Comentário da minha amiga Maria, que está no Niassa (norte de Moçambique) em missão de voluntariado sobre o post acerca da febre e relativismo cultural:
Tão típico! A mulher chegar, sentar no gabinete e dizer "Estou doente." E não abrir mais a boca.
- Mas o que sente? - pergunto eu.
E "aquele olhar" da mulher doente e da tradutora como quem olha para um extraterrestre: "Duh, está doente, não percebeste? Mas o que é que tu precisas de saber mais? Dá-lhe murrette* e manda-a embora. Ponto final, não se fala mais nisso!"
* Medicamento
terça-feira, 25 de junho de 2013
sábado, 22 de junho de 2013
sexta-feira, 21 de junho de 2013
[outras palavras] febre... pois...
Mitande, Niassa
A minha amiga Maria está desde Janeiro deste ano em Mitande, no Niassa (no norte de Moçambique), em missão de voluntariado através da ONG de que orgulhosamente faço parte... É enfermeira, tem um espírito prático e aventureiro como poucas pessoas têm e escreve deliciosamente! A propósito do post anterior sobre o conceito de febre na Guiné-Bissau, lembrei-me deste post dela, no Querida Lamparina:
No outro dia assisti à seguinte consulta de um jovem estudante no Centro de Saúde:
- Preciso de medicamento para malária.
- Como sabes que tens malária?
- Sinto uma malária muito forte.
- Mas o que sentes?
- Dói-me o corpo todo.
- E tens tido frio? [ter frio = febre]
- Não, só tenho uma malária que me faz doer o corpo todo. [e, baixinho, acrescenta] e comichão.
- Comichão onde?
- Aqui - diz rapidamente, sem apontar para sitio nenhum -, preciso de medicamento para a malária. Tenho malária muito grande.
- Comichão onde, mesmo?
- Aqui.
[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
Para evitar estas coisas de culpar a Malária de todos os males, resolvi dar uma “aula” às minhas meninas acerca de febre.
- Sabem o que e isto?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Para saber se pessoa está doente. Por debaixo do braço, esperar e depois ler se está muito doente ou pouco doente.
Lá expliquei o que é um termómetro e o conceito de temperatura e de febre. Esforcei-me por deixar bem claro que febre não significa malária necessariamente: afinal era esse o meu objectivo com estas explicações todas. Sugeri que experimentassem colocar o termómetro, a mais pequena não quis, tinha medo que se descobrisse alguma doença, mas a mais velha, mais corajosa, colocou o tal aparelho na axila. “Tem 36,5ºC. Não está doente!”
- Então vamos ver na B.
- Tenho 39,2ºC...
- O que significa?
- Tem malária!
[Definitivamente não sou boa professora...]
domingo, 16 de junho de 2013
[relativismo cultural] febre e mal estar
Há dias, na reunião da manhã no meu hospital, ouvi falar de uma adolescente que tinha sido internada por febre e mal estar geral com cerca de 3 semanas de evolução.
Tratava-se de uma menina de 13 anos, frágil, magra, com olhos negros e tristes. Nascera na Guiné-Bissau, numa cidade longe da capital e ficara privada da mãe seis anos antes, altura em que esta tivera de vir para Lisboa, acompanhando um irmão mais novo com uma epilepsia grave e atraso de desenvolvimento. A mãe vivera os primeiros anos com o filho, entre casa e hospital, entre consultas e internamentos, entre enfermarias e cuidados intensivos, medicamentos com nomes esquisitos e efeitos secundários de que nunca ouvira falar mas que tinha de monitorizar diariamente.
Chorara apenas no primeiro dia, quando lhe disseram o menino poderia melhorar um pouco, mas nunca poderia vir a ter uma vida normal e que teria de fazer medicação para o resto da vida, medicação essa que não existia na sua cidade natal e que, por isso, mãe e filho nunca mais viveriam junto dos seus. Depois do primeiro dia, aceitou a doença e lutou com todas as suas forças pela vida do filho e pela sua, trabalhando de forma precária nos poucos dias que a doença do filho lhe dava tréguas. Perguntou se pelo menos poderia então reunir a família em Lisboa e criar os outros filhos, mas essa é uma situação que não está prevista na lei. A reunião familiar é imigração ilegal. Por mais relatórios que os médicos escrevessem atestando que o menino teria de ficar a viver para sempre em Portugal, isso não lhe dava o direito de trazer os outros filhos menores. O compromisso do estado português era apenas para com o filho doente. Os outros eram problema seu! Imagino o frio no coração daquela mãe, dividida entre um filho doente e que nunca poderia vir a ter uma vida independente, e os outros filhos lá longe e que ainda precisavam tanto dela.
Só ao fim de alguns anos é que a doença do filho estabilizara e conseguira um contrato de trabalho. Só depois a autorização de residência. Ao fim de seis anos conseguiu mandar vir as outras duas filhas, que deixara ainda meninas ao cuidado da avó materna e que agora vinham adolescentes, começar a vida por que tinham sonhado durante os primeiros anos, mas que agora já não sabiam se desejavam mesmo, pois já tinham aprendido a viver sem a mãe e iniciado a difícil tarefa que é crescer e ser adolescente entre os seus pares.
A mãe não explicara nada disto ao médico do serviço de urgência. Dissera apenas que não reconhecia a filha, que chegara dois meses antes, muito bem disposta, mas que desde há três semanas estava com febre, mal estar, apática, sem forças e sem apetite. Perdera peso. Deixara de ir à escola? perguntara o médico. Que não. Até porque nunca fora. Ainda não tinha tido oportunidade de ir inscrever a filha na escola. Provavelmente só entraria no ano letivo seguinte. Até lá passava o dia a cuidar da casa.
Na cabeça do meu colega surgiram muitas luzes vermelhas: febre arrastada, mal estar, perda de peso. África! Doenças exóticas. Tuberculose. Malária.
Durante todo o dia, a menina com um ar triste e assustado fez análises, ecografias, uma TAC crânio-encefálica, uma punção lombar sob anestesia geral. Por fim foi internada enquanto aguardava os resultados.
Na reunião da manhã, no dia seguinte, os meus colegas relatavam os resultados dos exames: todos normais à exceção de uma discreta anemia por falta de ferro. E que estava sem febre desde a entrada, há quase 24 horas.
Respirei fundo. Pedi a palavra. Não gosto de interromper as reuniões, mas desta vez achei importante dizer algo. Expliquei que na Guiné-Bissau, tal como no Moçambique que eu conheço, o conceito de febre é subjetivo. Quer apenas expressar um mal estar geral. Insisti que, para perguntar se a pessoa tem febre, devemos sempre indagar se o corpo ficou quente. São conceitos diferentes e independentes. A menina estava sem febre desde a entrada porque provavelmente nunca tinha tido febre nenhuma.
Não pude deixar de me sentir gelada por dentro. Aquela mãe coragem, que lutara seis anos para que a vida e a família lhe fosse devolvida, era ainda a mãe negra da canção de Paulo de Carvalho. A mãe negra que não sabe nada, analfabeta e longe dos seus códigos culturais. Ela sabia (como não?) o que se passava com a sua filha, desenraizada e triste, perdida num planeta desconhecido. Se estivesse na Guiné saberia a quem pedir ajuda. Levaria a filha à avó materna e ao curandeiro, para que entre rezas, feitiços, placebos, mimos e cuidados, a angústia se desvanecesse. Mas em Lisboa só podia ir pedir ajuda aos médicos.
Não interferira na investigação médica. Como qualquer mãe africana que se preze, suportou todos os exames e tratamentos firme à cabeceira da filha. Assistiu a tudo de perto, sofrendo por dentro, mas com esperança. Médico de Lisboa é muito sabedor. Os exames à cabeça talvez pudessem ler os maus pensamentos e as angústias da filha, talvez os pudessem apagar, dando lugar à alegria pueril com que a deixara seis anos antes...
Nesse dia continuei gelada. E triste. E envergonhada. Eu sei que pelo menos o problema foi identificado e a menina começou a ser tratada para aquela depressão grave. Com mais exame, menos exame, mais mal-entendido menos mal-entendido, o diagnóstico foi feito. Mas ninguém pode devolver os seis anos roubados a esta família. E a tantas outras na mesma situação...
Tratava-se de uma menina de 13 anos, frágil, magra, com olhos negros e tristes. Nascera na Guiné-Bissau, numa cidade longe da capital e ficara privada da mãe seis anos antes, altura em que esta tivera de vir para Lisboa, acompanhando um irmão mais novo com uma epilepsia grave e atraso de desenvolvimento. A mãe vivera os primeiros anos com o filho, entre casa e hospital, entre consultas e internamentos, entre enfermarias e cuidados intensivos, medicamentos com nomes esquisitos e efeitos secundários de que nunca ouvira falar mas que tinha de monitorizar diariamente.
Chorara apenas no primeiro dia, quando lhe disseram o menino poderia melhorar um pouco, mas nunca poderia vir a ter uma vida normal e que teria de fazer medicação para o resto da vida, medicação essa que não existia na sua cidade natal e que, por isso, mãe e filho nunca mais viveriam junto dos seus. Depois do primeiro dia, aceitou a doença e lutou com todas as suas forças pela vida do filho e pela sua, trabalhando de forma precária nos poucos dias que a doença do filho lhe dava tréguas. Perguntou se pelo menos poderia então reunir a família em Lisboa e criar os outros filhos, mas essa é uma situação que não está prevista na lei. A reunião familiar é imigração ilegal. Por mais relatórios que os médicos escrevessem atestando que o menino teria de ficar a viver para sempre em Portugal, isso não lhe dava o direito de trazer os outros filhos menores. O compromisso do estado português era apenas para com o filho doente. Os outros eram problema seu! Imagino o frio no coração daquela mãe, dividida entre um filho doente e que nunca poderia vir a ter uma vida independente, e os outros filhos lá longe e que ainda precisavam tanto dela.
Só ao fim de alguns anos é que a doença do filho estabilizara e conseguira um contrato de trabalho. Só depois a autorização de residência. Ao fim de seis anos conseguiu mandar vir as outras duas filhas, que deixara ainda meninas ao cuidado da avó materna e que agora vinham adolescentes, começar a vida por que tinham sonhado durante os primeiros anos, mas que agora já não sabiam se desejavam mesmo, pois já tinham aprendido a viver sem a mãe e iniciado a difícil tarefa que é crescer e ser adolescente entre os seus pares.
A mãe não explicara nada disto ao médico do serviço de urgência. Dissera apenas que não reconhecia a filha, que chegara dois meses antes, muito bem disposta, mas que desde há três semanas estava com febre, mal estar, apática, sem forças e sem apetite. Perdera peso. Deixara de ir à escola? perguntara o médico. Que não. Até porque nunca fora. Ainda não tinha tido oportunidade de ir inscrever a filha na escola. Provavelmente só entraria no ano letivo seguinte. Até lá passava o dia a cuidar da casa.
Na cabeça do meu colega surgiram muitas luzes vermelhas: febre arrastada, mal estar, perda de peso. África! Doenças exóticas. Tuberculose. Malária.
Durante todo o dia, a menina com um ar triste e assustado fez análises, ecografias, uma TAC crânio-encefálica, uma punção lombar sob anestesia geral. Por fim foi internada enquanto aguardava os resultados.
Na reunião da manhã, no dia seguinte, os meus colegas relatavam os resultados dos exames: todos normais à exceção de uma discreta anemia por falta de ferro. E que estava sem febre desde a entrada, há quase 24 horas.
Respirei fundo. Pedi a palavra. Não gosto de interromper as reuniões, mas desta vez achei importante dizer algo. Expliquei que na Guiné-Bissau, tal como no Moçambique que eu conheço, o conceito de febre é subjetivo. Quer apenas expressar um mal estar geral. Insisti que, para perguntar se a pessoa tem febre, devemos sempre indagar se o corpo ficou quente. São conceitos diferentes e independentes. A menina estava sem febre desde a entrada porque provavelmente nunca tinha tido febre nenhuma.
Não pude deixar de me sentir gelada por dentro. Aquela mãe coragem, que lutara seis anos para que a vida e a família lhe fosse devolvida, era ainda a mãe negra da canção de Paulo de Carvalho. A mãe negra que não sabe nada, analfabeta e longe dos seus códigos culturais. Ela sabia (como não?) o que se passava com a sua filha, desenraizada e triste, perdida num planeta desconhecido. Se estivesse na Guiné saberia a quem pedir ajuda. Levaria a filha à avó materna e ao curandeiro, para que entre rezas, feitiços, placebos, mimos e cuidados, a angústia se desvanecesse. Mas em Lisboa só podia ir pedir ajuda aos médicos.
Não interferira na investigação médica. Como qualquer mãe africana que se preze, suportou todos os exames e tratamentos firme à cabeceira da filha. Assistiu a tudo de perto, sofrendo por dentro, mas com esperança. Médico de Lisboa é muito sabedor. Os exames à cabeça talvez pudessem ler os maus pensamentos e as angústias da filha, talvez os pudessem apagar, dando lugar à alegria pueril com que a deixara seis anos antes...
Nesse dia continuei gelada. E triste. E envergonhada. Eu sei que pelo menos o problema foi identificado e a menina começou a ser tratada para aquela depressão grave. Com mais exame, menos exame, mais mal-entendido menos mal-entendido, o diagnóstico foi feito. Mas ninguém pode devolver os seis anos roubados a esta família. E a tantas outras na mesma situação...
sexta-feira, 14 de junho de 2013
[vozes brancas] os descobrimentos
Na consulta dos cinco anos de um menino amoroso e envergonhado, com uma timidez sempre encoberta de sorrisos furtivos e tentativas dissimuladas de se apropriar do meu estetoscópio, do aparelho de medir a tensão ou da lupa, eu perguntava-lhe, em jeito de desbloqueador de conversa, quem eram os melhores amigos, como se chamava a educadora e a que gostava de brincar no recreio. Por fim, lá se resolveu a entabular uma conversa comigo e contou-me que estava a ensaiar um teatro para a festa do final de ano.
- Ah, muito bem, e é um teatro sobre o quê?
- É sobre os descobrimentos portugueses, doutora - apressou-se a responder a mãe.
- Ah, e tu vais ser quem?
- Vou ser a árvore nadadora.
- A árvore nadadora? Mas como é isso?
- Então, filho, a mãe já te explicou, não é nadadora é...
- Narradora - respondeu a sorrir.
- Vais fazer o quê?
- Vou ser eu a contar a história!
- Que maravilha! É um papel muito importante. E o teu amigo Gonçalo vai ser quem?
- Vai ser o Elefante Dom Henrique!
(Eu cá não sou de intrigas, mas as educadoras deviam ter tido mais atenção ao casting... Um elefante é capaz de fazer qualquer caravela ir por água abaixo, mesmo tendo depois uma árvore nadadora a que se agarrar...)
quinta-feira, 13 de junho de 2013
[repost] o santo antónio no serviço de urgência
Santo António de Lisboa
A
Urgência Pediátrica é, por definição, o serviço que tem o movimento mais
imprevisível de cada hospital. Nunca se sabe o que vai acontecer, embora, dentro
de certos limites, se possa prever, por exemplo, que à hora dos jogos do Benfica
e da Seleção Nacional a afluência fique quase reduzida a zero, e que à
segunda-feira, tal como em qualquer parte do mundo, o movimento seja
significativamente mais elevado...Já o 12 de Junho em Lisboa é o dia mais previsível do ano, com a seguinte ordem de trabalhos:
- Das 09:00 às 15:00 - Aumento de afluência de adolescentes com dor no peito. Investigando melhor, quase todos são marchantes com ansiedade de desempenho, e a crise passa à hora do ensaio geral das Marchas Populares, lá para as 16:00, altura em que, aconteça o que acontecer, eles nos desamparam a loja. Por vezes regressam depois da meia-noite...
- Das 15:00 às 20:00 - Aumento da afluência de crianças com menos de 3 anos. Motivo de admissão: ingestão acidental de folhas de manjerico. A curiosidade é a mãe de metade dos acidentes na infância. O pai também não é bem incógnito, como adiante se verá... Geralmente os meninos têm alta direta para o arraial do bairro.
- Das 19:30 às 23:00 - Aumento da afluência. Motivo de admissão: corpo estranho na faringe. Invariavelmente, o corpo estranho é uma espinha de sardinha assada. A avaliar pelos números do Grande Observatório Piscícola do Serviço de Urgência, trata-se do único dia do ano em que os meninos se engasgam com espinhas de sardinha. Por qualquer razão obscura, os adultos perdem a capacidade de reconhecer a sardinha como um alimento potencialmente perigoso e oferecem-na da maneira mais estapafúrdia às crianças pequenas - inteiras e sobre o pão. Os hábitos enraizados e as tradições são os pais quase incógnitos da outra metade dos acidentes na infância.
- Das 00:00 em diante - Motivo principal de admissão: adolescentes em coma alcoólico.
Acho que para o ano, para maior eficiência, vamos destinar um gabinete de atendimento especial para estes assados: o "Gabinete Acidentes de Santo António". E criamos a "Via Verde marchante-em-crise", a "Via Verde sardinhas-no-pão", a "Via Verde mamã-engoli-um-manjerico" e a "Via Verde coma-alcoólico-ou-alcoolicamente-mal-disposto-e-intoxicações-várias".
Este ano a urgência é hoje, dia 13. Vou ali ver ressacas e volto já...
quarta-feira, 12 de junho de 2013
[as melhores do serviço de urgência] alergias...

(Atenção: piada para profissionais de saúde)
Na urgência, estava a observar um menino que vinha com uma otite supurada:
- O seu menino tem alergias?
- Não, doutora.
- E tem sido sempre saudável?
- Sim.
- Já teve alguma doença grave ou esteve internado?
- Sim, uma vez ficou internado aqui na urgência com uma reação alérgica grave.
- [Suspiro... De quantas maneiras diferentes é preciso perguntar a mesma coisa, valha-me São Pedro dos Sinónimos?!] Então? Como foi?
- Ele estava com outra otite, veio aqui às urgências e receitaram-lhe amoxicilina. Melhorou, mas passado duas semanas voltou a queixar-se do mesmo ouvido. Viemos cá outra vez e passaram-lhe o Clavamox. Começaram logo a aparecer umas erupções na pele e, de cada vez que dávamos o antibiótico, ele piorava, até que ao segundo dia ficou que parecia um bicho e muito prostrado. Viemos de urgência para cá e passou a noite ali internado a soro.
- E depois, foi a uma consulta de alergia medicamentosa?
- Não. Por isso ficámos sempre na dúvida se tinha sido alergia à amoxicilina ou ao ácido vulcânico...
(Como disse depois um amigo meu, claro que foi o ácido vulcânico que lhe provocou as erupções, qual era a dúvida?)
terça-feira, 11 de junho de 2013
[as melhores do serviço de urgência] sinais de subida térmica
Na urgência, um bebé de 7 meses choramingava, desconfortável, deitado na marquesa enquanto a minha colega o observava.
- Ele tem tido febre? Parece-me quente...
- Pois, por acaso eu também acho que deve ter a febre a subir, doutora, porque tem a pilinha murcha.
Onde estão as saídas de emergência para quem não consegue conter o riso?
Comentário de outro colega: "E o que será que acontece ao menino quando tem uma hipotermia?"
- Ele tem tido febre? Parece-me quente...
- Pois, por acaso eu também acho que deve ter a febre a subir, doutora, porque tem a pilinha murcha.
Onde estão as saídas de emergência para quem não consegue conter o riso?
Comentário de outro colega: "E o que será que acontece ao menino quando tem uma hipotermia?"
terça-feira, 21 de maio de 2013
[as melhores do serviço de urgência] sinais de bom prognóstico...
Serviço de Urgência ontem à tarde...
(Estefânia em baixa resolução)
Passei fugazmente no corredor da cirurgia. Uma adolescente com uma apendicite aguda, finalmente sem dores (e conhecedora do facto de que, numa sala do bloco operatório, um balde de lixo esterilizado aguardava placidamente pelo apêndice responsável pelas suas últimas noites mal dormidas), lia o Memorial do Convento. Só lhe faltava o derradeiro sinal de bom prognóstico: estar de perna traçada. Mas isso era uma questão de dias...
Ah, grande seleção de esperanças!
sexta-feira, 17 de maio de 2013
[psicanálise selvagem] lapsus linguae
Na consulta há uns tempos, a madrasta de uma criança relatava-me a consulta Psicologia a que tinha acompanhado a enteada tempos antes. Queixara-se na consulta de que a enteada estava o tempo todo agarrada ao pai (marido da "queixosa") e que aquela dupla imbatível tinha um fim catastrófico anunciado. Que ele lhe fazia as vontades todas, que ele não a ajudava a fazer os trabalhos de casa e que até dormia com ela se lhe pedisse.
Concordei que eram tudo maus hábitos e formas de funcionar que não promoviam a autonomia da criança.
- Pois, doutora, a psicóloga lá nos esteve a explicar que a menina ainda estava numa fase muito Edipeniana e que era preciso acompanhamento...
Eu concordei novamente, mas tive de deixar cair a caneta ao chão, Valha-me São Freud de Viena! Não consegui evitar um sorriso... O que será uma fase edipeniana? Ah, sim, aquela fase tão importante e específica do desenvolvimento em que o Édipo fica com inveja do pénis?
Concordei que eram tudo maus hábitos e formas de funcionar que não promoviam a autonomia da criança.
- Pois, doutora, a psicóloga lá nos esteve a explicar que a menina ainda estava numa fase muito Edipeniana e que era preciso acompanhamento...
Eu concordei novamente, mas tive de deixar cair a caneta ao chão, Valha-me São Freud de Viena! Não consegui evitar um sorriso... O que será uma fase edipeniana? Ah, sim, aquela fase tão importante e específica do desenvolvimento em que o Édipo fica com inveja do pénis?
terça-feira, 2 de abril de 2013
[silly season 2013] não sei que vos diga...
Não sei que vos diga nem que vos conte... Há um preço a pagar pelo amor que morre ou que nos morre por dentro, que é o luto e a dor. Mas a verdade é que pelos vistos também há um preço a pagar pelo amor que cresce. E esse preço é a falta de inspiração! Desculpem qualquer coisinha, tenho estado a ver se isto me passa, mas o facto é que continuo em estado de graça e enquanto estiver assim, nicles...
segunda-feira, 1 de abril de 2013
[frase do dia] que me ecoa na cabeça há semanas
Você, como sabe, é um elemento precioso desta equipa, mas não faz parte da estrutura, faz parte da conjuntura... Portanto não é justo para si que nós lhe exijamos que fique.
Se tivesse sido hoje, eu não tinha ligado nenhuma, mas não era o dia das mentiras...
Se tivesse sido hoje, eu não tinha ligado nenhuma, mas não era o dia das mentiras...
segunda-feira, 18 de março de 2013
[exercícios africanos] inculturação moçambicana
Padrão de uma capulana
Decidi, desde o primeiro dia do baby-de-mulata nesta casa, manter um programa diário de exercícios africanos. A noite não é exceção. Tenho sempre uma capulana para o tapar e servir de resguardo na cama de grades, que serve também para qualquer eventualidade: usamo-la como pano de tourear nas noites de insónia e agitação, para limpar lágrimas e babas nas raras noites de birra, enxugar salpicos de água ou leite, para cobrir os bonecos nas brincadeiras de esconde-esconde. Em último caso, em algumas noites de festa brava, a cama transforma-se na casota de um cão de guarda feroz e a capulana faz de teto dessa casa quentinha e acolhedora, que acaba, enfim, por chamar um sono tranquilo...
Qualquer menino moçambicano que se preze sabe que pode usar a seu bel-prazer todas as capulanas de sua mãe. Por fim, depois de todas as loucuras e touradas, despeço-me com o último momento de inculturação do dia: "Boa noite! Não deixes que os mosquitos te piquem!"
quarta-feira, 6 de março de 2013
[sobreviver à primeira infância] acidentes e segurança
Disclaimer: Meus amigos, vocês sabem que eu não gosto de falar de coisas sérias aqui no mato, por isso, este post também não será uma lição de sapiência sobre puericultura. Eu só faço serviço público muito de vez em quando e sempre por motivos de força maior, como naquela vez em que a querida Sónia Morais Santos confessou o seu receio de ir a casas de banho em bombas de gasolina... Por isso, se buscam literatura sobre acidentes e segurança na primeira infância, podem seguir viagem agora mesmo.
Há tempos, na consulta dos 12 meses de uma menina bem-disposta, palradora e com um desenvolvimento acima da média, falávamos da introdução dos sólidos na alimentação, abordei os receios dos pais, falei dos riscos de engasgamento e estivemos a rever as manobras básicas de reanimação em caso de obstrução da via aérea. Falei sobre os cuidados a ter e como evitar os acidentes, encorajei-os nesta nova etapa:
- Ela ainda não tem mais do que dois dentes incisivos, mas já tem capacidade para mastigar coisas moles, por isso não tenham receio...
- Sim, doutora - respondeu o pai -, isso é verdade, e coisas duras também! No outro dia fui dar com ela a mastigar uma casca de noz há horas...
A mãe olhou-o (e se o olhar matasse, tinha mais uma certidão de óbito para passar ali mesmo, para além das receitas - de culinária e das outras):
- Uma casca de noz?! Como assim uma casca de noz?
- Ó querida, abri-lhe a boca para ver o que é que ela tinha lá posto e descobri uma casca de noz, que ela devia ter encontrado debaixo de alguma coisa...
- Já reparaste que estas coisas só te acontecem a ti? E porque é que não me disseste nada?
Resolvi pôr água na fervura:
- Pois, todo o cuidado é pouco, mas tiro-lhe o chapéu! Como é que deu conta que a sua filha, a gatinhar no chão e entretida com os brinquedos, tinha alguma coisa na boca? É preciso muita perspicácia!
- Não doutora, é que a miúda sai à mãe, é uma tagarela de primeira, não se cala um segundo. Eu estava a ler o jornal e de repente reparei que ela estava calada há muito tempo. E vai daí soou "aquele alarme"..
Olhei-o, incrédula: ele não estava a dizer aquilo, não podia ser! Mas ainda continuou:
- Se fosse a mãe era porque estava amuada de certeza... A menina não devia estar amuada comigo, mas estranhei na mesma. Fui averiguar o que se passava e encontrei-lhe a casca de noz dentro da boca.
- Bem, isso é verdade, é mesmo desde o berço. Quando uma mulher está muito tempo calada, há sempre alguma coisa de errado.* Bem, neste caso tudo correu bem, mas é melhor pedirem à empregada para limpar o chão e debaixo dos móveis todos os dias - e apressei-me a mudar de assunto, antes que o casamento acabasse ali mesmo.
*Aprendam, senhores!
domingo, 24 de fevereiro de 2013
[a quebra do silêncio] simplex III
Pois que o mato andou calado durante uns tempos, em modo de hibernação, e por aqui só se ouvia o chilrear dos passarinhos no cimo dos cajueiros e pouco mais. Em parte isso deveu-se ao facto de o meu computador ter tido uma paragem curto-circuitória e eu não me ajeitar muito a escrever no Marvin, o meu andróide paranóide. Foi difícil sobreviver à constatação dolorosa de que o backup que eu tinha dos discos já tinha para cima de um bom par de meses, mas felizmente parece que a memória do bicho está intacta, tinha era mais cotão na ventoinha do que uma casa de três homens solteiros sem empregada, e ainda teve mais um diagnóstico que neguei violentamente mas que toda a gente sabe que é verdade: sim, eu confesso, adormeço com ele ligado quase todas as noites. Mas adiante, que estava a explicar-vos esta silly season fora de horas.
Em parte também estivemos ocupados a tentar tratar do cartão de cidadão do "baby-de-mulata". Como ainda estamos naquela fase cinzenta em que ainda não temos a adoção plena mas já temos vontade de viajar, fomos tentar tratar dos documentos obrigatórios, os que qualquer cidadão deve ter e aos quais tem direito. Pois... Não conseguimos. Por mais que me informe através da linha de apoio, quando chegamos à hora da verdade falta sempre algum papel. Ou uma cópia. Ou três cópias. Agora já sabemos que temos de ir à cidade de origem do baby buscar mais uma certidão. Mas um dia... ah, um dia... Um dia, meus amigos, hei de sair triunfante da Loja do Cidadão como esta heroína aqui abaixo!
Em parte também estivemos ocupados a tentar tratar do cartão de cidadão do "baby-de-mulata". Como ainda estamos naquela fase cinzenta em que ainda não temos a adoção plena mas já temos vontade de viajar, fomos tentar tratar dos documentos obrigatórios, os que qualquer cidadão deve ter e aos quais tem direito. Pois... Não conseguimos. Por mais que me informe através da linha de apoio, quando chegamos à hora da verdade falta sempre algum papel. Ou uma cópia. Ou três cópias. Agora já sabemos que temos de ir à cidade de origem do baby buscar mais uma certidão. Mas um dia... ah, um dia... Um dia, meus amigos, hei de sair triunfante da Loja do Cidadão como esta heroína aqui abaixo!
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
[casa sem mãe é um deserto] a metáfora
Depois de postar o provérbio africano ali abaixo, que diz que sem mãe, qualquer lar é um deserto, fiz o caminho de volta do mato até Lisboa e calculem que só então me apercebi que esse provérbio, para ser verdadeiro, aqui não pode passar de uma metáfora. Onde se lê "mãe" tem de se ler "carinho", nada mais. Aliás, na semana passada estive num encontro de adoção com pessoas que adotaram crianças há menos de seis meses e conheci dois homens solteiros (ou divorciados, ou coisa que o valha, que isso não me interessa, amigas, não se ponham já a sorrir com cara de caso) que se meteram na aventura de adotar uma criança sozinhos. A casa deles não tem mãe mas, pelo que me contaram, é um oasis que os meninos encontraram no seu deserto emocional.
Um deles, o F., falou-me de peripécias absolutamente desconcertantes, ainda muito recentes, com o filho de cinco anos, que lhe perguntou, da primeira vez que foram ao supermercado, como se chamava a senhora da caixa. Ele, um pouco encavacado por a senhora os estar a ouvir, respondeu que não sabia, que não a conhecia. "Então porque estás a brincar com ela ao Monopólio?" E foi então que o F. percebeu que ele nunca tinha visto dinheiro ao vivo e pensava que as notas e moedas eram peças de brincar. Tal como rapidamente se apercebeu de que o filho nunca tinha visto alimentos crus, salvo banana e laranja, e pensava que os alimentos que ele tinha na cozinha eram brinquedos como aqueles com que as "meninas pirosas" brincavam às cozinhas no lar onde vivera.
Contou-me que o filho o chamou de hora em hora durante a noite nos primeiros quinze dias, até lhe explicar que não podia chamar tantas vezes porque os dois precisavam de dormir. A cara de espanto do menino foi inacreditável: "Mas os crescidos não dormem! Lá na outra casa eu chamava sempre e as educadoras vinham. Estavam sempre vestidas e a conversar." E o F. lá lhe explicou que todos os adultos dormem e que o pai, especialmente, precisava de dormir bem para ficar bem disposto. Depois explicou-lhe o que fazer em todas as situações para as quais ele o tinha chamado noites a fio: frio, calor, vontade de ir à casa de banho, sede, etc. Ele não se sabia tapar sequer...
Contou-nos ainda que um dia o menino o viu a arrumar comida no frigorífico e aproximou-se pé ante pé. Segredou-lhe então baixinho, pregando-lhe um susto: "O que é que estás a esconder?"
É absolutamente maravilhoso imaginar o menino que lhe chegou a casa há cinco meses e a explosão de desenvolvimento que se deve ter seguido para chegar a ser o menino bem adaptado, simpático e desenvolto que é hoje. Em cinco meses! Portanto bem se vê: para dar vida a um deserto não é preciso uma mãe, é preciso haver quem ame e se interesse.
Um deles, o F., falou-me de peripécias absolutamente desconcertantes, ainda muito recentes, com o filho de cinco anos, que lhe perguntou, da primeira vez que foram ao supermercado, como se chamava a senhora da caixa. Ele, um pouco encavacado por a senhora os estar a ouvir, respondeu que não sabia, que não a conhecia. "Então porque estás a brincar com ela ao Monopólio?" E foi então que o F. percebeu que ele nunca tinha visto dinheiro ao vivo e pensava que as notas e moedas eram peças de brincar. Tal como rapidamente se apercebeu de que o filho nunca tinha visto alimentos crus, salvo banana e laranja, e pensava que os alimentos que ele tinha na cozinha eram brinquedos como aqueles com que as "meninas pirosas" brincavam às cozinhas no lar onde vivera.
Contou-me que o filho o chamou de hora em hora durante a noite nos primeiros quinze dias, até lhe explicar que não podia chamar tantas vezes porque os dois precisavam de dormir. A cara de espanto do menino foi inacreditável: "Mas os crescidos não dormem! Lá na outra casa eu chamava sempre e as educadoras vinham. Estavam sempre vestidas e a conversar." E o F. lá lhe explicou que todos os adultos dormem e que o pai, especialmente, precisava de dormir bem para ficar bem disposto. Depois explicou-lhe o que fazer em todas as situações para as quais ele o tinha chamado noites a fio: frio, calor, vontade de ir à casa de banho, sede, etc. Ele não se sabia tapar sequer...
Contou-nos ainda que um dia o menino o viu a arrumar comida no frigorífico e aproximou-se pé ante pé. Segredou-lhe então baixinho, pregando-lhe um susto: "O que é que estás a esconder?"
É absolutamente maravilhoso imaginar o menino que lhe chegou a casa há cinco meses e a explosão de desenvolvimento que se deve ter seguido para chegar a ser o menino bem adaptado, simpático e desenvolto que é hoje. Em cinco meses! Portanto bem se vê: para dar vida a um deserto não é preciso uma mãe, é preciso haver quem ame e se interesse.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
[vozes brancas*] um assalto
Há mais de cinquenta anos, uma geração e meia antes da atual, o pai de um amigo meu era ainda uma criança [ai, valha-me São Jacques de la Palisse...]. Há uns tempos, num evento familiar, à porta de casa, houve um cheiro que o fez transportar-se de repente para cinquenta anos antes: a noite em que a casa da sua avó foi assaltada. Contou a emoção que sentiu ao ver o agente da polícia a entrar naquela mesma casa, de farda engomada, bigode farfalhudo e com um ar muito circunspecto. A meio da investigação, o pai desse meu amigo, então com 8 anos, abeirou-se do agente e pediu licença para colocar uma questão:
- Como foi que os ladrões entraram se não tinham a chave de casa?
- Abriram a porta com um pé-de-cabra, rapaz - respondeu o agente secamente.
O menino ficou absolutamente horrorizado. Pediu licença novamente e retirou-se, incomodado com a imagem. Ainda o ouviram murmurar, a caminho do quarto, a frase que ficou para sempre como piada privada da família: "Coitadinha da cabrita..."
* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.
- Como foi que os ladrões entraram se não tinham a chave de casa?
- Abriram a porta com um pé-de-cabra, rapaz - respondeu o agente secamente.
O menino ficou absolutamente horrorizado. Pediu licença novamente e retirou-se, incomodado com a imagem. Ainda o ouviram murmurar, a caminho do quarto, a frase que ficou para sempre como piada privada da família: "Coitadinha da cabrita..."
* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
[outras palavras] um ladrão com sentido de humor!
É esta a notícia: a bolacha centenária de cobre que fazia parte da escultura de uma empresa fabricante de bolachas alemã foi roubada. O dono da empresa ofereceu mil euros a quem pudesse dar alguma pista sobre o paradeiro da sua velha bolacha. E foi então que o ladrão se deu a conhecer. Pediu um resgate! O resto é sorrisos.
Eu podia contar-vos a história, mas a Helena já a contou muito melhor! Vão lá ver que é de morrer a rir... Ou de sorrir para dentro, vá.
(Hannover, Alemanha)
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
[áfrica é rica] a vida de um povo
Mulher idosa...
(Quénia)
Imagem daqui.
Quando morre um velho é como se ardesse uma biblioteca.Provérbio africano
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
[never take anything for granted] o próprio chão estará garantido?
Cheias na cidade de Chókwè...
(Gaza, Moçambique)
Fotos de sítios vários da net.
As enormes cheias que desde há uma semana estão a devastar a cidade de Chókwè, no Sul de Moçambique, deixaram quase cinquenta mil pessoas desalojadas, segundo o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (sim, existe um Instituto Nacional de Gestão de Calamidades em Moçambique, o que nos diz muito sobre o país e a forma como é gerido...).
Há dias, conversava com a minha amiga C., a minha mamã africana, sobre a forma como as pessoas muitas vezes resistem até ao último momento para aceitar que a catástrofe está iminente, que a vida vai mesmo mudar e que é preciso protegermo-nos e aos nossos, independentemente de todos os bens materiais que fiquem para trás.
(Em Moçambique esta situação é ainda mais difícil porque o futuro é território que pertence aos antepassados, o futuro é algo de quase sagrado e inviolável, portanto as pessoas muitas vezes não só não acreditam nas previsões, como se comportam ostensivamente como se não soubessem de nada. E continuam a pensar que as catástrofes só dependem do destino e não é possível fazer o que quer que seja para se protegerem.)
Mas eu e a C. concordávamos que, de qualquer forma, é muito difícil raciocinar quando está em causa o poder violento da natureza em situações limite. Foi então que ela me contou que no início dos anos '90, em plenas cheias de Maputo, foi buscar o marido ao aeroporto. Não havia taxis e não tinham motorista, portanto a única solução era ir buscá-lo. A rua quase tinha desaparecido, engolida pelas águas e havia muito pouca visibilidade por causa da chuva que não parava de cair.
- A minha mãe ficou com os meninos e eu fui com o meu pai ao aeroporto. E ele dizia-me: "Vai devagar, que a estrada está aqui mesmo em baixo, havemos de chegar." No dia seguinte, mesmo no cruzamento onde tínhamos parado, havia um buraco enorme onde podia cair um camião...
É difícil acreditar que mesmo o chão pode não estar sempre garantido. Por isso também não me espanta a atual situação da Zambézia... Rezemos...
[welcome to mozambique] nampula, a linda!
Nampula vista do ar, com um arco-íris fantástico sobre os montes-ilha, um relevo fascinante, quase absurdo. Montanhas que se erguem, súbitas e bruscas sobre a savana, transformando uma terra plana numa paisagem de conto de fadas.
(Nampula, Moçambique)
Foto da minha amiga J.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
[dsm beijo-de-mulata #4] beijos do cluster c
- Dependente - Precisa de outra pessoa para quem enviar
beijinhos. Sem ela não envia beijo nenhum.
- Obsessivo-compulsivo - Envia beijinhos persistentemente.
- Evitante - Desculpem. Já vos tomei tempo demais. Eu sei que não mereço. Não vos deveria ter ocupado tanto tempo inutilmente apenas para vos enviar beijos patológicos... Desculpem.
- Obsessivo-compulsivo - Envia beijinhos persistentemente.
- Evitante - Desculpem. Já vos tomei tempo demais. Eu sei que não mereço. Não vos deveria ter ocupado tanto tempo inutilmente apenas para vos enviar beijos patológicos... Desculpem.
[dsm beijo-de-mulata #3] beijos do cluster b
- Anti-social - Desde a adolescência que beija muito, como quer e
bem lhe apetece, não tendo mesmo escrúpulos em enviar falsos
beijinhos.
- Borderline - Envia inúmeros beijos curtos, mas muitíssimo intensos, cada dia para um sítio diferente (sky is the limit). Sempre à procura de emoções fortes, muitas vezes dedica-se a desportos radicais, como os beijinhos saltitantes (beiji-jumping).
- Histriónico - Beija sempre. Mas só da boca para fora.
- Narcísico - Envia beijos fantásticos, mas só àqueles que admira. Unicamente esses o podem compreender. Tem inveja dos beijos dos outros e está frequentemente empenhado em fantasias de beijos perfeitos ou do beijo ideal. Luta arduamente para se tornar membro das instituições mais conceituadas de beijos de elite.
- Borderline - Envia inúmeros beijos curtos, mas muitíssimo intensos, cada dia para um sítio diferente (sky is the limit). Sempre à procura de emoções fortes, muitas vezes dedica-se a desportos radicais, como os beijinhos saltitantes (beiji-jumping).
- Histriónico - Beija sempre. Mas só da boca para fora.
- Narcísico - Envia beijos fantásticos, mas só àqueles que admira. Unicamente esses o podem compreender. Tem inveja dos beijos dos outros e está frequentemente empenhado em fantasias de beijos perfeitos ou do beijo ideal. Luta arduamente para se tornar membro das instituições mais conceituadas de beijos de elite.
domingo, 27 de janeiro de 2013
[dsm beijo-de-mulata #2] beijos do cluster a
Perturbações do Cluster A
- O Paranóico - Nunca envia beijinhos. Qualquer beijo poderá constituir um pretexto a ser utilizado contra si para que o beijem também.
- O Esquizóide - Nunca envia beijinhos. Ele lá tem as suas razões.
- O Esquizotípico - Nunca envia beijinhos. Ou melhor... nunca envia beijinhos fisicamente. Mas, em espírito, envia um beijo de luz para expressar o quanto deseja que a aura do outro se ilumine e assim permaneça. Depois envia um conjunto de sete beijos para desfazer todo o mau-olhado que recai potencialmente sobre essa pessoa. Projecta-se no outro e acaba por se tornar no próprio recetor dos beijos. Duvida da eficácia dos seus próprios beijos para desfazer o mau-olhado que afinal é sobre si que acaba por recair. Entra em stress e envia um beijo em lá bemol para chamar ajuda. Tenta beijar o próprio cotovelo para transmitir o desespero à pessoa que lhe veio acudir (geralmente a mãe, que mais ninguém tem paciência; em casos mais graves vem a enfermeira), abraça a lista telefónica para pedir um copo de água e uma lima, mas deixa-a cair acidentalmente. A queda da lista é um indício muito forte de que alguém, algures, o quer beijar, pelo que tranca a porta para veicular a ideia de que pretende ficar só.
(Cluster B e C seguem em breve)
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