terça-feira, 8 de Abril de 2014

[histórias de adoção] retirada!




Tenho alguns meninos que não aprendem na escola. Os professores por vezes fazem alguma pressão para eu os medicar porque eles não se concentram. Têm certamente "défice de atenção". Mas isto que se passa na cabeça destas crianças é o indescritível, o indizível...

sexta-feira, 28 de Março de 2014

[as melhores do serviço de urgência] um problema numa tromba

- A senhora é saudável?
- Não, o meu médico diz sempre para eu nunca me esquecer de dizer que uma vez tive um problema numa tromba.
- Ah, mas isso não tem muita importância para o menino, deve ser mais é quando vai ao Ginecologista.
- Não, mas ele diz-me para dizer ao pediatra.
- Ah, mas e foi antes ou depois da gravidez?
- Não, foi durante.
- Teve uma gravidez fora do sítio?
- Não, foi na gravidez do João, a única que tive.
- Mas como é que foi?
- Um dia a perna começou-me a inchar muito, a ficar muito quente e eu cheia de dores.
- A perna?
- Sim, a perna. E depois fui logo para o hospital e diagnosticaram-me uma infeção da tromba venosa. Tive de andar a tomar muitas injeções na gravidez...

[Ah, valha-me Deus, uma trombose venosa!]

quarta-feira, 26 de Março de 2014

[as melhores do serviço de urgência] ele está a fazer temperatura...

- O menino tem febre?
- Sim.
- E qual foi o máximo que teve?
- Foi para aí… trinta e tal.
- Mas tem de medir, mãe!
- Eu medi, mas não tenho termómetro.
(Suspiro)
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- O menino teve febre hoje?
- Sim.
- De quanto?
- Tinha 37ºC, Doutora, quase 40!
(Suspiro)
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- O menino tem tido febre nos últimos dias?
- Sim, doutora.
- E o corpo fica quente?
- Não, é febre só… O corpo não aquece…
(Suspiro)
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- A menina tem tido febre?
- Sim, doutora, tem estado muito molinha, transpira muito e não come. Mas ponho-lhe o termómetro e não acusa… Será febre interior?
(Suspiro)

segunda-feira, 24 de Março de 2014

[vozes brancas] são metáforas, senhor, são metáforas!

"Ninguém compreende a minha bichinha", lamentava-se a mãe de uma princesa esta tarde na consulta. "Calcule doutora, que a minha empregada me ligou no outro dia a dizer que a Maria [nome obviamente fictício] se estava a queixar das pernas. E como a doutora sabe, da última vez que ela se queixou das pernas acabámos no hospital internadas com uma púrpura. Fui de charola para casa e dei com ela a correr e a pular, muito bem disposta e surpreendida por me ver".


"O que tens, filhota?", perguntara-lhe. "Nada, mãe, eu não estava a fazer nada, eu portei-me bem!" "Sim, querida, eu sei que te estavas a portar bem hoje, mas a tia Céu chamou-me porque estavas a queixar-te das pernas." "Eu?! Não, eu só disse que tinha tosse nas pernas." "Tosse nas pernas?" "Sim, mãe, quando eu corro fico com tosse!"


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- E depois é isto, doutora! Não hei de eu andar meia louca! Tenho uma filha a quem tudo acontece, um marido que está fora e uma empregada completamente histérica!
- Bem, olhe, mas em contrapartida tem uma filha poetisa! Não lhe corte essa veia poética, que tem futuro! Quem me dera a mim escrever assim...

terça-feira, 18 de Março de 2014

[querida futura mãe] filhos felizes



Eu vejo todos os dias que não é fácil... Mas é possível!

segunda-feira, 10 de Março de 2014

[músicas para o baby-de-mulata] eu tinha quatro patinhos



Foi com esta música que ensinei ao baby-de-mulata que há palavras e palavrões. Palavras que se podem dizer em todo o lado e palavras que só se podem dizer em casa... Um dia, estávamos muito bem dispostos e ensinei-lhe esta música com a letra adulterada (ver abaixo). Riu-se imenso mas rapidamente percebeu que fora de casa, no jardim, no supermercado, no hospital da mamã e locais afins levava com o meu olhar furibundo nº 3 só de esboçar os lábios para a e palavra e só tinha autorização para cantar a versão original... De vez em quando há alguém que lhe ensina mais uns palavrões e agora é muito mais fácil explicar que essas palavras pertencem à mesma categoria que a música dos "Quatro patinhos que cheiravam a chulé"...

"Eu tinha quatro patinhos
Ai, eu tinha quatro patinhos
Que cheiravam a chulé!
Que cheiravam a chulé!
Vieram para o nosso lago,
Ai, vieram para o nosso lago,
Vieram lavar o pé,
Ó saricoté, ó saricolá
Ai vieram de lá para cá,
Ai vieram de lá para cá!"


[as melhores do serviço de urgência] it runs in the family


Poderá ser esta, a dita árvore?




Ouvido de passagem na urgência, de uma mãe absolutamente verborreica, com um discurso tipo fuga de ideias:


- Ele tem dislexia e hiperatividade. Sabe, doutora, a árvore ginecológica também não ajuda...


Ora aí está, quem sai ao seus...

domingo, 9 de Março de 2014

[atualidades] parentalidades

No outro dia, na consulta de uma criança de 4 anos que vinha por um atraso de desenvolvimento da linguagem, o pai do menino, juiz de profissão, perguntou-me assim, casualmente, enquanto eu o mandava despir e palpava a barriga, o que é que eu achava sobre a adoção por casais homossexuais e sobre a lei da co-adoção... Fiquei siderada! Era bom que a pergunta não resultasse de uma qualquer associação de ideias perversa, iniciada quando o mandei tirar a roupa do menino. Fiquei desconfortável e devolvi a pergunta com um ligeiro sorriso:

- Por que me faz essa pergunta?

A última coisa que eu queria naquele fim de dia era discutir questões de princípios, argumentar e contrargumentar com alguém que não conhecia bem, sobretudo sobre assuntos que para mim são óbvios e simples. Tanto mais que a criança tinha vários problemas muito mais urgentes de discutir do que o sexo dos anjos (ou, com maior propriedade, o sexo de seus pais). Mas quem é que no seu perfeito juízo tenta discutir questões deste calibre em plena consulta do próprio filho, valha-me Nossa Senhora do Bom-Senso!

- Ah, Doutora, desculpe, eu sei que a consulta é do meu filho, mas ando há que séculos para lhe perguntar isto porque no outro dia tomei uma decisão e não fiquei totalmente convencido... Tinha um menino que foi vítima de maus tratos por parte da mãe. Quando houve a denúncia foi hospitalizado e depois era preciso tomar uma decisão: ou bem que era institucionalizado ou ficava a viver com um tio que era homossexual e vivia com um companheiro.

- E que decisão tomou que o ficou a atormentar?

- Decidi entregá-lo ao tio.

- Mas esse tio não foi avaliado por um psicólogo ou um psiquiatra? Ou pelo menos um assistente social? O mais importante é saber se a pessoa a quem se entrega a criança é organizada do ponto de vista mental, se está disponível para acolher a criança e se tem capacidade para estabelecer uma boa relação com o menino.

- Foi isso tudo. E a assistente social e a psicóloga garantiram-me que ele tinha uma boa relação com o miúdo e o miúdo com ele.

- E então, que dúvidas teve?

- E a Doutora não teria dúvidas?

- Não, não estou a ver a razão da sua preocupação, de facto...

- Ok, doutora. Eu era contra, totalmente contra o direito de casais homossexuais adotarem crianças. Mas é curioso que neste caso eu também não tive dúvidas... Mas custou-me imenso tomar esta decisão. A doutora concorda?

- Claro! Ainda bem que conseguiu distanciar-se da sua própria opinião pessoal!

- Pois foi, doutora! Mas o que era a minha opinião comparada com a felicidade daquele menino?

Ah, grande homem! Dizem que só os fracos não mudam de opinião e este, apesar de pouco esclarecido nesta matéria, soube tomar uma decisão tendo em conta o superior interesse da criança! Dei-lhe os parabéns pela decisão difícil e descansei-o quanto ao facto de as crianças criadas por casais homossexuais não terem mais problemas psicológicos ou de desenvolvimento que as outras. E por ali ficámos, que ainda tínhamos entre mãos um caso igualmente difícil...

sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

[vozes brancas] corpo estranho

No outro dia, estava de banco no meu hospital e chamei uma menina de três anos e meio. Classificada com cor amarela na triagem, sinal de que o caso inspirava algum cuidado ou que precisava de ser assistido com uma certa urgência. Olhei para o relatório da equipa de enfermagem enquanto aguardava que a menina me chegasse ao gabinete de observação: "Suspeita de ingestão de corpo estranho." Suspeita?! Como assim, suspeita? Com três anos e meio já sabe dizer o que foi que aconteceu... Isto promete!

Felizmente a criança vinha a respirar sem dificuldade, sem sinais de ter um corpo estranho encravado numa qualquer parte do tubo digestivo ou aparelho respiratório e sem outros sinais de alarme. Falava animadamente com a avó no momento em que entrou no meu gabinete, mas assim que me viu, o seu semblante fechou-se, carrancudo, e de dedo em riste apontou-me logo ali de caras que eu era culpada do maior pecado da Pediatria:

- Tu não és a minha médica!

O tom zangado avisava-me de que não estava para brincadeiras. Eu que me pusesse a pau, que já tinha sido descoberta com a boca na botija, em plena prática ilegal de Medicina! Ao olhos daquela juíza de palmo e meio eu deveria ser condenada de imediato e restabelecida a ordem pública!

- Pois não - confessei de imediato, que quem diz a verdade não merece castigo -, é verdade, não sou a tua médica. E quem é a tua médica, princesa?
- Tu não és a minha médica, eu quero a minha médica!

Resolvi mudar de estratégia:
- Mas olha, eu sou muito amiga da tua médica. Foi ela que me disse para falar contigo e te ver.
- Mas eu só quero a minha médica. Tu não és a minha médica! A minha médica é castanha e tu és loira!
[Mau! Então agora não só me acusava de não ser quem deveria ser como ainda me discriminava pela cor da pele? Bem, o melhor seria ignorar, que estava visto que por ali já não íamos a lado nenhum...] - Está bem, linda, mas olha, o que foi que tu engoliste?
- Não dizo!

Olhei para a avó: o que se passara? Que também não tinha a certeza, mas que a meio da tarde começara a dizer que tinha comido uma coisa e por isso queria ir à médica...
- Ah, e ela não disse o que foi?
- Não, não dizo! Eu quero a minha médica!
- Pois, doutora, já me passou pela cabeça de que tenha dito isto só para chamar a atenção e ir ao consultório da médica, que ela adora a sala de espera dela!
- Ah... não viu nada nem lhe notou nada?
- Não... Mas não estou nada descansada. E se é verdade?
- Bem, podemos ir fazer um raio x.
- Está bem...

Por fim regressou, com a avó cabisbaixa e com cara de quem enfiou o maior barrete do último ano... Fosse o que fosse que tivesse ou não engolido, não era radiopaco de certeza!
- Princesa, diz lá o que foi que engoliste, vá!
- Não dizo, já disse! Eu quero a minha médica!
- Pronto, pronto, deixe estar Doutora. Não podemos ter a certeza, que ela não vai dizer mais nada.

E, de facto, não dizeu! Mas a sério que fiquei mesmo bem disposta! Esta miúda vai longe! O que se perde em simpatia e flexibilidade, ganha-se em assertividade e determinação!

terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014

[outras palavras] patologias...



 
Já saiu o Psicopatos, um livro sobre o maravilhoso mundo da psicopatologia, ciências psicológicas e psicanálise selvagem!
Desculpem, só hoje o descobri e serviu-me tão bem a carapuça... Parabéns, senhor Montenegro!

segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

[nomes que dizem tudo] trava línguas

No outro dia recebi um pedido de consulta lá no hospital de uma criança de 4 anos por atraso de desenvolvimento da linguagem. A informação clínica vinha reforçada com um "ainda não diz o próprio nome", não me recordo se com ponto de exclamação ou sem ponto de exclamação, mas num tom manifestamente preocupado. Olhei para o nome. Eu própria não o consegui dizer bem à primeira: o menino chamava-se Vicente* Vila Chã Sargento. Raios, pois que até o nome era um trava-línguas, pobre criança... * Nome obviamente fictício, mas do mesmo calibre linguístico.

domingo, 16 de Fevereiro de 2014

[vozes brancas] vamos fazer um piquenique!

Há algumas semanas, eu estava de saída de um banco de inverno particularmente chuvoso e griposo, em casa, exausta, a tomar conta do baby-de-mulata e de Baby M., o primo quase-gémeo do meu filho, à espera que a empregada chegasse para lhes dar o almoço, que eu sozinha nestas alturas não consigo....


Eles estavam divertidíssimos a brincar gatinhando num túnel, que ora era o acesso ao castelo, ora era o "túnel do tempo", que desembocava na piscina de bolas, pomposamente apelidada de Algarve: "Vamos para o Algarve, adeeeeeus!". Atividades estas que iam intervalando com miminhos à mamã/ titi (nomes que me dão indistintamente, dependendo que qual me chama primeiro. Ou para onde lhes dá, ainda não percebi bem).


Nisto, depois de uns beijinhos e festinhas particularmente carinhosos, adormeci consolada no sofá, embalada pelas gargalhadas felizes dos meus amores.


Dez minutos depois (conforta-me a consciência pensar que foram apenas dez minutos, mas não tenho qualquer argumento, mesmo circunstancial, que o prove), acordei com gargalhadas vindas de mais longe e com Baby M. a dizer qualquer coisa como: "Sim, mais!"


- Meninos, onde estão? - perguntei do sofá, ainda esperançada de que estivessem apenas a brincar noutro sítio. A resposta foi aquele "hihiiiii" nervoso, que eles fazem quando são apanhados com a boca na botija e que me faz sempre tremer quando o oiço... Desta vez vindo da cozinha. Pronto, não havia nada a fazer: estava o caos instalado, valesse-me São Brás!


Pois que chego à cozinha e vejo uma toalha no chão, os babies sentados à chinês, um de cada lado, e com uma quantidade incrível de comida espalhada pelo chão, as bocas sujas de uma amálgama quase indistinguível de Cerelac, cereais, frutos secos e doce de morango. Bancos colocados em frente ao frigorífico e às prateleiras da despensa denunciavam que os meus talibanzinhos tinham planeado deliberadamente o ato ilícito.


Pelo chão noto uma tentativa de bolo: pão, Cerelac, azeite e por cima, como meninos gourmet que são, umas ervinhas da Provença para temperar o cozinhado.


- Meninos, o que estão a fazer?
- Asneiras, mamã! Mas é um piquenique!


Alguém resiste? Ainda hoje estou a sorrir para dentro!

quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

[outras palavras] somos nós...

Acabei de ler isto. Fiquei arrepiada...


"Sou médica interna. Sou médica daquelas que demoram muito. Não entupo urgências, porque não trabalho lá, mas deve estar muita gente à minha espera, na sala onde se espera. De certeza que pensam que sou “estagiária”. Não tenho carro, vivo numa casa alugada, pago as contas (às vezes em atraso). Trabalho, estudo, vivo em constante preocupação porque tenho que estudar mais, tenho de fazer relatórios e posters e apresentações. Vivo entre exames, artigos científicos e isso sim, trabalho, muito trabalho. Ao meu lado estão outros médicos internos. Raramente adoecem.. estão lá, ganham o mesmo que eu. Estou motivada, mas menos motivada, estou lá, mas às vezes penso que devia estar noutro sítio. Às vezes chego ao fim do mês à justa. No talão diz 1800… acho…, mas chega bastante menos à conta na CGD. Não sou especialmente ambiciosa. Nem especialmente poupadora nem gastadora. Compro roupa na Zara e móveis no IKEA (dos baratos). Tenho o apartamento alugado meio vazio, mas não faz mal porque passo lá pouco tempo. Tenho uma secretária de 1,50m de largura no trabalho, que está sempre muito cheia. Tenho o novo corretor ortográfico no computador, mas irrita-me. Vou à pagina da Ryanair quando estou pensar em férias. Mas cada vez penso menos. Não tenho animais de estimação, mas gosto de animais de estimação. De manhã acordo mais tarde do que devia, mas chego a horas ao trabalho. Vou a pé, porque vivo na baixa (isso deve ser um luxo). Estou inscrita num ginásio ao qual raramente consigo ir. Cada vez que abro o facebook vejo salários de políticos aos quais não sei atribuir significado. Depois vejo salários de médicos que não conheço. Às vezes leio os comentários das pessoas revoltadas com o que ganham os médicos, com o bem que vivem. Eu devo ser da classe privilegiada, porque sou médica. Não tenho carro, não tenho casa própria, não tenho um iphone, porque me parece excessivamente caro. Ganho 1200 euros. Tenho 30 anos. Matei-me a estudar na faculdade, tenho o trabalho em dia, mas não sou lá muito inteligente porque me esqueci de pagar a conta da EDP. Na sexta-feira cheguei às 21:00 a casa (devia ter saído às 18:00) e tinham-me cortado a luz. Tenho de me organizar melhor. Na televisão não falam dos sacrifícios, não dizem que fiquei horas a mais a fazer o trabalho que estava a menos, porque sou lenta talvez… Deve ser isso. Não fui para a night porque estava esgotada. Dormir é uma das minhas grandes prioridades. Não vou muito ao cinema, nem vou aos eventos culturais de que gostaria. Não viajo muito, nem vou jantar a restaurantes caros. Sou médica… é verdade. Médica interna, jovem inexperiente. Daqueles que entopem urgências e custam muito dinheiro ao estado porque estão em formação… Deve ser melhor para os recém-assistentes que estão à espera do contrato para a semana há um ano… Ao longo do internato que vejo passar… só vejo as coisas piorar. Mas estou muito motivada, amanhã vou trabalhar."

terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

[vozes brancas*] acoooorda, mãe!!!

Esta noite antes de recrutar toda a minha capacidade de calma-respira-fundo-olha-para-cima-vai-beber-um-copo-de-água e abraçar, com todo o meu espírito empreendedor, a tarefa hercúlea que é meter D. Baby-de-Mulata na cama, eu estava a brincar com ele, naqueles que são os nossos minutos de paz e tréguas de um dia inteiro de test drive dos limites da senhora sua mãe.


Eu fingia que ressonava após o que ele me gritava "Acoooo'da, mãe!" e eu fingia que apanhava um susto e assim por diante, que uma das vantagens de ser mãe de um baby de dois anos é que podemos fazer a mesma brincadeira sem termos de inventar rigorosamente mais nada durante dias a fio, que ela não perde a piada. Depois de repetir a brincadeira da mesma forma umas trinta vezes, ele de repente grita:


- Alvo'aaaada!
- [Alvorada?!, mas onde é que ele foi buscar esta?] Ããnh? - levanto a cabeça, estupefacta.


Ele olha-me com cara de "Ups, já fiz asneira."


- Alvo'ada... se faz favor...


Vá lá a gente não amar uma criatura assim!


* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 7 de Janeiro de 2014

[vozes brancas*] operações financeiras...

A minha mãe é uma avó extremosa, infinitamente bondosa e paciente, que cuida diariamente de duas criaturas de dois anos (cada uma), sendo uma delas o meu baby-de-mulata e a outra Baby M., o meu sobrinho e afilhado, quase gémeos na idade, completamente gémeos na linguagem (em que se imitam), nos comportamentos (em que se repetem) e nas asneiras (em que se potenciam num "mata-esfola" como só os gémeos conseguem fazer). Esta manhã, estando ela por dois minutos na casa de banho, ouviu-os ir sorrateiramente à sua carteira, abri-la e espalhar as moedas pelo chão.


- É dinheiro - dizia o baby-de-mulata.
- São moedas - acrescentava, Baby M., com propriedade - onde é que a vovó comprou? Numa loja?
- Não sei... Vovó, onde é que a vovó comprou este dinheiro?


Uns génios das finanças, os meus babies! Tão pequeninos e já sabem que o dinheiro se compra, em arrojadas operações financeiras!




* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014

[vozes brancas*] um relógio com segundos


A filha de uma amiga minha, uma rebiteza de três anos de idade, ouvia solidariamente o irmão de seis anos, que resmungava com o relógio porque não estava a conseguir ver as horas!
- Ele anda muito depressa, os números estão sempre a mudar! - queixava-se o irmão.

Ao que ela respondeu com a grande pérola:
- Pois é, mano, tens razão, os relógios com segundos não prestam, porque nunca param para se ver as horas!

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

domingo, 5 de Janeiro de 2014

[músicas para o baby-de-mulata] antes que terminem as festas!



 
Tenho de partilhar convosco a música de Natal preferida do meu baby-de-mulata! Não é um baby com bom gosto?

sábado, 4 de Janeiro de 2014

[welcome to mozambique] feliz 2014!

 
Feliz 2014 a todos os meus meninos do coração, que vivem no mato!
A foto é da minha amiga Maria, enfermeira voluntária no Niassa há quase dois anos. Os meninos da missão queriam saber quanto pesava o Natal!
(Mitande, Niassa)

sexta-feira, 20 de Dezembro de 2013

[vozes brancas*] anestesices...



Tenho uma colega de curso que é uma anestesista de mão cheia, de coração e convicção, que fala do seu trabalho com o entusiasmo com que uma mãe falaria de um filho... Isto é tão forte na vida dela, pessoal, profissional e familiar, que a filha de cinco anos no outro dia foi ouvida a cantar o "Gloria in excelsis Deo":

- Gloooooria, precisa de oxigénio!

Ah, grande princesa!
> Adenda: Lembrei-me agora que eu pensei durante anos e anos que a letra era "Gloooria, e nasceu singelo!" E perguntava: "Ó mãe, o que quer dizer singelo?" "Quer dizer pobre, simples." "Ah, pois", pensava eu, "confere..."
* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 17 de Dezembro de 2013

[vozes brancas*] sim, há esperança!



Há tempos, na consulta de Desenvolvimento, a terapeuta da fala que faz parte da minha equipa, uma mulher de armas, com uma experiência enciclopédica, veio ter comigo para me entregar o relatório da avaliação da linguagem de uma menina que me é particularmente querida (é ao facto de ela ter tido uma intercorrência grave que devo a circunstância de ter conhecido o baby-de-mulata, que na altura estava internado na mesma enfermaria!).

Esta princesa tem um défice cognitivo e uma síndrome genética com implicações graves no desenvolvimento. Por isso eu ansiava especialmente pelo relatório da terapeuta da fala. "Perturbação do desenvolvimento da linguagem de tipo misto muito grave", era a conclusão. Mas a terapeuta animou-me:

- Apesar das dificuldades dela, ela é uma menina com potencial. E é esperta, não concorda? O que é que acha dela?
- Sim, concordo, ela não tem um défice cognitivo por aí além. E consegue aprender.
- Exato! Aprende, compreende e até se explica. Não como nós queríamos, mas como pode. A família é que também não ajuda, que todos falam crioulo lá em casa entre si, e falam Português com a menina. Para além de que não há muita cultura de falar com as crianças, cantar-lhes ou contar histórias.
- Mas acha que ela tem potencial para recuperar se começar a fazer terapia da fala?
- Sim. Em primeiro lugar porque ela repete tudo o que nós dizemos, portanto logo ali tem um "instrumento de trabalho". E depois... olhe, quer um exemplo? Eu estava a pedir-lhe para nomear objetos em imagens, mas às tantas ela estava com muita dificuldade em dizer "meia". Nisto, a mãe salta lá da cadeira dela e começa a resmungar com a menina: "Então, filha, tu sabes o que é, diz lá "meia", "peúga". Mas eu mandei-a sentar-se novamente e não intervir. Já não podia cotar a resposta mesmo que ela respondesse, mas de qualquer modo, por curiosidade insisti. Mostrei-lhe uma meia verdadeira e perguntei-lhe: "Como se chama isto?" E ela nada. "Como se chama isto, linda, onde é que se põe?"
- E então?
- E então ela ficou um bom bocado parada a olhar para a meia, mas estava com "aquele olhar" de quem está a processar informação. Dali a pouco voltei a perguntar: "Como se chama isto?" E ela respondeu: "Chulé!".
- Lindo! Muito bom! - não consegui evitar uma gargalhada.
- Pois, foi o que eu achei! Ela tem potencial. Acho que com jeitinho ela vai lá!


* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 10 de Dezembro de 2013

[outras imagens] natal em família

 
Fiquei a babar-me com este presépio feliz que a Helena nos mostrou hoje.
Quando a ela me comprar um (pago o que for preciso, Helena, ouviste?) coloco esta "sagrada família dos sonhos bons" à porta do meu gabinete de consultas com o aviso: "Nesta casa não somos fundamentalistas, mas advogamos o colo a tempo inteiro, o aleitamento materno e o co-sleeping. Sabemos ser persuasivos. São bem-vindos os que quiserem entrar!"

sábado, 7 de Dezembro de 2013

[vozes brancas*] false friends

Há tempos no centro comercial, o baby-de-mulata, habitualmente está sempre pronto a saltar para dentro de qualquer carrinho daqueles em que só é preciso pôr uma moeda para desatarem cantar e dançar, desafiando o direito à autodeterminação gravítica de qualquer criança, desta vez recusava-se a entrar no carro onde estava o Mickey Mouse. Um Mickey numa locomotiva de comboio (e o que ele adora comboios!), bem desenhado, muito bem disposto e simpático, que acenava aos meninos que passavam.

Pior, para meu espanto, encaminhava-se para o carro da Kitty, o meu ódio de estimação (onde-é-que-já-se-viu-uma-boneca-sem-boca-para-falar-valha-me-santo-antónio-do-sermão-aos-peixes) que, mesmo ao lado, tresandava a cor-de-rosinha, enfeitado por florzinhas pirosas. Não o estava a reconhecer. O meu baby-de-mulata, que literalmente me rosnava de cada vez que eu tentava cultivar o seu lado mais sensível. O meu filho que me ignorava olimpicamente sempre que lhe mostrava um bebé careca para ele embalar ou uma flor para, subtilmente, lhe ensinar que oferecer flores à senhora sua mãe é meio caminho andado para obter todos os seus desejos, agora de repente virava-se para a piroseira da Kitty? Não se deve cuspir para o ar, realmente.

 Até que lhe perguntei por que razão não ia para o comboio ao Mickey, ao que ele respondeu: "Porque não, mamã!" E passado algum tempo perguntou-me: "Aquele é o Mickey Mau? Porque é que o Mickey é Mau, mamã?" (Graças a Deus! Depois de devidamente esclarecido o equívoco e, sem qualquer forma de pressão adicional, qual filho pródigo deixou a Kitty e dirigiu-se para o comboio do Mickey com a felicidade estampada no rosto! Obrigada, filho, por confortares a mãe!)

terça-feira, 26 de Novembro de 2013

[nomes que dizem tudo] a escola toda...

Há dias, na consulta, vi de um adolescente de 14 anos, rufia até à ponta das orelhas, piercings no sobrolho franzido, desejo de meter mais uns 20 piercings em qualquer superfície do corpo onde fosse humanamente possível esboçar uma prega ("tivesse-eu-dinheiro-e-iam-ver-se-não-punha,-mas-a-minha-mãe-não-me-dá-dinheiro-nem-sequer-para-comer"), cara de "estou-farto-de-apanhar-secas-destas-mas-por-que-é-que-não-me-deixam-curtir-a-minha-vida-em-paz", furibundo por estar ali. Nem levantava os olhos, não me encarava de frente, que eu era certamente uma aliada daquela megera que lhe coubera em sorte como progenitora.

No meio daquela tensão enorme perguntei ao miúdo:
- Se calhar estás a ser um pouco exagerado. A tua mãe dá-te de certeza dinheiro para comeres na escola!
- Não dá, não! - acusou-a de imediato.
- Sim, doutora, ele começou a fumar e no ano passado usava o dinheiro que eu lhe dava para comprar tabaco. Agora não posso confiar nele, não lhe dou dinheiro nenhum!
- Mas isso foi no ano passado, eu agora já não fumo!
- Mas olhe que ele precisa de ter alguma rédea, para poder gerir e mostrar à mãe que está a fazer um esforço para se organizar.
- Pois, mas também está de castigo porque só falta às aulas. Naquela escola ninguém controla nada! Se ele falta às aulas e se começa a drogar ninguém dá por nada!
- Ele mudou de escola, não foi? Em que escola é que ele está agora?
- Na escola Coca Maravilhas...

...

...

- Escola quê?
- Coca Maravilhas!

(A mãe tinha medo que ele se começasse a drogar na escola Coca Maravilhas? Bem, quem era eu para lhe conseguir assegurar o contrário? Eu não ponho as minhas mãos no fogo, que deve ser difícil fugir a mensagens subliminares!)

Mas lá mandei a mãe sair para falar a sós com o miúdo...

segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

[vozes brancas] coração de mãe



Na turma de Mr. B., o meu sobrinho de 5 anos, a educadora pediu-lhes para fazerem um coração em pasta de modelar para emoldurarem e oferecerem aos pais por ocasião de uma das incontáveis festas, solenidades, dias especiais, comemorações-por-ocasião-do-dia-mundial-do-papel-de-parede-e-afins que pontuam o calendário do ensino pré-escolar. E Mr. B. ditou à educadora a dedicatória para escrever na moldura: "O meu coração é leve e cheio de palhaçadas!" E eu fiquei a pensar onde foi que este menino foi buscar tanta poesia...

domingo, 10 de Novembro de 2013

[outras palavras] memórias de um átomo

O Livro do Ega! Fora em Coimbra, nos dois últimos anos, que ele começara a falar do seu livro, contando o plano, soltando títulos de capítulos, citando pelos cafés frases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela forma e pela ideia, uma evolução literária. Em Lisboa (onde ele vinha passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fora anunciado como um acontecimento. Bacharéis, contemporâneos ou seus condiscípulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelas províncias e pelas ilhas a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo essa notícia chegara ao Brasil... E sentindo esta ansiosa expectativa em torno do seu livro - o Ega decidira-se enfim a escrevê-lo.

in Os Maias, de Eça de Queiroz

Tenho um livro por escrever... De cada vez que alguém me pergunta por ele, lembro-me sempre do Átomo do Ega. Já tenho ilustradora, compradores potenciais, editora e local de lançamento... Só ainda não o escrevi. Alguém consegue imaginar pior desgraça?