Terça-feira, 21 de Maio de 2013

[as melhores do serviço de urgência] sinais de bom prognóstico...

 
 
Serviço de Urgência ontem à tarde...
(Estefânia em baixa resolução)
 
Passei fugazmente no corredor da cirurgia. Uma adolescente com uma apendicite aguda, finalmente sem dores (e conhecedora do facto de que, numa sala do bloco operatório, um balde de lixo esterilizado aguardava placidamente pelo apêndice responsável pelas suas últimas noites mal dormidas), lia o Memorial do Convento. Só lhe faltava o derradeiro sinal de bom prognóstico: estar de perna traçada. Mas isso era uma questão de dias...
Ah, grande seleção de esperanças!

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

[psicanálise selvagem] lapsus linguae

Na consulta há uns tempos, a madrasta de uma criança relatava-me a consulta Psicologia a que tinha acompanhado a enteada tempos antes. Queixara-se na consulta de que a enteada estava o tempo todo agarrada ao pai (marido da "queixosa") e que aquela dupla imbatível tinha um fim catastrófico anunciado. Que ele lhe fazia as vontades todas, que ele não a ajudava a fazer os trabalhos de casa e que até dormia com ela se lhe pedisse.

Concordei que eram tudo maus hábitos e formas de funcionar que não promoviam a autonomia da criança.

- Pois, doutora, a psicóloga lá nos esteve a explicar que a menina ainda estava numa fase muito Edipeniana e que era preciso acompanhamento...

Eu concordei novamente, mas tive de deixar cair a caneta ao chão, Valha-me São Freud de Viena! Não consegui evitar um sorriso... O que será uma fase edipeniana? Ah, sim, aquela fase tão importante e específica do desenvolvimento em que o Édipo fica com inveja do pénis?

Terça-feira, 2 de Abril de 2013

[silly season 2013] não sei que vos diga...


Não sei que vos diga nem que vos conte... Há um preço a pagar pelo amor que morre ou que nos morre por dentro, que é o luto e a dor. Mas a verdade é que pelos vistos também há um preço a pagar pelo amor que cresce. E esse preço é a falta de inspiração! Desculpem qualquer coisinha, tenho estado a ver se isto me passa, mas o facto é que continuo em estado de graça e enquanto estiver assim, nicles...

Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

[frase do dia] que me ecoa na cabeça há semanas

Você, como sabe, é um elemento precioso desta equipa, mas não faz parte da estrutura, faz parte da conjuntura... Portanto não é justo para si que nós lhe exijamos que fique.

Se tivesse sido hoje, eu não tinha ligado nenhuma, mas não era o dia das mentiras...

Segunda-feira, 18 de Março de 2013

[exercícios africanos] inculturação moçambicana

 
Padrão de uma capulana

Decidi, desde o primeiro dia do baby-de-mulata nesta casa, manter um programa diário de exercícios africanos. A noite não é exceção. Tenho sempre uma capulana para o tapar e servir de resguardo na cama de grades, que serve também para qualquer eventualidade: usamo-la como pano de tourear nas noites de insónia e agitação, para limpar lágrimas e babas nas raras noites de birra, enxugar salpicos de água ou leite, para cobrir os bonecos nas brincadeiras de esconde-esconde. Em  último caso, em algumas noites de festa brava, a cama transforma-se na casota de um cão de guarda feroz e a capulana faz de teto dessa casa quentinha e acolhedora, que acaba, enfim, por chamar um sono tranquilo...

Qualquer menino moçambicano que se preze sabe que pode usar a seu bel-prazer todas as capulanas de sua mãe. Por fim, depois de todas as loucuras e touradas, despeço-me com o último momento de inculturação do dia: "Boa noite! Não deixes que os mosquitos te piquem!"

Quarta-feira, 6 de Março de 2013

[sobreviver à primeira infância] acidentes e segurança



Disclaimer: Meus amigos, vocês sabem que eu não gosto de falar de coisas sérias aqui no mato, por isso, este post também não será uma lição de sapiência sobre puericultura. Eu só faço serviço público muito de vez em quando e sempre por motivos de força maior, como naquela vez em que a querida Sónia Morais Santos confessou o seu receio de ir a casas de banho em bombas de gasolina... Por isso, se buscam literatura sobre acidentes e segurança na primeira infância, podem seguir viagem agora mesmo.

Há tempos, na consulta dos 12 meses de uma menina bem-disposta, palradora e com um desenvolvimento acima da média, falávamos da introdução dos sólidos na alimentação, abordei os receios dos pais, falei dos riscos de engasgamento e estivemos a rever as manobras básicas de reanimação em caso de obstrução da via aérea. Falei sobre os cuidados a ter e como evitar os acidentes, encorajei-os nesta nova etapa:

- Ela ainda não tem mais do que dois dentes incisivos, mas já tem capacidade para mastigar coisas moles, por isso não tenham receio...
- Sim, doutora - respondeu o pai -, isso é verdade, e coisas duras também! No outro dia fui dar com ela a mastigar uma casca de noz há horas...

A mãe olhou-o (e se o olhar matasse, tinha mais uma certidão de óbito para passar ali mesmo, para além das receitas - de culinária e das outras):
- Uma casca de noz?! Como assim uma casca de noz?
- Ó querida, abri-lhe a boca para ver o que é que ela tinha lá posto e descobri uma casca de noz, que ela devia ter encontrado debaixo de alguma coisa...
- Já reparaste que estas coisas só te acontecem a ti? E porque é que não me disseste nada?

Resolvi pôr água na fervura:
- Pois, todo o cuidado é pouco, mas tiro-lhe o chapéu! Como é que deu conta que a sua filha, a gatinhar no chão e entretida com os brinquedos, tinha alguma coisa na boca? É preciso muita perspicácia!
- Não doutora, é que a miúda sai à mãe, é uma tagarela de primeira, não se cala um segundo. Eu estava a ler o jornal e de repente reparei que ela estava calada há muito tempo. E vai daí soou "aquele alarme"..

Olhei-o, incrédula: ele não estava a dizer aquilo, não podia ser! Mas ainda continuou:
- Se fosse a mãe era porque estava amuada de certeza... A menina não devia estar amuada comigo, mas estranhei na mesma. Fui averiguar o que se passava e encontrei-lhe a casca de noz dentro da boca.
- Bem, isso é verdade, é mesmo desde o berço. Quando uma mulher está muito tempo calada, há sempre alguma coisa de errado.* Bem, neste caso tudo correu bem, mas é melhor pedirem à empregada para limpar o chão e debaixo dos móveis todos os dias - e apressei-me a mudar de assunto, antes que o casamento acabasse ali mesmo.

*Aprendam, senhores!

Domingo, 24 de Fevereiro de 2013

[a quebra do silêncio] simplex III

Pois que o mato andou calado durante uns tempos, em modo de hibernação, e por aqui só se ouvia o chilrear dos passarinhos no cimo dos cajueiros e pouco mais. Em parte isso deveu-se ao facto de o meu computador ter tido uma paragem curto-circuitória e eu não me ajeitar muito a escrever no Marvin, o meu andróide paranóide. Foi difícil sobreviver à constatação dolorosa de que o backup que eu tinha dos discos já tinha para cima de um bom par de meses, mas felizmente parece que a memória do bicho está intacta, tinha era mais cotão na ventoinha do que uma casa de três homens solteiros sem empregada, e ainda teve mais um diagnóstico que neguei violentamente mas que toda a gente sabe que é verdade: sim, eu  confesso, adormeço com ele ligado quase todas as noites. Mas adiante, que estava a explicar-vos esta silly season fora de horas.

Em parte também estivemos ocupados a tentar tratar do cartão de cidadão do "baby-de-mulata". Como ainda estamos naquela fase cinzenta em que ainda não temos a adoção plena mas já temos vontade de viajar, fomos tentar tratar dos documentos obrigatórios, os que qualquer cidadão deve ter e aos quais tem direito. Pois... Não conseguimos. Por mais que me informe através da linha de apoio, quando chegamos à hora da verdade falta sempre algum papel. Ou uma cópia. Ou três cópias. Agora já sabemos que temos de ir à cidade de origem do baby buscar mais uma certidão. Mas um dia... ah, um dia... Um dia, meus amigos, hei de sair triunfante da Loja do Cidadão como esta heroína aqui abaixo!


Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

[casa sem mãe é um deserto] a metáfora

Depois de postar o provérbio africano ali abaixo, que diz que sem mãe, qualquer lar é um deserto, fiz o caminho de volta do mato até Lisboa e calculem que só então me apercebi que esse provérbio, para ser verdadeiro, aqui não pode passar de uma metáfora. Onde se lê "mãe" tem de se ler "carinho", nada mais. Aliás, na semana passada estive num encontro de adoção com pessoas que adotaram crianças há menos de seis meses e conheci dois homens solteiros (ou divorciados, ou coisa que o valha, que isso não me interessa, amigas, não se ponham já a sorrir com cara de caso) que se meteram na aventura de adotar uma criança sozinhos. A casa deles não tem mãe mas, pelo que me contaram, é um oasis que os meninos encontraram no seu deserto emocional.

Um deles, o F., falou-me de peripécias absolutamente desconcertantes, ainda muito recentes, com o filho de cinco anos, que lhe perguntou, da primeira vez que foram ao supermercado, como se chamava a senhora da caixa. Ele, um pouco encavacado por a senhora os estar a ouvir, respondeu que não sabia, que não a conhecia. "Então porque estás a brincar com ela ao Monopólio?" E foi então que o F. percebeu que ele nunca tinha visto dinheiro ao vivo e pensava que as notas e moedas eram peças de brincar. Tal como rapidamente se apercebeu de que o filho nunca tinha visto alimentos crus, salvo banana e laranja, e pensava que os alimentos que ele tinha na cozinha eram brinquedos como aqueles com que as "meninas pirosas" brincavam às cozinhas no lar onde vivera.

Contou-me que o filho o chamou de hora em hora durante a noite nos primeiros quinze dias, até lhe explicar que não podia chamar tantas vezes porque os dois precisavam de dormir. A cara de espanto do menino foi inacreditável: "Mas os crescidos não dormem! Lá na outra casa eu chamava sempre e as educadoras vinham. Estavam sempre vestidas e a conversar." E o F. lá lhe explicou que todos os adultos dormem e que o pai, especialmente, precisava de dormir bem para ficar bem disposto. Depois explicou-lhe o que fazer em todas as situações para as quais ele o tinha chamado noites a fio: frio, calor, vontade de ir à casa de banho, sede, etc. Ele não se sabia tapar sequer...

Contou-nos ainda que um dia o menino o viu a arrumar comida no frigorífico e aproximou-se pé ante pé. Segredou-lhe então baixinho, pregando-lhe um susto: "O que é que estás a esconder?"

É absolutamente maravilhoso imaginar o menino que lhe chegou a casa há cinco meses e a explosão de desenvolvimento que se deve ter seguido para chegar a ser o menino bem adaptado, simpático e desenvolto que é hoje. Em cinco meses! Portanto bem se vê: para dar vida a um deserto não é preciso uma mãe, é preciso haver quem ame e se interesse.

Domingo, 3 de Fevereiro de 2013

[áfrica é rica #2] um deserto

 
Sem uma mãe, qualquer lar é um deserto...
Provérbio africano

Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

[vozes brancas*] um assalto

Há mais de cinquenta anos, uma geração e meia antes da atual, o pai de um amigo meu era ainda uma criança [ai, valha-me São Jacques de la Palisse...]. Há uns tempos, num evento familiar, à porta de casa, houve um cheiro que o fez transportar-se de repente para cinquenta anos antes: a noite em que a casa da sua avó foi assaltada. Contou a emoção que sentiu ao ver o agente da polícia a entrar naquela mesma casa, de farda engomada, bigode farfalhudo e com um ar muito circunspecto. A meio da investigação, o pai desse meu amigo, então com 8 anos, abeirou-se do agente e pediu licença para colocar uma questão:

- Como foi que os ladrões entraram se não tinham a chave de casa?
- Abriram a porta com um pé-de-cabra, rapaz - respondeu o agente secamente.

O menino ficou absolutamente horrorizado. Pediu licença novamente e retirou-se, incomodado com a imagem. Ainda o ouviram murmurar, a caminho do quarto, a frase que ficou para sempre como piada privada da família: "Coitadinha da cabrita..."

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013

[outras palavras] um ladrão com sentido de humor!


 
É esta a notícia: a bolacha centenária de cobre que fazia parte da escultura de uma empresa fabricante de bolachas alemã foi roubada. O dono da empresa ofereceu mil euros a quem pudesse dar alguma pista sobre o paradeiro da sua velha bolacha. E foi então que o ladrão se deu a conhecer. Pediu um resgate! O resto é sorrisos.
Eu podia contar-vos a história, mas a Helena já a contou muito melhor! Vão lá ver que é de morrer a rir... Ou de sorrir para dentro, vá.
(Hannover, Alemanha)

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

[áfrica é rica] a vida de um povo

 
Mulher idosa...
(Quénia)
Imagem daqui
Quando morre um velho é como se ardesse uma biblioteca.
Provérbio africano

Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

[never take anything for granted] o próprio chão estará garantido?

 


 
Cheias na cidade de Chókwè...
(Gaza, Moçambique)
Fotos de sítios vários da net.
 

As enormes cheias que desde há uma semana estão a devastar a cidade de Chókwè, no Sul de Moçambique, deixaram quase cinquenta mil pessoas desalojadas, segundo o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (sim, existe um Instituto Nacional de Gestão de Calamidades em Moçambique, o que nos diz muito sobre o país e a forma como é gerido...).

Há dias, conversava com a minha amiga C., a minha mamã africana, sobre a forma como as pessoas muitas vezes resistem até ao último momento para aceitar que a catástrofe está iminente, que a vida vai mesmo mudar e que é preciso protegermo-nos e aos nossos, independentemente de todos os bens materiais que fiquem para trás.

(Em Moçambique esta situação é ainda mais difícil porque o futuro é território que pertence aos antepassados, o futuro é algo de quase sagrado e inviolável, portanto as pessoas muitas vezes não só não acreditam nas previsões, como se comportam ostensivamente como se não soubessem de nada. E continuam a pensar que as catástrofes só dependem do destino e não é possível fazer o que quer que seja para se protegerem.)

Mas eu e a C. concordávamos que, de qualquer forma, é muito difícil raciocinar quando está em causa o poder violento da natureza em situações limite. Foi então que ela me contou que no início dos anos '90, em plenas cheias de Maputo, foi buscar o marido ao aeroporto. Não havia taxis e não tinham motorista, portanto a única solução era ir buscá-lo. A rua quase tinha desaparecido, engolida pelas águas e havia muito pouca visibilidade por causa da chuva que não parava de cair.

- A minha mãe ficou com os meninos e eu fui com o meu pai ao aeroporto. E ele dizia-me: "Vai devagar, que a estrada está aqui mesmo em baixo, havemos de chegar." No dia seguinte, mesmo no cruzamento onde tínhamos parado, havia um buraco enorme onde podia cair um camião...

É difícil acreditar que mesmo o chão pode não estar sempre garantido. Por isso também não me espanta a atual situação da Zambézia... Rezemos...

[welcome to mozambique] nampula, a linda!

 
Nampula vista do ar, com um arco-íris fantástico sobre os montes-ilha, um relevo fascinante, quase absurdo. Montanhas que se erguem, súbitas e bruscas sobre a savana, transformando uma terra plana numa paisagem de conto de fadas.
(Nampula, Moçambique)
Foto da minha amiga J.

Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

[dsm beijo-de-mulata #4] beijos do cluster c

- Dependente - Precisa de outra pessoa para quem enviar beijinhos. Sem ela não envia beijo nenhum.

- Obsessivo-compulsivo - Envia beijinhos persistentemente.

- Evitante - Desculpem. Já vos tomei tempo demais. Eu sei que não mereço. Não vos deveria ter ocupado tanto tempo inutilmente apenas para vos enviar beijos patológicos... Desculpem.

[dsm beijo-de-mulata #3] beijos do cluster b

- Anti-social - Desde a adolescência que beija muito, como quer e bem lhe apetece, não tendo mesmo escrúpulos em enviar falsos beijinhos.

- Borderline - Envia inúmeros beijos curtos, mas muitíssimo intensos, cada dia para um sítio diferente (sky is the limit). Sempre à procura de emoções fortes, muitas vezes dedica-se a desportos radicais, como os beijinhos saltitantes (beiji-jumping).

- Histriónico - Beija sempre. Mas só da boca para fora.

- Narcísico - Envia beijos fantásticos, mas só àqueles que admira. Unicamente esses o podem compreender. Tem inveja dos beijos dos outros e está frequentemente empenhado em fantasias de beijos perfeitos ou do beijo ideal. Luta arduamente para se tornar membro das instituições mais conceituadas de beijos de elite.

Domingo, 27 de Janeiro de 2013

[dsm beijo-de-mulata #2] beijos do cluster a


Perturbações do Cluster A

- O Paranóico - Nunca envia beijinhos. Qualquer beijo poderá constituir um pretexto a ser utilizado contra si para que o beijem também.
- O Esquizóide - Nunca envia beijinhos. Ele lá tem as suas razões.
- O Esquizotípico - Nunca envia beijinhos. Ou melhor... nunca envia beijinhos fisicamente. Mas, em espírito, envia um beijo de luz para expressar o quanto deseja que a aura do outro se ilumine e assim permaneça. Depois envia um conjunto de sete beijos para desfazer todo o mau-olhado que recai potencialmente sobre essa pessoa. Projecta-se no outro e acaba por se tornar no próprio recetor dos beijos. Duvida da eficácia dos seus próprios beijos para desfazer o mau-olhado que afinal é sobre si que acaba por recair. Entra em stress e envia um beijo em lá bemol para chamar ajuda. Tenta beijar o próprio cotovelo para transmitir o desespero à pessoa que lhe veio acudir (geralmente a mãe, que mais ninguém tem paciência; em casos mais graves vem a enfermeira), abraça a lista telefónica para pedir um copo de água e uma lima, mas deixa-a cair acidentalmente. A queda da lista é um indício muito forte de que alguém, algures, o quer beijar, pelo que tranca a porta para veicular a ideia de que pretende ficar só.
(Cluster B e C seguem em breve)

[dsm beijo-de-mulata #1] perturbações osculares



Não, o título não contém nenhum erro ortográfico... Estou mesmo aqui hoje para vos falar de perturbações osculares... Sim, é isso mesmo, beijos. Tanta gente a  falar de ósculos por todo o lado (supostamente em publicidade velada ao Magnum, valha-me Santo António do sentido oculto!), fez-me lembrar que também tenho uma palavra a dizer. Ultimamente ando um bocado maria-vai-com-as-outras, é certo, mas isto em princípio passa-me para a semana que eu sou mais maria-vai-ao-jardim-passear-o-menino-e-ver-as-vistas. Hoje apetece-me pegar no tema. Até porque sei que passam por aqui muitos estudantes de Medicina que podem aprender alguma coisa com o poço de sabedoria e virtude que é este mato.

Lição nº 1: através da leitura de mails e SMS, conseguimos diagnosticar perturbações da personalidade nos beijos. Por exemplo, alguém me enviou há tempos "beijocas gordas, escalfadas e encaloradas!" E não, o facto de ela estar no Brasil não era desculpa. Só porque lá estava muito calor. Tratava-se de um beijo histriónico, meus amigos, manifestamente encenado, exagerado e redundante!
Não pensem que estou a exagerar. Eu sei que é uma tendência natural de todos nós, por vezes, a de fechar os olhos a dolorosas e inegáveis realidades por pensarmos que são inócuas e auto-limitadas, mas a verdade é que nestas disfunções, caso sejam detetadas a tempo, é possível intervir precocemente e estimular beijos mais adaptativos, evitando círculos viciosos que podem levar a beijos potencialmente catastróficos.
Serve, portanto, esta série de posts para vos despertar para pequenos sinais que nos permitem distinguir um beijo normal e saudável, ainda que com alguns traços fora do comum, de um beijo manifestamente patológico.

(continua)

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

[comentários que valem um post] uma costela hipocondríaca

Conta-nos a Risota, a propósito do post sobre a hipocondria nos estudantes de Medicina e do comentário da Ruiva sobre os seus próprios gânglios linfáticos:

Uma vez descobri um alto no tórax e fiquei em pânico. Mas giro, giro foi que a médica das urgências também sentiu aquela espécie de quisto e não sabia do que se tratava. Como não se via nada no raio x pensou que talvez fosse um lipoma!  
- Oi?
- Isso mesmo! Um lipoma! E vamos lá fazer uma eco para ver se descobrimos do que é que se trata.
E eu peguei nos resultados e bati o pé à porta do consultório da minha médica de família (se é para receber notícias más que seja por uma cara conhecida).
OMG! O que ela gozou comigo! Estava eu aflitinha e ela diz-me com a maior das calmas: "Hummm estou a ver! Acha que é desta que morre? Ainda não! pelo menos eu não conheço ninguém que tenha morrido por ter costelas flutuantes!"
 
E foi então que, ao sorrir, me lembrei desta história, que há uns anos atrás nos valeu umas gargalhadas valentes no serviço de urgência...

P. S. - Se se revirem em qualquer das situações, não se sintam mal, por favor. Por mais doenças imaginárias que já tenham tido, lembrem-se: eu tive dez vezes mais durante o curso, a saber, cento e tal doenças ligeiras, quinze graves e dez fatais! Se mais alguém quiser partilhar uma boa história, a gerência deste mato agradece...

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

[comentários que valem um post] sobre a pêpa desta semana, um tal de henrique

[O título é da Maria Bê, nossa correspondente no Arizona, mãe de duas crias adoráveis e mulher de um fabuloso caçador de escorpiões.]
 
Diz Jorge Soares, vizinho deste mato e dono d'"O que é o jantar", a propósito da minha fúria de anteontem:
Tenho um filho hiperactivo. Durante muito tempo pensei como esse senhor: achava que a solução para o problema não eram os psicólogos e pedopsiquiatras. Apesar dos diagnósticos de hiperactividade, défice de atenção e dislexia, eu continuava a achar que o que ele precisava era de regras e mão dura, que o que tinha funcionado comigo, que era uma criança normal, também ia funcionar com ele.
Um dia acordei às cinco da manhã e cheirou-me a fumo, levantei-me e fui dar com ele a fazer uma fogueira debaixo do edredão. Nesse dia percebi que há coisas que estão mais além das regras, das sovas e dos castigos... e que não, que eu não ia conseguir resolver o problema, porque não é um problema que se resolva com educação, é uma doença e as doenças devem ser tratadas.
O texto não me estranha nada, por vezes falo da hiperactividade no meu blog e há sempre alguém que vem dizer algo parecido com o que diz este senhor, há muita gente que pensa como ele... infelizmente.
 
Mais achas para a fogueira aqui e aqui...

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

[as melhores do serviço de urgência] ouvidos de mercador

Conta-me um amigo meu, médico de família na margem sul, sobre quem já vos falei a propósito deste post, que esta noite atendeu um senhor de meia-idade no serviço de urgência, queixando-se de uma dor no peito... O senhor ouvia tão mal que o meu colega a dada altura acabou por considerar comunicarem por escrito. Por fim, perguntou-lhe alguns dados, incluindo a profissão.

- Sou funcionário numa repartição.
- Ah, mas não tem dificuldade em compreender as pessoas?
- Sim, mas eu estou na parte das reclamações. As pessoas consideram-me muito profissional e muito controlado, mas é porque eu sou tão surdo que às vezes não consigo perceber se as pessoas estão a gritar ou a bocejar. Por isso, na dúvida, mantenho-me calmo e sempre me dei bem...

É a isto que se chama "fazer ouvidos de mercador"! (True story!)

Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

[eu juro que ia ficar calada] mas ainda estou com o nervos!

Meus queridos amigos, eu sei que sou uma baby-blogger, uma mato-blogger, uma mozambique-blogger, uma portuguesa loira que está ironicamente prestes a tornar-se numa moçambicana mulata por usocapião (Armando Guebuza, mi aguardje!). Sou uma pessoa com bom feitio que acredita até à evidência última que a maioria das pessoas com quem se cruza tem boas intenções. Há poucas pessoas que me fazem zangar e ainda menos as que me conseguem enfurecer.

E não sou nenhuma santa, felizmente. Aliás, para que conste em ata, um dos primeiros posts deste mato e motto da minha vida assevera que "Todos os santos têm um passado, só os pecadores têm futuro."

Por isso estou espantada comigo mesma por ainda não me ter passado a fúria que me assolou quando li este artigo. Mas, sinceramente, a pediatra que habita em mim acordou e está chocada. E envergonhada. E dececionada. Eu, que nem conhecia o senhor que o escreveu. Continuo a não saber nada sobre ele para além do facto de que possui uma crónica no Expresso...

Eu até percebo a ideia geral. O autor pretendeu transmitir desagrado com a ausência de limites e incapacidade de contenção de alguns pais de hoje, mas adotou um discurso simplista e, na ânsia de demonstrar alguma utilização abusiva do termo médico de "hiperatividade", acabou por denunciar a sua própria falta de preparação para discutir o tema, evidenciando zero de documentação sobre o assunto. E zero de empatia para com os pais. Os comentários de alguns professores só me deixaram ainda mais triste ao constatar mais uma vez as dificuldades por que os pais têm de passar quando os filhos têm esse diagnóstico e confirmar mais uma vez que faço bem em recomendar-lhes que mantenham o diagnóstico para si e não o revelem aos professores porque o  preconceito é ainda enorme... Desculpem mas não consigo ficar calada. Nem como desabafo na mesa de um café eu seria capaz de tolerar este discurso.

Domingo, 20 de Janeiro de 2013

[welcome to mozambique] o som de áfrica...


 
Para todos os que, como eu, têm saudades e gostariam de estar neste momento no meio de uma dança e de uma harmonia como esta, só com batuques, vozes, língua macua e menear de ancas. Para os que não conhecem, apreciem o pulsar das gentes, a inesperada harmonia espontânea criada só com vozes e aprendam como se faz o "Elulu" (alarido) das mulheres (2:40). Bom domingo!
(Gurué, Zambézia)

Sábado, 19 de Janeiro de 2013

[comentários que valem um post] nódulos, tumores, cancros e afins...

 
Comentário ao post anterior escrito pela minha querida Ruiva-da-cidade-das-acácias, futura companheira de viagem à Gorongosa com o baby-de-mulata:
Sou historiadora, ou tento ser vá, mas lembro-me daquela vez em que fui a correr às urgências do hospital de Braga, certa de que tinha encontrado um nódulo no meu corpo, de tamanho enorme e seguramente já num estádio avançado de cancro... A médica que me atendeu, amorosamente auscultou, palpou, fungou e depois afastou-se com o seguinte veredicto e cara de seriedade total: "Parabéns, descobriu os seus nódulos linfáticos!... E deixe-me que lhe diga estão no sítio, de perfeita saúde e com as dimensões normais... Agora por favor diga-me como raio conseguiu descobri-los? É que nós temos tanta dificuldade para os encontrar por palpação, inclusivé nas crianças..."

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

[hipocondria] tão bom que já me tinha esquecido como era!



Durante o curso de Medicina, não há estudante que se preze que não tenha tido uma preocupação grave com a sua própria saúde, por curta que fosse, sobretudo no terceiro ou quarto ano, em que as doenças e os doentes começaram a surgir em catadupa nas nossas vidas.

Mas, como em tudo, há os que abusam. Eu fui uma delas. E desde cedo! Ao todo umas cento e tal doenças ligeiras, quinze graves e dez fatais! Ele era aneurismas da aorta abdominal, ele era cancros em vários orgãos e sistemas, ele era todo o tipo de doenças infecciosas e parasitárias, incuindo as que existem exclusivamente em locais recônditos de África ou da América do Sul. Recordo-me particularmente de uma insuficiência renal aguda no segundo ano, que durou dois dias, altura em que terminei de estudar o aparelho urinário e passei a ter uma azia de caixão à cova porque me meti (assim à maluca!) a estudar o aparelho digestivo. Recordo-me também de um linfoma no terceiro ano, que só passou com uma autoridade em Hematologia a dar um murro na mesa e dizer-me que não me fazia biópsia nenhuma porque não tinha indicação. Rezei por ele durante anos!

A verdade é que todos passámos por isso. E à medida que o tempo passava, os sintomas tornavam-se cada vez mais sofisticados e consistentes. Qualquer dormência que surgisse, seguia uma distribuição por dermátomos, as dores abdominais exacerbavam-se sempre à descompressão, como na apendicite aguda... Mas claro que tínhamos crítica. Claro que minutos ou, na pior das hipóteses, horas depois fazíamos o percurso mental inverso e desmontávamos os sintomas e somatizações. Riamos de nós próprios, que é sempre o melhor remédio. O problema é que também este processo falhava por vezes. Tenho inclusivamente uma colega que só se rendeu à evidência de que tinha mesmo uma apendicite aguda e não uma somatização (estávamos no estágio de Cirurgia II) quando chegou à fase de "ventre em tábua"...

Depois tudo passou, felizmente! Não tenho saudades, confesso. Muitos dos meus colegas ficaram alérgicos e não suportam doentes hipocondríacos. Eu, pelo menos, continuo sensível ao tema. E achei delicioso ler no outro dia a São João, que dizia com imensa graça: "Não sou hipocondríaca. Eu somatizo é muito!" E responde a Mariana, logo ali, com o mesmo sentido de humor: "Eu também nunca invento sintomas, tenho é muitos. E geralmente todos graves!" Benza-vos Deus, minhas queridas, que não há doença que vos resista à boa disposição!