segunda-feira, 22 de novembro de 2010

[instantes] uma galinha para a senhoras doutoras


A tia da Margarida, uma menina que nos ficou no coração e a quem fomos visitar depois da alta do hospital... Insistia para que levássemos a galinha gorda (viva, obviamente!) como agradecimento por tudo quanto tínhamos feito pela sobrinha... Mas como aceitar quando sabemos que as famílias passam fome tantas vezes e uma galinha é preciosa na economia doméstica?

Acabámos por aceitar mesmo assim, ou melhor, acabei eu, sob o olhar furibundo da R., porque vislumbrámos o seu olhar de desapontamento quando fizemos menção de recusar. Porque de repente sentimos o calor da terra nos nossos pés, a força do olhar a direito desta mulher com uma lágrima a querer despontar e percebemos que a nossa recusa seria uma humilhação para a família... Não há como o povo macua para nos fazer compreender que ninguém é tão pobre que não possa dar alguma coisa e ninguém é tão rico que não possa receber...

O problema foi depois levar no carro a galinha gorda e rebelde, com a mania que fazia solos operáticos e com uma sede insaciável de voar, de dar bicadas e distribuir penas pelo ar... e mais não digo, que já devem estar a calcular o estado em que ficou a minha blusa... mas pronto, ou era a minha blusa ou os estofos do carro!

(Gilé, Zambézia)

sábado, 20 de novembro de 2010

[instantes] hair styling no gilé


Imagens normalíssimas do dia-a-dia no mato... nunca seria o facto de ter colocado rolos no cabelo que iria impedir uma senhora respeitável, mãe de família, camponesa de mão cheia e mulher do dono de uma barraca no mercado, de sair à rua... Pois se até tinha sido na rua que os colocara... No fim do mundo tudo é admissível. Gestos que uma mulher cosmopolita nunca faria fora do recato do seu lar vêm tranquilamente saborear a frescura do fim da tarde e partilhar da luz do dia...
(Gilé, Zambézia)

[as melhores do serviço de urgência] improbabilidades

Aconteceu na semana passada. Exactamente assim, sem tirar nem pôr. À excepção de dois ou três pormenores, como é óbvio. E depois descobri que isto também já tinha acontecido ao próprio Dr. House...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

[vozes brancas* #31] yes we can!

Esta tarde, no final da consulta de um menino de 24 meses mandei-o fazer o exercício de arrumar os brinquedos nas caixas, prova que ele superou brilhantemente em menos de um minuto e terminou com um entusiástico "Sim, conseguimos!"

Pergunto aos pais, em tom de brincadeira:
- Então ele já anda a ouvir os discursos políticos do Obama?
- Não, esta é uma frase do Bob, o Construtor!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

[alhos e blogalhos] pode alguém falar com uma flor?

Meus queridos amigos, até hoje e por uma questão de coerência este blog sempre se manteve mato. Mato mesmo. Obstinadamente incontactável. Se lá no mato que eu amo não havia rede nem mail, aqui também não houvera de haver, dizia eu. Ou bem... minto. Obviamente minto. Com quantos dentes tenho. Claro que não foi por uma questão de coerência. Foi por comodismo. E também porque ia sempre dizendo de mim para mim que não havia necessidade. Ninguém haveria de querer falar comigo. E desta feita fui sempre ignorando alegremente as reclamações que foram chegando sob diversas formas e meios, vindas de quem se dá ao trabalho de vir aqui ao fim da blogosfera para conhecer, ver, sentir ou matar saudades de Moçambique...

Mas eis que esta madrugada recebo uma reclamação daquele senhor-que-afinal-não-residia-na-África-do-Sul e que me fez uma surpresa aqui há tempos... Não foi bem uma reclamação, vá, mas ainda assim mencionava o facto de eu não ter um endereço electrónico. E a este senhor, que me proporcionou um momento bloguístico absolutamente hilariante, eu não podia dizer que não, podia? Só não revelo a identidade (mas posso dizer que afinal era mesmo um homem) porque não tenho a certeza se ele o aprovaria.

Pronto, tudo para dizer que foi por isto que criei um endereço electrónico que está ali mesmo no fundo, junto ao mapa dos sítios por onde vai crescendo, pior que erva daninha, o beijo-de-mulata.

mulatadobeijo@gmail.com é agora o mail para onde podem escrever se vos fizer sentido falar com uma flor selvagem...

[estados de espírito] o sono e a sesta

A sesta devia ser uma Instituição! Assim mesmo com I grande, que as instituições maiúsculas devem ter letras grandes. E só não digo garrafais que porque não gosto da palavra. Pessoalmente acho que a sesta devia ser tornada tão instituição como a siesta no país de nuestros hermanos. E não me venham dizer que ninguém merece ser institucionalizado, que hoje não estou para trocadilhos à Groucho Marx...

Mas se me permitissem ainda uma extravagância, acho que a sesta em Portugal devia ser uma instituição assim mais à portuguesa, mais user friendly, passe o anglicismo e o pleonasmo (mas, de resto, também os anglicismos e os pleonasmos são portugueses como só eles...): num Portugal perfeito, a sesta seria uma instituição sem muitas regras e sobretudo sem horas para entrar... Mas não. Não vivemos num Portugal perfeito. Neste momento, por exemplo, podia estar a dormir a sesta e não tive sequer uma noite de sono como deve ser...

Pronto. Era só isto. Ide trabalhar que eu ainda vou ali tentar dormir um bocadinho.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

[instantes] hair styling no gilé


Ao fim da tarde, as mães descansavam do dia extenuante na machamba, trançando os cabelos das filhas, num gesto interminável de carinho, repetido um pouco por todas as ruas, por todos os pátios, por todas as casas...
(Gilé, Zambézia)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

[vozes brancas*] os meninos do adeus


Alegre, espontânea e divertida como o fenómeno do Saldanha em Lisboa era a imagem do adeus dos meninos por quem passávamos, que nos saudavam com um "Tataaaaá" e que invariavelmente faziam uma festa da nossa rara passagem à sua porta...
(Gurué, Zambézia)

* Voz branca - timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

[home is where your heart is] ...but what if home doesn't exist anymore?


Gilé, Zambézia

Há poucos dias as palavras desta grande senhora da Zambézia tocaram-me profundamente:
Muitos amigos meus perguntam-me por que nunca mais voltei a Quelimane, a Moçambique, depois de ter criado um blog para recordar a minha terra, homenageá-la e lembrar os anos mais felizes da minha vida… Parece-lhes que é um sofrimento que alimento por querer, com medo de encontrar fantasmas escondidos nas dobras do passado... É difícil explicar as razões, talvez até nem encontrasse as palavras adequadas… Seria um regresso solitário a um cenário onde já faltam tantos intervenientes! E se calhar, o cenário até já nem seria o mesmo…
Ao ler o prefácio do livro “ Postais Antigos e outras Memórias da Zambézia” achei que ele (...) encontrara as razões do coração: "(...) Envolto pelos sons mágicos da noite africana, no solitário quarto do Hotel Chuabo, fui acometido da estranha sensação de que eu já ali não pertencia. Que eu era um actor deslocado, num cenário familiar, onde a peça em cena me era estranha. Mas pouco a pouco, compreendi que ninguém poderia acrescentar ou diminuir personalidade àquela cidade, onde o asiático, o europeu e o genuinamente africano se fundem num singular equilíbrio. (...)"
O meu primeiro impulso foi responder-lhe de imediato que não havia que temer. Eu já conheci a Zambézia depois da Independência, depois da guerra civil, depois da desminagem, depois de a paz ter vindo para ficar... Muito depois dos tempos áureos. E ainda assim a verdade é que, em qualquer circunstância, África fica, África chama. África inflama! É lugar-comum nestas ocasiões falar-se romanticamente em feitiço ou em qualquer outra coisa, de racional ou irracional, equivalente a feitiço. E eu, que sou uma rapariga remediada, sem quaisquer aspirações ao Nobel ou ao Prémio-Camões-pela-obra-de-uma-vida, não tenho a menor pretensão de fugir a lugares-comuns. Aliás, acredito piamente que foi o que aconteceu comigo...

A paixão é algo de mágico, fatal e inevitável. E, Graça, aquilo que a apaixonou há trinta anos atrás, as pessoas, a cultura, a língua, a paisagem, o cheiro largo a espaço aberto, o Índico, o pôr-do-sol, os embondeiros, as danças, a liberdade... tudo permanece igual, tenho a certeza. Não acredite naquela frase batida de "nunca voltes a um lugar onde já foste feliz!" Eu, pelo menos, acredito que é possível.

Mas aí comecei a pensar... e tive um arrepio. Do mesmo modo, se daqui a vinte anos o meu Gilé fosse uma cidade desenvolvida, se daqui a vinte anos o meu Gilé tivesse, desgraçadamente, crescido sem mim e já lá não vivesse ninguém que eu tivesse conhecido, se nada restasse das casas onde fui feliz, se já não pudesse voltar a trabalhar no hospital com as crianças que sempre me deixam rendida, eu talvez tivesse medo de não encontrar o meu espaço quando fosse de novo visitá-lo. E provavelmente também teria medo de não reencontrar felicidade no regresso... Oh, please, don't let me grow without Africa!

Mas há histórias de reencontro... Lindíssimas. Não sei é se as vou conseguir contar em segunda mão...

domingo, 14 de novembro de 2010

[voluntariado em moçambique] o mukulukhana

Bicicleta, a minha fortuna....
(Gurué, Zambézia)


(continuação deste post)

O nosso amigo ficou como voluntário na Missão de Murrupula durante dois anos e, nesse tempo, emagreceu, apanhou malárias atrás de malárias, maleitas atrás de maleitas, apanhou até matacanha (tungíase, para os médicos e curiosos da Medicina em geral) porque se recusava a andar de sapatos fechados quando o povo andava tantas vezes descalço, deixou crescer a barba, aprendeu a falar macua, quase que se tornou africano. Aprendeu a fazer de tudo um pouco. Fez de tudo um pouco. Dedicou-se a todos os que lhe pediram ajuda. E dedicou-se, sobretudo, ao tratamento da lepra no distrito. E sim, há lepra em Nampula! E há ainda muita lepra em Moçambique, embora o governo não o admita...

O método base de trabalho era o mesmo que o nosso: formou activistas locais em todo o distrito para falarem sobre a lepra às pessoas. Os activistas faziam palestras nas igrejas, nos mercados, nas mesquitas, nas reuniões dos régulos das aldeias. Eram 35 os voluntários escolhidos a dedo, todos pessoas respeitadas nas aldeias, que se comprometeram com a missão de fazer passar publicamente duas mensagens simples e básicas sobre a doença: que a lepra tem cura e que se for tratada a tempo não traz complicações. Alguns eram também socorristas nas aldeias, outros filhos ou familiares de leprosos, que tinham visto a família sofrer com a discriminação e o estigma da doença. Como contrapartida... oferecia-lhes uma bicicleta. E, meus amigos, não sorriam. Quem já lá esteve sabe que, no mato em Moçambique, quem tem uma bicicleta é um homem rico. Quem tem uma bicicleta pode transportar fardos pesados, deslocar-se para ir comprar os bens de primeira necessidade que não existem nas aldeias, levar a família ao hospital numa emergência, ir vender os produtos do cultivo das terras ao mercado... Uma bicicleta é um bem precioso!

Os activistas locais tinham também a missão de marcar uma data e um local onde as pessoas que tivessem sinais de lepra pudessem comparecer para serem observadas por ele e pelo enfermeiro Rajá, responsável pelo Programa de Combate à Lepra. Eram estas "concentrações" de doentes de lepra que ocupavam a maior parte dos dias do nosso amigo e que o faziam desdobrar-se com uma imaginação surpreendente.

Para anunciar as concentrações teve a ideia de ajudar a promover o projecto de rádio local que se estava a iniciar e pagava para que, três vezes por dia, as datas e locais fossem publicitados, juntamente com as frases-chave da mensagem dos voluntários.

E foi assim que o nosso amigo se tornou no primeiro mecenas da Murrupula FM. Só que os locutores achavam que as frases eram assim... eeer... como poderiam dizê-lo sem ofender o "patrão"? Sensaboronas... Não tinham sal. Não tinham música. Não ficavam no ouvido por mais que as tentassem dizer de forma enfática... Aliás, os macuas são conhecidos, entre outras coisas, pela sua sensibilidade musical e pelos seus dotes vocais. E aquelas palavras feriam-nos. Mas abraçaram o projecto, agarraram a mensagem e, ao terceiro dia, os locutores já tinham, espontaneamente, alterado a estrutura das frases, dando-lhes uma cor mais africana, tinham pegado na música das palavras e cantavam-nas alegremente. Na segunda semana já tinham inventado uma segunda voz, que acrescentava à música uma profundidade e uma intensidade diferentes. E daí até introduzirem o som dos batuques e o alarido das mulheres foi um pulinho, que acabou por dar à música um ar festivo, anunciando as concentrações como autênticos eventos populares! O resultado foi um autêntico hit que andava na boca de toda a gente. A lepra passou a ser assunto de conversa e palavra repetida e cantada, quando antes era apenas motivo de nojo, tabu e ostracismo!

(continua)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

[vozes brancas* #30] piquenique

Durante as férias de verão, uma amiga minha levou a família para um passeio pelas aldeias históricas da Beira Alta. Uma viagem encantadora, cheia de peripécias, montanhas e morros e castelos para os filhos treparem, sonharem com assaltos violentos, defesas heróicas, reis e vilões, polícias e ladrões, que aos quatro anos, tudo se resume a bons e maus e os bons são polícias e os maus são ladrões e não se fala mais nisso, que a vida é simples e estamos de férias...

Uma tarde, depois de subirem ao castelo de Sortelha, a mãe disse ao mais novo, de quatro anos:
- Vamos ali primeiro visitar a igreja e depois vamos fazer um piquenique assim que encontrarmos um sítio bom.
- Está bem, mãe.

Estavam a visitar a igreja, quando vê o filho aproximar-se com muito interesse do altar, inspeccionando o local em redor e colocando-se em bicos de pés para ver que mais, para além do Santíssimo, estaria sobre a mesa...
- O que é que estás a ver, filho?
- Mãe, aqui é que era um sítio bom para fazermos o piquenique. Esta mesa é grande e tem toalha e tudo!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

[improbabilidades] nomes que dizem tudo

Uma manhã no Gilé, durante a consulta de urgência no hospital, a R. ouviu o técnico sentado ao seu lado suster o riso a custo antes de chamar um menino...
- "Ainda Cardoso" - chamou com um sorriso.
- Presente! - responderam os pais.
- Quem foi que deu o nome ao menino?
- Fui eu... - respondeu o pai - Ele demorava para nascer. Toda a gente perguntava: "Já nasceu?" e nós respondia: "Ainda..."

[tive gémeos] ...e sobrevivemos todos!

As gémeas Felismina e Felisbela, ambas com malária, mas a mamar como se não fosse nada com elas e como se não houvesse amanhã... Aliás, de qualquer modo, em África amanhã não existe!
(Gilé, Zambézia)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

[está melhor, tia p.?] ainda...





Poema da Despedida


Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos.

Mia Couto

(Já voltei há um mês e ainda me dói o peito... Só me apetece chorar... Tenho saudades...)

domingo, 7 de novembro de 2010

[voluntariado em moçambique] o mukulukhana


A missão de Murrupula.
(Nampula, Moçambique)

Em 2006, na mesma altura em que eu estava em Nampula com a minha amiga A., havia um outro voluntário da mesma ONG que estava a trabalhar numa missão próxima da nossa, em Murrupula. Bem, próxima é uma maneira de dizer… era mais ou menos a 100 km de distância, ou seja, como estávamos na estação das chuvas, ficava a umas duas horas de viagem, parcialmente em picada, à velocidade suicida de 30 km/h. Mas valia bem a pena a viagem para o ir visitar porque esse nosso amigo era uma pessoa tão desconcertante quanto fantástica! Antes de partir para Moçambique em voluntariado tinha sido servente de pedreiro, jardineiro, carpinteiro e actor, emprestando dignidade a todas estas profissões.

Era um jovem simples e com um coração enorme, onde tentava a todo o custo que coubessem os pobres e os doentes por quem passava… um homem absolutamente desapossado, despojado, desamarrado… De tal maneira despojado que um dia viu quase barrada a sua entrada nos Estados Unidos quando resolveu ir visitar Nova Iorque de calções, chinelos, t-shirt e sem bagagem de porão, apenas com duas mudas de roupa interior na mochila e um creme de barbear meio vazio – para não ter mais de 50 mL e poder passar no controlo de raios-x. Não levava lâmina de barbear porque era proibido levar lâminas de barbear na bagagem de cabine. E também porque não tencionava fazer a barba. Aliás, o próprio creme de barbear tinha viajado para os Estados Unidos por engano, erroneamente tomado por gel de duche na madrugada remelosa da véspera...

Não sei o que é que os senhores dos serviços de imigração “teerão” pensado… Que estariam perante um homem que se preparava para praticar terrorismo em Nova Iorque? Mendicismo? Banditismo? Nudismo? E no meio da inusitada escassez de conteúdo de uma mochila, até um inocente e renegado creme de barbear meio vazio pode adquirir contornos suspeitos. Tanto mais que o nosso amigo na altura usava uma barba de eremita. “Planeia fazer a barba em Nova Iorque?”, perguntaram-lhe. Ao que ele respondeu que por acaso não, não planeava. Só se fosse necessário, acrescentou a medo, não fosse existir uma cláusula nas leis da imigração que impedisse os estrangeiros de entrar nos Estados Unidos com a barba comprida. Como os senhores lhe franzissem o sobrolho, explicou que se enganara e levara o creme de barbear em vez do gel de duche…

Esteve a um passo de não poder entrar no país. Salvou-o o facto de ter um cartão de crédito válido, um historial limpo nas visitas anteriores ao país, uma estadia já paga num hotel… e, acredito piamente, aquele olhar a direito, transparente e franco que o caracteriza... Bem, acho que já devem estar a visualizar a personalidade do nosso amigo.

(continua, prometo!)

[a céu aberto] uma balança da unicef

A mesma vendedora de tomate pesando a sua mercadoria numa balança da Unicef (!)
(Maputo, Moçambique)

sábado, 6 de novembro de 2010

[instantes] a força que um sorriso pode ter!

A vendedora de tomate num mercado em Maputo.

[como chocar uma mãe às 4 da madrugada] urgências

Comentar que a que a sua princesa bebé tem um "sinalzinho todo sexy" na barriguinha e depois responder à pergunta "Mas é um sinal normal, não é?" explicando que "o sinalzinho todo sexy na barriguinha da princesa" se trata afinal de um mamilo acessório que não regrediu durante o desenvolvimento embrionário... Há horas em que o meu pequeno neurónio desliga o filtro de spam... 

[instantes] as danças do fim do mundo

As nossas meninas a ensaiar debaixo da mangueira para o teatro que apresentariam nessa noite. Um mês depois ainda me doem no peito as saudades...
(Gilé, Zambézia)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

[consultório beijo-de-mulata] alterações climáticas

Desabafo de uma amiga minha que se dá mal com as mudanças de temperatura:
Esta indecisão entre o aquecimento global e a chegada de uma nova era glaciar está a deixar o meu sistema imunitário louco...
Resposta beijo-de-mulata: Minha querida amiga, é fantástico pensar à escala global! Admiro profundamente as pessoas que conseguem colocar o seu dia-a-dia numa perspectiva planetária. Já eu, que sou loira de neurónio único, só consigo pensar numa dimensão humana... e dizer que se calhar tens uma rinite... Mas isso tem a modesta vantagem de, em vez de te aconselhar o Protocolo de Quioto, quase impossível de cumprir e que, na melhor das hipóteses, só terá efeitos daqui a cem anos, te prescrever antes um anti-histamínico e, em calhando, amanhã estás boa...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

[momentos] à beira do rio molócuè

Uma mamã com o filho nas costas tenta recuperar o seu precioso bidão de água que se lhe escapou no rio... Apesar de já existirem fontanários de água potável no Gilé, essa água é cara e as pessoas não se conseguem dar ao luxo de a utilizar para outros fins que não para beber. A água para cozinhar (que vai ser fervida), para lavar a roupa e tomar banho vem toda do rio... um rio onde eu não entraria sequer para molhar os pés porque, para além do perigo dos crocodilos, está infestado de doenças...
(Gilé, Zambézia)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

[instantes] a força que um sorriso pode ter!

Mamã Teresa no dia da celebração dos Acordos de Lusaka.
(Gilé, Zambézia)

[vozes brancas* #29] no melhor pano cai a nódoa...

Na consulta com uma princesa de dois anos e oito meses, ex-prematura, com um desenvolvimento fantástico:

 Mãe - Matilde, diga lá à Doutora, qual é a música que a menina mais gosta de ouvir?
Matilde - É o Chopin.
Eu - Ai que linda, meu amor! E o que é que ele toca?
Matilde - Toca piano!
Eu - Ah, muito bem... E que mais é que a menina gosta de ouvir?
Matilde - A Ca'ochinha e o Noddy!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

[e porque a vida é simples] e os aniversários nunca nos pegam de surpresa

Hoje o mentor espiritual desta blogger loira faz anos (não, não é o dos soluços, que esse é o mentor espiritual da mulata e raramente vem aqui ao mato). Há anos que não o vejo, mas hoje é dia de lhe agradecer por ter entrado na minha vida com uma frase hilariante sobre a Guerra Civil de Espanha na Rua do Alecrim. De lhe agradecer por me ter proporcionado os momentos mais divertidos da minha adolescência, por me ter feito perceber que o mundo afinal não terminava a doze centímetros da segunda circular e por me ter ensinado que o humor é a melhor defesa da personalidade. Ah... e por existir. Gosto mesmo de ti. E tenho saudades, caramba!

E por vezes as noites duram meses

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 2 de novembro de 2010

[alhos e blogalhos] consultório beijo-de-mulata

Os apaixonados por África e os que até acham piada às peripécias das crianças da minha consulta que me perdoem esta incursão em terrenos tão estranhos à temática principal deste blog, mas a verdade é que se me parte o coração de ver chegar aqui ao mato tanta gente angustiada com uma questão que, pelo menos para elas, é pertinente e sair daqui cabisbaixa, sem um sim, sem um sopas, sem uma pista de qualquer tipo... O que se passa é muito simples, meus amigos... o que se passa é que desde o dia em que resolvi postar esta história, que vem gente diariamente de todas as partes do mundo com a seguinte angústia, com mais ou menos variações:
- Vou sair com um cara, acho que ele vai me beijar. Uso prótese dentária.
Enfim, custa-me, pronto... Eu sei que nunca me propus fazer serviço público neste blog, eu sei que quem vem aqui vem à sua própria responsabilidade e que nunca prometi nada a ninguém, mas mesmo assim custa-me, o que é que querem? Até porque eu sei a resposta. E a resposta é óbvia: Ninguém beija com os dentes, pessoal! Sosseguem. Peguem na placa, fixem-na com um produto para fixar placas às gengivas e deixem-se levar. Tranquilamente. Não se passa nada. Não sofram. Vai tudo correr bem. Mas, sobretudo, estejam preparadas para tudo. Com descontracção e bom-humor a peripécia mais embaraçosa se pode tornar numa piada privada e ajudar a criar laços. E, quem sabe, talvez até descubram primeiro que "o cara que acham que as vai beijar" também usa, ele próprio, prótese dentária...

Pronto. Era só isto. A emissão seguirá dentro de momentos.