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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

[vozes brancas] primeiras impressões da maternidade


Cateter venoso. Foto obviamente da net, que não me ocorreu fotografar o meu...


Já nasceu a mini-baby-de-mulata! Estamos bem e muito felizes! E perguntam vocês: "Beijo-de-mulata, como reagiu o baby ao ver a mãe internada na maternidade?"

Lindamente! Mr. Shaka e eu tínhamos combinado que o baby só subiria para ver a mana depois de esta devidamente colocada a dormir tranquilamente no leito e eu conseguisse estar levantada e deambulante. Aconteceu nas primeiras 24 horas, felizmente. Chegou ao meu quarto e fui recebê-lo à porta com um troféu de irmão mais velho nas mãos. Ficou radiante de receber a taça do melhor irmão do mundo! Mas logo em seguida reparou no meu cateter venoso na mão. Arregalou os olhos:

- Mãe, é assim que tu tratas dos doentes?
- Sim, às vezes tem de ser mesmo por aqui, filho.
- Isso é para água ou para medicamentos?
- Pode ser para água, mas geralmente é para medicamentos, querido.
- Mas... mas... que espetáculo! Mas esse canhão dispara mesmo medicamentos para os doentes daqui do hospital? Mostra, mãe, dispara lá!

(Ups... Não te rias, mantém a compostura, aguenta, aguenta!)

- Agora não é preciso, já disparei há pouco tempo, mas se alguém mais precisar eu mostro...

[Boys will be boys!]

quinta-feira, 22 de junho de 2017

[welcome to mozambique] a seleção de esperanças!


"Os meninos das Irmãs" - Escolinha da Santa Cruz, Nampula
Não sei quais deles são meus filhados, possivelmente nenhum, porque só tenho rapazes e veem-se sobretudo meninas a dançar, mas sei que são felizes e lhes é permitido ser criança!
(Moçambique)

No mês da criança, no dia em que é divulgado o relatório da OCDE em que se faz a revelação bombástica de que "uma melhor educação na primeira infância aumenta as hipóteses das crianças desenvolverem todo o seu potencial, ao mesmo tempo que reduz as desigualdades sociais e é a principal determinante da mobilidade social" (como se ninguém o soubesse há anos), as irmãs de São João Baptista postaram este vídeo delicioso! Podia ser qualquer jardim de infância de qualquer país do mundo, mas fica num dos bairros mais pobres de Nampula e se vos disser que há anos que fazem coisas tão extraordinárias e defendem a infância com unhas e dentes podem crer que é verdade!

Coisas extraordinárias como combater o tráfico e rapto de crianças. Sabem como? Chamam o senhor da conservatória de 6 em 6 meses à escolinha e registam cada uma das crianças que nasce no bairro! Desde que o fazem nunca mais houve um único rapto de crianças, que era um flagelo que assolava toda a província! Desapareceram os raptores. Foram para a Tanzânia, diz-se. Mas nunca mais! Podem rir-se. É um ovo de Colombo, é certo, mas como todos os ovos postos por esse senhor, absolutamente genial.

Na escolinha asseguram que todas as crianças aprendem a falar Português e se familiarizam com livros, letras e números antes de iniciar o primeiro ciclo. Porque nenhuma criança consegue aprender a ler numa língua estrangeira (e em Nampula, nas casa de família, fala-se Macua). A biblioteca das irmãs, por pobre que seja, tem um movimento de 400 pessoas diariamente! É uma ilha, um oásis! E o número de crianças que consegue aprender efetivamente a ler é incomensuravelmente superior aos meninos de outras escolas.

Proporcionam a alimentação, vestuário e material escolar a cada uma das crianças. Por escassa que seja a alimentação, todas as crianças (e asseguro-vos que as observei a todas, uma por uma!) estavam dentro das curvas de crescimento da OMS.

Quanto gastam as irmãs com cada uma das crianças? Com cada um dos nossos afilhados? Preparem-se: 70 euros por ano! Em roupa, alimentação, educação e material escolar. E acima de tudo, as crianças têm sempre um sorriso! Digo-vos, que só quem lá esteve sabe a força que um sorriso pode ter.

É isto. A vida é simples. Os 70 euros por ano que gasto com os meus afilhados valem cada cêntimo! Tenham um bom dia!

(Se me perguntarem: Beijo-de-mulata, alguma coisa te custa, nisto de ser mãe? Eu respondo que há uma coisa. É não poder tão cedo voltar a Moçambique... A saudade aperta tantas vezes... Mas não se aflijam que sou feliz do lado de cá!)

terça-feira, 6 de junho de 2017

[vozes brancas*] memórias de infância



Ainda a propósito da notícia do Público que deixou metade do país indignada, onde era referido que 43 crianças tinham sido "devolvidas" durante o período de pré-adoção no ano passado, houve quem tivesse comentado qualquer coisa como: "Pelo menos a maioria eram bebés. Ao menos não se vão lembrar de nada."

Não sei que formação têm as pessoas que verbalizaram coisas deste calibre... Com boa intenção, claro, não duvido, quase que para se consolarem e defenderem da catástrofe emocional que é saber que uma criança foi abandonada segunda vez. Mas a noção de que as experiências dos primeiros anos de vida são incrivelmente importantes e ficam gravadas a fogo na memória e no inconsciente tem mais de 100 anos e é irrefutável! Não por ser freudiana, mas por ser verdadeira.

Posso até provar-vos: O baby-de-mulata tinha 16 meses no dia em que chegou a casa e lhe nasceu uma mãe (para mim ele já tinha nascido antes, mas acho que nos adotamos verdadeiramente um ao outro nesse dia). Contei-vos a história há poucos dias. Pois que há quase dois anos, um dia, depois de um passeio no jardim chegamos a casa e ele disse-me:
- Mamã, pega-me ao colo...

E já no meu colo:
- Mãe, agora a fingir que eu tinha chegado de muito longe e tu me ias mostrar a casa...

E ao meu colo, conseguiu reproduzir a sequência com que lhe mostrei a sua nova casa no momento em que chegamos. E mais, por fim quis ir para a sala, pegou num livro e pediu-me para lho ler. No mesmo local onde lhe mostrei o álbum de fotografias de família...

E eu, que sabia de tudo, quase não consegui deixar de me emocionar e de me espantar. Os bebés guardam memória dos dias importantes. Por mais que não lhes consigam atribuir um significado. Por isso não lhes podemos falhar tão redondamente!

terça-feira, 30 de maio de 2017

[vozes brancas*] fofices


Há exatamente um ano, tentando motivar o baby-de-mulata para reconhecer a delícia que é ter um irmão mais novo, mostrei-lhe um Nenuco:
- Olha, querido, não é tão fofo? - perguntei, abraçando e embalando o boneco.

Com o ar mais dahh que alguma vez lhe tinha visto e, olhando com um desprezo colossal pelo canto do olho, respondeu-me:
- Sim, mãe, fofinho como uma grua num salão de baile!

(Sempre vi que tinha aqui um público difícil).

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

domingo, 21 de maio de 2017

[vozes brancas*] massa cinzenta

[Este é o post nº 1500 deste blogue, desde a sua criação, há 7 anos, vários meses e várias telhas e amuos, lutos e lutas e aventuras.]



Há uns dias, eu estava a ameaçar zangar-me com o baby-de-mulata porque não se queria sentar à mesa para almoçar e teimava em levantar-se a desafiar-me com a sua irreverência, alegando os clássicos: "dói-me-a-barriga-não-tenho-fome-ainda-não-brinquei-nada-o-que-há-nesta-gaveta?-é-sempre-peixe-etc.-etc." E eu a respirar fundo, tentando não me transformar em momster, que como sabemos, torna a comida em geral indigesta (e o peixe em particular, segundo dizem). Foi então que o baby se aproximou de mim, olhou-me nos olhos, segurou-me a cabeça como costumava fazer, apaixonado, há uns anos (e ainda faz às vezes quando acorda, benza-o Deus) e perguntou-me:

- Mãe, o que tens dentro da tua cabeça?
- O mesmo que tu, baby, o cérebro.
- Ah, e como é feito o cérebro?
- É feito de massa branca e massa cinzenta.
- Então quando eu me estou assim a portar mal, é a massa cinzenta ou a massa branca a mandar?

(Coisa mai fofa de sua mãe! Até me apeteceu explicar que a parte que pensa é a cinzenta, mas clivagem em minha casa, não obrigada!)

- São as duas, meu bem, quando pensamos ou fazemos alguma coisa são sempre as duas em conjunto a trabalhar. E tu não te estás a portar mal, tu já vens para a mesa.
- Está bem, mãe. Vou já, é só que não me apetecia ir lavar as mãos, mas vou já.

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

[vozes brancas*] o lançamento de um livro


Ontem o baby-de-mulata chegou a casa desolado. Tinha ido entusiasticamente ao lançamento do livro do tio-avô, Rostos da Emigração, da editora Orfeu. Um livro para adultos, obviamente, sobre um tema pesado e muito descurado na literatura portuguesa, que é a emigração portuguesa nos anos 60-90 e os seus dramas sociais, numa escrita livre, escorreita e deliciosa (tive o privilégio de o poder ler antes do lançamento).

Falou-se muito e de forma séria, mas o baby aguentou estoicamente na sua cadeira, na expetativa do clímax apoteótico que fantasiava para o final. Mas, no final, nada mais aconteceu. Toda a gente se foi despedindo e seguindo o seu caminho para fora da sala, sem fazer a pergunta incómoda que já lhe queimava a língua. No final perguntou ao avô: "Mas, avô, quando é o lançamento?"
- Já foi, querido!
- Já foi?! Não vi nada! Então a luta de livros? Ninguém vai atirar nada?! Já no ano passado, no lançamento do livro da prima Joana foi a mesma coisa! Toda a gente falou e pronto. Mais nada. Não é justo!

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

[iAgora na prática] presente do dia da mãe

Ontem foi o final da semana mundial sem ecrãs. No sábado o baby-de-mulata perguntou-me se, para além do presente da escola (que já me tinha dado na sexta-feira porque sim), haveria alguma coisa que pudesse fazer para eu me sentir feliz no dia da mãe.

Fiquei a babar-me. E respondi que o melhor que ele poderia fazer por mim era acordar e não ir ver televisão, como de costume e ficarmos a brincar, montar legos, desenhar. O que lhe apetecesse.

Acordou-me (ouch!) às 07:00 da madrugada (sim, mães de lactentes, eu sei que não me posso queixar, mas ainda assim...) com uma caixa de lego na mão, um sorriso de orelha a orelha e um: "Parabéns, mamã, vamos montar este?". Amor de sua mãe [ou isso ou sou mesmo uma fácil...]! O rapaz adora ver televisão aos fins de semana, pelo que lhe deve ter custado tanto como a mim me custa não tomar café, por exemplo, sacrifício valente!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

[psiquiatrices] e comida saudável


Esta passou-se no meu hospital, com uns colegas meus, no internamento de Pedopsiquiatria. É uma enfermaria geralmente muito animada, com muitas particularidades que fazem dela um especial caso de sucesso. Os meus colegas jogavam às cartas com um grupinho terapêutico muito divertido, em que se incluíam algumas doentes com anorexia nervosa em franca recuperação, outras com depressão grave, outras com outras patologias. A dada altura, uma adolescente com anorexia nervosa lança a carta representada acima, declarando, triunfante:

- Ás de Brócolos!

(O que prova que qualquer mancha em psiquiatria é projetiva. E poderia abrir aqui um longo parêntesis sobre a interpretação deste lapsus linguae, mas não o farei pelos seguintes motivos:
a) não pretendo fazer psicanálise selvagem;
b) a origem do ato falhado é absolutamente óbvia;
c) no dia em que inventarem um teste de Rorschach de escolha múltipla prometo vir aqui fazer uma interpretação extensa do paradigma;
d) sem outro motivo;
e) tenham um bom fim de semana!).

segunda-feira, 3 de abril de 2017

[o que vês da tua janela, beijo de mulata?] autismo e consciência


Ao fundo, bem antes da linha do horizonte, adivinha-se o Cristo Rei pintado de azul, por ser o dia mundial da consciencialização do autismo.

A propósito do tema, e porque tem um menino na turma com autismo, o baby interessou-se pelo assunto. Expliquei-lhe o que sente um menino com autismo perante os estímulos normais do dia-a-dia. E perguntou ele, sempre com as suas preocupações metalinguísticas:
- Mas porque é que se chama, autismo, mãe? Devia chamar-se "esmagadismo", porque os meninos se sentem esmagados pelos sons, pelas luzes e pelas caras das pessoas.
- Pois, mas como é muito difícil para eles perceberem o que as outras pessoas estão a sentir ou a tentar comunicar, ficam muito fechados em si mesmos, daí o nome autismo, ou seja, "em si mesmo", percebeste?
- Mãe, eu tinha autismo quando era pequeno? [De facto, em tempos teve esse diagnóstico...]
- Não, querido, quem te disse isso?
- Ninguém, mãe, é só que me lembro que quando era pequeno era tudo muito forte para mim. [Como é que é possível, valha-me Deus, que ele tenha consciência disso?]
- Não filho, claro que não, é só que eras muito bebé...
- E o autismo passa?
- Às vezes, quando é muito fraquinho, pode passar. Outras vezes só melhora mas não passa.
- Como o João? Ele já está muito melhor, agora até já fala e antes não falava.
- Sim, como o João, filho. Boa noite.

segunda-feira, 27 de março de 2017

[vozes brancas*] uma corrida de automóveis



Há poucos dias, na escola, chamei à atenção o baby-de-mulata porque não deveria tratar a diretora do colégio por tu. Delicadamente e meio na brincadeira, claro, que o caso não era para zangas e o baby é ultrassensível  aos meus estados de espírito:

- Querido, é "Onde vai, Irmã?" e não "Onde vais?".
- Ah, onde vai, Irmã?

Mudou de imediato o registo para a terceira pessoa e assim continuou, o que a deixou orgulhosa do seu "neto" (a diretora foi minha educadora quando eu era criança).

Horas depois, lá em casa, o baby falou-me no assunto. Pelos vistos, do alto dos seus cinco aninhos já fica a matutar em questões (mais parecido com sua mãezinha não poderia ser, caramba!, é isso e a tendência para inventar teorias sobre tudo... epigenética rules!):

- Mãe, desculpa ter tratado a Irmã por "tu".
- É normal, querido, ainda não estás habituado. Os crescidos estão mais habituados do que as crianças.
- Pois, eu sei que tenho de a tratar por "Irmã", mas é como se fosse uma corrida de carros... Eu vou explicar: o "tu" é um Ferrari mal-criado e "Irmã" é um carro normal. Por isso, quando eu falo, o Ferrari atropela o carro normal, faz batota e chega sempre primeiro.
- Sim, mas depois o carro normal chegou e tomou conta da corrida. E estiveste muito bem.
- [Sorriu, aliviado] Ah, está bem, mãe, então só tenho de praticar mais...

*Voz branca - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

sexta-feira, 24 de março de 2017

[vozes brancas*] as 10 melhores razões pelas quais a fada dos dentes não veio ontem à noite

Esta manhã, Nuno Markl descreveu na sua página no facebook mais um pequeno drama familiar, daqueles mesmo FWP (first world problems), mas que me fez rir. Afinal de contas é aqui que vivemos e todos temos algo a dizer de viva voz.


O meu filho perdeu mais um dente, mas acordou tão cedo que não me deu tempo de preparar a operação fada dos dentes. Logo, o dente não desapareceu de debaixo da almofada e o brinde da fada ainda está dentro da minha mochila. Se alguém tiver ideias para ajustar o mito a esta situação, força. Eu estou prestes a usar o clássico "a fada sou eu" pela 2ª vez. Da 1ª vez ele não acreditou - achou que era muito forçado...

E o que se seguiu foi muito simples, meus amigos, um chorrilho de comentários bem dispostos, alguns deles absolutamente fantásticos, que poderemos utilizar na nossa economia de recursos familiares. E o que eu me diverti a ler os comentários! Descobri soluções para todos os tipos de famílias e crianças. Eis as top 10:

1 - Para quem tem filhos desarrumados: "Diz-lhe que provavelmente a fada dos dentes não conseguiu encontrá-lo a ele ou à almofada dele no meio da desarrumação do seu quarto... fiz isso à minha filha e resultou. Na noite seguinte havia instruções espalhadas pelo quarto para garantir que a fada não se perdia. E o quarto estava um primor!"

2 - Para os pais criativos e doces, com filhos ainda na fase do pensamento mágico (autoria da Maria Bê): "Escreve um bilhete da fada a dizer que não conseguiu pegar no dente porque era muito pesado e bonito. É que ela é muito pequenina. Hoje traz ajudantes... Simula que o encontras perdido algures. A nossa fada dos dentes escreve imenso e conta coisas mirabolantes."

3 - Para pais de futuros jornalistas: "A fada foi para o Lux ontem (diz que é a melhor noite da semana para ir ao Lux) e adormeceu num Uber qualquer a caminho de casa, e terá sido assassinada numa mata na zona da Fonte da Telha. Visto que é sexta-feira, o enterro agora só lá para terça, e entre concurso público para a posição, avaliação de CV, testes físicos e entrevista, só lá para final de abril é que haverá nova fada colocada. Diz-lhe que há que ter paciência, o mundo não gira à volta dele, e que a família da fada neste momento está a tentar lidar com a dor e há que respeitar." Perfeito!

 4 - Para os pais que querem que os filhos acreditem durante toda a infância e, já bem entradotes na pré-adolescência, passem a vergonha das suas vidas quando lhes caírem os molares: "Isso aconteceu-me numa fase em que a minha andava desconfiada da existência da fada e eu disse: «Estás a ver, desconfias da fada ela não aparece, ela precisa que os meninos acreditem nela»... Ficou aflita. No dia seguinte lá estava o brinde. «Estás a ver, tens de acreditar para ela não ficar triste e conseguir voar». Nunca falha!"

5 - Para os que querem criar filhos intelectuais de esquerda: "A fada está desmotivada. Há muitos anos que não tem aumentos e tem cada vez mais trabalho, pelo que com a noite de chuva que esteve, a fada adiou os trabalhos e irá fazê-los durante o dia sob melhores condições climatéricas. Já basta ganhar mal, quanto mais trabalhar à chuva! Ainda estraga as asas..."

6 - Para os que gostam de ver o CSI com os filhos: "O meu filho andava chateado com a fada pois andou dois dias à espera. Então, quando ele reclamou, eu agarrei nuns trocos e disse: «Não pode ser, vamos investigar!» e, enquanto ele procurava, pus o dinheiro debaixo do colchão e fingi que o descobri: «Olha!, deve de ter caído e tu não deste por ela!» Funcionou!"

7 - Para os filhos dos dentistas, pediatras e pessoas em geral preocupadas com a higiene oral (eu própria já deixei bilhetes deste género ao baby-de-mulata): "Diz que a fada esteve a analisar o estado do dente e teve de o submeter à apreciação do conselho de peritos. Depois deixa um bilhete a elogiar o estado impecável do esmalte, que bem escovado que estava! Termina por  deixar uma nota de encorajamento para continuar a tratar tão bem os dentinhos".

8 - Para os futuros meteorologistas: "Com a seriedade que o assunto exige: Diz que a protecção civil emitiu alerta laranja para todas as fadas do país por causa do mau tempo... Está retida num aeroporto de fadas qualquer!"

9 - Para os que querem criar filhos empáticos, doces e compreensivos: "Disse à minha filha que a fada naquela noite tinha tido muitos meninos para visitar e que não tinha conseguido chegar a nossa casa antes do amanhecer... Ela respondeu: «Não faz mal mãe, pode ser que esta noite ela tenha tempo!»

10 - Por fim, last but not the least, para os que estão a criar um cientista: "Conheço um blogger famoso a quem aconteceu o mesmo. Nessa manhã a filha acordou desolada (ao que parece não tinha informado os pais que o dente tinha caído portanto os pais não tinham tido oportunidade de providenciar a troca do dente). O pai então, diligentemente, foi mudar a entrada da Wikipedia sobre a Fada dos Dentes, referindo que a fada vem um OU DOIS dias depois da queda do dente. Depois foram os dois "fazer uma pesquisa" e apresentou à filha uma explicação cabal e científica do atraso." Delicioso!

* Vozes brancas - Timbre da voz das crianças antes da puberdade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

[bullying no jardim de infância] histórias de fora de casa

Correu tudo bem, felizmente, obrigada pelo vosso apoio e preocupação. No dia seguinte estivemos a treinar o que fazer e o que responder em caso de novas investidas do pequeno bully lá da escola. Teatro cá em casa até à hora de dormir:

- Vá, baby, faz uma cara feliz. E agora uma cara triste. E agora uma cara de corajoso! Boa!

E ele lá ia fazendo as caras e nós quase nos desmanchávamos a rir.
- E que cara achas que poderias fazer se ele viesse outra vez para te bater?
- Uma cara de corajoso!
- Isso, vamos a isso! E agora o que podes dizer?
- Não me podes bater, ou nunca mais brincas comigo!
- Boa, mas desviaste os olhos, assim ele não te leva a sério. Tens de olhar para a cor dos olhos dele, vamos, olha para a cor dos meus olhos e diz!

E o papá tirava-lhe um brinquedo à má fila e ele olhava-o nos olhos com "cara de corajoso":
- Alto aí, aguenta os cavalos! Eu é que estava a brincar com isso!
- Boa, filho!

Quando o fui buscar à escola perguntei como lhe tinha corrido o dia.
- Correu bem, mãe, quando o B. veio para me bater eu olhei para a cor dos olhos dele e disse-lhe "as regras".
- [Fiquei espantada, não tínhamos falado em regras] - Que regras?
- Disse que se me batesse eu ia chamar o meu pai, que era o chefe das tropas e que nunca mais brincava comigo!
- [O chefe das tropas? Mas de onde é que isto veio?] E ele?
- Ele ficou a olhar e depois fugiu. Mas depois veio perguntar-me se eu queria brincar às preguiças.
- Ah... e tu?
- Eu fui brincar com ele.
- E depois?
- Brincámos às preguiças ao pé do escorrega. E depois às escondidas...

Ah, a beleza da infância! A vida é simples, felizmente... Ainda é cedo, eu sei, mas já se passaram dias e nem mais uma queixa!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

[vozes brancas*] um campo de batalha

Na semana passada, quando cheguei a casa da minha mãe, tinha o meu pintainho doente, jacente na cama da vovó com um ar miserável, a dormir com uma cara de quem está desesperado de dor e febre. Deitei-me ao lado dele de mansinho e tentei perceber se tinha dificuldade em respirar ou algum outro sinal de gravidade.

- Mãe...
- Estás acordado, filho?
- Sim, só tenho os olhos fechados porque me dói a cabeça.

A mãe que habita em mim é histérica, já sabemos. Dor de cabeça e febre?, ai valesse-me Nossa Senhora da Pia Mater! A pesquisa de sinais meníngeos (vulgo, encostar o queixo ao peito) deixou-o profundamente triste comigo: "Dói muito, mãe, não me mexas a cabeça!" A pediatra descansou, mas a mãe histérica quase ficou com o coração em sangue (pobre pintainho, uma boa mãe nunca faria isto a um filho). [E podia abrir aqui um longo parêntesis sobre esta vozinha interior de quem sou vítima de bullying diariamente, que me assola a alma e me diz que uma-boa-mãe-nunca-faria-as-coisas-que-eu-faço ao meu baby lindo, para vos perguntar se também vocês, mães que me leem, têm essa voz dentro do peito, mas eu hoje vim aqui para contar uma história, não vim para ter essa conversa nem para apresentar queixas de assédio moral, portanto, adiante...] Enfim, lá fiz das tripas coração, mandei calar a voz do grilo do Pinóquio e continuei a marcha diagnóstica. O baby-de-mulata, apesar do desconforto, compreendeu que era preciso abrir os olhos e a boca.

As amígdalas inchadas, a pele do peito vermelha e áspera e a língua em framboesa não deixavam lugar a dúvidas quanto ao diagnóstico**, o que acabou por me confortar. Era só preciso fazer o papel de mãe, que o antibiótico faria o resto. Mas o baby estava de facto em pânico, preocupadíssimo com o que se passava com ele.

- Mãe, podes dar-me colo?
[Mau, ele, sempre tão cioso do seu espaço na cama, a pedir colo? Está mesmo aflito!] - Anda cá, meu amor...
- Mãe, porque é que a garganta me dói?
- Porque tens lá um micróbio.
[O olhar subitamente horrorizado de quem, de repente, tem um filme de terror a passar-lhe diante dos olhos, com todas aquelas imagens horrendas de micróbios dos anúncios de detergentes e sabonetes, aqueles, estão a ver, meus amigos?, os que têm monstros a representar bactérias patogénicas?] - Um micróbio, mãe? Um monstro? O que é que ele me está a fazer à garganta?
- Não te preocupes, a garganta dói porque os glóbulos [já tivemos muitas vezes a conversa dos glóbulos a propósito das inúmeras coisas que ele não gosta de fazer, incluindo lavar as mãos e comer fruta] estão a combater os micróbios e por isso a garganta fica muito inchada porque eles estão para lá em lutas valentes.
- Mas porque é que a garganta fica inchada?
- Porque eles estão a lutar com muita força.
- Ah, com uma espada, mãe? Ou como uma tourada?
- Hum... com uma espécie de espada.
- E depois o que fazem quando os micróbios morrerem?
- Depois comem-nos.
[Um olhar aliviado e feliz] - Ah, boa! Para eles é bom, até podem fazer um petisco! Vão ficar muito contentes, então!

E pronto, só vim aqui demonstrar por A mais B que o grilo do Pinóquio pode achar que não mereço o filho que tenho, mas eu tenho o melhor filho do mundo!

* Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.
** Escarlatina, para os que não estão habituados a doenças pediátricas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

[vozes brancas*] reforço positivo

Há dias, numa consulta de desenvolvimento, os pais de um menino com autismo manifestavam a sua perplexidade com o programa de treino intensivo [cujo nome obviamente não posso mencionar] em que tinham inscrito o filho:

- Sabe, doutora, eles fazem sempre o reforço positivo com comida. Mas em todas as sessões observam que ele responde muito melhor às palmas e aos elogios do que à comida.
- A na sessão seguinte?
- Como são sempre terapeutas diferentes, acabam por fazer o mesmo. Mas depois vêm dizer-nos que ele é muito sociável e que responde melhor aos elogios e palmas do que à comida, que ele tem muito boas características pessoais.
- Ah... e o que é que acham disso?
- Achamos que se calhar vamos procurar outro programa, o que acha, doutora?
- Claro! Onde é que já se viu um programa em que o terapeuta é sempre diferente e se vê que o menino responde melhor de uma maneira e não se ajusta nada ao menino na sessão seguinte? Ele quer ligar-se ao terapeuta e vai evoluir muito melhor de outro modo!

(E depois lembrei-me de uma cena familiar em casa dos meus pais: Há quase um ano, tinha o baby-de-mulata quatro anos e pouco. Depois de Mr. B, o meu sobrinho de sete anos, ter anunciado que queria ser engenheiro civil como o pai, o baby-de-mulata anunciou ao mundo em geral, e ao primo e a mim em especial que o estávamos a ouvir, que quando crescesse haveria de ser treinador de golfinhos. Já eu me perguntava quando tinha sido a última vez que tínhamos ido ao jardim zoológico ver golfinhos e nem me lembrava, e ele continuava:

- Sabes, é que eu já sei treinar golfinhos.
- Já sabes? - pergunta Mr. B, olhando para mim incrédulo.
- Sim, é muito fácil, queres que te ensine?
Fiz o mesmo olhar de espanto: - Sim, então como é que se treina um golfinho, filho?
- É canja! Quando ele faz bem, dás peixe!

E Mr. B, filho e neto de psicólogos, responde à letra ao que ele está a dizer:
- Tu não me digas que a tua mãe te dá chocolates quando tu fazes alguma coisa bem!

Ao que, muito ofendido, o baby-de-mulata responde:
- Claro que não, a minha mãe bate palmas e diz que está muito contente. Mas os golfinhos não percebem o que nós dizemos, por isso tens de dar peixe!

Pronto, era só um desabafo...)

* Voz branca - timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

[vozes brancas*] voar mais alto do que a vista imagina...

Há poucos dias, antes da sesta, a minha mãe contava pela enésima vez ao baby-de-mulata a história do David e Golias (a quem o baby teima em chamar Gorilas), quando aquela alminha resolveu puxar mais um assunto difícil...

- Avó, o Rei David já morreu?
- Já, meu querido, o Rei David já morreu há muitos, muitos anos, que esta história aconteceu ainda antes de o Jesus ter nascido...
- Ah... pois, avó... Eu sabia, foi há mesmo muitos anos. [Ainda não era aqui que ele queria chegar, certamente.] Mas ele morreu porquê?
- Porque era muito velhinho, querido. [A resposta chapa-cinco lá de casa, não há cá mais explicação nenhuma antes dos sete ou oito anos, altura em que entrará a nuance chapa-sete à baila, das doenças e dos acidentes, muito mais ansiogénica e que por enquanto, felizmente, ainda não apareceu.]
- Ah. Pois, avó, era velhinho... E para onde é que ele foi?
- Foi para o céu.
- E quando eu morrer também vou para o céu? [Ah, era aqui que ele queria chegar!]
- Sim, querido, quando morrermos vamos todos para o céu.
- Tu também vais? [E aqui também...]
- Sim, filho, eu também.
- Ah, então já sei! Posso ir ao teu colo?
- Claro que sim, querido! [A minha mãe, já com a voz embargada... Como se explica o que nem nós próprios compreendemos? Como aplacar a angústia do desconhecido de uma criança?]
- Pronto, então está decidido, quando morrer vou para o céu ao colo da vovó! E depois, avó?... Voltamos cá para baixo?

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 26 de julho de 2016

[vozes brancas*] planos para o futuro

Na consulta de desenvolvimento, hoje, estava a ver um menino com uma perturbação de identidade de género, com um conflito latente enorme com o pai, que fica literalmente doente quando vê o menino a dançar ballet. Tem um ataque de nervos, sobe-lhe a tensão, sente-se desfalecer, fica com dores no peito, falta de ar, tem de ir para o hospital, que lhe dá um fanico, dois chiliques e três achaques. Haveria certamente quem dissesse que esta reação também é um pouco exagerada, mas enfim, cada um reage como pode (e aqui para nós, é assim que a gente percebe que o-menino-tem-a-quem-sair,-mas-enfim,-eu-não-disse-nada).

- O que é que queres ser quando fores crescido?
- Quero ser bailarino! - responde com um brilho nos olhos, de quem a mera palavra "bailarino" enche a alma.
- Que bonito, e o que gostarias de ser se não fosses bailarino?
- Acho que tinha também jeito para ser médico.
- Ah, acho que sim, que terias muito jeito! Sabes falar muito bem com as pessoas. E olha, aquele teu amigo, o David, aquele que gosta de dançar Hip-hop e pratica capoeira. O que é que ele quer ser quando for crescido?
- Ele quer ser Presidente da República... Ou então condutor do metro.

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

sábado, 16 de julho de 2016

[vozes brancas*] baby-de-mulata

Ouvido da cozinha:
- Filhote, anda aqui ajudar o pai - chamava Mr. Shaka da sala.
- Não posso, pai, estou aqui a treinar este gorila para o combate com o leão!

E tenho a dizer que assisti ao combate horas depois e quem ganhou foi o gorila! Temos Fernando Santos!

(Depois da vitória de Portugal parece que todos acreditamos mais um bocadinho...).


*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

[vozes brancas*] e vidas pequeninas...

Até há pouco mais de duas semanas eu tinha mais um menino do que tenho hoje na minha consulta. Desde há pouco mais de duas semanas que não o tenho... Mas é precisamente desde há duas semanas que tenho uma história aqui atravessada nos dedos para vos contar.

Eu sei que não é o timing, deixem-me flagelar-me... Nunca é, também... Portugal foi campeão do Europeu e, mal um gajo teve tempo de inchar de ser Português e já temos de ser franceses outra vez e vamos lá ver se não temos de ser turcos já amanha. Os acontecimentos sucedem-se a uma escala que não é a da minha consulta, porque lá as vidas são pequeninas. Pequenas demais para se verem do alto do facebook. Mas se só vivermos à escala mundial acontece-nos como a uma amiga minha, que há uns tempos se queixava de que a indecisão entre o aquecimento global e a vinda de uma nova era glacial estava a deixar o seu sistema imunitário louco. Confesso que admiro profundamente quem consegue perspetivar à escala planetária aquilo que acontece na sua mucosa nasal (e o que escorre dela). Mas eu continuo a ser loira. Loira com dois neurónios, um dos quais viúvo. Por isso só me ocorreria que a minha amiga teria uma rinite. Mas isso tem a modesta vantagem de, em vez de aconselhar o Protocolo de Quioto, quase impossível de cumprir e que, na melhor das hipóteses, só poderá reverter as alterações climáticas dentro de várias décadas, prescrever antes um anti-histamínico e, em calhando, no dia seguinte a minha amiga estaria boa! Ou pelo menos melhor. O que se perderia em superioridade moral ganhar-se-ia em simplicidade e qualidade de vida. Mas enfim, longe de mim ditar tendências.

Mas vá, tudo isto para dizer que tenho a história de uma vida pequenina para vos contar: encham-se lá de paciência, meus amigos... Ninguém vos obriga a vir aqui, que isto já não é o mato divertido de uma loira anónima mas, já que cá estão, não se vão embora sem tomar uma pinga de chá. O meu menino não era o Cristiano Ronaldo, mas era um bom menino. E tem uma história que merece ser contada. É rápida, de qualquer forma. E conta-se em três penadas:

Tenho um menino na minha consulta que viveu numa instituição praticamente desde o dia em que nasceu, abandonado pela mãe na maternidade. Prematuro de 28 semanas porque a sua progenitora consumia cocaína e, num pico de tensão enquanto snifava mais uma dose, teve um descolamento de placenta. Extremo baixo peso ao nascer. Tinha menos de um quilo quando nasceu, esteve ventilado mais de um mês, teve várias septicémias. Na primeira ecografia cerebral percebeu-se que o descolamento de placenta e a cocaína tinham tido consequências ainda mais graves do que a própria prematuridade: o menino tinha tido um AVC que lhe destruíra uma parte importante do cérebro. Para cúmulo, meses depois confirmou-se mais um presente envenenado: infeção vertical por VIH.

Foi este menino que me chegou há um ano à consulta. Era um menino sorridente e bem disposto. Persistente. Depois de meses de fisioterapia começou a andar apesar do cérebro que lhe faltava. Chorava quando se ia embora da consulta porque estava ávido de qualquer atenção. Tentava sempre levar um brinquedo de cima da minha secretária numa carência de afeto indescritível. Dizia algumas palavrinhas (água, papa, olá). Graças ao zelo das funcionárias do lar tinha uma carga viral indetetável desde o primeiro dia. Sorria com confiança para todos à sua volta porque as pessoas que cuidavam dele, apesar de não serem família, sempre lhe tinham sorrido de volta.

Mas há duas semanas, na hora da consulta dele, vi chegar um casal holandês com uma cadeirinha de passeio. Lá dentro vinha o meu menino, a cantar uma canção em holandês. Contra todas as expetativas, o menino tinha sido adotado cinco semanas antes e vinha à consulta já com os pais adotivos. Estavam os três radiantes! Desde há cinco semanas os pais tinham assistido a uma explosão de desenvolvimento. O menino, outrora com um atraso de desenvolvimento grave, que só começara a andar com meses e meses de fisioterapia, tinha começado a correr, a subir escadas, a saltar. Já compreendia holandês. Cumpria todas as ordens que a mãe gentilmente lhe dava: "Vai dar um beijinho à doutora", "Vai arrumar este livro na caixa azul". Já fazia frases em holandês. Estava feliz. Mesmo feliz. Mas no momento em que a mãe lhe disse: "Agora vamos para casa", fez menção de chorar, como fazia habitualmente. Começou a fazer beicinho. Agarrou-se a mim e aos brinquedos que tinha na mão para os levar com ele, no desespero de quem tenta prolongar o momento de atenção e alegria que vivera ali. Gelei por instantes, pelo desconforto que os pais poderiam estar a sentir. Pela angústia de separação do menino. Foi então que de repente, os olhos do menino brilharam novamente. Olhou de novo para a mãe como quem pensa: "Alto, espera aí...". Ela estava ali, à sua espera! Agora tinha uma mãe! E um pai! Afinal já não estava triste. Afinal tinha um sítio para onde ir que era muito mais feliz e seguro do que aquele. E saiu novamente a cantar, na sua cadeirinha, uma canção em holandês, que não me sai da cabeça desde então.

É tão, mas tão bom ver alguém fintar o destino!

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

[vozes brancas*] tecnologias...

Numa sociedade em que as crianças têm cada vez mais acesso precoce a perigosos distratores visuais - televisão, tablet, telefone, computador - o processamento verbal e auditivo e, por conseguinte, a leitura e escrita podem ficar seriamente comprometidos. Eu tento proteger o meu filho com unhas e dentes (sem fundamentalismo, claro, apenas prego uma valente rabecada de alto a baixo a quem se atrever a chegar perto da minha cria com um dispositivo eletrónico) e tendo cativá-lo para atividades mais físicas e apelativas. Ontem, ao jantar, o baby-de-mulata queixava-se de que a cadeira abanava. Foi então que descobri que alguém anda a boicotar as minhas nobres intenções. Virou-se para o tio que jantava connosco e disse com um olhar de entendido:

- Acho que tens de fazer uma atualização a esta cadeira!

*Voz branca - Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

domingo, 20 de dezembro de 2015

[vozes brancas] a carta ao pai natal


 
Há dias, antes da história de adormecer, lá nos resolvemos, eu e o baby-de-mulata, a escrever "a carta" ao Pai Natal, que dezembro já ia bem avançado e urgia ter ideias claras sobre os desejos do rapaz para na hora da verdade fazer os seus olhos brilhar. Ditou-me a carta como se tivesse escrito cartas toda a sua vida (acho que aprendeu com um vídeo do YouTube do que costuma ver com Mr. Shaka, o seu papá-maravilha... um vídeo do Monstro das Bolachas da Rua Sésamo que faz rir os dois à gargalhada ante o meu olhar atónito. Para mim não tem grande graça, mas os dois ficam horas perdidas deliciados a repetir o mesmo vídeo, procurem e depois digam-me o que acham, se sou só eu que sou sisuda e exigente ou o sketch tem mesmo piada...).

Depois de me ditar três ou quatro objetos do seu ímpeto consumista, perguntou-me:
- Mas, mãe, o Pai Natal verdadeiro também pode pedir presentes?!
- Penso que não, filho, só as crianças é que podem pedir - respondi, divertida - mas porquê? Se fosses tu a pedir para ele, o que é que tu gostavas de pedir?
- Um Pai Natal igual a ele, para poderem brincar! Ele deve sentir-se muito sozinho e viajar com companhia é mais giro...