para mim absolutamente boquiaberto. Deixou-me fazer tudo o que lhe pedi sem um protesto. Por fim ganhou coragem e perguntou-me baixinho:

- És pirata?
- Sim, sou uma amiga do Jake, vim da Terra do Nunca para te ajudar a curar esse dói-dói.
- Mas essa coisa no olho não era preta?
- Sim, mas as princesas piratas usam uma pala branca, os piratas meninos é que usam uma pala preta. Agora tens uma missão: para salvar a princesa pirata lá da Terra do Nunca tens de ir fazer análises.

O menino estava fascinado, respondeu-me muito compenetrado que sim, que iria fazer então as análises. Regressou sem uma lágrima e com um desenho para a princesa pirata da pala branca.

[Tenho ou não tenho a melhor profissão do mundo?]

domingo, 3 de maio de 2015

[as melhores do serviço de urgência] uma questão de boa educação...

Três da manhã, Urgência de Pediatria ainda muito movimentada. A avó de um menino de quatro anos que conheço desde que nasceu, com múltiplos problemas de saúde e que em tempos difíceis reanimei duas vezes na mesma noite, entra-me, esbaforida, no gabinete.

- Mais uma convulsão, doutora.
- Boa noite, avó, não há meio de uma pessoa se habituar a isto, não é verdade?
- Pois não, doutora, coitadinho do meu menino. Desta vez foram dois minutos.
- Mas passou sozinha desta vez? - resposta afirmativa da avó - Que medicamento é que o menino está a tomar para a epilepsia?
[Baixinho, a medo] - É o "Dá práqui".
[Pausa para reflexão fonética]- O Depakine? - Arrisquei.
[Sorriso de orelha a orelha, aliviado, voz muito mais assertiva] - Isso, o "Dê práqui"! Afinal era fácil!

Isso! É só uma questão de tratar o medicamento por você em vez de o tratar por tu.

[reflexões para uma madrugada de telha] dia da mãe

No outro dia abri a boca de espanto quando ouvi uma preleçãode uma colega de outro serviço do hospital. Uma mulher severa, altamente narcísica, sem um pingo de empatia por quem sofre e por quem está em dificuldades, incrivelmente sensível, incapaz de um elogio a não ser a alguns (poucos) seus eleitos. Para o caso talvez seja relevante mencionar que é solteira e que nunca teve filhos...

E perguntam vocês, meus caros amigos: "Sobre que tema pregava tão distinta figura?"

Sobre Parentalidade Positiva. E enchia a boca com a aliteração... Explicava algumas "técnicas" a uma jovem mãe, pediatra de outro serviço, que a ouvia com atenção, com o seu melhor sorriso amarelo, tentando encontrar um buraco, por entre o discurso verborreico, por onde pudesse escapar.

Só me fez lembrar a severa diretora do colégio de freiras de uma amiga minha, que há muitos anos, inaugurou um discurso de duas horas deste modo: "Hoje é o Dia da Mãe. Eu não sou mãe... mas já li muito sobre o assunto, portanto cá vai!" .


E é isto, meus amigos... [Nota-se muito que estou de banco, que são seis da manhã e que já não vejo o baby-de-mulata há mais de 24 horas?]

quarta-feira, 8 de abril de 2015

[a minha vida dava um filme cigano] e o cérebro todo apanhadinho...

Há dias, na urgência de pediatria, encontrei um menino de 8 anos de etnia cigana que sigo na consulta por dificuldades de aprendizagem e alterações do comportamento gravíssimas. Um menino para quem o simples exercício de 7 e 7 são 14 com mais 7 são 21, em calhando num dia mau, pode fazer despoletar uma batalha campal em plena sala de aula e certa vez deixou o meu gabinete de consulta revirado durante 3 dias tal foi a frustração que o menino sentiu quando ouviu uma pergunta que o obrigaria a concentrar-se e não estava capaz. Mas enfim, são vidas, contextos e famílias, e o menino lá andava a melhorar, devagarinho mas ia (a sério que ia), com alguma paciência e muito trabalho de sua mãe e dos professores da escola.


O problema foi que a dada altura, após a morte do avô, começou a regredir a olhos vistos e as alterações do comportamento atingiram patamares a raiar o nível do autoproclamado "estado islâmico", quer no recreio quer na sala de aula. A professora ligou-me, preocupada. A mãe ligara-me dias antes, desesperada. Concordei que seria então necessário marcar uma consulta de urgência e medicar o menino. A consulta teve lugar dias depois, em conjunto com a família e as professoras.


Duas semanas depois vi-o então na urgência.
- Então, mãe, o menino como está? Melhorou alguma coisa com a medicação?
- Não, doutora, nã teve melhoras nenhumas.
- Ai, não me diga, mas continua tudo na mesma?
- Sim, doutora, já nã sei o que fazer. Até me parece que está cada vez pior... Já viu a minha vida?
- Pior? Ai, valha-me Deus! Mas vamos lá ver, a que horas lhe dá o medicamento?
- Ah, doutora, nã lhe di...
- Não lhe deu? Mas porquê?
- Eu saí da consulta a achar que lhe ia dar, mas depois o mê marido chegou a casa e teve a ler o medicamento po dentro, e teve medo que o remédio lhe apanhasse o cérebro. Por isso nã lhe demos.


...

sábado, 7 de março de 2015

[outras palavras] ideias brilhantes!

- A Chica foi ao Centro de Saúde à consulta homeopática.
- Não sabia que havia disso no Centro de Saúde.
- No caso dela sim. É só estar 5 minutos a falar com o médico que fica logo boa das doenças todas.
- Mas isso não é consulta homeopática, isso é consulta psicossomática. Homeopática era se ela fosse ao centro de saúde só para ler o nome do médico na porta e voltasse para casa curada.


Por São João no seu genial blogue "Febre dos Fenos"

[vozes brancas] auto-estima masculina...

Já anteriormente se notou a queda do meu baby-de-mulata para as línguas, e o efeito hilariante que as metáforas da nossa grande pátria, que é a língua portuguesa têm nele.
No outro dia, íamos ao jardim brincar, quando passámos por uma boca de incêndio.


- Mãe, o que é isto?
- É uma boca de incêndio.
- E para que serve?
- Se houver algum incêndio por aqui num prédio destes, os bombeiros ligam as mangueiras aqui e a água jorra com muita força pelas mangueiras para apagar o fogo.
- Mas... boca de incêndio? Isto não tem língua nem fala, isto não é uma boca! - replicou com ar de gozo.
- Mas chama-se assim porque é grande e larga e a água vem de lá com muita força.
- Ah... Mas acho que não - respondeu com um ar muito pouco convencido -, assim devia-se chamar pilinha de incêndio.


(Suspiro... Ai o cromossoma Y! Só espero que esta autoestima lhe dure até bem depois da puberdade!)