quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

[vozes brancas] etimologias...

Para o baby-de-mulata:
- Então, meu querido, sabes onde vais com a escola amanhã?
- Vou ao planetário... Plantar o quê, mãe? Vamos lá plantar flores?

...

No dia 7 de Dezembro:
- Mamã, hoje é domingo?
- Sim, filho...
- Então amanhã é dia de escola?
- Não, meu amor, amanhã é feriado.
- Vai estar frio? Mas eu visto o casaco, prometo!

...

Isto promete! E o que se perde em propriedade vocabular, ganha-se em consciência fonológica, benza-o Deus, que lá ouvido não lhe falta!

[...and the season began] em repeat


 
E a quadra de Natal começou! Cá em casa treinamos afincadamente para a festa de Natal do colégio do baby-de-mulata, e cantamos ainda esta música que vos deixo, provavelmente a melhor canção de Natal infantil escrita nos últimos anos!
Ensinem aos vossos filhos, que a vida é simples, e o Natal também!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

[outras palavras] frase da semana!

 
Daqui...

Definição de milagre de Santa Isabel invertido: Quando imaginas que vão ser tudo rosas mas só te saem papo-secos!
Pela querida São João, senhora de uma respeitável Febre dos Fenos. Porque há coisas que lhe (nos) fazem comichão.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

[outras palavras] o lugar das birras é no birrão!

Em criança atirava-me para o chão quando me contrariavam a vontade infantil. Fazia birras. Em qualquer lugar. Terminadas, normalmente, com um açoite e mais lágrimas. Era o método pacifista de antigamente: a palmada da paz.

Entretanto passaram-se 40 anos e deparo-me com uma criança de 18 meses a pôr-se em bicos dos pés, a crescer literalmente para mim, a encostar-me à parede para poder passar. Mal termino de proferir um Não! e já a miúda está a espumar da boca, de punhos cerrados e com um olhar, primeiro suplicante, depois raivoso. Sou a mãe carrasco. E ela não é menos do que um Gremlin, dos maus.

– Não dê importância! Senão, está tramada – Palavras da pediatra. Conselhos das amigas mães.

Regras dos livros com títulos que as mães querem ouvir: O Grande Livro dos Medos e Birras; Grandes Birras, Pequenos Truques; As crianças francesas não fazem birras. – A sério? Bem, talvez possa admitir que um Laissez faire, laissez passer! dito por uma criança francesa à sua mamã não envergonhe ninguém. E conforta-me saber que terei sempre Paris.

Ninguém gosta de fitas, caprichos, comportamentos exacerbados. Nos outros, claro. Respira-se fundo, conta-se até dez, argumenta-se, depois ameaça-se e, finalmente, castiga-se.

– Ignore! Tenha paciência! – Errado. Porque ninguém ignora; finge que ignora. Finge, impacientemente, que tem toda a paciência do mundo. Porque para a criança aprender a lidar com as suas frustrações, os pais têm de engolir as suas verdadeiras reações. Porque as crianças aprendem com o exemplo dos pais que, convenhamos, são exemplares quando fazem de conta. São dos melhores artistas que tenho observado.

No meu caso estou a iniciar carreira como cantora. Nunca me deu para cantar a meio de uma discussão. Só que as birras dão mesmo cabo da sanidade mental dos pais. Por isso, dei comigo a desatar a cantar, um destes dias, quando a minha filha se atirou para o chão porque não a deixei comer um parafuso. A um prego eu até poderia ter olhado para o lado mas o parafuso soltou-me as cordas vocais.

Birras são como vilãs / Tombos indiscretos no alcatrão sujo / Rasgando os nervos das mamãs / Deitados nas Birras, alheios a tudo / Olhos lacrimejantes / Pensamentos danados.
É mauzinho mas é sincero. E funcionou pois a miúda ficou sem pio. Penso que, instintivamente, sentiu que era melhor ter cuidado comigo. Percebo-a, há dias em que penso o mesmo sobre a minha pessoa.

Quanto a ela, gosto de pensar que a miúda é expressiva. Que manifesta um forte desejo de independência em construção. Quer trocar a fralda em pé, que estando empapada em cocó, me facilita imenso a vida. Quer comer com as mãos, o que não me incomodava se não fosse puré. Não quer pôr o cinto de segurança, eu obrigo e ela tira as alças assim que arranco. Quer sempre mais uma colher de xarope e, se a deixasse, auto-medicava-se desde os 2 anos. Ah! E quer pintar as paredes, que são minhas, com os lápis de cera, que são dela. A pro-atividade impera nas crianças.

Honestamente, invejo-a. E que caiam os dentes a quem negar esta evidência: todos os adultos mentalmente saudáveis, pais ou não, invejam as birras infantis. Porque também eles, em crianças, foram lesados nas suas vontades e impedidos de reclamar, ripostar, reagir.

E como se não bastasse terem sido obrigados a desistir dos seus caprichos de infância, ainda lhes é exigido que se comportem como adultos todos os dias do resto da sua vida! Uma crueldade. Felizmente, existem os batoteiros. Que são a maioria.

Para manterem a sanidade mental, adultos e crianças, têm mesmo de despejar as vontades contrariadas. Assim, a única solução que encontro é arranjar um birrão. É como ir pôr o lixo, à noite, na rua. Todos os dias temos de o fazer, atar o saco, carregá-lo e depositá-lo no lixão. Porque se acumularmos muitas birras ficamos nauseabundos. Limpeza é sobrevivência.

Deixemos pois as crianças fazerem as suas birras. Mas à noite, na rotina do soninho, depois de lavarem os dentes devemos ensiná-las a irem pôr as birras no birrão.

Já escrevi ao Pai Natal a pedir um birrão cá para casa, tamanho familiar. Estou em pulgas.

Por Sofia Anjos, aqui.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

[vozes brancas*] a descoberta do sexo

Há dias, na consulta de rotina de uma menina de dois anos e meio, já na reta final, depois do anúncio dos percentis, depois do meu parecer sobre o excelente desenvolvimento psicomotor da menina e depois de termos abordado, a pedido dos pais, temas tão díspares como o treino do bacio e a prevenção da toxicodependência (true story...), faço a derradeira pergunta: "E têm mais alguma preocupação com ela?" Ao que a mãe faz a pergunta que decerto lhe queimava a língua:

- Doutora, é normal que ela já se aperceba com esta idade da anatomia dos pais?
- Claro, a descoberta do sexo começa agora, fica mais consolidada aos três anos, mas começa mais cedo. Até antes.
- É que no outro dia ela foi espreitar o pai a fazer chichi na sanita. Não achámos mal nenhum porque ela tem de aprender e anda interessada no treino da fralda, portanto achámos que era um bom exemplo a dar. Mas umas horas depois dei com ela a rir sozinha às gargalhadas. Até me assustei, confesso. Ela ria-se do nada e até me dava ideia de que não estava bem. Mas depois perguntei-lhe: "Filha, de que é que te estás a rir?" E ela respondeu-me, divertidíssima, e assim um bocado a cochichar: "Mãe, o pai tem uma cauda!"

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

[músicas para o baby-de-mulata] let the season begin


 
Que comecem as festas! E que, com este pretexto, as mais belas canções de embalar de Natal voltem ao leito do baby-de-mulata e à hora do adormecer que é só nossa...

[músicas para o baby-de-mulata] dá-me uma gotinha de água...


 
Nestes dias temos cantado Cantares Alentejanos dia e noite. Como este aqui acima e como o "Olha o Passarinho", ou o "Eu tinha Quatro Patinhos", que já partilhei aqui convosco. Foi um excelente timing, o da elevação do Cante Alentejano a Património da Humanidade. Mais uns dias e já não teria o mesmo tempo de antena, digo eu. Antes que comecem os cânticos de Natal, cantemos Alentejo!

sábado, 29 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] diagnósticos brilhantes!

Serviço de Urgência, quinta feira passada. São 16:00 num dos dias mais movimentados do ano. Há trinta crianças que aguardam ser vistas, várias delas classificadas como urgentes ou muito urgentes. Temos duas horas e meia de espera para os não urgentes. Eu estou quase pelos cabelos. Não almocei, que não tive coragem de deixar a equipa mas estou quase a capitular. Decido que vou ver só mais um menino não urgente e depois vou mesmo ter de ir comer qualquer coisa...

Chamo o menino que segue. Tem quatro anos e entra-me no gabinete ostentando, orgulhoso, a sua pulseirinha verde, que para nós quer dizer "Não Urgente", mas que para ele quer dizer "Spooorting!". Olha para mim, tira-me as medidas e pergunta:

- Tu és médica do cérebro?
- Não, meu querido, sou médica de meninos. Mas porquê?
- É que eu preciso muito de uma médica do cérebro.
- Ah, está bem, daqui a nada já vou ali chamá-la - franzo o sobrolho e troco um olhar com a mãe, tão espantada como eu: o relatório de triagem dizia apenas que o menino vinha por ardor a urinar -, mas o que é que se passa contigo?
- É que o meu cérebro deve estar baralhado. Eu sinto vontade de fazer chichi a toda a hora, mas não sai nada da minha pilinha. E quando sai chichi, arde-me!

Eu e a mãe íamos rebentando a rir, mas contivemo-nos!

- Ah, olha, querido, eu acho que é o teu chichi que deve ter um micróbio e isso que deve estar a baralhar o teu cérebro.
- Ah...
- Vamos fazer uma análise ao teu chichi.
- Uma quê?
- Uma análise.
- Vão ver o meu chichi ao microscópio?
- Isso mesmo!
- Também posso ver?
- Claro! Eu depois mostro-te uma fotografia do chichi ao microscópio.
- Boa! Vamos então!

[Que maravilha! Vai longe, este miúdo!]

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

[vozes brancas] baby m. no seu melhor




Esta tarde, o baby-de-mulata brincava com baby M., o seu primo quase-gémeo, ambos agora com três anos. Montámos uma pista de comboios mais ou menos como aquela ali acima, com uma envolvência de savana, ambulâncias, acidentes, descarrilamentos e salvamentos heroicos... E enquanto o baby-de-mulata salvava de helicóptero um tigre atropelado pelo camião dos bombeiros, baby M. continuava, pacatamente, a fazer o comboio andar pela pista, transportando o acidentado camião dos bombeiros para a oficina. Eu assistia a tudo, tentando interferir o menos possível naquela fantasia que era dos dois, quando oiço baby M. comentar de si para os seus botões: "Nunca mais chego à oficina, tenho a impressão de que estou a andar às voltas..."

[as melhores do serviço de urgência] ouvido por aí...

 
Relatórios Médicos do Serviço de Urgência
(Daqui...)
 
Para os que não compreendem bem o Inglês, aqui vai, salvo melhor tradução...
 
1. A doente não tinha arrepios ou calafrios, mas o marido descreve-a como escaldante na cama na noite anterior... [Demasiada informação clínica, diria eu...]
 
2. O exame dos genitais revelou que o senhor era circo cisado. [Pobrezinho, cortado no circo... Mas em Inglês resulta melhor, que se depreende que o senhor era de tamanho circense...]
 
3. Visto que a doente não consegue engravidar com o marido, pensei que poderias querer vê-la. [Em Inglês também resulta melhor, lamento...]
 
4. A doente apresentava-se chorosa, lamentando-se constantemente. Também parecia estar deprimida. [Faz-me lembrar a senhora que tinha uma com estenose da válvula aórtica e insuficiência cardíaca. E também tinha um sopro no coração.]
 
5. A doente tem estado deprimida desde que começou a ser seguida por mim, em 1993. [O clássico paradigma do "não és tu, sou eu."]
 
6. Relatório do estado do doente na alta: Vivo, contra parecer médico. [Não se faz a ninguém! Anda um médico aqui a esfalfar-se, a não dormir, a dar tudo por tudo e para depois o doente não cumprir as prescrições...]
 
7. Um doente decrépito aparentemente saudável de 69 anos, mentalmente alerta, mas demente. [Faz-me lembrar uma fantástica tirada minha, dos meus tempos de faculdade: "Há quanto tempo é que o senhor tem falta de memória?" "Ai, menina, não me lembro...]
 
8. O doente recusou autópsia. [Mas resolvi dar-lhe tempo para poder repensar a decisão...]
 
9. O doente não tem qualquer história prévia de suicídio. [Nem o próprio médico, aparentemente...]
 
10. O doente deixou os glóbulos brancos noutro hospital. [E o médico, onde teria deixado a cabeça?]
 
11. Os antecedente pessoais da doente eram absolutamente irrelevantes, com apenas um aumento ponderal de 20 quilos nos últimos 3 dias. [Talvez quisesse dizer irrelefantes...]
 
12. A doente comeu waffles ao pequeno almoço e anorexia ao almoço. [Qual deles o mais indigesto...]
 
13. Entre si e mim, temos de ser capazes de fazer esta senhora engravidar. [Idem.]
 
14. Ao segundo dia, o joelho estava melhor e, no terceiro dia, tinha desaparecido. [Um clássico "Vanishing knee syndrome"...]
 
15. Ela sentia-se dormente dos pés para baixo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

[nomes que dizem tudo] maktub*

 
Já vos falei em tempos da minha doente chamada Rita Lina que tinha uma perturbação de hiperatividade e défice de atenção, lembram-se?

No outro dia, apesar de todas as medidas não farmacológicas instituídas desde o início, tive de me render à evidência: a menina precisava de medicação. Estava a fraquejar nos estudos e a desmotivar-se a olhos vistos. Mas nesse momento, a palavra Maktub ecoava-me nos ouvidos e assaltavam-me pruridos onomásticos... Para a desgraça não ser completa e não deixar o destino rir-se de ninguém,  não lhe prescrevi Ritalina, mas uma alternativa e em genérico... A menina está melhor. Os pais estão aliviados...

* Expressão árabe, que significa "assim estava escrito".

sábado, 22 de novembro de 2014

[a minha vida dava um filme catástrofe] os meus dois pés esquerdos

Quem se lembra do grande programa do Herman, "Casino Royal"? Uma das muitas personagens encarnadas pelo Herman era a genial Dona Gradívia Pépracova. Nome que desde hoje é o meu segundo nome. Expliquem-me como raio é que se formam buracos de propósito no momento em que passo num qualquer e inocente local, com o exclusivo intuito de me fazer cair neles?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] para (re)animar

Ainda não me saíram da cabeça as palavras de uma mãe no sábado passado. Eu estava a ver o filho dela, que estava com dificuldade respiratória e acabara de o mandar fazer um segundo tratamento com broncodilatadores, quando me vieram chamar de urgência a uma enfermaria. Uma criança que esteve em convusão mais de meia hora, seguida de paragem respiratória e uma reanimação difícil... Muitas lágrimas dos pais por susto, fadiga e dificuldade em gerir mais uma situação inesperada num filho que sempre fora doente, mas que nunca estivera tão perto da morte...

Por fim, desci novamente para a urgência. À minha espera estava ainda o menino que eu tinha visto com dificuldade respiratória. Deu-me um aperto no coração... Com a correria para a enfermaria, o caso não tinha sido passado a ninguém...

Mas nestas circunstâncias os pais costumam "desenrascar-se": perguntam a qualquer outro colega pelo médico que o estava a ver, ele apercebe-se que o colega foi chamado a uma reanimação e assumem o caso. A equipa de enfermagem também costuma dar uma ajuda. Mas desta vez, pelos vistos, tal não tinha acontecido...

Pedi desculpa à mãe pela demora e disse-lhe que podia ter pedido a outro médico para ver o filho. Ao que ela me respondeu: "Não se preocupe, Doutora! Eu preferi que o meu filho fosse visto por si. Eu percebi que foi chamada a uma situação complicada e fiquei por aqui a rezar pelo menino lá de cima. Pedi muito a Deus por ele e por si. O meu que esperava o tempo que fosse preciso, mas que se salvasse o menino! Ele ficou bem?"

- Ficou, sim, obrigada por ter rezado por nós...

A sério que ainda estou comovida...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] foi por um triz!

Serviço de Urgência, a noite avança madrugada adentro. No ecrã do computador aparece um nome e uma idade: lactente de três meses e, embora para o caso pouco interesse, do sexo feminino. Imagino-a na chegada, vestida de rosa carregado das botinhas à touca.

Sua mãe entra, esbaforida, no corredor da urgência, gritando: "Por favor, por favor, é uma emergência!".

Todos saímos rapidamente dos gabinetes para acudir ao corredor da triagem. A número dois da equipa, neste caso esta vossa humilde serva que se assina beijo-de-mulata, de arraiais assentes desde o início do turno no gabinete mais próximo da triagem, foi a primeira a chegar, igualmente esbaforida. A última vez que ouvi este grito, a criança tinha uma septicémia e foi direta para os cuidados intensivos, onde lutou heroicamente pela vida durante semanas.

A bebé, cuja mãe gritava com voz de juízo final, dormia tranquilamente o sono dos justos. "O que se passa, mamã?", perguntamos com calma, habituados a estas andanças. A mãe, vendo-me de estetoscópio ao pescoço, ignorou olimpicamente toda uma equipa de enfermagem que a rodeava em seu auxílio e declarou-me dramaticamente: "Doutora, a menina tem um cabelo MEU enrolado no dedo! Já lá deve estar há uns três dias e a ponta do dedo está a ficar inchada!" (Suspiro... Controla-te beijo-de-mulata, a vida é curta demais!) "Tenha calma, mãe, os senhores enfermeiros vão ajudá-la."

Viro costas e volto calmamente para o meu gabinete. Mais ao longe ainda oiço a mãe perguntar, enquanto o enfermeiro com uma tesourinha corta o cabelo enrolado à volta do dedinho da princesa: "Enfermeiro, acha que a médica demora a chamar? Ai que eu acho que morro! Acha que o dedo se salva?"

Mas porquê, meu Deus?

domingo, 26 de outubro de 2014

[vozes brancas] neologismos

Há duas semanas tive um acidente feio: ao chegar ao jardim de infância do baby, naquele local em que costumo fazer com ele a transição simbólica do modo "casa/ mãe", em que pode ser bebé, para o modo "escola/ educadora", que que tem de ser um menino crescido, escorreguei e caí com ele ao colo.

Foi um momento terrível quando percebi que ele ia bater com a cabeça no chão empedrado do pátio... Felizmente foi um traumatismo craniano sem gravidade para o lado dele, embora só o tenha deixado depois com mil recomendações à educadora e auxiliar de que se vomitasse ou ficasse mais estranho e sonolento me ligassem de imediato. Já para o meu lado a coisa correu menos bem, porque ao tentar colocar-me debaixo dele para lhe amparar a queda, o esbardalhanço foi total e torci o pé à grande e à francesa. Quase me saiu disparado e bem articulado um palavrão francês, mas já que não podia fazer nada para remediar o assunto, também de nada adiantava praguejar, por isso calei-me, abracei o baby e cobri-o de beijos, enquanto disfarçadamente lhe fazia um apressado exame neurológico.

No meio destas semanas todas fui assobiando para o ar e fazendo vida normal. O problema é que enquanto se assobia para o ar, o pé fragilizado torce mais cinquenta vezes. Por isso, em vez de melhorar fui sempre piorando, até que ontem, no Badoca Park, onde fiz questão de ir em mais um exercício africano (o baby há de querer ir comigo na minha próxima missão a Moçambique, ou eu não me chame beijo-de-mulata!), torci o pé de vez enquanto andava num caminho tipo picada africana com o baby ao colo, tentando chamar-lhe a atenção para o divertido comportamento dos macacos mais jovens

Por fim, hoje lá me tive de render à evidência. E às canadianas. E ao gelo, ao Voltaren e ao Brufen de 8/8 horas certinho.

Há pouco, D. baby-de-mulata, já deitado para a sesta, perguntou-me se podíamos ir a um concerto depois da sesta.
- Oh, filho, vai ser difícil, que a mãe mal consegue andar.
- Mas eu vou, pronto! Posso ir sozinho! E tu, se quiseres, pegas nessas cruzetas* e vais comigo!
- Quais cruzetas, baby?
- Essas... coisas... - apontando para as canadianas.
- Ah, vou de canadianas, está bem, combinado!

Três anos e já ameaça que deixa a senhora sua mãe literalmente pendurada! Isto promete!

*Cabides, no dizer do povo da Beira Alta, terra da senhora minha mãe, que cuida do baby na minha ausência.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

[vozes brancas] eu sempre disse que o baby era místico!


Mística infantil...

Esta semana, enquanto eu não chegava do hospital, a minha mãe foi buscar o baby à escola e levou-o ao Jardim da Estrela para se divertir no escorrega e nos baloiços e, quiçá, treinar as suas competências sociais com os companheiros de ocasião.

Por fim, eram horas de seguir para casa, mas perguntou à minha mãe, se não queria ir primeiro ao convento das irmãs Clarissas:
- Avó, tu disseste que te esqueceste lá dos teus óculos no domingo.
- Ah, é verdade, obrigada, meu querido, vamos lá.

(Um primor de responsabilidade, este meu baby! Por enquanto só ainda sabe o seu horário da escola e já consegue organizar o material de véspera. Mas conto, quando ele fizer quatro anos, alcançar o meu objetivo, que é deixar de precisar de agenda assim que ele aprenda a orientar-se num calendário, que o Alzheimer se aproxima a passos largos e sinto que vou precisar de um assistente a breve trecho. Já o estou a ver: "No próximo domingo vamos ao teatro, no sábado temos o batismo da Teresinha, na quinta-feira estás de banco.")

Por fim, já a caminho de casa, o baby perguntou à minha mãe:
- Mas avó, explica-me, qual delas é a tua irmã? É a da parede, não é?* Ou é a verdadeira**?

Eu sempre disse que o baby era místico! Desde o dia em que olhou para uma imagem de Nossa Senhora com o menino e exclamou, embevecido: "Mamã!"

Lá no convento das Clarissas olhou para o quadro de Santa Clara, descobriu semelhanças, sentiu a força do seu olhar de vários séculos e viu na santa uma irmã da senhora sua avó. Bem, há mais alternativas, eu sei: ou é místico ou isto aconteceu porque tem três anos e ainda tem dificuldade em distinguir a realidade da fantasia... Mas o tempo há de dar-me razão!

* Há um quadro enorme de Santa Clara na parede à entrada do convento.
** A madre superiora, que os recebeu em carne e osso.

sábado, 18 de outubro de 2014

[outras imagens] humor e a arte da elevação

Vão lá, meus amigos!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

[outras palavras] welcome to holland




 
Holanda...

Sobre o choque e a necessidade de aceitação de um filho com autismo ou outro tipo de deficiência... Roubado do blogue "Para falar são precisos dois".

Ter um bebé é como planear uma fabulosa viagem de férias - para a Itália! Você compra montes de guias, faz planos maravilhosos. O Coliseu. O David de Michelangelo. As gôndolas de Veneza. Você pode aprender algumas frases simples em italiano. É tudo muito excitante.  

Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia. Você arruma as suas malas e embarca. Algumas horas depois aterra. O comissário de bordo chega e diz: - "Bem vindo à HOLANDA !" 
"HOLANDA!?! " diz você - "O que quer dizer com Holanda?? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda minha vida eu sonhei em conhecer a Itália". 


Mas houve uma mudança no plano de vôo. Eles aterraram na Holanda e é lá que você deve ficar. 
A coisa mais importante é que eles não te levaram a um lugar horrível, desagradável, cheio de pestilência, fome e doença. É apenas um lugar diferente. Logo, você deve sair e comprar novos guias. Deve aprender uma nova linguagem. E você irá encontrar todo um novo grupo de pessoas que nunca encontrou antes. É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas, após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor... e começar a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrandts e Van Goghs. 


Mas, todos que você conhece estão ocupados indo e vindo da Itália... e estão sempre comentando sobre o tempo maravilhoso que passaram lá. E por toda a sua vida você dirá : "Sim, lá era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu tinha planeado." E a dor que isso causa nunca, nunca irá embora... porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa. 


Porém... se você passar a sua vida toda remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais... sobre a Holanda.  


Emily Perl Knisley

domingo, 12 de outubro de 2014

[post que era para ser só um comentário] ainda as listas dos criminosos sexuais contra crianças

Obrigada por voltares, Rita! É um post brilhante e com uma excelente argumentação. Só queria acrescentar alguns pontos... Eu concordo inteiramente contigo quanto ao facto de ser descabido publicar listas do que quer que seja. Tu já argumentaste magistralmente contra esse ponto. Mas a meu ver há um problema na definição de conceitos.

Quem não é psiquiatra nem trabalha em saúde mental, pode não ter noção que por detrás da palavra "pedófilo" podem estar conceitos muito distintos.
Segundo o DSM, o manual/ "catálogo" de doenças mentais, o termo "pedofilia" é isso mesmo que descreves: uma orientação sexual. Uma atração preferencial por crianças pré-púberes, antes da adolescência. Também diz que essa atração é egossintónica, ou seja, a pessoa muitas vezes não se sentem mal com isso, tal não as impede de funcionar normalmente em todos os outros aspetos da sua vida em sociedade e não cria dificuldades inter e intrapessoais significativas. Como tal, um pedófilo assim descrito não procura ajuda. Já daqui vem uma dificuldade. Por vezes passam ao ato com crianças que estão ao seu alcance (dentro e fora de casa).

Mas ocasionalmente, essas pessoas interiorizam que este ato é condenado pela sociedade, podem refletir sobre isso e, sobretudo depois de terem sido condenadas por um abuso que cometeram, podem entrar em tratamento e, até certo ponto, controlar o seu impulso. Nesses talvez valha a pena investir.
A verdadeira questão é que, em criminologia em geral, e segundo a lei portuguesa em particular, os crimes de pedofilia são quaisquer crimes sexuais cometidos contra crianças ou adolescentes, pré-púberes ou não. Dentro da categoria "pedófilo" estão criminosos sexuais em geral, que cometem crimes contra qualquer pessoa e, "por acidente", também contra crianças, e psicopatas cuja escolha de crianças lhes aumenta o prazer por se tratar de alguém com menor poder e menor capacidade de reação. São sobretudo estes que passam ao ato. São quase só estes que são condenados. São quase só estes que aparecerão nas listas. Listas estas que condeno, por todas as razões que tu argumentas. Menos as que dizem que os pedófilos são tratáveis. Porque muitas vezes não são.

Os tais pedófilos de que falas, os que cumprem os critérios do DSM, sobretudo os que cometem abusos dentro das próprias famílias, quase nunca são condenados. Por mais diferenciadas que sejam as mães e os outros encarregados de educação, quase nunca têm coragem de levar o processo adiante até à condenação porque não querem ver o pai das crianças preso. Porque no fundo quem sofre sempre são as crianças. E ninguém quer que o seu filho seja apontado como “o filho do pedófilo”.
Ou seja, neste caso (o das listas de criminosos sexuais condenados por crimes contra crianças) pedófilos não são doentes mentais que devem ser ajudados. Neste caso pedófilos são criminosos que, na sua maioria têm perturbações graves da personalidade, na sua maioria psicopatas, e têm compulsão a repetir o ato, mesmo depois de terem sido condenados.

Confesso que por vezes não me apetece ser contra as listas. Sobretudo quando vejo uma criança atrás de outra a ser abusada pela mesma pessoa. E quando pergunto: "Mas esse homem não estava debaixo de olho? Ninguém tinha avisado a mãe que o homem que tinha metido lá em casa era um criminoso sexual?"

E as respostas não são simples. Por vezes a mãe não tinha sido avisada. Por vezes tinha sido avisada e não tinha acreditado na polícia ou na assistente social. Se o perfil dos criminosos é complexo, o perfil das vítimas é ainda mais intrincado...

O que eu sei é que por vezes vejo crianças, vítimas durante anos de violência (sexual ou não), completamente destruídas por dentro na sua autoestima e integridade psicológica, por pessoas, supostamente cuidadoras, fossem pais, padrastos, tutores, padrinhos e que, a muito custo, as mães lá se organizaram para se livrarem deles. E, meses ou anos depois, pergunto às mães: "Onde está esse homem?" E elas respondem: "Tem uma nova família."
E eu arrepio-me. Quase que poderia ser a favor das listas, não fossem elas atentados contra os direitos humanos e o direito à privacidade. Não fossem elas prejudicar ainda mais as famílias deles, já de si devastadas. Não fossem elas ineficazes. Mas acho que se deveria preparar melhor as equipas que estão no terreno, articular melhor com os serviços de saúde mental, com as associações de apoio à vítima. Deveria haver um mecanismo previsto na lei que se poderia aplicar em caso de reincidência ou comprovada compulsão a repetir para manter os criminosos debaixo de olho a longo prazo depois de terem sido condenados. Isto sim era responsabilizar o estado e não criar alarme na comunidade. Isto sim seria descansar a comunidade e não criar uma comunidade em alerta permanente.


Obrigada mais uma vez, Rita, por voltares.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

[vozes brancas] entre o riso e o espanto!

Adorei...

Post

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

[baby-de-mulata] viagem à roda do teu nome...

 
Cartoon daqui.


Ontem à noite, como sempre, já na cama, o baby-de-mulata pediu-me uma história antes de adormecer. E eu conto sempre a história que ele quer, mesmo quando estou exausta. Há só um pequeno problema: é que as minhas histórias variam quase todos os dias porque eu sou do tipo de pessoa que fala durante o sono como se estivesse acordada. E geralmente até consigo fazer sentido no que digo. Pelo menos é o que alguns dizem. E eu só acredito nesses, como está bem de ver. Só não respondo é à conversa e o fio e a meada deslaçam-se rapidamente. Ou seja, por outras palavras, as minhas histórias começam sempre da mesma maneira e fogem quase sempre para o nonsense de forma imprevisível.

De modo que, por vezes, os três porquinhos, em vez de construírem casas de palha, madeira e tijolo, têm alergias, pneumonia e hiperatividade. Mas só quando passam demasiado tempo na sala de espera da urgência até serem atendidos é que o baby se farta e me grita que não é assim a história, que é altura de o lobo mau chegar das profundezas da floresta, que ele, baby, também tem sono e quer dormir. Eu que me despache a meter o caldeirão ao lume, ele quer ver o lobo mau de rabo queimado a subir pela chaminé e fugir pela floresta afora, e que as angústias da noite se dissipem com uma história em que o medo e o perigo são vencidos. Mas é um problema... A carochinha já teve uma intoxicação alcoólica, o João Ratão não aprendia a ler de maneira nenhuma e teve de ir fazer terapia da fala e, uma vez, os sete cabritinhos também estiveram no corredor da urgência em macas, a soro, porque não havia camas para todos para tratar um surto de salmonelas que apanharam por se terem alambazado com uma mousse de chocolate. [Palavra que eu disse! Nessa noite acordei com o baby furioso. Os sete cabritinhos tinham comido mousse de chocolate e ele nem uma bolacha Maria! Vi-me e desejei-me para o adormecer e convencer que a mãe dos sete cabritinhos era uma irresponsável, onde é que já se viu dar mousse de chocolate aos filhos àquela hora da noite!] A maior parte das vezes acordo com o baby a rir às gargalhadas por mais um disparate... Mas, como eu ia dizendo, ontem, antes de adormecer, o baby-de-mulata queria uma história. Queria a história do peixe Tobias. E porque é que ele se chamava Tobias?, perguntou-me o baby. Inventei uma resposta qualquer...

- E porque é que eu me chamo baby?
- Ah, meu amor, porque baby é um nome lindo, pequeno, fofo, mas também nome de santo, de guerreiro, de homem grande, valente e generoso.
- Sim, mas quem me deu esse nome?

Aí vacilei... A mãe biológica só o viu no primeiro dia de vida e o nome foi o único legado que lhe deixou. Eu tinha uma resposta preparada para quando ele me perguntasse um dia: "Eu tenho alguma coisa dela? Ela pensou em mim alguma vez?" Essa resposta era: "Ela deu-te o teu nome. O nome mais lindo do mundo. É porque queria que tu fosses feliz."

E o baby viu-me vacilar porque acertou na mouche, na minha resposta preparada. Eu podia ter respondido uma coisa qualquer, mudar de assunto, dizer que eu e o pai é que lhe demos o nome completo, o que não era mentira: Baby-Maria-de-mulata-Shaka foi o nome que nós lhe pusemos. Mas ele não é parvo nenhum. Viu-me vacilar. E perguntou logo, como criança perspicaz que é: "Quem foi? Porque é que não foste tu?"

E foi assim que começou a nossa primeira conversa sobre origens, biologia e amor. Foi ontem que eu lhe disse que era a mulher mais feliz do mundo desde o dia em que me tornei a mãe dele para sempre. Ele quis saber tudo. Como foi? Como foi que tu me viste? Fui eu que te chamei? Eu disse que queria ser teu filho? E eu expliquei-lhe a história. Contei-lhe o momento lindo em que os nossos olhos se cruzaram e como foi o nosso amor à primeira vista. Contei-lhe como ele me deu os braços e eu lhe peguei ao colo e disse que queria ser mãe dele para sempre!

E a noite acabou com ele a pedir pormenores para encenar "a peça" do momento em que lhe peguei ao colo pela primeira vez... Representou-a vezes sem conta. Até que pediu para dormir. Dormiu tranquilo e acordou bem disposto.

Mais uma etapa superada. Ou pelo menos assim o espero...

domingo, 28 de setembro de 2014

[caderneta de cromos] peixe, peixe, peixe!


 
Alguém se lembra desta cena? O baby-de-mulata adora ver esta história... "É 'pantoso!"

domingo, 21 de setembro de 2014

[vozes brancas] e raciocínios irrepreensíveis!

 
 
Conversa entre o baby-de-mulata (atualmente com 3 anos e pouco) e sua avó, ouvida através da porta da cozinha:
- Amanhã onde vais passear?
- Vou ao oceanário com a mamã e o papá. Sabes, vovó, eu gostava de ter peixinhos em casa!
- Ah, então tens de pedir ao papá e à mamã para te comprarem peixinhos para tu cuidares e dares comida.
- Boa! E é melhor comprar também um aquário para os peixinhos não fugirem!

sábado, 20 de setembro de 2014

[outras palavras] ele tem autismo, não é autista!

Do blogue "Para Falar São Precisos Dois", um texto de Kerry Magro, um jovem adulto com autismo, professor universitário nos Estados Unidos, autor de um livro de auto-ajuda sobre as suas vivências e dificuldades.

 
 
Olá, o meu nome é Kerry e sofro de perturbação global do desenvolvimento sem outra especificação [em inglês, Pervasive Developmental Disorder Not Otherwise Specified - PDD-NOS).

Isto quer dizer que tenho autismo.
Isto não quer dizer que eu sou autista.
Isto quer dizer que eu por vezes vejo o mundo sob uma luz diferente.
Isto não quer dizer que eu esteja no escuro.
Isto quer dizer que, de tempos a tempos, eu tenho dificuldade em expressar as minhas emoções.
Isto não quer dizer que não tenho sentimentos.
Isto quer dizer que quando eu comunico, o faço num estilo muito próprio.
Isto não quer dizer que eu não tenho voz.
Isto quer dizer que eu tenho uma enorme sensibilidade para certas texturas e toques.
Isto quer dizer que alguns sons me fazem sentir desconfortável.
Isto não quer dizer que seja surdo ou duro de ouvido.
Isto quer dizer que me foco muitas vezes em certos interesses por um longo período de tempo.
Isto não quer dizer que aqueles sejam os meus únicos interesses.
Isto quer dizer que sou o único na família que tem esta condição.
Isto não quer dizer que estou sozinho.
Isto quer dizer que tenho 500 sintomas e capacidades diferentes das outras pessoas.
Isto não quer dizer que seja mais ou menos que ninguém.

O meu nome é Kerry e, independentemente do que PDD-NOS queira dizer, o autismo não me define. Eu sou uma das definições. E apenas posso desejar que todas as outras pessoas, tenham ou não autismo, possam também definir as suas vidas e os seus percursos pela maneira como os veem!

domingo, 14 de setembro de 2014

[vozes brancas] chocoholic

 

 
Pois é...
 
 
Antes de mais, deixem-me carpir a minha mágoa de pediatra: o baby-de-mulata não gosta de fruta! É verdade. Conheço mais duas ou três crianças como ele, mas acho que não tão avessas à fruta... A simples visão de uma peça de fruta dá-lhe vómitos. O ar de pânico que faz quando percebe que chegou a hora da fruta é indescritível. Colocar uma peça de fruta na boca é um processo que envolve mentalização e coaching da minha parte. E muita coragem da parte dele. Mal comparado, fazê-lo comer fruta é como um instrutor de bungee jumping convencer uma pessoa com pavor de alturas a saltar de uma ponte. "Vá, meu filho, é ótimo, vais ver que vais gostar, é fantástico e faz tão bem..." e assim por diante. Nem sempre consigo, claro. Nem todos os dias uma criança tem esta disponibilidade para aceitar algo que visceralmente abomina. Ele tem é o azar de ter uma mãezinha que é chata como a potassa...
 
Pelo contrário, o chocolate foi uma descoberta recente, mas muito bem tolerada... [Porque é que a vida é tão injusta?] Hoje, à saída do jardim zoológico, fomos comer um gelado. Perguntou-me:
 
- Mãe, gostava de comer um gelado... de chocolate. Existe?
- Sim, filho, existe, vamos perguntar ao senhor se tem.
 
E foi a meio do gelado que ele se saiu com uma pérola:
- Mamã, eu adoro chocolate! Até podia comer uma maçã, se fosse de chocolate!
 
Tentei afastar as imagens do demo que me assaltaram a mente. Só de pensar nelas engordo dois quilos... Vou tentar não lhe dar fruta desta maneira nunca.