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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

[comentários que valem um post] uma costela hipocondríaca

Conta-nos a Risota, a propósito do post sobre a hipocondria nos estudantes de Medicina e do comentário da Ruiva sobre os seus próprios gânglios linfáticos:

Uma vez descobri um alto no tórax e fiquei em pânico. Mas giro, giro foi que a médica das urgências também sentiu aquela espécie de quisto e não sabia do que se tratava. Como não se via nada no raio x pensou que talvez fosse um lipoma!  
- Oi?
- Isso mesmo! Um lipoma! E vamos lá fazer uma eco para ver se descobrimos do que é que se trata.
E eu peguei nos resultados e bati o pé à porta do consultório da minha médica de família (se é para receber notícias más que seja por uma cara conhecida).
OMG! O que ela gozou comigo! Estava eu aflitinha e ela diz-me com a maior das calmas: "Hummm estou a ver! Acha que é desta que morre? Ainda não! pelo menos eu não conheço ninguém que tenha morrido por ter costelas flutuantes!"
 
E foi então que, ao sorrir, me lembrei desta história, que há uns anos atrás nos valeu umas gargalhadas valentes no serviço de urgência...

P. S. - Se se revirem em qualquer das situações, não se sintam mal, por favor. Por mais doenças imaginárias que já tenham tido, lembrem-se: eu tive dez vezes mais durante o curso, a saber, cento e tal doenças ligeiras, quinze graves e dez fatais! Se mais alguém quiser partilhar uma boa história, a gerência deste mato agradece...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

[comentários que valem um post] sobre a pêpa desta semana, um tal de henrique

[O título é da Maria Bê, nossa correspondente no Arizona, mãe de duas crias adoráveis e mulher de um fabuloso caçador de escorpiões.]
 
Diz Jorge Soares, vizinho deste mato e dono d'"O que é o jantar", a propósito da minha fúria de anteontem:
Tenho um filho hiperactivo. Durante muito tempo pensei como esse senhor: achava que a solução para o problema não eram os psicólogos e pedopsiquiatras. Apesar dos diagnósticos de hiperactividade, défice de atenção e dislexia, eu continuava a achar que o que ele precisava era de regras e mão dura, que o que tinha funcionado comigo, que era uma criança normal, também ia funcionar com ele.
Um dia acordei às cinco da manhã e cheirou-me a fumo, levantei-me e fui dar com ele a fazer uma fogueira debaixo do edredão. Nesse dia percebi que há coisas que estão mais além das regras, das sovas e dos castigos... e que não, que eu não ia conseguir resolver o problema, porque não é um problema que se resolva com educação, é uma doença e as doenças devem ser tratadas.
O texto não me estranha nada, por vezes falo da hiperactividade no meu blog e há sempre alguém que vem dizer algo parecido com o que diz este senhor, há muita gente que pensa como ele... infelizmente.
 
Mais achas para a fogueira aqui e aqui...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

[hipocondria] tão bom que já me tinha esquecido como era!



Durante o curso de Medicina, não há estudante que se preze que não tenha tido uma preocupação grave com a sua própria saúde, por curta que fosse, sobretudo no terceiro ou quarto ano, em que as doenças e os doentes começaram a surgir em catadupa nas nossas vidas.

Mas, como em tudo, há os que abusam. Eu fui uma delas. E desde cedo! Ao todo umas cento e tal doenças ligeiras, quinze graves e dez fatais! Ele era aneurismas da aorta abdominal, ele era cancros em vários orgãos e sistemas, ele era todo o tipo de doenças infecciosas e parasitárias, incuindo as que existem exclusivamente em locais recônditos de África ou da América do Sul. Recordo-me particularmente de uma insuficiência renal aguda no segundo ano, que durou dois dias, altura em que terminei de estudar o aparelho urinário e passei a ter uma azia de caixão à cova porque me meti (assim à maluca!) a estudar o aparelho digestivo. Recordo-me também de um linfoma no terceiro ano, que só passou com uma autoridade em Hematologia a dar um murro na mesa e dizer-me que não me fazia biópsia nenhuma porque não tinha indicação. Rezei por ele durante anos!

A verdade é que todos passámos por isso. E à medida que o tempo passava, os sintomas tornavam-se cada vez mais sofisticados e consistentes. Qualquer dormência que surgisse, seguia uma distribuição por dermátomos, as dores abdominais exacerbavam-se sempre à descompressão, como na apendicite aguda... Mas claro que tínhamos crítica. Claro que minutos ou, na pior das hipóteses, horas depois fazíamos o percurso mental inverso e desmontávamos os sintomas e somatizações. Riamos de nós próprios, que é sempre o melhor remédio. O problema é que também este processo falhava por vezes. Tenho inclusivamente uma colega que só se rendeu à evidência de que tinha mesmo uma apendicite aguda e não uma somatização (estávamos no estágio de Cirurgia II) quando chegou à fase de "ventre em tábua"...

Depois tudo passou, felizmente! Não tenho saudades, confesso. Muitos dos meus colegas ficaram alérgicos e não suportam doentes hipocondríacos. Eu, pelo menos, continuo sensível ao tema. E achei delicioso ler no outro dia a São João, que dizia com imensa graça: "Não sou hipocondríaca. Eu somatizo é muito!" E responde a Mariana, logo ali, com o mesmo sentido de humor: "Eu também nunca invento sintomas, tenho é muitos. E geralmente todos graves!" Benza-vos Deus, minhas queridas, que não há doença que vos resista à boa disposição!

domingo, 12 de agosto de 2012

[das coisas realmente importantes] um sorriso

Eu sou uma pessoa que acredita piamente que a boa disposição é determinante para sobreviver às provações da vida, acredito que o sorriso e o bom-humor melhoram o prognóstico de qualquer doença, acredito que um sorriso ou, nos mais afoitos, uma gargalhada, liberta, refocaliza e aumenta a produção de endorfinas*. Um sorriso fortalece o sistema imunitário e dá-nos força anímica para lutar! Aliás, de que serve vencer o que quer que seja, se não for com um sorriso nos lábios?

Uma das coisas que sempre fiz, mesmo quando ainda não era médica, foi tentar fazer rir as pessoas mais tristes. Se estivesse algum doente em fase terminal, aproximava-me dele, e ia ver de que precisava. Na altura tinha mais tempo, claro, porque não contavam comigo para trabalhar e portanto estava por minha conta. Eram estes os doentes de que ninguém queria cuidar por estarem a morrer. Não é fácil lidar com os próprios sentimentos e com os dos outros. E é difícil descortinar um sentido no fim da vida. Mas, por pior que estivessem, conseguia quase sempre fazê-los rir com qualquer coisa e apaziguá-los no meio da angústia final. Sem desrespeito pelo momento, claro. É uma questão de sentir o outro e intuir a oportunidade.

Ontem descobri que felizmente ainda não perdi essa capacidade. Ontem, no funeral de uma doente minha, uma menina que eu conhecia há seis anos, depois de um abraço e de rezar com a mãe, consegui dizer-lhe uma frase que a fez sorrir. E depois de lhe arrancar um sorriso, via-a levantar a cabeça e encarar novamente as pessoas ali presentes...

* Assim uma espécie de anticorpos contra a dor, quer da alma quer do corpo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

[psiquiatrices] o mato em lisboa #1...

Numa das enfermarias do meu hospital, temos um menino vindo de Angola ao abrigo do protocolo com os países de expressão portuguesa. Transferido por aplasia medular: a medula óssea do menino, sem razão aparente, pura e simplesmente deixou de funcionar e produzir sangue.

O Lázaro* tem 8 anos e está internado em isolamento há 124 dias e é um doce de criança. Uma paciência de antigo testamento. Em Portugal tem apenas a mãe, uma típica mulher de armas africana! Uma mulher que não reage, mas resiste até ao limite. Uma mulher que não é pró-activa, não é empreendedora, não se vê tomar qualquer iniciativa, mas é um suporte a toda a prova. É uma mulher acabada de sair do mato, quase analfabeta. que não arreda pé do quarto do filho e permanece o tempo todo sentada à cabeceira, com a bíblia aberta e o ar meio resignado, meio alheado de quem está habituado a sofrer... Cuida do filho. Fala pouco, faz poucas perguntas. Sai do quarto três vezes por dia para comer e tomar banho. Mas tem esperança. E está à espera. Apenas.

Há duas semanas, 110 dias depois de ter sido internado, o Lázaro começou a dar sinais de estar a começar a ficar saturado... Não dormia bem, recusava-se a comer até ao fim, não queria falar muito, resistia a tomar a medicação. Passava mais tempo sem brincar, sem ler ou ver televisão. Os colegas de Pedopsiquiatria foram chamados novamente para intervir junto do menino e de sua mãe.

Depois de mais de uma hora de conversa o menino estava mais calmo, a mãe menos alheada e ligeiramente mais sorridente e o colega da Pedopsiquiatria, ainda a tirar a bata esterilizada, máscara, touca e luvas, apareceu à porta da sala de reuniões.

- Então, o que achou do menino?
- Bem, não me pareceu muito diferente da outra vez, só está mais cansado de estar aqui, o que é compreensível. Não tem nada de anormal. Expliquei à mãe que ele foi retirado do ambiente dele e tem estado muito isolado e não pode brincar com ninguém nem ir para a rua como em Angola. Disse-lhe que ela tinha de brincar mais com ele.
- E ela? Percebeu alguma coisa?
- Sim, acho que sim... Não consegui que falasse muito, mas acho que percebeu o que eu lhe disse...

No dia seguinte, a mãe, colaborante e cheia de boa vontade, fazia o que o médico lhe tinha sugerido que fizesse: brincava, um pouco desajeitada, com os carrinhos e aviões no chão, junto à cama do filho, enquanto este, deitado na cama, alheio a tudo o que se passava em seu redor, via os primeiros programas da manhã do Canal Panda.

[E pronto, meus amigos, só um materialista diria que as palavras que o médico proferiu foram as mesmas que a senhora percebeu. A cultura de fundo é o que faz com que as palavras façam sentido. Numa sociedade africana, em que as crianças brincam livres e soltas pela rua, a ideia de os pais brincarem com os filhos não faz qualquer sentido. O médico dissera-lhe: "A senhora tem de brincar mais com o menino." E a senhora, que estava com o menino, estava a tentar brincar. Certamente intrigada por lhe terem dado um conselho tão bizarro, mas enfim, se o médico tinha dito... por um filho faz-se qualquer coisa...]

(continua...)

* Nome obviamente fictício.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

[casa do gaiato] os girassóis da tia cármen


Os fantásticos girassóis da tia Cármen... o paradigma da sua defesa da personalidade!

(continuando...)

A tia Cármen, a vovó  dos meninos da Casa do Gaiato, contou-me uma tarde a sua dura experiência de uma infância passada durante a guerra civil de Espanha, em que mais do que uma vez tinha sido obrigada a fugir a pé com a família. Nesse dia, já rendida àquela personagem maternal, divertida e invulgar, pedi-lhe para me falar dos seus trabalhos artísticos e ela contou-me simplesmente que o maior prémio de pintura que alguma vez tinha recebido representava um enorme campo de girassóis. Dias depois mostrou-me uma fotografia desse quadro, em que os girassóis eram retratados a partir de baixo, com os caules cheios de espinhos e a luz do pôr do sol adivinhando-se coada pelas corolas das enormes flores. Mas longe de ser a visão serenamente bucólica que eu tinha imaginado, a imagem veiculava uma desconcertante sensação de movimento e opressão.

– Este quadro chama-se “A Fuga”. Durante anos tive a obsessão de pintar girassóis vistos por baixo porque tinha de deitar cá para fora a imagem do pior dia da minha vida, que foi o dia em que perdi o meu pai e tivemos de fugir de casa sem levar nada connosco através de um campo de girassóis. Eu era muito pequena e só tenho a recordação de enterrar os sapatos na areia mole e mal conseguir avançar, como nos pesadelos. E os girassóis eram altíssimos e tinham uns espinhos enormes que não picavam, mas arranhavam a pele até ficar toda em ferida.

Pois… estava explicada, portanto, a sua vocação do ensino da expressão plástica aos meninos. Ao ensiná-los a pintar estava a transmitir-lhes a sua melhor defesa da personalidade, a ensinar-lhes que pintando as suas angústias e medos poderiam mais facilmente vencê-los.

Mas não eram só aulas de pintura que leccionava. O que os meninos mais gostavam de fazer era contar a história dos desenhos, falar sobre as personagens, inventar diálogos, projectar-se nas figuras. De vez em quando ouvia um dos meninos dizer:

– Hoje sou eu a contar uma história à tia Cármen!

(continua...)

domingo, 27 de novembro de 2011

[e agora, só para compor o ramalhete...] delirium tremens

(...continuando a história que começou aqui...)

Regressei a casa perturbada, mas feliz. Finalmente estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Só esperava poder cumprir a minha promessa de que haveria de curar a Inês. Será que encontraria algum medicamento para ela em Nampula? Que raio de doença para se ter no fim do mundo…


Mas o dia ainda não tinha terminado. E a noite era ainda uma criança… Ao portão, o guarda esperava-me com a notícia de que o Sr. Rafael estava doente. Que estava “com espíritos”, mas que as Irmãs não tinham dado autorização para ele ir buscar um curandeiro.

– Com espíritos, Sr. Revenda?
– Sim, Doutora, ele não está a falar certo, fala com os espíritos, treme as mãos e os braços e parece que vê bichos…
Delirium tremens! Valha-me Deus! E já estava a ficar assim ontem de manhã… Vi-o tremer quando lhe fui levar o mata-bicho, mas naquele momento nem sequer associei a nada, achei que seria fraqueza porque não tínhamos jantado… Ele hoje também continuava com as mãos a tremer?
– Não sei, Doutora, de manhã fomos ao Anchilo procurar a minina Inês e durante o resto do dia estive a dormir só...
– Pois... calculo. E eu hoje de manhã nem fui vê-lo, com a preocupação de irmos ao Anchilo. Era só o que nos faltava agora um delirium tremens...
Tremes? O que é isso, Doutora?
– É a doença dos homens que bebem muito. O corpo fica envenenado pelo álcool e já não passa sem ele. Basta ficar um ou dois dias sem beber e começa a tremer, a ver coisas e ouvir coisas…
– Não, Doutora, não é isso. Isto são espíritos maus. Maus mesmo. Quando os espíritos vêm na forma di bichos, as pessoas morrem quase sempre. É preciso chamar curandeiro para tirar os espíritos. As Irmãs não acreditam em mim!
– Sim, Sr. Revenda, tem razão, esta doença provoca alucinações com bichos e pode matar, é mesmo isso! Mas eu também sei tratar esta doença, não são só os curandeiros.

O guarda estava perplexo. Devia achar que eu era completamente tonta. Não compreendia como é que eu podia, na mesma frase, concordar com ele, que era um facto que o Sr. Rafael estava a ver bichos, e depois dizer que conseguia tratá-lo sem a ajuda de um curandeiro.

– Doutora não está a perceber… Isto é uma doença que vem da tradição! Ele vai morrer se não lhe tirarem os espíritos.
– Está bem, Sr. Revenda, mas não se preocupe que ele vai ficar bem…

O guarda olhava-me incrédulo e assustado. Claramente não acreditava em mim e provavelmente estava cheio de medo de morrer também, receoso de que aqueles espíritos violentos e malignos o atacassem por tabela, já que o Sr. Rafael estava em sua casa… Não valia a pena insistir na conversa. Não falávamos de todo a mesma linguagem e eu nesse dia já tinha tido irritação suficiente com a “tradição” para conseguir sentar-me e explicar-lhe com calma que raio era isso de delirium tremens. E no fundo não valia a pena, não ia conseguir. Era uma doença impressionante demais para alguém mudar assim de opinião.

Entrei no quarto. Deitado na cama, o Sr. Rafael tremia por todos os lados com uma expressão de terror, alagado em suor e, fazia movimentos bruscos com as mãos, como se tentasse apanhar insectos ou afastar qualquer coisa que só ele via e que parecia que o ameaçava. Tomei-lhe o pulso, que batia descompassado, ardia em febre e debatia-se sem me reconhecer… Tartamudeava qualquer coisa em macua que não entendia: “Massi, massi.”

– Que diz ele, Sr. Revenda?
– Está a dizer "água".
– Traga-me água, então, numa garrafa para beber e num alguidar também, que temos de o arrefecer. E depois vá buscar o Sr. Cachimbo a Namutequeliwa, é a terceira casa ao lado do portão das Irmãs da Apresentação. Diga-lhe que preciso que me venha fazer um teste de malária, que isto pode ser também malária cerebral…
– Sim, Doutora.

Minutos depois chegavam as Irmãs com a água que eu tinha pedido.

– Não acha que é melhor levá-lo para o hospital? Não sei se nós sozinhas conseguimos tratar dele…

“Bonito!”, ironizei comigo própria. “Está um homem aqui ao pé de ti em perigo de vida e tu nem sequer ponderas levá-lo para o hospital, só te ocorre mandar chamar o homem que te fez bater o coração há dois dias [e reflectir sobre a vida emocional dos pinguins]… Isto está bonito, sim, senhora!”

(continua...)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

[welcome to mozambique] medicina tradicional



Imagens raras de médicos tradicionais durante uma cerimónia de cura...
Fotos da net (desculpem, mais uma vez não tenho o link mas não resisto a partilhá-las convosco...)

Certa vez, uma das meninas que viviam connosco na casa das Irmãs, no Gilé, foi de fim de semana a casa da família, para se tratar de uma "dor de cabeça tradicional" ou "cabeça grande" (que nome delicioso)... Não sei muito bem o que é uma "dor de cabeça tadicional", apesar de ser uma doença muito comum, de que se fala constantemente. A minha ideia é que é algo do foro da psicopatologia, entre a depressão e a perturbação de ansiedade... Um sofrimento genuíno, mas que a pessoa não consegue verbalizar...

Depois de ela chegar, vimos que continuava tristonha, murchita, pouco activa e sorridente...

- Mas, Bernardina, não chegaste a ir ao curandeiro fazer cerimónia por causa dessa dor de cabeça?
- Sim, tia P., mas se a pessoa "não apanha sorte" não fica curada...

[à procura da inês] pronto, acho que é mesmo desta, podem começar a pensar em voltar...


A casa de um curandeiro na Zambézia...
(Muiane, Zambézia)

(...continuando a história que começou aqui...)

Aviso: Embora seja desta que percebemos o que se passa com a nossa menina, ainda não é aqui que nos encontramos cara a cara com ela. Se o vosso objectivo é conhecê-la assim cara a cara, então podem voltar amanhã, que ela já cá deve estar... Por hoje é só o tio, que por acaso engatámos com uma pinta descomunal! Adiante:


Quase tremia só de pensar que ia enfrentar o “tio grande” da Inês. Que mais me iria acontecer desta vez?

Mas, enfim, contra as minhas expectativas e seguindo à risca as indicações da Irmã Lurdes, consegui tranquilamente chegar à fala com ele. Quando percebeu o motivo que me trazia ali, já estava sentado, de garrafa de cerveja na mão e vi-o engolir em seco, mas não se levantou, ficou sentado a ouvir-me. Bendita Irmã Lurdes! Se na minha vida tivesse sempre quem me orientasse desta forma…

Depois do choque inicial, pareceu-me que o consegui acalmar e acabou por me dizer que a Inês tinha adoecido cerca de dois meses antes com feridas na pele. Inicialmente nos cotovelos e joelhos e que depois tinham alastrado por todo o corpo. A princípio ninguém tinha ligado muito, porque não tinham associado a doença a nenhum acontecimento mas, à medida que as chagas avançavam e lhe cobriam todo o corpo, começaram a associar a doença à morte recente do tio mais novo da Inês que vivia numa aldeia a 40 km dali. O ritos do funeral, desgraçadamente, não tinham sido cumpridos à risca. Um dia antes de terminarem chovera de tal modo que a casa tinha ficado destruída…

O rosto cobria-se-lhe de lágrimas à medida que ia falando. Estava profundamente culpabilizado porque tinha sido ele próprio a dar a ordem de terminar as cerimónias fúnebres e regressar a Nampula. O seu irmão sempre tinha sido um homem tão bom e compreensivo, sempre tão preocupado com o bem-estar e conforto dos outros e da família… Pensara que os antepassados e o falecido não se haveriam de importar. Que haveriam de compreender que não tinha sido com intenção de “fazer mal” mas porque não tinha mesmo havido condições para continuar de maneira nenhuma. Mas enganara-se e a sobrinha estava a pagar por isso. Soluçava agora sem conseguir parar.

– Mas, Sr. Mutaquela, não tentaram tratar as feridas da Inês? Nem sequer ao princípio?
– Claro, primeiro foi internada no Anchilo – e sublinhava “no Anchilo!” da mesma forma que alguém em Lisboa diria que tinha levado o filho a uma consulta “em Londres” para enfatizar como estava preocupado e tinha tentado investir na cura –, mas não melhorou nada... só piorou.
– Eu sei, Sr. Mutaquela, mas também sei que não deixaram a Irmã Maria vê-la. Nem sei quem foi que a tratou.
– Foi outro enfermeiro amigo da família. Não queríamos que se soubesse da doença. Se alguém sabe que esta doença apareceu na nossa família temos de ir todos embora…
– Mas não é assim, credo! Doença não é crime!
– Mas ela continuou a piorar e então percebemos que era uma doença trad’cional. E agora está internada na casa de um curandeiro, mas também não está a melhorar… A doença também não ajuda…
– A doença não ajuda? O que é que isso quer dizer?
– A doença é muito má. E pega-se. O curandeiro nem se aproxima dela. Ninguém se pode aproximar…
– O curandeiro não se aproxima dela? Então como é que ele espera tratá-la?
– Ele deixa-lhe os medicamentos ali e ela faz os tratamentos sozinha. E nós vamos lá levar comida para ela, mas também não podemos entrar…
– Então isso quer dizer que ela está lá completamente sozinha?
– Sim. E não pára de chorar. Eu nem consigo ir até lá, é a mãe que vai. E volta sempre a chorar: “Ah, mwanaka! Ah, mwanaka!*”, como se Inês já tivesse morrido.
– Que horror! Não pode ser, quem é esse curandeiro? Ao menos sabe o que faz?
– Não… Não é um curandeiro muito bom, porque os melhores curandeiros de Nampula não aceitaram tratá-la. Mas mesmo assim estamos a ficar sem dinheiro e ela ainda está a piorar…

Eu estava horrorizada, sem palavras e quase a chorar também, a imaginar o sofrimento da menina, sozinha, repelida e ostracizada como se alguém tivesse injustamente colado um crime horrendo à sua pele. Haveria maior humilhação? E sentia uma indignação crescer-me dentro do peito! Como era possível tratar assim uma adolescente? Mas tentei manter a calma.

– Mas porque é que acham que a doença se pega? Que doença acham que ela tem?
– Irmã… Inês tem… – a voz sumiu-se-lhe na garganta, desaparecendo num sussurro.
– Tem o quê?
– Tem… tem lepra.

Fiquei fora de mim! Estava fula! Nem consegui disfarçar o que sentia… Nem me tinha passado pela cabeça que fosse disso que suspeitavam.

Ah, mwanaka! – “O meu filho!” Grito das mulheres macuas quando morre um filho ou pressentem a sua morte iminente.

(continua...)

domingo, 20 de novembro de 2011

[à procura da inês] no bairro de napipine...





Nampula, instantes da cidade...

(...continuando a história que começou aqui...)

As Irmãs tentaram demover-me de ir procurar a mãe da Inês a casa dela. “Podemos oferecer a nossa ajuda. Se as pessoas quiserem ser ajudadas acabam por vir…” Era verdade. Dolorosamente verdade.

Eu também sentia que ia ser intrusiva. Que me estava a aventurar por um mundo que não conhecia e que tinha todas as hipóteses contra mim nestas circunstâncias. Que provavelmente estava a agir de uma forma absolutamente desadequada. Mas tinha esperança de que se me conseguisse encontrar com a mãe e fazê-la olhar-me de frente, ela haveria de perceber, no fundo dos meus olhos, que eu estava a falar verdade e que a queria mesmo ajudar… Ou seria só uma fantasia minha? Será que a expressão do olhar tem a capacidade de vencer barreiras culturais e desconfianças com séculos de existência? Não seria só eu a confrontar-me, a lançar-me um desafio e a querer perceber até onde ia a minha própria capacidade de comunicar? E sem me colocar de todo em causa. É que ia estar numa posição em que se vencesse, isso seria mérito do meu olhar franco e se falhasse teria as desculpas perfeitas: precisamente as tais barreiras culturais e desconfianças com séculos de existência… Naquele momento vacilei a sério.

Mas a minha intuição dizia-me que se não fosse pessoalmente ter com ela, a mãe nunca viria por sua própria iniciativa a tempo de me encontrar. E já tinha combinado com o Vicente. E sobretudo não queria desiludir a Irmã Lurdes. Ela estava à espera da sua menina e tinha-me confiado essa missão. Com que cara chegaria a Iapala dizendo que só tinha mandado uma mensagem à mãe e não tinha feito mais nada por ela?

Chegámos a Napipine já passava das 21:00. Deixámos o carro quase à entrada do bairro porque as ruas, à medida que nos embrenhávamos mais para o coração do casario, quase desapareciam. Não era possível seguir com o carro por ruas tão estreitas, com casas quase pegadas umas às outras sem qualquer planeamento, sem ordenamento de qualquer espécie e cheias de lama e lixo nos entremeios. Seguimos a pé pelas ruas labirínticas, quase desertas. Nunca tinha entrado antes num bairro periférico. Acabava de me aperceber de que só tinha andado pelo centro, onde as casas eram de pedra e cal, embora muitas estivessem degradadas e descuidadas, algumas com vidros partidos, pintura a cair, buracos nas paredes e lixo por todo o lado, mas onde pelo menos havia uma sensação de urbanidade. Ali, pelo contrário, a maioria das casas eram de matope e telhado de capim. Algumas com chapa de zinco e paredes de cimento, mas nenhuma com casa de banho ou saneamento básico. Muitas casas não tinham janelas ou qualquer outra abertura para além da porta, já fechada àquela hora…

Lama e água corriam pelas ruas estreitíssimas e havia muito poucos candeeiros de rua. Mal conseguia acreditar que aquele era o local onde viviam muitas das pessoas com quem me tinha cruzado nessa manhã na cidade. Onde viviam pessoas que tinham tirado cursos e estavam empregadas há muitos anos… Como era possível viver com a família inteira em dez metros quadrados, sem acesso a água potável, sem meios de fazer despejos de forma condigna, e continuar a ser gente? A pobreza no mato pode ser triste, mas nas cidades consegue ser desumana…

À porta de algumas casas viam-se ainda pessoas a tomar a última refeição do dia, que cozinhavam num pequeno fogareiro a carvão, ouviam-se restos de conversa à volta da pequena chama, criada em família, que servira para aconchegar as barrigas e os ânimos, percebia-se a moleza de quem já lutava contra o sono mas teria de vencer a inércia e fazer um último esforço para estender as esteiras, despir e deitar os filhos mais novos, arrumar a loiça para lavar no dia seguinte no poço ao fundo da rua. Terrível, a monótona dureza do dia-a-dia.

Não fiz qualquer comentário. Tentei lutar contra o choque que sentia. Ali, naquele bairro, havia certamente pessoas de valor, pessoas que lutavam para que os filhos tivessem um futuro melhor, casais que se amavam, famílias que se construíam, pessoas que procuravam levar uma vida honesta e ajudavam a família e os amigos. Também ali, quis acreditar, era possível ser-se feliz, houvesse harmonia e saúde… As pessoas olhavam-nos e comentavam em macua à nossa passagem, mas nem eu nem o Vicente, cuja língua materna era o changana, os compreendíamos. Certamente estariam a especular sobre o motivo daquela visita…

A família do colega do Vicente era, felizmente, uma das famílias tardias, que se tinha demorado no jantar, depois do anoitecer e ainda estavam à porta de casa. Indicaram-nos sem dificuldade a casa da mãe da Inês. Sabiam, de facto, que algo se passava com a família e que a mãe tinha deixado de trabalhar. Ainda não passavam dificuldades, mas era certamente uma questão de tempo. Estavam preocupados com eles, de tal forma que a mãe do colega se ofereceu para ir connosco falar com ela.

A casa era quase ali ao lado. Tinha portas e janelas, que já estavam fechadas e não se via qualquer luz no interior. Hesitei, mas a mãe do colega do Vicente bateu à porta, convicta. Esperámos um pouco. Nada. Bateu novamente. Nada. Não estariam em casa? Que sim, que estavam de certeza, pois se tinha visto a mãe passar… Após alguns minutos, a porta abriu-se e uma mulher, de seus trinta e poucos anos, emagrecida e despenteada, semi-despida abriu a porta, estremunhada. Não me deu tempo sequer de explicar ao que vinha ou de lhe mostrar a capulana que trazia para a Inês, não me deu tempo sequer de a olhar nos olhos, como tinha imaginado. Assim que me viu, percebeu que eu só podia vir de parte das Irmãs, as únicas pessoas brancas que conhecia, e fez menção de fechar a porta. Não tinha contado com isso. Nem me tinha passado pela cabeça que ela compreendesse de imediato o que é que eu fazia ali. Que ingenuidade a minha…
 
(continua...)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

[outras palavras] fuga de ideias



As pessoas têm sobre África ideias loucas. As pessoas pensam, minha senhora, que África é uma floresta virgem onde um leão come um preto, o preto come um rato assado, o rato come as colheitas verdes e tudo é verde e preto. Mas é falso, minha senhora. África, como terá oportunidade de ver, é amarela. Amarela-clara, cor de whisky...

Lídia Jorge in A Costa dos Murmúrios


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

[disclaimer] eu gosto de pinguins, tsá?



A propósito do post de há pouco, em que está escrito qualquer coisa como: "És mesmo uma mulher básica! Um homem pode fazer-te juras de amor eterno e dizer que te vai respeitar e tratar como uma rainha que não lhe ligas nenhuma, mas não o podes ver com uma criança ao colo que te derretes logo! Tens a mania de que és uma mulher culta e esclarecida e depois vai-se a ver e tens a inteligência emocional de um pinguim.", queria dizer que o escrevi - e assumo o que escrevi - mas que não era minha intenção destratar os pinguins.

Eu, aliás, não tenho nada contra pinguins. Nem contra a inteligência emocional dos pinguins. E tenho muito respeito pela forma como vivem a família e pela forma como tratam as crias. Mas vocês entendem o que é que eu queria dizer, certo? É que obviamente me recuso a reduzir as relações de amor a uma função meramente reprodutiva. Daí a referência aos pinguins. Para que não venham reclamações.

Pronto, era só isto... Mas enfim, chega de psiquiatrices. Adiante.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

[inspiração para uma despedida] fantasmas ou fantasias

Uma das coisas que aprendi na vida do dia-a-dia é que o mundo se divide entre as pessoas que numa situação de "tudo ou nada", tendo o poder de decisão, arriscam tudo porque podem ganhar e as que não arriscam porque têm medo de perder.

Não há orientações clínicas ou tratados, bíblias ou valores morais, convicções existenciais ou religiosas que ajudem nas decisões desses momentos. É muito mais profundo do que isso. Muito mais profundo do que alguma vez podemos pensar quando nos colocam a situação em termos teóricos. Não sei se se chama personalidade ou história de vida ou se se trata de uma mera dualidade optimismo/ pessimismo. Só sei que às vezes a vida não é fácil.

E, no final, o que cada um faz com as decisões que toma... ou com as decisões de outrem que foi obrigado a aceitar... é ainda mais difícil. Podem tornar-se os fantasmas ou as fantasias de toda uma vida. Felizes os que esquecem porque deles são as noites de um sono só...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

[curar... curar é difícil...] sobretudo se a doença for cabeça grande*

A casa do curandeiro...
(Muiane, Zambézia)

Se tomas remédios sem convicção, não te curarás!
Sabedoria popular Macua

* Muru tokhotokho, à letra, cabeça grande, doença tradicional macua, equivalente a uma doença psicossomática cultural.

sábado, 16 de outubro de 2010

[as melhores do serviço de urgência] zoeiras

Há tempos, uma colega minha otorrino estava de urgência no hospital e vem um senhor de seus 60 anos, com um ar muito angustiado...
- Então o que é que se passa consigo?
- Estou a ouvir barulhos nos ouvidos.
- Está com zumbidos?
- Sim... quer dizer, não são bem zumbidos...
- Então, consegue descrevê-los?
- Sim, é assim [cantando]: "Ó malhão, malhão... tu não vales nada!"
- Ah, então não é para mim... tenho ali um outro colega que é mais especializado no assunto...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

[este blog não possui livro de reclamações] por enquanto

Depois de várias reclamações hilariantes a propósito do post de anteontem sobre a senhora com perturbação esquizoafectiva no serviço de urgência (que não linco porque já passa das 05:00 da madrugada e deu-me a preguiça, mas é fácil de encontrar, basta fazer um scroll down, por amor de Deus, vocês estão muito mal habituados), depois de alguns pedidos de esclarecimento velados da parte de pessoas que se sentiram atingidas - ó valha-me São Vito, obviamente não estava a falar de ninguém que eu conheça! E depois de dois ou três "Ah e tal, eu também já estive a tomar o Effexor e não estava como essa senhora", gostaria de fazer as seguintes ressalvas:

a) todas as histórias aqui contadas são verídicas e as explicações apresentadas são, em última análise, da exclusiva responsabilidade da autora que escreve por aqui. E que escreve como pode. E quem dá o que tem... Desculpem qualquer coisinha, tá?;

b) a senhora com perturbação esquizoafectiva estava, de facto, perturbada, passe o pleonasmo. Completamente fora da realidade. Passada dos carretos. Acho que isso é imediatamente perceptível pela maioria das pessoas que leram as primeiras... er... cinco linhas do post. (Existiria, claro, uma hipótese alternativa, que era tratar-se daquela professora de Mirandela que posou para a Playboy e andou nas bocas do povo e da comunicação social durante semanas, mas essa provavelmente nunca iria ao São Francisco queixar-se de que a incomodava que os homens agora a andassem a ver nua...);

c) a senhora estava medicada com lítio, que é um estabilizador de humor e três antipsicóticos potentes. O Effexor, que é um antidepressivo dos mais utilizados, seria só para adicionar à restante medicação para lhe tratar, pelo menos parcialmente, a depressão. Não serviria para tratar todos os outros sintomas e delírios. Até aqui tudo bem? Estão comigo?;

d) o corolário do enunciado e das alíneas anteriores é que os estimados leitores que estejam ou já tenham estado a tomar o Effexor XR 75 e que não estão medicados com lítio e mais três antipsicóticos potentes, provavelmente não estão fora da realidade e não precisam de pensar que afinal estão doidos e não tinham dado por nada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

[as melhores do serviço de urgência] não há coincidências!

Há alguns anos atrás. Serviço de Urgência de Psiquiatria. Hospital de São Francisco Xavier, Lisboa.

Observamos uma senhora de seus 40-45 anos, jornalista, com uma perturbação esquizoafectiva*. A senhora fora enviada à urgência com uma carta do seu Psiquiatra assistente pedindo o internamento por considerar que a senhora estaria com uma depressão major, com características psicóticas. O meu tutor vai-lhe fazendo perguntas para avaliar a gravidade da doença.

Meu Tutor (MT) - O que é que a incomoda mais desde há umas semanas para cá?
Doente (extremamente lentificada) - Incomoda-me não ter energia para fazer nada... Não consigo sair à rua porque todas as pessoas me insultam com os olhos. E os homens agora conseguem ver-me nua se estiverem sentados [olhando para o meu tutor, sentado do outro lado da secretária, com um ar de asco desmedido] e o problema é que tenho uma esplanada na minha rua sempre cheia de homens.
MT (evitando olhar a doente de frente para ela não se sentir incomodada por estar nua, mas permanecendo sentado) - Mas... e em casa, consegue estar?
Doente (olhando ligeiramente para o lado, incomodada por ele o estar a ver nua) - Sim, em casa sim.
MT - E consegue, por exemplo, distrair-se a ver televisão?
Doente - Isso também é um problema... Custa-me que agora só falem de mim nas notícias e em todos os programas. Até na rádio... E já não consigo ir trabalhar porque deixei de ter privacidade... [fácies incrivelmente infeliz].
MT - Então?
Doente - Agora toda a gente sabe da minha vida. Assim que faço qualquer coisa, assim que penso sequer em fazer o que quer que seja, toda a gente fica imediatamente a saber... É horrível... Não posso pensar em nada...
MT (com ar de quem faz ideia daquilo por que ela está a passar) - Pois... faço ideia daquilo por que está a passar... Mas infelizmente não temos vagas por enquanto para ficar internada. Pode ainda demorar dois ou três dias, ou até uma semana. Até lá acho que deve ficar a tomar mais um medicamento para além dos que está a tomar agora... A senhora alguma vez tomou o Effexor**?
Doente (olhando-o de lado, como que a tentar perceber se ele a estaria a espiar para a ver nua disfarçadamente pelo cantinho do olho) - Não, acho que não...
MT (levantando-se, finalmente) - Effexor XR 75... Nunca tomou?
Doente (mais contente por ele se ter levantado, deixando de a conseguir ver nua) - Não, mas posso tomar. Acha que isso pode fazer com que eu deixe de transmitir os meus pensamentos a toda a gente?
MT - Acho que a poderia fazer sentir-se melhor.
Doente - Como é o nome do medicamento? Effexor?
MT - Effexor XR 75.

Nisto, batem à porta e entra um delegado de informação médica, com um sorriso de orelha a orelha, trazendo uma brochura que dizia em letras garrafais: Effexor XR 75.
- Era disto que precisava, Doutor?


*A perturbação esquizoafectiva é assim um mix entre a esquizofrenia, com as suas ideias bizarras e alucinações e a doença bipolar, com os seus períodos alternantes de depressão e euforia.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

[pequenas vocações] vai ser psiquiatra

É oficial. O livro preferido do meu sobrinho é o DSM-IV. Eu já lhe tentei trocar as voltas, esconder o livro, colocá-lo ao lado de outros cheios de desenhos apelativos com animaizinhos e carrinhos, arrumá-lo na estante ao lado de outros com lombadas azuis muito parecidas, mas ele não se deixa enganar. Decidiu, sem apelo nem agravo, que o DSM-IV é que é o livro ideal para fazer de pista de aterragem para os seus aviõezinhos e de plataforma de lançamento para os carrinhos de corrida. Cada um é para o que nasce!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

[todos temos personalidade] mas é melhor não sermos histriónicos, vá

When reading a novel, be careful not to identify yourself too much with a character. You may die of a misprint!

(Variações lúdicas de Mark Twain)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

[a lucidez dos versos heróicos]

Não procures verdade no que sabes
nem destino procures no teus gestos.
Tudo quanto acontece é solitário
fora de saber, fora de leis.

Sophia de Mello Breyner

(Um manifesto anti-delírios de referência, num registo literário muito saudável!)