segunda-feira, 27 de março de 2017

[vozes brancas*] uma corrida de automóveis



Há poucos dias, na escola, chamei à atenção o baby-de-mulata porque não deveria tratar a diretora do colégio por tu. Delicadamente e meio na brincadeira, claro, que o caso não era para zangas e o baby é ultrassensível  aos meus estados de espírito:

- Querido, é "Onde vai, Irmã?" e não "Onde vais?".
- Ah, onde vai, Irmã?

Mudou de imediato o registo para a terceira pessoa e assim continuou, o que a deixou orgulhosa do seu "neto" (a diretora foi minha educadora quando eu era criança).

Horas depois, lá em casa, o baby falou-me no assunto. Pelos vistos, do alto dos seus cinco aninhos já fica a matutar em questões (mais parecido com sua mãezinha não poderia ser, caramba!, é isso e a tendência para inventar teorias sobre tudo... epigenética rules!):

- Mãe, desculpa ter tratado a Irmã por "tu".
- É normal, querido, ainda não estás habituado. Os crescidos estão mais habituados do que as crianças.
- Pois, eu sei que tenho de a tratar por "Irmã", mas é como se fosse uma corrida de carros... Eu vou explicar: o "tu" é um Ferrari mal-criado e "Irmã" é um carro normal. Por isso, quando eu falo, o Ferrari atropela o carro normal, faz batota e chega sempre primeiro.
- Sim, mas depois o carro normal chegou e tomou conta da corrida. E estiveste muito bem.
- [Sorriu, aliviado] Ah, está bem, mãe, então só tenho de praticar mais...

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sexta-feira, 24 de março de 2017

[vozes brancas*] as 10 melhores razões pelas quais a fada dos dentes não veio ontem à noite

Esta manhã, Nuno Markl descreveu na sua página no facebook mais um pequeno drama familiar, daqueles mesmo FWP (first world problems), mas que me fez rir. Afinal de contas é aqui que vivemos e todos temos algo a dizer de viva voz.


O meu filho perdeu mais um dente, mas acordou tão cedo que não me deu tempo de preparar a operação fada dos dentes. Logo, o dente não desapareceu de debaixo da almofada e o brinde da fada ainda está dentro da minha mochila. Se alguém tiver ideias para ajustar o mito a esta situação, força. Eu estou prestes a usar o clássico "a fada sou eu" pela 2ª vez. Da 1ª vez ele não acreditou - achou que era muito forçado...

E o que se seguiu foi muito simples, meus amigos, um chorrilho de comentários bem dispostos, alguns deles absolutamente fantásticos, que poderemos utilizar na nossa economia de recursos familiares. E o que eu me diverti a ler os comentários! Descobri soluções para todos os tipos de famílias e crianças. Eis as top 10:

1 - Para quem tem filhos desarrumados: "Diz-lhe que provavelmente a fada dos dentes não conseguiu encontrá-lo a ele ou à almofada dele no meio da desarrumação do seu quarto... fiz isso à minha filha e resultou. Na noite seguinte havia instruções espalhadas pelo quarto para garantir que a fada não se perdia. E o quarto estava um primor!"

2 - Para os pais criativos e doces, com filhos ainda na fase do pensamento mágico (autoria da Maria Bê): "Escreve um bilhete da fada a dizer que não conseguiu pegar no dente porque era muito pesado e bonito. É que ela é muito pequenina. Hoje traz ajudantes... Simula que o encontras perdido algures. A nossa fada dos dentes escreve imenso e conta coisas mirabolantes."

3 - Para pais de futuros jornalistas: "A fada foi para o Lux ontem (diz que é a melhor noite da semana para ir ao Lux) e adormeceu num Uber qualquer a caminho de casa, e terá sido assassinada numa mata na zona da Fonte da Telha. Visto que é sexta-feira, o enterro agora só lá para terça, e entre concurso público para a posição, avaliação de CV, testes físicos e entrevista, só lá para final de abril é que haverá nova fada colocada. Diz-lhe que há que ter paciência, o mundo não gira à volta dele, e que a família da fada neste momento está a tentar lidar com a dor e há que respeitar." Perfeito!

 4 - Para os pais que querem que os filhos acreditem durante toda a infância e, já bem entradotes na pré-adolescência, passem a vergonha das suas vidas quando lhes caírem os molares: "Isso aconteceu-me numa fase em que a minha andava desconfiada da existência da fada e eu disse: «Estás a ver, desconfias da fada ela não aparece, ela precisa que os meninos acreditem nela»... Ficou aflita. No dia seguinte lá estava o brinde. «Estás a ver, tens de acreditar para ela não ficar triste e conseguir voar». Nunca falha!"

5 - Para os que querem criar filhos intelectuais de esquerda: "A fada está desmotivada. Há muitos anos que não tem aumentos e tem cada vez mais trabalho, pelo que com a noite de chuva que esteve, a fada adiou os trabalhos e irá fazê-los durante o dia sob melhores condições climatéricas. Já basta ganhar mal, quanto mais trabalhar à chuva! Ainda estraga as asas..."

6 - Para os que gostam de ver o CSI com os filhos: "O meu filho andava chateado com a fada pois andou dois dias à espera. Então, quando ele reclamou, eu agarrei nuns trocos e disse: «Não pode ser, vamos investigar!» e, enquanto ele procurava, pus o dinheiro debaixo do colchão e fingi que o descobri: «Olha!, deve de ter caído e tu não deste por ela!» Funcionou!"

7 - Para os filhos dos dentistas, pediatras e pessoas em geral preocupadas com a higiene oral (eu própria já deixei bilhetes deste género ao baby-de-mulata): "Diz que a fada esteve a analisar o estado do dente e teve de o submeter à apreciação do conselho de peritos. Depois deixa um bilhete a elogiar o estado impecável do esmalte, que bem escovado que estava! Termina por  deixar uma nota de encorajamento para continuar a tratar tão bem os dentinhos".

8 - Para os futuros meteorologistas: "Com a seriedade que o assunto exige: Diz que a protecção civil emitiu alerta laranja para todas as fadas do país por causa do mau tempo... Está retida num aeroporto de fadas qualquer!"

9 - Para os que querem criar filhos empáticos, doces e compreensivos: "Disse à minha filha que a fada naquela noite tinha tido muitos meninos para visitar e que não tinha conseguido chegar a nossa casa antes do amanhecer... Ela respondeu: «Não faz mal mãe, pode ser que esta noite ela tenha tempo!»

10 - Por fim, last but not the least, para os que estão a criar um cientista: "Conheço um blogger famoso a quem aconteceu o mesmo. Nessa manhã a filha acordou desolada (ao que parece não tinha informado os pais que o dente tinha caído portanto os pais não tinham tido oportunidade de providenciar a troca do dente). O pai então, diligentemente, foi mudar a entrada da Wikipedia sobre a Fada dos Dentes, referindo que a fada vem um OU DOIS dias depois da queda do dente. Depois foram os dois "fazer uma pesquisa" e apresentou à filha uma explicação cabal e científica do atraso." Delicioso!

* Vozes brancas - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quarta-feira, 22 de março de 2017

[um flamenco em paris] outras guitarras


Não se consegue não ficar viciado neste som! Obrigada por mais esta obra-prima!

domingo, 19 de março de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #3

(continuando a minha história de amor...)

Imagem obviamente da web...

Dias depois da saga na Santa Casa voltei ao centro de acolhimento temporário. O menino já tinha começado a frequentar o jardim de infância, mas nem por isso estava mais integrado, mais aberto a comunicar ou a confiar nas pessoas que o rodeavam... Já era mais fácil de cuidar, mas as preocupações continuavam as mesmas: não olhava nos olhos, não comunicava de forma nenhuma, não se interessava por brinquedos nem fazia qualquer esforço para os alcançar, parecia absorto no seu mundo, abria e fechava portas e janelas sempre que tinha oportunidade de as alcançar. Dessa vez e das vezes seguintes a cena da primeira visita repetia-se, deixando-me cada vez mais preocupada e triste.

Eu tinha estado a pensar e, já que o menino abria e fechava portas compulsivamente, talvez se interessasse por outro tipo de movimentos no ar, como o das bolas de sabão e dos balões, que quando os soltamos fazem movimentos irreverentes e imprevisíveis. Levava bolas, balões, brinquedos com luzes e música. Tudo para ver se o interessava noutra coisa que não a malfadada janela daquela sala de visitas. Mas eram frações de segundos... Tudo era demasiado intenso, demasiada informação, demasiado assustador. O calor era imenso, o que o deixava irritado, transpirado e a mim exausta. Afastava-se de mim ostensivamente, pesando-me cada vez mais no colo, por vezes aceitava água no biberão, mas não me deixava dar-lhe, tirava-mo da mão para beber sozinho. De todas as vezes fiz de tudo para captar a sua atenção, mas nada. Nem cantando, nem ficando calada, nem apontando para os carros que passavam na rua, nem fingindo que íamos cair...

Até que certa vez tenho ideia de ter começado a escurecer. Não sei bem como, se era julho e eu só tinha duas horas de visita (mais porque as funcionárias amorosamente fechavam os olhos), mas não eram horas de anoitecer, disso tenho a certeza... talvez uma nuvem tivesse tapado o sol, não me lembro. Sei que começou a escurecer. Eu já estava exaurida e ele cheio de sono, quando lhe peguei na mão e acendi a luz com os seus dedos moles e sem vontade... mostrei-lhe com entusiasmo que tinha sido ele a acender a luz, saltei e festejei aquele "feito". Miraculosamente, aqueles saltos e festejos tiveram o condão de o fazer sorrir pela primeira vez. Apaguei a luz com a mão dele. Mostrei-lhe que a luz se tinha apagado e depois acendemo-la novamente. O menino saltou-me no colo de imediato, como quem diz: "Então, salta, como fizeste há pouco!". Saltei novamente e ele sorriu de novo, agora numa gargalhada. Eu estava estupefacta! Como era possível um milagre destes, tão gratuito e tão simples? Ah... a força que um sorriso pode ter!

Então, mas... bastava saltar para o fazer rir?! Mas não tinha muito mais tempo, estavam quase a vir buscar o menino... continuei a abrir e a fechar a luz e a saltar com ele ao colo até que parei de propósito. Olhei para ele e, por um instante, cruzou os olhos com os meus. Pegou-me na mão e acedeu com ela o interruptor... Pela primeira vez parecia estar a dar conta da minha presença, a "instrumentalizar-me" eu sei, mas pelo menos a manifestar uma vontade... Pela primeira vez senti que afinal não era louca em ter esperança e em ignorar os cochichos das funcionárias: "Mas ela é médica, ela deve perceber que ele não é normal. Deve saber o que está a fazer e o que quer levar para casa..."

(Continua, pois, que não acabou mesmo!)

domingo, 12 de março de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #2



Há tempos comecei a contar a história do longo caminho que levou o meu baby até casa, antes de nos tornarmos família. Mas é sempre difícil escrever sobre momentos tão dolorosos, por isso me tenho esquivado a continuar a história. Mas hoje lá me decidi a continuar um pouco mais.

Nesse primeiro dia de visita à instituição, no final a funcionária pegou no menino ao colo e perguntou-me:
- É a senhora que quer adotar o menino?
- [Estranhei a pergunta. Eu não tinha feito constar no hospital que o queria adotar. Mas também não tinha pedido segredo às poucas pessoas que se tinham apercebido, talvez alguém tivesse comentado com alguém...] Sim, eu queria muito adotá-lo.
- Então se faz favor, fale com a nossa diretora, ela disse-me para lhe ligar se a pessoa aparecesse.

Peguei então no telefone, com a voz trémula. A diretora do CAT, do outro lado da linha, com voz viva e delicada perguntou-me:
- É o casal que quer adotar o menino?
- Eu quero adotá-lo, sim, mas deve haver algum engano, eu sou solteira, não sou casada.
- Ah [o tom de voz tinha mudado], é que me tinham dito que havia um casal interessado. Mas até agora não apareceram, nem deram sinal. E a senhora, conhece o menino de onde?
- Sou médica no hospital onde ele esteve.
- E está inscrita na Segurança Social como candidata a adoção?
- Ainda não, mas estou tratar disso.
- Então tem de tratar do assunto. E venha um dia destes falar comigo.
- Está bem.

Combinámos o dia e fui para casa com o coração apertado. O menino podia não ter olhado para mim, podia ter tido uma regressão de desenvolvimento, podia não recuperar, eu sabia, mas ele estava num sofrimento atroz e eu continuava apaixonada por ele. Era como se fosse um amor de adolescente. Daqueles não correspondidos e espinhosos, mas não tinha vontade nenhuma de desistir. Aquele menino esperava por mim, eu sentia-o desde o primeiro dia.

Na semana seguinte consegui finalmente reunir os papéis todos necessários para apresentação da minha candidatura a adoção na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e dirigi-me para lá (nos entretantos tinham-me roubado a carteira e tinha tido de ir refazer todos os documentos pessoais, para além da imensidão de documentos e certidões necessários adicionais). A assistente social do serviço de adoções que me atendeu foi muito prestável e informou-me de que sim senhora, eu tinha todos os papéis, mas que o sistema não funcionava assim. Primeiro tinha de ir à "Formação A" e só depois me poderia aceitar os papéis da candidatura. E que, by the way, o processo não era assim tão simples no meu caso, mas que depois me haveriam de esclarecer (eu bem vi que tinha franzido o sobrolho quando lhe tinha dito que me candidatava para uma criança específica... ou teria sido quando lhe disse que sim, que era solteira - ela tinha-me perguntado "É sozinha, não é?", mas não conseguia lidar com tanta informação ao mesmo tempo).

Ai, valesse-me Nossa Senhora, então tantos dias na Loja do Cidadão e ainda estava na estaca zero? E o que era isso de Formação A? Era a primeira das formações obrigatórias. E e também havia a B e a C, se queria saber, informou-me a assistente social, mas que isso eram já segundas núpcias. Eu que não me preocupasse, estava com sorte, haveria uma formação já agendada para a semana seguinte e, depois de um período de uns dias, que era obrigatório para poder pensar, poderiam aceitar-me os papéis. O atestado médico que eu tinha é que estava errado. Era preciso outro onde o médico atestasse que eu não sofria de cancro, infertilidade, doença psiquiátrica, etc. (já não me lembro bem) e deu-me a minuta para poder ir pedindo consulta no meu médico assistente.

Pedi dispensa no serviço para ir à bendita Formação A, a tal que abriria as portas para me poderem finalmente aceitar os papéis da candidatura. O meu chefe chamou-me: "Tu és uma mulher de armas, eu sei, mas já pensaste bem no que te vais meter?" "Já doutor, já pensei." "Então vai, rapariga!" Nisto já se tinham passado duas semanas desde a visita ao baby e chegou o dia da Formação. Uma sessão de esclarecimento em que bem mais de metade dos candidatos desistiram e não chegaram a entregar os papéis. Nessa mesma sessão era suposto preenchermos um questionário de 40 páginas com perguntas abertas do tipo: "Descreva sucintamente o seu percurso de vida e as razões pelas quais gostaria de adotar uma criança". Tinha 10 ou 20 linhas para responder a cada pergunta. Enfim, era o que tinha de ser feito. Depois dos dias regulamentares da "moratória", fui entregar os papéis. Ou melhor, pensava eu que ia "entregar os papéis". Mas o que se passou foi muito diferente:

Tive a sorte de encontrar uma pessoa extraordinária. Esta assistente social também franziu o sobrolho, tal como a anterior, quando lhe disse que me candidatava para adotar uma criança específica. Ao que parece a anterior não me tinha dito nada porque imaginou que eu desistiria nos entretantos, como mais de 80% das pessoas que os procuram num primeiro momento, e que portanto não precisaria de me explicar que o sistema não funcionava assim. E não pode funcionar, claro. Eu sei e sempre tive consciência de que não pode funcionar assim. As pessoas inscrevem-se e ficam em lista de espera e não podem passar adiante de ninguém que já se tenha inscrito há mais tempo. Nem me poderia ser atribuída qualquer vantagem por já ser "amiga voluntária" da criança. Assim qualquer um que tivesse acesso a hospitais, maternidades ou centros de acolhimento poderia ter vantagem. Fiquei gelada, mais uma vez. Tanta esperança para nada... Por um lado era o fim das minhas esperanças, mas por outro lado podia ser um alívio para o calvário que se adivinhava, com uma perturbação tão grave do desenvolvimento que o baby tinha... Ficaria dispensada dessa espinhosa cruz que me tinha proposto carregar... Mas não, não estava certo, não podia estar certo! Aquele era o meu menino, eu sabia-o desde o primeiro dia no hospital! Não era uma cruz, eu sempre tinha rezado por um menino que me caísse nos braços, mas para me cair nos braços tinha de ser um menino que mais ninguém quisesse! E não estava a ver mais ninguém a querer adotá-lo! Não podia baixar os braços.

- Mas eu não estou aqui para enganar ninguém - respondi, depois de vacilar -, eu estou aqui porque acho que ninguém vai querer adotar o menino. Ele tem vários problemas de saúde e todos graves. E tem uma perturbação de desenvolvimento. Eu quero muito ser mãe dele, é verdade, mas acho que provavelmente sou a única candidata nestas circunstâncias.

A assistente social franziu o sobrolho mais uma vez, fazendo o mundo cair-me aos pés de novo, mas em vez de me "despachar" com um "mas isso é ilegal e ponto final", resolveu dar-se ao trabalho de ir averiguar os factos. E estou-lhe eternamente grata por isso. Regressou mais de 45 minutos depois, após vários telefonemas, com a informação de que o que eu dizia era verdade.

- Tem razão, para esta criança não se vislumbram candidatos. Mas isto é até à data. Se entretanto aparecer mais alguém a situação poderá modificar-se. E só podemos fazer o estudo do seu caso com autorização do Senhor Provedor da Santa Casa.
- [Ah, finalmente, uma esperança!] Mas claro, quem pode pedir autorização? Sou eu? Eu peço!
- Sim, mas tenha calma. Vamos aceitar a sua candidatura, depois falamos sobre isso, por acaso o seu processo vai ser para a minha equipa. Vamos então marcar a primeira entrevista...

Nesse dia, depois de tantos momentos estranhos e tantas emoções contraditórias, cheguei a casa cheia de esperança... Talvez fosse mesmo verdade que o baby me estivesse destinado. Talvez não fosse só um devaneio, talvez fosse mesmo o meu sonho a tornar-se realidade!

(Há-de continuar...)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

[bullying no jardim de infância] histórias de fora de casa

Correu tudo bem, felizmente, obrigada pelo vosso apoio e preocupação. No dia seguinte estivemos a treinar o que fazer e o que responder em caso de novas investidas do pequeno bully lá da escola. Teatro cá em casa até à hora de dormir:

- Vá, baby, faz uma cara feliz. E agora uma cara triste. E agora uma cara de corajoso! Boa!

E ele lá ia fazendo as caras e nós quase nos desmanchávamos a rir.
- E que cara achas que poderias fazer se ele viesse outra vez para te bater?
- Uma cara de corajoso!
- Isso, vamos a isso! E agora o que podes dizer?
- Não me podes bater, ou nunca mais brincas comigo!
- Boa, mas desviaste os olhos, assim ele não te leva a sério. Tens de olhar para a cor dos olhos dele, vamos, olha para a cor dos meus olhos e diz!

E o papá tirava-lhe um brinquedo à má fila e ele olhava-o nos olhos com "cara de corajoso":
- Alto aí, aguenta os cavalos! Eu é que estava a brincar com isso!
- Boa, filho!

Quando o fui buscar à escola perguntei como lhe tinha corrido o dia.
- Correu bem, mãe, quando o B. veio para me bater eu olhei para a cor dos olhos dele e disse-lhe "as regras".
- [Fiquei espantada, não tínhamos falado em regras] - Que regras?
- Disse que se me batesse eu ia chamar o meu pai, que era o chefe das tropas e que nunca mais brincava comigo!
- [O chefe das tropas? Mas de onde é que isto veio?] E ele?
- Ele ficou a olhar e depois fugiu. Mas depois veio perguntar-me se eu queria brincar às preguiças.
- Ah... e tu?
- Eu fui brincar com ele.
- E depois?
- Brincámos às preguiças ao pé do escorrega. E depois às escondidas...

Ah, a beleza da infância! A vida é simples, felizmente... Ainda é cedo, eu sei, mas já se passaram dias e nem mais uma queixa!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

[bullying no jardim de infância] histórias de dentro de casa


 Ontem o meu pintainho saiu da escola a coxear com a vovó. Estava triste, magoado, não olhava nos olhos, respondia com monossílabos. A minha mãe tinha tentado fazê-lo falar ainda na escola, diante da auxiliar da sala, mas ele recusara-se a dizer o que tinha acontecido. Nunca ninguém o tinha visto assim... É um desespero saber que temos uma criança que não só não se defende como não consegue ir pedir ajuda nem contar o que se passou. Até que em casa lá conseguiu contar à vovó que tinha sido o seu amigo B. que lhe batera. Que quando se aproximara da auxiliar para pedir ajuda, o B. tinha começado a chorar e quem tinha acabado por ficar de castigo tinha sido ele. Vinha mesmo magoado. E pior, acabou por dizer que isto vinha a acontecer há muito tempo...

Quando cheguei a casa fiquei estarrecida... no meu trabalho sou confrontada diariamente com situações de bullying que tento ajudar a resolver de forma positiva. Por isso desde sempre tentei prevenir esta situação em casa. Em primeiro lugar, a última coisa que quereria era ter um bully em casa, por isso desde os quatro anos que praticamos "exercícios de empatia"... Não sei como se chama, mas pronto, eu chamo-lhe assim... Da primeira vez que me ocorreu falar sobre o assunto, perguntei-lhe se havia meninos que batessem em outros lá na escola. Respondeu-me que sim, mas que eram os "grandes". (Ele era dos "médios").

- E porque é que não se pode bater?
- Porque magoa, mãe.

Fiquei feliz com a resposta do meu pequenino. E desde então que sempre continuei. Em histórias lidas ao deitar e em situações hipotéticas: "Como achas que o menino tal se haveria de sentir se o outro lhe chamasse assim e assado? Como é que ele poderia responder?" Sempre o meu pintainho me passou com distinção nas provas e perguntas. Há tempos descobri o livro "Orelhas de Borboleta" da Luísa Aguilar, que achei mesmo útil, quer para despertar a empatia, quer para treinar respostas criativas e dar um exemplo de resiliência.

Mas eu vejo, felizmente, que não tenho um bully em casa. O meu baby não é impulsivo, não se zanga com facilidade, quando fica frustrado não tenta bater (nem a mim, que supostamente é a pessoa com quem mais está à vontade, nem atira coisas ao chão), quando brinca com os primos rapazes é barulhento e desobediente para com os adultos, mas nunca entram em lutas físicas nem se chamam nomes. E claro, também não vê nada em casa que possa replicar na escola, que não me venham dizer que os meninos batem do nada. Só batem quando são batidos! Por isso fiquei tão desconcertada quando percebi que o meu baby andava a ser vítima sem me dizer nada e ontem ainda tinha ficado com culpas, sem apelo nem agravo. Acabou ainda por me confessar que o B. o tinha ameaçado para não ir dizer nada à educadora!

De facto, nunca tinha batalhado no reverso da medalha. Na necessidade de pedir ajuda e de dizer sempre a um adulto, mesmo sob ameaça, se alguém lhe batesse ou o fizesse sentir mal ou desconfortável. E então contei-lhe a história verdadeira de um menino meu da consulta. Mr. Shaka, o meu marido, até me perguntava disfarçadamente se só seria uma história "daquelas que eu conto" mas é mesmo verdadeira, infelizmente:

- Sabes, filho, tive uma vez um menino a quem um professor fez mal.
- Bateu-lhe, mãe?
- Não, calcula tu, que quando estavam sozinhos, o professor lhe mexia na pilinha.
- Ah...
- Quem é que pode mexer na tua pilinha, tu sabes?
- Sim, só eu. E o pai e a mãe para lavar. - suspirei de alívio, ainda sabia, valesse-me Nossa Senhora. Também ando há anos a batalhar neste assunto.
- E então o professor dizia-lhe assim: "Se contares a alguém vais para o castigo". E o menino acreditou. Não contou a ninguém e andava muito triste, cheio de dores de cabeça. [Uma vez até foi à minha consulta e tentou dizer-me que o professor lhe fazia muitas perguntas e que isso é que lhe fazia dores de cabeça. Eu já vi muitas coisas e desconfiei logo, mas perguntei-lhe de todas as maneiras e feitios, até mandei a mãe sair da sala de consulta, mas o menino foi incapaz de revelar o que tinha acontecido. Só aconselhei a mãe a mudar de professor, o que a mãe fez, felizmente, porque a sua intuição já lho tinha dito para o fazer].
- E depois, mãe?
- Então houve um menino que sabia que tinha de dizer sempre a um adulto se alguém lhe fizesse mal e que disse à mãe que o professor lhe tinha mexido na pilinha. E então o professor foi preso e o meu menino, que já não era aluno dele foi chamado à polícia. Depois de saber que o professor estava preso ele contou ao polícia o que o professor lhe tinha feito. E depois, sabes o que é que ele fez?
- O quê, mãe?
- Quando chegou a casa, foi logo explicar ao irmão mais novo o que o polícia lhe tinha explicado a ele: "Sabes, mano, nunca deixes ninguém mexer na tua pilinha ou no teu rabinho. Só tu é que podes mexer. E se alguém te mexer ou magoar deves logo ir dizer ao pai ou à mãe ou a outro adulto, porque os adultos que gostam de nós acreditam em nós e eles é que nos podem proteger!" Percebeste, filho?
- Sim, mãe, eu então digo. Se alguém me fizer mal ou se o B. me voltar a bater eu digo-te.

Bem, hoje lá fui falar com a educadora e fiquei mais descansada que estarão atentas. Mas não vou baixar a guarda até o ver seguro. Raio dos miúdos, que nos deixam sempre com o coração nas mãos...

sábado, 19 de novembro de 2016

[oh happy day!] então, beijo-de-mulata, não falas do casamento?

É verdade, meus queridos amigos... casei-me com Mr. Shaka no dia 12 de novembro. Ganhei toda uma nova credibilidade, um anel de noivado, uma aliança de casada, dois apelidos novos (agora chamo-me Senhora Dona beijo-de-mulata-de-Shaka-Zulu, valha-me Deus, beijo-de-mulata Maria, onde é que tu estavas com a cabeça?), uma despedida de solteira de sonho e um dia de princesa! E quinze dias (just say it!, quinze!) de licença!

Eu nunca tinha sonhado com esse dia. A minha felicidade não passava por aí... É verdade, meus amigos, garanto-vos. Mas enfim, os milagres acontecem na minha vida e tenho de os aceitar... O dia foi simplesmente perfeito para mim... foi quase mágico entrar mais uma vez na Basílica da Estrela, onde ia à missa em criança e ouvir o órgão histórico que acompanhava as missas da minha infância. E onde Mr. Shaka foi organista durante anos. E recordar que foi ali que eu e Mr. Shaka nos reconhecemos, vários anos depois de nos termos visto apenas uma vez... Ouvir a música de entrada, que era a pièce de resistance do concerto em que nos conhecemos (traduzida e adaptada por mim, claro, porque eu não queria que se falasse nos moinhos satânicos de Inglaterra no casamento, valha-me Nossa Senhora da Língua Portuguesa), cantada pelo melhor coro feminino que alguma vez poderíamos ter. E foi uma quase-surpresa ouvir as músicas que Mr. Shaka escreveu e orquestrou para a missa do casamento (não tenho autorização para as divulgar, que são apenas para consumo doméstico, um quase-segredo de família, diz ele).

Também o meu amigo João Andrade Nunes, para mim o melhor compositor da atualidade, não me desiludiu. Como aliás, nunca desilude em nada do que faz ou escreve. Já tinha escrito a ação de graças para o batismo do meu sobrinho, Baby M., com a letra da canção de embalar que eu ouvia cantar às mamãs macuas no hospital em Moçambique. Lembram-se?

Quero agradecer-te por teres nascido
Dorme, meu amor, fica tranquilo
Porque enquanto estiveres a dormir
eu fico aqui a repetir o teu nome
E Deus vela por todos nós...

Desta vez escreveu-nos uma ação de graças de ir às lágrimas. Podem ouvi-la aqui, desde que a ouçam até ao fim...



E perguntam vocês, e o baby-de-mulata, como se portou? Ah, esse foi um querido! Quer-se dizer... foi um querido depois de passado o choque inicial, semanas antes. O drama e o horror aconteceram quando descobriu que o tal de vestido de noiva com cauda, de que tanto se falava, tinha uma cauda sim, mas não como os dragões ou os dinossauros. Era de renda, acredite-se! E ele que estava tão entusiasmado... Como era possível? Traição! De renda, mãe? E... branco?! Ai valesse-lhe São Jorge...

Mas como eu dizia, passado o choque inicial, ainda demorou a aceitar que não podia ir vestido de dragãozinho, a fazer pendant com sua mãe. Mas, por fim, depois de várias negociações (e de alguns subornos, confesso, que nestes casos não há que olhar a meios), lá aceitou ir à baixa experimentar um fato a condizer com o papá. Mas sempre a ameaçar que só entrava na igreja se fosse ao meu colo. Menino das alianças é que ele não queria ser. Ainda por cima para me dar de mão beijada ao pai... Como se sabe, Freud pode ter dito muitos disparates, mas nisto não falhou!

Passou-me de tudo pela cabeça, que fugisse da basílica, que se me atirasse para o colo, que se borrifasse para as alianças e fosse jogar à bola para o adro da igreja. Tudo menos a forma irrepreensível como se portou! No momento certo olhou para mim e para o avô, que me dava o braço, e lá foi à minha frente, no compasso certo, ao lado dos primos, Mr. B. e Baby M., com a salva de prata na mão, direitinho até ao altar. Só vacilou no consentimento, quando eu e Mr. Shaka trocámos as alianças. Vi bem na cara dele que ficou triste quando percebeu que a mãe só se casou com o pai. Mas bastou sairmos do nosso lugar, mesmo a meio da missa, para lhe irmos dar um abraço e o baby lá se animou outra vez.

Não me apetecia despegar dali no fim, ao ouvir mais um cântico de Mr. Shaka, o cântico de vida nova... Mas lá fora aguardavam-me aqueles que amo incondicionalmente. Não estavam todos, é certo, porque não é possível nunca que venham todos os que queremos, por variadíssimas razões. Mas todos os que estavam eram muito, muito especiais. E isso basta.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

[vozes brancas*] um campo de batalha

Na semana passada, quando cheguei a casa da minha mãe, tinha o meu pintainho doente, jacente na cama da vovó com um ar miserável, a dormir com uma cara de quem está desesperado de dor e febre. Deitei-me ao lado dele de mansinho e tentei perceber se tinha dificuldade em respirar ou algum outro sinal de gravidade.

- Mãe...
- Estás acordado, filho?
- Sim, só tenho os olhos fechados porque me dói a cabeça.

A mãe que habita em mim é histérica, já sabemos. Dor de cabeça e febre?, ai valesse-me Nossa Senhora da Pia Mater! A pesquisa de sinais meníngeos (vulgo, encostar o queixo ao peito) deixou-o profundamente triste comigo: "Dói muito, mãe, não me mexas a cabeça!" A pediatra descansou, mas a mãe histérica quase ficou com o coração em sangue (pobre pintainho, uma boa mãe nunca faria isto a um filho). [E podia abrir aqui um longo parêntesis sobre esta vozinha interior de quem sou vítima de bullying diariamente, que me assola a alma e me diz que uma-boa-mãe-nunca-faria-as-coisas-que-eu-faço ao meu baby lindo, para vos perguntar se também vocês, mães que me leem, têm essa voz dentro do peito, mas eu hoje vim aqui para contar uma história, não vim para ter essa conversa nem para apresentar queixas de assédio moral, portanto, adiante...] Enfim, lá fiz das tripas coração, mandei calar a voz do grilo do Pinóquio e continuei a marcha diagnóstica. O baby-de-mulata, apesar do desconforto, compreendeu que era preciso abrir os olhos e a boca.

As amígdalas inchadas, a pele do peito vermelha e áspera e a língua em framboesa não deixavam lugar a dúvidas quanto ao diagnóstico**, o que acabou por me confortar. Era só preciso fazer o papel de mãe, que o antibiótico faria o resto. Mas o baby estava de facto em pânico, preocupadíssimo com o que se passava com ele.

- Mãe, podes dar-me colo?
[Mau, ele, sempre tão cioso do seu espaço na cama, a pedir colo? Está mesmo aflito!] - Anda cá, meu amor...
- Mãe, porque é que a garganta me dói?
- Porque tens lá um micróbio.
[O olhar subitamente horrorizado de quem, de repente, tem um filme de terror a passar-lhe diante dos olhos, com todas aquelas imagens horrendas de micróbios dos anúncios de detergentes e sabonetes, aqueles, estão a ver, meus amigos?, os que têm monstros a representar bactérias patogénicas?] - Um micróbio, mãe? Um monstro? O que é que ele me está a fazer à garganta?
- Não te preocupes, a garganta dói porque os glóbulos [já tivemos muitas vezes a conversa dos glóbulos a propósito das inúmeras coisas que ele não gosta de fazer, incluindo lavar as mãos e comer fruta] estão a combater os micróbios e por isso a garganta fica muito inchada porque eles estão para lá em lutas valentes.
- Mas porque é que a garganta fica inchada?
- Porque eles estão a lutar com muita força.
- Ah, com uma espada, mãe? Ou como uma tourada?
- Hum... com uma espécie de espada.
- E depois o que fazem quando os micróbios morrerem?
- Depois comem-nos.
[Um olhar aliviado e feliz] - Ah, boa! Para eles é bom, até podem fazer um petisco! Vão ficar muito contentes, então!

E pronto, só vim aqui demonstrar por A mais B que o grilo do Pinóquio pode achar que não mereço o filho que tenho, mas eu tenho o melhor filho do mundo!

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
** Escarlatina, para os que não estão habituados a doenças pediátricas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

[vozes brancas*] reforço positivo

Há dias, numa consulta de desenvolvimento, os pais de um menino com autismo manifestavam a sua perplexidade com o programa de treino intensivo [cujo nome obviamente não posso mencionar] em que tinham inscrito o filho:

- Sabe, doutora, eles fazem sempre o reforço positivo com comida. Mas em todas as sessões observam que ele responde muito melhor às palmas e aos elogios do que à comida.
- A na sessão seguinte?
- Como são sempre terapeutas diferentes, acabam por fazer o mesmo. Mas depois vêm dizer-nos que ele é muito sociável e que responde melhor aos elogios e palmas do que à comida, que ele tem muito boas características pessoais.
- Ah... e o que é que acham disso?
- Achamos que se calhar vamos procurar outro programa, o que acha, doutora?
- Claro! Onde é que já se viu um programa em que o terapeuta é sempre diferente e se vê que o menino responde melhor de uma maneira e não se ajusta nada ao menino na sessão seguinte? Ele quer ligar-se ao terapeuta e vai evoluir muito melhor de outro modo!

(E depois lembrei-me de uma cena familiar em casa dos meus pais: Há quase um ano, tinha o baby-de-mulata quatro anos e pouco. Depois de Mr. B, o meu sobrinho de sete anos, ter anunciado que queria ser engenheiro civil como o pai, o baby-de-mulata anunciou ao mundo em geral, e ao primo e a mim em especial que o estávamos a ouvir, que quando crescesse haveria de ser treinador de golfinhos. Já eu me perguntava quando tinha sido a última vez que tínhamos ido ao jardim zoológico ver golfinhos e nem me lembrava, e ele continuava:

- Sabes, é que eu já sei treinar golfinhos.
- Já sabes? - pergunta Mr. B, olhando para mim incrédulo.
- Sim, é muito fácil, queres que te ensine?
Fiz o mesmo olhar de espanto: - Sim, então como é que se treina um golfinho, filho?
- É canja! Quando ele faz bem, dás peixe!

E Mr. B, filho e neto de psicólogos, responde à letra ao que ele está a dizer:
- Tu não me digas que a tua mãe te dá chocolates quando tu fazes alguma coisa bem!

Ao que, muito ofendido, o baby-de-mulata responde:
- Claro que não, a minha mãe bate palmas e diz que está muito contente. Mas os golfinhos não percebem o que nós dizemos, por isso tens de dar peixe!

Pronto, era só um desabafo...)

* Voz branca - timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata

Nestes dias, talvez porque o baby tem estado em casa dos avós há um dia e meio e as saudades me apertam o peito, tenho-me lembrado dos dias em que o ia visitar, ainda antes de saber se o poderia levar para casa, ainda antes de me terem declarado apta para ser mãe dele, durante o processo de "escrutínio" que demora seis meses, em que somos entrevistados, submetidos a testes e provas e temos de provar quem somos e o que realmente queremos.

Tinha conhecido o baby no meu hospital um mês antes e, antes desse mesmo dia terminar, decidira que não o iria deixar ficar sem mãe. Se não aparecesse uma família para ele, eu própria iria lutar para que fosse meu filho para sempre. Nem quinze dias depois o baby teve alta do hospital e eu mal tinha tido tempo de o conhecer bem e de brincar com ele. Foi para um CAT (Centro de Acolhimento Temporário) a mais de uma centena de quilómetros de Lisboa, que se tornou o meu local de peregrinação nos meses seguintes. Não assisti à saída dele. As enfermeira depois relataram-me que tinham ficado inconsoláveis de o terem entregue depois de mais de um ano a cuidar dele, tão ligadas que estavam. Que só esperavam que fosse adotado depressa para ir finalmente para uma família...

No primeiro dia de visita o coração pulava-me, as borboletas na barriga saltavam: será que ele me vai reconhecer? Será que vai aceitar vir para os meus braços? Como será que as senhoras da instituição me vão tratar? Será que aceitam a visita de uma desconhecida que quer adotar o menino mas que ainda não tem autorização legal para tal? Será que me vão dar condições para vir visitar novamente amanhã? Ou vão impedir que crie laços com o menino se não têm a certeza de que vou ser mãe dele, já que depois vai ser ainda mais difícil para ele adaptar-se a outra família... E eu? Será que vou conseguir no meio disto tudo sobreviver se no fim não me entregarem o menino? E se não me declararem apta para adotar? Será boa ideia passar por isto sem ao menos me proteger um pouco?

Foi então que toquei à porta e a auxiliar da instituição me abriu a porta com o baby ao colo... O coração gelou-se-me... O baby não me sorriu, não deu qualquer sinal de me reconhecer, nem sequer olhou para mim. Antes da alta do hospital ele sorria para quem quer que fosse, como qualquer criança que não tem uma vinculação com ninguém em especial. Pensei que me estava a estranhar. Afinal de contas já não me via há um bom par de dias. Mas não, também não olhava para a auxiliar... Perguntei-lhe o que achava sobre isso. Respondeu-me que ele evitava o contacto ocular. Que no primeiro dia depois de ter chegado do hospital tinha dormido o dia todo, não lhe tinham conseguido quase dar de comer, tinha-se recusado a levantar-se da cama. Mas nos dias seguintes, com alguma insistência lá se tinha adaptado à rotina da casa. Já lhe conseguiam dar de comer. Desde há alguns dias também já lhe conseguiam pegar ao colo. Mas era um uma fita das antigas para mudar a fralda e dar banho... Estavam preocupadas e desconcertadas. Perplexas. Não sabiam o que se estava a passar. Ninguém lhes tinha dito que o menino tivesse assim tantos problemas de desenvolvimento... "Problemas de desenvolvimento" (!), foi o termo que a auxiliar usou, certamente já verbalizado pela psicóloga da instituição...

Uma fúria surda encheu-me o coração. Eu sabia que tinham ido buscar o meu menino ao hospital assim sem mais nem menos. Sem uma única hora de transição. "Viemos busca-lo, deem-no cá!" E foram-se embora com ele para o CAT. Eu sei que são instituições públicas, que não havia mães no processo, que as duas instituições distavam mais de cem quilómetros uma da outra. Que os recursos humanos são escassos e que um hospital e um centro de acolhimento têm dificuldade em dispensar dois elementos durante vários dias para fazer uma transição. Mas isto não se faz a um bebé! O meu menino, já de si tão frágil, abandonado à nascença, sem vínculo com ninguém em especial, que já tinha passado por oito cirurgias e mil tratamentos dolorosos, tinha perdido de um dia para o outro todas as referências e estava num sofrimento atroz!

Entregou-me o menino e fomos os dois para a sala de visitas. Era julho. Ou junho, aliás. Recordo-me do calor que se fazia sentir, que me sufocava, do olhar do baby que se me esquivava, dos seus movimento do tronco inclinando-se para a janela. Sem comunicar de forma nenhum. E, ao meu colo mas de costas para mim, abria e fechava a janela sem parar, alheado de tudo. Sem olhar para mim, sem olhar para o que se passava na rua. Apenas concentrado no movimento da janela a abrir e fechar. Eu tinha levado livros, brinquedos. Tentei diversas vezes chamar-lhe a atenção para o que trazia, mas em vão. De cada vez que lhe tentava captar a atenção, desencadeava uma birra descomunal. Se lhe mostrava um livro, levava com uma rosnadela. Uma hora e meia de visita passou-se deixando-me exausta, triste e frustrada. E ao baby também. Quando o entreguei, sem que lhe tivesse conseguido captar o olhar ou provocar um sorriso, estava destroçada e só pensava: "Será que vou aguentar voltar aqui? Será que aguento mais um dia disto? O que será que se está a passar?"

Fiquei arrasada. Não consegui contar a ninguém o que se tinha passado nem o que tinha sentido. Não consegui dizer o que se passava com o meu baby. Eu própria não compreendia muito bem. E tinha receio que alguém dissesse o que eu efetivamente vim a ouvir, ipsis verbis, semanas depois (que o menino tinha tido "uma regressão autística") e que me tentasse demover do meu projeto meio louco.

Agora sei, mas na altura não sabia: o meu menino tinha uma depressão da primeira infância! Uma depressão tão grave que se confundiu com autismo. Pela primeira vez vacilei. Mas não podia desistir. Com o diagnóstico de autismo então é que não apareceriam candidados a adoção e o menino ficaria sem família. E era este o menino que eu sempre imaginara que me cairia nos braços: um menino que mais ninguém quisesse. A única certeza que eu tinha é que era este o menino. Mas já não sabia se seria capaz de cuidar dele...

(talvez continue...)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

[vozes brancas*] voar mais alto do que a vista imagina...

Há poucos dias, antes da sesta, a minha mãe contava pela enésima vez ao baby-de-mulata a história do David e Golias (a quem o baby teima em chamar Gorilas), quando aquela alminha resolveu puxar mais um assunto difícil...

- Avó, o Rei David já morreu?
- Já, meu querido, o Rei David já morreu há muitos, muitos anos, que esta história aconteceu ainda antes de o Jesus ter nascido...
- Ah... pois, avó... Eu sabia, foi há mesmo muitos anos. [Ainda não era aqui que ele queria chegar, certamente.] Mas ele morreu porquê?
- Porque era muito velhinho, querido. [A resposta chapa-cinco lá de casa, não há cá mais explicação nenhuma antes dos sete ou oito anos, altura em que entrará a nuance chapa-sete à baila, das doenças e dos acidentes, muito mais ansiogénica e que por enquanto, felizmente, ainda não apareceu.]
- Ah. Pois, avó, era velhinho... E para onde é que ele foi?
- Foi para o céu.
- E quando eu morrer também vou para o céu? [Ah, era aqui que ele queria chegar!]
- Sim, querido, quando morrermos vamos todos para o céu.
- Tu também vais? [E aqui também...]
- Sim, filho, eu também.
- Ah, então já sei! Posso ir ao teu colo?
- Claro que sim, querido! [A minha mãe, já com a voz embargada... Como se explica o que nem nós próprios compreendemos? Como aplacar a angústia do desconhecido de uma criança?]
- Pronto, então está decidido, quando morrer vou para o céu ao colo da vovó! E depois, avó?... Voltamos cá para baixo?

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 26 de julho de 2016

[vozes brancas*] planos para o futuro

Na consulta de desenvolvimento, hoje, estava a ver um menino com uma perturbação de identidade de género, com um conflito latente enorme com o pai, que fica literalmente doente quando vê o menino a dançar ballet. Tem um ataque de nervos, sobe-lhe a tensão, sente-se desfalecer, fica com dores no peito, falta de ar, tem de ir para o hospital, que lhe dá um fanico, dois chiliques e três achaques. Haveria certamente quem dissesse que esta reação também é um pouco exagerada, mas enfim, cada um reage como pode (e aqui para nós, é assim que a gente percebe que o-menino-tem-a-quem-sair,-mas-enfim,-eu-não-disse-nada).

- O que é que queres ser quando fores crescido?
- Quero ser bailarino! - responde com um brilho nos olhos, de quem a mera palavra "bailarino" enche a alma.
- Que bonito, e o que gostarias de ser se não fosses bailarino?
- Acho que tinha também jeito para ser médico.
- Ah, acho que sim, que terias muito jeito! Sabes falar muito bem com as pessoas. E olha, aquele teu amigo, o David, aquele que gosta de dançar Hip-hop e pratica capoeira. O que é que ele quer ser quando for crescido?
- Ele quer ser Presidente da República... Ou então condutor do metro.

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

sábado, 16 de julho de 2016

[vozes brancas*] baby-de-mulata

Ouvido da cozinha:
- Filhote, anda aqui ajudar o pai - chamava Mr. Shaka da sala.
- Não posso, pai, estou aqui a treinar este gorila para o combate com o leão!

E tenho a dizer que assisti ao combate horas depois e quem ganhou foi o gorila! Temos Fernando Santos!

(Depois da vitória de Portugal parece que todos acreditamos mais um bocadinho...).


*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

[vozes brancas*] e vidas pequeninas...

Até há pouco mais de duas semanas eu tinha mais um menino do que tenho hoje na minha consulta. Desde há pouco mais de duas semanas que não o tenho... Mas é precisamente desde há duas semanas que tenho uma história aqui atravessada nos dedos para vos contar.

Eu sei que não é o timing, deixem-me flagelar-me... Nunca é, também... Portugal foi campeão do Europeu e, mal um gajo teve tempo de inchar de ser Português e já temos de ser franceses outra vez e vamos lá ver se não temos de ser turcos já amanha. Os acontecimentos sucedem-se a uma escala que não é a da minha consulta, porque lá as vidas são pequeninas. Pequenas demais para se verem do alto do facebook. Mas se só vivermos à escala mundial acontece-nos como a uma amiga minha, que há uns tempos se queixava de que a indecisão entre o aquecimento global e a vinda de uma nova era glacial estava a deixar o seu sistema imunitário louco. Confesso que admiro profundamente quem consegue perspetivar à escala planetária aquilo que acontece na sua mucosa nasal (e o que escorre dela). Mas eu continuo a ser loira. Loira com dois neurónios, um dos quais viúvo. Por isso só me ocorreria que a minha amiga teria uma rinite. Mas isso tem a modesta vantagem de, em vez de aconselhar o Protocolo de Quioto, quase impossível de cumprir e que, na melhor das hipóteses, só poderá reverter as alterações climáticas dentro de várias décadas, prescrever antes um anti-histamínico e, em calhando, no dia seguinte a minha amiga estaria boa! Ou pelo menos melhor. O que se perderia em superioridade moral ganhar-se-ia em simplicidade e qualidade de vida. Mas enfim, longe de mim ditar tendências.

Mas vá, tudo isto para dizer que tenho a história de uma vida pequenina para vos contar: encham-se lá de paciência, meus amigos... Ninguém vos obriga a vir aqui, que isto já não é o mato divertido de uma loira anónima mas, já que cá estão, não se vão embora sem tomar uma pinga de chá. O meu menino não era o Cristiano Ronaldo, mas era um bom menino. E tem uma história que merece ser contada. É rápida, de qualquer forma. E conta-se em três penadas:

Tenho um menino na minha consulta que viveu numa instituição praticamente desde o dia em que nasceu, abandonado pela mãe na maternidade. Prematuro de 28 semanas porque a sua progenitora consumia cocaína e, num pico de tensão enquanto snifava mais uma dose, teve um descolamento de placenta. Extremo baixo peso ao nascer. Tinha menos de um quilo quando nasceu, esteve ventilado mais de um mês, teve várias septicémias. Na primeira ecografia cerebral percebeu-se que o descolamento de placenta e a cocaína tinham tido consequências ainda mais graves do que a própria prematuridade: o menino tinha tido um AVC que lhe destruíra uma parte importante do cérebro. Para cúmulo, meses depois confirmou-se mais um presente envenenado: infeção vertical por VIH.

Foi este menino que me chegou há um ano à consulta. Era um menino sorridente e bem disposto. Persistente. Depois de meses de fisioterapia começou a andar apesar do cérebro que lhe faltava. Chorava quando se ia embora da consulta porque estava ávido de qualquer atenção. Tentava sempre levar um brinquedo de cima da minha secretária numa carência de afeto indescritível. Dizia algumas palavrinhas (água, papa, olá). Graças ao zelo das funcionárias do lar tinha uma carga viral indetetável desde o primeiro dia. Sorria com confiança para todos à sua volta porque as pessoas que cuidavam dele, apesar de não serem família, sempre lhe tinham sorrido de volta.

Mas há duas semanas, na hora da consulta dele, vi chegar um casal holandês com uma cadeirinha de passeio. Lá dentro vinha o meu menino, a cantar uma canção em holandês. Contra todas as expetativas, o menino tinha sido adotado cinco semanas antes e vinha à consulta já com os pais adotivos. Estavam os três radiantes! Desde há cinco semanas os pais tinham assistido a uma explosão de desenvolvimento. O menino, outrora com um atraso de desenvolvimento grave, que só começara a andar com meses e meses de fisioterapia, tinha começado a correr, a subir escadas, a saltar. Já compreendia holandês. Cumpria todas as ordens que a mãe gentilmente lhe dava: "Vai dar um beijinho à doutora", "Vai arrumar este livro na caixa azul". Já fazia frases em holandês. Estava feliz. Mesmo feliz. Mas no momento em que a mãe lhe disse: "Agora vamos para casa", fez menção de chorar, como fazia habitualmente. Começou a fazer beicinho. Agarrou-se a mim e aos brinquedos que tinha na mão para os levar com ele, no desespero de quem tenta prolongar o momento de atenção e alegria que vivera ali. Gelei por instantes, pelo desconforto que os pais poderiam estar a sentir. Pela angústia de separação do menino. Foi então que de repente, os olhos do menino brilharam novamente. Olhou de novo para a mãe como quem pensa: "Alto, espera aí...". Ela estava ali, à sua espera! Agora tinha uma mãe! E um pai! Afinal já não estava triste. Afinal tinha um sítio para onde ir que era muito mais feliz e seguro do que aquele. E saiu novamente a cantar, na sua cadeirinha, uma canção em holandês, que não me sai da cabeça desde então.

É tão, mas tão bom ver alguém fintar o destino!

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

[as melhores do serviço de urgência] febre a subir...

Do capítulo dos "Sinais Absolutamente Inequívocos de Febre Interior", uma das doenças tradicionais portuguesas mais intangíveis*:

No serviço de urgência de pediatria com uma amiga minha...
- O menino quando chegou estava com febre?
- Não, doutora, por isso não lhe deram nada na triagem. Mas agora tem febre interior a subir outra vez de certeza, doutora. Eu sei porque está com a pilinha murcha...

* A par com os apesar de tudo mais palpáveis "bucho virado" e a "espinhela caída".

quinta-feira, 10 de março de 2016

[inspiração para uma despedida] até sempre, irmã

Quem me conhece ou acompanha há mais tempo este blogue sabe que houve um blogue-antes-do-baby-blogue. Antes de ser mãe-do-baby-de-mulata eu era a beijo-de-mulata, e escrevia um blogue de aventura e saudade, um blogue que escrevia para manter vivas as recordações das missões em Moçambique, para que não me fugissem as imagens, nem os cheiros, nem as palavras, nem as músicas... nem a Irmã Lourdes. A irmã que me ajudou em tudo, que foi minha mãe, amiga, companheira, orientadora, animadora, mediadora cultural. Foi com os olhos dela que aprendi a amar o povo macua, compreender os seus paradoxos, as suas angústias, perdoar as suas negligências e atrocidades, admirar o amor incondicional que tinham pelas crianças, respeitar as tradições que protegiam as mulheres, as crianças e os idosos. Com ela aprendi a conhecer crenças, ritos, feitiços, aprendi a compreender de que falavam as pessoas no hospital quando me falavam de doença e o que esperavam de mim. E aprendi que só conhecendo a cultura podemos tratar verdadeiramente as pessoas, conquistar a sua confiança e comunicar.

Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."

Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.

"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.

Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.

Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.

Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.

Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.

E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!

Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!

Até sempre!"

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

[vozes brancas*] tecnologias...

Numa sociedade em que as crianças têm cada vez mais acesso precoce a perigosos distratores visuais - televisão, tablet, telefone, computador - o processamento verbal e auditivo e, por conseguinte, a leitura e escrita podem ficar seriamente comprometidos. Eu tento proteger o meu filho com unhas e dentes (sem fundamentalismo, claro, apenas prego uma valente rabecada de alto a baixo a quem se atrever a chegar perto da minha cria com um dispositivo eletrónico) e tendo cativá-lo para atividades mais físicas e apelativas. Ontem, ao jantar, o baby-de-mulata queixava-se de que a cadeira abanava. Foi então que descobri que alguém anda a boicotar as minhas nobres intenções. Virou-se para o tio que jantava connosco e disse com um olhar de entendido:

- Acho que tens de fazer uma atualização a esta cadeira!

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

[improbabilidades] uma vela a santa rita de cássia

Ontem na consulta do hospital, vi um menino pela primeira vez. Pareceu-me um menino um pouco tristonho, meio macambúzio, tímido, reservado, respondia com monossílabos, mas olhava-me com um olhar expressivo, intenso, como se quisesse compensar com o olhar o que não conseguia encontrar palavras para dizer. Educado, com vontade de agradar, coisa rara em pré-adolescentes (e, para mim, mau sinal, que um pré-adolescente a tentar agradar-me sem me conhecer de lado nenhum deixa-me sempre com a orelha levantada de que pode estar deprimido...).

- Então o que a traz a esta consulta? - pergunto à mãe.
- Doutora, eu vim aqui porque não sou de automedicar os meus filhos, eu tenho muito medo e só me automedico a mim e aos meus filhos com receita médica. Mas ele há uns tempos para cá que anda assim muito distraído, parece-me desmotivado. Lê uma coisa e no momento a seguir esquece-a, sabe uma coisa num dia, no outro dia já não sabe. Vai para os testes uma pilha de nervos... eu já pensei em acender uma vela a Santa Rita (piscadela de olho), mas tenho medo que não resulte ou que lhe faça reação...
- Uma vela a Santa Rita? Mas Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis?
- Sim, doutora.
- Bem, mal não faz, miminhos e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Mas isto é uma consulta de Desenvolvimento, não veio aqui para lhe ensinar a rezar a Santa Rita, pois não?
- Ó doutora, eu já experimentei com a Santa Rita e não deu resultado, por isso pensei na outra Rita... (nova piscadela de olho)
(Eu já incomodada com tanta piscadela de olho desadequada...) - Na outra Rita? Qual outra Rita, a Ritalina?
- Sim, doutora, a Ritalina! É que o irmão toma. Eu experimentei-lhe a dar e ele deu-se muito bem, mas como não sabia se lhe podia continuar a dar resolvi pedir esta consulta.

(Custou a desembuchar! Só me fez lembrar aquela anedota do século passado do senhor muito bem posto que vai à farmácia e pergunta: "Tem camisas com colarinhos e botões de punho prateados?" "Não, senhor, isto é uma farmácia, não vendemos camisas dessas." "Então dê-me das outras." Quanto ao resto, não comento!)

domingo, 20 de dezembro de 2015

[vozes brancas] a carta ao pai natal


 
Há dias, antes da história de adormecer, lá nos resolvemos, eu e o baby-de-mulata, a escrever "a carta" ao Pai Natal, que dezembro já ia bem avançado e urgia ter ideias claras sobre os desejos do rapaz para na hora da verdade fazer os seus olhos brilhar. Ditou-me a carta como se tivesse escrito cartas toda a sua vida (acho que aprendeu com um vídeo do YouTube do que costuma ver com Mr. Shaka, o seu papá-maravilha... um vídeo do Monstro das Bolachas da Rua Sésamo que faz rir os dois à gargalhada ante o meu olhar atónito. Para mim não tem grande graça, mas os dois ficam horas perdidas deliciados a repetir o mesmo vídeo, procurem e depois digam-me o que acham, se sou só eu que sou sisuda e exigente ou o sketch tem mesmo piada...).

Depois de me ditar três ou quatro objetos do seu ímpeto consumista, perguntou-me:
- Mas, mãe, o Pai Natal verdadeiro também pode pedir presentes?!
- Penso que não, filho, só as crianças é que podem pedir - respondi, divertida - mas porquê? Se fosses tu a pedir para ele, o que é que tu gostavas de pedir?
- Um Pai Natal igual a ele, para poderem brincar! Ele deve sentir-se muito sozinho e viajar com companhia é mais giro...

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

[vozes brancas] o anjo-de-mulata ou a alegoria da autonomia

Há dias, no colégio do baby-de-mulata, tivemos mais um TPC dos tais que me assustam e me deixam sempre a tremer com a sensação de "mas agora como é que eu vou pegar nisto, valha-me-Nossa-Senhora-e-o-Menino-e-tudo-e-tudo-e-tudo, mas esta gente julga que eu consigo fazer alguma coisa das minhas mãozinhas que não seja palpar barrigas e passar receitas?"...

Nestas alturas vêm-me sempre recordações dos suores frios das aulas de educação visual e de trabalhos manuais, em que achava que não ia conseguir fazer o que me era pedido e em que tudo era tudo muito penoso. Mas, enfim, lá acabava por achar uma solução: fazia composições com os pintores surrealistas, procurava inspiração em revistas e enciclopédias, copiava, imprimia, texturava... tão diferente de alguns colegas que faziam tudo de forma espontânea e criavam com as suas mãos em minutos o que me demorava horas a planear... No final dos períodos os professores acabavam sempre por me dar 5 "porque era muito esforçada e muito criativa, muito cumpridora e muito motivada". Nas informações finais apareciam todos os elogios mas jeito era mesmo o que eu não tinha de todo... E gosto então... zero! Quando cheguei ao 10º ano pensei que estava livre para sempre. Até o baby-de-mulata ter ingressado no jardim de infância...

Ora desta feita tínhamos um anjo para fazer a partir de... um rolo de papel de cozinha!

Com ar de pânico, desabafei com a auxiliar da sala, que foi a minha auxiliar também quando eu própria andei naquele colégio: "Ah, e agora? Será que vou ser capaz?" "Claro que és capaz!" (Ainda me trata por tu, aquela fofura...) E foi então que me enchi de brios e lá planeei a empreitada. O problema eram as asas. Mas como é que se faziam umas asas de anjo?! Foi então que me veio a solução: o meu anjinho seria um anjinho-engenhocas e em vez de asas teria...bem... outra coisa! O baby-de-mulata adorou a ideia e ajudou-me a inventar uma história, que fez vibrar os amiguinhos:


"Era uma vez um anjinho pequeno chamado anjo-de-mulata, que vivia com a mãe, a anja Rafaela, o pai, o anjo Gabriel e o irmão mais novo, o anjinho Miguel. [Aqui houve algum desentendimento inicial, dado que o baby-de-mulata queria que o irmão se chamasse Mr. B, e a mãe queria que se chamasse David, pelo que acabou por se chamar Miguel, como conforme as escrituras].

O anjo-de-mulata era um anjinho muito bem disposto e alegre, que adorava voar pelos céus, sobre o mar, atrás das gaivotas. Também adorava fazer coro com os pássaros da floresta, tocando trompete e, todos os dias, ao fim da tarde, ia jogar à bola, entre as nuvens, com as andorinhas que sobrevoavam o rio. Todas as manhãs, antes de sair de casa, os pais do anjinho recomendavam-lhe: “Não voes muito perto do sol, meu querido, voa baixinho porque as tuas asas ainda foram coladas há pouco tempo e a cola pode derreter com o calor do sol”. E, claro, o anjo-de-mulata tinha sempre cuidado quando o sol estava muito rijo, e só começava a voar mais alto ao fim da tarde, depois de o sol se pôr.

Até que um dia, distraído atrás de uma gaivota divertida, voou um pouco mais para cima e não reparou que o calor do sol lhe estava a derreter as asas… Quando deu conta que as asas estavam a cair já era tarde demais e… catrapum! As asas caíram e o anjinho, não tendo onde se segurar, caiu também, desamparado no chão. A sorte foi ter caído sobre um monte de roupa que as senhoras à beira do rio estavam a lavar e rebolou para a relva [aqui a história também difere da história de Ícaro porque o baby não concordou que o anjinho caísse no mar porque nada nos garante que os anjinhos saibam nadar, e a água do mar é muito fria. Por isso, preferiu rebolar para a relva porque é mais fofinha…]

A partir desse dia, o anjo-de-mulata deixou de conseguir voar. Mas o pai, Gabriel, fazia tudo para que ele não se sentisse sozinho: andava com ele às cavalitas pelo céu adentro, jogava com ele à bola todas as tardes depois da escola, com o pequeno anjo a guiar: “Pai, mais para a esquerda, pai, mais para a direita, olha ali atrás da nuvem, vem aí a andorinha avançada, ora bolas, golo!” Mas o pai às vezes atrapalhava-se e em vez de ir para a esquerda ia para a direita e os golos acabavam por entrar na sua baliza. E o pior era que o anjo-de-mulata estava a crescer e a ficar muito pesado. E o pai estava a ficar velho e cansado… O anjo-de-mulata só pensava: “Se eu pudesse voar sozinho não precisava de estar sempre à espera do meu pai, a cansá-lo, às cavalitas dele, podia voar como eu quisesse e brincar onde e quando me apetecesse…”

E foi então que o anjo-de-mulata começou a pensar. E pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia brilhante:

- Pai, eu não posso voar como um pássaro porque já não tenho asas… mas há mais coisas que voam, não há?
- Sim, meu filho, há mais coisas que voam: aviões, helicópteros, balões…
- Sim, pai! Tenho uma ideia, se eu não posso voar como um pássaro, talvez possa voar como um helicóptero. Basta pôr uma hélice no lugar das asas!

E foi então que o anjo-de-mulata se transformou num anjo-a-jacto, bem disposto, veloz e feliz!"

Feliz Natal a todos!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

[vozes brancas] o infinito...

Pergunta-me o baby-de-mulata, acabado de acordar, espreguiçando-se com um ar muito pensativo, enquanto recebia a minha massagem de acordar (a massagem-de-pôr-o-bacalhau-no-esqueleto, como a minha mãe lhe chamava):
- Mãe, o que há para além do universo?

(Ai, valha-me Santo Ambrósio, agora o que é que eu respondo um caramelo a quem a modorra da manhã dá para filosofar? Logo eu que de manhã nunca tenho nada de poético para dizer... Quando era mai nova também me interrogava sobre a origem do universo e os seu caráter infinito, agora interrogo-me mais sobre o que poderá ser o jantar e se a roupa estará enxuta para a Dona Teresa passar a ferro...)

- Para além do universo? Hum... Bem... só se for o céu do Jesus...
- Então, mamã, eu gosto de ti até ao céu do Jesus... e voltar!

(Caí em mim... sou a mãe mais feliz do mundo!)

sábado, 17 de outubro de 2015

[nomes que dizem tudo] mas, caramba, não deviam!

No outro dia, quase no final de uma reunião de trabalho bem disposta no hospital, a psicóloga que trabalha connosco levantou-se para ir atender um menino em consulta de primeira vez.
- Quem vai ver - perguntei, interessada -, algum dos meus?
- Não, vou ver um menino de primeira vez que vem referenciado de outra consulta por suspeita de atraso da linguagem.

Olhámos para o nome escrito no processo: Samir Semedo Tavares*, e o brainstorming começou: Um nome tão invulgar com apelidos tão portuguesinhos-da-silva... Eu disse que me parecia um nome de origem africana, mais porque valorizei os apelidos e não o nome próprio, outra colega apostava na etnia cigana, onde abundam nomes invulgares, outra colega mais versada em onomástica, dizia que um Samir teria necessariamente raízes ou inspiração asiática, que Samir em árabe queria dizer "jovial, bom companheiro" e que em Sânscrito queria dizer "ar e vento"...

No dia seguinte alguém se lembrou do Samir:


- Então, percebeu qual era a origem da família?

- Ah, sim, lamento mas ninguém acertou! Eram de Santarém. Portuguesíssimos!
- Mas perguntou a origem do nome?
- Perguntei, pois! Eles eram um bocado desconcertantes, com uma diferença de idades grande, a mãe com 40 anos e o pai com 23 anos, ele com um ar magro, vestido de preto, muito calado e sinistro e ela cheia de piercings, muito exuberante. Eles lá contaram então que o menino se chamava Samir em memória ao rio Sabor, "onde nos conhecemos pela primeira vez, doutora", disse-me a mãe com sorriso malicioso... E eu já arrependida de ter perguntado, não fosse a mãe desembrulhar ainda mais pormenores da intimidade. "Nós queríamos chamar-lhe Sabor, como o rio, mas no registo não aceitaram e, portanto, o mais parecido que havia era Samir".


[Acho que esta rubrica "Nomes que dizem tudo" qualquer dia vai ter uma subrubrica intitulada "Nomes que desbobinam tudo, tudo, mas mesmo tudo!"]


* Nome obviamente fictício: o primeiro nome tem uma letra trocada e os apelidos são equivalentes do ponto de vista da sua frequência e origem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

[vozes brancas] e teorias irrepreensíveis

Tenho um menino na minha consulta que quer ser cientista. Conheci-o há uns anos, muito aflito após a separação dos pais, com algumas birras perfeitamente compreensíveis. Agora está mesmo feliz, com uma vida cheia de futuros! Está no pré-escolar e, a propósito das primeiras chuvas de outono, a professora ensinou-lhe o ciclo da água, o que o deixou fascinado.

Há dias, durante a consulta, olhou pela janela, viu os grossos pingos de chuva que se agarravam ao vidro e comentou:
- Eu bem sabia que ia chover!
- Então, filho - perguntou a mãe, bem disposta - como é que sabias?
- É que ontem te vi a passar a ferro e percebi que o vapor de água estava a fugir pela janela. É por isso que hoje está a chover!

terça-feira, 14 de julho de 2015

[instantes ilustrados] melguices...

Esta noite, estava eu sentada com o meu baby-de-mulata, no sofá, de mãos dadas, a ver um filme da Disney, quando recebo um MMS de uma mãe aflita. Geralmente são fotos que me apresso a apagar porque apesar de compreender que os pais queiram ilustrar o sofrimento que descrevem e sentem literalmente na pele dos seus bebés (e que não se sintam à vontade para descrever com propriedade vocabular as alterações que veem), invariavelmente colocam-me um pouco desconfortável quando se trata de assaduras e candidíases de zonas íntimas. Há fotos que não me importo de ver, mas que não quero manter na memória do telefone...

A imagem, desta feita, mostrava uma criança serenamente a dormir, com uma borbulha tipo vesícula bem focada sobre o olho... E a pergunta: "Será varicela, Doutora?"

Seguiu-se mais uma troca de mensagens animada. A mãe respondia que não, que não tinha muitas borbulhas mais, só mais dus ou três dispersas pelo tronco. Que havia um primo que tinha inciado a doença dias antes. Ao que respondi que o período de incubação não é tão curto, só se se tivessem infetado ao mesmo tempo há duas ou três semanas. Enfim, chegámos à conclusão de que era necessário aguardar a evolução para fazer o diagnóstico.

Horas depois, pelas 04:00 da madrugada recebo nova MMS. Desta feita, uma mancha vermelha meio esborratada, ao lado de um ponto preto, num fundo branco. Meio estremunhada, com cara de ponto de interrogação ensonado leio a mensagem: "Doutora, acho que matei "varicela". Estava cheia de sangue e agora jaz na parede do quarto. Obrigada pela atenção."

E pronto. Paz à sua alma...