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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

[baby-de-mulata] viagem à roda do teu nome...


Cartoon daqui.


Ontem à noite, como sempre, já na cama, o baby-de-mulata pediu-me uma história antes de adormecer. E eu conto sempre a história que ele quer, mesmo quando estou exausta. Há só um pequeno problema: é que as minhas histórias variam quase todos os dias porque eu sou do tipo de pessoa que fala durante o sono como se estivesse acordada. E geralmente até consigo fazer sentido no que digo. Pelo menos é o que alguns dizem. E eu só acredito nesses, como está bem de ver. Só não respondo é à conversa e o fio e a meada deslaçam-se rapidamente. Ou seja, por outras palavras, as minhas histórias começam sempre da mesma maneira e fogem quase sempre para o nonsense de forma imprevisível.

De modo que, por vezes, os três porquinhos, em vez de construírem casas de palha, madeira e tijolo, têm alergias, pneumonia e hiperatividade. Mas só quando passam demasiado tempo na sala de espera da urgência até serem atendidos é que o baby se farta e me grita que não é assim a história, que é altura de o lobo mau chegar das profundezas da floresta, que ele, baby, também tem sono e quer dormir. Eu que me despache a meter o caldeirão ao lume, ele quer ver o lobo mau de rabo queimado a subir pela chaminé e fugir pela floresta afora, e que as angústias da noite se dissipem com uma história em que o medo e o perigo são vencidos. Mas é um problema... A carochinha já teve uma intoxicação alcoólica, o João Ratão não aprendia a ler de maneira nenhuma e teve de ir fazer terapia da fala e, uma vez, os sete cabritinhos também estiveram no corredor da urgência em macas, a soro, porque não havia camas para todos para tratar um surto de salmonelas que apanharam por se terem alambazado com uma mousse de chocolate. [Palavra que eu disse! Nessa noite acordei com o baby furioso. Os sete cabritinhos tinham comido mousse de chocolate e ele nem uma bolacha Maria! Vi-me e desejei-me para o adormecer e convencer que a mãe dos sete cabritinhos era uma irresponsável, onde é que já se viu dar mousse de chocolate aos filhos àquela hora da noite!] A maior parte das vezes acordo com o baby a rir às gargalhadas por mais um disparate... Mas, como eu ia dizendo, ontem, antes de adormecer, o baby-de-mulata queria uma história. Queria a história do peixe Tobias. E porque é que ele se chamava Tobias?, perguntou-me o baby. Inventei uma resposta qualquer...

- E porque é que eu me chamo baby?
- Ah, meu amor, porque baby é um nome lindo, pequeno, fofo, mas também nome de santo, de guerreiro, de homem grande, valente e generoso.
- Sim, mas quem me deu esse nome?

Aí vacilei... A mãe biológica só o viu no primeiro dia de vida e o nome foi o único legado que lhe deixou. Eu tinha uma resposta preparada para quando ele me perguntasse um dia: "Eu tenho alguma coisa dela? Ela pensou em mim alguma vez?" Essa resposta era: "Ela deu-te o teu nome. O nome mais lindo do mundo. É porque queria que tu fosses feliz."

E o baby viu-me vacilar porque acertou na mouche, na minha resposta preparada. Eu podia ter respondido uma coisa qualquer, mudar de assunto, dizer que eu e o pai é que lhe demos o nome completo, o que não era mentira: Baby-Maria-de-mulata-Shaka foi o nome que nós lhe pusemos. Mas ele não é parvo nenhum. Viu-me vacilar. E perguntou logo, como criança perspicaz que é: "Quem foi? Porque é que não foste tu?"

E foi assim que começou a nossa primeira conversa sobre origens, biologia e amor. Foi ontem que eu lhe disse que era a mulher mais feliz do mundo desde o dia em que me tornei a mãe dele para sempre. Ele quis saber tudo. Como foi? Como foi que tu me viste? Fui eu que te chamei? Eu disse que queria ser teu filho? E eu expliquei-lhe a história. Contei-lhe o momento lindo em que os nossos olhos se cruzaram e como foi o nosso amor à primeira vista. Contei-lhe como ele me deu os braços e eu lhe peguei ao colo e disse que queria ser mãe dele para sempre!

E a noite acabou com ele a pedir pormenores para encenar "a peça" do momento em que lhe peguei ao colo pela primeira vez... Representou-a vezes sem conta. Até que pediu para dormir. Dormiu tranquilo e acordou bem disposto.

Mais uma etapa superada. Ou pelo menos assim o espero...

domingo, 28 de setembro de 2014

[caderneta de cromos] peixe, peixe, peixe!


 
Alguém se lembra desta cena? O baby-de-mulata adora ver esta história... "É 'pantoso!"

domingo, 21 de setembro de 2014

[vozes brancas] e raciocínios irrepreensíveis!

 
 
Conversa entre o baby-de-mulata (atualmente com 3 anos e pouco) e sua avó, ouvida através da porta da cozinha:
- Amanhã onde vais passear?
- Vou ao oceanário com a mamã e o papá. Sabes, vovó, eu gostava de ter peixinhos em casa!
- Ah, então tens de pedir ao papá e à mamã para te comprarem peixinhos para tu cuidares e dares comida.
- Boa! E é melhor comprar também um aquário para os peixinhos não fugirem!

domingo, 14 de setembro de 2014

[vozes brancas] chocoholic

 

 
Pois é...
 
 
Antes de mais, deixem-me carpir a minha mágoa de pediatra: o baby-de-mulata não gosta de fruta! É verdade. Conheço mais duas ou três crianças como ele, mas acho que não tão avessas à fruta... A simples visão de uma peça de fruta dá-lhe vómitos. O ar de pânico que faz quando percebe que chegou a hora da fruta é indescritível. Colocar uma peça de fruta na boca é um processo que envolve mentalização e coaching da minha parte. E muita coragem da parte dele. Mal comparado, fazê-lo comer fruta é como um instrutor de bungee jumping convencer uma pessoa com pavor de alturas a saltar de uma ponte. "Vá, meu filho, é ótimo, vais ver que vais gostar, é fantástico e faz tão bem..." e assim por diante. Nem sempre consigo, claro. Nem todos os dias uma criança tem esta disponibilidade para aceitar algo que visceralmente abomina. Ele tem é o azar de ter uma mãezinha que é chata como a potassa...
 
Pelo contrário, o chocolate foi uma descoberta recente, mas muito bem tolerada... [Porque é que a vida é tão injusta?] Hoje, à saída do jardim zoológico, fomos comer um gelado. Perguntou-me:
 
- Mãe, gostava de comer um gelado... de chocolate. Existe?
- Sim, filho, existe, vamos perguntar ao senhor se tem.
 
E foi a meio do gelado que ele se saiu com uma pérola:
- Mamã, eu adoro chocolate! Até podia comer uma maçã, se fosse de chocolate!
 
Tentei afastar as imagens do demo que me assaltaram a mente. Só de pensar nelas engordo dois quilos... Vou tentar não lhe dar fruta desta maneira nunca.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

[grande é a poesia, a bondade e as danças] planos e futuros!

O baby-de-mulata, como bom portador de um cromossoma Y com todas as pernas, braços, bandas e sarabandas, quer ser professor de polícias ou professor de carros e de ambulâncias (professor da parte de Mr.-Shaka-seu-querido-paizinho, e polícia e condutor de ambulâncias da parte dele próprio, que sua mãe queria mesmo era ser bailarina nesta idade).

Mas eu, que sou uma mãe liberal e com abertura de espírito, adoro dizer-lhe no tom impagável de Raul-Solnado-no-seu-melhor: "Filho, quer tu queiras quer não queiras, tens de ser bombeiro voluntário!" A cara compenetrada e feliz que ele faz quando ouve esta frase é de morrer a rir. Queira Deus que só descubra o paradoxo daqui a uns tempos largos...


[vozes brancas] o vasquinho da anatomia...

Ontem, na consulta, um menino adorável de três anos e meio acompanhava o irmãozinho recém-nascido à primeira consulta. Abri a porta, sorri para os pais e dirigi-me a ele em primeiro lugar. Dei-lhe um beijinho, admirei-me muito e em voz bem alta por ele estar tão crescido, perguntei-lhe pelas novidades e ele disse-me que tinha tido um irmão bebé, que gostava muito dele mas que preferia que já viesse a saber jogar à bola. Dei-lhe uns entusiásticos parabéns e que agora compreendia por que é que ele estava tão crescido, que isto de se ser o irmão mais velho faz crescer muito!

- Entre, Vasquinho, apresenta-me o seu mano? Ele porta-se bem, ou chora muito?
- Porta-se bem, só que às vezes chora muito e não quer mamar. Eu acho que ele chora muito quando quer ir para casa dele...
- Ah, mas a casa dele agora é a vossa casa... [Ups... Que parte disto é que ele não tinha percebido?]

O Vasquinho fulminou-me com o olhar, ante a cara de "eu-já-lhe-tinha-dito-isto-mil-vezes-não-adiantava-atirar-o-barro-à-parede-ainda-mais-uma-vez,-envergonhando-a-sua-família" de sua mãe e virou-me costas para ir para a mesa das brincadeiras. Os pais encolheram os ombros e tentaram começar a consulta. Erro crasso... O Vasquinho começou a atirar todos os objetos que tinha à mão contra a parede com estrondo, sinal sonoro de que estava zangado e a reivindicar a atenção que lhe cabia por direito sucessório. Tentei mudar de estratégia:

- Vasquinho, precisava aqui da sua ajuda, pode vir aqui lembrar-me para que serve o otoscópio?

E o Vasquinho, orgulhoso da sua função de ajudante, apressou-se a vir para o meu colo para me ensinar a trabalhar com o aparelho que descobria sempre, como por magia, coisas interessantíssimas dentro dos seus ouvidos.

- Lembra-se, Vasquinho, de quando foi operado aos ouvidos? - perguntou a mãe.
- Sim, claro, foi com este operoscópio! - respondeu o Vasquinho, com um ar de "dãh" de pré-adolescente.
- Ah, ele sabe! E o que é que tiraram de lá? - perguntei.
- Foi o Pateta!
- Isso mesmo! E o que é que lá meteram?
- Foi um túnel.
- Um túnel?
- Sim, um túnel azul para eu ouvir melhor a televisão e os meus pais a chamar.
- Pois, os seus tubinhos são azuis, sim. Olhe, e onde é que foi nestas férias?
- Fui para a casa da piscina.
- Ah, que bom e gostou de lá estar?
- Sim, mas o pai apanhou gelatina.
- Escarlatina - sussurrou a mãe, numa tradução disfarçada, a ver se não feria novamente a suscetibilidade do primogénito.
- Ah, que pena, e o menino não apanhou?
- Não, eu apanhei laranjas...
- Ah... - que conversa que para aqui vai, valha-me Santo António dos peixes - e como é que foi isso?
- Não conseguia falar.
- Ah, doutora, ele está a dizer que apanhou uma laringite. Diga-lá, Vasquinho, à doutora, como é que se chama aquela coisa na garganta que nós temos para conseguir falar?
- São as cordas musicais!
- Não, Vasquinho - repreendeu a mãe.
- Não o corrija, por favor! - Pedi à mãe, ao mesmo tempo que não conseguia evitar uma gargalhada - Ele é uma delícia a falar! Tive um colega de Faculdade que também era assim, derivava palavras da anatomia com uma graça... Era o nosso Vasquinho da Anatomia, como o da canção de Lisboa.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

[vozes brancas] homem prevenido...

Na semana passada eu estava de urgência no meu hospital e portanto quem se encarregou do complexo ritual de adormecer Dom baby-de-mulata foi Mr. Shaka.

E, depois de fazer uma cama no chão, o número do táxi, o número do café, a fantasia dos animais da selva, o baby finalmente acedeu a ir para a cama, rodeado por todos os seus objetos de transição, e dispôs-se a ouvir uma última canção.

Geralmente pede um Magnificat que eu e Mr. Shaka costumamos cantar a duas vozes. [Sim, que baby-de-mulata é um pequeno gentil-homem, requintado e com gostos eruditos. Um menino que do alto dos seus três anos já tem os seus pergaminhos e os seus cânones.] Ou isso ou "O carro do meu chefe teve um furo no pneu", que a seu ver é também uma música com elevado valor harmónico-melódico, e com efeito hipnótico equivalente.

De repente, a propósito de nada, já depois da última canção, do beijinho, de mais um beijinho, de um último beijinho, depois do "vou sonhar contigo", depois do exercício africano "não deixes que os mosquitos te piquem", o baby-de-mulata perguntou a Mr. Shaka:

- Papá, podes cantar o Magnificat no meu casamento?

[Querem ver que me saiu um organizado?! O único da família mais caótico-catastrófica da história da humanidade? O menino ainda não tem namorada, ainda não tem os estudos concluídos nem um emprego estável, mas já começou a tratar do que se podia ir adiantando "para não deixar tudo para a última da hora".]

terça-feira, 8 de julho de 2014

[vozes brancas] aprender a andar de bicicleta...

Na urgência, no outro dia, ao meu lado, um miúdo muito bem disposto explicava a uma colega minha como aprendera a andar de bicicleta uma semana antes, na marina do Parque das Nações:

- O meu pai empurrou-me como das outras vezes mas, dessa vez, em vez de cair como sempre, olhei para a frente e comecei a pedalar. E o meu primeiro travão foi um senhor idoso que ia a atravessar à minha frente. Ele agarrou a bicicleta e eu atirei-me para a relva, que foi o meu para-choques.

sábado, 5 de julho de 2014

[vozes brancas] as melhores do serviço de urgência

Esta noite, no serviço de urgência, um menino de 9 anos, regressava do serviço de imagiologia, onde fora fazer uma TAC por uma dor de cabeça que o fazia vomitar todas as manhãs desde há mais de uma semana. Vinha nitidamente mais bem disposto, depois da medicação de choque que eu lhe dera logo à chegada.

- Então, querido, já vens com outra cara! Estás melhor?
- Assim, assim...
- Olha, mas se não estás, pareces! Há bocado até estavas aflito com as dores.
- Não, não era com as dores, eu estava aflito porque ouvi que ia fazer um "ataque" e fiquei com medo, mas afinal não custou nada!

sexta-feira, 27 de junho de 2014

[vozes brancas] desenho figurativo

No outro dia, na consulta, vi um menino com quatro anos, um talibanzinho de primeira água, que vinha por atraso de desenvolvimento da linguagem.

A mãe tinha um primeiro impacto absolutamente desconcertante. Metade do cabelo rapado e a outra metade curta e espetada, pintada de loiro, com dois piercings por cada prega facial, o olhar pueril e espantado de quem tenta não olhar para si própria para não ver o corpo de mulher, as marcas da maternidade, nem as finas rugas em torno dos olhos, por culpa dos anos que lhe arranhavam o rosto e lhe roubavam o olhar de menina. Porque, intimamente, a adolescência ainda não estava resolvida.

Era uma mãe eternamente espantada por aquele menino lhe chamar mãe, por aquele menino que lhe chamava mãe se comportar como um terrorista e não lhe obedecer prontamente como ser racional que deveria ser, por aquele menino não ser o companheiro de brincadeiras que idealizara. Todos os dias surpreendida por ser chamada de mãe. Por ser chamada à razão por um ser de quatro anos que lhe começava a ensinar que as crianças precisam de regras e limites, prémios e castigos tanto quanto do amor que sempre se dispusera a dar-lhe. E lhe dava todos os dias, apesar de todas as patifarias que lhe aprontava. A começar pelo facto de ter aparecido dentro dela sem aviso e sem planeamento prévio.

Passado o primeiro impacto, aquela mãe era um amor, bem disposta, muito afetuosa, numa relação de quase fusão com o menino, simbiótica, como são as relações de muitas mães que, por força das circunstâncias, ficaram frágeis e sozinhas a cuidar dos filhos. E esta mãe tinha ficado sozinha por sido vítima de violência doméstica, uma situação muito grave e muito prolongada.

Passado o primeiro impacto, esta mãe é mais uma das minhas heroínas.

À pergunta: "Tem alguém na família com doença psiquiátrica?", o novelo emaranhado que é a história deste menino desenrola-se à minha frente. Uma história de violência que já começara duas gerações antes:

- Bem, doutora, alguém na família com doença psiquiátrica... O pai também conta?
- Claro!
- Era toxicodependente, alcoólico e de vez em quando tinha explosões de fúria em que destruía tudo o que lhe aparecia à frente, e era violento para as pessoas de quem gostava.
- E o menino assistiu a essas cenas?
- Não, a violência física nunca assistiu propriamente, mas ouviu muitas discussões e tive momentos de me barricar com ele no quarto, com o pai aos pontapés à porta.
- Bem, mas então sentiu a sua tensão, a sua angústia...
- Sim, é verdade, viu-me chorar muitas vezes, viu-me desmoronar, ouviu discussões.
- E quais eram os principais motivos de discussão?
- Ciúmes. Ciúmes horríveis. Delirava com todos os homens que se aproximassem de mim menos de 20 metros.
- Mas, daquilo que se apercebeu, era uma pessoa que estivesse sempre dentro da realidade? Ou tinha ideias delirantes assim que não fizessem sentido ou pensamentos bizarros?
- Não, era uma pessoa que estava na realidade. Quer dizer... Se "metesse um ácido" é claro que saía da realidade, nas era só nessas circunstâncias.
- [Valha-me Nossa Senhora das Substâncias de Abuso!] Ok, já percebi...

Contou-me que nos últimos tempos, antes de ser obrigada a fugir com o filho, levando apenas a roupa que tinha vestida, andava sempre com uma bolsa dentro da roupa, encostada ao peito, com os documentos dela e do filho e dinheiro para as passagens de avião para Lisboa, para o caso de ser obrigada a fugir de repente.

A mãe ia falando do nascimento do menino, do pai que a controlava constantemente, revia-lhe todas as mensagens no telemóvel, lia todos os mails, toda a correspondência, ia busca-la ao trabalho, aparecia de surpresa sob qualquer pretexto. Seguia-lhe os passos ao minuto!

Ela e o filho escaparam com vida, com mais sorte que habitualmente, porque após a fuga não foram perseguidos nem tiveram ameaças por parte do pai. Mas as sequelas eram visíveis, na fragilidade da mãe e no comportamento disruptivo do menino. Não parava, não falava,  não tinha um jogo construtivo ou organizado, piorava a olhos vistos se a mãe se afastasse ou mesmo se voltasse costas. E se lhe mandassem fazer o que quer que fosse, chorava, ficava aflito, tudo lhe doía, amuava, gritava.

Ai, valesse-me Nossa Senhora dos Aflitos. Como é que eu ia conseguir explicar àquela mãe que o menino precisava mesmo de regras e de pulso forte, porque o problema não era genético, como ela alvitrava e assumira desde o princípio: "Ele sai ao pai, doutora! O pai era igual em criança.".

- Não, mãe! O que ele sofre é de falta de fé!
- Falta de fé?! Como assim, falta de fé?

- A sua falta de fé nele e nas suas capacidades de se fazer obedecer como mãe. Ele não tem problema nenhum. Vai falar quando conseguir sair desta agitação tão grave. E para isso tem de ser firme com ele para lhe dar segurança sobre o que pode ou não pode fazer.
- Mas ele não me obedece em nada!
- Mas vai obedecer! Vamos fazer um plano, ok.

Entretanto uma colega minha afadigava-se em volta dele para o fazer sentar e começar a pegar nos lápis para um desenho.

- Queres desenhar a tua família, Rodrigo?
- Tim, 'tá bem!
- Então vá, podes escolher as cores.

Em três segundos o desenho estava acabado e o menino novamente aos saltos pelo gabinete de consulta.

- Então, Rodrigo, a tua família já está? - perguntei, meio zangada.
- Tim, tá.

- Rodrigo - chamou a mãe, suavemente -, só vejo ali três bolas. O que é aquilo?
- Tou eu, a mãe e a vó [esta eu percebi: "Sou eu, a mãe e a avó."]

- Não são, não, Rodrigo, são só três bolas.
- Não - respondeu o Rodrigo, como se nada fosse -, tomo tó de tima da tonte.

A mãe desatou a rir e traduziu:
- Somos nós de cima da ponte. É como se estivéssemos representados em perspetiva! Este miúdo não existe! Tem resposta para tudo e é preguiçoso como o caraças, Doutora! Sai ao pai, é o que eu digo, a doutora não me acredita.
- Não torne a vir com essa conversa, o que ele tem é que não se concentra dois segundos! E a mãe tem de ouvir o que eu tenho para lhe dizer ou ele não vai melhorar.

[Voltei a vê-lo há duas semanas. Não parecia o mesmo! E já falava muito melhor.]

sábado, 21 de junho de 2014

[uma vez loira...] sentido de orientação

Há dias, eu brincava animadamente com o baby-de-mulata pelo corredor acima, com ele montado numa capulana colorida, com animais estampados. Era "o táxi da nossa rua". "Para onde deseja ir, senhor baby-de-mulata?" "Pa'a o ja'dim da est'ela!" "E´ para já, senhor!"

Às tantas, baby-de-mulata apanhou novamente o táxi para voltar para casa: "Para onde deseja ir agora, senhor baby?" "Para a minha casa!"

Nisto fiz-me de parva para ver se ele sabia o caminho de memória. "E como se vai para lá, senhor baby?" "Vamos pela rua que sobe, mãe." "Mas como, baby, viramos à esquerda ou à direita?" "P'imei'o é à esque'da e depois sobe." "Mas como, baby, antes ou depois dos sinais?"

Nisto vejo o meu filho a dar o seu primeiro suspiro com cara de d'ah... Um revirar de olhos para cima. Uma cara de "não vale a pena, desisto":

- Mãe, pa'a ir pa'a casa é p'eciso um táxi a sé'io.

sábado, 14 de junho de 2014

[vozes brancas*] consciência fonológica...

Ontem, na urgência, perto da meia-noite, chamei um Francisco de 4 anos. Segundos depois, pelo gabinete entrava-me um piratinha envergonhado, com a cara meio escondida no regaço da mãe, quase imóvel, com um dos ouvidos colado ao seu peito quente. Saltava aos olhos que tinha uma otite à direita. Estava o diagnóstico quase feito só pela posição do menino.

- Boa noite, então o que se passa com o seu príncipe?
- O Francisco estava a dormir e acordou há cerca de meia hora cheio de dores de ouvidos.
- Já lhe deu alguma coisa para as dores?
- Sim, dei-lhe Brufen assim que se queixou.
- Então já deve estar a fazer efeito. Meu querido, boa noite, vamos ver o teu dói-dói?

Desencostou-se da mãe a medo, mas rapidamente percebeu que já não estava a doer tanto, e animou-se ao perceber que tinha o Faísca no ouvido e o Jake na garganta.

- Doutora, estamos preocupados porque daqui a quatro dias vamos viajar... Será que vai ter problemas no avião?
- É capaz, sim, as diferenças de pressão são difíceis de suportar. Tem mesmo de ir?
- Sim, doutora, já está tudo marcado. Temos o casamento da minha irmã e ele é o menino das alianças.
- Bem, então não pode faltar. Temos de começar já o antibiótico e já lhe vou explicar os cuidados a ter... Tu vais para onde, meu amor?
- Vou pa'a a terra de onde vem o sal - respondeu com os olhos a brilhar! A mãe fez uma cara de espanto...
- Ai sim, vais para o Sal? Em Cabo Verde?
- Não, vou pa'a a terra de onde vem o sal!
- Ah, e de onde é que vem o sal?
- Vem do salmão!
- Ah, estou a ver! Então vais para a terra do salmão?

- Sim, doutora, vamos para a Noruega. Francisco, que ideia é essa? Deves estar a delirar...
- Lindo! Deixe estar, mãe, deixe-o fantasiar! Só prova que pensa nas coisas e que tem consciência dos sons das palavras.

[Que delícia de interpretação! Vai longe, este miúdo! E o que se perde em propriedade vocabular ganha-se em fantasia e consciência fonológica. Um excelente prognóstico quanto à capacidade de aprender a ler!]

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

segunda-feira, 24 de março de 2014

[vozes brancas] são metáforas, senhor, são metáforas!

"Ninguém compreende a minha bichinha", lamentava-se a mãe de uma princesa esta tarde na consulta. "Calcule doutora, que a minha empregada me ligou no outro dia a dizer que a Maria [nome obviamente fictício] se estava a queixar das pernas. E como a doutora sabe, da última vez que ela se queixou das pernas acabámos no hospital internadas com uma púrpura. Fui de charola para casa e dei com ela a correr e a pular, muito bem disposta e surpreendida por me ver".


"O que tens, filhota?", perguntara-lhe. "Nada, mãe, eu não estava a fazer nada, eu portei-me bem!" "Sim, querida, eu sei que te estavas a portar bem hoje, mas a tia Céu chamou-me porque estavas a queixar-te das pernas." "Eu?! Não, eu só disse que tinha tosse nas pernas." "Tosse nas pernas?" "Sim, mãe, quando eu corro fico com tosse!"


...


...


...


...


- E depois é isto, doutora! Não hei de eu andar meia louca! Tenho uma filha a quem tudo acontece, um marido que está fora e uma empregada completamente histérica!
- Bem, olhe, mas em contrapartida tem uma filha poetisa! Não lhe corte essa veia poética, que tem futuro! Quem me dera a mim escrever assim...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

[vozes brancas] corpo estranho

No outro dia, estava de banco no meu hospital e chamei uma menina de três anos e meio. Classificada com cor amarela na triagem, sinal de que o caso inspirava algum cuidado ou que precisava de ser assistido com uma certa urgência. Olhei para o relatório da equipa de enfermagem enquanto aguardava que a menina me chegasse ao gabinete de observação: "Suspeita de ingestão de corpo estranho." Suspeita?! Como assim, suspeita? Com três anos e meio já sabe dizer o que foi que aconteceu... Isto promete!

Felizmente a criança vinha a respirar sem dificuldade, sem sinais de ter um corpo estranho encravado numa qualquer parte do tubo digestivo ou aparelho respiratório e sem outros sinais de alarme. Falava animadamente com a avó no momento em que entrou no meu gabinete, mas assim que me viu, o seu semblante fechou-se, carrancudo, e de dedo em riste apontou-me logo ali de caras que eu era culpada do maior pecado da Pediatria:

- Tu não és a minha médica!

O tom zangado avisava-me de que não estava para brincadeiras. Eu que me pusesse a pau, que já tinha sido descoberta com a boca na botija, em plena prática ilegal de Medicina! Ao olhos daquela juíza de palmo e meio eu deveria ser condenada de imediato e restabelecida a ordem pública!

- Pois não - confessei de imediato, que quem diz a verdade não merece castigo -, é verdade, não sou a tua médica. E quem é a tua médica, princesa?
- Tu não és a minha médica, eu quero a minha médica!

Resolvi mudar de estratégia:
- Mas olha, eu sou muito amiga da tua médica. Foi ela que me disse para falar contigo e te ver.
- Mas eu só quero a minha médica. Tu não és a minha médica! A minha médica é castanha e tu és loira!
[Mau! Então agora não só me acusava de não ser quem deveria ser como ainda me discriminava pela cor da pele? Bem, o melhor seria ignorar, que estava visto que por ali já não íamos a lado nenhum...] - Está bem, linda, mas olha, o que foi que tu engoliste?
- Não dizo!

Olhei para a avó: o que se passara? Que também não tinha a certeza, mas que a meio da tarde começara a dizer que tinha comido uma coisa e por isso queria ir à médica...
- Ah, e ela não disse o que foi?
- Não, não dizo! Eu quero a minha médica!
- Pois, doutora, já me passou pela cabeça de que tenha dito isto só para chamar a atenção e ir ao consultório da médica, que ela adora a sala de espera dela!
- Ah... não viu nada nem lhe notou nada?
- Não... Mas não estou nada descansada. E se é verdade?
- Bem, podemos ir fazer um raio x.
- Está bem...

Por fim regressou, com a avó cabisbaixa e com cara de quem enfiou o maior barrete do último ano... Fosse o que fosse que tivesse ou não engolido, não era radiopaco de certeza!
- Princesa, diz lá o que foi que engoliste, vá!
- Não dizo, já disse! Eu quero a minha médica!
- Pronto, pronto, deixe estar Doutora. Não podemos ter a certeza, que ela não vai dizer mais nada.

E, de facto, não dizeu! Mas a sério que fiquei mesmo bem disposta! Esta miúda vai longe! O que se perde em simpatia e flexibilidade, ganha-se em assertividade e determinação!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

[vozes brancas] vamos fazer um piquenique!

Há algumas semanas, eu estava de saída de um banco de inverno particularmente chuvoso e griposo, em casa, exausta, a tomar conta do baby-de-mulata e de Baby M., o primo quase-gémeo do meu filho, à espera que a empregada chegasse para lhes dar o almoço, que eu sozinha nestas alturas não consigo....


Eles estavam divertidíssimos a brincar gatinhando num túnel, que ora era o acesso ao castelo, ora era o "túnel do tempo", que desembocava na piscina de bolas, pomposamente apelidada de Algarve: "Vamos para o Algarve, adeeeeeus!". Atividades estas que iam intervalando com miminhos à mamã/ titi (nomes que me dão indistintamente, dependendo que qual me chama primeiro. Ou para onde lhes dá, ainda não percebi bem).


Nisto, depois de uns beijinhos e festinhas particularmente carinhosos, adormeci consolada no sofá, embalada pelas gargalhadas felizes dos meus amores.


Dez minutos depois (conforta-me a consciência pensar que foram apenas dez minutos, mas não tenho qualquer argumento, mesmo circunstancial, que o prove), acordei com gargalhadas vindas de mais longe e com Baby M. a dizer qualquer coisa como: "Sim, mais!"


- Meninos, onde estão? - perguntei do sofá, ainda esperançada de que estivessem apenas a brincar noutro sítio. A resposta foi aquele "hihiiiii" nervoso, que eles fazem quando são apanhados com a boca na botija e que me faz sempre tremer quando o oiço... Desta vez vindo da cozinha. Pronto, não havia nada a fazer: estava o caos instalado, valesse-me São Brás!


Pois que chego à cozinha e vejo uma toalha no chão, os babies sentados à chinês, um de cada lado, e com uma quantidade incrível de comida espalhada pelo chão, as bocas sujas de uma amálgama quase indistinguível de Cerelac, cereais, frutos secos e doce de morango. Bancos colocados em frente ao frigorífico e às prateleiras da despensa denunciavam que os meus talibanzinhos tinham planeado deliberadamente o ato ilícito.


Pelo chão noto uma tentativa de bolo: pão, Cerelac, azeite e por cima, como meninos gourmet que são, umas ervinhas da Provença para temperar o cozinhado.


- Meninos, o que estão a fazer?
- Asneiras, mamã! Mas é um piquenique!


Alguém resiste? Ainda hoje estou a sorrir para dentro!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

[vozes brancas*] acoooorda, mãe!!!

Esta noite antes de recrutar toda a minha capacidade de calma-respira-fundo-olha-para-cima-vai-beber-um-copo-de-água e abraçar, com todo o meu espírito empreendedor, a tarefa hercúlea que é meter D. Baby-de-Mulata na cama, eu estava a brincar com ele, naqueles que são os nossos minutos de paz e tréguas de um dia inteiro de test drive dos limites da senhora sua mãe.


Eu fingia que ressonava após o que ele me gritava "Acoooo'da, mãe!" e eu fingia que apanhava um susto e assim por diante, que uma das vantagens de ser mãe de um baby de dois anos é que podemos fazer a mesma brincadeira sem termos de inventar rigorosamente mais nada durante dias a fio, que ela não perde a piada. Depois de repetir a brincadeira da mesma forma umas trinta vezes, ele de repente grita:


- Alvo'aaaada!
- [Alvorada?!, mas onde é que ele foi buscar esta?] Ããnh? - levanto a cabeça, estupefacta.


Ele olha-me com cara de "Ups, já fiz asneira."


- Alvo'ada... se faz favor...


Vá lá a gente não amar uma criatura assim!


* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

[vozes brancas*] operações financeiras...

A minha mãe é uma avó extremosa, infinitamente bondosa e paciente, que cuida diariamente de duas criaturas de dois anos (cada uma), sendo uma delas o meu baby-de-mulata e a outra Baby M., o meu sobrinho e afilhado, quase gémeos na idade, completamente gémeos na linguagem (em que se imitam), nos comportamentos (em que se repetem) e nas asneiras (em que se potenciam num "mata-esfola" como só os gémeos conseguem fazer). Esta manhã, estando ela por dois minutos na casa de banho, ouviu-os ir sorrateiramente à sua carteira, abri-la e espalhar as moedas pelo chão.


- É dinheiro - dizia o baby-de-mulata.
- São moedas - acrescentava, Baby M., com propriedade - onde é que a vovó comprou? Numa loja?
- Não sei... Vovó, onde é que a vovó comprou este dinheiro?


Uns génios das finanças, os meus babies! Tão pequeninos e já sabem que o dinheiro se compra, em arrojadas operações financeiras!




* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

[vozes brancas*] um relógio com segundos


A filha de uma amiga minha, uma rebiteza de três anos de idade, ouvia solidariamente o irmão de seis anos, que resmungava com o relógio porque não estava a conseguir ver as horas!
- Ele anda muito depressa, os números estão sempre a mudar! - queixava-se o irmão.

Ao que ela respondeu com a grande pérola:
- Pois é, mano, tens razão, os relógios com segundos não prestam, porque nunca param para se ver as horas!

* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sábado, 4 de janeiro de 2014

[welcome to mozambique] feliz 2014!

 
Feliz 2014 a todos os meus meninos do coração, que vivem no mato!
A foto é da minha amiga Maria, enfermeira voluntária no Niassa há quase dois anos. Os meninos da missão queriam saber quanto pesava o Natal!
(Mitande, Niassa)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

[vozes brancas*] anestesices...



Tenho uma colega de curso que é uma anestesista de mão cheia, de coração e convicção, que fala do seu trabalho com o entusiasmo com que uma mãe falaria de um filho... Isto é tão forte na vida dela, pessoal, profissional e familiar, que a filha de cinco anos no outro dia foi ouvida a cantar o "Gloria in excelsis Deo":

- Gloooooria, precisa de oxigénio!

Ah, grande princesa!
> Adenda: Lembrei-me agora que eu pensei durante anos e anos que a letra era "Gloooria, e nasceu singelo!" E perguntava: "Ó mãe, o que quer dizer singelo?" "Quer dizer pobre, simples." "Ah, pois", pensava eu, "confere..."
* Timbre da voz das crianças antes da puberdade.