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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

[vozes brancas] o anjo-de-mulata ou a alegoria da autonomia

Há dias, no colégio do baby-de-mulata, tivemos mais um TPC dos tais que me assustam e me deixam sempre a tremer com a sensação de "mas agora como é que eu vou pegar nisto, valha-me-Nossa-Senhora-e-o-Menino-e-tudo-e-tudo-e-tudo, mas esta gente julga que eu consigo fazer alguma coisa das minhas mãozinhas que não seja palpar barrigas e passar receitas?"...

Nestas alturas vêm-me sempre recordações dos suores frios das aulas de educação visual e de trabalhos manuais, em que achava que não ia conseguir fazer o que me era pedido e em que tudo era tudo muito penoso. Mas, enfim, lá acabava por achar uma solução: fazia composições com os pintores surrealistas, procurava inspiração em revistas e enciclopédias, copiava, imprimia, texturava... tão diferente de alguns colegas que faziam tudo de forma espontânea e criavam com as suas mãos em minutos o que me demorava horas a planear... No final dos períodos os professores acabavam sempre por me dar 5 "porque era muito esforçada e muito criativa, muito cumpridora e muito motivada". Nas informações finais apareciam todos os elogios mas jeito era mesmo o que eu não tinha de todo... E gosto então... zero! Quando cheguei ao 10º ano pensei que estava livre para sempre. Até o baby-de-mulata ter ingressado no jardim de infância...

Ora desta feita tínhamos um anjo para fazer a partir de... um rolo de papel de cozinha!

Com ar de pânico, desabafei com a auxiliar da sala, que foi a minha auxiliar também quando eu própria andei naquele colégio: "Ah, e agora? Será que vou ser capaz?" "Claro que és capaz!" (Ainda me trata por tu, aquela fofura...) E foi então que me enchi de brios e lá planeei a empreitada. O problema eram as asas. Mas como é que se faziam umas asas de anjo?! Foi então que me veio a solução: o meu anjinho seria um anjinho-engenhocas e em vez de asas teria...bem... outra coisa! O baby-de-mulata adorou a ideia e ajudou-me a inventar uma história, que fez vibrar os amiguinhos:


"Era uma vez um anjinho pequeno chamado anjo-de-mulata, que vivia com a mãe, a anja Rafaela, o pai, o anjo Gabriel e o irmão mais novo, o anjinho Miguel. [Aqui houve algum desentendimento inicial, dado que o baby-de-mulata queria que o irmão se chamasse Mr. B, e a mãe queria que se chamasse David, pelo que acabou por se chamar Miguel, como conforme as escrituras].

O anjo-de-mulata era um anjinho muito bem disposto e alegre, que adorava voar pelos céus, sobre o mar, atrás das gaivotas. Também adorava fazer coro com os pássaros da floresta, tocando trompete e, todos os dias, ao fim da tarde, ia jogar à bola, entre as nuvens, com as andorinhas que sobrevoavam o rio. Todas as manhãs, antes de sair de casa, os pais do anjinho recomendavam-lhe: “Não voes muito perto do sol, meu querido, voa baixinho porque as tuas asas ainda foram coladas há pouco tempo e a cola pode derreter com o calor do sol”. E, claro, o anjo-de-mulata tinha sempre cuidado quando o sol estava muito rijo, e só começava a voar mais alto ao fim da tarde, depois de o sol se pôr.

Até que um dia, distraído atrás de uma gaivota divertida, voou um pouco mais para cima e não reparou que o calor do sol lhe estava a derreter as asas… Quando deu conta que as asas estavam a cair já era tarde demais e… catrapum! As asas caíram e o anjinho, não tendo onde se segurar, caiu também, desamparado no chão. A sorte foi ter caído sobre um monte de roupa que as senhoras à beira do rio estavam a lavar e rebolou para a relva [aqui a história também difere da história de Ícaro porque o baby não concordou que o anjinho caísse no mar porque nada nos garante que os anjinhos saibam nadar, e a água do mar é muito fria. Por isso, preferiu rebolar para a relva porque é mais fofinha…]

A partir desse dia, o anjo-de-mulata deixou de conseguir voar. Mas o pai, Gabriel, fazia tudo para que ele não se sentisse sozinho: andava com ele às cavalitas pelo céu adentro, jogava com ele à bola todas as tardes depois da escola, com o pequeno anjo a guiar: “Pai, mais para a esquerda, pai, mais para a direita, olha ali atrás da nuvem, vem aí a andorinha avançada, ora bolas, golo!” Mas o pai às vezes atrapalhava-se e em vez de ir para a esquerda ia para a direita e os golos acabavam por entrar na sua baliza. E o pior era que o anjo-de-mulata estava a crescer e a ficar muito pesado. E o pai estava a ficar velho e cansado… O anjo-de-mulata só pensava: “Se eu pudesse voar sozinho não precisava de estar sempre à espera do meu pai, a cansá-lo, às cavalitas dele, podia voar como eu quisesse e brincar onde e quando me apetecesse…”

E foi então que o anjo-de-mulata começou a pensar. E pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia brilhante:

- Pai, eu não posso voar como um pássaro porque já não tenho asas… mas há mais coisas que voam, não há?
- Sim, meu filho, há mais coisas que voam: aviões, helicópteros, balões…
- Sim, pai! Tenho uma ideia, se eu não posso voar como um pássaro, talvez possa voar como um helicóptero. Basta pôr uma hélice no lugar das asas!

E foi então que o anjo-de-mulata se transformou num anjo-a-jacto, bem disposto, veloz e feliz!"

Feliz Natal a todos!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

[vozes brancas] o infinito...

Pergunta-me o baby-de-mulata, acabado de acordar, espreguiçando-se com um ar muito pensativo, enquanto recebia a minha massagem de acordar (a massagem-de-pôr-o-bacalhau-no-esqueleto, como a minha mãe lhe chamava):
- Mãe, o que há para além do universo?

(Ai, valha-me Santo Ambrósio, agora o que é que eu respondo um caramelo a quem a modorra da manhã dá para filosofar? Logo eu que de manhã nunca tenho nada de poético para dizer... Quando era mai nova também me interrogava sobre a origem do universo e os seu caráter infinito, agora interrogo-me mais sobre o que poderá ser o jantar e se a roupa estará enxuta para a Dona Teresa passar a ferro...)

- Para além do universo? Hum... Bem... só se for o céu do Jesus...
- Então, mamã, eu gosto de ti até ao céu do Jesus... e voltar!

(Caí em mim... sou a mãe mais feliz do mundo!)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

[vozes brancas] e teorias irrepreensíveis

Tenho um menino na minha consulta que quer ser cientista. Conheci-o há uns anos, muito aflito após a separação dos pais, com algumas birras perfeitamente compreensíveis. Agora está mesmo feliz, com uma vida cheia de futuros! Está no pré-escolar e, a propósito das primeiras chuvas de outono, a professora ensinou-lhe o ciclo da água, o que o deixou fascinado.

Há dias, durante a consulta, olhou pela janela, viu os grossos pingos de chuva que se agarravam ao vidro e comentou:
- Eu bem sabia que ia chover!
- Então, filho - perguntou a mãe, bem disposta - como é que sabias?
- É que ontem te vi a passar a ferro e percebi que o vapor de água estava a fugir pela janela. É por isso que hoje está a chover!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

[vozes brancas] pequenos milagres!



Tenho um menino de 8 anos que sigo há vários anos. Teve um diagnóstico de autismo depois da primeira infância (já nem sei aos três ou quatro anos), mas entretanto, com o investimento da mãe e múltiplos profissionais envolvidos, fez uma evolução notável. Não quero agora discutir se o diagnóstico estaria correto. Olhando para trás e tendo em conta a evolução, podemos pensar que não estaria. Eu não sei, não fui eu que fiz o diagnóstico e não estava lá para ver, o que eu sei é que ele evolui de dia para dia. Atualmente é um menino doce, que se explica muito bem verbalmente, já tem até algum sentido de humor e começa a ter criatividade e imaginação. É também incrivelmente impulsivo, agitado, difícil de acalmar nas múltiplas birras que continua a fazer por dia. Na última consulta, depois de o ter conseguido acalmar, pedi-lhe que me fizesse um desenho.
 
Saiu esta obra magnífica e colorida! Perguntei-lhe o que era. Respondeu-me que era um "super-jardineiro, amigo do ambiente". Já estou habituada a surpresas deste tipo, mas quase que choro só de me lembrar como estava este menino da primeira vez que o vi em consulta...
 
A sério que da próxima vez que alguém me disser que baixa os braços perante de um diagnóstico de autismo lhe mostro este desenho!

Tal como há poucos meses um menino com um autismo profundo, sem linguagem funcional, de repente começou a escrever no computador. E meses depois estava a usar a linguagem escrita para fazer pedidos simples. A mãe perguntava-me, incrédula se isso queria dizer que o menino sabia ler...

Respondi-lhe que temos de aceitar os milagres! Tal como ela nunca desistiu do filho e sempre aceitou o diagnóstico e fez por ele tudo quanto conseguiu fazer, também tinha de saber aceitar as coisas boas.

terça-feira, 5 de maio de 2015

[vozes brancas] kiss my eyes

Tenho uma dor horrível no olho... No sábado, durante a urgência de pediatria, mal conseguia manter o olho aberto. Tudo por causa de um malfadado vírus que estava obviamente a sofrer maus tratos no nariz de um baby que eu vi na urgência da semana passada e que portanto resolveu pedir asilo político ao meu olho direito. Ora pois que o meu olho direito se compadeceu do bicho, coitadinho, catapultado de minuto a minuto em violentíssimos espirros e resolveu armar-se em alto comissário para os refugiados. Vai daí, arranjou-lhe alojamento e despachou-o para o seu vizinho do lado esquerdo, que ele, como olho diretor, tinha mais que fazer, ora essa, era o que mais faltava, ser alto comissário e ainda ter de fazer tudo nesta casa.

De tudo isto, só tive conhecimento na semana seguinte, quando no dia de urgência acordei com o olho à Camões. Sou sempre a última a saber destas andanças...

Mas como eu ia dizendo, no sábado estava miserável. Uma dor excruciante. A meio da manhã já não aguentava mais, a dor trespassava-me o crânio e latejava-me nas têmporas, e fui pedir à enfermeira que me tapasse o olho. Foi então que me entrou no gabinete um menino de quatro anos, acompanhado por uma mãe muito empática que me olhava compadecida. Já o menino olhava para mim absolutamente boquiaberto. Deixou-me fazer tudo o que lhe pedi sem um protesto. Por fim ganhou coragem e perguntou-me baixinho:

- És pirata?
- Sim, sou uma amiga do Jake, vim da Terra do Nunca para te ajudar a curar esse dói-dói.
- Mas essa coisa no olho não era preta?
- Sim, mas as princesas piratas usam uma pala branca, os piratas meninos é que usam uma pala preta. Agora tens uma missão: para salvar a princesa pirata lá da Terra do Nunca tens de ir fazer análises.

O menino estava fascinado, respondeu-me muito compenetrado que sim, que iria fazer então as análises. Regressou sem uma lágrima e com um desenho para a princesa pirata da pala branca.

[Tenho ou não tenho a melhor profissão do mundo?]

sábado, 7 de março de 2015

[vozes brancas] auto-estima masculina...

Já anteriormente se notou a queda do meu baby-de-mulata para as línguas, e o efeito hilariante que as metáforas da nossa grande pátria, que é a língua portuguesa têm nele.
No outro dia, íamos ao jardim brincar, quando passámos por uma boca de incêndio.


- Mãe, o que é isto?
- É uma boca de incêndio.
- E para que serve?
- Se houver algum incêndio por aqui num prédio destes, os bombeiros ligam as mangueiras aqui e a água jorra com muita força pelas mangueiras para apagar o fogo.
- Mas... boca de incêndio? Isto não tem língua nem fala, isto não é uma boca! - replicou com ar de gozo.
- Mas chama-se assim porque é grande e larga e a água vem de lá com muita força.
- Ah... Mas acho que não - respondeu com um ar muito pouco convencido -, assim devia-se chamar pilinha de incêndio.


(Suspiro... Ai o cromossoma Y! Só espero que esta autoestima lhe dure até bem depois da puberdade!)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

[reduzir, reutilizar, reciclar] exercícios ecológicos

Ontem, o baby-de-mulata mais uma vez foi comigo e com Mr. Shaka, seu papá, ao ecoponto mais próximo levar o lixo reciclável. Para ele, tudo o que envolva sair de casa e ajudar os seus papás a fazer coisas de crescidos é um programão! E, claro, é sempre uma atividade pedagógica que promove o conhecimento dos materiais de utilização corrente  ("isto é papel, isto é vidro, isto é plástico"). E a minha convicção pessoal é que em matéria de ambiente, educação para a cidadania e resíduos sólidos urbanos nunca é cedo demais para começar!


E lá íamos nós:
- E como se chama um caixote do lixo para colocar... vidro?
- É um vidrão.
- Que lindo, baby, tu sabes muitas coisas! E um caixote do lixo para pôr papel?
- É um papelão.
- E um caixote do lixo para pôr embalagens?
- É um embalão.


E foi então que a coisa começou a descambar...
- E um caixote do lixo para pôr colchas?
- ... É um colchão! [Um sorriso e depois uma gargalhada de quem percebeu o trocadilho...]


- E um caixote do lixo para pôr... trambolhos?
- É um t'ambolhão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr... Carrilhos?
- É um carrilhão!


- E um caixote do lixo para pôr... túbaros?
- É um tubarão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr caixas?
- É um caixão!


- E um caixote do lixo para pôr... calças?
- É um calção!


- E um caixote do lixo para pôr boias?
- É um boião!


- E um caixote do lixo para pôr... diversos?
- É uma diversão! - ...um ar confuso... - Pois é, mãe?


- Sim, meu amor! E um caixote do lixo para pôr confusos?
- É uma confusão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr fogos?
- É um fogão!


- E um caixote do lixo para pôr... solteiras?
- É um solteirão! [Esta ele não percebeu, mas pode ser que se vá entranhando...]


O baby ria, nós desfazíamo-nos à gargalhada com ele, e eu fiquei mesmo feliz porque o meu menino já consegue manipular sílabas, derivar palavras e ainda por cima tem sentido de humor e consciência fonológica. Mais um passo para o conhecimento metalinguístico e preparar a leitura e escrita. Também para isso nunca é cedo demais...

domingo, 1 de fevereiro de 2015

[vozes brancas] das ciências da vida

Conversas no carro de uma amiga minha, colega da faculdade e uma bem disposta mãe de três filhos. Desta feita, a conversa era sobre o currículo escolar e a introdução ao estudo das ciências, que atualmente está num nível de exigência tal, que para se atingir o volume de conhecimentos que o atual ministro da educação implementou, tem de se começar pelo menos na barriga da mãe. Mas de preferência três gerações antes...


Filha nº 3, chamemos-lhe Mariana, com 4 anos acabados de completar: Mãe, hoje aprendi que há seres vivos e seres mortos...
Filho nº 2 (chamemos-lhe Dinis), de 6 anos: Hahaha! Não são seres mortos são seres inanimados....
Mariana: Não, Dinis, não estou a falar dos bonecos inimados, estou a falar das pedras e das casas....
Dinis: Não, Mariana, esses são os bonecos animados... Mas também não têm vida. Mas, olha, então uma planta é um ser quê?
Mariana: É um ser vivo... porque cresce...
Dinis: Bem, isso depende....
Filho nº1 (chamemos-lhe Miguel): Como é que depende? Estás maluco?
Dinis: É que se forem as plantas da mãe, são seres mortos! Eheh, ela nunca trata delas!
Mariana: Vês? Afinal são mesmo seres mortos... eu sabia!


Moral da história: Por mais voltas que se dê, quem sai sempre mal no figurino é a mãe!

sábado, 24 de janeiro de 2015

[vozes brancas*] serão assim os geeks em pequeninos?

Não sei se já vos tinha contado, mas o meu muito amado baby-de-mulata ingressou em Setembro, com nota 20 em adaptação, no mesmo colégio onde eu andei dos dois aos dez anos. Por feliz coincidência, a auxiliar da sala dele é a mesma que me acompanhou quando eu era da idade dele. Foi ela que me deu colo, tratou dói-dóis, que me consolou ("já passou, já passou, vamos já pôr um penso!"), me ajudou a dominar a frustração quando me apetecia rasgar um trabalho porque, aos meus olhos de pequena perfecionista, qualquer imperfeição ou ruga era uma cratera ameaçadora por onde todo o meu ego se poderia esvair. Foi ela que me pôs na ordem quando eu começava a pisar o risco. Ele adora-a, tal como à educadora. Ela adora-o, como neto da sua segunda casa. E, depois de dois anos inteiros em que o deixei em casa com a minha mãe, na companhia de baby M., o seu primo quase gémeo, eu não poderia ficar mais descansada quando o deixo na escola.

Na semana passada, porém, o baby-de-mulata informou-me que no dia seguinte não seria dia de escola.

- É sim, meu, amor, amanhã é quarta feira, o pai e a mãe vão trabalhar e tu vais para a escola.
- Ah, não, não, que eu sei que não! - Gritou o baby, visivelmente nervoso. - Amanhã não é dia de escola, que eu não vou!

Peguei-lhe ao colo, apreensiva, embalei-o, fiz-lhe cócegas. Que se teria passado?
- Mas por que é que estás tão aflito? - Voltei à carga,  por fim. - O que foi que se passou?
- A Maria [auxiliar] disse que amanhã não íamos para a nossa sala, amanhã vamos para a Sala das Nuvens [uma sala de creche, com bebés de um ano] porque vão fazer obras na nossa sala.
- Mas é só por um bocadinho, a Maria vai contigo e a Teresa [educadora] também. Vão lá estar os teus colegas e tu vais ajudar a educadora e as auxiliares da Sala das Nuvens a tomar conta dos bebés, vais ajudá-las a dar-lhes a papa, vais ensiná-los a cantar e a dançar. Eles vão ficar todos contentes por te terem lá!

...
...

- Mas eu não quero, mãe! Eu não vou, já disse!
- Mas porquê? Tu gostas tanto de bebés, ajudas tanto a cuidar deles e dás-lhes tantos beijinhos quando há bebés cá em casa...
- Mas eu não quero ir para a Sala das Nuvens.
- Porquê? Ora vamos cá ver, o que tem a Sala das Nuvens?
- Pode lá estar uma trovoada! - Respondeu a fazer beicinho...

[Tive de me conter para não dar uma gargalhada! Muito sofrem as crianças... Benza-o Deus, que se não tivesse três anos era um geek!]

Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

[vozes brancas*] literalidades...

 
- Mamã, onde vais? - Pergunta-me o baby-de-mulata, vendo-me calçar os sapatos e vestir o casaco.
- Vou ali ao multibanco, que preciso de ir levantar dinheiro.
- Posso ir contigo, posso, posso, mãe? Eu quero ir ajudar-te!
- Baby, está a chover lá fora... Deixa estar, meu amor, eu desta vez não preciso de ajuda.
- Mas eu quero ir ajudar-te, eu sou muito forte, eu consigo levantar dinheiro e pôr o dinheiro todo nas nuvens!

[Aconteceu-me o mesmo no outro dia com a expressão "céu da boca" e com a "perna da mesa". Vi-me grega para lhe explicar o conceito e no fim olhou-me, desconfiado. Insistia que o palato se devia chamar "teto da boca" porque "não estava lá muito em cima, estava já aqui" e que a perna da pesa se devia chamar "pilar". Eu sempre soube que as crianças não compreendem metáforas antes dos seis anos de idade, mas estou feita se tenho de lhe explicar cada uma das idiossincrasias da língua portuguesa e todas as suas metáforas cristalizadas em expressões do dia-a-dia...]

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

[vozes brancas] felicidade é...


... estar à espera da segunda filha, passar toda a gestação a inventar estratégias para preparar o nascimento de forma a que não afete a mais velha e... chegar à hora da verdade e ver-lhe um sorriso de felicidade estampado no rosto. Passado uns dias, a babada irmã mais velha olhava embevecida para a bebé e comentou com a mãe:

- Sabes, mãe, estou tão contente... era mesmo esta mana que eu queria!

(E eu, que tenho a melhor profissão do mundo, comovi-me...)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

[vozes brancas] etimologias...

Para o baby-de-mulata:
- Então, meu querido, sabes onde vais com a escola amanhã?
- Vou ao planetário... Plantar o quê, mãe? Vamos lá plantar flores?

...

No dia 7 de Dezembro:
- Mamã, hoje é domingo?
- Sim, filho...
- Então amanhã é dia de escola?
- Não, meu amor, amanhã é feriado.
- Vai estar frio? Mas eu visto o casaco, prometo!

...

Isto promete! E o que se perde em propriedade vocabular, ganha-se em consciência fonológica, benza-o Deus, que lá ouvido não lhe falta!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

[vozes brancas*] a descoberta do sexo

Há dias, na consulta de rotina de uma menina de dois anos e meio, já na reta final, depois do anúncio dos percentis, depois do meu parecer sobre o excelente desenvolvimento psicomotor da menina e depois de termos abordado, a pedido dos pais, temas tão díspares como o treino do bacio e a prevenção da toxicodependência (true story...), faço a derradeira pergunta: "E têm mais alguma preocupação com ela?" Ao que a mãe faz a pergunta que decerto lhe queimava a língua:

- Doutora, é normal que ela já se aperceba com esta idade da anatomia dos pais?
- Claro, a descoberta do sexo começa agora, fica mais consolidada aos três anos, mas começa mais cedo. Até antes.
- É que no outro dia ela foi espreitar o pai a fazer chichi na sanita. Não achámos mal nenhum porque ela tem de aprender e anda interessada no treino da fralda, portanto achámos que era um bom exemplo a dar. Mas umas horas depois dei com ela a rir sozinha às gargalhadas. Até me assustei, confesso. Ela ria-se do nada e até me dava ideia de que não estava bem. Mas depois perguntei-lhe: "Filha, de que é que te estás a rir?" E ela respondeu-me, divertidíssima, e assim um bocado a cochichar: "Mãe, o pai tem uma cauda!"

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

[músicas para o baby-de-mulata] let the season begin


 
Que comecem as festas! E que, com este pretexto, as mais belas canções de embalar de Natal voltem ao leito do baby-de-mulata e à hora do adormecer que é só nossa...

[músicas para o baby-de-mulata] dá-me uma gotinha de água...


 
Nestes dias temos cantado Cantares Alentejanos dia e noite. Como este aqui acima e como o "Olha o Passarinho", ou o "Eu tinha Quatro Patinhos", que já partilhei aqui convosco. Foi um excelente timing, o da elevação do Cante Alentejano a Património da Humanidade. Mais uns dias e já não teria o mesmo tempo de antena, digo eu. Antes que comecem os cânticos de Natal, cantemos Alentejo!

sábado, 29 de novembro de 2014

[as melhores do serviço de urgência] diagnósticos brilhantes!

Serviço de Urgência, quinta feira passada. São 16:00 num dos dias mais movimentados do ano. Há trinta crianças que aguardam ser vistas, várias delas classificadas como urgentes ou muito urgentes. Temos duas horas e meia de espera para os não urgentes. Eu estou quase pelos cabelos. Não almocei, que não tive coragem de deixar a equipa mas estou quase a capitular. Decido que vou ver só mais um menino não urgente e depois vou mesmo ter de ir comer qualquer coisa...

Chamo o menino que segue. Tem quatro anos e entra-me no gabinete ostentando, orgulhoso, a sua pulseirinha verde, que para nós quer dizer "Não Urgente", mas que para ele quer dizer "Spooorting!". Olha para mim, tira-me as medidas e pergunta:

- Tu és médica do cérebro?
- Não, meu querido, sou médica de meninos. Mas porquê?
- É que eu preciso muito de uma médica do cérebro.
- Ah, está bem, daqui a nada já vou ali chamá-la - franzo o sobrolho e troco um olhar com a mãe, tão espantada como eu: o relatório de triagem dizia apenas que o menino vinha por ardor a urinar -, mas o que é que se passa contigo?
- É que o meu cérebro deve estar baralhado. Eu sinto vontade de fazer chichi a toda a hora, mas não sai nada da minha pilinha. E quando sai chichi, arde-me!

Eu e a mãe íamos rebentando a rir, mas contivemo-nos!

- Ah, olha, querido, eu acho que é o teu chichi que deve ter um micróbio e isso que deve estar a baralhar o teu cérebro.
- Ah...
- Vamos fazer uma análise ao teu chichi.
- Uma quê?
- Uma análise.
- Vão ver o meu chichi ao microscópio?
- Isso mesmo!
- Também posso ver?
- Claro! Eu depois mostro-te uma fotografia do chichi ao microscópio.
- Boa! Vamos então!

[Que maravilha! Vai longe, este miúdo!]

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

[vozes brancas] baby m. no seu melhor




Esta tarde, o baby-de-mulata brincava com baby M., o seu primo quase-gémeo, ambos agora com três anos. Montámos uma pista de comboios mais ou menos como aquela ali acima, com uma envolvência de savana, ambulâncias, acidentes, descarrilamentos e salvamentos heroicos... E enquanto o baby-de-mulata salvava de helicóptero um tigre atropelado pelo camião dos bombeiros, baby M. continuava, pacatamente, a fazer o comboio andar pela pista, transportando o acidentado camião dos bombeiros para a oficina. Eu assistia a tudo, tentando interferir o menos possível naquela fantasia que era dos dois, quando oiço baby M. comentar de si para os seus botões: "Nunca mais chego à oficina, tenho a impressão de que estou a andar às voltas..."

domingo, 26 de outubro de 2014

[vozes brancas] neologismos

Há duas semanas tive um acidente feio: ao chegar ao jardim de infância do baby, naquele local em que costumo fazer com ele a transição simbólica do modo "casa/ mãe", em que pode ser bebé, para o modo "escola/ educadora", que que tem de ser um menino crescido, escorreguei e caí com ele ao colo.

Foi um momento terrível quando percebi que ele ia bater com a cabeça no chão empedrado do pátio... Felizmente foi um traumatismo craniano sem gravidade para o lado dele, embora só o tenha deixado depois com mil recomendações à educadora e auxiliar de que se vomitasse ou ficasse mais estranho e sonolento me ligassem de imediato. Já para o meu lado a coisa correu menos bem, porque ao tentar colocar-me debaixo dele para lhe amparar a queda, o esbardalhanço foi total e torci o pé à grande e à francesa. Quase me saiu disparado e bem articulado um palavrão francês, mas já que não podia fazer nada para remediar o assunto, também de nada adiantava praguejar, por isso calei-me, abracei o baby e cobri-o de beijos, enquanto disfarçadamente lhe fazia um apressado exame neurológico.

No meio destas semanas todas fui assobiando para o ar e fazendo vida normal. O problema é que enquanto se assobia para o ar, o pé fragilizado torce mais cinquenta vezes. Por isso, em vez de melhorar fui sempre piorando, até que ontem, no Badoca Park, onde fiz questão de ir em mais um exercício africano (o baby há de querer ir comigo na minha próxima missão a Moçambique, ou eu não me chame beijo-de-mulata!), torci o pé de vez enquanto andava num caminho tipo picada africana com o baby ao colo, tentando chamar-lhe a atenção para o divertido comportamento dos macacos mais jovens

Por fim, hoje lá me tive de render à evidência. E às canadianas. E ao gelo, ao Voltaren e ao Brufen de 8/8 horas certinho.

Há pouco, D. baby-de-mulata, já deitado para a sesta, perguntou-me se podíamos ir a um concerto depois da sesta.
- Oh, filho, vai ser difícil, que a mãe mal consegue andar.
- Mas eu vou, pronto! Posso ir sozinho! E tu, se quiseres, pegas nessas cruzetas* e vais comigo!
- Quais cruzetas, baby?
- Essas... coisas... - apontando para as canadianas.
- Ah, vou de canadianas, está bem, combinado!

Três anos e já ameaça que deixa a senhora sua mãe literalmente pendurada! Isto promete!

*Cabides, no dizer do povo da Beira Alta, terra da senhora minha mãe, que cuida do baby na minha ausência.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

[vozes brancas] eu sempre disse que o baby era místico!


Mística infantil...

Esta semana, enquanto eu não chegava do hospital, a minha mãe foi buscar o baby à escola e levou-o ao Jardim da Estrela para se divertir no escorrega e nos baloiços e, quiçá, treinar as suas competências sociais com os companheiros de ocasião.

Por fim, eram horas de seguir para casa, mas perguntou à minha mãe, se não queria ir primeiro ao convento das irmãs Clarissas:
- Avó, tu disseste que te esqueceste lá dos teus óculos no domingo.
- Ah, é verdade, obrigada, meu querido, vamos lá.

(Um primor de responsabilidade, este meu baby! Por enquanto só ainda sabe o seu horário da escola e já consegue organizar o material de véspera. Mas conto, quando ele fizer quatro anos, alcançar o meu objetivo, que é deixar de precisar de agenda assim que ele aprenda a orientar-se num calendário, que o Alzheimer se aproxima a passos largos e sinto que vou precisar de um assistente a breve trecho. Já o estou a ver: "No próximo domingo vamos ao teatro, no sábado temos o batismo da Teresinha, na quinta-feira estás de banco.")

Por fim, já a caminho de casa, o baby perguntou à minha mãe:
- Mas avó, explica-me, qual delas é a tua irmã? É a da parede, não é?* Ou é a verdadeira**?

Eu sempre disse que o baby era místico! Desde o dia em que olhou para uma imagem de Nossa Senhora com o menino e exclamou, embevecido: "Mamã!"

Lá no convento das Clarissas olhou para o quadro de Santa Clara, descobriu semelhanças, sentiu a força do seu olhar de vários séculos e viu na santa uma irmã da senhora sua avó. Bem, há mais alternativas, eu sei: ou é místico ou isto aconteceu porque tem três anos e ainda tem dificuldade em distinguir a realidade da fantasia... Mas o tempo há de dar-me razão!

* Há um quadro enorme de Santa Clara na parede à entrada do convento.
** A madre superiora, que os recebeu em carne e osso.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

[vozes brancas] entre o riso e o espanto!

Adorei...

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