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segunda-feira, 9 de julho de 2012

[nomes que dizem tudo #29] cr7

Esclarecimento público à Maria Bê e restante comunidade azul-bolacha, a propósito do nome do pequeno biscoito, que, rezemos, se manterá no forno em lume brando, a 37ºC à sombra, por muitas e boas semanas até ao fim dos tempos. Ou pelo menos até às 34 semanas, que mais não se pode pedir:

Minha querida, estamos na silly season mas eu tenho andado alerta. Desde o final do Euro 2012 que ainda não nasceu nenhum Cristiano em Lisboa. De facto, procurando bem, este ano só ainda nasceram dois Cristianos. E então Cristianos Ronaldos não nasce nenhum desde 2008! Não sei o que se passa, minha gente... Estaremos a ficar amargos? Pessimistas? Deixámos de ter fé no nosso futebol e no melhor do mundo? O que será que nos resta?

Há, porém, uma Ronalda, colheita de 2010, que salva a honra do convento! Eu acho que ainda há esperança.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

[nomes que dizem tudo #28] cr7

Há tempos estive a contar quantos "Cristianos Ronaldos" estão registados no meu hospital. Ironicamente, eram sete! Os fenómenos da moda às vezes têm um humor britânico.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

[nomes que dizem tudo #27] moçambique no seu melhor!


Os cartões de identidade dos senhores Baptista Qualquer Rato, Escuridão Madeira Oficial, Aranca Sozinho e o ainda mais improvável Razão Sefosse Rico! Todos nomes de mau prognóstico, como já expliquei, teorizei e avisei tantas vezes...

Imagem enviada pela minha amiga M.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

[nomes que dizem tudo #26] nomes de mau prognóstico...

De vez em quando regresso a este tema... é que não há maneira de as pessoas se convencerem que mau karma atrai mau karma. Ou, pelas palavras do nosso povo, que é experiente em fados, infortúnios e outros assados: "quando um homem é pobre até os cães lhe ladram." Como é possível, depois de tantos avisos, que continuem a nascer bebés com o que já podemos apelidar de nomes de mau prognóstico? Uma coisa tão simples, valha-me Nossa Senhora das Conservatórias. É que diminuía logo a morbilidade e a despesa com a saúde das nossas crianças, que tanto merecem ser felizes. A título de exemplo, convido-vos a fazerem comigo um exercício onomástico.

Encontre a menina saudável de entre as cinco opções (verídicas):

1) Lia Doriana
2) Catalina Cinderela
3) Natacha Natércia
4) Luna Basília
5) Ana Sofia

Viram como é fácil?

sábado, 3 de março de 2012

[o mato em lisboa #3] o lázaro "ressuscitado"

Já vos falei do Lázaro, o menino angolano internado há 132 dias no meu hospital por uma aplasia medular grave e irreversível. Ele e a mãe, vindos directamente de uma localidade na periferia de Luanda, aguardam pacientemente por um transplante de medula óssea que lhe renove a fonte do sangue que, por qualquer razão inexplicável e injusta, se lhe secou há meses.

No entretantos, o Lázaro teve de fazer nova análise da medula óssea. No nosso hospital, felizmente, estas análises são feitas sob anestesia geral no bloco operatório. Nenhuma criança deve passar por um procedimento doloroso desta natureza sem uma anestesia. A dor não pode fazer parte da vida das crianças!

E, há umas semanas, de manhãzinha, lá foi o Lázaro para o bloco operatório, deixando a sua mãe pálida de tanta preocupação, agarrada ao seu terço e à bíblia, sentada do lado de fora, a vê-lo desaparecer numa sala tenebrosa, onde todos andavam de face coberta como os bandidos, vestidos de um verde horrível, e sem sapatos. Como era possível que alguém se atrevesse a trabalhar num hospital de crianças vestido com aquele verde, a cor da decadência e da inveja? Como era possível que lhe tivessem recusado a entrada na sala para estar junto do filho apenas porque se negara a vestir aquela vestimenta que só podia trazer má sorte e maus-olhados?

O procedimento foi rápido e sem complicações. Em menos de meia hora o Lázaro estava novamente no quarto, acompanhado pela sua mãe. Dormia sob o efeito dos tranquilizantes, mas teve um despertar turbulento: as crianças por vezes têm uma reacção paradoxal aos tranquilizantes e, em vez de ficarem calmas, ficam agitadas e irritáveis!

Minutos depois foram dar com eles no quarto, no meio do maior estardalhaço. O Lázaro, ainda meio a dormir, gritava que o estavam a matar, debatia-se, quase a atirar-se da cama, e chamava os nomes mais horrendos à mãe, enquanto esta o segurava com uma mão, para que não caísse da cama, e com a outra brandia a bíblia sobre a cabeça do filho, tentando expulsar-lhe os demónios do corpo: "Sai, Satanás! Sai!"

Felizmente a reacção também passou rápido. Acabou por acordar completamente e ficou meio envergonhado quando se deu conta do que tinha estado a dizer: "Desculpe, Doutora, foi aquele medicamento que me deram que me deixou louco!" E depois, adivinhando que a mãe não tinha percebido nada do que se passara com ele, virou-se para ela e disse-lhe: "Obrigado, mamãe, demónio já saiu!"

Vai longe este menino! Queira Deus que o dador venha a tempo...

(continua...)

sábado, 7 de janeiro de 2012

[beijo-de-mulata errou] pequena correcção...

Este blogue não possui livro de reclamações, mas desta vez vou abrir uma excepção... Afinal parece que no mato sempre se aprende alguma coisa. Coisa pouca, claro, mas enfim... como diria a minha mãe, em tom de gozo, é poucochinho mas honesto.

Algumas pessoas escreveram-me a reclamar por eu ter dito que aqui não se aprende nada porque, ao que parece, foi comigo que ficaram a saber, entre outras coisas, porque é que só se pode passar por baixo de um cajueiro se se ouvirem os passarinhos a chilrear.

Eu por acaso tenho pena que este blogue não seja mais frequentado por adolescentes, porque me lembrei que aqui também se aprendem várias técnicas divertidas para se entreterem durante o internamento, para o tempo passar mais rápido... e dar com uma equipa inteira de enfermagem em doida. Como esta, por exemplo... Nesta mesma onda, mas numa versão menos adolescente, também se pode aprender como se consegue enfurecer até a pediatra mais zen do universo.

Mas o que eu gostava que se aprendesse por aqui, embora já quase tenha perdido a esperança, é a razão pela qual não se deve chamar Dhruva ou Odete Soraia a uma criança e a relação entre a onomástica e a saúde infantil.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

[welcome to mozambique] sem stress!


Um delicioso bar na praia... Daqui, onde vale sempre a pena ir.
(Inhambane, Moçambique)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

[a noite mais longa] e só quem vive no convento...

  (...continuando a história que começou aqui...)  

  – Doutora…
  – Sim, Sr. Cachimbo?
   – Eu tenho uma coisa para lhe dizer… Não me leve a mal. Eu até fico envergonhado, mas já lhe queria ter dito isto há muitos dias.

   – [Ó meu Deus, mas o que é que eu lhe vou responder? Será que deixei transparecer alguma coisa? Será que ele pensa que é possível? Ele não tem noção do mar de diferenças que nos separa?]…
   – Doutora, nós pertencemos a mundos diferentes e acho normal que eu não conheça nada do que a Doutora já viveu e que Doutora não saiba muito sobre a minha vida, por mais que falemos sobre isso… Nem sequer imaginamos, quer um quer outro, o que é o passado de cada um…
   – Isso é verdade, Sr. Cachimbo.
   – Sim, a Doutora fala de Lisboa e eu imagino uma cidade como Nampula, não consigo imaginar uma cidade maior do que essa. Mas sei que Lisboa é mil vezes melhor e maior, eu é que não tenho imaginação para chegar aí porque nunca vi outra cidade grande e os limites do meu pensamento são os limites do mundo que eu já percorri – era notório que se estava a esforçar para compor aquele raciocínio. – É o mesmo que eu tentar explicar à Doutora o que era a nossa vida durante a guerra. Dormir no mato, ter sempre medo, acordar e ter uma cobra debaixo da esteira ali aninhada porque estava quente ao pé de nós. E começar o dia a agradecer a Alá por a cobra não nos ter mordido… Eu posso explicar, mas Doutora não vai conseguir entender…
   – [Olha, agora deu-lhe para filosofar antes de me começar a falar de amor… Mas não está mal. Para um homem nascido no mato e criado numa sociedade e numa cultura tão machista, em que a mulher está garantida à partida e não tem de longe o mesmo valor que o homem, está a sair-se mesmo muito bem. Sorte da mulher que ele amar e acabar por ficar com ele… Mas, bolas, que responsabilidade, como é que eu agora lhe vou explicar que por mais que ele se esforce eu não vou querer nada, mas ainda assim transmitir-lhe que acho tudo muito bonito e que com uma mulher que o ame vai funcionar de certeza?] Sr. Cachimbo, é muito bonito o que me está a dizer… mas não é preciso, eu sei disso.
   – Mas eu quero dizer isto, Doutora, para Doutora não levar a mal o que eu tenho para dizer.
   – [Será que ainda consigo desviar a conversa?] Mas eu não levo a mal, acho normal que queira conversar. Eu também gosto de conversar consigo. E já viu como o Sr. Rafael está a melhorar com a medicação?
   – Ah, ainda bem… É que eu ando há muito tempo para lhe dizer isto…
   – [Bem, já não vou a tempo de chutar a conversa para canto… vamos lá agarrar o toiro pelos cornos!] O que é que tem para me dizer, Sr. Cachimbo?
   – Doutora, o meu nome não é Cachimbo…
   – [Hãn?!] Como?

   Um sorriso de alívio quase se transformou numa gargalhada sonora desconcertada. Tanta coisa para isto? Felizmente a penumbra do quarto era uma aliada.

   – Não é Cachimbo, é Cachimo.
   – Cachimo?
   – Sim, Cachimo, como Cássimo ou Kassim. É um nome muçulmano. Vem do Árabe. É nome de califas, quer dizer “aquele que pode dar" ou “aquele que divide”, não é cachimbo. Cachimbo é nome de vício.
   – Ah, desculpe, foi mesmo sem intenção de o ofender… Sabe que aqui é muito comum as pessoas terem nomes de objectos e Cachimbo podia ser um nome normal. Mas já podia ter dito há mais tempo, se isso o incomodava…
   – Sim, eu sei, Doutora, mas não queria fazê-la sentir mal.
   – Pois, mas não me envergonha, é um nome que eu não conhecia e percebi mal. Não foi de propósito.
   – Eu sei, Doutora… Doutora é uma mulher muito boa, com muito bom coração.
   – Obrigada, Sr. Cachimo... [Ah, graças a Deus, que alívio ele não me colocar numa situação tão constrangedora… Afinal era mais sensato do que eu pensava, felizmente.]
  
   O Sr. Rafael continuava a dormir mas a respiração dele, em muito pouco tempo, tinha deixado de estar tão tranquila e começava a agitar-se novamente. A duração de acção dos tranquilizantes estava a ser muito mais curta do que o que eu pensava. Nem duas horas depois, já se mexia novamente, quase acordado. Voltou a conseguir engolir água. Novamente a temperatura desregulada, a transpiração, os tremores e a agitação desorientada. Mas o coração continuava a bater rítmico e, desta vez, não chegou a estar consciente o suficiente para pensar que o estávamos a envenenar e não cuspiu água nenhuma. Dei-lhe nova dose de tranquilizantes, voltámos a arrefecê-lo com toalhas molhadas e a trocar os lençóis. Íamo-nos animando, numa conversa bem disposta sobre as nossas vidas, aquilo que gostávamos de fazer nas horas vagas. Ele falava-me da descoberta da internet num cibercafé de Nampula e de como tinha conseguido voltar a falar com o irmão que vivia em Cuba, eu falava-lhe de como gostava de música e de como me agradavam as músicas macuas que ouvia na igreja e à noite, no hospital, as mamãs a cantar aos filhos.

   Quanto ao resto da noite, acho que não a consigo contar propriamente. Lembro-me da ternura que foi caindo mansamente, envolvendo o quarto, lembro-me de uma penumbra interminável, de uma vela que bruxuleava e cansava os olhos, numa ameaça constante de se extinguir, de uma sensação de irrealidade, de um sol que nunca mais rompia, da cama ao lado da do Sr. Rafael, que foi muito mais do que uma cadeira desconfortável para os dois, de um sono e um cansaço tão intensos que mesmo com tudo o que foi acontecendo não saí daquele estado, entre o mareada e o letárgica. Tudo o resto, que relembro por vezes… a mim pertence. O que vos consigo contar também é que me recordo de um abraço forte ao início da madrugada, quando o Sr. Cachimo se foi embora, depois de ter estado comigo a noite inteira, de me ter impedido de adormecer e de ter dividido angústias e preocupações e esforços nos cuidados ao nosso doente, mesmo duvidando da minha explicação para a doença e provavelmente também com medo de ser “contaminado” pelos espíritos.

   Despediu-se com um “Obrigado por me ter chamado, fiquei muito feliz. Se precisar de mais alguma coisa volte a chamar-me.” Agradeci-lhe do fundo do coração. Não mencionei o assunto, mas tinha bem presente que ele me tinha ajudado a cuidar de um homem alcoólico, um homem totalmente impuro à luz da sua religião e com quem discutira dias antes.

(continua...)

domingo, 27 de novembro de 2011

[digam o que disserem da austeridade merkeliana] qualquer dia isto tem outro nome...


Pois, se calhar não é só a minha mãe que já chama "Merkel" ao vulgaríssimo Salazar (o meu sobrinho também já pergunta se pode lamber o "Mequi")... De tal forma que qualquer dia no MoMA em Nova Iorque já só temos a torradeira de lareira e a taça de alumínio... Sinais dos tempos...
(Post inspirado num post hilariante da Rita Maria)

sábado, 26 de novembro de 2011

[sonhos cor de rosa] e vidas pequeninas



Um exemplar de Salazar, tal como se encontra no MoMA, Nova Iorque
(Para os meus queridos amigos do mundo lusófono, que nos vêm ler de além-fronteiras: um Salazar é o nome por que em Portugal é conhecido este utensílio de cozinha)

Lembram-se de vos ter contado, aqui há atrasado, que o meu sobrinho tinha um objecto de transição completamente freak?, toda eu baba até às sinapses mais recônditas daquela massa que só os totalmente daltónicos conseguem acreditar que é cinzenta...

É que hoje de manhã, na consulta, uma mãe confidenciou-me que o objecto de transição do filho de 20 meses, a que ele dorme abraçadíssimo é... um salazar! Coisa mai linda, valha-me Nossa Senhora da Alta Cozinha...

domingo, 20 de novembro de 2011

[à procura da inês] vamos, vicente, vamos até lá...

(...continuando a história que começou aqui...)


Falei-lhe da minha preocupação com a Inês, a filha da técnica de farmácia do centro de saúde onde ele estava a estagiar. Da forma como o técnico, colega dela, me tinha evitado, de como me tinha dito que ela já não ia trabalhar há algum tempo, da confusão sobre o nome e as minhas dúvidas de que seriam a mesma pessoa, já que segundo o colega da farmácia, a menina se chamava Betinha e não Inês.


– Ah, tia P., isso foi coisa que também me custou a compreender ao início aqui em Nampula, porque nós na Casa do Gaiato não tínhamos esse hábito.
– Que hábito?
– As crianças macuas não são tratadas pelo nome de registo. São tratadas pelo “nome de casa”. E Betinha não pode ser nome de registo.
– E achas que Betinha pode ser Inês? Não é Elisabete?


Franziu o sobrolho.
– Porquê Elisabete? Pode ser qualquer nome… O nome de casa do meu companheiro de quarto, por exemplo, é Motorista e o nome de registo é Ozias.
– Ah, pronto. Então pode ser a mesma menina. Eu na realidade suspeitava que seria isso, porque o resto da história parecia-me que batia certo…
– Mas agora que tia P. fala, lembro-me que há duas semanas a técnica da farmácia estava lá. Vi-a chorar no gabinete do director.
– E estava a chorar porquê?
– Estava a dizer que a menina estava com uma doença que não tinha cura e que tinha de deixar de trabalhar. Não percebi bem, mas penso que depois acrescentou que não podia mais estar a conviver com outras pessoas. E nunca mais a vi…
– E que doença tinha?
– Não sei, o Director não disse. Mas deve ser uma doença muito má, para o Director não dizer… Ou então não sabem.
– Mas porque é que o colega dela da farmácia não me disse isto?
– Ele não conhece tia P… Não sabe com que intenção tia P. queria saber.
– Mas eu disse-lhe que queria saber se ela precisava de alguma coisa para a menina regressar a Iapala para estudar.
– Precisamente por isso. Ele pensa que a mãe quer esconder a menina ou a doença. Ou então que a doença não tem mesmo cura e não há nada a fazer.
– Mas eu queria mesmo ajudar a menina… E disse-lhe que sou médica em Portugal.
– Eu sei, tia P.
– Então? Talvez eu possa curar a menina!
– Não sei, tia P. Para a mãe deixar de trabalhar e ter de se afastar é porque é uma doença tradicional. E isso tia P. não pode curar…
– Vicente, por favor!


E ia acrescentar: “Também tu?”, mas arrependi-me a tempo. Afinal de contas não conhecia a cultura assim tão bem e não tinha maneira de desmontar este argumento. Só ia criar mais uma barreira entre mim e ele. E já tinha compreendido que por mais formação científica ou por maior convivência com a cultura ocidental que alguém tivesse, o leite que se bebeu em pequenino é que prevalece sempre no fundo da mente…
– O que é que achas que eu posso fazer? Eu quero mesmo ajudar a menina...
– Acho que vai ser muito difícil. A mãe sente-se humilhada pela doença, de certeza.
– Mas acho que devo tentar na mesma. Tu sabes onde é que ela mora?
– Em Napipine, precisamente não sei, mas sei que vive perto dos pais de um colega meu.
– Pois. É a mesma pessoa, de certeza, a Irmã Lurdes também me disse que ela vivia em Napipine! Vais lá comigo hoje?
– Hoje? Tão tarde?
– Sim, não tenho muito tempo. Não vou ficar muito tempo em Nampula. Onde vives?
– Na escola, na residência de estudantes.
– Vais agora para lá?
– Sim, vou jantar.
– Eu também vou jantar agora com as Irmãs. Depois vou buscar-te à escola e vamos a Napipine os dois. Pode ser que ela aceite falar comigo se tu estiveres por ali. Pode ser? Fazes isso por mim e pela Inês?
– Sim, tia P.
– Então vá, até logo.
– Até logo.


As Irmãs tentaram demover-me de ir procurar a mãe da Inês a casa dela. Que provavelmente uma mensagem minha bastaria. “Podemos oferecer a nossa ajuda. Se as pessoas quiserem ser ajudadas acabam por vir… Elas sabem que a nossa porta está sempre aberta. E pode ser contraproducente invadir assim o espaço das pessoas. Não podemos ser mães de toda a gente e levá-las nas palminhas. Por muito que nos custe, não é assim que as ajudamos.” Era verdade. Dolorosamente verdade. Estas frases caíram-me mesmo em cheio na consciência que tenho de mim própria. Sentia também que ia ser intrusiva. Que me estava a aventurar por um mundo que não conhecia e que tinha todas as hipóteses contra mim nestas circunstâncias.
 
(continua...)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

[nomes que dizem tudo #25] ilegalidades...

Ontem fiquei tão chocada com o nome de uma criança que quase me convenci de que os pais só podiam ter cometido uma ilegalidade qualquer... Tive de ir ao site do Ministério da Justiça, onde estão listados os pomposamente designados "vocábulos admitidos e não admitidos como nomes próprios" para perceber que não, que não havia lei ou despacho que pudesse ter protegido a menina Taísa Doriana de ter a sua triste graça... Que raio de república é esta que não protege os menores e indefesos (dentro de pouco tempo até serão minorias...) e permite que um casal eufórico possa nomear a sua filha com pérolas deste calibre?

E, meus amigos, acreditem em mim, que eu sei do que falo. Já aqui vos expliquei a minha teoria sobre os nomes de mau prognóstico. Concretizando, se um Pedro Miguel tiver uma doença grave, enfim, pronto, é azar. Tudo se trata, temos de ter confiança, estamos cá é para isso... Mas se uma Luena Cristena (sim, existe e é legal!) tiver uma doença grave, tenham lá paciência. Estava mesmo a pedi-las, caramba, que mau karma atrai mau karma!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

[nomes que dizem tudo #24] gémeos

Tenho uma amiga - de quem já vos falei uma vez - que trabalha no Marrere, a 15 km de Nampula, num projecto iniciado por ela no combate à SIDA e à desnutrição naquela zona.

Há tempos enviou-me os dados do projecto para a ajudar a apresentar os resultados. Uma tarefa hercúlea, mas que me tem dado um prazer enorme, acreditem. Ainda no início do trabalho, estava eu a fazer contas e mais contas, quando me apercebi que teria de separar os gémeos num grupo à parte. E foi então que soltei uma gargalhada que se deve ter ouvido no prédio em frente. Mais uma vez confirmei que em Moçambique os gémeos são espiritualmente tratados como se de um só se tratasse. Por isso são vestidos de igual, devem ser tratados de forma o mais equitativa possível e os nomes também devem ser parecidos. Assim, na lista que a minha amiga me enviou, encontrei a bela soma de 72 pares de gémeos! Depois olhei melhor e percebi que talvez não fosse coincidência que os que tinham o nome mais parecido tinham nascido com pesos muito próximos e quando os pesos eram díspares, o que tinha nascido com maior peso tinha o nome mais comprido.

Não resisto a partilhá-los convosco... São uma delícia, vejam só:

- Elisete e Elisabete [Uma pequenita de 1700g e outra maior de 2500g.]
- Zita e Zito [Ambos com o belo peso de 2500g]
- Sandra e Santos [Pois, pelos vistos Santos pode ser nome próprio...]
- Aquiba e Equibal
- Sónia, Sunito e Sozinho [Pobrezito do bebé Sozinho...]
- Selma e Selmão [Adivinhem quem era o maior...]
- Amisse e Amizade
- Gito, Gildo e Judite
- Isa e Arde [Sem comentários...]
- Mércia, Comércio e Merecido [Oh, valha-me Deus!]
- Délfia e Delfina
- Deonilda e Deolinda
- Ortência e Ortêncio
- Ordina e Ordino [Um clássico... um conjunto de nomes com que me deparo em quase todo o lado.]
- Ánita, Anita e Anito [Os três equilibrados, entre 1800g e 2000g.]
- Vivi e Vilma
- Sónia e Sénia [Outro clássico...]
- Sony e Nokia [Oh, valha-me São João Baptista!]
- O casalinho Ilda Lino e Idalino Lino [Eu, se fosse a eles, zangava-me... mas isto são nomes para se dar a um filho? Ou a dois?!]
- Célio e Ofélio
- Estefânia e Vânia
- Belita e Benedita
- Miguel e Micael
- Rosário e Rosarinho
- Carla, Carlos e Cardoso
- Mildo e Imarildo...
- ...

Pronto, era isto... Voltamos para a estrada, na minha aventura Iapala-Nampula assim que conseguir parar de rir...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

[refrões de uma vida] a força que um sorriso pode ter!


A mulher do enfermeiro Sopinha e a sua filha Eclésia, no dia em que me convidaram para os ir visitar...
(Gilé, Zambézia, Abril de 2008)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

[nomes que dizem tudo #23] uma páscoa feliz!

E já vos falei do menino de Nampula chamado Aleluia Mário? Bom mas mesmo bom era ele ter um filho chamado Sábado, para lhe poder chamar Sábado de Aleluia...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

[outras palavras] alves redol

Já Alves Redol no seu Constantino tinha uma opinião parecida com a minha no post aqui abaixo. Se bem que menos ruminativa...
"Por voto do padrinho e assentimento dos pais, o rapaz recebeu no registo o nome de Constantino. É um nome bonito, sim senhor. Na aldeia não há outro igual, e isso é bom, pensou a mãe; escusa uma pessoa de matar a cabeça como em certas casas em que os homens usam o mesmo nome e ninguém se entende. Na Chamboeira conheceu ela uma mulher, a Ti Pirralha, metida num inferno de portas adentro por causa de o marido, o filho e o neto se chamarem António.

Enquanto o rapaz foi pitorro, tudo correu bem. Um era o António Grande, o outro só António e o mais novo o António Pequeno, O rapaz porém, deitou muito corpo, e depressa, enquanto o avô continuou cartaxinho, cartaxinho e melindroso, pois começou a pôr-se de vidro fino quando a mulher lhe chamava Grande, vendo nisso uma artimanha dela para se vingar de certas desfeitas que lhe fazia quando bebia um copo a mais.

«Grandes são os burros», refilava então o velho, muito rezingão, com reumático nas cruzes, umas dores parvas como dentadas de lobo. Mas andou tudo raso naquele casal quando a Ti Pirralha o tratou por António Velho para chamar Novo ao neto, o que incendiou o marido, e de tal jeito que a mulher teve de se esconder três dias em casa duma vizinha.

«Velhos são os trapos!», gritava o António Pirralha chamando corja ao povo inteiro da sua aldeia – que não gostava muito dele, valha a verdade.

Foi isto mais ou menos o que a mãe do Constantino lembrou ao marido para defender o nome escolhido pelo compadre."

[aviso] ignore este aviso!

Meus queridos amigos, serve este pequeno parêntesis para vos explicar que aqui no mato não possuímos livro de reclamações, tal como está patente ali ao fundo, do lado esquerdo daquele exíguo mapa onde se pode acompanhar o crescimento deste improvável beijo de uma mulata que, por acaso, e ao fim de todas as contas, não é mulata nem nada. E, que se formos bem a ver, também não é beijo coisíssima nenhuma, mas adiante, que há coisas que não se devem pôr em causa e os beijos das mulatas são uma delas. Os beijos das mulatas são sempre de coração. Mesmo das mulatas que só são mulatas por dentro.*

Mas o que eu vos queria dizer é que nós aqui no mato, não possuímos livro de reclamações. Pode alguém reclamar de um beijo, homens de Deus? De um beijo não se reclama, nem que seja roubado. Bem... sobretudo se for roubado... E pode alguém repudiar uma flor? Mesmo que seja só uma flor fingida, enterrada num balde de gelo, meus amigos, ou que tenha nascido nos confins da savana, uma flor é sempre uma flor!

E há ainda outras razões para não termos livro de reclamações. Nenhuma delas minimamente defensável, mas enfim, são as nossas. E quem dá o que tem, a mais não está obrigado, não é assim? Em primeiro lugar porque o Sr. Pompisk, padrinho honoris causa deste mato, também não possui um livro de reclamações.

[Para os que só chegaram agora, ou para os mais distraídos, há todo um conjunto de hiperligações ali numa das colunas da direita, onde se fala sobre o Sr. Pompisk (para ele, mesmo que não nos esteja a ouvir, um abraço), embora, infelizmente, acho que não se fique a saber rigorosamente nada sobre ele. Ou bem... quase nada... Uma das coisas que ostensivamente não se fica a saber é a razão obscura pela qual a sua barraca "Só Basta Viver" no Gilé não possui um livro de reclamações. Mas isso, presumo, é lá com ele. Com ele e com a barraca dele...]

E enquanto o Sr. Pompisk não tiver um canhenho, por pequeno que seja, onde, honesta e dignamente, um cliente possa destilar todo o fel que guarda em segredo na sua alma contra aquele negócio, nós também não nos achamos no direito de o ter. E, por último, achamos assim um bocado idiota ter um livro de reclamações num blog. É sobretudo isso.

Por isso, meus caros, estas ruminações bloguísticas servem para dizer que não adianta mandarem mails atrás de mails para aquele endereço que está mesmo a pedi-los, justamente por debaixo do aviso de que este blog não possui livro de reclamações, a reclamar sobre a minha mania de falar sobre nomes de pessoas quando podia estar a falar de coisas sérias e a fazer serviço público, porque eu continuo a achar que é um excelente tema de conversa. Só vou responder à simpática senhora que observou que os três pequenos freaks mencionados no post abaixo, os irmãos Faquir de Domingo, Milagre de Domingo e Vidêncio de Domingo, não tinham necessariamente de ser filhos de um senhor chamado Domingo. A sua tese é que eles podiam perfeitamente ser filhos de um weekend man que projectasse na descendência todo o seu exotismo de fim de semana. E, portanto,"de Domingo" poderia perfeitamente ser nome próprio.

Podia, é verdade. Mas não, cara leitora, "de Domingo" neste caso não é nome próprio. Em Moçambique, pelo menos nas zonas de mato por onde trabalhei (suspeito que noutras províncias e nas grandes cidades não seja assim), o apelido das crianças não é o apelido do pai, mas o seu primeiro nome. A título de exemplo, o filho do senhor Ozias Trinta chamar-se-á José Ozias e não José Trinta. E não vejo qualquer inconveniente nesta prática. Pelo contrário. Assim obvia-se a confusa tradição que é dar ao filho o nome do pai sob pena de a criança ficar com o nome ridículo de João João ou coisa que o valha. Que isto de nomes repetidos é coisa que mais tarde ou mais cedo acaba por trazer desordem na família.

*O aviso que chama a atenção para a inexistência de um livro de reclamações está lá em baixo, confiem em mim, vão lá depois, que se não nunca mais saímos disto... Pronto, sim, logo vi que não bastava uma nota de rodapé, está mesmo ao lado do mapa das bolinhas vermelhas, onde até se pode constatar que os beijos de mulata têm, como se quer, uma especial apetência por zonas soalheiras e assim pertinho do mar e que se reproduzem desenfreadamente, pior que uma erva daninha, meus amigos, é o que vos digo... mas agora voltem cá para cima, que diabo! Até parece que têm bichos carpinteiros!

domingo, 18 de setembro de 2011

[nomes que dizem tudo #22] uma família de exóticos!




Meus amigos, no meio de um trabalho hercúleo que tenho para fazer no fim de semana, venho aqui partilhar convosco que esta manhã recebi informações sobre os meninos de Nampula que são apoiados pelos padrinhos em Portugal e descobri, lá pelo meio, uma família absolutamente impagável. Todos com nomes bastante comuns na região, comuns o suficiente para ter ficado com a certeza de que a combinação não foi propositada (sim, quero acreditar que nenhum pai faria isto de propósito à própria descendência).

Filhos certamente de um tal de Domingo, os meninos chamam-se, por ordem de nascimento: Faquir de Domingo (tentativa de ilustração acima), Milagre de Domingo e Vidêncio de Domingo.

[E poderíamos abrir aqui um longo parêntesis especulando o que fariam estes meninos durante os outros dias da semana, mas infelizmente, não temos tempo...]

sábado, 11 de junho de 2011

[nomes que dizem tudo #21] o meu blog dava um programa nacional de vacinação

(continuando...)

Mas estava eu para aqui a teorizar sobre os nomes e a saúde das crianças... Eu diria mesmo, embora não apoiada em qualquer estudo randomizado, já que nenhuma comissão de ética aprovaria esta experimentação humana de alto risco, que a lista dos nomes admitidos e não admitidos é um dos grandes responsáveis pela diminuição drástica da mortalidade infantil nas últimas décadas!

E ainda assim, mesmo orientados por uma lista quase exaustiva, é possível cometer muitas atrocidades, meus amigos! Não só pelas combinações que não lembrariam ao menino Jesus, mas também porque os nomes admitidos estão cada vez mais improváveis. Qualquer dia isto já é como no Brasil, onde se pode tranquilamente chamar "Um Dois Três de Oliveira Quatro" a um filho sem a conservadora do registo poder fazer o que quer que seja para impedir os eufóricos pais...

É que há nomes que à partida nos fazem sentir que algo vai correr mal com a criança... Sinceramente... Por exemplo, acham que uma Odete Soraia podia correr bem? Ou uma Catalina Cinderela? Ou uma Jessica Ariadne? Alguma destas crianças poderia ter uma saúde de ferro? Não, meus amigos, uma Odete Soraia nunca poderá ter uma saúde de ferro. Do mesmo modo, que dizer de um Dhruva ou de um Siddártha? É que uma coisa é termos na consulta um Dhruva de dois aninhos, filho de um Pranjhal e de uma Fati, ambos naturais do Bangladesh... Este menino só tem habitualmente uma ou outra doença típica da infância, uma otite aqui e ali, a varicela da praxe e, num rasgo de maior azar, pode um dia partir a cabeça enquanto sobe a uma cadeira para ir buscar a lata dos rebuçados na prateleira mais alta da cozinha. Mas sabemos que vai tudo correr bem.

Outra coisa muito diferente, meus amigos, é termos um Dhruva dos Santos, filho de um André Filipe e de uma Andreia Vanessa, ambos vegetarianos estritos e fervorosos adeptos da homeopatia. Aí a coisa fia mais fino. Aí podemos ter a certeza de que alguma coisa vai dar para o torto mais tarde ou mais cedo! Para além das doenças horríveis que costumam acometer os azarados de nascença, estes acabam habitualmente por ter anemias de caixão à cova porque nunca comeram carne na vida, otites supuradas com surdez precoce porque nunca tomaram um antibiótico, papeira aos 15 anos com risco de ficarem estéreis porque não fizeram qualquer vacina e são os primeiros a ficar obesos na adolescência porque depois de descobrirem o MacDonald's nunca mais querem outra coisa... Ah, e há uma epidemia de sarampo na Europa*. Também são sempre estes os primeiros na linha de ataque...

Mais palavras para quê?

* Nunca é demais frisá-lo: este blog é um fervoroso adepto da vírgula de Oxford. Entre outras inutilidades...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

[nomes que dizem tudo #20] o meu blog dava um programa nacional de saúde pública

Se há medida de saúde pública que melhorou a qualidade de vida das crianças portuguesas nas últimas décadas foi a saída em Diário da República da lista de nomes admitidos e não admitidos. E o fundamento é extremamente simples, meus queridos amigos, é que não podemos confiar nos pais para dar nome a uma criança, porque é precisamente no momento do nascimento que a auto-crítica se dissolve. Para sempre! E se não podemos confiar nos pais, muito menos nas mães, a quem a "influência perturbadora do parto" pode até atenuar a pena dos crimes mais hediondos.*

Nesse momento a vida é um enorme ponto de interrogação, um misto de medo e euforia, um tsunami de sentimentos, de sangue, leite e lágrimas (vá, podem dizer, sim, "escusavas de ser tão pictórica"... mas eu respondo que dado o aparato fluídico de um parto, podia perfeitamente ser ainda mais gráfica!). Nessa altura tão conturbada, em que cada pessoa está genuinamente convencida de que acabou de viver um momento singular, extraordinário e irrepetível, não podemos esperar que todos tenham senso suficiente para não dar à criança um nome que considerem igualmente extraordinário e singular. É precisamente por isso que precisamos de um guardião da moral e dos bons costumes sob a forma de decreto-lei onde conste, por exemplo, que Teddy não é um nome admissível para se chamar a uma criança, nem Tâmara Madura, nem Jimmy Hendrix, nem Frankenstein. Nem outras improbabilidades deste calibre...

É preciso alguém para comandar o barco. Alguém como, por exemplo, o Bispo de Utrecht no século XIII, que foi chamado para resolver o difícil e estranho caso do parto da Condessa Margaret de Henneberg, que dera à luz uma mola hidatiforme. E aqui a história assevera-nos que um bispo nunca se atrapalha, que um bispo enrascado é pior que um anestesista bêbado. E reza, pois, a história que o digníssimo clérigo dividiu aquela massa vesiculosa em 365 partes iguais e baptizou metade com o nome de João e a outra metade com o nome de Isabel e mandou depois fazer-lhes um funeral condigno, para que nenhuma das pequenas vesículas tivesse de ir para o limbo, que era assim uma espécie de piso intermédio entre o céu e o inferno para onde iam todas as crianças cujos pais cometiam a infâmia de não os baptizar. Depois de abolido pelo Papa João Paulo II, já no século XXI, pensa-se que as crianças do limbo foram realojadas em massa...

*Artigo 137 do Código Penal Português.

(continua)