terça-feira, 28 de setembro de 2010
[lamúria em dó de mim] estou com a cabeça em áfrica
domingo, 26 de setembro de 2010
[áfrica, meu amor impossível]
(Gilé, Zambézia)
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
Mia Couto in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
quinta-feira, 29 de julho de 2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
[we're off to see the wizard] the wonderful wizard of moz
Vá, animem-se, fechem os olhos e deixem-se vir cá ter... Não se preocupem que ninguém vos vê, mas tenham cuidado que agora vamos entrar na savana e os espíritos e os animais podem pressentir a vossa presença... A partir de agora as regras são diferentes. Os macuas têm um provérbio que nos ensina que "quando se chega ao oceano, as leis do rio deixam de servir" e esta é uma lição de vida deliciosamente verdadeira.
A partir de agora pisem só onde eu pisar, não se afastem do caminho. Não há minas anti-pessoais, garanto-vos, o país tem uma sólida paz de vários anos e está todo desminado, mas podemos encontrar cobras e não quero que vos aconteça nada. Não passem por baixo dos cajueiros, sobretudo se não ouvirem passarinhos cantar. Se passarmos perto de um embondeiro procurem um monte de farinha e se lá estiver algum, por favor, não o pisem porque foi oferecido aos antepassados numa cerimónia muito intensa e difícil. É preciso ter muito respeito pelos pedidos de protecção e saúde que ali foram feitos. E nós só estamos aqui porque os antepassados no-lo permitiram. Ah, não sorriam. Não acreditam? Pois digo-vos que não se consegue trabalhar aqui se não respeitarmos e conhecermos as crenças das pessoas com quem vamos conviver. De outro modo não vimos cá fazer nada, só nos vamos deprimir porque nesse caso falar com as pessoas será como falar com uma parede.
Mais adiante vamos passar por um curso de água. Temos de o atravessar com muito cuidado pelas pedras que estão à sombra porque os crocodilos são animais de sangue frio (poiquilotérmicos, eu sei, deixem-se lá de mariquices que já não temos muito tempo) e preferem o calor, mas mesmo assim todo o cuidado é pouco. E nem pensem em entrar na água. Nem molhar os pés sequer. Aqui a schistosomíase abunda e depois não tenho como vos tratar a todos. E insisto, a não ser que oiçam os passarinhos cantar não passem por baixo dos cajueiros porque lá em cima estão de certeza várias cobras. Mas as precauções são simples se as mecanizarmos desde o primeiro dia. O prazer de andar pelo mato supera tudo isto, podem ter a certeza.
Mas venham comigo, não deixem de vir... Não é tudo fácil, vocês sabem. Só há rede de telemóvel de vez em quando, a internet anda incrivelmente instável em todo o país desde que danificaram os cabos submarinos de fibra óptica ao largo de Gaza e a electricidade depende quase toda da barragem de Cahora Bassa, o que quer dizer que tem oscilações que ameaçam diariamente pegar fogo a qualquer aparelho incauto que esteja ligado à corrente. Ah, e podemos passar dias inteiros sem electricidade, portanto temos de ter gerador próprio na mesma, porque se não corremos o risco de ficar sem luz no bloco operatório ou estragar todo o stock do banco de sangue, que tanto nos custou a angariar (não se esqueçam de que estamos num país onde todos se alimentam mal e a anemia é a regra geral, portanto dar sangue é um esforço quase sobre-humano e temos de ter muita estima por aquele ouro vermelho que todos os dias salva vidas). E obviamente não estão à espera de ter água canalizada todos os dias, pois não? Mas lá em casa temos um bom filtro, portanto a água é perfeitamente potável. E tomar banho com um balde e um copo é simples, não se façam de esquisitos! Muita sorte temos nós por não termos de ir ao rio tomar banho.
Vá, venham comigo! O país está à nossa espera, as pessoas precisam da nossa ajuda e há tanto que fazer…
segunda-feira, 26 de julho de 2010
[not in their backyard!] os fumos da mozal
Já aqui vos falei, a rebentar de indignação, sobre o crime ambiental e sanitário que permanece impune às portas de Maputo... e continuo perplexa com o escândalo que é o governo ter aceite, sem qualquer pudor, a decisão assassina dos dirigentes da Mozal (fundição de alumínio) de libertar directamente para a atmosfera os fumos resultantes do processo de fundição durante meses, período em que vão proceder à substituição dos filtros.
Em qualquer país da Europa isto nunca seria permitido e, mesmo que acontecesse sem autorização do governo, quando o assunto viesse a público as acções da empresa cairiam automaticamente na Bolsa, haveria, no mínimo, manifestações das populações circunvizinhas transmitidas em horário nobre e uma campanha da sociedade civil para o boicote ao consumo dos produtos dessa fábrica. Mas por lá, pelos fracos ecos que me chegam, nem sei sequer se a população faz ideia do que está a acontecer mesmo no seu quintal... Felizmente o Professor é um homem atento e tem denunciado a situação, com muito mais alcance e propriedade, mas será que vai ser suficiente?
Em qualquer país da Europa isto nunca seria permitido e, mesmo que acontecesse sem autorização do governo, quando o assunto viesse a público as acções da empresa cairiam automaticamente na Bolsa, haveria, no mínimo, manifestações das populações circunvizinhas transmitidas em horário nobre e uma campanha da sociedade civil para o boicote ao consumo dos produtos dessa fábrica. Mas por lá, pelos fracos ecos que me chegam, nem sei sequer se a população faz ideia do que está a acontecer mesmo no seu quintal... Felizmente o Professor é um homem atento e tem denunciado a situação, com muito mais alcance e propriedade, mas será que vai ser suficiente?
domingo, 25 de julho de 2010
[nocturno africano] que as fotos nunca poderão captar
Ao longe adivinha-se a silhueta do monte Iapala, um colosso em ogiva que encobre uma parte do firmamento e que se ilumina aqui e ali, em labaredas que parecem ter vida própria, queimadas que se vão extinguindo por si, sem que ninguém as apague, apenas para se reacenderem noutro local na noite seguinte, e fogueiras com famílias inteiras reunidas em seu redor.
[momentos nicola] or should i say arcadian moments?
Um dia subo à torre mais alta de uma igreja de Oxford para declamar da varanda The Waste Land de T.S. Eliot. Com um megafone.
(Ah, também já aconteceu? Bem, mas se calhar tinha piada repetir... Et in arcadia ego.)
(Ah, também já aconteceu? Bem, mas se calhar tinha piada repetir... Et in arcadia ego.)
sábado, 24 de julho de 2010
[inspiração para um bem-haja] a propósito de falsas loiras
Fascínio tenho eu por falsas loiras (ai a negra lingerie)
As sardas, sobrancelha feita a lápis e perfume da Coty
Na boca dois pivôs tão graciosos entre jóias naturais
Os olhos dois minúsculos aquários de peixinhos tropicais
Eu conheço uma assim
Uma dessas mulheres que um homem não esquece
Ex-atriz de TV, hoje é escriturária do INPS
E que dias atrás, venceu lá um concurso de Miss Suéter
Na noite da vitória, emocionada, entre lágrimas falou:
"Nem sempre a minha vida foi tão bela mas o que passou, passou
Dedico este título à mamãe que tantos sacrifícios fez
Pra que eu chegasse aqui ao apogeu com o auxílio de vocês"
Guardarei para sempre seu retrato de Miss com ceptro e coroa
Com a dedicatória que ela em letra miúda insistiu em fazer
"Pra que os olhos relembrem quando o teu coração infiel esquecer.
Um beijo, Margot"
João Bosco
[sabes que és demasiado loira] quando...
... olhas pelo retrovisor do carro, este devolve a tua própria imagem e pensas: "Ai, canário, que estou despenteada." e só um minuto depois percebes que algo mais está mal para além do teu cabelo...
[inspiração para uma despedida] wilde thoughts
We are in the gutter... and most of us are short-sighted!Variações de Oscar Wilde in Lady Windermere's Fan
sexta-feira, 23 de julho de 2010
[welcome to mozambique] instantes
Fim de tarde em Murrupula, Nampula (Moçambique).
(Fotografia do meu amigo R. Leonardo, também ele apaixonado pelos penteados africanos e pela imagem enternecedora das mães a pentear as filhas à porta de casa ao fim do dia...)
quinta-feira, 22 de julho de 2010
[as melhores do serviço de urgência] a minha vida dava um filme cigano
Serviço de Urgência, mãe com bebé ranhosíssimo, a transbordar de secreções arejadas por todos os orifícios respiratórios. E uma pediatra condoída com o resfolegar aflito, quase equídeo, de uma criança tão pequena.
- Bem, então vai dar-lhe uma colher de café deste xarope, duas vezes por dia nos próximos cinco dias.
- Ah... uma colher de café?
- Sim, duas vezes por dia. Mas não lhe pode dar mais do que cinco dias...
- Não mais do que cinco dias, está bem.
- Vai tudo escrito na receita. Alguém sabe ler bem lá em casa?
- O meu marido sabe. Obrigada.
A senhora faz menção de voltar costas, mas de repente, com um ar de quem se lembra de qualquer coisa, volta para trás:
- Doutora, disse uma colher de café...
- Exactamente, uma colher pequenina.
- Pode ser Nescafé?
- Bem, então vai dar-lhe uma colher de café deste xarope, duas vezes por dia nos próximos cinco dias.
- Ah... uma colher de café?
- Sim, duas vezes por dia. Mas não lhe pode dar mais do que cinco dias...
- Não mais do que cinco dias, está bem.
- Vai tudo escrito na receita. Alguém sabe ler bem lá em casa?
- O meu marido sabe. Obrigada.
A senhora faz menção de voltar costas, mas de repente, com um ar de quem se lembra de qualquer coisa, volta para trás:
- Doutora, disse uma colher de café...
- Exactamente, uma colher pequenina.
- Pode ser Nescafé?
[et in iapala ego] um mato de histórias
(Continuando este mato de histórias...)
A conversa do almoço correu célere sobre a refeição deliciosa preparada pelo cozinheiro, que para cozinhar com coco fresco tinha subido ao coqueiro vizinho do meu quarto (o mesmo que interpretava para mim todas as manhãs os sons da chuva). Falaram-nos também sobre as suas preocupações com as eleições já próximas e os confrontos ocorridos recentemente em Inhaminga entre militantes da Renamo e da Frelimo. Felizmente ao que sabiam sem grandes consequências, embora neste país seja muito difícil obter informações fidedignas, não distorcidas pela máquina de propaganda do governo, de forma que a informação passa muitas vezes de boca em boca, também ela provavelmente muito alterada... Aliás estes governantes também fazem parte da minha lista e, se me perdoam os instintos assassinos, tenho a certeza de que serão os primeiros a ir pela janela quando vier a revolução!
Há tanta coisa neste país que me encanta e tanta coisa que me horroriza, tanta coisa para mudar e tanta perigosamente ameaçada...
O cozinheiro entra no fim do almoço e explica que tentou fazer café com o café de Iapala, mas “desconseguiu de pilar o café a tempo", por isso terá de fazer Nescafé®. Está bem, não há problema, respondemos.
(Desconseguiu... lindo!... É mais um neologismo bem à africana. Isto de falar Português é difícil e a responsabilidade de falar uma língua conservadora, com palavras altivas e centenárias, é entregue a um povo quase todo ele analfabeto. "O povo que se desenrasque!", dizem os governantes. E o povo desenrasca-se, ou vai-se desenrascando... À boa maneira moçambicana, com neologismos deliciosos em catadupa que, pé ante pé, já vão conquistando lugar nas novas edições dos dicionários... E poderia abrir agora um longo parêntesis sobre a língua e a cultura macuas e desafiar o leitor a reflectir sobre que sentido tem a língua portuguesa ser a língua oficial e obrigatória em todas as circunstâncias, desde os curricula escolares até às consultas em centros de saúde rurais, de forma que, por exemplo, quando entram para a escola, as crianças têm de aprender a ler e a escrever numa língua que para elas é estrangeira… mas enfim, isto é apenas um blog. E um blog com modestas pretensões...)
Os padres riram a bandeiras despregadas das últimas histórias da missão e, bem dispostos, despediram-se pouco depois, agradecendo o almoço, pois a tarde já ia adiantada e ainda tinham muita estrada em mau estado pela frente.
Quanto a mim, estou feliz porque consegui sobreviver a esta manhã: ao anti-histamínico, à ausência de mefloquina, à falta de energia, à água fria, a não ter telemóvel, nem rede, nem os doentes nas respectivas camas, à Amélia, meu inseticida natural, à fila interminável no serviço de urgência, ao choque de ainda existir lepra nesta terra, à burka, ao horror da SIDA e de outras doenças que não tenho maneira de tratar, à notícia dos confrontos armados e a tudo o mais. Mas sei que não vou resistir por muito mais tempo a este sono, que pouco a pouco transformou as minhas pálpebras mal dormidas em dois menires. Felizmente chegou a hora da sesta e, aqui na Missão de Iapala, a sesta é felizmente uma Instituição. Não tão assumida, escrita, descrita e programada como a Siesta de nuestros hermanos, mas religiosamente cumprida com jurisprudência, como a Constituição Britânica. E não serei eu a traidora da pátria, violando os seus bons e saudáveis costumes. Até porque todos sabemos o que é que acontece aos traidores da pátria, como o Miguel de Vasconcelos. E para quem não sabe quem foi Miguel de Vasconcelos eu explico: foi um traidor da pátria em tempos idos, quando Portugal estava anexado a nuestros hermanos e que ficou conhecido por ter sido o primeiro a ir pela janela quando veio a revolução! E lá regresso ao meu quarto, abençoando a minha cama coberta de capulanas verdes. Duas horinhas bem dormidas e fico fina para regressar ao serviço de urgência...
quarta-feira, 21 de julho de 2010
[i once had a son in africa] i'm going back to where i've been happy
Foi em Maio que escrevi este post:
Estou prestes a explodir... Não sei se aguento muito mais as saudades do país onde os embondeiros nascem com as raízes para cima, cumprindo um castigo milenar de Muluku - o deus dos antepassados - onde o sol rompe de manhã vindo das águas mornas do Índico e se põe ao fim da tarde sobre a savana... a terra onde posso chorar mais perto do céu a perda do meu filho adoptivo. É que eu quando choro, choro sempre com o corpo todo e quando tomo uma decisão vou junta com ela. Se um dia destes me for embora já sabem para onde fui...Agora, dois meses depois, posso anunciar que vou mesmo, em breve, matar saudades desse país que não é o meu, mas que quero à viva força que não cresça sem mim! Se alguém alguma vez pensar que se pode viver em Moçambique uma experiência do tipo Seen it, done it, got the t-shirt, desengane-se. Não se volta ileso.
Eu sei que nunca vos contei a história desta paixão, mas a verdade é que duvido que consiga... Para isso acho mesmo que era preciso fazer como o G. García Marquez: vivir para contarla. E não foi para contar histórias que um dia decidi que afinal, por enquanto, não iria ter com o meu menino. Ele tinha os pais verdadeiros para cuidarem dele no céu. Por isso o que vou fazer para Moçambique é trabalhar num hospital no meio do mato e cuidar das crianças que me aparecerem. Mas se me forem sobrando histórias no meio disto tudo, prometo que as partilharei com quem as quiser ouvir...
terça-feira, 20 de julho de 2010
[estado em que se encontra este blog] gelo e elevação do membro
Em todo o caso, tenho uma coisa a declarar: as escadas são erros arquitectónicos! E não acender a luz é um direito que assiste a todo o cidadão com consciência ecológica. Tenho dito.
Ah, só uma coisa mais: Ooouch!
(Um doce a quem adivinhar qual das três da imagem sou eu...)
[vozes brancas* #21] e gostos educados
Na urgência de há duas semanas vi um menino que não teria mais de dois anos e meio e que não se queria deixar auscultar...
(E poderia abrir aqui um longo parêntesis sobre como é exasperante estar preocupada com uma criança e precisar de ouvir bem a auscultação e ela não parar de chorar. Daí que todos os Pediatras tenham a sua técnica para as tentar calar e, claro, a que resulta melhor é sempre a de cantar canções infantis. O problema é que a música que, na minha experiência, tem maior probabilidade de fazer calar uma criança é precisamente a música que eu há anos que já não posso ouvir, embora, num Serviço de Urgência de afluência média, em 24 horas geralmente a tenha de cantar umas cinco ou seis vezes, depois de me render ao facto de que não as consigo calar com mais nenhuma...)
Ora esse menino não foi excepção. Mal me aproximei começou a chorar e lá comecei o meu périplo de canções infantis, numa gradação crescente, da menos irritante para a mais irritante... Mas, quando estava a meio caminho da fase em que costumo pensar: "Lá terá de ser, pronto, para grandes males, grandes remédios...", ele fez um olhar de súplica para a mãe e disse:
- Mãe, os Quinini...
- O que é que ele lhe pediu?, perguntei à mãe.
- Ah, Doutora, é que as músicas preferidas dele são as dos Queen. Até é o DVD que ele mais gosta de ver e que está sempre a pedir!
(Ah, ditosa pátria que tais filhos tens! E ainda dizem que os gostos das crianças não se educam... vai longe este menino que não se calou com o Ruca, mas que se calou e sorriu com o It's a Hard Life!)
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
(E poderia abrir aqui um longo parêntesis sobre como é exasperante estar preocupada com uma criança e precisar de ouvir bem a auscultação e ela não parar de chorar. Daí que todos os Pediatras tenham a sua técnica para as tentar calar e, claro, a que resulta melhor é sempre a de cantar canções infantis. O problema é que a música que, na minha experiência, tem maior probabilidade de fazer calar uma criança é precisamente a música que eu há anos que já não posso ouvir, embora, num Serviço de Urgência de afluência média, em 24 horas geralmente a tenha de cantar umas cinco ou seis vezes, depois de me render ao facto de que não as consigo calar com mais nenhuma...)
Ora esse menino não foi excepção. Mal me aproximei começou a chorar e lá comecei o meu périplo de canções infantis, numa gradação crescente, da menos irritante para a mais irritante... Mas, quando estava a meio caminho da fase em que costumo pensar: "Lá terá de ser, pronto, para grandes males, grandes remédios...", ele fez um olhar de súplica para a mãe e disse:
- Mãe, os Quinini...
- O que é que ele lhe pediu?, perguntei à mãe.
- Ah, Doutora, é que as músicas preferidas dele são as dos Queen. Até é o DVD que ele mais gosta de ver e que está sempre a pedir!
(Ah, ditosa pátria que tais filhos tens! E ainda dizem que os gostos das crianças não se educam... vai longe este menino que não se calou com o Ruca, mas que se calou e sorriu com o It's a Hard Life!)
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
[vozes brancas* #20] e raciocínios irrepreensíveis
O filho de uma amiga minha, agora com dois anos e meio, ontem à noite, jantava hamburger de frango com milho, quando o pai se lembrou de lhe explicar a verdade dos factos sobre os pequenos galináceos:
- Sabes que o frango também gosta muito de comer milho.
Nisto, o menino faz um ar desconfiado, olha para o hamburger, olha para o pai, olha novamente para o hamburger e pergunta ao pai, em tom de desafio:
- E onde está a boca?
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
- Sabes que o frango também gosta muito de comer milho.
Nisto, o menino faz um ar desconfiado, olha para o hamburger, olha para o pai, olha novamente para o hamburger e pergunta ao pai, em tom de desafio:
- E onde está a boca?
* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
[amar as palavras] de peito aberto
A vantagem de um estranho é que lhe confiamos essa mentira de termos uma só alma.
Mia Couto in O Último Voo do Flamingo
[a mulher leprosa] tirar a burka ao fim da noite
Nessa noite pedi à Irmã Lurdes para me levar a visitar a mulher leprosa... Não me saía da cabeça a forma como se cobria com aquela burka, como se a vida tivesse terminado e não houvesse lugar para si no mundo... Depois de jantar pegámos na lanterna e fomos até casa dela, num dos bairros em torno da missão. A Irmã Lurdes levava-lhe uma manta, porque as noites tinham arrefecido e duas barras de sabão - autênticas preciosidades na savana, que a iriam deixar certamente muito feliz. Eu, num rasgo de intuição, tinha resolvido oferecer-lhe os meus brincos e levar-lhe um espelho, para ver se um presente e um pouco de vaidade feminina lhe poderiam consertar a auto-estima dilacerada pela doença...
No bairro, as vizinhas que ainda estavam na rua a conversar à porta de casa, alumiadas por uma fogueira que servira para cozinhar a ceia viram-nos passar e riram maldosamente de inveja, comentando em voz alta em Macua qualquer coisa que percebi ser a respeito de mucunhas* a visitar justamente a casa da leprosa.
Batemos à porta da palhota, mas ninguém respondeu. Já estaria a dormir? Entrámos e apenas vimos duas crianças a dormir**, deitadas sobre uma esteira meio desfeita, num compartimento único e desolado, em que o conteúdo se resumia a uma peneira, um cesto com roupa, duas panelas de barro e uma pequena lamparina. Demos a volta à casa para procurar a nossa doente e foi então que nos deparámos com uma imagem enternecedora: à pálida luz da lua, a senhora retirara o pano com que ocultava o rosto e, escondida de tudo e de todos, olhava a própria face reflectida num pedaço de espelho e enfeitava-se com flores... Suspirei de alívio. Havia esperança para ela!
* brancas
** uma delas é actualmente minha afilhada à distância. Chama-se Fresquinha, não acham o nome delicioso?
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