quinta-feira, 17 de Julho de 2014

[as melhores do serviço de urgência] obstinação

 
No serviço de urgência, a mãe de uma criança responde-me à pergunta: "Ela tem sido saudável?"
 
- Não, doutora, é obstripada desde que nasceu.
- Como? - genuinamente não percebi...
- Obstripada, doutora, é muito presa das tripas...

sábado, 12 de Julho de 2014

[as melhores do serviço de urgência] resistência à frustração

 


Há dias um colega de curso postou no seu mural do facebook uma pérola que não resisto a partilhar convosco. Nas suas palavras: "o equivalente à carta do monopólio para não ir para a prisão":

O meu colega, sobre os antecedentes pessoais da senhora:

- Dona Maria, diga-me então, por favor, que doenças tem ou já teve.
- Ai, xotor, sou muito doente... sofro muito dos nervos, sou muito nervosa...
- Então?...
- Sim, xotôr, sou mesmo muito nervosa, qualquer coisinha me faz disparar o coração, fico desnorteada e não vejo mais nada à minha frente. E então às vezes caio para o chão e outras vezes faço asneiras...

- Que tipo de asneiras?
- Parto coisas, atiro tudo ao chão. E às vezes no fim também caio... 
- E chega a magoar-se quando cai?
- Não, felizmente, xotôr, em trinta anos que isto me dá nunca me aleijei. Até estava ali a pensar na sala de espera... será que o xotôr me podia passar uma declaração médica para andar na carteira a dizer que não posso ser contrariada?

quinta-feira, 10 de Julho de 2014

[vozes brancas] homem prevenido...

Na semana passada eu estava de urgência no meu hospital e portanto quem se encarregou do complexo ritual de adormecer Dom baby-de-mulata foi Mr. Shaka.

E, depois de fazer uma cama no chão, o número do táxi, o número do café, a fantasia dos animais da selva, o baby finalmente acedeu a ir para a cama, rodeado por todos os seus objetos de transição, e dispôs-se a ouvir uma última canção.

Geralmente pede um Magnificat que eu e Mr. Shaka costumamos cantar a duas vozes. [Sim, que baby-de-mulata é um pequeno gentil-homem, requintado e com gostos eruditos. Um menino que do alto dos seus três anos já tem os seus pergaminhos e os seus cânones.] Ou isso ou "O carro do meu chefe teve um furo no pneu", que a seu ver é também uma música com elevado valor harmónico-melódico, e com efeito hipnótico equivalente.

De repente, a propósito de nada, já depois da última canção, do beijinho, de mais um beijinho, de um último beijinho, depois do "vou sonhar contigo", depois do exercício africano "não deixes que os mosquitos te piquem", o baby-de-mulata perguntou a Mr. Shaka:

- Papá, podes cantar o Magnificat no meu casamento?

[Querem ver que me saiu um organizado?! O único da família mais caótico-catastrófica da história da humanidade? O menino ainda não tem namorada, ainda não tem os estudos concluídos nem um emprego estável, mas já começou a tratar do que se podia ir adiantando "para não deixar tudo para a última da hora".]

terça-feira, 8 de Julho de 2014

[vozes brancas] aprender a andar de bicicleta...

Na urgência, no outro dia, ao meu lado, um miúdo muito bem disposto explicava a uma colega minha como aprendera a andar de bicicleta uma semana antes, na marina do Parque das Nações:

- O meu pai empurrou-me como das outras vezes mas, dessa vez, em vez de cair como sempre, olhei para a frente e comecei a pedalar. E o meu primeiro travão foi um senhor idoso que ia a atravessar à minha frente. Ele agarrou a bicicleta e eu atirei-me para a relva, que foi o meu para-choques.

domingo, 6 de Julho de 2014

[as melhores do serviço de urgência] a minha vida dava um filme cigano

Ontem, na urgência, um casal bem meu conhecido (aliás, conhecido de todos nós, que fazemos urgências de pediatria) vinha com o filho de dois anos e meio, bem disposto, cheio de vitalidade apesar da febre. Olho para o histórico enquanto o chamo pelo intercomunicador do meu gabinete: é a quarta vinda ao serviço de urgência no período de 24 horas (suspiro).

Mais de 60 vindas ao serviço de urgência no último ano. Motivo da presente vinda à urgência: febre. Das outras vezes também. Uma febre que não baixa, "tem tido 38, doutora, às vezes vai mesmo aos 38 e meio!" Replico, numa voz que pretende tranquilizar, que se trata de uma febre baixa. O pai responde-me, de súbito muito exaltado, que a temperatura normal dele é 35,9ºC, pelo que os 38 valem por quase 40, e com 37,8ºC já começa a ficar completamente de rastos e a tremer. (Suspiro) Enfim, um clássico. Vejo no processo que o menino tem história de convulsões febris. Daí o pânico dos pais, concluo.

Vejo também que já teve consultas de Neurologia por causa das convulsões, já fez exames que excluíram doenças graves e epilepsia. Que o pai também teve convulsões febris na infância. Está tudo escrito em todos os registos.

Tentei explicar que as convulsões febris são situações benignas, que o menino já estava medicado, que inclusivamente tinha mudado o antibiótico horas antes, da última vez que viera à urgência (certamente tinha feito a cabeça em água à minha antecessora) e que agora era preciso dar tempo ao tempo.

Nada feito. Do alto do seu metro e oitenta e muitos, o pai declarava-me que podia ser cigano, mas que também era médico de medicina chinesa, eu que não me atrevesse a contestar o que ele dizia. Que ele é que conhecia o menino. E sabia muito bem que quando o menino passava dos 38,2ºC, a parte do corpo do umbigo para baixo gelava, ao passo que a parte do corpo do umbigo para cima aquecia, e o cérebro ficava baralhado, sem saber se haveria de arrefecer a parte de cima ou aquecer a parte de baixo. E vai daí, pifava e fazia uma convulsão, capaz de o matar em dois minutos!

- Mas não adianta tentar evitar as convulsões, e as convulsões do seu menino são benignas e não deixam sequelas.
- Não são nada benignas, doutora, eu também as tive e chegaram a dizer à minha mãe que eu tinha morrido.
- Pois, mais me ajuda! E aqui está o senhor, saudável e sem problemas nenhuns. [Desta última parte não tenho tanta certeza, mas ficava bem na argumentação!]

Nada feito. O pai exigia que eu fizesse como os meus colegas costumavam fazer e que desse um medicamento na veia ao menino para lhe baixar a febre.

Mas eu, talvez por ter a parte do corpo acima do umbigo à mesma temperatura que a parte de baixo, não me deixei baralhar e afirmei-lhe que não iria agredir o menino com medicação na veia coisa nenhuma, que não havia razão para isso.

Levanta-se o pai e aproxima-se, com cara de quem me vai bater nos próximos segundos:

- Eu sou médico de medicina chinesa, mas também sou cigano, ouviu? Tenho a minha família ali fora! Vai ou não vai fazer o que eu lhe estou a pedir?
- Escute, o seu menino está bem, não há necessidade de o picar! E não nos resolve o problema, que daqui a quatro horas temos outra vez a febre a subir! Se calhar os senhores deviam ir novamente à consulta de Neurologia para se tranquilizarem. Temos centenas de meninos com convulsões febris e nenhuma família faz o que os senhores fazem. Não é normal, acreditem!  [Oh, valha-me Santa Rita de Cássia, estou mesmo a pedi-las, é desta que vou levar porrada dentro do hospital!]
- Está bem, doutora. Mas enquanto a febre não baixar não vamos embora daqui.
- Pronto, é convosco [Ufa...], mas então vão para o jardim, não fiquem na sala de espera que ainda levam daqui outro bicho. [Desisto, se ficarem à porta da sala de reanimação também é com eles...]

Ao fim do dia saíram dali com indicação para procurarem um psicólogo...

sábado, 5 de Julho de 2014

[vozes brancas] as melhores do serviço de urgência

Esta noite, no serviço de urgência, um menino de 9 anos, regressava do serviço de imagiologia, onde fora fazer uma TAC por uma dor de cabeça que o fazia vomitar todas as manhãs desde há mais de uma semana. Vinha nitidamente mais bem disposto, depois da medicação de choque que eu lhe dera logo à chegada.

- Então, querido, já vens com outra cara! Estás melhor?
- Assim, assim...
- Olha, mas se não estás, pareces! Há bocado até estavas aflito com as dores.
- Não, não era com as dores, eu estava aflito porque ouvi que ia fazer um "ataque" e fiquei com medo, mas afinal não custou nada!

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

[as melhores do serviço de urgência] cuidado com o sol!

 
Imagem daqui.
 
Na urgência da semana passada vi um menino que vinha por um ataque de urticária de partir o coração, de tal forma o menino estava aflito e se arranhava, como se a dor pudesse aliviar aquela sensação de ardor e comichão que o desesperava.
 
A avó vinha a resmungar que vários meninos tinham passado à frente do neto "e tinham só febre", ao passo que o dela estava "mesmo" doente, capaz de ter um choque da filoxera.
 
Engoli em seco e não ripostei, que se a dor de uma mãe que não consegue aliviar a dor de um filho é indizível, a aflição de uma avó deve ser pelo menos duas vezes pior, que sofre pela filha e pelo neto...
 
- Não se preocupe, pelo menos um choque anafilático não pode ser, ou ele estava agora aqui com falta de ar.
- Ai, doutora, mas não vê como ele está aflito? Já passa, meu amor, já passa, não coça, não coça, filho, já passa, deixa a avó pôr mais água fria...
 
E continuava naquela lengalenga, enquanto abanava o neto, lhe esfregava a pele com água fresca e o tentava consolar.
 
- O menino tem alguma alergia?
- Não doutora, eu estou é desconfiada que isto foi do sol, que ele de manhã foi à praia com a escola e se calhar não lhe puseram o protetor ou então tiraram-lhe a roupa e ele não pode.
- Ele já tinha tido esta reação antes ao sol?
- Sim, doutora, e eu já tinha avisado lá na escola que era preciso terem-me muito cuidado com o sol no menino, e o médico também já tinha dito à minha filha que ele no verão faz fotossíntese.
 

domingo, 29 de Junho de 2014

[SNS we can!] ranking hospitalar

No serviço de urgência do meu hospital:

- O menino tem sido saudável?
- Não, Doutora, o meu filho está a ser seguido na consulta de Dermatologia dos Cachuchos porque tem uma dermosite.
- Uma dermatite?
- Isso, um "equizema", doutora. Mas já me disseram que para estas coisas o melhor é o Hospital do Rego e não os Cachuchos.
- São os dois muito bons, não tem de se preocupar.
- Ai preocupo sim, doutora, que há uns anos o meu marido fez um "clister ao pato" nos Cachuchos, que lhe custou muito a fazer, e nem sequer ficou bem feito, e afinal no hospital Polivalente faziam lá clisteres com "sedução". Por isso é que fiquei sempre de pé atrás com os Cachuchos.
- Mas é um bom sítio para tratar o menino, esteja descansada!

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

[vozes brancas] desenho figurativo

No outro dia, na consulta, vi um menino com quatro anos, um talibanzinho de primeira água, que vinha por atraso de desenvolvimento da linguagem.

A mãe tinha um primeiro impacto absolutamente desconcertante. Metade do cabelo rapado e a outra metade curta e espetada, pintada de loiro, com dois piercings por cada prega facial, o olhar pueril e espantado de quem tenta não olhar para si própria para não ver o corpo de mulher, as marcas da maternidade, nem as finas rugas em torno dos olhos, por culpa dos anos que lhe arranhavam o rosto e lhe roubavam o olhar de menina. Porque, intimamente, a adolescência ainda não estava resolvida.

Era uma mãe eternamente espantada por aquele menino lhe chamar mãe, por aquele menino que lhe chamava mãe se comportar como um terrorista e não lhe obedecer prontamente como ser racional que deveria ser, por aquele menino não ser o companheiro de brincadeiras que idealizara. Todos os dias surpreendida por ser chamada de mãe. Por ser chamada à razão por um ser de quatro anos que lhe começava a ensinar que as crianças precisam de regras e limites, prémios e castigos tanto quanto do amor que sempre se dispusera a dar-lhe. E lhe dava todos os dias, apesar de todas as patifarias que lhe aprontava. A começar pelo facto de ter aparecido dentro dela sem aviso e sem planeamento prévio.

Passado o primeiro impacto, aquela mãe era um amor, bem disposta, muito afetuosa, numa relação de quase fusão com o menino, simbiótica, como são as relações de muitas mães que, por força das circunstâncias, ficaram frágeis e sozinhas a cuidar dos filhos. E esta mãe tinha ficado sozinha por sido vítima de violência doméstica, uma situação muito grave e muito prolongada.

Passado o primeiro impacto, esta mãe é mais uma das minhas heroínas.

À pergunta: "Tem alguém na família com doença psiquiátrica?", o novelo emaranhado que é a história deste menino desenrola-se à minha frente. Uma história de violência que já começara duas gerações antes:

- Bem, doutora, alguém na família com doença psiquiátrica... O pai também conta?
- Claro!
- Era toxicodependente, alcoólico e de vez em quando tinha explosões de fúria em que destruía tudo o que lhe aparecia à frente, e era violento para as pessoas de quem gostava.
- E o menino assistiu a essas cenas?
- Não, a violência física nunca assistiu propriamente, mas ouviu muitas discussões e tive momentos de me barricar com ele no quarto, com o pai aos pontapés à porta.
- Bem, mas então sentiu a sua tensão, a sua angústia...
- Sim, é verdade, viu-me chorar muitas vezes, viu-me desmoronar, ouviu discussões.
- E quais eram os principais motivos de discussão?
- Ciúmes. Ciúmes horríveis. Delirava com todos os homens que se aproximassem de mim menos de 20 metros.
- Mas, daquilo que se apercebeu, era uma pessoa que estivesse sempre dentro da realidade? Ou tinha ideias delirantes assim que não fizessem sentido ou pensamentos bizarros?
- Não, era uma pessoa que estava na realidade. Quer dizer... Se "metesse um ácido" é claro que saía da realidade, nas era só nessas circunstâncias.
- [Valha-me Nossa Senhora das Substâncias de Abuso!] Ok, já percebi...

Contou-me que nos últimos tempos, antes de ser obrigada a fugir com o filho, levando apenas a roupa que tinha vestida, andava sempre com uma bolsa dentro da roupa, encostada ao peito, com os documentos dela e do filho e dinheiro para as passagens de avião para Lisboa, para o caso de ser obrigada a fugir de repente.

A mãe ia falando do nascimento do menino, do pai que a controlava constantemente, revia-lhe todas as mensagens no telemóvel, lia todos os mails, toda a correspondência, ia busca-la ao trabalho, aparecia de surpresa sob qualquer pretexto. Seguia-lhe os passos ao minuto!

Ela e o filho escaparam com vida, com mais sorte que habitualmente, porque após a fuga não foram perseguidos nem tiveram ameaças por parte do pai. Mas as sequelas eram visíveis, na fragilidade da mãe e no comportamento disruptivo do menino. Não parava, não falava,  não tinha um jogo construtivo ou organizado, piorava a olhos vistos se a mãe se afastasse ou mesmo se voltasse costas. E se lhe mandassem fazer o que quer que fosse, chorava, ficava aflito, tudo lhe doía, amuava, gritava.

Ai, valesse-me Nossa Senhora dos Aflitos. Como é que eu ia conseguir explicar àquela mãe que o menino precisava mesmo de regras e de pulso forte, porque o problema não era genético, como ela alvitrava e assumira desde o princípio: "Ele sai ao pai, doutora! O pai era igual em criança.".

- Não, mãe! O que ele sofre é de falta de fé!
- Falta de fé?! Como assim, falta de fé?

- A sua falta de fé nele e nas suas capacidades de se fazer obedecer como mãe. Ele não tem problema nenhum. Vai falar quando conseguir sair desta agitação tão grave. E para isso tem de ser firme com ele para lhe dar segurança sobre o que pode ou não pode fazer.
- Mas ele não me obedece em nada!
- Mas vai obedecer! Vamos fazer um plano, ok.

Entretanto uma colega minha afadigava-se em volta dele para o fazer sentar e começar a pegar nos lápis para um desenho.

- Queres desenhar a tua família, Rodrigo?
- Tim, 'tá bem!
- Então vá, podes escolher as cores.

Em três segundos o desenho estava acabado e o menino novamente aos saltos pelo gabinete de consulta.

- Então, Rodrigo, a tua família já está? - perguntei, meio zangada.
- Tim, tá.

- Rodrigo - chamou a mãe, suavemente -, só vejo ali três bolas. O que é aquilo?
- Tou eu, a mãe e a vó [esta eu percebi: "Sou eu, a mãe e a avó."]

- Não são, não, Rodrigo, são só três bolas.
- Não - respondeu o Rodrigo, como se nada fosse -, tomo tó de tima da tonte.

A mãe desatou a rir e traduziu:
- Somos nós de cima da ponte. É como se estivéssemos representados em perspetiva! Este miúdo não existe! Tem resposta para tudo e é preguiçoso como o caraças, Doutora! Sai ao pai, é o que eu digo, a doutora não me acredita.
- Não torne a vir com essa conversa, o que ele tem é que não se concentra dois segundos! E a mãe tem de ouvir o que eu tenho para lhe dizer ou ele não vai melhorar.

[Voltei a vê-lo há duas semanas. Não parecia o mesmo! E já falava muito melhor.]

sábado, 21 de Junho de 2014

[uma vez loira...] sentido de orientação

Há dias, eu brincava animadamente com o baby-de-mulata pelo corredor acima, com ele montado numa capulana colorida, com animais estampados. Era "o táxi da nossa rua". "Para onde deseja ir, senhor baby-de-mulata?" "Pa'a o ja'dim da est'ela!" "E´ para já, senhor!"

Às tantas, baby-de-mulata apanhou novamente o táxi para voltar para casa: "Para onde deseja ir agora, senhor baby?" "Para a minha casa!"

Nisto fiz-me de parva para ver se ele sabia o caminho de memória. "E como se vai para lá, senhor baby?" "Vamos pela rua que sobe, mãe." "Mas como, baby, viramos à esquerda ou à direita?" "P'imei'o é à esque'da e depois sobe." "Mas como, baby, antes ou depois dos sinais?"

Nisto vejo o meu filho a dar o seu primeiro suspiro com cara de d'ah... Um revirar de olhos para cima. Uma cara de "não vale a pena, desisto":

- Mãe, pa'a ir pa'a casa é p'eciso um táxi a sé'io.

sábado, 14 de Junho de 2014

[vozes brancas*] consciência fonológica...

Ontem, na urgência, perto da meia-noite, chamei um Francisco de 4 anos. Segundos depois, pelo gabinete entrava-me um piratinha envergonhado, com a cara meio escondida no regaço da mãe, quase imóvel, com um dos ouvidos colado ao seu peito quente. Saltava aos olhos que tinha uma otite à direita. Estava o diagnóstico quase feito só pela posição do menino.

- Boa noite, então o que se passa com o seu príncipe?
- O Francisco estava a dormir e acordou há cerca de meia hora cheio de dores de ouvidos.
- Já lhe deu alguma coisa para as dores?
- Sim, dei-lhe Brufen assim que se queixou.
- Então já deve estar a fazer efeito. Meu querido, boa noite, vamos ver o teu dói-dói?

Desencostou-se da mãe a medo, mas rapidamente percebeu que já não estava a doer tanto, e animou-se ao perceber que tinha o Faísca no ouvido e o Jake na garganta.

- Doutora, estamos preocupados porque daqui a quatro dias vamos viajar... Será que vai ter problemas no avião?
- É capaz, sim, as diferenças de pressão são difíceis de suportar. Tem mesmo de ir?
- Sim, doutora, já está tudo marcado. Temos o casamento da minha irmã e ele é o menino das alianças.
- Bem, então não pode faltar. Temos de começar já o antibiótico e já lhe vou explicar os cuidados a ter... Tu vais para onde, meu amor?
- Vou pa'a a terra de onde vem o sal - respondeu com os olhos a brilhar! A mãe fez uma cara de espanto...
- Ai sim, vais para o Sal? Em Cabo Verde?
- Não, vou pa'a a terra de onde vem o sal!
- Ah, e de onde é que vem o sal?
- Vem do salmão!
- Ah, estou a ver! Então vais para a terra do salmão?

- Sim, doutora, vamos para a Noruega. Francisco, que ideia é essa? Deves estar a delirar...
- Lindo! Deixe estar, mãe, deixe-o fantasiar! Só prova que pensa nas coisas e que tem consciência dos sons das palavras.

[Que delícia de interpretação! Vai longe, este miúdo! E o que se perde em propriedade vocabular ganha-se em fantasia e consciência fonológica. Um excelente prognóstico quanto à capacidade de aprender a ler!]

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quarta-feira, 4 de Junho de 2014

[ouvido por aí] psiquiatrices



 
Lido por aí...
 
 "Eu não tenho uma conta no facebook, não tenho uma conta de Twitter nem do Instagram. Por isso vou pela rua e de vez em quando anuncio bem alto o que comi, o que estive a fazer e como é que as coisas vão lá em casa. Esta semana consegui três novos seguidores: dois polícias e um médico."

sábado, 31 de Maio de 2014

[outras palavras] voluntariado em moçambique

 
Os adoráveis gémeos da Maria!
(Mitande, Niassa)
 
Já vos falei dela: a minha amiga Maria, enfermeira de formação e coração (e, se Deus quiser, quando regressar, também o será de profissão), que está há quase 18 meses em Mitande, uma terra mágica, na província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Mulher de sete ofícios: médica, enfermeira, parteira, confidente, mecenas, psicóloga, personal coacher, orientadora vocacional. Há dias escreveu assim na sua página do face:
 
Já foram internados há quase um mês… como é possível ainda não ter escrito nada sobre os meninos dos meus olhos?, um casal de gémeos adoráveis, que conheci em Dezembro… na altura gordinhos, apenas era necessário um reforço na alimentação materna – afinal encontrávamo-nos na época da fome e eram duas crianças amamentadas por uma só mãe. Depois de três vindas ao nosso Centro de Recuperação Nutricional, a mãe não voltou mais…

Voltou agora, muito magra, com os pequenos a pesarem menos que em Dezembro. Pedia desculpas por não ter voltado, adoecera gravemente e “desconseguira” chegar na data marcada… tentara vir depois, mas as chuvas intensas elevaram o rio Lugenda [rico em fauna exótica – cobras, crocodilos, hipopótamos] acima da ponte, pelo que se resignou. Tornou a adoecer e só agora conseguira chegar.
 
Num desses períodos de pouca saúde, descreve que terá tido uma mastite, que lhe “secou” a mama direita. Então, era ver duas crianças-pele-e-osso, famintas, lutando por uma única mama que, de tão sugada, não é agora mais que um pedaço de tecido flácido.

 Agora, já em recuperação – ela mais gordinha que ele, fruto da sua resistência a esses alimentos artificiais ricos em nutrientes [particularmente o maravilhoso pumply'nut - a maravilha da ciência, inpirada em Nutella], vão-me fazendo as delícias das minhas manhãs com os seus sorrisos marotos e caprichos típicos de crianças famintas…

Quem ousa dizer que não são uma delícia estes dois anjinhos?
E eu quase chorei de saudades desse povo que me ficou no coração... Quase me dói o peito. Não me julguem mal, adoro a vida que tenho agora. O preço a pagar por ter adotado o meu baby-de-mulata - não mais voltar a Moçambique -, pagá-lo-ia dez vezes mais, mas a saudade fica a pulsar dentro do peito de cada vez que vejo estes sorrisos envoltos em capulanas.

A minha esperança é que o baby queira ir comigo um dia quando voltar!

terça-feira, 29 de Abril de 2014

[outras palavras] poema do homem com gripe


Poema do Homem com Gripe

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes

Mr. Shaka, o pai do baby-de-mulata está doente. Há males que vêm por bem... O meu baby lindo, que sempre quis ser "jogado' de futebol" ou "p'ofessor de corridas" começou a brincar aos médicos na cama do pai e hoje dei com ele afadigado de roda de um papel e a colar um autocolante ao lado. Perguntei-lhe o que estava a fazer: "Estou a passar uma receita!"

domingo, 20 de Abril de 2014

[sons que nos elevam] estou rendida!





Assisti à estreia absoluta desta Missa na Igreja de São Tomás de Aquino e fiquei absolutamente rendida. Até o baby-de-mulata, habitualmente tão desprendido de mim nos concertos, concentrado nas suas brincadeiras silenciosas, que só levanta a cabeça para encontrar o meu olhar furibundo nº3 quando se apercebe de que fez inadvertidamente algum barulho (sim, eu nestas situações lanço logo, como preventivo, o nº3, que quer dizer "se-fazes-mais-algum-barulho-pego-em-ti-ao-colo-e-é-esse-o-teu-castigo-que-eu-sou-mãe-de-fracos-recursos-podias-ter-escolhido-melhor-mas-enfim-foi-o-que-se-pôde-arranjar"), de vez em quando parava e ficava a ouvir.


Mais para o final da missa, aproximou-se de mim, pediu-me colo e ficou ali a namorar-me, a dar-me beijinhos e a aninhar-se em mim, embevecido por aquela música que o elevava e arrebatava... (Ou será que está apaixonado por mim?) No fim bateu palmas entusiasticamente.


A igreja estava à pinha e no encore via-se que as pessoas estavam sideradas! Pregadas à cadeira. Ninguém respirava... E digam-me os que são apreciadores/ conhecedores se não é a missa mais bonita, mais doce que já ouviram? Só postei o Sanctus, que não vou maçar quem não aprecia, mas está tudo ali por perto no youtube, para os que quiserem ouvir. Que privilégio ter assistido a uma estreia assim! Obrigada ao compositor por aqueles momentos tão próximos com o meu baby!

terça-feira, 8 de Abril de 2014

[histórias de adoção] retirada!




Tenho alguns meninos que não aprendem na escola. Os professores por vezes fazem alguma pressão para eu os medicar porque eles não se concentram. Têm certamente "défice de atenção". Mas isto que se passa na cabeça destas crianças é o indescritível, o indizível...

sexta-feira, 28 de Março de 2014

[as melhores do serviço de urgência] um problema numa tromba

- A senhora é saudável?
- Não, o meu médico diz sempre para eu nunca me esquecer de dizer que uma vez tive um problema numa tromba.
- Ah, mas isso não tem muita importância para o menino, deve ser mais é quando vai ao Ginecologista.
- Não, mas ele diz-me para dizer ao pediatra.
- Ah, mas e foi antes ou depois da gravidez?
- Não, foi durante.
- Teve uma gravidez fora do sítio?
- Não, foi na gravidez do João, a única que tive.
- Mas como é que foi?
- Um dia a perna começou-me a inchar muito, a ficar muito quente e eu cheia de dores.
- A perna?
- Sim, a perna. E depois fui logo para o hospital e diagnosticaram-me uma infeção da tromba venosa. Tive de andar a tomar muitas injeções na gravidez...

[Ah, valha-me Deus, uma trombose venosa!]

quarta-feira, 26 de Março de 2014

[as melhores do serviço de urgência] ele está a fazer temperatura...

- O menino tem febre?
- Sim.
- E qual foi o máximo que teve?
- Foi para aí… trinta e tal.
- Mas tem de medir, mãe!
- Eu medi, mas não tenho termómetro.
(Suspiro)
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- O menino teve febre hoje?
- Sim.
- De quanto?
- Tinha 37ºC, Doutora, quase 40!
(Suspiro)
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- O menino tem tido febre nos últimos dias?
- Sim, doutora.
- E o corpo fica quente?
- Não, é febre só… O corpo não aquece…
(Suspiro)
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- A menina tem tido febre?
- Sim, doutora, tem estado muito molinha, transpira muito e não come. Mas ponho-lhe o termómetro e não acusa… Será febre interior?
(Suspiro)

segunda-feira, 24 de Março de 2014

[vozes brancas] são metáforas, senhor, são metáforas!

"Ninguém compreende a minha bichinha", lamentava-se a mãe de uma princesa esta tarde na consulta. "Calcule doutora, que a minha empregada me ligou no outro dia a dizer que a Maria [nome obviamente fictício] se estava a queixar das pernas. E como a doutora sabe, da última vez que ela se queixou das pernas acabámos no hospital internadas com uma púrpura. Fui de charola para casa e dei com ela a correr e a pular, muito bem disposta e surpreendida por me ver".


"O que tens, filhota?", perguntara-lhe. "Nada, mãe, eu não estava a fazer nada, eu portei-me bem!" "Sim, querida, eu sei que te estavas a portar bem hoje, mas a tia Céu chamou-me porque estavas a queixar-te das pernas." "Eu?! Não, eu só disse que tinha tosse nas pernas." "Tosse nas pernas?" "Sim, mãe, quando eu corro fico com tosse!"


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- E depois é isto, doutora! Não hei de eu andar meia louca! Tenho uma filha a quem tudo acontece, um marido que está fora e uma empregada completamente histérica!
- Bem, olhe, mas em contrapartida tem uma filha poetisa! Não lhe corte essa veia poética, que tem futuro! Quem me dera a mim escrever assim...

terça-feira, 18 de Março de 2014

[querida futura mãe] filhos felizes



Eu vejo todos os dias que não é fácil... Mas é possível!

segunda-feira, 10 de Março de 2014

[músicas para o baby-de-mulata] eu tinha quatro patinhos



Foi com esta música que ensinei ao baby-de-mulata que há palavras e palavrões. Palavras que se podem dizer em todo o lado e palavras que só se podem dizer em casa... Um dia, estávamos muito bem dispostos e ensinei-lhe esta música com a letra adulterada (ver abaixo). Riu-se imenso mas rapidamente percebeu que fora de casa, no jardim, no supermercado, no hospital da mamã e locais afins levava com o meu olhar furibundo nº 3 só de esboçar os lábios para a e palavra e só tinha autorização para cantar a versão original... De vez em quando há alguém que lhe ensina mais uns palavrões e agora é muito mais fácil explicar que essas palavras pertencem à mesma categoria que a música dos "Quatro patinhos que cheiravam a chulé"...

"Eu tinha quatro patinhos
Ai, eu tinha quatro patinhos
Que cheiravam a chulé!
Que cheiravam a chulé!
Vieram para o nosso lago,
Ai, vieram para o nosso lago,
Vieram lavar o pé,
Ó saricoté, ó saricolá
Ai vieram de lá para cá,
Ai vieram de lá para cá!"


[as melhores do serviço de urgência] it runs in the family


Poderá ser esta, a dita árvore?




Ouvido de passagem na urgência, de uma mãe absolutamente verborreica, com um discurso tipo fuga de ideias:


- Ele tem dislexia e hiperatividade. Sabe, doutora, a árvore ginecológica também não ajuda...


Ora aí está, quem sai ao seus...

domingo, 9 de Março de 2014

[atualidades] parentalidades

No outro dia, na consulta de uma criança de 4 anos que vinha por um atraso de desenvolvimento da linguagem, o pai do menino, juiz de profissão, perguntou-me assim, casualmente, enquanto eu o mandava despir e palpava a barriga, o que é que eu achava sobre a adoção por casais homossexuais e sobre a lei da co-adoção... Fiquei siderada! Era bom que a pergunta não resultasse de uma qualquer associação de ideias perversa, iniciada quando o mandei tirar a roupa do menino. Fiquei desconfortável e devolvi a pergunta com um ligeiro sorriso:

- Por que me faz essa pergunta?

A última coisa que eu queria naquele fim de dia era discutir questões de princípios, argumentar e contrargumentar com alguém que não conhecia bem, sobretudo sobre assuntos que para mim são óbvios e simples. Tanto mais que a criança tinha vários problemas muito mais urgentes de discutir do que o sexo dos anjos (ou, com maior propriedade, o sexo de seus pais). Mas quem é que no seu perfeito juízo tenta discutir questões deste calibre em plena consulta do próprio filho, valha-me Nossa Senhora do Bom-Senso!

- Ah, Doutora, desculpe, eu sei que a consulta é do meu filho, mas ando há que séculos para lhe perguntar isto porque no outro dia tomei uma decisão e não fiquei totalmente convencido... Tinha um menino que foi vítima de maus tratos por parte da mãe. Quando houve a denúncia foi hospitalizado e depois era preciso tomar uma decisão: ou bem que era institucionalizado ou ficava a viver com um tio que era homossexual e vivia com um companheiro.

- E que decisão tomou que o ficou a atormentar?

- Decidi entregá-lo ao tio.

- Mas esse tio não foi avaliado por um psicólogo ou um psiquiatra? Ou pelo menos um assistente social? O mais importante é saber se a pessoa a quem se entrega a criança é organizada do ponto de vista mental, se está disponível para acolher a criança e se tem capacidade para estabelecer uma boa relação com o menino.

- Foi isso tudo. E a assistente social e a psicóloga garantiram-me que ele tinha uma boa relação com o miúdo e o miúdo com ele.

- E então, que dúvidas teve?

- E a Doutora não teria dúvidas?

- Não, não estou a ver a razão da sua preocupação, de facto...

- Ok, doutora. Eu era contra, totalmente contra o direito de casais homossexuais adotarem crianças. Mas é curioso que neste caso eu também não tive dúvidas... Mas custou-me imenso tomar esta decisão. A doutora concorda?

- Claro! Ainda bem que conseguiu distanciar-se da sua própria opinião pessoal!

- Pois foi, doutora! Mas o que era a minha opinião comparada com a felicidade daquele menino?

Ah, grande homem! Dizem que só os fracos não mudam de opinião e este, apesar de pouco esclarecido nesta matéria, soube tomar uma decisão tendo em conta o superior interesse da criança! Dei-lhe os parabéns pela decisão difícil e descansei-o quanto ao facto de as crianças criadas por casais homossexuais não terem mais problemas psicológicos ou de desenvolvimento que as outras. E por ali ficámos, que ainda tínhamos entre mãos um caso igualmente difícil...

sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

[vozes brancas] corpo estranho

No outro dia, estava de banco no meu hospital e chamei uma menina de três anos e meio. Classificada com cor amarela na triagem, sinal de que o caso inspirava algum cuidado ou que precisava de ser assistido com uma certa urgência. Olhei para o relatório da equipa de enfermagem enquanto aguardava que a menina me chegasse ao gabinete de observação: "Suspeita de ingestão de corpo estranho." Suspeita?! Como assim, suspeita? Com três anos e meio já sabe dizer o que foi que aconteceu... Isto promete!

Felizmente a criança vinha a respirar sem dificuldade, sem sinais de ter um corpo estranho encravado numa qualquer parte do tubo digestivo ou aparelho respiratório e sem outros sinais de alarme. Falava animadamente com a avó no momento em que entrou no meu gabinete, mas assim que me viu, o seu semblante fechou-se, carrancudo, e de dedo em riste apontou-me logo ali de caras que eu era culpada do maior pecado da Pediatria:

- Tu não és a minha médica!

O tom zangado avisava-me de que não estava para brincadeiras. Eu que me pusesse a pau, que já tinha sido descoberta com a boca na botija, em plena prática ilegal de Medicina! Ao olhos daquela juíza de palmo e meio eu deveria ser condenada de imediato e restabelecida a ordem pública!

- Pois não - confessei de imediato, que quem diz a verdade não merece castigo -, é verdade, não sou a tua médica. E quem é a tua médica, princesa?
- Tu não és a minha médica, eu quero a minha médica!

Resolvi mudar de estratégia:
- Mas olha, eu sou muito amiga da tua médica. Foi ela que me disse para falar contigo e te ver.
- Mas eu só quero a minha médica. Tu não és a minha médica! A minha médica é castanha e tu és loira!
[Mau! Então agora não só me acusava de não ser quem deveria ser como ainda me discriminava pela cor da pele? Bem, o melhor seria ignorar, que estava visto que por ali já não íamos a lado nenhum...] - Está bem, linda, mas olha, o que foi que tu engoliste?
- Não dizo!

Olhei para a avó: o que se passara? Que também não tinha a certeza, mas que a meio da tarde começara a dizer que tinha comido uma coisa e por isso queria ir à médica...
- Ah, e ela não disse o que foi?
- Não, não dizo! Eu quero a minha médica!
- Pois, doutora, já me passou pela cabeça de que tenha dito isto só para chamar a atenção e ir ao consultório da médica, que ela adora a sala de espera dela!
- Ah... não viu nada nem lhe notou nada?
- Não... Mas não estou nada descansada. E se é verdade?
- Bem, podemos ir fazer um raio x.
- Está bem...

Por fim regressou, com a avó cabisbaixa e com cara de quem enfiou o maior barrete do último ano... Fosse o que fosse que tivesse ou não engolido, não era radiopaco de certeza!
- Princesa, diz lá o que foi que engoliste, vá!
- Não dizo, já disse! Eu quero a minha médica!
- Pronto, pronto, deixe estar Doutora. Não podemos ter a certeza, que ela não vai dizer mais nada.

E, de facto, não dizeu! Mas a sério que fiquei mesmo bem disposta! Esta miúda vai longe! O que se perde em simpatia e flexibilidade, ganha-se em assertividade e determinação!

terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014

[outras palavras] patologias...



 
Já saiu o Psicopatos, um livro sobre o maravilhoso mundo da psicopatologia, ciências psicológicas e psicanálise selvagem!
Desculpem, só hoje o descobri e serviu-me tão bem a carapuça... Parabéns, senhor Montenegro!