...entras num taxi à porta do hospital às quatro da tarde, com o sol a dar-te na cara, cumprimentas o taxista com um simpático "Boa noite!" e ainda demoras algum tempo até conseguir perceber por que raio é que ele se virou para ti com um ar preocupado...
- Passa-se alguma coisa, menina?
- Não, obrigada... Acho que é mesmo só vontade de ir já para a cama!
- Mas isso está mesmo mau...
- Pois... ainda quero ver quantos disparates é que vou dizer mais hoje.
- Bem, se vai para a cama já não diz mais nenhum. A não ser que fale durante o sono.
- Não, ainda vou trabalhar mais logo.
[Virou-se para trás novamente com um ar preocupadíssimo.]
- Mas veja lá, se começar a ver que os doentes estão a piorar vá descansar um bocadinho...
quinta-feira, 14 de abril de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
[adama] a vida é simples, insisto
Guiné-Bissau
(Fotos daqui)
(continuando...)
Meses depois, estava eu em casa a dormir, a recuperar do banco do dia anterior, quando recebo um telefonema de que reconheci num relance o indicativo da Guiné-Bissau: só podia ser da Adama, que me telefonava de vez em quando para dar umas atabalhoadas notícias, no seu português cada vez mais difícil de compreender. Daquela vez, a voz menos jovial pedia-me que lhe telefonasse de volta porque não tinha saldo. Em vão tentei ligar. Um sotaque africano insistia que me tinha enganado no número, que aquele não estava atribuído. Estranho. Muito estranho. Telefonei aos tios de Portugal, mas não tinham notícias dela porque tinham acabado de chegar do estrangeiro. Que de qualquer modo era sempre muito difícil contactar com ela porque na localidade onde vivia não havia rede de telemóvel. Só quando se deslocava a Bissau é que telefonava. Asseguraram-me que mais hora menos hora haveria de conseguir contactar com ela. “A rede lá é muito instável. Ora vai, ora vem.” Que continuasse a tentar, não havia mais a fazer. Tentei em vão. Fiquei perturbada. O que se passaria? Telefonei aos tios no dia seguinte, mas continuavam sem notícias.
Nessa tarde fiquei a saber pela directora do internamento que a Adama tinha falado com a voluntária que a ajudara a voltar para a Guiné e que lhe tinha dito que estava a passar fome, cheia de dores de cabeça e em todo o corpo... Gelei. Que ela não queria voltar para Portugal, não era nada disso, tinha feito questão de dizer, mas que estava a passar muito mal. Pensámos o pior... Para além do horror da fome poderia ter tido um AVC, uma trombose periférica... Que poderíamos fazer por ela? Uma coisa é certa, não tinha sido para isto que a tínhamos mandado de volta para a Guiné...
Só fiquei a saber do desenrolar dos factos na segunda-feira seguinte, quando passei na Unidade de Adolescentes. A voluntária mais um vez tinha sido o seu anjo da guarda. A história foi mais ou menos assim: No momento em que tinha falado com a Adama a voluntária estava no seu local de trabalho, ao lado de uma amiga, que por sua vez tinha um amigo riquíssimo, dono de uma ilha na Guiné, onde ia amiúde passar férias... Falaram com ele e o senhor tinha ficado muito sensibilizado com a história e, por um extraordinário acaso, iria para a Guiné no dia seguinte.
Conseguiram localizar a Adama em Bissau através de um jornalista, cujo contacto nos tinha sido dado pelo tio já no aeroporto, no momento da partida para a Guiné. Segundo o tio, tratava-se de um senhor de toda a confiança e que falava bem a língua local, portanto podia fazer de intérprete entre o magnata da ilha e a nossa protegida...
Ao que parece, o jornalista teve de interromper alegremente uma reunião com o Ministro do Interior para mediar a conversa! Quem me dera ser uma mosca africana para lá ter estado... No dia seguinte a Adama telefonou novamente à voluntária. A voz completamente diferente agradecia, porque já não tinha dores e estava tudo bem. Não telefonava mais porque ia regressar para Galumaro, a sua aldeia. A mãe da Adama também falou, com a voz embargada, uma única palavra em Português: Obrigada! As restantes palavras eram incompreensíveis, mas também não era necessário traduzir.
Lembrei-me há dias desta história, não sei porquê, mas continuo a achá-la inspiradora. Foi extraordinária a corrente de solidariedade que se criou em torno desta menina tão especial para a ajudar a cumprir o seu desejo de permanecer junto da família. E é curioso que tudo quanto lhe pudemos dar no tempo em que cá esteve, desde ter aprendido a falar Português, a conhecer as letras, até ao tratamento da doença, passando pelos amigos que fez, nada disto teria sentido para ela se não tivesse podido voltar. São tantas as vezes que pensamos que os meninos africanos com doenças crónicas não podem nem devem regressar ao seu país, que nem sempre conseguimos sequer pensar como poderemos organizar o seu regresso. Mas como dizia sempre minha tutora, “Se eu tivesse a minha palhota, era na minha palhota que eu haveria de querer estar!”
Depois disto nunca mais tivemos notícias dela... Não tenho muitas ilusões, sei que a vida é dura, que no mato há muitas doenças e que a saúde dela era frágil. Mas quero acreditar que está bem, que a vida continua a ser simples e que a sorte lhe sorri uma vez mais todos os dias...
De vez em quando tenho vontade de a ir procurar. Não seria impossível talvez... Temos o nome dela, a localidade, a história de vida, da família e da doença. E já percebi, por experiência própria, que em África só não se encontra quem não quer mesmo ser encontrado. Quem sabe se um dia alguém não completa esta história?
terça-feira, 12 de abril de 2011
[adama] o que faz a vida ter sentido...
Carnaval em Bissau
(Foto da net, mas não me lembro de onde, desculpem...)
(continuando...)
Durante o internamento connosco, a Adama foi operada e ficou a ver razoavelmente, mas percebemos que a menina não tinha só uma cegueira grave. Tinha uma anemia e uma doença genética que a tornava susceptível a AVC e tromboses venosas. Por milagre nunca tinha tido uma coisa nem outra, mas teve uma complicação no internamento (uma neuropatia) que nos deu água pela barba até a conseguirmos pôr a andar novamente e sem dores...
Enquanto esteve connosco cativou-nos a todos. Aprendeu a falar Português, aprendeu as letras, os números, aprendeu a ler. Conheceu as ruas, a televisão, o computador, a internet, aprendeu a manusear monitores cardio-respiratórios, bombas infusoras, aprendeu os nomes dos medicamentos e a função de cada um. Foi de fim-de-semana para casa de várias amigas, companheiras de quarto que conhecera no internamento. Passou o Natal em casa de uma enfermeira e o ano novo em casa de outra. Não faltou quem se oferecesse para a levar para casa. Só não a conseguimos convencer a voltar a beber leite... "Problema de olho!", respondia invariavelmente com um ar quase ofendido. Questão absolutamente inargumentável! Também acho que nunca aprendeu a gostar da nossa comida...
Entretanto, meses depois, a menina já estava melhor e queria voltar para junto dos pais. Mas era arriscado... E se tivesse um AVC? E se a neuropatia recidivasse? E se descompensasse com uma malária ou outra doença tropical? E se... e se... Foi inamovível. Queria voltar para casa. Como era possível, comentavam as pessoas... Como era possível alguém que tinha agora luz eléctrica, água corrente, acesso a todo o conforto e informação, acesso à educação também... como era possível querer voltar para o mato, para uma palhota? Mas também havia quem a compreendesse... [Não, meus amigos, eu não era a única a compreender as saudades dela! A vida é mais simples do que pensamos. E não é preciso ter vivido no mato para saber que o preço a pagar por não ter o mesmo conforto é muito pequeno...] E, com a ajuda de uma voluntária do nosso hospital, foi possível angariar dinheiro para lhe pagar a viagem de regresso.
Na mala levava medicação para um ano inteiro, a referência do médico que a poderia acompanhar, com quem tínhamos contactado a partir de Lisboa, a promessa de que lhe enviaríamos mais medicamentos com a ajuda dos tios quando tivéssemos um portador, um telemóvel para falar connosco e muitas recordações do carinho dos enfermeiros, auxiliares e médicos que a tinham apadrinhado e acarinhado naquela estadia tão longa no hospital... Fomos ao aeroporto despedir-nos. Também nos ia deixar saudades...
(continua)
[adama] histórias que fazem a vida valer a pena...
Menina...
(Carnaval em Bissau, foto daqui)
Já no hospital, os tios com quem tinha vindo viver explicaram-me como fora que tudo se tinha passado. Que a menina cedo começara a deixar de ver, mas que os pais tinham negado a doença inicialmente. Pensavam que era uma "doença tradicional".
- Uma doença tradicional? Porquê uma doença tradicional? - interroguei-os.
Ao que parece os pais pertenciam a etnias diferentes e terem-se casado significara a quebra de um tabu profundamente enraizado. Tinham traído os antepassados, renegado as raízes. E sempre souberam que o facto de não terem conseguido resistir ao apelo daquele amor impossível poderia ter consequências graves nos filhos... A nossa menina tinha sido a primeira filha daquele casal. Chamaram-lhe Adama, que significa mulher bonita, amante ardente, em honra àquela paixão arrebatadora, que apesar do sofrimento pela culpa os fazia tão felizes.
Só quando os olhos da Adama passaram de escuros a azulados e, por fim, a totalmente brancos e a menina deixara de conseguir encontrar o caminho para o fontanário para ir buscar água para a família é que os pais se renderam à evidência de que não podiam continuar a fingir que não reparavam no que toda a aldeia já sabia... Foi então que começaram a procurar ajuda...
Seguira-se um longo périplo, primeiro com o curandeiro mais famoso das redondezas, que se recusara a ajudá-los por não haver remédio para a zanga dos antepassados. Desconsolados, procuraram outro curandeiro, igualmente conceituado mas muito mais longe, desta feita um homem de mente mais aberta, também ele casado com uma mulher de outra etnia e que delicadamente não se referira ao tabu quebrado pelos pais. Atribuíra a causa dos olhos brancos ao excesso de leite de cabra, que a menina bebia desde criança, já que o pai era criador de gado... Mas nada parecia ajudá-la. Acabaram por levá-la para o Hospital Simão Mendes, na capital, onde ficou internada durante meses, sem que também pudessem fazer o que quer que fosse por ela... Até que se decidiram a enviá-la para Portugal.
(continua...)
[inspiração pra uma despedida] a dor da gente não sai no jornal
Tentou contra a existência
Num humilde barracão,
Joana de tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe;
Ninguém volta ao que acabou.
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou na dose,
Errou no amor;
Joana errou de João.
Ninguém notou,
Ninguém morou na dor que era o seu mal;
A dor da gente não sai no jornal...
Haroldo Barbosa/ Luiz Reis, 1961
(Obrigada ao Vítor, correspondente honoris causa deste mato, agora em parte incerta...).
segunda-feira, 11 de abril de 2011
[portugal no seu melhor] hoje temos...
Na sexta-feira, estava eu a descer o Conde de Redondo a caminho dos correios quando fui vítima de assédio religioso, mesmo à porta de uma loja de "artigos para adultos". Fui abordada por uma simpática senhora testemunha de jeová, ávida pela conversão de almas pecadoras para o seu céu, um céu limpo e luminoso, livre de pecados, isento de sofrimento, de impostos e de derivados de sangue... Vi-me e desejei-me para me libertar dela, enquanto quase me perseguia com frases incisivas de morte e arrependimento. Nisto, dei de caras com uma montra de uma loja de ferragens onde se podia ler em várias folhas de formato A4: "Temos baba de caracol"; "Temos leite de burra. Em creme!" (Com ponto de exclamação e tudo) e, pérola das pérolas: "Temos onicomicoses para fungos."
Sinceramente... Para quem não percebeu, é assim como se anunciassem numa loja de artigos de jardinagem: "Temos pulgas para cães.", ou pior ainda, "Temos cães para pulgas!"
É por estas e por outras que a Rua do Conde de Redondo tem lugar cativo em todos os roteiros de Lisboa... E se alguém quiser fazer um dia o Roteiro Humorístico da capital também acho que pode começar por aqui!
Sinceramente... Para quem não percebeu, é assim como se anunciassem numa loja de artigos de jardinagem: "Temos pulgas para cães.", ou pior ainda, "Temos cães para pulgas!"
É por estas e por outras que a Rua do Conde de Redondo tem lugar cativo em todos os roteiros de Lisboa... E se alguém quiser fazer um dia o Roteiro Humorístico da capital também acho que pode começar por aqui!
domingo, 10 de abril de 2011
[olhos quentes de sul] ingenuidade e racismo
O engraxador do Rossio...
(Foto daqui)
[Ouvido anteontem...]
- Cheguei pela primeira vez a Portugal, já médica e com vinte e cinco anos, vinda de Angola onde tinha sempre vivido. Tive logo a sensação de que algo de muito estranho se passava, havia muita coisa não batia certo. Nem conseguia dizer ao certo o que era que estranhava até que cheguei ao Rossio e vi um branco dobrado a engraxar os sapatos de outro branco... "Assim não vamos a lado nenhum!", foi logo o que eu pensei!
[inspiração para uma despedida] amanhã não existe!
(...)
Amanhã não existe. Meu somente
É o momento, eu só quem existe
Neste instante, que pode o derradeiro
Ser de quem finjo ser?
Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis
Fernando Pessoa
Amanhã não existe. Meu somente
É o momento, eu só quem existe
Neste instante, que pode o derradeiro
Ser de quem finjo ser?
Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis
Fernando Pessoa
sexta-feira, 8 de abril de 2011
[a minha vida dava um filme cigano] ...não tinha as cédulas necessárias
Ontem encontrei no corredor do hospital a mãe de uma menina cigana, já muito minha conhecida de "outros carnavais", que tinha sido internada no dia anterior para uma cirurgia programada.
- Boa tarde, então a sua menina já foi operada?
[Desconsolada] - Não, Doutora, nã foi...
- Então?
- Disseram que não tinha cédulas...
- Não tinha cédula? Mas não está registada a menina?!
- Nã sei, Doutora, disseram que nã tinha as cédulas necessárias para ser operada...
- Mas isso é muito estranho...
- Pois, Doutora, eles também disseram que era estranho e por isso mudaram-na de enfermaria...
- Mudaram-na de enfermaria?!
- Sim, porque tinha as cédulas baixas não podia estar ali, tinha de ficar no isolamento...
[Ai, valha-me Santo Inácio, que já percebi tudo...]
- Então foi transferida porque tinha as células do sangue baixas?
- Isso, Doutora. Eles até achavam que tinha uma dulcemia, mas afinal parece que nã é nada disso! Já está melhor...
- Ah... Ainda bem... Então as melhoras.
- Boa tarde, então a sua menina já foi operada?
[Desconsolada] - Não, Doutora, nã foi...
- Então?
- Disseram que não tinha cédulas...
- Não tinha cédula? Mas não está registada a menina?!
- Nã sei, Doutora, disseram que nã tinha as cédulas necessárias para ser operada...
- Mas isso é muito estranho...
- Pois, Doutora, eles também disseram que era estranho e por isso mudaram-na de enfermaria...
- Mudaram-na de enfermaria?!
- Sim, porque tinha as cédulas baixas não podia estar ali, tinha de ficar no isolamento...
[Ai, valha-me Santo Inácio, que já percebi tudo...]
- Então foi transferida porque tinha as células do sangue baixas?
- Isso, Doutora. Eles até achavam que tinha uma dulcemia, mas afinal parece que nã é nada disso! Já está melhor...
- Ah... Ainda bem... Então as melhoras.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
[a minha vida dava um filme cigano] aprender a falar...
No corredor do hospital no mês passado, um colega meu Neuropediatra encontrou o pai de um menino cigano de cinco anos, que tinha ido à sua consulta no ano anterior por um atraso gravíssimo da linguagem. Nunca mais regressara à consulta apesar dos esforços do médico em contactar a família, já que a situação era muito preocupante (um clássico: os números de telefone nestes casos nunca são verdadeiros...). O Neuropediatra, senhor de uma memória fotográfica de fazer inveja, faz parar o pai, que assobiava para o lado, tentando passar de fininho...
- Então o senhor nunca mais me apareceu na consulta com o menino?
- [Olhando para baixo...] Hã... Doutori... Pois foi. Nunca mais... [E, de repente, com a face iluminada por um sorriso...] Mas é que ele está muito melhori!
- Está melhor? Então? Mas já diz alguma coisa?
- [Com um grande entusiasmo!] Sim, Doutori, vêja lá que o cabr*** já diz fi*** da p***!
Enfim, como diria o Lépido, tem de se começar por algum lado...
- Então o senhor nunca mais me apareceu na consulta com o menino?
- [Olhando para baixo...] Hã... Doutori... Pois foi. Nunca mais... [E, de repente, com a face iluminada por um sorriso...] Mas é que ele está muito melhori!
- Está melhor? Então? Mas já diz alguma coisa?
- [Com um grande entusiasmo!] Sim, Doutori, vêja lá que o cabr*** já diz fi*** da p***!
Enfim, como diria o Lépido, tem de se começar por algum lado...
quarta-feira, 6 de abril de 2011
[impaciências] as melhores da sala de partos
Na sala de partos, uma jovem já desesperada pelo trabalho de parto arrastado, pelo jejum de há mais de 12 horas, pelos toques sucessivos, pela ausência de contacto com os amigos e com a família:
- E ele que nunca mais nasce! Não quer nascer... - E voltando-se para a enfermeira parteira, que lhe administrava a medicação - Acha que ele ainda nasce?
- Ó minha senhora, ainda está para nascer o bebé que tivesse ficado lá dentro!
- E ele que nunca mais nasce! Não quer nascer... - E voltando-se para a enfermeira parteira, que lhe administrava a medicação - Acha que ele ainda nasce?
- Ó minha senhora, ainda está para nascer o bebé que tivesse ficado lá dentro!
[à mão a comida sabe melhor] zambézia vs new york
I love New York and gourmet restaurants but...
In Mozambique food is genuine happiness!
A vida é simples. Mais do que nos atrevemos a pensar. Sinceramente, comer com 17 talheres e 5 copos é coisa para centopeias, não é para famílias harmoniosas e pessoas de bem... A verdade é que à mão, no mato, com uma família que nos acolhe e partilha o que tem, a comida tem um sabor que nunca imaginaríamos.
Aliás, lembro-me sempre da célebre frase de Henrique VIII, quando os seus conselheiros lhe explicaram que estava na moda comer com garfo porque era mais limpo e mais distinto, uma vez que os garfos podiam ser lavados. "But so can your hands!" foi a resposta histórica.
terça-feira, 5 de abril de 2011
[welcome to mozambique] always dancing!
If it could only be like this always... always summer, the fruit always ripe and everyone dancing in a good temper...
(Nampula, Moçambique)
segunda-feira, 4 de abril de 2011
[instantes] o nascer do sol no índico
Dura um instante, o nascer do sol próximo do equador... mas é sempre em instantes de todos os dias que podemos ser felizes.
(Praia das Chocas, Nampula)
[vozes brancas #44] um bebé na minha barriga
(Continuando o post abaixo... Não, não tem link, não sejam preguiçosos, é o post imediatamente abaixo deste, até mal parece andar aqui com hiperligações, valha-me São Vito!)
Olhei melhor para o menino enquanto a mãe o despia... Olheirento, frágil, com uma barriga inchada e o olhar infeliz que nenhuma criança deveria ter. A mãe também com um ar que quem não estava cá, perdida no meio de pensamentos e preocupações. Alguma coisa se passava, de facto, se bem que não necessariamente algo de orgânico... Palpei-lhe a barriga, inchada, cheia de ar. Nada. Palpação inocente. Nem tumores palpáveis, nem fezes, nem alterações da motilidade intestinal. Absolutamente nada! O menino apesar de triste estava bem nutrido, sem anemia, sem outros sinais que me chamassem a atenção. Olho a mãe nos olhos:
- Mas mãe... passa-se alguma coisa?
- Não, doutora...
- Mas está tudo bem lá em casa?
- Sim, está tudo bem.
[Sempre aprendi por experiência própria que é nas famílias do "lá em casa tudo bem" que as crianças mais sofrem por não poderem verbalizar as suas preocupações e geralmente quando pedem ajuda ou atenção é desta forma desajustada...]
- Mas tem havido preocupações, problemas entre o casal, alguém ficou desempregado, alguma coisa deste tipo? As crianças sentem muito isto, apesar de às vezes acharmos que não se apercebem...
- Não doutora, está tudo bem... Só tenho andado muito preocupada com isto...
- A barriga tem-te doído, meu querido?
- Às vezes dói quando está maior...
- E tem doído muitas vezes?
- Sim. Se calhar tenho um bebé na barriga...
- Ó filho, a mãe já te explicou que só as senhoras crescidas é que podem ter bebés na barriga. Os meninos não - a mãe carinhosa, mas visivelmente agastada por esta deixa do menino.
[Ó diabo... um rapaz de cinco anos e meio a verbalizar fantasias crossgender deste calibre? E ainda por cima parece uma coisa recorrente, já que a mãe reagiu logo... Será esse o problema? Uma perturbação de identidade de género que a mãe não quer aceitar? Será que ele se identifica com uma menina e a mãe anda a tentar reprimir esse tipo de comportamentos? Será que na escola o gozam por isso? Parece tão frágil, tão franzino, de certeza que nem se consegue defender se os outros miúdos o gozarem e começarem a atacar por causa disso... E já sabemos como são as crianças... O filme todo a desenhar-se na minha cabeça... Claro que numa família destas, em que tem de estar sempre tudo bem, tem de demonstrar o seu sofrimento falando de dores de barriga - ou de dores de cabeça, ou de dores de outra coisa qualquer - nunca falando de sentimentos... Lá terei de fazer de médica incomodativa, mas enfim, o meu papel é ajudar o menino, não é dar palmadinhas nas costas a ninguém... Mas não me apetecia mesmo nada... Com fome, cansada, com falta de paciência... Depois desta tenho mesmo de fazer uma pausa!]
- Parece-lhe que ele tem andado infeliz?
- Ultimamente às vezes parece-me abatido...
- Mas tem brincado?
- Sim, brinca, mas lá na escola têm-me dito que tem brincado mais sozinho...
[Humm... aqui há gato...]
- E com que é que ele gosta de brincar?
- Brinca com os carrinhos dele...
- Só com carrinhos?
- Sim, também gosta de brincar aos polícias e ladrões e às naves espaciais.
- E faz o papel de quem, quando brinca?
[A mãe devia estar a achar aquilo tudo um disparate] - Geralmente faz o papel de polícia ou de comandante das naves espaciais... Mas o que é que isso tem a ver?
- Estava a ver se ele não estaria demasiado triste para conseguir brincar... [Pelos vistos até é muito rapaz...] E tem tido dificuldade em dar-lhe banho ou em vesti-lo de manhã?
- Não. Ele até se veste sozinho.
- E o que é que ele mais gosta de vestir?
- Coisas práticas, fatos de treino e assim. [É rapaz, de facto...]
- Quis mascarar-se no Carnaval?
- Sim, escolheu um fato de Homem-aranha. Tem uma adoração enorme pelo Homem-aranha - mãe e filho sorriam, cumplices, com esta frase.
[Bem, perturbação de identidade de género não tem de certeza... Nem está fora da realidade... Ou seja, ele sente de facto alguma coisa na barriga. Lá vou ter de lhe pedir uma ecografia abdominal. E logo a um miúdo cujo primeiro diagnóstico foi uma perturbação de identidade de género! Isto só a mim... Canário, por que é que os doentes nunca lêem os mesmos livros que os médicos?!]
E pronto, foi assim que fiz o raciocínio improvável e levemente nonsense de que se o menino não estava deprimido nem tinha uma perturbação de identidade de género então só podia mesmo ter um tumor intra-abdominal... e não é que tinha mesmo? Um tumor benigno com 600 gramas. Bem que o pobrezinho dizia que tinha um bebé na barriga!
Olhei melhor para o menino enquanto a mãe o despia... Olheirento, frágil, com uma barriga inchada e o olhar infeliz que nenhuma criança deveria ter. A mãe também com um ar que quem não estava cá, perdida no meio de pensamentos e preocupações. Alguma coisa se passava, de facto, se bem que não necessariamente algo de orgânico... Palpei-lhe a barriga, inchada, cheia de ar. Nada. Palpação inocente. Nem tumores palpáveis, nem fezes, nem alterações da motilidade intestinal. Absolutamente nada! O menino apesar de triste estava bem nutrido, sem anemia, sem outros sinais que me chamassem a atenção. Olho a mãe nos olhos:
- Mas mãe... passa-se alguma coisa?
- Não, doutora...
- Mas está tudo bem lá em casa?
- Sim, está tudo bem.
[Sempre aprendi por experiência própria que é nas famílias do "lá em casa tudo bem" que as crianças mais sofrem por não poderem verbalizar as suas preocupações e geralmente quando pedem ajuda ou atenção é desta forma desajustada...]
- Mas tem havido preocupações, problemas entre o casal, alguém ficou desempregado, alguma coisa deste tipo? As crianças sentem muito isto, apesar de às vezes acharmos que não se apercebem...
- Não doutora, está tudo bem... Só tenho andado muito preocupada com isto...
- A barriga tem-te doído, meu querido?
- Às vezes dói quando está maior...
- E tem doído muitas vezes?
- Sim. Se calhar tenho um bebé na barriga...
- Ó filho, a mãe já te explicou que só as senhoras crescidas é que podem ter bebés na barriga. Os meninos não - a mãe carinhosa, mas visivelmente agastada por esta deixa do menino.
[Ó diabo... um rapaz de cinco anos e meio a verbalizar fantasias crossgender deste calibre? E ainda por cima parece uma coisa recorrente, já que a mãe reagiu logo... Será esse o problema? Uma perturbação de identidade de género que a mãe não quer aceitar? Será que ele se identifica com uma menina e a mãe anda a tentar reprimir esse tipo de comportamentos? Será que na escola o gozam por isso? Parece tão frágil, tão franzino, de certeza que nem se consegue defender se os outros miúdos o gozarem e começarem a atacar por causa disso... E já sabemos como são as crianças... O filme todo a desenhar-se na minha cabeça... Claro que numa família destas, em que tem de estar sempre tudo bem, tem de demonstrar o seu sofrimento falando de dores de barriga - ou de dores de cabeça, ou de dores de outra coisa qualquer - nunca falando de sentimentos... Lá terei de fazer de médica incomodativa, mas enfim, o meu papel é ajudar o menino, não é dar palmadinhas nas costas a ninguém... Mas não me apetecia mesmo nada... Com fome, cansada, com falta de paciência... Depois desta tenho mesmo de fazer uma pausa!]
- Parece-lhe que ele tem andado infeliz?
- Ultimamente às vezes parece-me abatido...
- Mas tem brincado?
- Sim, brinca, mas lá na escola têm-me dito que tem brincado mais sozinho...
[Humm... aqui há gato...]
- E com que é que ele gosta de brincar?
- Brinca com os carrinhos dele...
- Só com carrinhos?
- Sim, também gosta de brincar aos polícias e ladrões e às naves espaciais.
- E faz o papel de quem, quando brinca?
[A mãe devia estar a achar aquilo tudo um disparate] - Geralmente faz o papel de polícia ou de comandante das naves espaciais... Mas o que é que isso tem a ver?
- Estava a ver se ele não estaria demasiado triste para conseguir brincar... [Pelos vistos até é muito rapaz...] E tem tido dificuldade em dar-lhe banho ou em vesti-lo de manhã?
- Não. Ele até se veste sozinho.
- E o que é que ele mais gosta de vestir?
- Coisas práticas, fatos de treino e assim. [É rapaz, de facto...]
- Quis mascarar-se no Carnaval?
- Sim, escolheu um fato de Homem-aranha. Tem uma adoração enorme pelo Homem-aranha - mãe e filho sorriam, cumplices, com esta frase.
[Bem, perturbação de identidade de género não tem de certeza... Nem está fora da realidade... Ou seja, ele sente de facto alguma coisa na barriga. Lá vou ter de lhe pedir uma ecografia abdominal. E logo a um miúdo cujo primeiro diagnóstico foi uma perturbação de identidade de género! Isto só a mim... Canário, por que é que os doentes nunca lêem os mesmos livros que os médicos?!]
E pronto, foi assim que fiz o raciocínio improvável e levemente nonsense de que se o menino não estava deprimido nem tinha uma perturbação de identidade de género então só podia mesmo ter um tumor intra-abdominal... e não é que tinha mesmo? Um tumor benigno com 600 gramas. Bem que o pobrezinho dizia que tinha um bebé na barriga!
domingo, 3 de abril de 2011
[vozes brancas #43] um bebé na minha barriga
Há umas semanas atrás, na urgência de pediatria, num fim de tarde daqueles em que parece que nem tempo temos para respirar porque estamos a ver cinquenta meninos ao mesmo tempo e é preciso controlar quem é que já fez os aerossóis, quem é que já veio das análises, por que é que o bebé que mandámos fazer uma radiografia mas que estava um pouco aflito com falta de ar ainda não voltou e se o cirurgião vem do bloco de uma vez e nos atende o telefone, que temos uma menina que achamos que tem uma apendicite. Num daqueles dias em que juramos para nós mesmas que se o cirurgião nos tenta namoriscar com alguma daquelas piadinhas à empregado de mesa: "A menina tem defesa? E tem meio-campo e ataque também?" é desta que lhe damos uma resposta torta! Num daqueles dias em que não tivemos tempo para almoçar e só percebemos isso lá para as 17:00 quando demos por nós a embirrar sem razão com o choro dos bebés e nos obrigámos a fazer uma pausa depois do doente seguinte, antes que a situação se agudizasse...
E foi nestes preparos que chamei um menino de cinco anos e meio que há três horas esperava a sua vez de ser atendido. Motivo da vinda ao serviço de urgência: distensão abdominal há vários meses. Quinta vinda ao serviço de urgência pelo mesmo motivo. Respirei fundo. Controlei-me. O que tinha acontecido para vir precisamente hoje à "hora de ponta" ao serviço de urgência?
- Nada, doutora. É que ele não está melhor...
- Mas já falou com o seu médico?
- Não temos médico de família...
- Mas estou aqui a ver no sistema que já a enviaram a uma consulta de Gastroenterologia e que até faltou à consulta.
- Ó doutora, é que me mandaram porque me disseram que era para tratar da prisão de ventre, mas ele não tem prisão de ventre. Não ia lá fazer nada... Mas eu estou muito preocupada, por isso é que cá venho outra vez.
Comecei a hiperventilar... mas enfim... "quem diz a verdade não merece castigo", lá diz a minha mãe. Quem a referenciara à consulta não tinha conseguido transmitir segurança suficiente a esta mãe para a orientar. Tentei chamar a mim alguma paciência e mandei despir o menino.
(continua...)
E foi nestes preparos que chamei um menino de cinco anos e meio que há três horas esperava a sua vez de ser atendido. Motivo da vinda ao serviço de urgência: distensão abdominal há vários meses. Quinta vinda ao serviço de urgência pelo mesmo motivo. Respirei fundo. Controlei-me. O que tinha acontecido para vir precisamente hoje à "hora de ponta" ao serviço de urgência?
- Nada, doutora. É que ele não está melhor...
- Mas já falou com o seu médico?
- Não temos médico de família...
- Mas estou aqui a ver no sistema que já a enviaram a uma consulta de Gastroenterologia e que até faltou à consulta.
- Ó doutora, é que me mandaram porque me disseram que era para tratar da prisão de ventre, mas ele não tem prisão de ventre. Não ia lá fazer nada... Mas eu estou muito preocupada, por isso é que cá venho outra vez.
Comecei a hiperventilar... mas enfim... "quem diz a verdade não merece castigo", lá diz a minha mãe. Quem a referenciara à consulta não tinha conseguido transmitir segurança suficiente a esta mãe para a orientar. Tentei chamar a mim alguma paciência e mandei despir o menino.
(continua...)
sábado, 2 de abril de 2011
[a beleza é simples...] nampula vs new york
New York: o paradigma da mulher bela e produzida implica a aplicação com mestria de base, sombras, efeitos de luz, batom, gloss, lápis... uma trabalheira das antigas!
Nampula: a mulher bonita cobre a face com mussiro.
E está tudo dito, minhas amigas. Podíamos dizer que o efeito seria patético, mas é genial! A máscara de mussiro confere-lhes um ar etéreo e levemente enigmático. Assim como uma gueisha, mas em africana dançante e bem disposta*, e sem a conotação de mulher fácil. E pronto, é só seguir viagem, que o sucesso é garantido! Quem foi que disse "you're only as good as your make-up"? Ah... fui eu... Mas retiro o que disse. Como disse certa vez o Lépido, "nós não temos verdades absolutas, temos momentos!"
Bom fim-de-semana.
* Nota: Este blog é um fervoroso adepto da vírgula de Oxford.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
[the trail of two cities] nampula vs new york
"Nova Iorque é a Meca do turismo dos tempos modernos, com a vantagem de ninguém nos obrigar a andar de sandálias e a deixá-las à porta."Fernando Bilé in Isto é Comédia
Já os encantos turísticos de Nampula são o facto de não ter turismo e ainda assim podermos usar sandálias o ano inteiro!Beijo de Mulata
[a tale of two sports] zambézia vs new york
I love New York but...
Mozambique makes deeper sense!
Divertido, é certo! Muito divertido. Correr, dar duas voltas ao Central Park e acabar na Times Square no meio de galhofa, amigos e família é qualquer coisa de muito especial, mas enfim... algo nonsense também... Sobretudo porque um dia, na Zambézia, também de manhazinha, partimos ao romper do dia para uma caminhada até ao monte Gilé. Uma distância ainda maior a percorrer, um número de pessoas proporcionalmente também maior, o mesmo objectivo de chegar ao fim. Mas tão diferente...
Diferente no sentido em que o objectivo não era chegar primeiro, mas chegarmos juntos. Pouco a pouco. Sem pressas. Era isso que as pessoas iam cantando, animando-se pelo caminho "Vkhani-vakhani enrwaka!" [Pouco a pouco chegaremos todos!]. E a caminhada teve o seu ponto mais intenso na subida ao monte, morada por excelência de todos os antepassados, território sagrado, quase inviolável. Uma subida em silêncio depois de uma reza que cada um fez para si, reafirmando o seu respeito e temor aos antepassados. Subimos tão alto quanto era possível e aí nos juntámos, numa cerimónia de invocação colectiva para pedir a protecção dos antepassados e depois rezámos em conjunto. No final do dia estávamos todos um pouco mais ricos. Todos um pouco mais próximos. No final do dia podíamos olhar-nos uns aos outros nos olhos e reconhecer-nos porque tínhamos estado juntos, porque nos tínhamos animado e ajudado pelo caminho. No final do dia não sabíamos dizer qual tinha sido mais longa, se a caminhada do corpo, se a caminhada interior.
É a diferença entre um "quero chegar primeiro" e um "quero caminhar contigo"...
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