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domingo, 23 de abril de 2017

[zambézia, uma história de origens] filhos do coração



Vistas do Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)

(continuando...)

Reconheceram-se ainda assim. O perfume dos cabelos de Gigi era ainda o perfume delicado do céu e das flores do frangipani. E a barba de Trovão guardava o cheiro a terra molhada e a raiz de embondeiro. Reconheceram-se e amaram-se, como se tinham amado desde sempre. Mas a criação divina estava ainda no seu início, e os métodos de gerar vida eram ainda mais que imperfeitos. Os olhos de Gigi a cada dia transbordavam de um mar maior, e os olhos quentes de Trovão iam arrefecendo o desejo de criar filhos com olhos de céu e cabelos de embondeiro.

Procuraram em vão quem lhes revelasse os segredos dos antepassados, mas gerar vida está só nas mãos de Muluku, era a resposta invariável.

Foi então que decidiram aventurar-se a tornar a subir o Monte Namúli. Mas o monte onde outrora corriam felizes e despreocupados era agora o grande tabu da criação. Dizia-se que nenhum adulto deveria subir ao monte de onde viera o primeiro homem, sob pena de sucumbir ao mais pérfido desejo telúrico. Mas já só isso lhes fazia sentido, para desfazer a tristeza e a maldição em que viviam. Não temiam nunca mais encontrar o caminho de volta porque já só tinham um caminho. E era um caminho só de ida… Tinham de ir devolver ao embondeiro as raízes que secavam o ventre de Gigi.

E, numa madrugada, ainda cobertos de bruma e cinza, prostraram-se pedindo a Muluku que os protegesse e perdoasse na subida. O peito pulava-lhes na ânsia do interdito, num misto de medo e desejo, quando iniciaram a viagem... Mas a montanha parecia chamá-los. Os espinhos encolhiam à sua passagem, as bagas amadureciam, plenas de néctares açucarados e as folhas pareciam cantar: "Não temam, pois tudo recomeça." Nunca o Namúli lhes parecera tão convidativo, tão quente e húmido de vida.

Chegaram, por fim, ao cimo da montanha. Os olhos de Gigi iluminaram-se de bons presságios quando viu que, da gruta revestida a raiz de embondeiro, jorrava agora uma nascente de águas mornas. Os olhos de Trovão prenderam-se num frangipani, cujas flores caíam, delicadas sobre a nascente, perfumando o ar com o cheiro da sua doce mulher. Sonhava por instantes, acordado, que Gigi estava em toda a parte, dissolvida e pulverizada por todo o céu da montanha, quando um grito o fez despertar daquele deslumbramento.

Gigi gritava, toda ela assombro e abismo, que aquela nascente era de água salgada! Assistiram então, aturdidos, ao derradeiro jorro de água, que secou a nascente, mar de súbito vazio, deixando em redor um manto de sangue vivo. E depois de um momento, onde coube toda a dor, medo e desesperança do mundo, ouviu-se, de dentro da gruta, um gemido. Seguido da gargalhada inconfundível de uma criança. Precipitaram-se para dentro da gruta. Ao fundo, ainda coberta de sangue e raízes, uma criança com olhos de céu, cabelos de embondeiro e perfume de frangipani. Era uma menina. Uma menina linda e, espanto dos espantos, já com dentes de leite. Os mesmos dentes de leite de seus pais. E trazia dentro dela uma semente de embondeiro, sinal de que Muluku aperfeiçoara a criação e que não queria que os seus netos tivessem de passar por todo aquele sofrimento para gerar vida. Felizes, agradeceram a Muluku.

Mas Muluku avisou-os: Não vos esqueceis de que, a partir de hoje, toda a criação e futuro provirá desta criança, de cabelos perfumados e olhos de céu e de mar, mas lembrai-a sempre de honrar a seus pais, que tanto sofreram por terem filhos de sementes plantadas fora do corpo. Porque toda a criança é desejada e filha do coração.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

[hoje foi o dia!] zambézia, uma história de encantar








O Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)
Fotos: Algumas são minhas, outras daqui.


As Flores de Frangipani

Há muitos, muitos anos, a Zambézia era uma terra selvagem, quente de origens, onde nasciam fontes de águas mornas e perfumadas, onde a terra era tão fértil que as mais pequenas sementes podiam dar frutos e as montanhas se cobriam de um véu glaucomatoso todas as manhãs. Para que o céu só se mostrasse depois de todos estarem bem acordados para o poderem contemplar... Numa dessas montanhas, a que haveria de se chamar Namúli, o primeiro homem surgiu na bruma de uma madrugada, coberto de capim e de folhas, germinado nas raízes mornas de um embondeiro. E, depois de um urro de alvoradas, que só não faz parte da história porque ainda não estava lá mais ninguém para ouvir, olhou com espanto aquele céu de paraíso, agradeceu a Muluku, Deus dos antepassados, e desceu avidamente em direção à planície, começando a espalhar a sua semente pelo mundo.

Nessa terra verde, no coração de África, ainda a criação divina não estava completa, nasceu anos depois, um menino de olhos negros como a terra mais fértil, e cabelo crespo, como os irreverentes ramos de um embondeiro. Era um menino com o coração doce e a cabeça cheia de aventuras, a quem chamaram Trovão. A sua companheira de infância era uma menina terna, de olhos azuis, transbordantes de futuros, e cabelos perfumados, cujo nome seria Rosa, se nessa terra existissem rosas ou alguém já tivesse sonhado com flores delicadas. Por isso lhe deram o nome das flores mais doces das árvores mais altas, porque o seu perfume só poderia vir do céu. O seu nome era Frangipani, mas todos lhe chamavam Gigi, como o som do seu sorriso.

Gigi e Trovão corriam felizes pelas montanhas, trepavam ao cume do monte Namúli, comiam as bagas mais doces dos arbustos espinhosos e construíam, entre segredos e gargalhadas, pequenas cabanas de paus e de folhas, onde mal cabiam deitados e entrelaçados um no outro. Era lá que se deixavam ficar em silêncio, na hora do calor, contemplando o céu pela abertura no teto que Gigi queria manter descoberta a todo o custo, para que o céu não lhe fugisse dos olhos e para sentir, nos dias de chuva, o sabor redondo do sol. Por vezes, nos dias em que o calor se demorava e a terra estava mais húmida e fértil, o próprio chão se entranhava entre os dois e criava raízes, como pontes entre um e outro. E era quase difícil despegarem-se, vestidos da mesma pele.

Os meninos foram crescendo, os dentes de leite foram caindo e eles enterravam-nos no chão da cabana, onde, pouco a pouco, se foi formando uma gruta, revestida a raiz de embondeiro. Mas, à medida que os meninos cresciam, aqueles momentos de silêncio e cumplicidade foram-se tornando cada vez mais raros. Já todos sabemos, mas eles não tinham quem lhes dissesse, e só depois poderiam vir a descobrir, que na infância, a dada altura, há uma magia que se quebra, uma gargalhada que se suspende, toda uma vida que se torna memória... E no dia em que enterraram o último dente de leite, cada um seguiu o seu caminho, porque desde que o mundo é mundo, para crescer é preciso afastar-se da casa onde que se cresceu... Para se poder amadurecer e depois poder amar e querer gerar vida...

Gigi e Trovão desceram do Monte Namúli e cresceram em direções opostas, até que um dia, na planície se reencontraram. Ele tornara-se um homem enorme, com a face e o peito cobertos de pelos, das raízes do embondeiro que se lhe entranharam na pele nas longas tardes da sua infância. Os olhos quentes continuavam doces e cheios de aventuras. Gigi crescera para se tornar numa mulher linda, mas os olhos, outrora de céu, eram agora olhos azuis de mar. As raízes do embondeiro cresciam no seu ventre, secando-o por dentro. E o mar, que sonhava que um dia lhe cresceria no ventre, para depois jorrar vida, só nos olhos lhe crescia todos os dias. E deles transbordava todas as noites. Nos seus olhos já não se viam futuros por causa daquele mar morto no seu ventre, onde só existia sangue e lodo…


(continua...)

sábado, 17 de outubro de 2015

[nomes que dizem tudo] mas, caramba, não deviam!

No outro dia, quase no final de uma reunião de trabalho bem disposta no hospital, a psicóloga que trabalha connosco levantou-se para ir atender um menino em consulta de primeira vez.
- Quem vai ver - perguntei, interessada -, algum dos meus?
- Não, vou ver um menino de primeira vez que vem referenciado de outra consulta por suspeita de atraso da linguagem.

Olhámos para o nome escrito no processo: Samir Semedo Tavares*, e o brainstorming começou: Um nome tão invulgar com apelidos tão portuguesinhos-da-silva... Eu disse que me parecia um nome de origem africana, mais porque valorizei os apelidos e não o nome próprio, outra colega apostava na etnia cigana, onde abundam nomes invulgares, outra colega mais versada em onomástica, dizia que um Samir teria necessariamente raízes ou inspiração asiática, que Samir em árabe queria dizer "jovial, bom companheiro" e que em Sânscrito queria dizer "ar e vento"...

No dia seguinte alguém se lembrou do Samir:


- Então, percebeu qual era a origem da família?

- Ah, sim, lamento mas ninguém acertou! Eram de Santarém. Portuguesíssimos!
- Mas perguntou a origem do nome?
- Perguntei, pois! Eles eram um bocado desconcertantes, com uma diferença de idades grande, a mãe com 40 anos e o pai com 23 anos, ele com um ar magro, vestido de preto, muito calado e sinistro e ela cheia de piercings, muito exuberante. Eles lá contaram então que o menino se chamava Samir em memória ao rio Sabor, "onde nos conhecemos pela primeira vez, doutora", disse-me a mãe com sorriso malicioso... E eu já arrependida de ter perguntado, não fosse a mãe desembrulhar ainda mais pormenores da intimidade. "Nós queríamos chamar-lhe Sabor, como o rio, mas no registo não aceitaram e, portanto, o mais parecido que havia era Samir".


[Acho que esta rubrica "Nomes que dizem tudo" qualquer dia vai ter uma subrubrica intitulada "Nomes que desbobinam tudo, tudo, mas mesmo tudo!"]


* Nome obviamente fictício: o primeiro nome tem uma letra trocada e os apelidos são equivalentes do ponto de vista da sua frequência e origem.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

[reduzir, reutilizar, reciclar] exercícios ecológicos

Ontem, o baby-de-mulata mais uma vez foi comigo e com Mr. Shaka, seu papá, ao ecoponto mais próximo levar o lixo reciclável. Para ele, tudo o que envolva sair de casa e ajudar os seus papás a fazer coisas de crescidos é um programão! E, claro, é sempre uma atividade pedagógica que promove o conhecimento dos materiais de utilização corrente  ("isto é papel, isto é vidro, isto é plástico"). E a minha convicção pessoal é que em matéria de ambiente, educação para a cidadania e resíduos sólidos urbanos nunca é cedo demais para começar!


E lá íamos nós:
- E como se chama um caixote do lixo para colocar... vidro?
- É um vidrão.
- Que lindo, baby, tu sabes muitas coisas! E um caixote do lixo para pôr papel?
- É um papelão.
- E um caixote do lixo para pôr embalagens?
- É um embalão.


E foi então que a coisa começou a descambar...
- E um caixote do lixo para pôr colchas?
- ... É um colchão! [Um sorriso e depois uma gargalhada de quem percebeu o trocadilho...]


- E um caixote do lixo para pôr... trambolhos?
- É um t'ambolhão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr... Carrilhos?
- É um carrilhão!


- E um caixote do lixo para pôr... túbaros?
- É um tubarão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr caixas?
- É um caixão!


- E um caixote do lixo para pôr... calças?
- É um calção!


- E um caixote do lixo para pôr boias?
- É um boião!


- E um caixote do lixo para pôr... diversos?
- É uma diversão! - ...um ar confuso... - Pois é, mãe?


- Sim, meu amor! E um caixote do lixo para pôr confusos?
- É uma confusão! Ahahaha!


- E um caixote do lixo para pôr fogos?
- É um fogão!


- E um caixote do lixo para pôr... solteiras?
- É um solteirão! [Esta ele não percebeu, mas pode ser que se vá entranhando...]


O baby ria, nós desfazíamo-nos à gargalhada com ele, e eu fiquei mesmo feliz porque o meu menino já consegue manipular sílabas, derivar palavras e ainda por cima tem sentido de humor e consciência fonológica. Mais um passo para o conhecimento metalinguístico e preparar a leitura e escrita. Também para isso nunca é cedo demais...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

[balanço atrasado de 2014] sinais de desesperança...

... também não foi em 2014 que nasceu outro Cristiano Ronaldo. Aliás, desde 2012 que não nasce nenhum. O Cristiano Ronaldo mais novo do país já vai fazer 3 anos dentro de dois meses, por contraponto aos seis Cristianos Ronaldos de 2008 que já vão fazer sete anos. Acho que estamos a perder o otimismo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

[nomes que dizem tudo] maktub*

 
Já vos falei em tempos da minha doente chamada Rita Lina que tinha uma perturbação de hiperatividade e défice de atenção, lembram-se?

No outro dia, apesar de todas as medidas não farmacológicas instituídas desde o início, tive de me render à evidência: a menina precisava de medicação. Estava a fraquejar nos estudos e a desmotivar-se a olhos vistos. Mas nesse momento, a palavra Maktub ecoava-me nos ouvidos e assaltavam-me pruridos onomásticos... Para a desgraça não ser completa e não deixar o destino rir-se de ninguém,  não lhe prescrevi Ritalina, mas uma alternativa e em genérico... A menina está melhor. Os pais estão aliviados...

* Expressão árabe, que significa "assim estava escrito".

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

[outras palavras] breve história de um desnutrido

Mais uma crónica da minha amiga Maria, voluntária pela minha ONG no Niassa, a província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Tudo quanto ela escreve me faz vir à mente sons e cheiros longínquos. E só não me faz chorar porque agora tenho várias razões fortes e lindas para permanecer aqui e não fugir mais uma vez para essa terra miraculosa e cheia de vida!

 
O Bento, o menino protagonista desta história...
Mitande, Niassa


"Recordo a primeira vez que ouvi o Bento. Era de manhãzinha, aproximava-me da maternidade para iniciar mais um dia de trabalho quando ouvi um choro demasiado alto para ser o primeiro grito de um ser humano, demasiado sofrido também.
Não me enganei. Tratava-se de uma criança, dos seus 18 meses, que encarnava o dito popular “deve à pele a obrigação de lhe segurar os ossos”. A avó, sua cuidadora, a acrescentar a um discurso nada coerente, sofria de disfemia [gaguez], o que tornava o cenário no mínimo bizarro. Conseguimos convencê-la com muito custo que era mais importante internar a criança no Centro Nutricional do que afastar os macacos que teimavam em roubar-lhe a maçaroca: a sua principal preocupação naquele momento.

O Bento, que tivera a (in)felicidade de ter uma irmãzinha, agora de 5 meses, que lhe tirara cedo de mais o leite e o amor materno, surpreendeu logo nos primeiros dias de internamento por aliar uma teimosia deliciosa a uma inteligência incomum. Sabia perfeitamente qual era a colher em que estavam os medicamentos e não ingeria nada que a avó não colocasse primeiro na boca. O medo que demonstrava antes de provar qualquer alimento levou-me a suspeitar de longos tratamentos tradicionais impalatáveis. Exigia o seu espaço de mais de um metro e meio de raio, impenetrável para alguém que não fosse a avó, espaço este que consegui aos poucos diminuir seguindo à letra os conselhos que a raposa ensinou ao Principezinho na fantástica obra de Saint Exupéry: “É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas--te um bocadinho afastado de mim, assim, na [esteira]. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto….”

Cada dia me sentei mais perto e ao final de um mês tinha-o cativado. Bastava alguém dizer “a Fátima vem lá” para ele colocar um sorriso de orelha a orelha e espreitar… é certo que não fui só eu que o cativei, mas sobretudo as papas deliciosas com sabor a amendoim que lhe preparava.

 Hoje, após 10 semanas de tratamento, teve alta… saiu já ao entardecer, às costas da mãe. No lusco-fusco de um anoitecer colorido, dava gargalhadas ruidosas, brincando ao txipi-txipi (esconde-esconde) na capulana da mãe.

 O Bento foi, mas o trabalho continua, e agora devo dar toda a atenção à Vitória, uma bebé adorável cuja cara desnutrida se resume a uns grandes olhos negros e um sorriso desdentado de orelha a orelha, com peso aos 8 meses inferior ao meu peso de nascimento, consequência de falta de produção de leite materno tardiamente identificada. Há crianças que não podiam ter nomes mais adequados…
Em meu nome, por me permitirem ser agente ativa nestes milagres diários, em nome do Bento, da Vitória e de todas as “Vitórias” de África que sobrevivem graças às ajudas generosas dos benfeitores da APARF, deixo uma mensagem de sinceros agradecimentos e termino parafraseando Raoul Follereau “não sabe o bem que faz quem faz o bem.”

Obrigada, eu, Maria, por me trazeres, a cada crónica, mais um pouco do cheiro de África!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

[nomes que dizem tudo] trava línguas

No outro dia recebi um pedido de consulta lá no hospital de uma criança de 4 anos por atraso de desenvolvimento da linguagem. A informação clínica vinha reforçada com um "ainda não diz o próprio nome", não me recordo se com ponto de exclamação ou sem ponto de exclamação, mas num tom manifestamente preocupado. Olhei para o nome. Eu própria não o consegui dizer bem à primeira: o menino chamava-se Vicente* Vila Chã Sargento. Raios, pois que até o nome era um trava-línguas, pobre criança... * Nome obviamente fictício, mas do mesmo calibre linguístico.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

[nomes que dizem tudo] a escola toda...

Há dias, na consulta, vi de um adolescente de 14 anos, rufia até à ponta das orelhas, piercings no sobrolho franzido, desejo de meter mais uns 20 piercings em qualquer superfície do corpo onde fosse humanamente possível esboçar uma prega ("tivesse-eu-dinheiro-e-iam-ver-se-não-punha,-mas-a-minha-mãe-não-me-dá-dinheiro-nem-sequer-para-comer"), cara de "estou-farto-de-apanhar-secas-destas-mas-por-que-é-que-não-me-deixam-curtir-a-minha-vida-em-paz", furibundo por estar ali. Nem levantava os olhos, não me encarava de frente, que eu era certamente uma aliada daquela megera que lhe coubera em sorte como progenitora.

No meio daquela tensão enorme perguntei ao miúdo:
- Se calhar estás a ser um pouco exagerado. A tua mãe dá-te de certeza dinheiro para comeres na escola!
- Não dá, não! - acusou-a de imediato.
- Sim, doutora, ele começou a fumar e no ano passado usava o dinheiro que eu lhe dava para comprar tabaco. Agora não posso confiar nele, não lhe dou dinheiro nenhum!
- Mas isso foi no ano passado, eu agora já não fumo!
- Mas olhe que ele precisa de ter alguma rédea, para poder gerir e mostrar à mãe que está a fazer um esforço para se organizar.
- Pois, mas também está de castigo porque só falta às aulas. Naquela escola ninguém controla nada! Se ele falta às aulas e se começa a drogar ninguém dá por nada!
- Ele mudou de escola, não foi? Em que escola é que ele está agora?
- Na escola Coca Maravilhas...

...

...

- Escola quê?
- Coca Maravilhas!

(A mãe tinha medo que ele se começasse a drogar na escola Coca Maravilhas? Bem, quem era eu para lhe conseguir assegurar o contrário? Eu não ponho as minhas mãos no fogo, que deve ser difícil fugir a mensagens subliminares!)

Mas lá mandei a mãe sair para falar a sós com o miúdo...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

[nomes que dizem tudo] coincidências felizes!

 
Só me faz lembrar o meu menino da consulta, o Manuel Arranhado*, que tinha uma dermatite atópica e lesões de coceira por todo o lado, ou aquele senhor de quem já vos falei, o Sr. Francisco Pão Costa, que tinha um tumor de Pancoast**. Mas isto é mesmo humor refinado.*** Ninguém pode dizer que este não é um verdadeiro homem desta terra!

* Nome próprio obviamente fictício.
** Felizmente ficou curado, de outro modo não estaria aqui a brincar com a doença.
*** Sim, eu sei, sou provavelmente a centésima pessoa da blogosfera a postar sobre isto, mas deixem-me dizer-vos que dei a minha primeira gargalhada em vários dias! (Sim, estou enclausurada a fazer um relatório gigantesco. Não, não me perguntem mais nada. Sim, já tive dias melhores.)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

[improbabilidades] nomes que dizem tudo

 
Mais um impagável táxi/ chapa em Maputo!
Foto da querida Daniela. Obrigada!

sábado, 17 de agosto de 2013

[nomes que dizem tudo] toponímica improvável

 
Deliciosa Rua de Santiago de Compostela. Parece que também há - embora seja um facto ainda não fotograficamente comprovado - uma Rua da Algalia de Arriba, o que, convenhamos, é um procedimento médico tecnicamente muito mais fácil.
 
(Foto roubada indecentemente à São João, senhora de uma rinite alérgica sazonal de ler e espirrar por mais!)

[nomes que afinal não dizem tudo] welcome to mozambique

 
Mamã com crianças...
(Iapala, Nampula)

A pedido de várias famílias, aqui fica um pequeno excerto do meu livro. É sobre um episódio no dia da chegada à missão de Iapala...
"Antes do jantar, recebemos a visita de uma jovem com um bebé de poucos meses adormecido às costas. O menino vinha no seu traje de gala, com um conjunto de gorro e meias de lã, amarelo com uma risquinha verde, amorosamente tricotado à mão por uma das irmãs.  
– A touquinha e as peuguinhas de lã são o melhor presente que se pode dar a uma mamã – explicou-me depois a irmã Lurdes.  
– Com este calor?
– Não me perguntes porquê, mas todas as mamãs adoram. 
Realmente, como diria Mark Twain, os costumes mais absurdos são sempre os que permanecem mais enraizados... A "touquinha", como a irmã lhe chamava, era um gorro de inverno, de aspeto bastante quente, com direito a pompom e tudo! A jovem era mulher de um dos empregados da missão. Sabia que a irmã Conceição tinha chegado e vinha dar notícias da sua ida a Nampula para registar o menino.
– Não me deixaram pôr o nome que a irmã disse – lamuriou-se.
– Porquê? – Espantou-se a irmã Conceição.
– Disseram que não era nome normal. 
 Mas que estranho...
A jovem mamã tinha ido, dias antes, ter com as irmãs a Nampula porque estava com dificuldades na escolha do nome do bebé. Era o primeiro filho, o que tornava o processo muito mais complexo, com uma grande responsabilidade. Queria dar-lhe o nome de um padre, porque os missionários eram as pessoas mais importantes da região, mas não sabia que nome escolher. A irmã lembrara-se então que o pai do menino, em tempos, trabalhara para um padre em Nampula e tinham ficado particularmente amigos.

– Porque não lhe põe o nome dele?
A sugestão tinha sido bem aceite...
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar? – Perguntei, curiosa.
– Padre Arlindo...  
A jovem estava desolada, mas eu tive de deixar cair um brinco no chão para poder esconder a cara, porque só me apetecia sorrir às gargalhadas com aquela cena digna de uma comédia dos anos ’30. Depois de uma longa explicação das irmãs, a jovem saiu um pouco mais conformada.
– Acho que não vai muito convencida... Só Arlindo parece que não diz tudo – notei.
– Também me parece... Mas ainda bem que o funcionário do Registo Civil foi sensato, senão o menino tinha ficado com um Arlindo nome! E se fôssemos jantar?"

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

quarta-feira, 31 de julho de 2013

[comentários que valem um post] casamentos felizes

A propósito do post de ontem, tivemos uma leitora anónima que nos deixou o seguinte comentário:

"Estou solidária para com esses meninos. Sou Negrão por parte da mãe e Branquinho por parte do pai. Mas conheço uma rapariga que tem os apelidos Pina por parte da mãe e Valente pelo lado do pai (que mesmo assim não é tão suscetível de gozo como Prazeres do Rego). Face a essa lista, os meus nem parecem assim tão maus."

É verdade, minha querida amiga, o mal de muitos alívio é! Entretanto, pela mesma via, já ficámos a conhecer mais um senhor Rato Calhau Sapateiro e continuamos disponíveis para ampliar a lista. Se bem que o objetivo era provar o impacto desta combinação de nomes na saúde das crianças... Mas podemos iniciar um estudo prospetivo sobre este tema extremamente relevante para a saúde pública.

terça-feira, 30 de julho de 2013

[casamentos felizes] onomástica improvável

Há tempos estive a fazer um trabalho em que necessitei de recolher os dados de todas as crianças assistidas na urgência do meu hospital por uma determinada lesão acidental grave. Foi aí que me apercebi de que se a escolha do nome próprio parece ser determinante para a vida, felicidade e saúde de uma criança, como sobejamente vos expliquei anteriormente (ver o post "nomes de mau prognóstico" ou qualquer um dos posts com o tag "nomes que dizem tudo"), já o casamento de seus pais parece ser determinante para a sorte de seus filhos. De outro modo, como explicar que tantas crianças azaradas, com aquele tipo de acidente grave, tivessem nascido de pais de cujo casamento resultou um apelido que roça o ilegal, de tão improvável? Como o caso da Maria Faria Simãozinho Feliz: Faria por parte da mãe e Simãozinho Feliz por parte do pai. Maria é, obviamente, um nome forjado, tal como os restantes nomes próprios que se seguem.

De onde se conclui, portanto, que, tal como há nomes de mau prognóstico, também há casamentos e apelidos que não auguram nada de bom... Aqui fica mais uma pérola de serviço público, ao cuidado de todos os jovens casadoiros e respetivos progenitores! Acautelai-vos, meus filhos, que como todos sabemos, mau karma gera mau karma.

- Maria Faria Simãozinho Feliz
- Manuel Malícia dos Anjos
- Maria Deus Corta Largo
- José Lapa da Rocha
- Miguel Adubeiro da Horta
- Teresa Vermelho Preto
- Mariana Rosário de Fátima
- Pedro Gancho Fino
- Laura Cara-de-Anjo Feio
- Joana Chora Mil-Homens
- Maria Prazeres de Domingo Bento
- José Prazeres do Rego
- Manuel Chora Calado

Adenda - Lista entretanto aumentada por cortesia dos nossos queridos leitores

- Maria Negrão Branquinho
- João Pina Valente
- José Rato Calhau Sapateiro
- Manuel Margalho Comprido (obrigada, querida Luna!)
- André Fava Chouriço (cortesia da Inês e Pedro)
- Maria Pirocas Espada (muchas gracias, Fitz!)
- Maria Gustava dos Prazeres e Morais (esta é forjada, certamente, mas vá, bem-humorada, da 3A)
- Beatriz Pólvora Labaredas (um casamento explosivo dos avós da Isabel)
- Joana Vinagre Pescada (ex-aluna da Maria João)
- Manuel Natal Querido (que, segundo a Maria Bê, era, de facto, um amor de pessoa!)
- José Papa Ovelhas (há gostos para tudo, que nosso senhor lhe perdoe... cortesia da K)
- Maria Pilão Duro (o nome fantástico de uma amiga da P., Pilão por parte da mãe e Duro por parte do pai; quem lucrou mais com o casamento feliz do seu pai foi o irmão da Maria, para quem os apelidos foram a garantia de uma adolescência feliz e bem-sucedida!)
- Manuel Passos Dias Aguiar (o clássico nome de um taxista de profissão)
- Maria Sardinha Alface (mais alguns nomes e já podemos começar a dividi-los por categorias: culinária, religião, luxúria, etc.)

Foi feito um aviso para que a Ana Bacalhau dos Deolinda leia este post antes de ter um filho do seu marido José Pedro Leitão. Não sei se concordo, mas pronto, fica o aviso...

Por outro lado, lembrei-me hoje que sou bisneta de um senhor cujos apelidos configuravam uma radical impossibilidade bíblica: José da Ressurreição dos Anjos.

E mais a Dona Maria das Dores Fortes, que se casou com o Sr. João Barriga e que, não contente com os apelidos do casamento feliz de seus pais, ainda adotou o nome do marido (cortesia da Rita Alves)

E já me esquecia do Senhor Francisco Pão Costa, que teve um tumor de Pancoast! (Mas que, não obstante o azar que o nome preconizava, acabou por sobreviver ao carcinoma sem grandes problemas).

Adenda II - Afinal Maria Gustava dos Prazeres e Morais é um nome verdadeiro, que a 3A confirmou vendo o respetivo BI!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

[moçambique no seu melhor] o segredo da felicidade...

 
Que delícia, a "Casa do Liga Mais Tarde"! E calculem também que esta casa nos revela que o segredo da felicidade está numa barriga cheia.
(Quissico, Inhambane)
 

sábado, 24 de novembro de 2012

[as melhores do serviço de urgência] drogas legais


A propósito do caso do post anterior, gostaria de referir que o adolescente que foi internado com uma crise psicótica aguda nos deu água pela barba durante horas seguidas. Isto porque a história que a mãe nos contava era que o filho entrara em psicose completamente "do nada", depois de uma saída para a discoteca com os amigos. Mas os delírios com helicópteros e envenenamentos - perfeitamente banais em contexto de psicose - eram acompanhados de uns, não tão banais assim, suores, arritmia, hipertensão e pupilas dilatadíssimas, o que nos fazia pensar que havia algum consumo ilícito por ali. Mas a mãe jurava, com quantos dentes tinha (embora já não tivesse assim tantos), que o filho jamais-seria-capaz-de-tocar-em-drogas-que-um-raio-fulminasse-já-ali-a-vaquinha-e-o-burrinho-do-presépio (o menino Jesus e a sua mãe claro que não, que blasfémia!) e, de facto, a pesquisa de drogas na urina e no sangue acabou por vir toda negativa.

Depois de o estabilizar, já nos preparávamos para avançar nos exames dirigidos para doenças muito mais improváveis, quando a mãe nos veio dizer que os amigos, aflitos com o que se passava, lhe tinham confessado que haviam experimentado "miau-miau". Mas que apenas o Igor Joaquim tinha ficado assim "mais estranho"... [Mas, claro, o que é que esperavam de um Igor Joaquim? E mais uma vez se confirma a minha teoria sobre os nomes de mau prognóstico.]

Senti-me uma velha desdentada numa casa bafienta a cheirar a urina de gato. "Miau-miau"? Mas que raio seria o "miau-miau", valesse-me Nossa Senhora do Google? Ou S. Vito das Noites Brancas. O que tivesse mais força. Ou pelo menos o que me pudesse esclarecer minimamente...

Valeu-me a (inegavelmente virgem!) Nossa Senhora do Google, que me explicou que "miau-miau" era o nome dado popularmente a mefedrona, um fertilizante vendido legalmente em muitas lojas de plantas e que era consumido em larga escala por jovens como droga recreativa até ter sido recentemente tornada ilegal. Claro que não acusa em teste nenhum de pesquisa de tóxicos.

Rapidamente encontrei um site sobre os "cuidados a ter para tomar drogas legais de forma segura"! Isto é absolutamente inacreditável! Um site que dá dicas aos jovens, fazendo crer que é segura a toma de algo que lhes pode deixar sequelas para o resto da vida...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

[gémeos] um só par é para meninos!

De vez em quando não resisto a voltar a este assunto... Tenho uma amiga que foi enfermeira durante a vida toda no Hospital Pediátrico de Coimbra. A Eugénia é uma mulher de armas que parece pelo menos 20 ou 30 anos mais nova do que a idade que tem! Competente, bem-humorada, cheia de energia. (Ela não lê este blogue, não lhe estou a fazer nenhum elogio gratuito!) Há alguns anos, depois de reformada, resolveu partir para Moçambique para ajudar na missão do Marrere, uma localidade próxima de Nampula, a capital do Norte.

O Marrere tem um dos melhores hospitais da região (em termos humanos e organizacionais) e é lá que passa os dias, apoiando os mais doentes de todos: as crianças desnutridas e os doentes com VIH, sobretudo as grávidas e as crianças suas filhas. Há tempos enviou-nos esta foto e a seguinte explicação:


 
O senhor Lino Mesa e a Dona Arlinda Botão foram pais pela décima nona vez, dando deste modo um enorme contributo para a taxa de natalidade da província, para além de serem um caso raro de extrema fertilidade! Das doze gestações nasceram dezanove filhos – cinco gravidezes gemelares, uma gravidez de trigémeos e as restantes de apenas um filho ou seja metade das gravidezes foram gemelares*. É obra! Esta última gravidez gemelar foi seguida aqui na consulta de grávidas.

 Apenas catorze dos filhos estão vivos... Os bebés João e Joana frequentam o centro de nutrição e são apoiados com leite adaptado, roupa, biberões e fraldas. Os irmãos Orlando e Orlanda**, que frequentaram no ano de 2009 a nossa consulta, estão de boa saúde. São um casal muito unido e bem-disposto e o papá Lino acompanha sempre a esposa à consulta dos seus filhos. 

* Este post é dedicado à Ana F. e à Sílvia, as minhas amigas que atualmente estão à espera de gémeos, e também à Ana D., cujos filhos fazem cinco anos!
**Já vos falei das peculiaridades dos nomes dos gémeos em Moçambique, se não se lembram podem ir rever...

domingo, 26 de agosto de 2012

[nomes que dizem tudo #31] irmãos

 
Os gémeos Teté e Paizinho. Ao centro o irmão mais novo, de seu nome Online.
(Cahama, Angola)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

[nomes que dizem tudo #30] uma dupla imbatível



Missa dominical na Comunidade de Oito Quilómetros... Reparem no pormenor dos beijos-de-mulata suspensos no tecto, alegrando o ambiente!
(Ribáuè, Nampula)


Há alguns anos, na comunidade de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Oito Quilómetros*, em Ribáuè (Nampula), o Padre Gasolina nomeou como animador paroquial o Sr. Cinco Litros.

E durante os anos em que Gasolina e Cinco Litros foram parceiros, a paróquia de Oito Quilómetros foi de vento em popa e floresceu como nenhuma outra na província. Dezenas de jovens descobriram em Oito Quilómetros a sua vocação religiosa. É bonito ver como podem coexistir a harmonia, a fé, a esperança e a concordância sintáctica numa mesma comunidade...

* Uma aldeia assim designada por se situar ao quilómetro 8 da estrada que liga Iapala a Ribáuè. O nome da paróquia pode ler-se inscrito na parede atrás do altar na primeira foto. Para não pensarem que invento nomes e situações... É o problema do costume: a realidade não tem a menor obrigação de ser verosímil.