quarta-feira, 4 de outubro de 2017

[vozes brancas] primeiras impressões da maternidade


Cateter venoso. Foto obviamente da net, que não me ocorreu fotografar o meu...


Já nasceu a mini-baby-de-mulata! Estamos bem e muito felizes! E perguntam vocês: "Beijo-de-mulata, como reagiu o baby ao ver a mãe internada na maternidade?"

Lindamente! Mr. Shaka e eu tínhamos combinado que o baby só subiria para ver a mana depois de esta devidamente colocada a dormir tranquilamente no leito e eu conseguisse estar levantada e deambulante. Aconteceu nas primeiras 24 horas, felizmente. Chegou ao meu quarto e fui recebê-lo à porta com um troféu de irmão mais velho nas mãos. Ficou radiante de receber a taça do melhor irmão do mundo! Mas logo em seguida reparou no meu cateter venoso na mão. Arregalou os olhos:

- Mãe, é assim que tu tratas dos doentes?
- Sim, às vezes tem de ser mesmo por aqui, filho.
- Isso é para água ou para medicamentos?
- Pode ser para água, mas geralmente é para medicamentos, querido.
- Mas... mas... que espetáculo! Mas esse canhão dispara mesmo medicamentos para os doentes daqui do hospital? Mostra, mãe, dispara lá!

(Ups... Não te rias, mantém a compostura, aguenta, aguenta!)

- Agora não é preciso, já disparei há pouco tempo, mas se alguém mais precisar eu mostro...

[Boys will be boys!]

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

[notícias do segundo andar] de quantas semanas estás, beijo-de-mulata?


Só nos resta andar muito e fazer compras...

Estou de "depois-de-nove-meses-de-repouso-acho-que-vamos-a-prolongamento-e-quem-sabe-a-penalties" semanas de gestação.

Eu no fundo sempre desconfiei que vinha lá uma mini-baby-de-mulata do cluster B. Das que ameaça e depois não faz. Das que põe tudo em polvorosa e depois assobia para o lado. Das que faz das suas pela calada e depois não foi nada com ela... Então aqui a inquilina do segundo andar ameaça rescindir contrato de alojamento temporário desde as primeiras semanas, re-pe-ti-da-men-te!, põe os pais em pânico e agora nada de dar um ar da sua graça? 

Enfim, podia ser pior, confesso. Adoro andar a pé e fazer compras, ainda consigo dormir a noite toda e subir escadas a correr. Há quem diga que o melhor dos concertos é sempre o encore. Estamos nessa! Obrigada, princesa, este "só mais uma" está a saber bem...

[Sim, não temos outro assunto. Está tudo bem por aí fora no mundo, não é verdade?]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

[instinto de ninho] afinal quem é a grávida aqui?!


Foto obviamente da net...

Há dias descobri que o instinto de ninho é contagioso... Isto já vem desde o princípio da gravidez, em que suspeitei que estava de esperanças porque Mr. Shaka e o baby-de-mulata tiveram desejos de comida exótica... Eu continuava na minha dieta habitual e nada! Mas como é um fenómeno que está descrito amplamente nos anais de obstetrícia, lá me dignei a fazer o teste e... o resto é história!

Agora na reta final, o meu instinto de ninho já acalmou depois de montar o berço, fazer o enxoval, instalar a cadeirinha, mandar lavar os cueiros, escolher a banheira e abastecer a despensa e só me apetece descansar e comer pouco. Já Mr. Shaka está ao rubro. Ontem era vê-lo a limpar os cantos inexploráveis do corredor. E o baby-de-mulata, de limpa-vidros e pano em punho, a limpar azulejos e janelas:

- Mãe, quando estiveres no hospital eu vou ficar aqui a limpar tudo para a mana não apanhar nenhuma bactéria!

Menino mai lindo de sua mãe... Mas está tudo grávido nesta casa?! E a menos grávida pelos vistos sou eu...

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

[de quantas semanas estás, beijo-de-mulata?] ainda...

Sabes que estás de termo há demasiado tempo quando todas as conversas começam com "Então, ainda anda aí?"

Mas a mini-baby-de-mulata é uma querida, que deixou a mãe levar o mano ao primeiro dia de aulas do primeiro ano!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

[notícias do interior] de quantas semanas estás, beijo-de-mulata?



Estou de "tenho-tanta-azia-que-quando-me-dizem-que-a-mini-baby-de-mulata-está-a-ficar-cabeluda-imagino-que-vou-ter-uma-pequena-Chewbacca" semanas de gestação.

E depois dizem-me que os antiácidos não são grupos alimentares de per se. Humpf!

- Como não posso fazer uma pequena refeição de Kompensan?! Tenho a certeza de que tive uma cadeira disso na faculdade e que era um alimento de alto valor biológico! Sim! Não me contradigam, por favor, que eu sou uma pessoa que não se pode enervar! Elevadíssimo valor biológico, é o que vos digo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

[atualidades] de quantas semanas estás, beijo-de-mulata?


Estou de "o-baby-de-mulata,-espantado-com-o-tamanho-da-minha-barriga,-perguntou-me-ontem:-mãe,-tens-aí-tanta-água-será-que-a-mana-ainda-tem-pé?" semanas de gestação.

Go, mini-baby-de-mulata! A manter-se à tona desde 2017!

(Sim, é verdade, voltámos! Fizemos uma tentativa de migração para o Sapo porque fazia sentido, dado estarmos inchadíssimas, mas não nos entendemos com aquilo, por isso cá estamos...)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

[que farei quando tudo arde?] a minha amiga catarina


A minha amiga Catarina em cima do telhado, rodeada pelas chamas...
(Foto daqui)

Tenho estado à espera que ela nos conte como foi. Como foi que sobreviveu a todo aquele capítulo mais horrível da Divina Comédia. O que a fez nunca voltar costas à luta e, no princípio, meio e fim manter o sentido de humor, a compostura, o sangue-frio, a preocupação em dar notícias e o antirrugas. Uma mulher Chanel nunca se atrapalha, que uma mulher atrapalhada é pior que um anestesista bêbado. E mais inflamável.

Tenho uma amiga que esteve encurralada pelo fogo em Castanheira de Pera. Uma amiga que me fez chorar desesperada e rezar por um milagre durante mais de 12 horas. Não vejam isto como uma força de expressão. Eu não costumo rezar por milagres. Mesmo nos milagres a que já assisti (verdadeiros e inexplicáveis para mim, que sou uma mulher de ciência, acho que vi um - um e meio, vá, já vos falei sobre isto), não rezei por um milagre. Foi mesmo o desespero, a impotência e a incredulidade que me fez rezar pelo que não se pode pedir. E fazer refresh de minuto a minuto na sua página do facebook à espera do notícias, enquanto via apenas os apelos de outros amigos por notícias. Porque as ligações estiveram interrompidas durante horas!

No sábado o meu marido chegou a casa e eu estava deitada a chorar. E como é que lhe ia explicar ou sequer admitir a vergonhosa circunstância de que a pessoa por quem chorava não era sequer minha conhecida? Não a conheço pessoalmente, mas é minha amiga! Conheci-a aqui neste mato! Somos amigas e apaixonadas por Moçambique. Acabei por fazer uma promessa a Santa Escolástica (achei que Santa Bárbara e todos os outros milagreiros das catástrofes estariam assoberbados), que espero que ela agora me ajude a cumprir. Mas estava longe de imaginar como foi. O desespero de ter de proteger os seus sozinha, com uma mangueira em cima de um telhado, cercada pelo fogo que consumia as suas memórias de infância e a tranquilidade de ter uma casa segura onde criar raízes, quase sem meios e sem saber com quem contar. E no fim fazer-me rir a dizer que foi como a peça de Tennessee Williams, Gata em Telhado de Zinco Quente. Mas com sérum e antirrugas.

Espero que ainda nos conte como foi. E sei que um dia vai fazer qualquer coisa maior com isto que aconteceu, como é seu habitual. Coragem, Catarina! E obrigada por continuares por cá!

[Não sou silvicultora de bancada. Tenho muitas dúvidas e uma grande mágoa. Espero que algumas respostas venham a ser dadas por fim. Não tenho mais nada a dizer porque genuinamente não sei e não posso. Só posso ajudar no que está ao meu alcance...]

quinta-feira, 22 de junho de 2017

[welcome to mozambique] a seleção de esperanças!


"Os meninos das Irmãs" - Escolinha da Santa Cruz, Nampula
Não sei quais deles são meus filhados, possivelmente nenhum, porque só tenho rapazes e veem-se sobretudo meninas a dançar, mas sei que são felizes e lhes é permitido ser criança!
(Moçambique)

No mês da criança, no dia em que é divulgado o relatório da OCDE em que se faz a revelação bombástica de que "uma melhor educação na primeira infância aumenta as hipóteses das crianças desenvolverem todo o seu potencial, ao mesmo tempo que reduz as desigualdades sociais e é a principal determinante da mobilidade social" (como se ninguém o soubesse há anos), as irmãs de São João Baptista postaram este vídeo delicioso! Podia ser qualquer jardim de infância de qualquer país do mundo, mas fica num dos bairros mais pobres de Nampula e se vos disser que há anos que fazem coisas tão extraordinárias e defendem a infância com unhas e dentes podem crer que é verdade!

Coisas extraordinárias como combater o tráfico e rapto de crianças. Sabem como? Chamam o senhor da conservatória de 6 em 6 meses à escolinha e registam cada uma das crianças que nasce no bairro! Desde que o fazem nunca mais houve um único rapto de crianças, que era um flagelo que assolava toda a província! Desapareceram os raptores. Foram para a Tanzânia, diz-se. Mas nunca mais! Podem rir-se. É um ovo de Colombo, é certo, mas como todos os ovos postos por esse senhor, absolutamente genial.

Na escolinha asseguram que todas as crianças aprendem a falar Português e se familiarizam com livros, letras e números antes de iniciar o primeiro ciclo. Porque nenhuma criança consegue aprender a ler numa língua estrangeira (e em Nampula, nas casa de família, fala-se Macua). A biblioteca das irmãs, por pobre que seja, tem um movimento de 400 pessoas diariamente! É uma ilha, um oásis! E o número de crianças que consegue aprender efetivamente a ler é incomensuravelmente superior aos meninos de outras escolas.

Proporcionam a alimentação, vestuário e material escolar a cada uma das crianças. Por escassa que seja a alimentação, todas as crianças (e asseguro-vos que as observei a todas, uma por uma!) estavam dentro das curvas de crescimento da OMS.

Quanto gastam as irmãs com cada uma das crianças? Com cada um dos nossos afilhados? Preparem-se: 70 euros por ano! Em roupa, alimentação, educação e material escolar. E acima de tudo, as crianças têm sempre um sorriso! Digo-vos, que só quem lá esteve sabe a força que um sorriso pode ter.

É isto. A vida é simples. Os 70 euros por ano que gasto com os meus afilhados valem cada cêntimo! Tenham um bom dia!

(Se me perguntarem: Beijo-de-mulata, alguma coisa te custa, nisto de ser mãe? Eu respondo que há uma coisa. É não poder tão cedo voltar a Moçambique... A saudade aperta tantas vezes... Mas não se aflijam que sou feliz do lado de cá!)

terça-feira, 6 de junho de 2017

[vozes brancas*] memórias de infância



Ainda a propósito da notícia do Público que deixou metade do país indignada, onde era referido que 43 crianças tinham sido "devolvidas" durante o período de pré-adoção no ano passado, houve quem tivesse comentado qualquer coisa como: "Pelo menos a maioria eram bebés. Ao menos não se vão lembrar de nada."

Não sei que formação têm as pessoas que verbalizaram coisas deste calibre... Com boa intenção, claro, não duvido, quase que para se consolarem e defenderem da catástrofe emocional que é saber que uma criança foi abandonada segunda vez. Mas a noção de que as experiências dos primeiros anos de vida são incrivelmente importantes e ficam gravadas a fogo na memória e no inconsciente tem mais de 100 anos e é irrefutável! Não por ser freudiana, mas por ser verdadeira.

Posso até provar-vos: O baby-de-mulata tinha 16 meses no dia em que chegou a casa e lhe nasceu uma mãe (para mim ele já tinha nascido antes, mas acho que nos adotamos verdadeiramente um ao outro nesse dia). Contei-vos a história há poucos dias. Pois que há quase dois anos, um dia, depois de um passeio no jardim chegamos a casa e ele disse-me:
- Mamã, pega-me ao colo...

E já no meu colo:
- Mãe, agora a fingir que eu tinha chegado de muito longe e tu me ias mostrar a casa...

E ao meu colo, conseguiu reproduzir a sequência com que lhe mostrei a sua nova casa no momento em que chegamos. E mais, por fim quis ir para a sala, pegou num livro e pediu-me para lho ler. No mesmo local onde lhe mostrei o álbum de fotografias de família...

E eu, que sabia de tudo, quase não consegui deixar de me emocionar e de me espantar. Os bebés guardam memória dos dias importantes. Por mais que não lhes consigam atribuir um significado. Por isso não lhes podemos falhar tão redondamente!

domingo, 4 de junho de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #6


(Continuando a história da longa caminhada que me levou o baby-de-mulata para casa... É desta que chegamos ao fim! Obrigada por me terem acompanhado neste relato. Para que se veja, portanto, que a adoção é um mundo maravilhoso e não é porque alguns com menos fé desistem que devemos deixar de acreditar.)

De uma forma ou de outra, no jardim de infância ou no hospital, lá tinha conseguido voltar a visitar o meu amor pequenino no meio daquele calor tórrido que é a planície a 150 km de Lisboa. Continuavam as minhas angústias, os dias maus em que ele só abria e fechava janelas e portas, mas lentamente ia conseguindo atingir alguns marcos do desenvolvimento. Já fazia carga nos membros inferiores (tentava alegremente ignorar que ele já tinha 15 meses e esse é um marco dos 6 meses, mas adiante), por vezes tolerava a posição de gatinhar, já o conseguia frustrar sem que se retirasse de todo e voltasse a alhear-se completamente. Eu via que ele estava a evoluir. Lentamente, mas estava!

Do outro lado da maré, tinha ainda de remar com a equipa de adoções da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. As entrevistas já tinham terminado. Seguiram-se os testes psicológicos, os testes de personalidade e um "teste de memórias de infância" que achei delicioso. A sério que achei o teste genial! É que o princípio da parentalidade é muito simples: ninguém, em princípio, consegue dar o que não teve. A forma como somos pais espelha muito os pais que tivemos e a forma como fomos tratados em criança. O teste de "memórias de infância" faz-nos reviver e tornar conscientes da forma como os nossos pais nos viam. Se nos valorizavam, se nos encorajavam quando não conseguíamos fazer algo, se nos elogiavam em frente a estranhos ou, se pelo contrário, faziam queixas ou nos humilhavam. É bom ver como se preocupam com questões deste tipo e depois nos põem à prova com casos práticos plausíveis, para ver como nos desenvencilhamos de uma situação grave com um hipotético filho.

Faltavam ainda muitos passos a dar. Cheguei à parte das formações obrigatórias. As tais formações B e C, que duram meses. Importantíssimas, não duvido, mas que não ocorreriam naquele mês e que iriam atrasar todo o processo. Fiquei desesperada! Tanta correria e agora ficava tudo parado por causa de duas formações? Mas corria o ano de 2012. Lembram-se? Eu reavivo a vossa memória, se me permitirem. Rebentara o escândalo porque Miguel Relvas, o então Ministro dos Assuntos Parlamentares, tinha uma licenciatura de cujo plano curricular, com 36 cadeiras, tinha tido equivalência a 32! Foi então que em conversa com uma amiga ela me perguntou o que iria eu aprender nessas formações que não soubesse já e nos veio, num rasgo de loucura, a ideia peregrina! Pois com certeza que pediria também "equivalência"! Não foi bem assim que falei com a equipa que me acompanhava, claro, mas perguntei com bons modos se achavam indispensável a formação ou se a poderia até fazer depois. Disseram-me que então ficaria pendente, dada a urgência do caso e que se eu sentisse necessidade poderia sempre requerer a formação depois. (Mais um passo dado! Mas a "ideia brilhante" por associação com o Ministro Relvas ficou para a história da família!).

Chegámos, por fim, à parte das entrevistas com a família alargada. Sendo eu solteira, tinha de provar que tinha uma aldeia inteira para me socorrer e ajudar a criar o baby que ali vinha. Já era agosto, mas a equipa, incansável e maravilhosa, fez questão de só ir de férias quando o processo estivesse terminado e com parecer dado. Eu não esperava tanto. Os meus pais estavam de férias a centenas de quilómetros quando percebi que afinal lhes ia ter de pedir para virem. A psicóloga ainda disse que poderia entrevistar os meus irmãos, mas os meus pais fizeram questão de vir. Sabiam bem que seriam a pièce de resistance! E, de facto, depois da entrevista com eles, senti que se tinham dissipado todas as nuvens. O parecer iria ser positivo. Estava tudo encaminhado! E, sete dias depois, já em casa vinda do hospital, tive um pressentimento. Voltei a descer as escadas e no correio lá estava a carta da Santa Casa dirigida à minha pessoa, certificando que Beijo-de-Mulata estava apta a adotar uma criança!!! Finalmente o "teste de gravidez" vinha positivo! É difícil descrever esse momento...

Depois da histeria total que partilhei com as melhores amigas, telefonei à diretora do centro de acolhimento. Iria ter autorização para ir visitar o menino? Claro, respondeu-me! E até poderia levá-lo a passear!

Foi uma delícia voltar a entrar naquela casa! De manhã fui comprar uma cadeirinha para o carro e levei o meu irmão e a minha cunhada a conhecer o sobrinho e afilhado. Foi um passeio lindo e ao fim do dia ainda me deixaram dar-lhe banho. Acreditem que foi um momento mágico que fez toda a diferença para mim!

Estava eufórica! Os 20 dias seguintes demoraram séculos a passar. Tive de esperar que a equipa de adoções local regressasse de férias para pegarem no processo. Imagino o que sentem os pais que esperam anos. Às tantas já estava desesperada, com a agravante de ter de deixar todas as noites o menino a chorar quando me vinha embora. Chorava ele e chorava eu depois em casa... E a outra agravante que era estar a terminar o internato e não conseguir prever se me apresentaria a exame ou não, dado que o prazo era dentro de dias. A psicóloga da Santa Casa era um amor. Aturou-me nesses dias todos. "Tenha calma, se ele fica a chorar é porque se está a vincular. É bom sinal, o seu dia vai chegar. Decida a sua vida profissional sem entraves, tudo o que decidir está bem decidido."

E foi assim, com muita impaciência, que chegou finalmente o dia em que o baby-de-mulata veio para minha casa e se tornou meu filho do coração! Já passaram quase cinco anos desde que a minha vida deu uma volta e o meu coração se encheu de gargalhadas, canções infantis e palhaçadas! E de ralhetes e recados e alegrias pelas pequenas e grandes conquistas. Foi há quase cinco anos que me levantei da cama com a confiança de que iria ao centro de acolhimento onde ele estava para me vir embora com o colo cheio, a cadeirinha de trás ocupada e a alma a transbordar. A minha mãe fez questão de vir comigo apesar de nesse dia estar doente.

Foi também nesse dia que passei a acreditar em milagres no desenvolvimento das crianças. O meu baby, que tinha o diagnóstico de "autismo", quando me viu chegar, radiante de alegria, pela primeira vez olhou-me diretamente nos olhos e estendeu-me os braços para que lhe pegasse! Eu nem queria acreditar! O resto da reunião com a equipa de adoções foi todo com ele ao meu colo. As senhoras ficaram encantadas com o que estavam a ver.

Mas o melhor estava para vir. Tenho isto para vos dizer desde que comecei, em agosto do ano passado, a contar a história desta caminhada. E só por isso a tenho vindo a contar, sem desistir de a escrever. É porque queria partilhar convosco o momento de pura magia que se seguiu. Parece patetice, mas só me ocorreria o canto de Simeão, depois de ver Jesus no templo, para descrever o que senti nesse momento: "Já vivi para ver isto! Já tive toda a alegria que se pode ter na vida. Já posso, a partir de agora, ir em paz."

Depois de uma viagem de 150 km, chegámos a casa. Ele ia assustado. Tenso. Durante o caminho adormecera com as mãos cerradas. Já me conhecia, mas mais uma vez sentia que estava a mudar de vida, que algo de irreversível estava a acontecer e ainda não sabia se era bom ou mau...

Chegámos a casa, peguei-lhe ao colo e fui apresentar-lhe o espaço. Mostrei-lhe o sítio das coisas por analogia com o centro de acolhimento. O que imaginava que viriam a ser os seus locais preferidos. O sítio das Bolachas Maria, a casa de banho com uma banheira enorme e alegre (acho que fiquei aprovada quando ele viu a banheira!), o quarto dele, o quarto das brincadeiras onde já tinha colocado alguns brinquedos iguais ao que ele tinha no centro de acolhimento. Reconheceu-os e sorriu. Pela primeira vez olhava exatamente para onde eu apontava. Sem esforço nenhum da minha parte. Sem precisar de lhe captar a atenção e exagerar os gestos. Parecia que compreendia tudo e deixava que lhe falasse. E foi então que fomos para a sala ver o álbum de fotografias de família que tinha preparado. Mostrei-lhe os tios, os avós, os primos e o milagre aconteceu: a dada altura reconheceu-me numa fotografia. Fez-me parar de desfolhar o álbum. Pegou nele com as suas mãozinhas, deu um beijo na minha fotografia e depois olhou para mim e sorriu-me. Olhos nos olhos! "Sim, sou eu, eu sou a tua mãe!", disse-lhe. E, pela primeira vez, encostou-se no meu peito. Foi nesse momento que me nasceu um filho! Nascemos um para o outro.

Um mês depois, com 17 meses, o baby já gatinhava, dava os primeiros passos e eu assistia a uma explosão de linguagem com palavras novas de dia para dia. Compreendia tudo e conhecia toda a gente da família. Dois meses depois fomos a uma consulta de desenvolvimento e o teste mais exigente para esta idade (Escala de Griffiths) era normal. Inteiramente normal. Pontuou 100 em 100! E claro, o melhor está sempre para vir!

Já vi muitos milagres na minha vida. Já me aconteceram vários. Sei sempre que tenho de me esforçar para os aceitar, porque não é imediato sentir que os mereço. Mas depois sinto que tenho de fazer alguma coisa com eles. Por causa deles. Foi por causa do primeiro que me tornei pediatra. Foi por causa deste que decidi que me iria dedicar ao desenvolvimento. Porque é preciso agradecer todos os dias!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

[histórias de desamor na adoção] as crianças devolvidas


Ontem, dia da criança, tentei ignorar uma notícia. E ainda dizem por aí (e até há quem cante!) que a dor da gente é coisa que não sai no jornal. Fiquei com um nó na garganta porque, em pouco mais de um ano, 43 crianças não chegaram ao fim do processo de adoção e foram "devolvidas" às instituições de onde provinham. Estive até ao fim à espera de ver que pelo menos 90% teriam mais de 13 anos, que seriam pré-adolescentes difíceis, com histórias de vida complexas e psiques intrincadas. Que pudessem ter doenças graves. Daquelas mesmo graves como o meu baby-de-mulata, que tinha "autismo" e um intestino que era um molho de brócolos. Mas não, o nó na garganta não se desatou no final. Quase metade tinha menos de 2 anos. Um número irrisório tinha problemas de saúde graves. O que foi que se passou?

É claro que há coisas de que ninguém fala! Que a depressão pós-adoção é tão real como a depressão pós-parto, mas muito menos falada e tolerada. Que os candidatos passam anos a idealizar o dia em que o telefone toca, a ansiar por esse dia. A telefonar de seis em seis meses para ver como vai o andamento da "gravidez" virtual de que já receberam o teste positivo há tanto tempo (a declaração de que se está apto para adotar), mas não há bebé à vista. E no meio deste tempo, cada um faz a sua vida como pode. Há casais que se desfazem. Que colocam o sonho de maternidade em stand by. Que se anestesiam, que adormecem à pancada os relógios biológicos. Que procuram outras formas de contactar com crianças. Que se dedicam aos sobrinhos, à carreira profissional, um doutoramento. Que se defendem como podem do sofrimento que é saber que a "gravidez" pode não chegar ao fim. Há os que vão tentando FIV atrás de FIV com desilusões atrás de desilusões.

Mas no dia em que o telefone toca, anos depois do tal teste de gravidez positivo (às vezes três anos, às vezes seis anos), o dia nunca é propício. Claro! A vida está sempre programada sem filhos. Até para mim, que quem acompanhou o processo sabe que não pensava em mais nada, o dia não foi propício. No preciso dia em que o baby me foi entregue tinha de entregar o currículo para terminar a especialidade. No MESMO DIA, caramba! Tive uma semana para reorganizar o meu projeto de vida profissional e colocar oportunidades e carreira para segundo plano. Eufórica, claro! Mas sem saber se no final da licença de maternidade ainda teria as mesmas oportunidades de contrato. A vida sempre me foi madrinha e foi o melhor que me poderia ter acontecido. Sei que fiz o que estava certo, mas estava preparada, à espera do que veio a acontecer. Mas e os outros, que esperaram seis anos? É que temos de ser realistas: sempre me custou ouvir isto dos muitos pais de filhos adotados que conheço profissionalmente, mas seis anos depois, o sonho já não é o mesmo! O encanto já não é o mesmo. O deslumbramento, a excitação, a felicidade sabem um pouco mais a frio... Há alguns pais que relatam a minha euforia. Mas muitos (um número arrepiante!) relatam este desencanto. Um parto doloroso e inesperado. E o transtorno e a reviravolta que uma gravidez de dez dias em vez de nove meses pode trazer a uma vida? Em poucos dias é preciso meter férias, preparar o quarto, comprar roupas, fazer um álbum de família e o diabo a sete. As famílias podem não ter um pé-de-meia preparado para fazer face a uma despesa inesperada como esta. E há sempre uma viagem, uma tese, um projeto que tem de ficar por terminar.

E depois vai-se ao desconhecido. Os pais querem um filho. E os filhos querem uma família. Mas se perguntarem a um casal se era mesmo "aquele" filho que queriam. Inicialmente não, claro! Tal como se perguntarem a uma criança se era "daquela mãe" que ele estava à espera. Claro que não! Mãe é a pessoa que dá o amor maior e tudo quanto uma criança necessita. Se não há vínculo não há amor. Não é aquela senhora que é a "MÃE" que se idealizou. Não é aquele senhor que é o PAI com que a criança sonhava. São feios e tensos. Claro que não são os meus pais, dizem as crianças que já falam! É claro que não era nada daquilo...

Se não se está à espera disto, o desencanto pode ser avassalador. Os vínculos não são imediatos. Mesmo com os filhos biológicos, carregados nove meses no ventre. Os vínculos demoram, o amor leva tempo.

É natural que a primeira reação seja de rejeição. Por parte da criança e até de parte a parte. É natural que a criança diga coisas como "vocês não são os meus pais nem nunca serão!" Pode até dizê-lo para os testar, mas isto custa ouvir. E custa muito! E ainda mais se a instituição onde os pais adotivos os foram buscar for a mesma instituição onde a mãe biológica um dia prometeu que os ia buscar e nunca mais voltou. A criança continua à espera que a sua mãe volte e se for com os "novos pais", está a trair a mãe biológica e, pior, ela nunca mais os encontrará! Alguém terá feito o trabalho de casa e preparado a criança para ir para uma família? Nem sempre! Há instituições onde nada disto é feito. Onde as crianças continuam à espera que as mães as venham buscar. E há crianças que apesar do trabalho que é feito não conseguem ultrapassar a imagem da mãe a dizer que voltava.

Se os pais idealizaram a relação perfeita, pior um pouco. Se forem mais preparados talvez seja mais fácil. Se os técnicos conseguirem descortinar o que se passa e traduzir por palavras o que todos estão a sentir também é mais simples, mas nem sempre é simples. E depois de anos a tentar engravidar pelas vias mais naturais, isto pode saber mesmo a um "filho de segunda". Um filho de recurso... "Com um filho biológico nada disto aconteceria", pensam as mães, para quem o mito da "voz do sangue" é tão portuguesmente verdade.

E podemos pensar que um bebé é diferente. Um bebé não fala, não agride, não diz coisas que magoam. Mas reage à rejeição com ansiedade e tensão. Um bebé que ainda não conseguiu estabelecer uma vinculação segura não olha nos olhos, não sorri, não come, cospe a comida, fica irritado com tudo, não dorme bem, não se encosta ao peito da mãe. Está sempre em alerta e tenso. Nada a ver com o bebé fofinho que dorme tranquilo nos braços da mãe que toda a gente idealiza.

Eu, que sou pediatra, às tantas tive de ir perguntar a uma grande amiga pedopsiquiatra se estaria a fazer alguma coisa de errado porque o príncipe insistia em adormecer na cama dele e não chamava quando acordava. Ficava alegremente a palrar no berço. Há tempos perguntei-lhe por que não queria dormir ao meu colo. Respondeu-me: "Mamã, desculpa, eu gosto muito de ti. Mas é que me faz muito calor!" Às vezes a realidade é muito diferente das nossas fantasias...

É preciso muita maturidade e um GPS emocional muito potente para conseguir lidar com isto e sobreviver. Sobretudo sem experiência e sem preparação. Felizmente a maioria das crianças está ávida de amor e afeto. E os pais também estão ávidos de serem pais. Geralmente há uma amiga, uma avó, uma prima com experiência e que passou pelo mesmo. Quem nunca conheceu ninguém que teve um filho que não dormia de noite, não comia ou que chorava por tudo e por nada. Passado algum tempo tudo se sana... Lembro-me bem que o meu baby só se apaixonou verdadeiramente por mim meses depois de lá estar em casa. Sim, meses. Dois meses, acho eu. Dou muitas vezes este exemplo aos pais. Mesmo o meu, que era bebé, demorou tempo. O amor leva tempo!

Os técnicos que acompanham o processo são pessoas competentes e preparadas. Psicólogos, assistentes sociais. São quem pode ajudar os pais a ultrapassar os seus receios, descodificar o que se passa com as crianças, tranquilizar os pais. O problema é que por melhor que sejam os técnicos, eles são os mesmos que os estão a avaliar. São eles que no fim vão emitir um parecer positivo ou negativo sobre se deve ou não ser requerida a adoção plena. Do mesmo modo que alguns alunos têm receio de "fazer má figura" ao colocar questões aos professores, muitos pais não conseguem expor os seus receios, dúvidas e zangas aos técnicos. Mas a falta de vínculo não lhes escapa. Salta à vista! Os pais têm seis meses para mostrar o que valem. A criança tem seis meses para se adaptar. Se estes seis meses são passados a lutar com sentimentos contraditórios, com uma depressão pós-adoção, com uma adaptação difícil ao novo papel de pai e mãe e com a reorganização do casal em torno da criança, é difícil a criação de uma vinculação segura. E qual é o técnico irresponsável que ao fim de seis meses, vendo que a criança e os pais não estão seguros e felizes, que rejeitam, negligenciam e não têm empatia com o filho, deixa a criança com esta família? A isto se chama devolução. Um projeto que não aconteceu... Quantos casais "biológicos" se desfazem no primeiro ano de vida de uma criança? Os primeiros tempos são muito exigentes, extenuantes emocionalmente e fisicamente!

Mas teremos maneira de melhorar? Claro que sim! Tem de haver equipas de recurso, que sejam diferentes das que estão a avaliar o processo. Preparadas para intervir neste período crítico. Se virmos o caso de uma criança que está o tempo todo tensa, irritada, que não come nem dorme, essa criança está doente! Profundamente doente. A vinculação com pais maduros, disponíveis e seguros pode reparar esta ferida imensa. Mas por vezes é preciso um médico. Sobretudo se a mãe se deprimir também com isto tudo. Facilmente se cai na asneira de pensar que "O bebé não é do meu sangue. Geneticamente nada disto me estava destinado." Se for preciso colocar um pedopsiquiatra na equipa, que se coloque! Eles fazem milagres com casos muito mais difíceis! Mas tem de haver um caminho para que não se ouçam mais notícias destas!

terça-feira, 30 de maio de 2017

[vozes brancas*] fofices


Há exatamente um ano, tentando motivar o baby-de-mulata para reconhecer a delícia que é ter um irmão mais novo, mostrei-lhe um Nenuco:
- Olha, querido, não é tão fofo? - perguntei, abraçando e embalando o boneco.

Com o ar mais dahh que alguma vez lhe tinha visto e, olhando com um desprezo colossal pelo canto do olho, respondeu-me:
- Sim, mãe, fofinho como uma grua num salão de baile!

(Sempre vi que tinha aqui um público difícil).

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

sábado, 27 de maio de 2017

[cada mulher é uma ilha] o dia em que o mar desapareceu...


 O dia em que o Índico se tornou frio e distante e decidiu esquivar-se ao contacto íntimo e envolvente com o seu corpo... Nesse dia, a mulher, alheia a tudo quanto já tinha deixado de existir em seu redor, apanhava marisco na maré-vaza...


...no final do dia, a mulher, com o cesto cheio, levantou a cabeça e seguiu o seu caminho por entre as águas, acreditando ainda que pelo menos o mar e o céu são garantidos... e nunca chegou a perceber que o mar nos toca apenas porque quer. E o céu só ilumina quem ama...

(Ilha de Moçambique, Nampula)

[Agradecendo as graças desta vida, passe o pleonasmo, e abraçando a saudade que o Índico nos imprime na pele*! Como diria a Helena Araújo, a primeira dama dos dois dedos de conversa: "Da minha vida vê-se o Índico..."]

* Não vivemos sem uma vírgula de Oxford.

terça-feira, 23 de maio de 2017

[mas porque foi que não dormiste esta noite, beijo-de-mulata?] silêncio...

E perguntam vocês: "Mas, beijo-de-mulata, a ti, que já estiveste em Moçambique no meio do mato e sempre conseguiste dormir de noite, agora é que te dão as insónias?"

É verdade, meus amigos, quem visita este mato há mais tempo sabe que já estive metida em assados muito complexos, quase sem meios nenhuns para socorrer os doentes e que sempre me desenrasquei sem perder o ânimo. Que num surto de sarampo me morreram quase tantas crianças como as que faleceram em Manchester e que num surto de cólera na Zambézia morriam por dia tantos ou mais do que ontem. Que "parto sem dor" no hospital no Gilé era um parto em que mãe e filho ficavam vivos.

E que quando achamos que já vimos de tudo, quando pensamos que já vimos todas as desgraças do mundo, que já vimos pessoas a morrer e a sofrer, a suportar aquilo que achamos que vai para além da força humana, parece que deixamos de estar preparados para aceitar que pode haver pior. Ainda pior. Foi isso que percebi quando, depois de 15 dias sem arredar pé da porta do Instituto Nacional de Apoio aos Refugiados (INAR) em Nampula, tive finalmente autorização para entrar o campo de refugiados às portas da cidade e tratar os doentes de lepra que estavam a ser literalmente enterrados vivos pelos familiares. Nunca vos falei destes dias horríveis de descida aos infernos no campo de refugiados de Maratane porque nem eu própria gosto de me lembrar deles. De como os guardas do campo nos apontavam uma metralhadora à entrada só porque sim, nos revistavam o carro para nos intimidar e no final nos pediam boleia para casa, como se nada fosse. De como se  podia ver o desespero na face das pessoas que não eram imigrantes naquele país. Eram toleradas se ficassem naquele espaço, mas tratadas como criminosas e aprisionadas se tentassem fugir. E fugir para onde, se não havia caminho de volta para casa? Sim, e não vos vou falar dos doentes de lepra. Eu própria não saberia como fazê-lo sem perder o sono.

E perguntam vocês, meus amigos: "Mesmo nesses dias conseguiste dormir?" E eu respondo que sim. Com mais ou menos dificuldade, mas sempre dormi de noite. E voltei no dia seguinte com ânimo e vontade. Porque sempre consegui sentir que fazia algo pelos doentes, porque apesar dos que morriam e sofriam, havia sempre muitos mais que sobreviviam e se curavam.

Mas o mais importante de tudo, à noite, não era saber que tinha conseguido ajudar. O mais importante nesses dias difíceis era saber que à noite tinha uma casa para onde voltar. Um colo para onde correr se estivesse mais triste. Uma casa segura, onde havia mimo, carinho e alegria. E tinha a minha própria família, se bem que a milhares de quilómetros dali, para onde iria voltar.

Foi isso que me faltou a mim ontem às pessoas que vi em Manchester. Porque o terrorismo é isso mesmo. Deixamos de ter uma casa segura para onde voltar. Onde construir raízes e criar os filhos. Bolas, como é possível?

domingo, 21 de maio de 2017

[vozes brancas*] massa cinzenta

[Este é o post nº 1500 deste blogue, desde a sua criação, há 7 anos, vários meses e várias telhas e amuos, lutos e lutas e aventuras.]



Há uns dias, eu estava a ameaçar zangar-me com o baby-de-mulata porque não se queria sentar à mesa para almoçar e teimava em levantar-se a desafiar-me com a sua irreverência, alegando os clássicos: "dói-me-a-barriga-não-tenho-fome-ainda-não-brinquei-nada-o-que-há-nesta-gaveta?-é-sempre-peixe-etc.-etc." E eu a respirar fundo, tentando não me transformar em momster, que como sabemos, torna a comida em geral indigesta (e o peixe em particular, segundo dizem). Foi então que o baby se aproximou de mim, olhou-me nos olhos, segurou-me a cabeça como costumava fazer, apaixonado, há uns anos (e ainda faz às vezes quando acorda, benza-o Deus) e perguntou-me:

- Mãe, o que tens dentro da tua cabeça?
- O mesmo que tu, baby, o cérebro.
- Ah, e como é feito o cérebro?
- É feito de massa branca e massa cinzenta.
- Então quando eu me estou assim a portar mal, é a massa cinzenta ou a massa branca a mandar?

(Coisa mai fofa de sua mãe! Até me apeteceu explicar que a parte que pensa é a cinzenta, mas clivagem em minha casa, não obrigada!)

- São as duas, meu bem, quando pensamos ou fazemos alguma coisa são sempre as duas em conjunto a trabalhar. E tu não te estás a portar mal, tu já vens para a mesa.
- Está bem, mãe. Vou já, é só que não me apetecia ir lavar as mãos, mas vou já.

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

[as melhores do serviço de urgência] uma reanimação improvável


Como já vos tenho contado em diversos números anteriores, o Hospital de Curry Cabral foi o primeiro hospital onde trabalhei e de que guardo memórias fantásticas. Uma das quais é a sensação de ter de morder o lábio inferior para não sorrir quando os familiares dos doentes utilizavam a expressão "ir ao Rego*" como se fosse a coisa mais normal do mundo...

Outra das imagens que me ficaram para sempre aconteceu em certa noite de verão, uma noite já bem entrada na madrugada... estava eu de banco no SO - que era assim uma espécie de unidade de cuidados intensivos, mas com porta para a rua e de acesso quase direto - calmamente a transcrever umas análises, quando de repente, na sala contígua, oiço um bip longo de um alarme de um monitor, seguido de um ruído de arrastar de camas. Levantei-me de imediato para ir acudir à situação de perigo que se me desenhava na mente: uma paragem cardíaca e um enfermeiro zeloso que se precipitara para a cama do doente para iniciar manobras de reanimação, mas que inexplicavelmente não tinha gritado por ajuda. Ainda nem tinha chegado à porta quando oiço um berro abafado de um homem, seguido de um ruído de luta corpo a corpo e um estrondo enorme. Entro na sala e, incrédula, vejo um dos doentes que estava internado com um enfarte agudo do miocárdio, de pijama, em cima do doente da cama do lado, com este último a debater-se furiosamente para o tirar de cima de si, e vários objetos da mesa de cabeceira e os suportes dos soros a serem atirados ao chão no meio da inusitada batalha campal que se instalara na pacata enfermaria... Já os cateteres saltavam das veias, com soros, medicação e sangue derramados, quando os enfermeiro acorreram para os separar e restabelecer a ordem pública...

Levou-me algum tempo a perceber que raio é que se tinha passado... Ora o doente com um enfarte agudo do miocárdio que saltara da cama para cima do doente do lado não estava com uma crise psicótica nem possuído por um desejo mórbido e louco, mas era antes cardiologista. Pois... isso mesmo! Foi essa a explicação que ele me deu de imediato quando perguntei, furiosa, o que é que se passava ali... "Eu sou cardiologista, eu sou cardiologista." - dizia ele.

Explicou-me que estava a dormir tranquilamente quando, de súbito, despertou com o bip longo do monitor do doente do lado, olhou para o traçado eletrocardiográfico do monitor e viu uma linha isoelétrica (uma linha direita contínua) e o doente parado. Com o raciocínio levemente toldado pelo sono, pelos tranquilizantes que lhe tinham dado e pela sensação de morte iminente que vivera horas antes, concluiu de imediato que se tratava de uma paragem cardíaca e decidiu iniciar manobras reanimação cardiorrespiratória. A versão do vizinho do lado era ligeiramente diferente... O vizinho do lado, por seu lado, que não estava em paragem cardiorrespiratória coisa nenhuma, apenas desligara inadvertidamente os fios do monitor quando se tinha virado enquanto dormia, tinha acordado espavorido com um homem em pijama a dar-lhe um murro no peito quase a ponto de lhe partir as costelas e a soprar-lhe pela boca adentro (sim, na altura a respiração boca-a-boca ainda fazia parte do suporte básico de vida)... Obviamente que se tinha tentado defender com unhas e dentes do homem que o estava a assediar!

De onde se conclui que até para sobreviver a um internamento é preciso ter sorte, vizinhos simpáticos e sentido de humor...

*Rego - Hospital de Curry Cabral

segunda-feira, 15 de maio de 2017

[o milagre dos pastorinhos] e os meus milagres particulares



I once had a hospital in Africa...
(Gilé, Zambézia)

Confesso que ainda não consigo ler ou ouvir a história do menino Lucas, que sustenta a canonização dos pastorinhos de Fátima, sem me emocionar. Eu sou médica e ainda para mais trabalhei no meio do mato em Moçambique numa zona completamente desprovida de meios, onde a fé das pessoas é enorme, só superada pelo amor pelas crianças. Um povo fascinante, tem de concordar quem já lá viveu. É obvio que já vi e vivi muitas situações-limite! Assisti a curas prodigiosas. Posso dizer, em tom metafórico, que já vi muitos milagres na vida! Mas não. Não vi.

Milagres autênticos, não explicáveis pela fisiopatologia, acho que só vi um. Ou dois, pronto. Um e meio, já que para o primeiro ainda ponho hipóteses explicativas. Já vos contei as histórias (podem ir ali atrás ler esta história, e a outra também, mas aviso desde já que esta última é longa e difícil), talvez um pouco parecida com a do Lucas: Uma criança em descerebração acabou por recuperar sem sequelas! A situação era de tal forma grave que me cheguei a arrepender de ter insistido no tratamento. Quando vi que o menino estava reagir em descerebração fiquei horrorizada. A minha convicção foi apenas que o menino haveria de ficar com sequelas gravíssimas. Da mesma forma que os médicos que reanimaram o Lucas antes de o operar pela primeira vez poderão ter duvidado se tinham feito o que era correto... Não sei o que sentiram neste caso. Eu pessoalmente sei que reanimaria, mas haveria de duvidar por dentro se estaria a fazer o que era melhor para o menino.

Mas depois avisaram os pais do Lucas de que o menino poderia ficar com sequelas muito graves, possivelmente em estado vegetativo antes de o transferir para um hospital maior. Talvez tenham mesmo chegado a fazer a pergunta que este aviso quer dizer: "Querem mesmo que se continue o tratamento ou preferem que paremos por aqui, já que a situação é desesperada? No final vão aceitar cuidar o menino se ele ficar com sequelas graves?" Eu própria fiz a mesma pergunta aos pais do meu menino. Eu não tinha para onde o transferir, perguntei apenas se queriam que o menino fosse morrer a casa. Mas tudo o resto foi igual. Tenho a imagem do milagre gravada na minha mente. O menino acordou, horas depois, e começou a brincar com o meu estetoscópio vermelho. A minha cara de espanto e felicidade deve ter sido muito expressiva, porque a mãe sorriu e chorou comigo. Não sei se se chegou a aperceber do quão extraordinária foi a cura do filho.

Aquilo a que assisti não tenho a certeza se foi milagre, mas já perguntei a muitos colegas especialistas nesta área e ninguém viu semelhante coisa. O cérebro é plástico, isso eu sei e não é novidade para ninguém. Mas há limites. E a descerebração é onde eu traço o meu.

Se foi milagre de algum santo em particular não sei. Nunca saberei. Nem me ocorreu rezar, de tal forma estava convencida de que o desfecho seria trágico. Não tenho registos. Por acaso tenho uma testemunha, mas não há maneira de haver provas. Sei que a Irmã Lurdes rezou por ele ao seu santo de particular devoção. Mas não sei mais nada. Isto para dizer que todos os dias há milagres. E quando não são milagres, são graças enormes. E que vale a pena acreditar, porque quem não acredita (que é quase sempre o meu caso,  infelizmente) sofre mais!

Se aprendi a rezar por milagres? Acho que não. Mas devia. Talvez ainda vá a tempo...

[SNS we can!] sobre o ataque informático em larga escala

O mundo civilizado em pânico pelos ataques informáticos que deixaram os computadores lentos, bloqueados, a impedirem o atendimento de utentes, o caos instalado. Ou como lhe chamamos em Portugal "o PEM* num dia bom". (Desabafo de um colega meu no facebook).
Desculpem, ainda me estou a rir. Não devia, eu sei, só nós sabemos o que aquilo é todos os dias... Nem me devia rir também com o facto de o SONHO** não ter sido afetado. É um sistema tão arcaico que nem o WannaCry conseguiu entender-se com aquilo!

*Software que permite passar receitas no Serviço Nacional de Saúde.
** Sistema de informação para a gestão de doentes.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

[vozes brancas*] o lançamento de um livro


Ontem o baby-de-mulata chegou a casa desolado. Tinha ido entusiasticamente ao lançamento do livro do tio-avô, Rostos da Emigração, da editora Orfeu. Um livro para adultos, obviamente, sobre um tema pesado e muito descurado na literatura portuguesa, que é a emigração portuguesa nos anos 60-90 e os seus dramas sociais, numa escrita livre, escorreita e deliciosa (tive o privilégio de o poder ler antes do lançamento).

Falou-se muito e de forma séria, mas o baby aguentou estoicamente na sua cadeira, na expetativa do clímax apoteótico que fantasiava para o final. Mas, no final, nada mais aconteceu. Toda a gente se foi despedindo e seguindo o seu caminho para fora da sala, sem fazer a pergunta incómoda que já lhe queimava a língua. No final perguntou ao avô: "Mas, avô, quando é o lançamento?"
- Já foi, querido!
- Já foi?! Não vi nada! Então a luta de livros? Ninguém vai atirar nada?! Já no ano passado, no lançamento do livro da prima Joana foi a mesma coisa! Toda a gente falou e pronto. Mais nada. Não é justo!

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

[querido, vesti o miúdo] semana mundial do babywearing


Esta é a Semana Mundial do Babywearing!


[Ainda bem que os meus amigos moçambicanos não me leem habitualmente, de outro modo achariam tudo isto ridículo e estariam a olhar para mim com cara de "Duh, qualquer dia nós também fazemos a Semana Nacional de Comer a Sopa com Colher ou a Semana Mundial de Usar Roupa Interior só para gozar convosco! Há lá outra maneira de transportar as crianças!"]

Eu sou uma fervorosa adepta do babywearing, que tem inúmeras vantagens para as crianças e o seu desenvolvimento e usava sempre uma capulana moçambicana para transportar o baby-de-mulata. Era pro em colocar o menino às costas, num exercício africano de equilíbrio e destreza que deixava sempre a minha mãe sem respirar e a conter-se para não dizer "Cuidado que me deixas cair o desgraçado!", mas depois de o colocar nas costas (não há outra maneira, com uma capulana), trazia-o sempre para a frente porque prefiro olhar o meu filho nos olhos. Não o deixava nas costas, embora até achasse que ele não se importaria de ir a apreciar a paisagem. Depois rendi-me a uma solução mais prática, com panos que dão para colocar diretamente à frente. Quase tive pena de deixar a tradição moçambicana, mas as minhas costas e as coronárias da minha família (que, vá se lá saber porquê, não confia na minha fantástica agilidade e destreza corporal*) agradeceram.

* E têm razão, pronto...

quarta-feira, 10 de maio de 2017

[a vida é curta, a arte é longa] batik



Hoje mandei emoldurar um batik moçambicano que encontrei no fundo de uma gaveta, comprado a caminho do Hospital Central de Maputo, numa tarde de despedida... talvez por ter sabor a tristeza e a regresso me tenha esquecido dele... até o som dos batuques me bateu mais forte no coração! É preciso abraçar a saudade...

terça-feira, 9 de maio de 2017

[beijo de mulata fashion] o ouro da zambézia



Os meus brincos de ouro, made in Gilé
(Zambézia, Moçambique)

Já vos contei esta história. Hoje, ao escolher os brincos, encontrei estes aqui acima e não resisto a contá-la de novo!

Próximo do grande Centro Hospitalar do Gilé (o paupérrimo hospital do distrito), na mesma rua da pousada do Sr. Pompisk (para ele, mesmo que não nos esteja a ouvir, um abraço!), vivia o único ourives, o Sr. Elvis Pires. Não sei muito bem onde é que ele adquiria o ouro, mas suponho que o comprasse aos garimpeiros das minas situadas a poucos quilómetros da vila. Por acaso isso não me choca nada... Nem tenho a certeza de que os próprios garimpeiros teriam perfeita noção de que a exploração das minas e a comercialização do ouro da sua própria terra era ilegal, de tal forma era feita às claras. 

Mas como eu ia dizendo, o Sr. Elvis Pires, a quem eu tratava respeitosamente por Sr. Ourives porque não conseguia evitar sorrir com o nome improvável, era um homem em muitos aspetos admirável. Apesar do nome, que nos faria pensar numa família vanguardista, as suas origens eram as mais humildes. Oitavo filho de uma família de camponeses, viveu uma infância igual à da maioria das pessoas do país: dormiu no mato durante os anos da guerra civil para se esconder dos ataques dos "bandidos armados", teve a casa destruída inúmeras vezes, viu irmãos morrerem às mãos dos guerrilheiros e sucumbir a doenças banais, teve várias doenças e medo de morrer em todas elas, foi mordido por uma cobra e sobreviveu miraculosamente graças a um curandeiro (esta última parte talvez não seja assim tão comum, mas enfim...).  Mas o que fazia a diferença, o que fazia dele um homem remediado, que conseguia sobreviver e ganhar a vida sem ser de mão estendida ou dentro da máquina do partido, era ser um homem de iniciativa, um homem de sonhos e de trabalho.

Mas, por muito suor que empregasse nas suas obras, o Sr. Ourives, com muita pena minha, não era um artista nato. Não era um criador genial e inspirado. Podia ser um bom homem de família, um empresário honesto, um executante razoável, mas um artista sem ideias e com um gosto sofrível...

Por isso, a Irmã Lurdes, que pelas minhas contas há de vir a ser santa, nas suas idas a Paris trazia-lhe sempre catálogos de grandes marcas para ele se inspirar. O último tinha sido o da Cartier. Mas nem assim... Por um lado é preciso bom gosto por parte do artesão e, por outro, é preciso bom gosto e poder de compra por parte do mercado. Ou seja, mesmo depois de ter tido contacto com peças de elevadíssimo gosto em comparação com as suas, as obras de Elvis Pires continuavam as mesmas bolinhas e argolinhas algo toscas de sempre, que ele guardava amorosamente em pequenos saquinhos de comprimidos surripiados da farmácia do hospital...

Felizmente, no último ano em que lá estive, a Irmã Lurdes teve uma ideia genial! Numa ida ao Carrefour de Paris lembrou-se de pedir o catálogo da ourivesaria... A face do Sr. Pires iluminou-se quando o viu! Era todo um novo mundo de pequenas ideias acessíveis, simples e baratas ao seu alcance. E foi também com base neste catálogo que o Sr. Ourives recebeu a sua primeira encomenda de uma médica portuguesa. Meus queridos amigos, eu tive de me esforçar genuinamente, mas no meio do catálogo do Carrefour consegui encontrar um modelo de brincos engraçado. Ele ficou a babar-se. Já antes me tinha tentado vender sem sucesso algumas das suas obras, mas eu, por muito boa vontade que tivesse, não tinha conseguido comprar nada.

A minha intenção com esta encomenda era apenas dar trabalho a um homem de família (e, vá, também queria uma história para contar, pronto, já me conhecem...). Não tinha a mais pálida intenção de os usar mais tarde. Mas... e não é que ficaram perfeitos? É que até que não são feios... Atualmente uso-os de vez em quando. Por graça, mas uso.

Ah, e a sobrinha do Sr. Elvis Pires chamava-se Angelina Júlio! É uma coisa de família...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

[iAgora na prática] presente do dia da mãe

Ontem foi o final da semana mundial sem ecrãs. No sábado o baby-de-mulata perguntou-me se, para além do presente da escola (que já me tinha dado na sexta-feira porque sim), haveria alguma coisa que pudesse fazer para eu me sentir feliz no dia da mãe.

Fiquei a babar-me. E respondi que o melhor que ele poderia fazer por mim era acordar e não ir ver televisão, como de costume e ficarmos a brincar, montar legos, desenhar. O que lhe apetecesse.

Acordou-me (ouch!) às 07:00 da madrugada (sim, mães de lactentes, eu sei que não me posso queixar, mas ainda assim...) com uma caixa de lego na mão, um sorriso de orelha a orelha e um: "Parabéns, mamã, vamos montar este?". Amor de sua mãe [ou isso ou sou mesmo uma fácil...]! O rapaz adora ver televisão aos fins de semana, pelo que lhe deve ter custado tanto como a mim me custa não tomar café, por exemplo, sacrifício valente!

domingo, 7 de maio de 2017

[mamãs africanas] dia da mãe sem medo, nem dó, nem drama...









Mamãs de Nampula e da Zambézia
(Moçambique)

Dizem os portugueses que "quem tem mãe tem tudo, que não tem mãe não tem nada". Dizem os africanos, em jeitos de sinónimo (que todos os provérbios importantes existem com tradução): "casa sem mãe é um deserto".

sábado, 6 de maio de 2017

[welcome to gorongosa] encontro com um pangolim


Pôr do sol na Gorongosa e Pangolim
(Gorongosa, Sofala, Moçambique)


Transcrevo uma parte de um texto que me tocou particularmente. A Gorongosa representa a parte de mim que acredita que há de regressar a Moçambique: é que eu sei que vou voltar porque nunca fui à Gorongosa! Daqui.

1 Maio, 2017


Maximillian Prager, Harvard University, Turma de 2019, Biologia Orgânica e Evolutiva

No verão de 2014 encontrei-me pela primeira vez em África, pela primeira vez vivendo longe dos meus pais, e pela primeira vez colocando a fascinação da minha vida pela fauna bravia em ação. Eu era um estudante do ensino médio de Nova York, a estudar no Laboratório de Biodiversidade E. O. Wilson, com os biólogos e conservacionistas do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. Mais especificamente eu estava a trabalhar com Piotr Naskrecki, um entomologista, fotógrafo de natureza, diretor do Laboratório Wilson, e meu mentor e amigo. Ao voar para o Parque, eu não sabia que iria “gastar” os meus dois verões seguintes neste lugar, e que ficaria tão encantado com a paisagem, a fauna bravia, as pessoas e a causa da conservação da natureza.

A minha primeira curta visita ficou repleta de experiências inesquecíveis. No meu breve tempo no Parque, segui bandos de leões acompanhado por especialistas, segurei uma inhala que dava coices enquanto um veterinário a tentava anestesiar e colocar uma coleira de rádio, apanhei morcegos em redes de malha fina, e fui continuamente mordido, arranhado, picado e pulverizado por uma miríade de pequenos répteis e invertebrados. No entanto, o episódio mais memorável desse primeiro verão em Moçambique foi o meu envolvimento no resgate de uma mãe pangolim e do seu bebé.

O pangolim terrestre (Smutsia temminckii) é um mamífero bizarro nativo da África subsaariana. O pangolim movimenta-se lentamente mas é surpreendentemente elusivo, e alimenta-se de térmites; preenche um nicho ecológico semelhante, embora totalmente alheio, aos tatus das Américas. Com a sua cauda longa, garras escavadoras arredondadas, e uma armadura de placas queratinosas, o pangolim é uma verdadeira quimera. Pode ser encontrado em várias formas em toda a Ásia e África, algumas terrestres e outras arbóreas. Nunca poderíamos supor que o pangolim é o mamífero mais traficado ilegalmente do planeta. Os pangolins têm muita procura na China e no Vietname, onde sua carne é considerada uma guloseima, e as suas escamas são falsamente acreditadas como a cura para o reumatismo e a artrite. A prevalência de uma infeliz e desnecessária causa de morte dessa incrível criatura não passa de uma farsa.

Os pangolins não são fáceis de encontrar. Ao longo dos seus anos de investigação, não só em Moçambique, mas em toda a metade sul da África, Piotr nunca “tropeçou” num pangolim. Na verdade, parecia que o pangolim sempre se escapava à sua vista; ao voltar ao acampamento uma noite, ele poderia ouvir dizer que outro cientista tinha visto um, mas que não sabia onde Piotr estava na altura, ou que não tinha uma câmara à mão. O pangolim era a baleia branca de Piotr, como me foi lembrado repetidamente nos dias que antecederam o encontro.

No dia anterior ao que eu tinha programado para deixar a Gorongosa, recebemos a notícia de que um caçador furtivo numa aldeia próxima tinha dois pangolins na sua posse, uma mãe e um bebé. Ele estava anunciar a sua venda por 23.000 Meticais, na altura o equivalente a cerca de $750 US. Alguns guardas do Parque partiram para prender o ladrão e recuperar os animais. O par foi recuperado com segurança, pelo que soubemos naquela noite, e permaneceu num quarto de armazenamento até à sua libertação. Seria nossa responsabilidade encontrar um lar adequado para eles e entregá-los de volta ao Parque.

Na manhã seguinte, horas antes de sair do Parque, eu saltei para a nossa Toyota Hilux com o Piotr e a Jen Guyton, uma mamalogista, e fomos buscar os pangolins. Estacionámos o carro, e Piotr entrou na pequeno quarto de armazenamento para ir buscar os pangolins. Minutos mais tarde, ele ressurgiu com os braços em torno de uma esfera pesada e com escamas que se assemelhava a uma alcachofra gigante. Colocou-a nos braços de Jen e ligou o carro. Depois de algum tempo o esfera descontraiu-se, e um focinho longo, semelhante ao de um galgo, emergiu para provar o ar exterior pela primeira vez em poucos dias. Levantando mais a cabeça, revelou um pálido recém-nascido, coberto por uma pele de escamas que lembravam unhas frágeis. As mães pangolins, quando ameaçadas, enrolam-se em torno dos seus bebés para os proteger. O odor do bebé era mais comparável ao cheiro de uma caixa de parto após um cão ou gato ter dado à luz, ligeiramente suave, mas acentuado pelo aroma do leite doce. Sobressaltada pelos solavancos da condução, a mãe desdobrou-se mais uma vez, derramando o bebé no meu colo. Piotr disse-me para agir rapidamente - eu tinha que segurar o bebé perto do meu peito e protegê-lo. O bebé tremia nos meus braços. Ele era muito delicado para ser movimentado. Assim segurei-o de forma apertada enquanto acelerávamos em direção ao nosso destino.

O ponto de libertação foi uma área de mato arenoso pontilhada com termiteiras; a mãe pangolim teria muita comida aqui. Jen colocou o par no chão, com a mãe desenrolada. O poderoso pangolim parecia um gigante de madeira, como uma montanha com garras, apenas encolhido para o tamanho de um cão de raça “beagle”. Ela colocou o bebé às costas tal como esperávamos. A montanha em miniatura ergueu o seu longo focinho e começou a caminhar para o mato. Quando ela desapareceu, o farfalhar da relva e o estalar de pequenos galhos foram ficando cada vez mais fracos.

(Ler mais aqui)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

[psiquiatrices] e comida saudável


Esta passou-se no meu hospital, com uns colegas meus, no internamento de Pedopsiquiatria. É uma enfermaria geralmente muito animada, com muitas particularidades que fazem dela um especial caso de sucesso. Os meus colegas jogavam às cartas com um grupinho terapêutico muito divertido, em que se incluíam algumas doentes com anorexia nervosa em franca recuperação, outras com depressão grave, outras com outras patologias. A dada altura, uma adolescente com anorexia nervosa lança a carta representada acima, declarando, triunfante:

- Ás de Brócolos!

(O que prova que qualquer mancha em psiquiatria é projetiva. E poderia abrir aqui um longo parêntesis sobre a interpretação deste lapsus linguae, mas não o farei pelos seguintes motivos:
a) não pretendo fazer psicanálise selvagem;
b) a origem do ato falhado é absolutamente óbvia;
c) no dia em que inventarem um teste de Rorschach de escolha múltipla prometo vir aqui fazer uma interpretação extensa do paradigma;
d) sem outro motivo;
e) tenham um bom fim de semana!).

quinta-feira, 4 de maio de 2017

[welcome to mozambique] as pulseiras mais fashion



Feira do Pau Preto, fotos daqui, que nem por sombras levaria a minha máquina fotográfica para as compras na feira... O que ganharia em registo gráfico perderia em poder negocial.
(Nampula, Moçambique)

[Esta manhã o facebook teve a gentileza de me recordar este episódio. E não resisto a contar-vos de novo a mesma história!]

Uma das coisas que mais gosto de comprar e que sei que as minhas amigas mais apreciam são as pulseiras exóticas, feitas em pau preto, sândalo e pau rosa que se vendem na chamada Feira do Pau Preto, aos domingos em Nampula, onde se pode comprar de tudo, desde vassouras feitas com fibra de coco até lamparinas feitas de latas de conserva vazias, passando pelas inevitáveis capulanas e medicamentos tradicionais e, claro, aquilo que dá nome à feira, as famosas obras de arte lindíssimas em pau preto, feitas de uma só peça, apenas com um canivete, por homens que aprenderam sozinhos, ou com alguém próximo, a difícil e paciente arte de talhar a madeira.

Certa vez, uma amiga pediu-me que lhe trouxesse como lembrança uma pulseira de rabo de elefante. Segundo ela, era do mais fashion que existia, em termos de acessórios exóticos africanos. Fiquei horrorizada. Eu não sou capaz de comprar marfim ou tartaruga, por mais bonitas que sejam as peças de arte. Por mais que me digam que os elefantes não são mortos para lhes retirar as presas, só as retiram de elefantes encontrados já mortos acidentalmente e que as tartarugas não são mortas de propósito. É fácil iludirmo-nos com estas desculpas ingénuas... Mas uma pulseira de cauda de elefante? Que estranho e, ao mesmo tempo, que curioso. É que não lembra ao menino Jesus, quanto mais ao rabudo... Certo domingo, quando já estava a regressar a casa vinda da feira, mesmo em frente ao delicioso estádio do Sporting Clube de Nampula, vi estas pulseiras a vender e resolvi parar o carro e investigar por conta própria, num rasgo de inspiração:

- Bom dia, senhor, novidades*?
- Tudo bem, não sei do seu lado...
- Salama**, obrigada.
- Ah... Senhora, estou a vender pulseira.
- Sim estou a ver, estas pulseiras são de quê?
- Rabo de elefante...
- Ah, muito bem. E custam quanto?
- Está a 20 cada uma...
- A 20 meticais? E quanto me faz se levar cinco?
- Fica a 15 cada uma.
. Está bem... E quem fez as pulseiras?
- Eu mesmo, mamã!
- Ah, muito bem, parabéns, são muito bonitas! Mas onde é que arranjou o rabo de elefante?
- É um caçador que vende.
- Um caçador? E onde é que ele caça?
- Não sei, mamã...
- Mas ele mata os elefantes para lhes cortar o rabo?
- [Atrapalhado, sem saber o que dizer a esta mukunya***, que nem comprava nem desgrudava literalmente do seu pé...] Não... corta o rabo, só.
- Hum... Olhe, pode dizer, que eu levo na mesma...
- O quê, mamã?
- Não são de elefante, pois não?
- [Com pouca convicção] São sim...
- Mas pode dizer, não tem problema...
- [Baixando os olhos, envergonhado e baixando também a voz...] Ah, mamã... São di pineu...
- De quê?
- Di pineu, mamã.
- Mas o que é um pineu?
- Um pineu, mamã!
- Pineu? Mas isso é um bicho? É parecido com quê?
- Pineu... Não sabe o que é pineu? Pineu di carro!
- De pneu?!
- Sim, mamã. Nós corta o pineu di carro e dentro do pineu tem o miolo que faz o fio...
- Ah... Levo cinco, então!

* Novidades - Como está [de saúde]?

** Tudo bem.
*** Mukunya - Branca

terça-feira, 2 de maio de 2017

[welcome to mozambique] always dancing


Moçambique, país de danças e sorrisos!

Enquanto não me volta a vontade de escrever, fiquem com este vídeo de danças deliciosas em Nampula e Iapala (norte de Moçambique). Palavras para quê? A emissão segue dentro de momentos...

segunda-feira, 1 de maio de 2017

[as melhores do serviço de urgência] no melhor pano cai a nódoa...

Hoje, ao ler um artigo desastroso sobre dietas e cenas saudáveis lembrei-me de um episódio que já aconteceu há mais de cinco anos. No serviço de urgência, ao ver um menino com uma alergia cutânea provavelmente alimentar, a mãe responde:

- Alergia? Como, alergia?! O meu filho nunca comeu nada que não fosse feito em casa, nada com corantes ou conservantes, temos imenso cuidado na escolha da comida que lhe damos. É tudo biológico e evitamos a carne e o peixe.
- Mas ele não come carne nem peixe de todo?
- De vez em quando come, também não somos fundamentalistas. Mas no dia a dia optamos por proteínas vegetais de alto valor biológico. E cozinhamos tudo sem sal.
- Muito bem... mas olhe, a partir dos 12 meses [de facto ele já tinha cinco anos] já se pode começar a colocar um pouco de sal na comida, até porque eles estão a crescer e precisam de sódio.
- Ah, não, doutora, mas nós não pomos mesmo sal nenhum. Só usamos Caldo Knorr.

(suspiro...)

[o mundo católico divide-se em...] homenagem quadripolar


O mundo católico divide-se entre os "o-meu-pai-é-o-dono-disto-tudo" e os "fia-te-na-Virgem-e-não-corras".

sexta-feira, 28 de abril de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #5


Um quarto de bebé ao estilo Montessori. Daqui.

(Continuando a história da longa caminhada que me levou o baby-de-mulata para casa... Interrompemos por causa do 25 de abril, de um surto de sarampo em Moçambique e outro em Portugal, de um devaneio literário por terras da Zambézia e o mito de origem da primeira mulher Moçambicana, em honra à Exma. Prof. Doutora Ruiva, mas sobretudo uma alegoria à adoção e infertilidade, e de uma, já lendária, crise de soluços de proporções épicas, mas estamos de volta. Não é fácil escrever sobre isto, essa é que é essa, portanto não se admirassem se demorasse ainda mais a continuar... Animem-se que desta vez já estamos mais perto do fim, não era preciso terem reclamado tanto, que diabo. Isto custa. Muito)

Uma semana depois de a diretora do centro de acolhimento onde estava o baby me ter ligado a dizer que enquanto não tivesse o certificado da Santa Casa em como estava apta para adoção não poderia ir mais visitar o menino, o baby foi ao meu hospital. Tinha consulta marcada e uma série de exames para fazer. Eu nem consigo descrever em que estado estava. Tinha voltado a chorar todos os dias, ainda para mais com a agravante de ser julho, o mês em que o meu "quase filho" tinha falecido... Grief is the price to pay for love, ia repetindo, resignada...

Estava no corredor do hospital, completamente absorta na minha dor quando me cruzei com ele. Sabia que vinha, claro, mas não o esperava tão cedo. Vinha acompanhado por duas funcionárias do centro de acolhimento, que não me conheciam. Fiquei radiante por vê-lo, mas ele estava completamente alheado, olhando para o lado e evitando qualquer contacto ocular. Agora percebo, mas na altura não conseguia relacionar todos estes acontecimentos, que ele estava profundamente magoado porque estava a reconhecer o espaço onde tinha vivido e de onde tinha sido levado sem uma única hora de transição, sem entender o que se passava. Magoado com as pessoas que estava a reconhecer e que, na cabeça dele, o tinham abandonado. E confuso por não saber se o traziam para ficar na casa que o abandonara ou se o levariam para a casa de que ainda não gostava, mas a que começava a habituar-se. Estava aterrorizado...

Tentei tirá-lo do carrinho e pegar-lhe ao colo. Estava eufórica porque ele estava ali comigo, mas ele também estava magoado comigo porque deixara de aparecer para o visitar. E pior, estava de bata branca, como todos os da casa maldita que o abandonara! Resistiu à minha tentativa de lhe pegar ao colo. Agarrou-se ao carrinho com todas as suas forças. A amiga que estava comigo ficou tão incomodada com aquele espetáculo angustiante que teve de se ir embora. Resolvi não o forçar. Claramente estava tudo a ser demais para ele.

Perguntei o que se passava às funcionárias.
- Não sabemos, ele hoje está estranho. Não é só consigo. Até vinha bem disposto, mas quando entrou no hospital ficou assim. Até chorou para a médica dele e não quis ir para o colo dela. Eles tinham uma adoração um pelo outro.
- E ela, o que disse?
- Disse que achava que era bom que ele a estivesse a estranhar, que queria dizer que se estava a vincular a outras pessoas.

Mas não, não era nada bom. Ele estava era muito triste porque todos se tinham esquecido dele e para um bebé é impossível elaborar tantas perdas. Tantas mudanças e tantos lutos para fazer, tantas ameaças juntas no mesmo espaço e no mesmo momento.

Demorou muito tempo a reconhecer-me. Tirei a bata. Cantei-lhe as nossas músicas, fiz as nossas brincadeiras. Até que por fim começou a sorrir, mais descontraído. Mas continuava a não olhar para mim nem para ninguém.

Ao final do dia eu já não estava em mim. Grief is the price to pay for love? Não, não me conformava. O meu menino não podia pagar esse preço. Eu podia, mas ele não! Tinha testemunhado o sofrimento do meu menino e percebido que era cada vez mais difícil chamá-lo à realidade e fazê-lo descontrair-se. Ele estava a perder-se "do lado de lá".

Falei com a equipa da Santa Casa, pessoas extraordinárias, disponíveis e incansáveis, que me disseram que não sabiam por que razão a equipa de adoções local me estava a impedir de ir visitar o menino e que não existia qualquer recomendação nesse sentido. Foi então que liguei de novo à diretora do centro de acolhimento. Com a minha voz de quem não aceita um não como resposta. Que não podia ser. Que o menino estava num sofrimento brutal. Que não podia aceitar que as coisas andassem assim até já não haver solução para ele.

Respondeu-me que não podia mesmo ir contra a decisão da equipa local, mas que se o quisesse ir visitar ao jardim de infância ela não seria obrigada a reportar as visitas. Só as que eu fizesse no centro de acolhimento.

Acho que me nasceu uma alma nova! No dia seguinte estava de folga, pelo que me pus a caminho. A educadora estava à minha espera e acolheu-me muito bem. Cheguei na hora da sesta da manhã, mas ele era o primeiro a ser acordado para ter tempo de fazer a medicação toda que ainda tomava antes de almoço.

- Quer ir dar-lhe a medicação e o almoço para a outra sala?
- Claro! - os olhos brilhavam-me.

Comparada com a sala de visitas do centro de acolhimento, despida e tórrida, aquela sala de jardim de infância era o paraíso! Mesmo para sala de berçário era genial! Bem ao estilo Montessori, tinha espelhos ao nível das crianças, uma piscina de bolas, uma tenda, várias bolas de pilates e brinquedos bem arrumados e ao alcance dos meninos. Ele ainda não gatinhava nem se deslocava de qualquer forma, embora já tivesse 14 meses. Mas dessa vez aceitou vir-me para o colo. Continuava a evitar o olhar, mas, surpresa das surpresas, começou a seguir o que eu fazia. A olhar para as fitas que revoluteavam presas a um boneco. Até que começou a seguir o que eu fazia no espelho. E, de repente, ao seguir as fitas que eu agitava mais à altura dos meus olhos, encontrou-se com os meus no espelho. Foi a primeira vez que olhou nos meus olhos! No espelho. E, milagre dos milagres, desprevenido, sorriu-me! Foi um encontro demorado. Dei-lhe o boneco e começou a imitar os meus gestos.

Sentei-me no chão, com ele no meu colo, voltados para o espelho e comecei a cantar uma canção com gestos e ele começou a imitar-me. Como se soubesse imitar desde sempre! Nesse momento a educadora entrou para me levar o almoço dele. Encontrou-nos a fazer gestos e caretas ao espelho e ficou estupefacta.

- Mas ele não imitava! Que milagre foi esse?
- Pois não, nem olhava, mas ao espelho imita e já me olhou nos olhos!
- Que maravilha! O amor faz milagres. Então veja se lhe consegue dar a sopa e a fruta. Ele connosco não come fruta de maneira nenhuma. Pode ser que consigo coma.
- Obrigada.

Ao almoço aconteceu outro milagre. Ele comia a sopa lindamente, desde que não tivesse grumos, mas cerrava a boca para a fruta e não abria mais. Nem com palhaçadas nem com nada que eu fizesse. Até que quando lhe estava a tentar dar a fruta novamente me tocou no braço e apontou para a sopa. Assim como quem diz, "É aquilo que eu quero, será que tenho de explicar tudo?"

Então o meu menino olhava nos olhos, imitava e apontava? Mesmo que por breves instantes. Não podia ter autismo nenhum! Agora sim, tinha a certeza de que estava no caminho certo! Fui falar com a diretora. Estava feliz! Mesmo feliz! Agradeci-lhe muito. E ela também me agradeceu:
- A educadora já me veio dizer! Olhe, mesmo que ele não venha a ser o seu filho, já nos salvou o menino! Já não sabíamos o que lhe fazer...

Claro que isto foram momentos fugazes. Ele não olhava consistentemente. Não voltou a apontar nas semanas seguintes nem a tentar comunicar de maneira nenhuma. Quase a ponto de me fazer duvidar do que tinha visto, mas estava feliz demais para me colocar em causa. Eu estava a travar a maior luta da minha vida. Não tinha espaço interior para duvidar...

No dia seguinte era sexta-feira e eu estava angustiada porque tinha de trabalhar nesse dia e não o poderia ver no fim de semana. Felizmente o menino ficou doente e foi internado no hospital local. Uma bronquiolite e uma otite. Nada de grave, mas decidiram interná-lo por precaução, dados os antecedentes tão graves. Fiquei eufórica. Estava no meu elemento! Ia poder vê-lo todos os dias enquanto estivesse internado. Vesti a bata e fui para o hospital, onde os meus colegas me conheciam e me deixaram ficar todo o tempo. A funcionária que estava com ele e com outra bebé do centro de acolhimento agradeceu-me porque comigo ali poderia ficar mais livre para cuidar da bebé que estava muito mais doente do que ele! Eu é que agradecia, respondi.

Nesses dias o baby parecia que tinha renascido. Olhou-me muitas vezes, começou a tentar deslocar-se sentado, muito inseguro, mas lá avançava uns centímetros de cada vez. Eu sou chata como a potassa e aproveitei cada momento para puxar por ele... Saiu do internamento a seguir tudo com o olhar, a deslocar-se melhor e a rir às gargalhadas.

(continua...)