sexta-feira, 9 de agosto de 2013

[coisas que me confortam] como mulher, como mãe e como loira a toda a prova!

Há tempos, embora eu não fosse de todo fiel seguidora da mítica palavra de Pipoco, cumpriu-se a profecia bíblica que asseverava que se a mulata não fosse ao encontro do Pipoco mais salgado da blogosfera, seria o próprio Pipoco que haveria de ir acrescentar algum sal ao mato. E vai daí, o tio Pipoco linkou o beijo-de-mulata. E eu, que nunca tinha ido visitar o salgado Pipoco, mais o seu alter ego, Ruben Patrick, fui olhá-lo (com algum voyeurism), pela sua janela.

Foi nessa altura, mais ou menos, que o ilustre Pipoco escreveu qualquer coisa como (cito de memória, que não consigo encontrar o post exato): "Tendo a não me sentir atraído por mulheres que ostentem o interior do carro desarrumado ou com lixo." E a verdade é que a loira que há em mim ficou aterrada! Literalmente sem ar. A mulata que me habita, por seu lado, sentiu um desconforto inenarrável, como se tivesse sido avistada em público com uma capulana do avesso. Não conseguia conceber tamanha injustiça e falta de compreensão para com quem tem de viver diariamente com dois cromossomas X* e ainda assim faz um esforço hercúleo para funcionar como se nada fosse. Desde quando é que a feminilidade de uma mulher se mede por esses cânones? Já a mãe que estava a nascer dentro de mim acatou o recado como se de uma ordem se tratasse, e começou a dar a atenção devida ao assunto, que há que dar o exemplo desde sempre!

E foi por este desconforto, admito, que nunca mais segui a palavra de Pipoco. E também foi por isto que passei a arrumar o carro como se fosse o meu escritório.

Até ao dia em que a minha querida Mimi Burnay me fez um genial saco para o carro! Lindo, com um estampado floral exterior e plastificado por dentro, à prova de todo o tipo de lixo. Eu ganhei uma alma automobilística nova, uma confiança e autoestima que nem 50 horas de ginásio e esteticista conseguem conferir. E o meu carro ganhou um acessório novo. E lindo. À prova de Pipoco!

(É tudo por hoje, a silly season continua dentro de momentos...)


 
O épico saco de lixo para o carro, por Mimi Burnay!


* Isto não é uma aneuploidia?!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

[baby-de-mulata] ainda não foi desta...



Pois é, meus amigos, ainda não foi desta... (Erguer de olhos para o céu, um suspiro.) Hoje levantei-me decidida! Haveria de ser desta, caramba, que um dia tem de chegar a minha vez, valha-me Deus e São Jerónimo, padroeiro das escriturárias (ou apenas das sagradas escrituras, mas os santos também podem ser padroeiros de outros departamentos que se prestem a confusão fonética, ou não? Pois... se calhar não, mas enfim, eu tinha fé!). E a minha vez haveria de ser hoje, eu sabia, sentia-o nos meus ossos (fica melhor em inglês, mas nós aqui no mato não falamos estrangeiro, que não nos fazemos de importantes). Macacos me mordessem se não seria a minha hora de interpretar o papel vencedor contra a burocracia dos papéis! Já vos falei da minha saga. Queremos ir viajar mas não podemos porque ainda nos falta o cartão de cidadão. Já está quase, eu sei. Já faltou muito, mas muito mais. Mas ainda não está, canário!

Então hoje lá fui novamente ao Instituto dos Registos e Notariado. Certidão de curadoria do baby: check! Assento de nascimento: check! Sentença de adoção plena e respetiva referência do processo do Tribunal de Família e Menores: check! Tempo suficiente decorrido após a sentença de adoção para o trânsito em julgado*: check! A minha identificação pessoal: check! Dinheiro trocado para o parquímetro: check! Livro para estudar na sala de espera: check!

E lá fui. "Olhe, se faz favor, passa-se isto assim e assim, a modos que eu venho aqui solicitar a emissão de um novo assento de nacimento para o baby-de-mulata". Após o que a senhora consultou uns documentos e me respondeu que isso era totalmente impossível. Ainda faltava o averbamento e sem isso nada feito. "Mas qual averbamento, minha senhora?" "O averbamento da sentença de adoção." "Mas disseram-me que o processo já transitou em julgado." "Sim, mas falta o averbamento, sem isso nada feito." "Então o que é que eu posso fazer?" "Bem, sem quiser mesmo saber o que se passa pode ir ali ao terceiro andar falar com a minha colega dos averbamentos." "Está bem!"

Fui ao terceiro andar. Entrei numa porta onde não dizia "Averbamentos", mas dizia "Entrada exclusiva para funcionários." e pensei: "Bem, deve ser aqui..."

E então a tal colega que sabia de averbamentos comunicou-me que nada tinha para averbar naquele momento e que, portanto, se a sentença ainda não estava averbada é porque ou o processo ainda não tinha transitado ou então o averbamento ainda não tinha chegado. Nada a fazer! "Então?", perguntei já conformada, "O que posso eu fazer?" "Nada, dê-lhe mais um mês, que o averbamento já deve estar pronto nessa altura!"

E pronto, nada a fazer! Sem averbamento não há documento. Ainda não foi desta! Mas para o mês que vem é que é, garanto-vos! Vou dar-lhe mais um mês, como a senhora dos averbamentos me prescreveu. Para que se ainda houver alguma coisa para transitar, que transite definitivamente e para que tudo o que houver para averbar, se averbe de uma vez por todas, que a verve já me falha e o sangue me ferve e, a bem dizer, eu não queria nada estar aqui a escrever isto, nem a fazer trocadilhos, queria estar aqui vitoriosa... Mas a nossa hora há de chegar. Ou eu não me chame beijo-de-mulata!

* Neste mato empregamos termos jurídicos para mostrarmos como somos cidadãos informados e assim passarmos a completa noção de que se os documentos ainda não foram emitidos, isso é da exclusiva responsabilidade da burocracia do sistema.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

[mães de grande rodagem] that awkward moment...

Na consulta, uma mãe de cinco filhos, amorosa, dedicada, bem disposta e muito prática*, colocava-me uma questão sobre o seu filho mais novo de quase 2 anos.

- O Miguel há mais de dois meses que não me bebe o biberão do pequeno-almoço. Vejo-me obrigada a acabar por lhe fazer papa porque não o posso mandar para casa da avó sem comer nada.
- Mas bebe leite em qualquer outra altura do dia?
- Também não.
- E iogurtes?
- Sim, come dois ao lanche.
- Mas e se outra pessoa estiver a beber leite?
- Ah, se for eu a beber ele pede-me e até é capaz de o beber todo!
- Então deve ser do biberão. Já experimentou dar-lhe por copo? É que ele é o n.º 5, não deve gostar nada de ser "o bebé lá de casa".
- Ah, isso é verdade! Ele também detesta o babete e largou a chucha há pouco tempo... Mas não, nunca experimentei dar-lhe por copo. Já experimentei foi dar-lhe à colher, como eu dava ao João na mesma idade, mas também não aceitou muito bem, é preciso distraí-lo muito.
- À colher? Bem, gabo-lhe a paciência...
- Sim, o João durante imenso tempo bebeu o leite todo à colher, mas eu na altura só ainda tinha três, era tudo muito mais fácil...
(Glup**)
- Pois, mas talvez não haja necessidade. Experimente por copo. Se ele aceitar e não tiver depois problemas intestinais é porque não é nada de especial.


* Para mim, qualquer mãe de cinco filhos que leve os filhos às consultas de Pediatria mais ou menos na altura certa é uma super-mãe que merece toda a minha consideração, admiração e prioridade de atendimento. Caramba, eu não sei se me vou lembrar das vacinas do segundo... Exagero, vá, mas a sério que é de louvar!

** E foi esse o momento em que percebi que ainda tenho de fazer muita sopa até chegar aos calcanhares de muitas mães que andam por aí, tão frescas e bem-dispostas, e que tão cedo não me vou poder queixar do trabalho que o baby-de-mulata me dá (que, por acaso, benza-o Deus, não é nenhum!).

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

[moçambique no seu melhor] do rovuma ao maputo!

Para todos os que têm saudades do tempo em que este blogue era mato... para os que têm saudades da sombra dos cajueiros, para os que já fizeram o luto de um blogue que era quase exclusivamente monopolizado pela saudade de Moçambique que me assolava o coração de alto a baixo (embora com algumas incursões pelas improváveis histórias da Estefânia) e, sobretudo, para Mr. Umbhalane, o primeiríssimo comentador deste mato, que já se manifestou contra o facto se ter infamemente transformado num baby-blog (prometo que é temporário, Mr. 1B, as circunstâncias são incontornáveis!): dedico-vos este post do André, o genial autor do Tertúlia Africana, sobre uma experiência rodoviária Moçambique afora (ou Moçambique abaixo, se preferirem uma expressão mais indicativa dos pontos cardeais que estiveram envolvidos no trajeto)... Quase do Rovuma ao Maputo dentro de um machimbombo sobrelotado, conduzido por um motorista meio louco, meio ébrio de sono.
 
 
 
 
 
 
Imagens daqui.
"Talvez só agora tenha tido coragem de escrever esta história, ou talvez ela precisasse de amadurecer para ser contada. Era um objetivo meu: fazer Pemba – Maputo por estrada, de autocarro. Porque não? É preciso tempo, já sei, espírito de aventura, tudo, mas, como seria?

Na bilheteira, de notas meio dobradas, firmes na mão, parecendo coletores de dinheiro de apostas ilegais, respondem positivamente a todas as nossas questões de segurança. “Trocam de condutor?” – sim; “Dorme-se no caminho?” – sim; “Pára-se para comer?” – sim. Talvez devesse ter reformulado as perguntas para os fintar, mas se calhar fiz as perguntas da forma como queria ouvir as respostas...
O autocarro tem lugares sentados, para todos. Sim, porque coloquei a hipótese de fazer uma longa jornada de pé, ou sentado na coxia em cima de alguns sacos. Nada disso, bancos individuais e cinto de segurança. O espaço para as pernas não era muito, mas se vinha naquela viagem para me queixar do conforto tinha apanhado um avião!
Arrancam num grupo de 4 para fazer face às exigências natalícias e buzinam uns para os outros. Parece que vamos em caravana, mas na realidade é uma disputa entre motoristas que se vão ultrapassando pelo caminho. Em cada manobra o alcatrão fica ainda mais fino e apenas uma reduzida percentagem de passageiros fica entusiasmada com as manobras, gritando e batendo palmas. Os outros 80% ficam em silêncio, engolindo em seco.
Aquilo que por fora parece um robusto autocarro, por dentro parece uma minhoca, serpenteando as estradas e saltitando nos buracos. Como nos sentamos no piso de cima (o de baixo é para bagagens) dá a ideia que a cada curva vamos tombar. Talvez a fraca suspensão, talvez seja apenas psicológico...mas bolas, como assusta!
Assim que começámos a rolar a sério em plena estrada nacional, percebi que tinha escolhido um péssimo lugar: a coxia. Inevitavelmente ia com os olhos presos na estrada e assustado com a velocidade com que um monstro daqueles se fazia às curvas. Dava por mim a travar com o pé a bater no chão ou a tentar virar, agarrado às pontas dos meus calções. Tinha que me distrair, pois a viagem é longa, iria durar pelo menos 24 horas! A minha alternativa era olhar para o lado, para a Yumi [a noiva do André], que inexplicavelmente dormia...como se sobrevoássemos as nuvens, em vez de cavalgar buracos.

Pessoal com sérios lanches preparados. Frango, chamuças caseiras, cerveja. Nós levávamos bolachas que mal me passavam pela goela, tal era o nó que tinha. O tipo do meu lado era comerciante em Pemba. Ia visitar a família e voltava dentro de 4 dias. Na mesma estrada, com o mesmo autocarro. Gabo-lhe a coragem.
O autocarro vai à mesma velocidade, independentemente das condições do piso, de dia ou de noite. Quando chove a visibilidade reduz-se para níveis que não entendo. Suspeito que o motorista tem poderes adivinhatórios ou que já conhece tão bem a estrada que nem sempre precisa de olhar para ela. Não é que o limpa para brisas não funcione, ele simplesmente não existe, fazendo acumular uma camada de insetos mortos, que se transforma numa pasta opaca quando se lhe adiciona água!
Com o fim do dia começaram os planos de onde iríamos parar, pernoitar, pensei. A fazer cálculos às barreiras policiais, que proíbem a passagem de transportes públicos a partir de certa hora, a ideia era “pisar”...para conseguir passar mais cedo pelos “gajos” e conduzir mais umas horas. A sério? O condutor tinha os olhos vermelhos, bem cansados, mas era o primeiro a incentivar a estratégia de velocidade.
É bonito viajar por Moçambique relativamente devagar. Pelo menos por terra. À medida que descemos o desenvolvimento sobe. Palhotas tradicionais passam a casa sólidas, pontes precárias para robustas. A paisagem tem um pouco de tudo: os inselbergs em Nampula, coqueiros e arrozais na Zambézia, campos cultivados em Sofala, a imensidão de coqueiros em Inhambane, casas e agitação logo em Gaza.
Com o aproximar da meia-noite o autocarro abranda e estamos agora a entrar numa vila qualquer, com alguns candeeiros na rua. Inchope, o grande cruzamento das estradas em Moçambique. Quando nós saímos do autocarro já várias pessoas descansam os ossos numa vala, à beira da estrada. Sem perceber se é avaria ou paragem, o condutor diz: “saímos daqui a três horas”. Uau...avizinha-se uma noite de descanso...de 3 horas! Dá que pensar se queremos reentrar no autocarro ou não, mas não há muitas condições para pensar: a noite de sono é curta e o cansaço vence-nos facilmente.
A buzina do autocarro (inconfundível e difícil de esquecer) arranca-nos do sono e como múmias voltamos para dentro daquela máquina infernal, sem pensar, apenas com o destino na mente.
No segundo dia continua o mesmo motorista, que no dia anterior conduziu mais de 900 km. Obviamente que, com o sol rasante de frente e extensões das retas a aumentar, a sonolência aparece. Não há heróis. O motorista começa a coçar com maior frequência os olhos, a cabecear e sente-se que o volante dança mais do que devia para um troço que é sempre a direito! Alguns passageiros, a aperceberem-se disso, oferecem bebidas e conversa ao motorista, sentando-se ao seu lado e largando gargalhadas suficientes para entrar nos tímpanos e agitar o cérebro...
Quando saí do autocarro em Maxixe renasci. Não acredito em Deus, mas se acreditasse, neste caso diria que Ele estava a olhar por nós naquela viagem.
Era um objetivo e cumpri. Aventura feita, que escreverei no meu diário. A não repetir..."

André, bem-hajas por este pedaço de vida e de mundo! 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

[comentários que valem um post] casamentos felizes

A propósito do post de ontem, tivemos uma leitora anónima que nos deixou o seguinte comentário:

"Estou solidária para com esses meninos. Sou Negrão por parte da mãe e Branquinho por parte do pai. Mas conheço uma rapariga que tem os apelidos Pina por parte da mãe e Valente pelo lado do pai (que mesmo assim não é tão suscetível de gozo como Prazeres do Rego). Face a essa lista, os meus nem parecem assim tão maus."

É verdade, minha querida amiga, o mal de muitos alívio é! Entretanto, pela mesma via, já ficámos a conhecer mais um senhor Rato Calhau Sapateiro e continuamos disponíveis para ampliar a lista. Se bem que o objetivo era provar o impacto desta combinação de nomes na saúde das crianças... Mas podemos iniciar um estudo prospetivo sobre este tema extremamente relevante para a saúde pública.

terça-feira, 30 de julho de 2013

[casamentos felizes] onomástica improvável

Há tempos estive a fazer um trabalho em que necessitei de recolher os dados de todas as crianças assistidas na urgência do meu hospital por uma determinada lesão acidental grave. Foi aí que me apercebi de que se a escolha do nome próprio parece ser determinante para a vida, felicidade e saúde de uma criança, como sobejamente vos expliquei anteriormente (ver o post "nomes de mau prognóstico" ou qualquer um dos posts com o tag "nomes que dizem tudo"), já o casamento de seus pais parece ser determinante para a sorte de seus filhos. De outro modo, como explicar que tantas crianças azaradas, com aquele tipo de acidente grave, tivessem nascido de pais de cujo casamento resultou um apelido que roça o ilegal, de tão improvável? Como o caso da Maria Faria Simãozinho Feliz: Faria por parte da mãe e Simãozinho Feliz por parte do pai. Maria é, obviamente, um nome forjado, tal como os restantes nomes próprios que se seguem.

De onde se conclui, portanto, que, tal como há nomes de mau prognóstico, também há casamentos e apelidos que não auguram nada de bom... Aqui fica mais uma pérola de serviço público, ao cuidado de todos os jovens casadoiros e respetivos progenitores! Acautelai-vos, meus filhos, que como todos sabemos, mau karma gera mau karma.

- Maria Faria Simãozinho Feliz
- Manuel Malícia dos Anjos
- Maria Deus Corta Largo
- José Lapa da Rocha
- Miguel Adubeiro da Horta
- Teresa Vermelho Preto
- Mariana Rosário de Fátima
- Pedro Gancho Fino
- Laura Cara-de-Anjo Feio
- Joana Chora Mil-Homens
- Maria Prazeres de Domingo Bento
- José Prazeres do Rego
- Manuel Chora Calado

Adenda - Lista entretanto aumentada por cortesia dos nossos queridos leitores

- Maria Negrão Branquinho
- João Pina Valente
- José Rato Calhau Sapateiro
- Manuel Margalho Comprido (obrigada, querida Luna!)
- André Fava Chouriço (cortesia da Inês e Pedro)
- Maria Pirocas Espada (muchas gracias, Fitz!)
- Maria Gustava dos Prazeres e Morais (esta é forjada, certamente, mas vá, bem-humorada, da 3A)
- Beatriz Pólvora Labaredas (um casamento explosivo dos avós da Isabel)
- Joana Vinagre Pescada (ex-aluna da Maria João)
- Manuel Natal Querido (que, segundo a Maria Bê, era, de facto, um amor de pessoa!)
- José Papa Ovelhas (há gostos para tudo, que nosso senhor lhe perdoe... cortesia da K)
- Maria Pilão Duro (o nome fantástico de uma amiga da P., Pilão por parte da mãe e Duro por parte do pai; quem lucrou mais com o casamento feliz do seu pai foi o irmão da Maria, para quem os apelidos foram a garantia de uma adolescência feliz e bem-sucedida!)
- Manuel Passos Dias Aguiar (o clássico nome de um taxista de profissão)
- Maria Sardinha Alface (mais alguns nomes e já podemos começar a dividi-los por categorias: culinária, religião, luxúria, etc.)

Foi feito um aviso para que a Ana Bacalhau dos Deolinda leia este post antes de ter um filho do seu marido José Pedro Leitão. Não sei se concordo, mas pronto, fica o aviso...

Por outro lado, lembrei-me hoje que sou bisneta de um senhor cujos apelidos configuravam uma radical impossibilidade bíblica: José da Ressurreição dos Anjos.

E mais a Dona Maria das Dores Fortes, que se casou com o Sr. João Barriga e que, não contente com os apelidos do casamento feliz de seus pais, ainda adotou o nome do marido (cortesia da Rita Alves)

E já me esquecia do Senhor Francisco Pão Costa, que teve um tumor de Pancoast! (Mas que, não obstante o azar que o nome preconizava, acabou por sobreviver ao carcinoma sem grandes problemas).

Adenda II - Afinal Maria Gustava dos Prazeres e Morais é um nome verdadeiro, que a 3A confirmou vendo o respetivo BI!

sábado, 27 de julho de 2013

[músicas para o baby-de-mulata] rema para lá, lanchinha


 
Quando o baby-de-mulata "nasceu" cá para casa, na altura com 16 meses, reuni as mais belas canções de embalar que conhecia, desde o Candlelight Carol do Rutter até às canções que aprendi com as mamãs macuas nas longas noites que passei no hospital em Moçambique, à cabeceira dos meninos mais doentes. Recordei as músicas que aprendi com os senhores da "Música nos Hospitais", os tais de quem já vos falei uma vez, que quando apareciam deixávamos de necessitar de tanta medicação para a dor e os meninos descansavam sempre melhor nessa noite.
 
As primeiras noites comigo foram idílicas... Eu sentia-me inspirada, afinava a voz, que só na idade adulta se conformou às escalas e conseguiu começar a cantar, e ele quase adormecia nos meus braços. Depois era só pô-lo na cama, dar-lhe um beijinho e tapá-lo e ele ficava meio adormecido, com um sorriso de anjo.
 
Foi mesmo sol de pouca dura... É que havia um pequeno pormenor de que eu não me tinha lembrado: o baby-de-mulata é rapaz! Daqueles mesmo em que o cromossoma Y se nota à légua. E também não é muito amigo de dormir... Portanto o que era o Candlelight Carol comparado com as músicas muito mais interessantes que eu lhe cantava durante o dia, sobre popós, aviões e bicicletas? Ele queria excitação e ritmo e eu dava-lhe Brahms e Rutter? Que desgraça de mãe que lhe tinha caído em sorte...
 
E então no dia em que, já à míngua de músicas para rapazes, lhe cantei "O carro do meu chefe teve um furo no pneu", foi o descalabro total. Dom baby-de-mulata fez-me a derradeira desfeita de a eleger como a sua canção de embalar preferida! Eu merecia? Pelos vistos sim. E ele também... E foi assim que começou a demorar muito mais tempo a adormecer, mas as mais belas canções de embalar deram lugar às mais-belas-e-estapafúrdias-canções-e-coreografias-e-respetivas-variações de embalar. O que se perdeu em romantismo ganhou-se em riso e divertimento.
 
Até que há umas semanas o Senhor Édipo chegou cá a casa sem eu contar... E ele se aninhou no meu colo e com a sua voz mais fofa me pediu: "Canta, mãe..." "E que música queres", perguntei-lhe. E ele pediu-me a "Lanchinha". Agora, de vez em quando lá me deixa matar saudades do papel de mãe que idealizei para mim e que, confesso, não tem metade da graça do papel que ele me ensinou a desempenhar...

quinta-feira, 25 de julho de 2013

[serviço público] para trás é que se vai em frente!

 

 
Meus queridos amigos, o beijo-de-mulata não é um blogue de serviço público, é apenas um blogue que tem o nome de uma flor silvestre que nasce em qualquer degredo e se cria em qualquer chão porque fala sobre o que me passa pela cabeça. Só não faço serviço público por uma única razão: é que raramente me passam pela cabeça temas que possam remotamente ser de algum interesse para o público. Excetuando as parcas mas honrosas exceções* em que fiz questão de vos explicar como diminuir a mortalidade infantil através da escolha adequada dos nomes próprios, ou como ajudar a dar à luz numa bomba de gasolina. Tudo coisas com imenso substrato, portanto.
 
Mas hoje resolvi falar-vos de uma questão muito séria. Não concebo que não se faça nada sobre isto e que pouca gente dê atenção a este tema: não há semana nenhuma em que não veja ou ouça falar de uma criança com menos de 4 anos que ficou tetraplégica ou teve um traumatismo craniano grave com sequelas irreversíveis durante um acidente de automóvel. Em acidentes de nada, pequenas distrações a 30 km/h, em trajetos curtos, de casa da mãe para a casa da avó, em crianças que iam na cadeirinha no banco traseiro, numa cadeirinha bem instalada, com pais cuidadosos.
 
Como?!, pergunta quem não costuma ouvir falar disto. A verdade é muito simples: as crianças não têm força suficiente nos músculos do pescoço para suportar o "efeito chicotada" numa pequena colisão frontal. E isto é muito, muito sério! Mas quando se pergunta aos pais dos meninos internados nos intensivos a razão pela qual os meninos iam voltados para a frente, a resposta é invariavelmente: "Porque ele já tinha idade." ou "Porque achei que ele se conseguia entreter melhor se fosse virado para a frente." ou "Mas as cadeirinhas que existem a seguir aos 13 kg são todas viradas para a frente". Ou seja, ignorância pura!
 
Quase ninguém ouviu falar da necessidade de transportar as crianças voltadas para trás o máximo de tempo possível. Há poucas cadeirinhas no mercado que permitam esta função. As poucas que existem são bastante caras. Mas não são proibitivas. Eu tenho uma destas para o baby-de-mulata, obviamente. Não concebo transportá-lo de outra maneira. E tenho a certeza de que muitos dos pais cujos filhos ficaram com lesões irreversíveis teriam comprado e usado o mesmo tipo de cadeirinha que eu, se soubessem o que estava em jogo... Vejam o vídeo. Vale a pena. Vale muito mais uma cadeira destas do que um presente caro. É que eles depois vão é brincar com as molas da roupa...
 
* O pleonasmo também é uma figura de estilo...

terça-feira, 23 de julho de 2013

[welcome to mozambique] de comer e chorar pelo ramadão


 
O Ramadão em Moçambique. 
Os praticantes da fé muçulmana pouco se afastam das mesquitas durante o dia, em todo o Ramadão. Ao cair da noite reúnem-se sob um céu que se deseja escuro, depois do tão desejado pôr-do-sol, para enfim renascer um pouco da letargia que assola corpos e mentes durante o dia, invadidos de fome, calor e cansaço...
 
Mas eis que desabafa a minha amiga Maria, em voluntariado em Mitande, no Niassa:
"Meus amigos, alguma vez desejaram ser muçulmanos? Alguma vez desejaram cumprir fervorosamente o Ramadão? Bem eu nunca. Até ontem.

Foi numa visita a uma comunidade, após ouvir todas e mais algumas preocupações, ter feito consultas, tratamentos, psicoterapia e ter sabido novidades de algumas mamãs e crianças que eu tinha tratado na minha visita anterior, as mamãs aldeia da chamaram-me para um almoço que tinham preparado especialmente para mim: xima* e peixe seco [um peixe-seco-insuportavelmente-mal-cheiroso-coberto-de-areia-e-moscas-nas-bancas-dos-mercados-e-só-de-pensar-nele-já-sinto-cólicas-e-os-intestinos-num-rebuliço], comida que se come à mão, sentada numa esteira, depois de lavar as mãos na mesma água em que já todos lavaram as suas, mãos essas que, obviamente, nunca são lavadas depois de satisfazer necessidades fisiológicas e afins. Agradeci com um sorriso nos lábios e um aperto no estômago.

Viro-me para o ativista que me acompanha nas saídas à comunidade: "Temos mesmo de comer, não é?" Ao que ele prontamente me responde: "Sim, a enfermeira tem de comer, eu estou a celebrar o Ramadão."

Pois.. Ainda ponderei responder que também estava a celebrar o Ramadão. Mas depois lembrei-me que vivo no pátio da igreja e que toda a gente me chama de irmã, portanto estava por terra a única desculpa culturalmente aceite para recusar uma refeição..."

Maria, minha princesa africana, se me estás a ouvir: dá sinais de vida, please! Mas tens aí, no kit de emergência que te preparei, alguns medicamentos que te podem servir nos próximos dias...
* Farinha de milho cozida e amassada, que serve para acompanhar o prato principal.

domingo, 21 de julho de 2013

[vozes brancas] quem é que manda aqui?

Dois irmãos, filhos de uma amiga minha. Ele de dois anos e pouco, um vulcão de palavras, saltos, correrias e desenvolvimento precoce. Ela de quase cinco anos, uma princesa cor-de-rosa, exótica e dançante, tão bem disposta como traquina e com muita, muita personalidade... O irmão, contra todas as regras lá de casa, empoleirara-se numa cadeira do escritório do pai e afadigava-se no computador interdito a abrir caixas de texto e janelas aleatoriamente:
- P., não podes fazer isso!
- Faço sim, eu é que mando!
- Não mandas nada, tu não és o pai!
- Sou sim!
- Não és nada! Tu ainda és pequenino!
- Não sou nada! Sou muito g'ande!
- Não és nada, nem sequer tens pelo!
- Tenho sim! Olha aqui, tenho cabelo!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

[baby-de-mulata] habemus adopção plenam!

Alvíssaras, meus amigos! Quase um ano depois de ter dado entrada com o processo na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, nove meses depois de me ter sido entregue o menino, o baby-de-mulata é meu filho de alma e coração e de papel passado pelo Tribunal de Família e Menores. Já tenho o nome do meu menino em papel timbrado! Dentro de poucas semanas terei o novo assento de nascimento e em breve, na Loja do Cidadão, hei de protagonizar o papel abaixo desempenhado por aquela jovencita muy lista, que me encanta. E depois, meus amigos... depois poderemos ter o cartão de cidadão e viajar, viajar, viajar! É caso para dizer que o céu é o limite e as nuvens o destino!

sábado, 6 de julho de 2013

[isto da adoção] é um mundo maravilhoso

Nem imaginam como estou agradecida pelo milagre que foi este menino na minha vida! Quando o baby-de-mulata veio cá para casa, acho que no início nem tinha expectativas nenhumas. Até tinha medo de pensar em todas as mudanças que aconteceriam na minha vida. Estava tão feliz, mas ao mesmo tempo tão receosa...

Por isso acho que foi ainda mais maravilhoso tudo o que aconteceu e a forma como foi acontecendo. Eu já estava completamente rendida e apaixonada por ele mesmo antes de ele ir lá para casa, mas foi lindo ter percebido como esse amor aumenta todos os dias e que o menino se torna mais meu a cada dia que passa, mais parte de mim.

Acho que da última vez que ele esteve doente percebi isso ainda melhor: de cada vez que ele gemia, parecia-me que o peito me doía cada vez mais... Mesmo sabendo que ele não tinha nada de grave, compreendi de repente os pais que vão a correr para a urgência ao primeiro pico de febre. Apeteceu-me também pegar nele e levá-lo para ir pedir a alguém: "Por favor, façam-me alguma coisa por ele, tirem-lhe esta dor, que ele está mal e eu tenho a alma a desfazer-se!" Mil e uma doenças graves me passavam pela cabeça. As primeiras horas de febre alta são tramadas para uma pediatra... Mas claro que me acalmei e lhe baixei a febre e lhe dei colo e miminhos, que a ir para a urgência não serviria de nada, só se ia infetar com outras bicharadas e eu ia ser gozada até ao fim dos tempos. A mãe que habita em mim é histérica, eu sei, mas por fora sou uma pediatra de bata branca, de pedra e cal, calma, ponderada e não cede a impulsos irracionais.

Também foi mágico perceber que ele próprio passou a gostar de mim. Quando foi para minha casa ele já me aceitava perfeitamente, pedia-me colo quando caía, recorria a mim quando precisava de alguma coisa e deixava-me cuidar dele. Divertia-se comigo e também se via que gostava dos meus mimos. Já tinha a certeza absoluta de que eu gostava dele e fazia exigências, algumas birras. Mas era muito displicente. Penso que para ele, eu ainda não era bem uma mãe, era assim mais como se fosse uma empregada... A chamada criada-para-todo-o-serviço! E para mim isso chegava. Ele é um menino lindo, maravilhoso, muito alegre, com uma energia incrível. Enche uma casa. (Sim, não sei se se nota muito, mas sou uma mãe mete-nojo de tão babada...)

Mas, a partir do segundo mês, ele passou a ficar de vez em quando parado a olhar para mim como se estivesse, também ele, enamorado, e repetia: "Mamã, mamã..." Nunca imaginei uma coisa destas! Não sabia que isto podia acontecer com eles desta maneira, mas sei que estes sorrisos e estes olhares têm feito tudo valer a pena! Ele apaixonou-se por mim e eu tornei-me a mãe mais feliz do mundo!

terça-feira, 2 de julho de 2013

[filhos do coração] coisas para pensar...


Tenho várias amigas que ponderam atualmente adotar uma criança. Cada uma por razões diferentes...

Ou porque são solteiras, ou porque têm doenças graves cujos tratamentos as tornaram estéreis, ou porque apesar de cinquenta mil tentativas (estimulação da ovulação, inseminação artificial, cirurgias de todos os tipos, várias FIV, e o diabo a quatro, ou-o-diabo-a-sete-que-um-diabo-nunca-vem-só-valha-nos-Nossa-Senhora-do-Ó-acreditem-em-mim-que-sou-versada-em-diabologia,-ou-em-diabetologia,-que-na-gíria-do-nosso-povo-é-exatamente-a-mesma-coisa-e-para-o-caso-até-me-dá-imenso-jeito), ainda não conseguiram engravidar, ou porque tiveram um primeiro filho com problemas graves e não se querem arriscar a repetir o gene que nunca se chegou a identificar, ou porque viveram uma gravidez anterior complicadíssima e não ficaram arrebatadas com a experiência de quase-morte, não lhes apetece escrever um livro sobre isso e, de facto, também não estão para se arriscar a patinar outra vez, que isto é como aquela história do Anaxágoras: se me enganas uma vez a culpa é tua, se me enganas duas vezes a culpa é minha!

Eu digo sempre que recomendo! Que é algo de maravilhoso de repente ter a oportunidade de acompanhar uma criança, recebê-la na família e vê-la crescer numa explosão de desenvolvimento, como são os primeiros meses numa casa com uma família que acolhe, estimula, aplaude e fica feliz com todas as conquistas...

Mas depois há quem diga que as motivações das minhas amigas e das pessoas que querem adotar em geral, não servem o superior interesse das crianças. Que o objetivo primordial das pessoas que querem adotar é satisfazer o desejo egoísta de ter um filho e não de dar uma família a uma criança que foi abandonada ou retirada a uns pais que a maltratavam ou negligenciavam. Que todo o processo de adoções está errado porque deveria ser concebido para encontrar uma família para cada criança que dela necessite e não "arranjar bebés" para pessoas que não podem conceber...

Não sei sequer se me deveria debruçar sobre esta questão. A vida para mim é simples demais para estarmos com estes senãos. O amor entre duas pessoas adultas é uma improbabilidade incrível. Já o amor entre os pais e os seus filhos é um milagre muito mais provável, quase garantido! O que é que interessa a motivação de uma pessoa, desde que esteja de boa-fé para aceitar a criança, seja ela como for? A relação perfeita pode não se estabelecer de imediato, claro, é preciso amadurecer o amor, deixá-lo vir devagarinho e saborear o processo. Sabemos que nem o processo, nem os pais nem as crianças são perfeitos. Mas é o processo que temos e é com as pessoas que existem nele que temos de funcionar!

terça-feira, 25 de junho de 2013

[comentários que valem um post] doença...

Comentário da minha amiga Maria, que está no Niassa (norte de Moçambique) em missão de voluntariado sobre o post acerca da febre e relativismo cultural:

Tão típico! A mulher chegar, sentar no gabinete e dizer "Estou doente." E não abrir mais a boca.
- Mas o que sente? - pergunto eu.
E "aquele olhar" da mulher doente e da tradutora como quem olha para um extraterrestre: "Duh, está doente, não percebeste? Mas o que é que tu precisas de saber mais? Dá-lhe murrette* e manda-a embora. Ponto final, não se fala mais nisso!"

* Medicamento

sábado, 22 de junho de 2013

[sns we can!] uma ideia vencedora!

 
Já estivemos mais longe... Mas convenhamos que é uma ideia brilhante! SNS we can!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

[outras palavras] febre... pois...



Mitande, Niassa

A minha amiga Maria está desde Janeiro deste ano em Mitande, no Niassa (no norte de Moçambique), em missão de voluntariado através da ONG de que orgulhosamente faço parte... É enfermeira, tem um espírito prático e aventureiro como poucas pessoas têm e escreve deliciosamente! A propósito do post anterior sobre o conceito de febre na Guiné-Bissau, lembrei-me deste post dela, no Querida Lamparina:

No outro dia assisti à seguinte consulta de um jovem estudante no Centro de Saúde:
- Preciso de medicamento para malária.
- Como sabes que tens malária?
- Sinto uma malária muito forte.
- Mas o que sentes?
- Dói-me o corpo todo.
- E tens tido frio? [ter frio = febre]
- Não, só tenho uma malária que me faz doer o corpo todo. [e, baixinho, acrescenta] e comichão.
- Comichão onde?
- Aqui - diz rapidamente, sem apontar para sitio nenhum -, preciso de medicamento para a malária. Tenho malária muito grande.
- Comichão onde, mesmo?
- Aqui.

[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
Para evitar estas coisas de culpar a Malária de todos os males, resolvi dar uma “aula” às minhas meninas acerca de febre.
- Sabem o que e isto?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Para saber se pessoa está doente. Por debaixo do braço, esperar e depois ler se está muito doente ou pouco doente.

Lá expliquei o que é um termómetro e o conceito de temperatura e de febre. Esforcei-me por deixar bem claro que febre não significa malária necessariamente: afinal era esse o meu objectivo com estas explicações todas. Sugeri que experimentassem colocar o termómetro, a mais pequena não quis, tinha medo que se descobrisse alguma doença, mas a mais velha, mais corajosa, colocou o tal aparelho na axila. “Tem 36,5ºC. Não está doente!”
- Então vamos ver na B.
- Tenho 39,2ºC...
- O que significa?
- Tem malária!
[Definitivamente não sou boa professora...]

domingo, 16 de junho de 2013

[relativismo cultural] febre e mal estar

Há dias, na reunião da manhã no meu hospital, ouvi falar de uma adolescente que tinha sido internada por febre e mal estar geral com cerca de 3 semanas de evolução.

Tratava-se de uma menina de 13 anos, frágil, magra, com olhos negros e tristes. Nascera na Guiné-Bissau, numa cidade longe da capital e ficara privada da mãe seis anos antes, altura em que esta tivera de vir para Lisboa, acompanhando um irmão mais novo com uma epilepsia grave e atraso de desenvolvimento. A mãe vivera os primeiros anos com o filho, entre casa e hospital, entre consultas e internamentos, entre enfermarias e cuidados intensivos, medicamentos com nomes esquisitos e efeitos secundários de que nunca ouvira falar mas que tinha de monitorizar diariamente.

Chorara apenas no primeiro dia, quando lhe disseram o menino poderia melhorar um pouco, mas nunca poderia vir a ter uma vida normal e que teria de fazer medicação para o resto da vida, medicação essa que não existia na sua cidade natal e que, por isso, mãe e filho nunca mais viveriam junto dos seus. Depois do primeiro dia, aceitou a doença e lutou com todas as suas forças pela vida do filho e pela sua, trabalhando de forma precária nos poucos dias que a doença do filho lhe dava tréguas. Perguntou se pelo menos poderia então reunir a família em Lisboa e criar os outros filhos, mas essa é uma situação que não está prevista na lei. A reunião familiar é imigração ilegal. Por mais relatórios que os médicos escrevessem atestando que o menino teria de ficar a viver para sempre em Portugal, isso não lhe dava o direito de trazer os outros filhos menores. O compromisso do estado português era apenas para com o filho doente. Os outros eram problema seu! Imagino o frio no coração daquela mãe, dividida entre um filho doente e que nunca poderia vir a ter uma vida independente, e os outros filhos lá longe e que ainda precisavam tanto dela.

Só ao fim de alguns anos é que a doença do filho estabilizara e conseguira um contrato de trabalho. Só depois a autorização de residência. Ao fim de seis anos conseguiu mandar vir as outras duas filhas, que deixara ainda meninas ao cuidado da avó materna e que agora vinham adolescentes, começar a vida por que tinham sonhado durante os primeiros anos, mas que agora já não sabiam se desejavam mesmo, pois já tinham aprendido a viver sem a mãe e iniciado a difícil tarefa que é crescer e ser adolescente entre os seus pares.

A mãe não explicara nada disto ao médico do serviço de urgência. Dissera apenas que não reconhecia a filha, que chegara dois meses antes, muito bem disposta, mas que desde há três semanas estava com febre, mal estar, apática, sem forças e sem apetite. Perdera peso. Deixara de ir à escola? perguntara o médico. Que não. Até porque nunca fora. Ainda não tinha tido oportunidade de ir inscrever a filha na escola. Provavelmente só entraria no ano letivo seguinte. Até lá passava o dia a cuidar da casa.

Na cabeça do meu colega surgiram muitas luzes vermelhas: febre arrastada, mal estar, perda de peso. África! Doenças exóticas. Tuberculose. Malária.

Durante todo o dia, a menina com um ar triste e assustado fez análises, ecografias, uma TAC crânio-encefálica, uma punção lombar sob anestesia geral. Por fim foi internada enquanto aguardava os resultados.

Na reunião da manhã, no dia seguinte, os meus colegas relatavam os resultados dos exames: todos normais à exceção de uma discreta anemia por falta de ferro. E que estava sem febre desde a entrada, há quase 24 horas.

Respirei fundo. Pedi a palavra. Não gosto de interromper as reuniões, mas desta vez achei importante dizer algo. Expliquei que na Guiné-Bissau, tal como no Moçambique que eu conheço, o conceito de febre é subjetivo. Quer apenas expressar um mal estar geral. Insisti que, para perguntar se a pessoa tem febre, devemos sempre indagar se o corpo ficou quente. São conceitos diferentes e independentes. A menina estava sem febre desde a entrada porque provavelmente nunca tinha tido febre nenhuma.

Não pude deixar de me sentir gelada por dentro. Aquela mãe coragem, que lutara seis anos para que a vida e a família lhe fosse devolvida, era ainda a mãe negra da canção de Paulo de Carvalho. A mãe negra que não sabe nada, analfabeta e longe dos seus códigos culturais. Ela sabia (como não?) o que se passava com a sua filha, desenraizada e triste, perdida num planeta desconhecido. Se estivesse na Guiné saberia a quem pedir ajuda. Levaria a filha à avó materna e ao curandeiro, para que entre rezas, feitiços, placebos, mimos e cuidados, a angústia se desvanecesse. Mas em Lisboa só podia ir pedir ajuda aos médicos.

Não interferira na investigação médica. Como qualquer mãe africana que se preze, suportou todos os exames e tratamentos firme à cabeceira da filha. Assistiu a tudo de perto, sofrendo por dentro, mas com esperança. Médico de Lisboa é muito sabedor. Os exames à cabeça talvez pudessem ler os maus pensamentos e as angústias da filha, talvez os pudessem apagar, dando lugar à alegria pueril com que a deixara seis anos antes...

Nesse dia continuei gelada. E triste. E envergonhada. Eu sei que pelo menos o problema foi identificado e a menina começou a ser tratada para aquela depressão grave. Com mais exame, menos exame, mais mal-entendido menos mal-entendido, o diagnóstico foi feito. Mas ninguém pode devolver os seis anos roubados a esta família. E a tantas outras na mesma situação...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

[vozes brancas] os descobrimentos


Na consulta dos cinco anos de um menino amoroso e envergonhado, com uma timidez sempre encoberta de sorrisos furtivos e tentativas dissimuladas de se apropriar do meu estetoscópio, do aparelho de medir a tensão ou da lupa, eu perguntava-lhe, em jeito de desbloqueador de conversa, quem eram os melhores amigos, como se chamava a educadora e a que gostava de brincar no recreio. Por fim, lá se resolveu a entabular uma conversa comigo e contou-me que estava a ensaiar um teatro para a festa do final de ano.

- Ah, muito bem, e é um teatro sobre o quê?
- É sobre os descobrimentos portugueses, doutora - apressou-se a responder a mãe.
- Ah, e tu vais ser quem?
- Vou ser a árvore nadadora.
- A árvore nadadora? Mas como é isso?
- Então, filho, a mãe já te explicou, não é nadadora é...
- Narradora - respondeu a sorrir.
- Vais fazer o quê?
- Vou ser eu a contar a história!
- Que maravilha! É um papel muito importante. E o teu amigo Gonçalo vai ser quem?
- Vai ser o Elefante Dom Henrique!

(Eu cá não sou de intrigas, mas as educadoras deviam ter tido mais atenção ao casting... Um elefante é capaz de fazer qualquer caravela ir por água abaixo, mesmo tendo depois uma árvore nadadora a que se agarrar...)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

[repost] o santo antónio no serviço de urgência


Santo António de Lisboa
A Urgência Pediátrica é, por definição, o serviço que tem o movimento mais imprevisível de cada hospital. Nunca se sabe o que vai acontecer, embora, dentro de certos limites, se possa prever, por exemplo, que à hora dos jogos do Benfica e da Seleção Nacional a afluência fique quase reduzida a zero, e que à segunda-feira, tal como em qualquer parte do mundo, o movimento seja significativamente mais elevado...

Já o 12 de Junho em Lisboa é o dia mais previsível do ano, com a seguinte ordem de trabalhos:

- Das 09:00 às 15:00 - Aumento de afluência de adolescentes com dor no peito. Investigando melhor, quase todos são marchantes com ansiedade de desempenho, e a crise passa à hora do ensaio geral das Marchas Populares, lá para as 16:00, altura em que, aconteça o que acontecer, eles nos desamparam a loja. Por vezes regressam depois da meia-noite...

- Das 15:00 às 20:00 - Aumento da afluência de crianças com menos de 3 anos. Motivo de admissão: ingestão acidental de folhas de manjerico. A curiosidade é a mãe de metade dos acidentes na infância. O pai também não é bem incógnito, como adiante se verá... Geralmente os meninos têm alta direta para o arraial do bairro.

- Das 19:30 às 23:00 - Aumento da afluência. Motivo de admissão: corpo estranho na faringe. Invariavelmente, o corpo estranho é uma espinha de sardinha assada. A avaliar pelos números do Grande Observatório Piscícola do Serviço de Urgência, trata-se do único dia do ano em que os meninos se engasgam com espinhas de sardinha. Por qualquer razão obscura, os adultos perdem a capacidade de reconhecer a sardinha como um alimento potencialmente perigoso e oferecem-na da maneira mais estapafúrdia às crianças pequenas - inteiras e sobre o pão. Os hábitos enraizados e as tradições são os pais quase incógnitos da outra metade dos acidentes na infância.

- Das 00:00 em diante - Motivo principal de admissão: adolescentes em coma alcoólico.

Acho que para o ano, para maior eficiência, vamos destinar um gabinete de atendimento especial para estes assados: o "Gabinete Acidentes de Santo António". E criamos a "Via Verde marchante-em-crise", a "Via Verde sardinhas-no-pão", a "Via Verde mamã-engoli-um-manjerico" e a "Via Verde coma-alcoólico-ou-alcoolicamente-mal-disposto-e-intoxicações-várias".

Este ano a urgência é hoje, dia 13. Vou ali ver ressacas e volto já...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

[as melhores do serviço de urgência] alergias...

(Atenção: piada para profissionais de saúde)

Na urgência, estava a observar um menino que vinha com uma otite supurada:
- O seu menino tem alergias?
- Não, doutora.
- E tem sido sempre saudável?
- Sim.
- Já teve alguma doença grave ou esteve internado?
- Sim, uma vez ficou internado aqui na urgência com uma reação alérgica grave.
- [Suspiro... De quantas maneiras diferentes é preciso perguntar a mesma coisa, valha-me São Pedro dos Sinónimos?!] Então? Como foi?
- Ele estava com outra otite, veio aqui às urgências e receitaram-lhe amoxicilina. Melhorou, mas passado duas semanas voltou a queixar-se do mesmo ouvido. Viemos cá outra vez e passaram-lhe o Clavamox. Começaram logo a aparecer umas erupções na pele e, de cada vez que dávamos o antibiótico, ele piorava, até que ao segundo dia ficou que parecia um bicho e muito prostrado. Viemos de urgência para cá e passou a noite ali internado a soro.
- E depois, foi a uma consulta de alergia medicamentosa?
- Não. Por isso ficámos sempre na dúvida se tinha sido alergia à amoxicilina ou ao ácido vulcânico...

(Como disse depois um amigo meu, claro que foi o ácido vulcânico que  lhe provocou as erupções, qual era a dúvida?)

terça-feira, 11 de junho de 2013

[as melhores do serviço de urgência] sinais de subida térmica

Na urgência, um bebé de 7 meses choramingava, desconfortável, deitado na marquesa enquanto a minha colega o observava.

- Ele tem tido febre? Parece-me quente...
- Pois, por acaso eu também acho que deve ter a febre a subir, doutora, porque tem a pilinha murcha.

Onde estão as saídas de emergência para quem não consegue conter o riso?
Comentário de outro colega: "E o que será que acontece ao menino quando tem uma hipotermia?"

terça-feira, 21 de maio de 2013

[as melhores do serviço de urgência] sinais de bom prognóstico...

 
 
Serviço de Urgência ontem à tarde...
(Estefânia em baixa resolução)
 
Passei fugazmente no corredor da cirurgia. Uma adolescente com uma apendicite aguda, finalmente sem dores (e conhecedora do facto de que, numa sala do bloco operatório, um balde de lixo esterilizado aguardava placidamente pelo apêndice responsável pelas suas últimas noites mal dormidas), lia o Memorial do Convento. Só lhe faltava o derradeiro sinal de bom prognóstico: estar de perna traçada. Mas isso era uma questão de dias...
Ah, grande seleção de esperanças!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

[psicanálise selvagem] lapsus linguae

Na consulta há uns tempos, a madrasta de uma criança relatava-me a consulta Psicologia a que tinha acompanhado a enteada tempos antes. Queixara-se na consulta de que a enteada estava o tempo todo agarrada ao pai (marido da "queixosa") e que aquela dupla imbatível tinha um fim catastrófico anunciado. Que ele lhe fazia as vontades todas, que ele não a ajudava a fazer os trabalhos de casa e que até dormia com ela se lhe pedisse.

Concordei que eram tudo maus hábitos e formas de funcionar que não promoviam a autonomia da criança.

- Pois, doutora, a psicóloga lá nos esteve a explicar que a menina ainda estava numa fase muito Edipeniana e que era preciso acompanhamento...

Eu concordei novamente, mas tive de deixar cair a caneta ao chão, Valha-me São Freud de Viena! Não consegui evitar um sorriso... O que será uma fase edipeniana? Ah, sim, aquela fase tão importante e específica do desenvolvimento em que o Édipo fica com inveja do pénis?

terça-feira, 2 de abril de 2013

[silly season 2013] não sei que vos diga...


Não sei que vos diga nem que vos conte... Há um preço a pagar pelo amor que morre ou que nos morre por dentro, que é o luto e a dor. Mas a verdade é que pelos vistos também há um preço a pagar pelo amor que cresce. E esse preço é a falta de inspiração! Desculpem qualquer coisinha, tenho estado a ver se isto me passa, mas o facto é que continuo em estado de graça e enquanto estiver assim, nicles...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

[frase do dia] que me ecoa na cabeça há semanas

Você, como sabe, é um elemento precioso desta equipa, mas não faz parte da estrutura, faz parte da conjuntura... Portanto não é justo para si que nós lhe exijamos que fique.

Se tivesse sido hoje, eu não tinha ligado nenhuma, mas não era o dia das mentiras...