segunda-feira, 17 de abril de 2017

[mozambique revisitado] um surto de sarampo





A Casa do Gaiato de Maputo (a capela, os meninos, o refeitório e o berçário para as crianças desnutridas da aldeia mais próxima).

(Boane, Maputo)

Em 2003, era ainda estudante de Medicina quando parti pela primeira vez para Moçambique em voluntariado. Já contei muitas vezes estas histórias, mas nunca contei a história do surto de sarampo que por lá aconteceu na minha estadia. Não é, de facto, algo que goste de recordar... Mas também nunca pensei, confesso, que a haveria de contar nestas circunstâncias, em plena ameaça de surto de sarampo no nosso país...

Há mais de 10 anos, no meu hospital, quando o diretor perguntou a todos os internos mais novos se alguém já tinha visto um caso de sarampo fui a única a levantar a mão. Os meus colegas olharam-me com curiosidade, meios incrédulos. "Onde?", perguntaram. "Vi mais de 100 casos em Moçambique. Em Portugal nunca." "Ah", responderam, "em Moçambique está bem." 

Foi ali, em Boane, próximo da barragem dos Pequenos Libombos, a 50 km de Maputo, que conheci Moçambique... Foram os encantos de primeira vez em África. Na Casa do Gaiato, com o Padre Zé Maria, a Irmã Quitéria, a tia Cármen, a D. Virgínia, de quem já vos falei, e os meninos mais adoráveis que alguma vez tinha conhecido e que viviam no orfanato... Rendi-me a eles no primeiro dia, em que me vieram adornar a mesa-de-cabeceira com uma flor selvagem que crescia numa casca de coco, "para titia sentir o cheiro da terra antes de dormir". Se me pedissem uma só prova de que é possível crescer e que vale a pena investir em Moçambique, eu saberia o que responder.

Era no centro de saúde, a 5 km da Casa do Gaiato, que começavam os meus dias. Depois do mata-bicho* com os meninos, o António, um dos mais velhos, que já tinha carta de condução, ia levar-me ao centro de saúde através de uma picada fabulosa, quase desaparecida por uma vegetação rasteira de savana seca a perder de vista, e onde, a espaços, emergiam as micaias, as árvores que eu amo desde o primeiro dia, com os seus espinhos e a sensação de serem as únicas sobreviventes no meio da secura atroz da planície.
 
Eu ia à frente no machibombo**, ao lado do António. Os meninos que não tivessem aulas nesse dia também iam connosco atrás, para ajudarem em pequenas tarefas do centro de saúde: encarregavam-se da inscrição dos doentes, ver temperaturas, medir tensões arteriais, varrer o pátio, ajudar os doentes a perceber como se tomava a medicação.

Um dia vieram-me mostrar um menino que estava muito doente. Era filho de um professor da escola da aldeia. Tinha 8 meses e não parava de tossir. Prostrado. Não mamava e não aceitava comer mais nada. Tinha os olhos injetados, o nariz congestionado e, desde essa manhã, tinha-lhe aparecido um exantema (borbulhas). Não era fácil ver o exantema, dada pigmentação escura do bebé, mas à luz via-se perfeitamente que as borbulhas lhe cobriam todo o corpo. A história fez-me soar os três C do livro de microbiologia (cough, coryza and conjunctivitis). Procurei o sinal de Koplik, inequívoco, diziam os meus livros, patognomónico, dizia a minha professora


Peguei na lanterna e procurei pequenos grãos de sal na mucosa junto aos dentes molares... Estavam lá, de facto, mas eram muito mais pequenos do que eu tinha ideia. "Como grãos de sal" lembrava-me eu das aulas da faculdade. Mas... só se fosse sal de mesa e não sal de cozinha, ocorreu-me... Ai, valesse-me Nossa Senhora dos aflitos, então o menino estava ali doentíssimo, prostrado, quase sem respirar e eu com dúvidas se o sinal de Koplik era do tamanho de grãos de sal de mesa ou de sal de cozinha?! Mas como era possível? No meio da savana uma dúvida existencial deste calibre... Mas tinha de ir esclarecer a dúvida. Não tinha outro meio de diagnóstico. Não havia net móvel em Moçambique. Muito menos banda larga ou satélite para me valer do meu Santo António do Google. Fui à sala onde tinha deixado os meus livros, que por sorte tinha levado nesse dia. E lá estava: "like table-salt grains". Era mesmo sarampo, caramba! 

Mas o menino, Ângelo era o seu nome, apesar de filho de um professor e de uma funcionária do centro de saúde, estava ligeiramente desnutrido. Tinha nascido com baixo peso e os pais, apesar de terem um salário que os mantinha ligeiramente acima do limiar da pobreza, comiam carne apenas duas vezes por semana e muito poucas verduras e fruta. O preço destes géneros alimentares, luxuosos em Moçambique, era abolutamente proibitivo para eles. Mas era uma alimentação manifestamente insuficiente para uma grávida, já mãe de quatro filhos mais velhos. Para agravar a situação o bebé ainda mamava quase exclusivamente e a diversificação alimentar apenas começara no mês anterior...

Estava com febre. O teste da malária foi positivo, infelizmente, compondo o quadro. Prescrevi-lhe tudo o que pude que o pudesse ajudar: antibiótico para a pneumonia óbvia, broncodilatador, antimalárico, polivitamínico, vitamina A em dose gigante. E uma solução de reabilitação nutricional. Os olhos do pai escureceram quando leu "desnutrição ligeira" na ficha do filho: "Nós damos tudo o que podemos, mas a comida é muito cara..."
 - Eu sei, pai...

 Foi difícil tratá-lo nestas circunstâncias. Eu fiquei horas à cabeceira do menino, com medo que me morresse ali mesmo... tenho sempre a fantasia de que se não arredar pé dali, a morte não se atreve a ir buscá-los. O menino melhorou lentamente. Veio novamente no final da minha estadia para se vacinar. Já tinha 9 meses. E o pai perguntou-me então:
- Lá em Portugal também há sarampo?
- Não, senhor professor, lá em Portugal não há sarampo.
- Mas como? Vacinam os meninos à nascença? Aqui em Moçambique só se vacina aos 9 meses.
- Não, em Portugal vacinamos aos 15 meses [Em 2003 o Programa Nacional de Vacinação era mais otimista do que agora e a nossa cobertura vacinal ainda maior...]
- Afinal?! Então como não têm sarampo?
- Todas as pessoas estão vacinadas. Não há sarampo em Portugal!

Os olhos dele brilharam, como se lhe tivesse confirmado que o paraíso existia na terra:
- Gostava de conhecer Portugal, Doutora. Deve ser um país lindo...
- Ora, professor, lindo é Moçambique! - respondi.

Mas nas semanas que mediaram estes dois episódios, tive alguns dos piores dias da minha estadia. A mãe do Ângelo tinha-o levado dias antes do seu agravamento à enfermaria das crianças desnutridas. Tinha lá ido levar umas roupinhas que já não lhe serviam para oferecer às mães dos bebés desnutridos. O filho tinha ido com ela, obviamente, às suas costas na capulana...

Já estão a imaginar o que aconteceu naqueles dias... O pior surto que já vi, entre os meninos mais vulneráveis de todos. O Padre José Maria ia desesperando... tanto esforço humano e económico para reabilitar aquelas crianças e uma doença maldita vinha agora dizimá-las. Ainda assim tivemos "apenas" 10% de mortalidade! E digo "apenas" porque o que dizem os livros é mortalidade de 50% em crianças desnutridas. Era essa a taxa de mortalidade no Hospital Central de Maputo... Ainda sei de cor, passados estes anos todos, o nome dos meninos que não resistiram apesar dos nossos esforços naqueles dias negros... 

Foi preciso ir a Maputo comprar mais antibióticos e mais antimaláricos e mais polivitamínicos e mais não sei quantos medicamentos para reforçar a reserva que quase se esgotou nos dois primeiros dias. Foi difícil convencer os responsáveis do distrito de que era necessário vacinar de emergência todas as crianças que ainda não tinham sido vacinadas. Demorou semanas a conter o surto... Mas graças ao esforço de todos, o surto apagou-se, tal como veio... 

Mas ainda nem posso acreditar que ontem uma adolescente foi ligada a um ventilador no meu hospital por esta mesma doença, anacrónica e maldita!

domingo, 16 de abril de 2017

[iapala revisitada] as flores do frangipani


Esta é a flor do frangipani, uma árvore de xicuembos* e xipocos**, a árvore dos deuses e dos antepassados, de flores românticas e perfumes noturnos... O frangipani tem as flores das manhãs claras, que vêm enfeitar os cabelos das jovens, das noivas, das virgens e os adros das igrejas nos dias felizes.
(Iapala, Nampula)

Como diria o meu amigo Lépido, nós não temos estilos, temos momentos... E eu também tenho direito a dias pirosos! Pronto, era só isto. Aqui no mato-que-já-não-é-mato não temos livro de reclamações. Nem mesmo o Sr. Pompisk, o maior comerciante da Zambézia tinha tal modernice! Para ele, se nos estiver a ouvir, aquele abraço. Tenham um bom dia e que a Páscoa  (ou a Primavera, o que vos disser mais) vos renove.

* Deuses
** Fantasmas

sexta-feira, 14 de abril de 2017

[outras palavras] psicanálise selvagem

Borges um dia sonhou que estava perdido num labirinto, angustiado com a ideia de ficar preso para sempre. No centro do labirinto constatou que estava um espelho, mas o rosto que reflectia não era o seu. Suspirou aliviado. Obviamente que o sonho era do outro. E, despreocupado, pôs-se a passear pelo labirinto... 
L. Veríssimo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

[psiquiatrices] uma crise de soluços improvável


Abril é o mês em que me lembro sempre, com um sorriso, desta improbabilidade que me aconteceu há já mais de 10 anos... Perdoem-me os que já leram e releram este post. Mas eu não resisto a contar de novo esta história...

O mentor espiritual desta blogger mulata certa vez teve uma crise de soluços. Nada há de extraordinário nisto, não fosse dar-se o facto de a crise ter sido desencadeada por um desgosto de amor e ter sido tão prolongada que o colocou em perigo de vida...

Dois dias depois do início da crise, exausto de tanto soluçar involuntariamente (sem nunca ter chorado, obviamente, que um homem não chora!) telefonou-me. A início não liguei nada. Que mal poderia advir de uma crise de soluços? Quase levei a peito. Mais valia que chorasse a sério no meu ombro e não deixasse o corpo chorar por si nesse chove-não-molha tão incomodativo. Retorquiu que não era nada disso. Estava com uma grande ansiedade, sim senhor, estava de coração partido, era verdade, mas que não tinha vontade de chorar. Tudo bem, respondia eu, que era certamente tudo verdade, que o Psiquiatra era ele, mas que isso era o corpo a chorar por ele, que viesse tomar café comigo que era o que fazia melhor... Não veio. De onde se conclui que um homem que não chora também não toma café com as amigas.

Mas no dia seguinte, depois de uma noite sem conseguir adormecer, ele estava uma lástima e com sensação de morte iminente. Com o otimismo que me caracteriza quando trato de pessoas de quem gosto e com os remorsos de quem tinha desvalorizado a situação clínica, comecei a pensar em coisas selvagens: um abcesso subfrénico, um tumor do tronco cerebral, uma neoplasia da pleura... Lá nos fizemos ao caminho para o hospital e, metodicamente, começámos numa ponta (na TAC de crânio, obviamente) e acabámos na eco abdominal. Nada. Saudável que nem um pêro, que um homem que não chora e que não toma café com as amigas também nunca tem nada de grave, ora essa, era só o que faltava.

Ficámos a olhar um para o outro... O que fazer a seguir? Seria desta, então, que íamos tomar café? Também não... Que a sensação de morte iminente não passava, que já quase não tinha forças, que se sentia mesmo mal, que estava quase a desfalecer. A sorte dele é que conseguia mesmo parecer o que dizia, respondi, de outra forma já estaríamos fora dali, na Versailles, a tomar café. E lá fomos para o laboratório fazer uma gasimetria. E qual não foi o meu susto, que ele estava com uma alcalose respiratória descompensada, com uma hipocaliémia e hipocalcémia (era grave, meus amigos, era grave...).

Pronto, já estava convencida. Que tínhamos de resolver aquilo (caraças para os homens que não choram, que são sãozinhos que nem um pêro, que não tomam café com as amigas e ainda por cima as deixam assim em situações difíceis) e só havia uma maneira: tinha de ficar internado e fazer uma injeção intramuscular de cloropromazina...

Que não, que nem pensar! Que me estava a esquecer que era Psiquiatra naquele mesmo hospital e que não podia ficar internado a fazer um antipsicótico. Nem que fosse life-saving. Ora, que como eu própria sempre dizia, ele que não se preocupasse, que mesmo que um Psiquiatra desse em doido nunca perderia a reputação entre os doentes. Nem mesmo entre os enfermeiros. Que não me fizesse de engraçadinha, que nem por sombras ficaria no hospital!

Estaria eu a ouvir bem? Para minha casa?! Nestas condições, se ocorresse alguma complicação havia risco de mortalidade (que 20% não era brincadeira!), mas foi inamovível. Ou em minha casa ou preferia morrer. Caraças para os homens que não choram mas que em situações destas se tornam drama-queens! (E vamos lá despachar a coisa, que a história já vai longa e a nossa vida não é isto!). Então resumindo, passei uma das piores noites da minha vida com ele a dormir placidamente, depois de os soluços terem passado. Doze horas depois, acordou muito bem disposto, embora a falar à "Prlesidente da Xunta" e a dizer que achava que se calhar precisava de um café para acordar...

De onde se conclui que os homens que não choram, também vão às vezes tomar café com as amigas, mas em pijama, depois de uma noite em casa delas... e só depois de uma dose valente de antipsicóticos..

[comentários que valem um post] diversidade familiar

A doce Maria Bê escreveu um comentário no post abaixo, sobre diversidade familiar.

A Mia, no ano passado, tinha uma coleguinha de escola a quem os meninos chamavam, quando se referiam a ela, "Faith, she has two moms". A Faith, vim a descobrir, era uma criança filha de meth addicts que foi violada aos três meses... uma história horrível. Foi adotada por duas enfermeiras da unidade de cuidados intensivos, que se apaixonaram por ela. (Fim de aparte que só dá contexto).

Para os meninos como os meus, privar de muito cedo com este tipo de realidades, desde a adopção convencional à adopção gay, é um privilégio, sabes. Quando começou a fazer perguntas sobre as barrigas, respondemos-lhe que todos os meninos precisam de um papá e de uma mamã para nascer, mas depois nascem no coração de outros pais, que ficam muito felizes com o poder cuidar deles. Não lhe faz impressão que uma mãe/pai fique sem/dê o seu bebé, o que é engraçado. Um dia mais tarde talvez faça mas por ora fica satisfeita. Um beijo!

terça-feira, 11 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #3

As Famílias Não São Todas Iguais

Este é um livro que ajuda a aplacar angústias e a normalizar a diferença. Põe o dedo na ferida, mas mostra muitas outras, e o mal de muitos alívio é. Quando os meninos perguntam: porque é que o João tem duas casas, a da mãe e a do pai? Porque é que eu não vivo com o meu pai? Porque é que eu tenho uma cor diferente da cor dos meus pais? Porque é que tenho duas mães? Porque é que fui adotado e os outros meus colegas não?

"As Famílias Não São Todas Iguais" ajuda os pais a responderem a todas estas questões e ajuda a criança a chegar à conclusão simples de que família é quem dá amor e quem ajuda a criar esperança!

Divórcio, família reconstruída, adoção interracial, monoparentalidade e adoção homoafetiva são contempladas lado a lado no livro.

A questão punha-se-me mais há uns anos, na altura em que era mãe solteira e me imaginava a responder a questões sobre a ausência do pai. Comecei cedo a ler este livro ao baby e planeava responder simplesmente: "as famílias são todas diferentes. Tu tiveste um pai e uma mãe, como toda a gente, mas depois, como não puderam cuidar de ti, eu fui pedir ao juiz para ser tua mãe para sempre. E agora a família somos nós!" Mas como somos uma família mais tradicional agora ainda não fez grandes perguntas sobre as famílias. Já sobre as barrigas... mas essa é outra história.

domingo, 9 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção #2



Os Ovos Misteriosos de Luísa Ducla Soares

"Os Ovos Misteriosos" é um livro maravilhoso, delicioso e absolutamente genial, ou não fosse da Luísa Ducla Soares. Faz parte do Plano Nacional de Leitura para leitura orientada no primeiro ano de escolaridade, mas da minha experiência pode ser lido a partir dos três anos. Mas, claro, nestas coisas não há como ler primeiro (ou ver o vídeo acima) e ver se o nível de desenvolvimento dos filhos se coaduna já com a compreensão do texto.

A história é de uma galinha órfã de filhos, a quem o dono roubava os ovos todas as manhãs. Até que, corajosa. decidiu ir para a floresta chocar um ovo sozinha. Passado pouco tempo, e de forma misteriosa, vários ovos apareceram no seu ninho: uns grandes, outros pequenos, uns mais claros, outros mais escuros. E todos os outros lhe perguntavam por que ia chocar ovos que não eram dela. E ela respondia. amorosamente, como todas as mães adotivas: estão no meu ninho, vão ser meus filhos! Embora admirada, chocou todos os ovos, dos quais viria a nascer uma insólita ninhada: um papagaio, uma serpente, uma avestruz, um crocodilo e também um pinto. Todos irmãos, e todos diferentes, formavam uma ninhada engraçada, que a mãe-galinha tinha dificuldade em controlar e em alimentar.

Mas no fim, numa grande aventura, todos, de modos também diferentes, defenderam o irmão pinto quando o viram ameaçado, dando sentido a todos os esforços da galinha.

Este é um livro em que a enorme ternura que o atravessa não impede o humor e o ritmo tão próprios desta autora. Para ser lido e relido e colocar e responder a perguntas sobre adoção, sobre as diferenças entre os irmãos e as necessidades de cada um e a forma como cada um deve ser tratado, não com igualdade, mas segundo as suas características. Pode ainda ser lido como uma abordagem à multiculturalidade ou à inclusão de crianças com necessidades especiais.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

[histórias para o baby-de-mulata] livros sobre adoção


A Mother for Choco (Comprei na Amazon)

Há muito poucas histórias sobre adoção dirigidas a crianças, infelizmente. Então livros em português são mais raros que um bom tratado de anatomia topográfica (brincando, ok, meus amigos?)... É uma lacuna grave, já que há tantas crianças adotadas em todo o mundo, e dez vezes mais crianças que, não sendo adotadas, têm contacto com crianças que o foram ou sofreram perdas semelhantes e poderiam elaborar melhor essas perdas através de uma história pedagógica e com final feliz. 

Quando o baby-de-mulata tinha dois anos e ainda estava na fase do repete-repete-repete-rotina, gostava sempre que lhe contasse a mesma história vezes a fio. Inventou nomes para cada uma das personagens (a minha preferida era o "porquinho-bifinho"), ria-se com as palhaçadas da mamã ursa e pedia-me vezes sem conta para fazer tarte de maçã.

Agora de vez em quando ainda pega nela e gosta de recordar e fazer perguntas. E eu também faço perguntas, embora ele a mim não me responda... Há vários níveis a que se pode ler a história e vários ângulos e perspetivas, desde a adoção interracial até à questão da monoparentalidade (ou não, podemos sempre imaginar que o pai estava a chegar a casa) e da partilha e diferenças entre irmãos.

terça-feira, 4 de abril de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #4

(Continuando a epopeia amorosa e trágico-burocrática, que já vai longa...)

Aviso à navegação: Esta parte é difícil e dolorosa. E não adianta grande coisa. Claro que quem vem aqui ao mato-que-já-não-é-mato, vem sempre à sua própria responsabilidade e ninguém é obrigado a ler nada do que está aqui, mas ainda assim deixo o aviso. Para não se queixarem. Este blogue não possui livro de reclamações. A parte boa, como diz a Zu, assídua visitadora e companheira de viagem, é que desta vez sabemos de antemão que a história acaba bem.

Passadas talvez duas semanas, ou menos até, tenho ideia, foi autorizado o meu estudo de caso pelo Senhor Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Dada a situação do menino, já com medida de adotabilidade decretada em tribunal e sem candidatos à vista, o estudo foi considerado prioritário. Fui então chamada para a primeira entrevista. Ia receosa. Sabia que me iria sujeitar a um escrutínio de toda a minha vida pessoal, passada e atual. Isso estava bem patente no questionário de 40 páginas que já tinha preenchido, em que tudo era perguntado, desde relações amorosas atuais e anteriores até à vida familiar e profissional atual.

Mas a equipa era extraordinária, humana e profissional. Não estava à espera que tivessem lido tudo com tanta atenção, sabiam exatamente o que já tinha respondido no questionário e o que faltava esclarecer, poupando-me à exaustão da repetição. No fundo, apesar de toda a minha vida ter sido desfilada naquelas horas, senti que acabou por ser mais uma conversa amigável do que um escrutínio desconfiado das minhas intenções. Estavam inicialmente curiosas de qual a razão que me levava a querer levar para casa uma criança com tantos problemas, mas perceberam que eu estava perdidamente apaixonada. E que sabia ao que ia. Eu já tinha tido uma quase-experiência de adoção do meu menino Gaiato. E quando se teve um menino que morreu, tudo o que se pode pedir é um que não morra. Apenas e só. Lembravam-se bem de outros dois casos de meninos, que entretanto, por felicidade do destino e inteiramente por acaso, são agora meus doentes, em que as mães adotivas se tinham vindo candidatar nas mesmas circunstâncias. Ambos casos de sucesso. Portanto não foi difícil perceberem o que me movia e que tinha perfeita noção do que implicava a minha decisão.

Saí da Santa Casa horas depois, com o coração mais leve e com a certeza de que mais um passo estava dado. Mas no dia seguinte recebi um telefonema do Centro de Acolhimento onde estava o meu menino, que me deitou novamente as esperanças por terra: a equipa de adoções local não via com bons olhos as minhas visitas ao menino e não permitia que o fosse visitar antes do meu processo estar concluído. Assim sem mais, como se houvesse algo de interdito e ilegal nas minhas intenções.

Dois passos para trás! E logo nessa altura, em que já se viam pequenos sinais de melhoria no menino. Já ficava mais calmo na minha presença, já não passava o tempo todo a abrir e fechar a janela, já sorria de vez em quando com as minhas palhaçadas, já olhava ocasionalmente para os brinquedos que lhe levava. Nem queria acreditar... por mais voltas que desse à cabeça não conseguia perceber em que sentido é que as minhas visitas o poderiam prejudicar. Mesmo que viesse a estabelecer alguma relação mais forte e privilegiada comigo, isso não seria diferente da relação que estabeleceria com os técnicos ou as funcionárias da instituição ou até mesmo com a educadora do jardim de infância que entretanto tinha começado a frequentar. Que mal poderia fazer ao menino que uma pessoa fosse exclusivamente visitá-lo frequentemente? Apenas a ele, que era mais um entre tantos? Só poderia fazer bem... Mas não havia volta a dar. A própria diretora do Centro de Acolhimento também estava desolada com o meu desapontamento. Desde que me conhecera que tinha ficado a torcer por mim, acabou por me dizer depois... Não sabia o que pensar... Nos dias seguintes tentei fazer várias diligências, apelar ao bom-senso de quem de direito, mas em vão...

(continua...)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

[o que vês da tua janela, beijo de mulata?] autismo e consciência


Ao fundo, bem antes da linha do horizonte, adivinha-se o Cristo Rei pintado de azul, por ser o dia mundial da consciencialização do autismo.

A propósito do tema, e porque tem um menino na turma com autismo, o baby interessou-se pelo assunto. Expliquei-lhe o que sente um menino com autismo perante os estímulos normais do dia-a-dia. E perguntou ele, sempre com as suas preocupações metalinguísticas:
- Mas porque é que se chama, autismo, mãe? Devia chamar-se "esmagadismo", porque os meninos se sentem esmagados pelos sons, pelas luzes e pelas caras das pessoas.
- Pois, mas como é muito difícil para eles perceberem o que as outras pessoas estão a sentir ou a tentar comunicar, ficam muito fechados em si mesmos, daí o nome autismo, ou seja, "em si mesmo", percebeste?
- Mãe, eu tinha autismo quando era pequeno? [De facto, em tempos teve esse diagnóstico...]
- Não, querido, quem te disse isso?
- Ninguém, mãe, é só que me lembro que quando era pequeno era tudo muito forte para mim. [Como é que é possível, valha-me Deus, que ele tenha consciência disso?]
- Não filho, claro que não, é só que eras muito bebé...
- E o autismo passa?
- Às vezes, quando é muito fraquinho, pode passar. Outras vezes só melhora mas não passa.
- Como o João? Ele já está muito melhor, agora até já fala e antes não falava.
- Sim, como o João, filho. Boa noite.

sexta-feira, 31 de março de 2017

[outras palavras] hoje apetece-me...


"Não há nada de mais parecido com a musicoterapia do que a culinária! Mas é impossível uma pessoa chegar a casa e pensar: «Agora vou por um sabor a cabrito assado...», por isso temos a música."
Maestro Virgílio Caseiro. Conferência em Coimbra (Citado de memória).

E por falar em prazeres e sabores, hoje estava mesmo com saudades da xima de Moçambique. Não a tradicional xima de milho, mas a que as irmãs faziam na Zambézia, Moçambique, com mandioca, coco e açafrão... Ou melhor, quem fazia era o senhor Ramos, o cozinheiro, que todos os dias subia ao coqueiro para ir buscar o tempero mais especial e único da comida zambeziana... Parece que os sabores, os cheiros e a música são o que de mais visceral nos liga às memórias de afeto... E melhor do que cozinhar, só cozinhar ao som de cânticos africanos.

segunda-feira, 27 de março de 2017

[vozes brancas*] uma corrida de automóveis



Há poucos dias, na escola, chamei à atenção o baby-de-mulata porque não deveria tratar a diretora do colégio por tu. Delicadamente e meio na brincadeira, claro, que o caso não era para zangas e o baby é ultrassensível  aos meus estados de espírito:

- Querido, é "Onde vai, Irmã?" e não "Onde vais?".
- Ah, onde vai, Irmã?

Mudou de imediato o registo para a terceira pessoa e assim continuou, o que a deixou orgulhosa do seu "neto" (a diretora foi minha educadora quando eu era criança).

Horas depois, lá em casa, o baby falou-me no assunto. Pelos vistos, do alto dos seus cinco aninhos já fica a matutar em questões (mais parecido com sua mãezinha não poderia ser, caramba!, é isso e a tendência para inventar teorias sobre tudo... epigenética rules!):

- Mãe, desculpa ter tratado a Irmã por "tu".
- É normal, querido, ainda não estás habituado. Os crescidos estão mais habituados do que as crianças.
- Pois, eu sei que tenho de a tratar por "Irmã", mas é como se fosse uma corrida de carros... Eu vou explicar: o "tu" é um Ferrari mal-criado e "Irmã" é um carro normal. Por isso, quando eu falo, o Ferrari atropela o carro normal, faz batota e chega sempre primeiro.
- Sim, mas depois o carro normal chegou e tomou conta da corrida. E estiveste muito bem.
- [Sorriu, aliviado] Ah, está bem, mãe, então só tenho de praticar mais...

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sexta-feira, 24 de março de 2017

[vozes brancas*] as 10 melhores razões pelas quais a fada dos dentes não veio ontem à noite

Esta manhã, Nuno Markl descreveu na sua página no facebook mais um pequeno drama familiar, daqueles mesmo FWP (first world problems), mas que me fez rir. Afinal de contas é aqui que vivemos e todos temos algo a dizer de viva voz.


O meu filho perdeu mais um dente, mas acordou tão cedo que não me deu tempo de preparar a operação fada dos dentes. Logo, o dente não desapareceu de debaixo da almofada e o brinde da fada ainda está dentro da minha mochila. Se alguém tiver ideias para ajustar o mito a esta situação, força. Eu estou prestes a usar o clássico "a fada sou eu" pela 2ª vez. Da 1ª vez ele não acreditou - achou que era muito forçado...

E o que se seguiu foi muito simples, meus amigos, um chorrilho de comentários bem dispostos, alguns deles absolutamente fantásticos, que poderemos utilizar na nossa economia de recursos familiares. E o que eu me diverti a ler os comentários! Descobri soluções para todos os tipos de famílias e crianças. Eis as top 10:

1 - Para quem tem filhos desarrumados: "Diz-lhe que provavelmente a fada dos dentes não conseguiu encontrá-lo a ele ou à almofada dele no meio da desarrumação do seu quarto... fiz isso à minha filha e resultou. Na noite seguinte havia instruções espalhadas pelo quarto para garantir que a fada não se perdia. E o quarto estava um primor!"

2 - Para os pais criativos e doces, com filhos ainda na fase do pensamento mágico (autoria da Maria Bê): "Escreve um bilhete da fada a dizer que não conseguiu pegar no dente porque era muito pesado e bonito. É que ela é muito pequenina. Hoje traz ajudantes... Simula que o encontras perdido algures. A nossa fada dos dentes escreve imenso e conta coisas mirabolantes."

3 - Para pais de futuros jornalistas: "A fada foi para o Lux ontem (diz que é a melhor noite da semana para ir ao Lux) e adormeceu num Uber qualquer a caminho de casa, e terá sido assassinada numa mata na zona da Fonte da Telha. Visto que é sexta-feira, o enterro agora só lá para terça, e entre concurso público para a posição, avaliação de CV, testes físicos e entrevista, só lá para final de abril é que haverá nova fada colocada. Diz-lhe que há que ter paciência, o mundo não gira à volta dele, e que a família da fada neste momento está a tentar lidar com a dor e há que respeitar." Perfeito!

 4 - Para os pais que querem que os filhos acreditem durante toda a infância e, já bem entradotes na pré-adolescência, passem a vergonha das suas vidas quando lhes caírem os molares: "Isso aconteceu-me numa fase em que a minha andava desconfiada da existência da fada e eu disse: «Estás a ver, desconfias da fada ela não aparece, ela precisa que os meninos acreditem nela»... Ficou aflita. No dia seguinte lá estava o brinde. «Estás a ver, tens de acreditar para ela não ficar triste e conseguir voar». Nunca falha!"

5 - Para os que querem criar filhos intelectuais de esquerda: "A fada está desmotivada. Há muitos anos que não tem aumentos e tem cada vez mais trabalho, pelo que com a noite de chuva que esteve, a fada adiou os trabalhos e irá fazê-los durante o dia sob melhores condições climatéricas. Já basta ganhar mal, quanto mais trabalhar à chuva! Ainda estraga as asas..."

6 - Para os que gostam de ver o CSI com os filhos: "O meu filho andava chateado com a fada pois andou dois dias à espera. Então, quando ele reclamou, eu agarrei nuns trocos e disse: «Não pode ser, vamos investigar!» e, enquanto ele procurava, pus o dinheiro debaixo do colchão e fingi que o descobri: «Olha!, deve de ter caído e tu não deste por ela!» Funcionou!"

7 - Para os filhos dos dentistas, pediatras e pessoas em geral preocupadas com a higiene oral (eu própria já deixei bilhetes deste género ao baby-de-mulata): "Diz que a fada esteve a analisar o estado do dente e teve de o submeter à apreciação do conselho de peritos. Depois deixa um bilhete a elogiar o estado impecável do esmalte, que bem escovado que estava! Termina por  deixar uma nota de encorajamento para continuar a tratar tão bem os dentinhos".

8 - Para os futuros meteorologistas: "Com a seriedade que o assunto exige: Diz que a protecção civil emitiu alerta laranja para todas as fadas do país por causa do mau tempo... Está retida num aeroporto de fadas qualquer!"

9 - Para os que querem criar filhos empáticos, doces e compreensivos: "Disse à minha filha que a fada naquela noite tinha tido muitos meninos para visitar e que não tinha conseguido chegar a nossa casa antes do amanhecer... Ela respondeu: «Não faz mal mãe, pode ser que esta noite ela tenha tempo!»

10 - Por fim, last but not the least, para os que estão a criar um cientista: "Conheço um blogger famoso a quem aconteceu o mesmo. Nessa manhã a filha acordou desolada (ao que parece não tinha informado os pais que o dente tinha caído portanto os pais não tinham tido oportunidade de providenciar a troca do dente). O pai então, diligentemente, foi mudar a entrada da Wikipedia sobre a Fada dos Dentes, referindo que a fada vem um OU DOIS dias depois da queda do dente. Depois foram os dois "fazer uma pesquisa" e apresentou à filha uma explicação cabal e científica do atraso." Delicioso!

* Vozes brancas - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quarta-feira, 22 de março de 2017

[um flamenco em paris] outras guitarras


Não se consegue não ficar viciado neste som! Obrigada por mais esta obra-prima!

domingo, 19 de março de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #3

(continuando a minha história de amor...)

Imagem obviamente da web...

Dias depois da saga na Santa Casa voltei ao centro de acolhimento temporário. O menino já tinha começado a frequentar o jardim de infância, mas nem por isso estava mais integrado, mais aberto a comunicar ou a confiar nas pessoas que o rodeavam... Já era mais fácil de cuidar, mas as preocupações continuavam as mesmas: não olhava nos olhos, não comunicava de forma nenhuma, não se interessava por brinquedos nem fazia qualquer esforço para os alcançar, parecia absorto no seu mundo, abria e fechava portas e janelas sempre que tinha oportunidade de as alcançar. Dessa vez e das vezes seguintes a cena da primeira visita repetia-se, deixando-me cada vez mais preocupada e triste.

Eu tinha estado a pensar e, já que o menino abria e fechava portas compulsivamente, talvez se interessasse por outro tipo de movimentos no ar, como o das bolas de sabão e dos balões, que quando os soltamos fazem movimentos irreverentes e imprevisíveis. Levava bolas, balões, brinquedos com luzes e música. Tudo para ver se o interessava noutra coisa que não a malfadada janela daquela sala de visitas. Mas eram frações de segundos... Tudo era demasiado intenso, demasiada informação, demasiado assustador. O calor era imenso, o que o deixava irritado, transpirado e a mim exausta. Afastava-se de mim ostensivamente, pesando-me cada vez mais no colo, por vezes aceitava água no biberão, mas não me deixava dar-lhe, tirava-mo da mão para beber sozinho. De todas as vezes fiz de tudo para captar a sua atenção, mas nada. Nem cantando, nem ficando calada, nem apontando para os carros que passavam na rua, nem fingindo que íamos cair...

Até que certa vez tenho ideia de ter começado a escurecer. Não sei bem como, se era julho e eu só tinha duas horas de visita (mais porque as funcionárias amorosamente fechavam os olhos), mas não eram horas de anoitecer, disso tenho a certeza... talvez uma nuvem tivesse tapado o sol, não me lembro. Sei que começou a escurecer. Eu já estava exaurida e ele cheio de sono, quando lhe peguei na mão e acendi a luz com os seus dedos moles e sem vontade... mostrei-lhe com entusiasmo que tinha sido ele a acender a luz, saltei e festejei aquele "feito". Miraculosamente, aqueles saltos e festejos tiveram o condão de o fazer sorrir pela primeira vez. Apaguei a luz com a mão dele. Mostrei-lhe que a luz se tinha apagado e depois acendemo-la novamente. O menino saltou-me no colo de imediato, como quem diz: "Então, salta, como fizeste há pouco!". Saltei novamente e ele sorriu de novo, agora numa gargalhada. Eu estava estupefacta! Como era possível um milagre destes, tão gratuito e tão simples? Ah... a força que um sorriso pode ter!

Então, mas... bastava saltar para o fazer rir?! Mas não tinha muito mais tempo, estavam quase a vir buscar o menino... continuei a abrir e a fechar a luz e a saltar com ele ao colo até que parei de propósito. Olhei para ele e, por um instante, cruzou os olhos com os meus. Pegou-me na mão e acedeu com ela o interruptor... Pela primeira vez parecia estar a dar conta da minha presença, a "instrumentalizar-me" eu sei, mas pelo menos a manifestar uma vontade... Pela primeira vez senti que afinal não era louca em ter esperança e em ignorar os cochichos das funcionárias: "Mas ela é médica, ela deve perceber que ele não é normal. Deve saber o que está a fazer e o que quer levar para casa..."

(Continua, pois, que não acabou mesmo!)

domingo, 12 de março de 2017

[histórias de amor] as visitas ao baby-de-mulata #2



Há tempos comecei a contar a história do longo caminho que levou o meu baby até casa, antes de nos tornarmos família. Mas é sempre difícil escrever sobre momentos tão dolorosos, por isso me tenho esquivado a continuar a história. Mas hoje lá me decidi a continuar um pouco mais.

Nesse primeiro dia de visita à instituição, no final a funcionária pegou no menino ao colo e perguntou-me:
- É a senhora que quer adotar o menino?
- [Estranhei a pergunta. Eu não tinha feito constar no hospital que o queria adotar. Mas também não tinha pedido segredo às poucas pessoas que se tinham apercebido, talvez alguém tivesse comentado com alguém...] Sim, eu queria muito adotá-lo.
- Então se faz favor, fale com a nossa diretora, ela disse-me para lhe ligar se a pessoa aparecesse.

Peguei então no telefone, com a voz trémula. A diretora do CAT, do outro lado da linha, com voz viva e delicada perguntou-me:
- É o casal que quer adotar o menino?
- Eu quero adotá-lo, sim, mas deve haver algum engano, eu sou solteira, não sou casada.
- Ah [o tom de voz tinha mudado], é que me tinham dito que havia um casal interessado. Mas até agora não apareceram, nem deram sinal. E a senhora, conhece o menino de onde?
- Sou médica no hospital onde ele esteve.
- E está inscrita na Segurança Social como candidata a adoção?
- Ainda não, mas estou tratar disso.
- Então tem de tratar do assunto. E venha um dia destes falar comigo.
- Está bem.

Combinámos o dia e fui para casa com o coração apertado. O menino podia não ter olhado para mim, podia ter tido uma regressão de desenvolvimento, podia não recuperar, eu sabia, mas ele estava num sofrimento atroz e eu continuava apaixonada por ele. Era como se fosse um amor de adolescente. Daqueles não correspondidos e espinhosos, mas não tinha vontade nenhuma de desistir. Aquele menino esperava por mim, eu sentia-o desde o primeiro dia.

Na semana seguinte consegui finalmente reunir os papéis todos necessários para apresentação da minha candidatura a adoção na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e dirigi-me para lá (nos entretantos tinham-me roubado a carteira e tinha tido de ir refazer todos os documentos pessoais, para além da imensidão de documentos e certidões necessários adicionais). A assistente social do serviço de adoções que me atendeu foi muito prestável e informou-me de que sim senhora, eu tinha todos os papéis, mas que o sistema não funcionava assim. Primeiro tinha de ir à "Formação A" e só depois me poderia aceitar os papéis da candidatura. E que, by the way, o processo não era assim tão simples no meu caso, mas que depois me haveriam de esclarecer (eu bem vi que tinha franzido o sobrolho quando lhe tinha dito que me candidatava para uma criança específica... ou teria sido quando lhe disse que sim, que era solteira - ela tinha-me perguntado "É sozinha, não é?", mas não conseguia lidar com tanta informação ao mesmo tempo).

Ai, valesse-me Nossa Senhora, então tantos dias na Loja do Cidadão e ainda estava na estaca zero? E o que era isso de Formação A? Era a primeira das formações obrigatórias. E e também havia a B e a C, se queria saber, informou-me a assistente social, mas que isso eram já segundas núpcias. Eu que não me preocupasse, estava com sorte, haveria uma formação já agendada para a semana seguinte e, depois de um período de uns dias, que era obrigatório para poder pensar, poderiam aceitar-me os papéis. O atestado médico que eu tinha é que estava errado. Era preciso outro onde o médico atestasse que eu não sofria de cancro, infertilidade, doença psiquiátrica, etc. (já não me lembro bem) e deu-me a minuta para poder ir pedindo consulta no meu médico assistente.

Pedi dispensa no serviço para ir à bendita Formação A, a tal que abriria as portas para me poderem finalmente aceitar os papéis da candidatura. O meu chefe chamou-me: "Tu és uma mulher de armas, eu sei, mas já pensaste bem no que te vais meter?" "Já doutor, já pensei." "Então vai, rapariga!" Nisto já se tinham passado duas semanas desde a visita ao baby e chegou o dia da Formação. Uma sessão de esclarecimento em que bem mais de metade dos candidatos desistiram e não chegaram a entregar os papéis. Nessa mesma sessão era suposto preenchermos um questionário de 40 páginas com perguntas abertas do tipo: "Descreva sucintamente o seu percurso de vida e as razões pelas quais gostaria de adotar uma criança". Tinha 10 ou 20 linhas para responder a cada pergunta. Enfim, era o que tinha de ser feito. Depois dos dias regulamentares da "moratória", fui entregar os papéis. Ou melhor, pensava eu que ia "entregar os papéis". Mas o que se passou foi muito diferente:

Tive a sorte de encontrar uma pessoa extraordinária. Esta assistente social também franziu o sobrolho, tal como a anterior, quando lhe disse que me candidatava para adotar uma criança específica. Ao que parece a anterior não me tinha dito nada porque imaginou que eu desistiria nos entretantos, como mais de 80% das pessoas que os procuram num primeiro momento, e que portanto não precisaria de me explicar que o sistema não funcionava assim. E não pode funcionar, claro. Eu sei e sempre tive consciência de que não pode funcionar assim. As pessoas inscrevem-se e ficam em lista de espera e não podem passar adiante de ninguém que já se tenha inscrito há mais tempo. Nem me poderia ser atribuída qualquer vantagem por já ser "amiga voluntária" da criança. Assim qualquer um que tivesse acesso a hospitais, maternidades ou centros de acolhimento poderia ter vantagem. Fiquei gelada, mais uma vez. Tanta esperança para nada... Por um lado era o fim das minhas esperanças, mas por outro lado podia ser um alívio para o calvário que se adivinhava, com uma perturbação tão grave do desenvolvimento que o baby tinha... Ficaria dispensada dessa espinhosa cruz que me tinha proposto carregar... Mas não, não estava certo, não podia estar certo! Aquele era o meu menino, eu sabia-o desde o primeiro dia no hospital! Não era uma cruz, eu sempre tinha rezado por um menino que me caísse nos braços, mas para me cair nos braços tinha de ser um menino que mais ninguém quisesse! E não estava a ver mais ninguém a querer adotá-lo! Não podia baixar os braços.

- Mas eu não estou aqui para enganar ninguém - respondi, depois de vacilar -, eu estou aqui porque acho que ninguém vai querer adotar o menino. Ele tem vários problemas de saúde e todos graves. E tem uma perturbação de desenvolvimento. Eu quero muito ser mãe dele, é verdade, mas acho que provavelmente sou a única candidata nestas circunstâncias.

A assistente social franziu o sobrolho mais uma vez, fazendo o mundo cair-me aos pés de novo, mas em vez de me "despachar" com um "mas isso é ilegal e ponto final", resolveu dar-se ao trabalho de ir averiguar os factos. E estou-lhe eternamente grata por isso. Regressou mais de 45 minutos depois, após vários telefonemas, com a informação de que o que eu dizia era verdade.

- Tem razão, para esta criança não se vislumbram candidatos. Mas isto é até à data. Se entretanto aparecer mais alguém a situação poderá modificar-se. E só podemos fazer o estudo do seu caso com autorização do Senhor Provedor da Santa Casa.
- [Ah, finalmente, uma esperança!] Mas claro, quem pode pedir autorização? Sou eu? Eu peço!
- Sim, mas tenha calma. Vamos aceitar a sua candidatura, depois falamos sobre isso, por acaso o seu processo vai ser para a minha equipa. Vamos então marcar a primeira entrevista...

Nesse dia, depois de tantos momentos estranhos e tantas emoções contraditórias, cheguei a casa cheia de esperança... Talvez fosse mesmo verdade que o baby me estivesse destinado. Talvez não fosse só um devaneio, talvez fosse mesmo o meu sonho a tornar-se realidade!

(Há-de continuar...)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

[bullying no jardim de infância] histórias de fora de casa

Correu tudo bem, felizmente, obrigada pelo vosso apoio e preocupação. No dia seguinte estivemos a treinar o que fazer e o que responder em caso de novas investidas do pequeno bully lá da escola. Teatro cá em casa até à hora de dormir:

- Vá, baby, faz uma cara feliz. E agora uma cara triste. E agora uma cara de corajoso! Boa!

E ele lá ia fazendo as caras e nós quase nos desmanchávamos a rir.
- E que cara achas que poderias fazer se ele viesse outra vez para te bater?
- Uma cara de corajoso!
- Isso, vamos a isso! E agora o que podes dizer?
- Não me podes bater, ou nunca mais brincas comigo!
- Boa, mas desviaste os olhos, assim ele não te leva a sério. Tens de olhar para a cor dos olhos dele, vamos, olha para a cor dos meus olhos e diz!

E o papá tirava-lhe um brinquedo à má fila e ele olhava-o nos olhos com "cara de corajoso":
- Alto aí, aguenta os cavalos! Eu é que estava a brincar com isso!
- Boa, filho!

Quando o fui buscar à escola perguntei como lhe tinha corrido o dia.
- Correu bem, mãe, quando o B. veio para me bater eu olhei para a cor dos olhos dele e disse-lhe "as regras".
- [Fiquei espantada, não tínhamos falado em regras] - Que regras?
- Disse que se me batesse eu ia chamar o meu pai, que era o chefe das tropas e que nunca mais brincava comigo!
- [O chefe das tropas? Mas de onde é que isto veio?] E ele?
- Ele ficou a olhar e depois fugiu. Mas depois veio perguntar-me se eu queria brincar às preguiças.
- Ah... e tu?
- Eu fui brincar com ele.
- E depois?
- Brincámos às preguiças ao pé do escorrega. E depois às escondidas...

Ah, a beleza da infância! A vida é simples, felizmente... Ainda é cedo, eu sei, mas já se passaram dias e nem mais uma queixa!