Abril é o mês em que me lembro sempre, com um sorriso, desta improbabilidade que me aconteceu há já mais de 10 anos... Perdoem-me os que já leram e releram este post
. Mas eu não resisto a contar de novo esta história...
O mentor espiritual desta
blogger mulata certa vez teve uma
crise de soluços. Nada há de extraordinário nisto, não fosse dar-se o
facto de a crise ter sido desencadeada por um desgosto de amor e ter
sido tão prolongada que o colocou em perigo de vida...
Dois dias
depois do início da crise, exausto de tanto soluçar involuntariamente
(sem nunca ter chorado, obviamente, que um homem não chora!)
telefonou-me. A início não liguei nada. Que mal poderia advir de uma
crise de soluços? Quase levei a peito. Mais valia que chorasse a sério
no meu ombro e não deixasse o corpo chorar por si nesse chove-não-molha
tão incomodativo. Retorquiu que não era nada disso. Estava com uma
grande ansiedade, sim senhor, estava de coração partido, era verdade,
mas que não tinha vontade de chorar. Tudo bem, respondia eu, que era
certamente tudo verdade, que o Psiquiatra era ele, mas que isso era o
corpo a chorar por ele, que viesse tomar café comigo que era o que fazia
melhor... Não veio. De onde se conclui que um homem que não chora
também não toma café com as amigas.
Mas no dia seguinte, depois
de uma noite sem conseguir adormecer, ele estava uma lástima e com
sensação de morte iminente. Com o otimismo que me caracteriza quando
trato de pessoas de quem gosto e com os remorsos de quem tinha
desvalorizado a situação clínica, comecei a pensar em coisas selvagens:
um abcesso subfrénico, um tumor do tronco cerebral, uma neoplasia da
pleura... Lá nos fizemos ao caminho para o hospital e,
metodicamente, começámos numa ponta (na TAC de crânio, obviamente) e
acabámos na eco abdominal. Nada. Saudável que nem um pêro, que um homem
que não chora e que não toma café com as amigas também nunca tem nada de
grave, ora essa, era só o que faltava.
Ficámos a olhar um para o
outro... O que fazer a seguir? Seria desta, então, que íamos tomar
café? Também não... Que a sensação de morte iminente não passava, que já
quase não tinha forças, que se sentia mesmo mal, que estava quase a
desfalecer. A sorte dele é que conseguia mesmo parecer o que dizia,
respondi, de outra forma já estaríamos fora dali, na Versailles, a tomar
café. E lá fomos para o laboratório fazer uma gasimetria. E qual não
foi o meu susto, que ele estava com uma alcalose respiratória
descompensada, com uma hipocaliémia e hipocalcémia (era grave, meus
amigos, era grave...).
Pronto, já estava convencida. Que tínhamos
de resolver aquilo (caraças para os homens que não choram, que são
sãozinhos que nem um pêro, que não tomam café com as amigas e ainda por
cima as deixam assim em situações difíceis) e só havia uma maneira:
tinha de ficar internado e fazer uma injeção intramuscular de
cloropromazina...
Que não, que nem pensar!
Que me estava a
esquecer que era Psiquiatra naquele mesmo hospital e que não podia ficar
internado a fazer um antipsicótico. Nem que fosse
life-saving.
Ora, que como eu própria sempre dizia, ele que não se preocupasse, que
mesmo que um Psiquiatra desse em doido nunca perderia a reputação entre
os doentes. Nem mesmo entre os enfermeiros. Que não me fizesse de
engraçadinha, que nem por sombras ficaria no hospital!
Estaria eu
a ouvir bem? Para minha casa?! Nestas condições, se ocorresse alguma
complicação havia risco de mortalidade (que 20% não era brincadeira!),
mas foi inamovível. Ou em minha casa ou preferia morrer. Caraças para os
homens que não choram mas que em situações destas se tornam
drama-queens!
(E vamos lá despachar a coisa, que a história já vai longa e a nossa vida não é isto!). Então resumindo,
passei uma das piores noites da minha vida com ele a dormir
placidamente, depois de os soluços terem passado. Doze
horas depois, acordou muito bem disposto, embora a falar à "Prlesidente
da Xunta" e a dizer que achava que se calhar precisava de um café para
acordar...
De onde se conclui que os homens que não choram,
também vão às vezes tomar café com as amigas, mas em pijama, depois de
uma noite em casa delas... e só depois de uma dose valente de
antipsicóticos..