sábado, 27 de julho de 2013

[músicas para o baby-de-mulata] rema para lá, lanchinha


 
Quando o baby-de-mulata "nasceu" cá para casa, na altura com 16 meses, reuni as mais belas canções de embalar que conhecia, desde o Candlelight Carol do Rutter até às canções que aprendi com as mamãs macuas nas longas noites que passei no hospital em Moçambique, à cabeceira dos meninos mais doentes. Recordei as músicas que aprendi com os senhores da "Música nos Hospitais", os tais de quem já vos falei uma vez, que quando apareciam deixávamos de necessitar de tanta medicação para a dor e os meninos descansavam sempre melhor nessa noite.
 
As primeiras noites comigo foram idílicas... Eu sentia-me inspirada, afinava a voz, que só na idade adulta se conformou às escalas e conseguiu começar a cantar, e ele quase adormecia nos meus braços. Depois era só pô-lo na cama, dar-lhe um beijinho e tapá-lo e ele ficava meio adormecido, com um sorriso de anjo.
 
Foi mesmo sol de pouca dura... É que havia um pequeno pormenor de que eu não me tinha lembrado: o baby-de-mulata é rapaz! Daqueles mesmo em que o cromossoma Y se nota à légua. E também não é muito amigo de dormir... Portanto o que era o Candlelight Carol comparado com as músicas muito mais interessantes que eu lhe cantava durante o dia, sobre popós, aviões e bicicletas? Ele queria excitação e ritmo e eu dava-lhe Brahms e Rutter? Que desgraça de mãe que lhe tinha caído em sorte...
 
E então no dia em que, já à míngua de músicas para rapazes, lhe cantei "O carro do meu chefe teve um furo no pneu", foi o descalabro total. Dom baby-de-mulata fez-me a derradeira desfeita de a eleger como a sua canção de embalar preferida! Eu merecia? Pelos vistos sim. E ele também... E foi assim que começou a demorar muito mais tempo a adormecer, mas as mais belas canções de embalar deram lugar às mais-belas-e-estapafúrdias-canções-e-coreografias-e-respetivas-variações de embalar. O que se perdeu em romantismo ganhou-se em riso e divertimento.
 
Até que há umas semanas o Senhor Édipo chegou cá a casa sem eu contar... E ele se aninhou no meu colo e com a sua voz mais fofa me pediu: "Canta, mãe..." "E que música queres", perguntei-lhe. E ele pediu-me a "Lanchinha". Agora, de vez em quando lá me deixa matar saudades do papel de mãe que idealizei para mim e que, confesso, não tem metade da graça do papel que ele me ensinou a desempenhar...

1 comentário:

  1. Pronto. Escreves com o coração e eu fico com lagrimas nos olhos :)

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