segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012

[se belém fosse em ocua] um conto de natal

 
Um Quase Conto de Natal

Já vos contei esta história. É verídica. É o mais bonito conto de Natal que conheço e passou-se em Ocua, Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique... Gosto de recordar esta história porque ela me ensinou que há pessoas (certamente mais felizes do que todos nós) que conseguem ver poesia e mistério em momentos únicos...
Em Dezembro, em Ocua, era Natal e entardecia sem que por perto qualquer sinal nos pudesse dar testemunho da data. Tempo de fome, de seca e calor asfixiante, em que a chuva tardava como uma noiva cruel, abandonando as sementeiras e o povo no altar, no desespero de uma boda por mil vezes não consumada, de uma promessa de frescura mil vezes adiada... Era Natal e o calor era irrespirável. Era Natal e ao entardecer não havia luzes nas ruas, ninguém a correr a comprar os presentes de última hora, nenhuma árvore ornamentada. Era Natal e, inquietantemente, faltava o cenário, faltava o tom que o pano de fundo imprime no estado de espírito... mas aparentemente só nós o sentíamos. Tudo o resto, alheio à inquietude que nos vivia por dentro, decorria na rotineira placidez de África. 
Se Jesus menino tivesse nascido em Dezembro em Moçambique, uma capulana teria bastado para o aquecer. E se Belém fosse em Ocua, em vez da vaquinha e do burrinho no estábulo, talvez uma qualquer ave do mato tivesse batido as asas num leque improvisado, oferecendo um sopro refrescante ao seu corpinho de menino... Que nestes casos a poesia da religião e o seu lado de Alice no País das Maravilhas, de fábula, magia e metáfora têm sempre forçosamente de assomar. 
Mas foi precisamente aqui que a Natureza nos declarou, estridentemente, o quanto tínhamos sido injustos. Que tudo quanto a Europa faz de uma forma sistemática, asséptica e geométrica, África improvisa e encanta.  
E foi quando, em Ocua, em frente à casa da Missão, o cajueiro se encheu de centenas de pirilampos, numa árvore de Natal natural erguida na noite, com mil pequenas luzes piscando.

3 comentários:

  1. Ja passei o mes de Dezembro em Angola vários anos e é estranho... Ver preparativo de Natal com calor e praia nao entra à primeira! Mas este ano, pela primeira vez com o meu Gui, pensei que onde quer que estivesse, seria mesmo Natal!!! Um Feliz Natal atrasado e muitos parabéns pelo blog. Gosto se ler "África"!

    ResponderEliminar
  2. Que história deliciosa. Sem dúvida um dos contos de Natal de que mais gostei :)! E encontrei-o aqui, no blogue que sigo porque gosto de ler as suas experiências por terras onde tenho desenvolvido projectos semelhantes!

    ResponderEliminar