(...continuando a história que começou aqui...)
Regressei a casa perturbada, mas feliz. Finalmente estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Só esperava poder cumprir a minha promessa de que haveria de curar a Inês. Será que encontraria algum medicamento para ela em Nampula? Que raio de doença para se ter no fim do mundo…
Mas o dia ainda não tinha terminado. E a noite era ainda uma criança… Ao portão, o guarda esperava-me com a notícia de que o Sr. Rafael estava doente. Que estava “com espíritos”, mas que as Irmãs não tinham dado autorização para ele ir buscar um curandeiro.
– Com espíritos, Sr. Revenda?
– Sim, Doutora, ele não está a falar certo, fala com os espíritos, treme as mãos e os braços e parece que vê bichos…
– Delirium tremens! Valha-me Deus! E já estava a ficar assim ontem de manhã… Vi-o tremer quando lhe fui levar o mata-bicho, mas naquele momento nem sequer associei a nada, achei que seria fraqueza porque não tínhamos jantado… Ele hoje também continuava com as mãos a tremer?
– Não sei, Doutora, de manhã fomos ao Anchilo procurar a minina Inês e durante o resto do dia estive a dormir só...
– Pois... calculo. E eu hoje de manhã nem fui vê-lo, com a preocupação de irmos ao Anchilo. Era só o que nos faltava agora um delirium tremens...
– Tremes? O que é isso, Doutora?
– É a doença dos homens que bebem muito. O corpo fica envenenado pelo álcool e já não passa sem ele. Basta ficar um ou dois dias sem beber e começa a tremer, a ver coisas e ouvir coisas…
– Não, Doutora, não é isso. Isto são espíritos maus. Maus mesmo. Quando os espíritos vêm na forma di bichos, as pessoas morrem quase sempre. É preciso chamar curandeiro para tirar os espíritos. As Irmãs não acreditam em mim!
– Sim, Sr. Revenda, tem razão, esta doença provoca alucinações com bichos e pode matar, é mesmo isso! Mas eu também sei tratar esta doença, não são só os curandeiros.
O guarda estava perplexo. Devia achar que eu era completamente tonta. Não compreendia como é que eu podia, na mesma frase, concordar com ele, que era um facto que o Sr. Rafael estava a ver bichos, e depois dizer que conseguia tratá-lo sem a ajuda de um curandeiro.
– Doutora não está a perceber… Isto é uma doença que vem da tradição! Ele vai morrer se não lhe tirarem os espíritos.
– Está bem, Sr. Revenda, mas não se preocupe que ele vai ficar bem…
O guarda olhava-me incrédulo e assustado. Claramente não acreditava em mim e provavelmente estava cheio de medo de morrer também, receoso de que aqueles espíritos violentos e malignos o atacassem por tabela, já que o Sr. Rafael estava em sua casa… Não valia a pena insistir na conversa. Não falávamos de todo a mesma linguagem e eu nesse dia já tinha tido irritação suficiente com a “tradição” para conseguir sentar-me e explicar-lhe com calma que raio era isso de delirium tremens. E no fundo não valia a pena, não ia conseguir. Era uma doença impressionante demais para alguém mudar assim de opinião.
Entrei no quarto. Deitado na cama, o Sr. Rafael tremia por todos os lados com uma expressão de terror, alagado em suor e, fazia movimentos bruscos com as mãos, como se tentasse apanhar insectos ou afastar qualquer coisa que só ele via e que parecia que o ameaçava. Tomei-lhe o pulso, que batia descompassado, ardia em febre e debatia-se sem me reconhecer… Tartamudeava qualquer coisa em macua que não entendia: “Massi, massi.”
– Que diz ele, Sr. Revenda?
– Está a dizer "água".
– Traga-me água, então, numa garrafa para beber e num alguidar também, que temos de o arrefecer. E depois vá buscar o Sr. Cachimbo a Namutequeliwa, é a terceira casa ao lado do portão das Irmãs da Apresentação. Diga-lhe que preciso que me venha fazer um teste de malária, que isto pode ser também malária cerebral…
– Sim, Doutora.
Minutos depois chegavam as Irmãs com a água que eu tinha pedido.
– Não acha que é melhor levá-lo para o hospital? Não sei se nós sozinhas conseguimos tratar dele…
“Bonito!”, ironizei comigo própria. “Está um homem aqui ao pé de ti em perigo de vida e tu nem sequer ponderas levá-lo para o hospital, só te ocorre mandar chamar o homem que te fez bater o coração há dois dias [e reflectir sobre a vida emocional dos pinguins]… Isto está bonito, sim, senhora!”
(continua...)
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domingo, 27 de novembro de 2011
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
[welcome to mozambique] medicina tradicional
Imagens raras de médicos tradicionais durante uma cerimónia de cura...
Fotos da net (desculpem, mais uma vez não tenho o link mas não resisto a partilhá-las convosco...)
Certa vez, uma das meninas que viviam connosco na casa das Irmãs, no Gilé, foi de fim de semana a casa da família, para se tratar de uma "dor de cabeça tradicional" ou "cabeça grande" (que nome delicioso)... Não sei muito bem o que é uma "dor de cabeça tadicional", apesar de ser uma doença muito comum, de que se fala constantemente. A minha ideia é que é algo do foro da psicopatologia, entre a depressão e a perturbação de ansiedade... Um sofrimento genuíno, mas que a pessoa não consegue verbalizar...
Depois de ela chegar, vimos que continuava tristonha, murchita, pouco activa e sorridente...
- Mas, Bernardina, não chegaste a ir ao curandeiro fazer cerimónia por causa dessa dor de cabeça?
- Sim, tia P., mas se a pessoa "não apanha sorte" não fica curada...
[à procura da inês] pronto, acho que é mesmo desta, podem começar a pensar em voltar...
A casa de um curandeiro na Zambézia...
(Muiane, Zambézia)
(...continuando a história que começou aqui...)
Aviso: Embora seja desta que percebemos o que se passa com a nossa menina, ainda não é aqui que nos encontramos cara a cara com ela. Se o vosso objectivo é conhecê-la assim cara a cara, então podem voltar amanhã, que ela já cá deve estar... Por hoje é só o tio, que por acaso engatámos com uma pinta descomunal! Adiante:
Quase tremia só de pensar que ia enfrentar o “tio grande” da Inês. Que mais me iria acontecer desta vez?
Mas, enfim, contra as minhas expectativas e seguindo à risca as indicações da Irmã Lurdes, consegui tranquilamente chegar à fala com ele. Quando percebeu o motivo que me trazia ali, já estava sentado, de garrafa de cerveja na mão e vi-o engolir em seco, mas não se levantou, ficou sentado a ouvir-me. Bendita Irmã Lurdes! Se na minha vida tivesse sempre quem me orientasse desta forma…
Depois do choque inicial, pareceu-me que o consegui acalmar e acabou por me dizer que a Inês tinha adoecido cerca de dois meses antes com feridas na pele. Inicialmente nos cotovelos e joelhos e que depois tinham alastrado por todo o corpo. A princípio ninguém tinha ligado muito, porque não tinham associado a doença a nenhum acontecimento mas, à medida que as chagas avançavam e lhe cobriam todo o corpo, começaram a associar a doença à morte recente do tio mais novo da Inês que vivia numa aldeia a 40 km dali. O ritos do funeral, desgraçadamente, não tinham sido cumpridos à risca. Um dia antes de terminarem chovera de tal modo que a casa tinha ficado destruída…
O rosto cobria-se-lhe de lágrimas à medida que ia falando. Estava profundamente culpabilizado porque tinha sido ele próprio a dar a ordem de terminar as cerimónias fúnebres e regressar a Nampula. O seu irmão sempre tinha sido um homem tão bom e compreensivo, sempre tão preocupado com o bem-estar e conforto dos outros e da família… Pensara que os antepassados e o falecido não se haveriam de importar. Que haveriam de compreender que não tinha sido com intenção de “fazer mal” mas porque não tinha mesmo havido condições para continuar de maneira nenhuma. Mas enganara-se e a sobrinha estava a pagar por isso. Soluçava agora sem conseguir parar.
– Mas, Sr. Mutaquela, não tentaram tratar as feridas da Inês? Nem sequer ao princípio?
– Claro, primeiro foi internada no Anchilo – e sublinhava “no Anchilo!” da mesma forma que alguém em Lisboa diria que tinha levado o filho a uma consulta “em Londres” para enfatizar como estava preocupado e tinha tentado investir na cura –, mas não melhorou nada... só piorou.
– Eu sei, Sr. Mutaquela, mas também sei que não deixaram a Irmã Maria vê-la. Nem sei quem foi que a tratou.
– Foi outro enfermeiro amigo da família. Não queríamos que se soubesse da doença. Se alguém sabe que esta doença apareceu na nossa família temos de ir todos embora…
– Mas não é assim, credo! Doença não é crime!
– Mas ela continuou a piorar e então percebemos que era uma doença trad’cional. E agora está internada na casa de um curandeiro, mas também não está a melhorar… A doença também não ajuda…
– A doença não ajuda? O que é que isso quer dizer?
– A doença é muito má. E pega-se. O curandeiro nem se aproxima dela. Ninguém se pode aproximar…
– O curandeiro não se aproxima dela? Então como é que ele espera tratá-la?
– Ele deixa-lhe os medicamentos ali e ela faz os tratamentos sozinha. E nós vamos lá levar comida para ela, mas também não podemos entrar…
– Então isso quer dizer que ela está lá completamente sozinha?
– Sim. E não pára de chorar. Eu nem consigo ir até lá, é a mãe que vai. E volta sempre a chorar: “Ah, mwanaka! Ah, mwanaka!*”, como se Inês já tivesse morrido.
– Que horror! Não pode ser, quem é esse curandeiro? Ao menos sabe o que faz?
– Não… Não é um curandeiro muito bom, porque os melhores curandeiros de Nampula não aceitaram tratá-la. Mas mesmo assim estamos a ficar sem dinheiro e ela ainda está a piorar…
Eu estava horrorizada, sem palavras e quase a chorar também, a imaginar o sofrimento da menina, sozinha, repelida e ostracizada como se alguém tivesse injustamente colado um crime horrendo à sua pele. Haveria maior humilhação? E sentia uma indignação crescer-me dentro do peito! Como era possível tratar assim uma adolescente? Mas tentei manter a calma.
– Mas porque é que acham que a doença se pega? Que doença acham que ela tem?
– Irmã… Inês tem… – a voz sumiu-se-lhe na garganta, desaparecendo num sussurro.
– Tem o quê?
– Tem… tem lepra.
Fiquei fora de mim! Estava fula! Nem consegui disfarçar o que sentia… Nem me tinha passado pela cabeça que fosse disso que suspeitavam.
* Ah, mwanaka! – “O meu filho!” Grito das mulheres macuas quando morre um filho ou pressentem a sua morte iminente.
(continua...)
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
[em casa da inês] algo de muito grave se passava...
(...continuando a história que começou aqui...)
Após alguns minutos, a porta abriu-se e uma mulher, de seus trinta e poucos anos, emagrecida e despenteada, semi-despida abriu a porta, estremunhada. Não me deu tempo sequer de explicar ao que vinha. Assim que me viu, percebeu que eu só podia vir de parte das Irmãs, e fez menção de fechar a porta. Não tinha contado com isso. Nem me tinha passado pela cabeça que ela compreendesse de imediato o que é que eu fazia ali. Que ingenuidade a minha…
A vizinha e o Vicente, pelo contrário, não esperavam outra coisa. Precipitaram-se para a porta no mesmo momento, impedindo-a de se fechar. A vizinha dizia repetidamente qualquer coisa em macua, que não compreendia totalmente, mas que incluía a palavra “ajudar” e a mãe debatia-se, furiosa, com o ar indignado de quem está a ser invadida no seu espaço. E com toda a razão, que afinal de contas tínhamo-la acordado do seu primeiro sono para vir falar, sem pré-aviso nenhum, de um assunto delicadíssimo. Que fiasco mais uma vez, valha-me Deus!
A vizinha estava quase a desistir. Apesar de tudo não queria escândalos nem violência física, que era o que estava a um passo de acontecer. Naquele momento ocorreu-me perguntar, só para o caso de a mãe estar a pensar que eu lhe vinha cobrar alguma coisa: “O que se passa com a sua menina?”
Foi aí que algo no seu semblante mudou. Desmoronou-se e começou a chorar… Mais tarde explicaram-me que o que eu perguntei, na realidade, foi: “Porque é que está a sofrer assim pela sua filha?” Seja como for, foi um engano providencial. [Já tive enganos piores, oh se já tive! Como o da vez em que, no pátio do hospital disse para um adolescente: “Anda, despacha-te!” e toda a gente desatou a rir porque o que eu lhe ordenei, de facto foi: “Pede-me em casamento!” Ninguém merece, pobre miúdo… O ar de pânico dele foi indescritível!] A vizinha repetiu novamente a frase que lhe vinha dizendo insistentemente, agora em tom meigo e abraçou-se a ela… “Só estamos aqui para ajudar.”
– Mas Irmã não me pode ajudar. Betinha tem doença trad’cional – a voz da mãe metia dó, de tão triste.
– E que doença é essa, mamã?
– Tem cabeça grande – respondeu, desviando o olhar.
– Ishh, mamã! Fala a verdade! Dor di cabeça tem cura, não é para deixar de trabalhar, não. Fala verdade – a vizinha repreendia-a mansamente.
– Tem dor de cabeça há quanto tempo? – perguntei de imediato.
De repente a minha mente médica estava em ação, ao mesmo tempo que fazia um esforço enorme para seguir a conversa que agora se desenrolava à minha frente, num ritmo muito mais rápido, com meias palavras e sons engolidos, em sotaque moçambicano cada vez mais cerrado e com termos e conceitos que me escapavam totalmente. O que seria “cabeça grande”? De que estariam elas para ali a falar? Sentia que estava prestes a perder a minha única oportunidade para convencer a mãe a deixar-me ver a Inês.
– Não, Irmã – respondeu a vizinha –, não é dor di cabeça assim dor di cabeça mesmo, é dor di cabeça trad’cional. Para curar cabeça grande tem de caçar gazela e fazer cerimónia. Mas está a mentir. Não é cabeça grande, não.
– Então, mamã? Olhe, eu sou médica em Portugal, às vezes aquilo que as pessoas pensam que é doença tradicional e que não tem cura, são doenças que têm cura lá. E posso mandar vir medicamentos de Portugal para tratar a menina.
– Não, Irmã, não é preciso… Betinha está gráv’da, não quer estudar mais.
– Ishh, mamã! Fala a verdade! Grav’dez é bonito, não é vergonha não! E minina anda di cabeça coberta. Grav’dez não é para cobrir cabeça… Ah, e há um mês Betinha estava a lavar pano no poço, que eu vi. Ela esteve menstruada!
A mãe recomeçou a chorar e a partir daí não lhe conseguimos arrancar mais palavra nenhuma. Claramente a doença era algo que mexia de tal forma com ela e tão humilhante que mesmo tendo ali alguém disposto a ajudar desconseguia sequer dizer-lhe o nome… Não conseguia aceitar a doença da filha. Que desespero. O nosso e o dela. Acabou por voltar para dentro de casa e nunca mais abriu a porta, por mais que batêssemos. Acompanhámos a vizinha a casa.
– E ela não tem mais ninguém de família por aqui? Uma irmã, uma tia, um pai? Vivem só as duas? – perguntei. Recusava-me a dar-me por achada.
– Vivem com o pai. Os outros irmãos também estão fora a estudar.
– E o pai onde está? Porque não apareceu à porta?
– Ainda não chegou, acho.
– Boa noite, mamã, muito obrigada mesmo!
– Boa noite.
Fiquei sozinha com o Vicente. Ficámos a olhar um para o outro, desconsolados. Eu sabia que ia ser difícil, mas tinha tanta esperança… A dada altura parecia que a mãe nos ia dizer o que se passava, mas havia mesmo algo de terrível, de certeza. Seria SIDA? Uma psicose? Epilepsia? Malditos tabus! Malditos estigmas… Sobretudo porque todas estas doenças têm tratamento! Podem não ter cura, mas tratamento têm todas. E uma técnica de farmácia tinha obrigação de saber isso, caramba!
– Tia P., vamos outra vez para lá esperar o pai? Pode ser que o pai consiga falar. Os homens às vezes falam melhor porque não sofrem tanto com os filhos. São um pouco mais distantes porque estão menos envolvidos… E a mãe não pode decidir nada sobre a filha. Se o pai tiver dito que não se pode falar da doença, a mãe não pode falar. Mas o pai pode. E talvez dê autorização para tia P. ver a menina.
– Vicente… – eu estava espantada com a sensibilidade daquele menino – mas não tens de te levantar cedo amanhã?
– Sim, mas é só hoje. Não tem problema.
(continua...)
Após alguns minutos, a porta abriu-se e uma mulher, de seus trinta e poucos anos, emagrecida e despenteada, semi-despida abriu a porta, estremunhada. Não me deu tempo sequer de explicar ao que vinha. Assim que me viu, percebeu que eu só podia vir de parte das Irmãs, e fez menção de fechar a porta. Não tinha contado com isso. Nem me tinha passado pela cabeça que ela compreendesse de imediato o que é que eu fazia ali. Que ingenuidade a minha…
A vizinha e o Vicente, pelo contrário, não esperavam outra coisa. Precipitaram-se para a porta no mesmo momento, impedindo-a de se fechar. A vizinha dizia repetidamente qualquer coisa em macua, que não compreendia totalmente, mas que incluía a palavra “ajudar” e a mãe debatia-se, furiosa, com o ar indignado de quem está a ser invadida no seu espaço. E com toda a razão, que afinal de contas tínhamo-la acordado do seu primeiro sono para vir falar, sem pré-aviso nenhum, de um assunto delicadíssimo. Que fiasco mais uma vez, valha-me Deus!
A vizinha estava quase a desistir. Apesar de tudo não queria escândalos nem violência física, que era o que estava a um passo de acontecer. Naquele momento ocorreu-me perguntar, só para o caso de a mãe estar a pensar que eu lhe vinha cobrar alguma coisa: “O que se passa com a sua menina?”
Foi aí que algo no seu semblante mudou. Desmoronou-se e começou a chorar… Mais tarde explicaram-me que o que eu perguntei, na realidade, foi: “Porque é que está a sofrer assim pela sua filha?” Seja como for, foi um engano providencial. [Já tive enganos piores, oh se já tive! Como o da vez em que, no pátio do hospital disse para um adolescente: “Anda, despacha-te!” e toda a gente desatou a rir porque o que eu lhe ordenei, de facto foi: “Pede-me em casamento!” Ninguém merece, pobre miúdo… O ar de pânico dele foi indescritível!] A vizinha repetiu novamente a frase que lhe vinha dizendo insistentemente, agora em tom meigo e abraçou-se a ela… “Só estamos aqui para ajudar.”
– Mas Irmã não me pode ajudar. Betinha tem doença trad’cional – a voz da mãe metia dó, de tão triste.
– E que doença é essa, mamã?
– Tem cabeça grande – respondeu, desviando o olhar.
– Ishh, mamã! Fala a verdade! Dor di cabeça tem cura, não é para deixar de trabalhar, não. Fala verdade – a vizinha repreendia-a mansamente.
– Tem dor de cabeça há quanto tempo? – perguntei de imediato.
De repente a minha mente médica estava em ação, ao mesmo tempo que fazia um esforço enorme para seguir a conversa que agora se desenrolava à minha frente, num ritmo muito mais rápido, com meias palavras e sons engolidos, em sotaque moçambicano cada vez mais cerrado e com termos e conceitos que me escapavam totalmente. O que seria “cabeça grande”? De que estariam elas para ali a falar? Sentia que estava prestes a perder a minha única oportunidade para convencer a mãe a deixar-me ver a Inês.
– Não, Irmã – respondeu a vizinha –, não é dor di cabeça assim dor di cabeça mesmo, é dor di cabeça trad’cional. Para curar cabeça grande tem de caçar gazela e fazer cerimónia. Mas está a mentir. Não é cabeça grande, não.
– Então, mamã? Olhe, eu sou médica em Portugal, às vezes aquilo que as pessoas pensam que é doença tradicional e que não tem cura, são doenças que têm cura lá. E posso mandar vir medicamentos de Portugal para tratar a menina.
– Não, Irmã, não é preciso… Betinha está gráv’da, não quer estudar mais.
– Ishh, mamã! Fala a verdade! Grav’dez é bonito, não é vergonha não! E minina anda di cabeça coberta. Grav’dez não é para cobrir cabeça… Ah, e há um mês Betinha estava a lavar pano no poço, que eu vi. Ela esteve menstruada!
A mãe recomeçou a chorar e a partir daí não lhe conseguimos arrancar mais palavra nenhuma. Claramente a doença era algo que mexia de tal forma com ela e tão humilhante que mesmo tendo ali alguém disposto a ajudar desconseguia sequer dizer-lhe o nome… Não conseguia aceitar a doença da filha. Que desespero. O nosso e o dela. Acabou por voltar para dentro de casa e nunca mais abriu a porta, por mais que batêssemos. Acompanhámos a vizinha a casa.
– E ela não tem mais ninguém de família por aqui? Uma irmã, uma tia, um pai? Vivem só as duas? – perguntei. Recusava-me a dar-me por achada.
– Vivem com o pai. Os outros irmãos também estão fora a estudar.
– E o pai onde está? Porque não apareceu à porta?
– Ainda não chegou, acho.
– Boa noite, mamã, muito obrigada mesmo!
– Boa noite.
Fiquei sozinha com o Vicente. Ficámos a olhar um para o outro, desconsolados. Eu sabia que ia ser difícil, mas tinha tanta esperança… A dada altura parecia que a mãe nos ia dizer o que se passava, mas havia mesmo algo de terrível, de certeza. Seria SIDA? Uma psicose? Epilepsia? Malditos tabus! Malditos estigmas… Sobretudo porque todas estas doenças têm tratamento! Podem não ter cura, mas tratamento têm todas. E uma técnica de farmácia tinha obrigação de saber isso, caramba!
– Tia P., vamos outra vez para lá esperar o pai? Pode ser que o pai consiga falar. Os homens às vezes falam melhor porque não sofrem tanto com os filhos. São um pouco mais distantes porque estão menos envolvidos… E a mãe não pode decidir nada sobre a filha. Se o pai tiver dito que não se pode falar da doença, a mãe não pode falar. Mas o pai pode. E talvez dê autorização para tia P. ver a menina.
– Vicente… – eu estava espantada com a sensibilidade daquele menino – mas não tens de te levantar cedo amanhã?
– Sim, mas é só hoje. Não tem problema.
(continua...)
segunda-feira, 30 de maio de 2011
[o meu hospital na zambézia] está melhor? ainda...
(continuando...)
Esta mamã, como qualquer mulher macua nascida e criada no mato, acredita apenas no destino e já percebeu que a hora do filho está perto. Não interfere. Só está ali porque a família já o deu como perdido e portanto foram ao hospital tentar ainda a sorte, mas sem grande convicção... Como sei que foi assim? Já não preciso de perguntar. Ninguém vai ao hospital sem passar antes de mais pelo curandeiro. Na cultura macua, a doença só pode resultar de um feitiço que alguém lançou à criança por inveja da família, ou então da zanga de um antepassado porque alguém quebrou um qualquer tabu - ou não guardou o devido respeito a uma tradição. Vírus? Micróbios? Uma pneumonia? Que sentido podem fazer à luz destes conceitos? Por mais que me esforce nunca lhe vou conseguir explicar que o que se passa com o seu menino é uma alteração na estrutura do coração... Só posso ir prometendo que vamos cuidar bem dele e ajudar a família no que pudermos...
Foi por não perceber os mecanismos de doença na cultura macua que demorei tempos infindos a perceber por que razão os pais respondiam sempre que os meninos não estavam melhores, a não ser que já estivessem completamente bem e prontos para ter alta.
- Mas ele parece melhor, papá...
- Não… ainda está doente.
- Mas ontem teve febre quantas vezes?
- Três vezes.
- E hoje?
- Hoje… ainda. [Ou seja, hoje ainda não teve febre.]
Os meninos estavam claramente melhores e os pais não percebiam isso… Não sei quanto tempo demorei para me dar conta de que eles genuinamente não reconheciam o estado dos filhos. Até lá imaginava apenas que os pais tinham tanto medo de que os filhos morressem que até tinham receio de dizer que estavam melhores. Eu pensava que era intuitivo, que qualquer pessoa conseguiria ver se outra estava melhor, quanto mais uma mãe: se já estavam mais corados, se já se alimentavam e brincavam um pouco, é óbvio que estavam melhores…
Mas bastava ter pensado um bocadinho. Eu é que não estava preparada para me afastar tanto do meu próprio conceito de doença. Se o menino foi vítima de um feitiço ou de um castigo dos antepassados, então só podem existir dois estados de saúde possíveis: ou se está bem, ou se está doente. Não faz sentido existir um meio-termo. [Daí a clássica resposta: “Não, não está melhor. Ainda está doente…”] Nem existe, aliás, qualquer expressão em macua que signifique "estar a melhorar". Existe a expressão "vakhani-vakhani", que quer dizer "pouco a pouco", mas não se refere a uma alteração no estado geral, quer apenas dizer que não se está muito bem nem muito mal.
O problema é que, tal como não reconheciam as melhoras, também não se davam conta de qualquer agravamento. Entendiam o agravamento como fazendo parte da evolução natural da doença. Nem sequer lhes ocorria avisar quem de direito ou pedir ajuda. “Somos todos impotentes na doença” diz um provérbio macua. Por isso é preciso estar sempre em cima do acontecimento ou as coisas acontecem nas nossas barbas!
(continua...)
Esta mamã, como qualquer mulher macua nascida e criada no mato, acredita apenas no destino e já percebeu que a hora do filho está perto. Não interfere. Só está ali porque a família já o deu como perdido e portanto foram ao hospital tentar ainda a sorte, mas sem grande convicção... Como sei que foi assim? Já não preciso de perguntar. Ninguém vai ao hospital sem passar antes de mais pelo curandeiro. Na cultura macua, a doença só pode resultar de um feitiço que alguém lançou à criança por inveja da família, ou então da zanga de um antepassado porque alguém quebrou um qualquer tabu - ou não guardou o devido respeito a uma tradição. Vírus? Micróbios? Uma pneumonia? Que sentido podem fazer à luz destes conceitos? Por mais que me esforce nunca lhe vou conseguir explicar que o que se passa com o seu menino é uma alteração na estrutura do coração... Só posso ir prometendo que vamos cuidar bem dele e ajudar a família no que pudermos...
Foi por não perceber os mecanismos de doença na cultura macua que demorei tempos infindos a perceber por que razão os pais respondiam sempre que os meninos não estavam melhores, a não ser que já estivessem completamente bem e prontos para ter alta.
- Mas ele parece melhor, papá...
- Não… ainda está doente.
- Mas ontem teve febre quantas vezes?
- Três vezes.
- E hoje?
- Hoje… ainda. [Ou seja, hoje ainda não teve febre.]
Os meninos estavam claramente melhores e os pais não percebiam isso… Não sei quanto tempo demorei para me dar conta de que eles genuinamente não reconheciam o estado dos filhos. Até lá imaginava apenas que os pais tinham tanto medo de que os filhos morressem que até tinham receio de dizer que estavam melhores. Eu pensava que era intuitivo, que qualquer pessoa conseguiria ver se outra estava melhor, quanto mais uma mãe: se já estavam mais corados, se já se alimentavam e brincavam um pouco, é óbvio que estavam melhores…
Mas bastava ter pensado um bocadinho. Eu é que não estava preparada para me afastar tanto do meu próprio conceito de doença. Se o menino foi vítima de um feitiço ou de um castigo dos antepassados, então só podem existir dois estados de saúde possíveis: ou se está bem, ou se está doente. Não faz sentido existir um meio-termo. [Daí a clássica resposta: “Não, não está melhor. Ainda está doente…”] Nem existe, aliás, qualquer expressão em macua que signifique "estar a melhorar". Existe a expressão "vakhani-vakhani", que quer dizer "pouco a pouco", mas não se refere a uma alteração no estado geral, quer apenas dizer que não se está muito bem nem muito mal.
O problema é que, tal como não reconheciam as melhoras, também não se davam conta de qualquer agravamento. Entendiam o agravamento como fazendo parte da evolução natural da doença. Nem sequer lhes ocorria avisar quem de direito ou pedir ajuda. “Somos todos impotentes na doença” diz um provérbio macua. Por isso é preciso estar sempre em cima do acontecimento ou as coisas acontecem nas nossas barbas!
(continua...)
domingo, 29 de maio de 2011
[o meu hospital na zambézia] ah, mwanaka!
(continuando...)
Aproximo-me da cama de uma criança com insuficiência cardíaca e noto que está pior. A dificuldade respiratória acentuou-se. A mãe, como sempre, não arreda pé do seu lado, mas está apenas a assistir a tudo, impotente.
Antes desconcertava-me o olhar vago e a passividade (ou impassividade, não sabia dizer) com que presenciavam a doença até ao desenlace final. Arrepiava-me que nunca pedissem ajuda, que nunca me avisassem de que a criança estava pior, que ficassem apenas a assistir a tudo sem sequer tentar interferir. De tal forma isto era sistemático que uma tarde, acabada de chegar de uma saída para o mato, entrei na enfermaria e perguntei em voz alta em macua para todas as mães: "Está tudo bem com os meninos?" Ninguém respondera. Descansada porque, pelo menos naquele momento, não parecia haver nenhuma emergência fui buscar os processos para começar a ver os meninos. Nem dois minutos depois ouvi um grito: "Ah, mwanaka!" Uma criança tinha acabado de morrer mesmo nas minhas costas...
Quase me enfureci nessa altura. Era de desesperar! Como era possível?! Eu tinha estado ali. Eu tinha-me oferecido para ajudar. Qualquer mãe teria pedido ajuda... Será que lhe era indiferente a morte de um filho? Mas não. Não era assim tão simples... Nunca ninguém disse que era simples ser médico em África... E nunca ninguém disse que era simples resolver os problemas de saúde que assolam todo o continente... Se fosse simples a situação talvez não fosse tão catastrófica.
Depois, olhei bem mais no fundo dos olhos das mães das crianças em agonia e, para lá da passividade, do olhar que parecia imperturbável, para lá do eterno sorriso, vi um desespero, uma amargura, um quase abandono. Claro que não podia ser indiferença!
Esta mamã do menino com insuficiência cardíaca eu já conheço... De manhã perguntei-lhe:
- Quantos filhos tem, mamã?
- Quatro...
- E quantos estão vivos?
- Este só...
Que coração tão maltratado... Os olhares escurecem de vez em quando, mas são quase sempre impenetráveis...
(continua...)
Aproximo-me da cama de uma criança com insuficiência cardíaca e noto que está pior. A dificuldade respiratória acentuou-se. A mãe, como sempre, não arreda pé do seu lado, mas está apenas a assistir a tudo, impotente.
Antes desconcertava-me o olhar vago e a passividade (ou impassividade, não sabia dizer) com que presenciavam a doença até ao desenlace final. Arrepiava-me que nunca pedissem ajuda, que nunca me avisassem de que a criança estava pior, que ficassem apenas a assistir a tudo sem sequer tentar interferir. De tal forma isto era sistemático que uma tarde, acabada de chegar de uma saída para o mato, entrei na enfermaria e perguntei em voz alta em macua para todas as mães: "Está tudo bem com os meninos?" Ninguém respondera. Descansada porque, pelo menos naquele momento, não parecia haver nenhuma emergência fui buscar os processos para começar a ver os meninos. Nem dois minutos depois ouvi um grito: "Ah, mwanaka!" Uma criança tinha acabado de morrer mesmo nas minhas costas...
Quase me enfureci nessa altura. Era de desesperar! Como era possível?! Eu tinha estado ali. Eu tinha-me oferecido para ajudar. Qualquer mãe teria pedido ajuda... Será que lhe era indiferente a morte de um filho? Mas não. Não era assim tão simples... Nunca ninguém disse que era simples ser médico em África... E nunca ninguém disse que era simples resolver os problemas de saúde que assolam todo o continente... Se fosse simples a situação talvez não fosse tão catastrófica.
Depois, olhei bem mais no fundo dos olhos das mães das crianças em agonia e, para lá da passividade, do olhar que parecia imperturbável, para lá do eterno sorriso, vi um desespero, uma amargura, um quase abandono. Claro que não podia ser indiferença!
Esta mamã do menino com insuficiência cardíaca eu já conheço... De manhã perguntei-lhe:
- Quantos filhos tem, mamã?
- Quatro...
- E quantos estão vivos?
- Este só...
Que coração tão maltratado... Os olhares escurecem de vez em quando, mas são quase sempre impenetráveis...
(continua...)
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
[e porque hoje é o dia da disfunção eréctil] improbabilidades do mato
Aviso: Reader discretion is advised.
Tal como meu mentor espiritual (sim, o dos soluços, who else?) me fez questão de recordar esta manhã, hoje é o dia europeu da disfunção eréctil. E acho que vou agarrar o mote, já que não me apraz falar de São Valentim, um santo que afinal parece que foi banido da igreja no louco ano de 1969 porque havia dúvidas de que alguma vez tivesse existido, e também porque até tenho uma história para contar sobre o assunto...
Ora então, de todas as vezes que trabalhei como voluntária em Moçambique, apesar de a minha especialidade de formação e coração ser a Pediatria, sempre vi adultos e crianças e, obviamente, tratei todas as doenças sexualmente transmissíveis (DST) que me passaram pelas mãos [passe a expressão] e que grassam como a malária por todo o país. Para isso de muito me serviu a minha formação na consulta de DST no Centro de Saúde, onde durante meses, antes de iniciar a especialidade, tratei das mazelas e desgraças dos "porbaixos" dos tios e tias da Lapa e restante Lisboa. E, ó gentes vos juro, trabalho foi coisa que nunca nos faltou.
Outra circunstância que também contribuiu em larga medida para a minha grande actividade assistencial nesta área foi a recusa determinada de todas as minhas amigas médicas em tratar destes assados:
- Aquela doutora ali é que é especialista - indicavam elas, muito afavelmente, apontando na minha direcção, quando algum doente as abordava com estas questões.
De modo que quando algum homem me entrava na consulta e o via fechar a porta atrás de si, percebia imediatamente qual era o assunto que o afligia. E, por fim, a palavra tinha corrido de tal modo pelas aldeias em redor que eles já sabiam que eu só os tratava se trouxessem a(s) mulher(es) com quem tivessem tido um relacionamento no último mês. Sim, que aquilo era uma consulta de DST modesta mas séria! Só que isso custou-me alguns momentos de choque cultural, como o de um dia, em Iapala, em que um homem apareceu logo à primeira acompanhado de quatro mulheres e eu perguntei, um pouco ingenuamente:
- Mas a sua mulher não se importa que o senhor venha com as outras?
A resposta foi, simplesmente, um não menos espantado:
- Não, elas são todas amigas!
E pronto, lá chamei por Santa Rita de Cássia, padroeira dos matrimónios desavindos e, por que não?, dos matrimónios polígamos, que mais salada-russa do que estes deve ser difícil e calei-me muito bem caladinha, que perante isto não há nada a dizer, só repetir o discurso da prevenção, que haveria de cair necessariamente [e por vezes literalmente] em saco roto...
Mas se as DST não me traziam questões de maior - sabia diagnosticá-las, tinha exames à disposição e os medicamentos necessários -, os homens com disfunção eréctil vinham por arrasto e isso é que era para mim um bicho-de-sete-cabeças... Não gosto, pronto. Nunca tive qualquer formação para além da formação básica durante o curso e não era situação que me despertasse curiosidade ou interesse científico... Nestes casos fazia apenas uma investigação básica (ver se os ditos senhores tinham reflexos normais nos membros inferiores, se não tinham anemia ou insuficiência cardíaca e pouco mais) e tentava terminar a consulta o mais rapidamente possível, dizendo que não tinha medicamentos para isso e que o melhor era procurarem um curandeiro, porque era do meu conhecimento que existiam várias árvores de cuja casca se extraía um produto viagra-like que combatia a disfunção eréctil. Aliás, era notório que muitos homens padeciam desse mesmo mal nas redondezas, uma vez que algumas árvores estavam tão esquartejadas que quase se lhes viam as entranhas... E se a situação fosse psicológica não me estava a ver a fazer psicoterapia a homens de outra cultura. Curandeiro com eles e vá de chamar o próximo.
Mas, certo dia, um dos enfermeiros do hospital insistiu tanto que me vi obrigada a investigar mais sobre o assunto... E, quanto mais investigava, menos percebia o que se passava, porque as respostas eram todas afirmativas: que sim, que às vezes acordava com erecção, que sim, que às vezes tinha erecções e ejaculação durante o sono, que sim, que pois e que também... Mas então, haveria algum problema na relação com a mulher?
- Não, doutora, eu ainda tenho amor!
- Mas que estranho, então o que é que lhe acontece?
- Doutora, para "brincar" com a minha mulher eu não apanho aquela força... eu só consigo "brincar" quatro vezes por noite...
[Caiu-me o queixo...] - Ah... bem... acho que sendo assim não o posso ajudar. Tem de ir ao curandeiro mesmo...
[E muitas questões se poderiam colocar a partir desta, mas o post já vai longo e o dia é o dia Europeu da disfunção eréctil e não Africano por alguma razão...]
Tal como meu mentor espiritual (sim, o dos soluços, who else?) me fez questão de recordar esta manhã, hoje é o dia europeu da disfunção eréctil. E acho que vou agarrar o mote, já que não me apraz falar de São Valentim, um santo que afinal parece que foi banido da igreja no louco ano de 1969 porque havia dúvidas de que alguma vez tivesse existido, e também porque até tenho uma história para contar sobre o assunto...
Ora então, de todas as vezes que trabalhei como voluntária em Moçambique, apesar de a minha especialidade de formação e coração ser a Pediatria, sempre vi adultos e crianças e, obviamente, tratei todas as doenças sexualmente transmissíveis (DST) que me passaram pelas mãos [passe a expressão] e que grassam como a malária por todo o país. Para isso de muito me serviu a minha formação na consulta de DST no Centro de Saúde, onde durante meses, antes de iniciar a especialidade, tratei das mazelas e desgraças dos "porbaixos" dos tios e tias da Lapa e restante Lisboa. E, ó gentes vos juro, trabalho foi coisa que nunca nos faltou.
Outra circunstância que também contribuiu em larga medida para a minha grande actividade assistencial nesta área foi a recusa determinada de todas as minhas amigas médicas em tratar destes assados:
- Aquela doutora ali é que é especialista - indicavam elas, muito afavelmente, apontando na minha direcção, quando algum doente as abordava com estas questões.
De modo que quando algum homem me entrava na consulta e o via fechar a porta atrás de si, percebia imediatamente qual era o assunto que o afligia. E, por fim, a palavra tinha corrido de tal modo pelas aldeias em redor que eles já sabiam que eu só os tratava se trouxessem a(s) mulher(es) com quem tivessem tido um relacionamento no último mês. Sim, que aquilo era uma consulta de DST modesta mas séria! Só que isso custou-me alguns momentos de choque cultural, como o de um dia, em Iapala, em que um homem apareceu logo à primeira acompanhado de quatro mulheres e eu perguntei, um pouco ingenuamente:
- Mas a sua mulher não se importa que o senhor venha com as outras?
A resposta foi, simplesmente, um não menos espantado:
- Não, elas são todas amigas!
E pronto, lá chamei por Santa Rita de Cássia, padroeira dos matrimónios desavindos e, por que não?, dos matrimónios polígamos, que mais salada-russa do que estes deve ser difícil e calei-me muito bem caladinha, que perante isto não há nada a dizer, só repetir o discurso da prevenção, que haveria de cair necessariamente [e por vezes literalmente] em saco roto...
Mas se as DST não me traziam questões de maior - sabia diagnosticá-las, tinha exames à disposição e os medicamentos necessários -, os homens com disfunção eréctil vinham por arrasto e isso é que era para mim um bicho-de-sete-cabeças... Não gosto, pronto. Nunca tive qualquer formação para além da formação básica durante o curso e não era situação que me despertasse curiosidade ou interesse científico... Nestes casos fazia apenas uma investigação básica (ver se os ditos senhores tinham reflexos normais nos membros inferiores, se não tinham anemia ou insuficiência cardíaca e pouco mais) e tentava terminar a consulta o mais rapidamente possível, dizendo que não tinha medicamentos para isso e que o melhor era procurarem um curandeiro, porque era do meu conhecimento que existiam várias árvores de cuja casca se extraía um produto viagra-like que combatia a disfunção eréctil. Aliás, era notório que muitos homens padeciam desse mesmo mal nas redondezas, uma vez que algumas árvores estavam tão esquartejadas que quase se lhes viam as entranhas... E se a situação fosse psicológica não me estava a ver a fazer psicoterapia a homens de outra cultura. Curandeiro com eles e vá de chamar o próximo.
Mas, certo dia, um dos enfermeiros do hospital insistiu tanto que me vi obrigada a investigar mais sobre o assunto... E, quanto mais investigava, menos percebia o que se passava, porque as respostas eram todas afirmativas: que sim, que às vezes acordava com erecção, que sim, que às vezes tinha erecções e ejaculação durante o sono, que sim, que pois e que também... Mas então, haveria algum problema na relação com a mulher?
- Não, doutora, eu ainda tenho amor!
- Mas que estranho, então o que é que lhe acontece?
- Doutora, para "brincar" com a minha mulher eu não apanho aquela força... eu só consigo "brincar" quatro vezes por noite...
[Caiu-me o queixo...] - Ah... bem... acho que sendo assim não o posso ajudar. Tem de ir ao curandeiro mesmo...
[E muitas questões se poderiam colocar a partir desta, mas o post já vai longo e o dia é o dia Europeu da disfunção eréctil e não Africano por alguma razão...]
sábado, 12 de fevereiro de 2011
[improbabilidades] o curandeiro de nahavara
O curandeiro de Nahavara...
(Gilé, Zambézia)
Uma tarde, quando eu e a R. íamos visitar um doente a Nahavara, um bairro dos arrabaldes do Gilé, passámos por acaso próximo da casa de um curandeiro, imediatamente reconhecível pelas bandeiras brancas dispostas em círculo em torno da grande taça onde se preparavam os medicamentos, pela proximidade de um embondeiro com vestígios de farinha lançada nas cerimónias tradicionais de cura e pela distância respeitosa das casas dos vizinhos...
Em frente à casa do curandeiro ficava uma outra palhota desabitada, que me explicaram depois que era onde os doentes e respectivas famílias ficavam alojados quando vinham de longe, porque os tratamentos podem ter duração de vários dias e, nos casos mais graves e renitentes, até de várias semanas... A palhota-de-internamento ostentava a inscrição "Bem-Vindo" na fachada, numa óbvia e sábia estratégia de marketing do curandeiro e quase só faltava anunciar os horários dos tratamentos e se as refeições estariam incluídas no alojamento... Ao lado da palhota do curandeiro um pequeno aterro, onde se enterravam depois de queimados os utensílios e medicamentos que restavam de cada tratamento, porque os medicamentos são sempre preparados à medida de cada doente e os utensílios, uma vez terminada a sua função, devem ser destruídos e não aplicados em outras pessoas, pelo risco de "contaminação" e transmissão de doenças, sejam elas problemas mentais, sociais, físicos ou feitiços e maus-olhados...
Fiquei excitadíssima! É que não era tarde nem era cedo. Tinha ali a minha oportunidade de ir conhecer mais de perto um curandeiro, um verdadeiro Mukhulukana macua e travar conhecimento com as cerimónias rituais de um representante vivo da cultura e das suas crenças e tabus... Já tinha imaginado como faria a abordagem e tinha o discurso preparado:
- Mosèliwa, Papá? [O dia amanheceu bem para si?]
- Ah, kosèliwa! [Sim, o dia amanheceu bem para mim.]
- Papá, eu sou médica em Portugal mas tenho uma preocupação muito grande...
- ... [Silêncio, olhar interrogativo de quem se pergunta, "Mas onde é que esta estacionou a nave?"]
- Txonnté! [Por favor, peço-vos.] Estou há muitos dias com uma grande dor no peito e não há medicamento nenhum dos que eu trouxe de Portugal que me consiga fazer passar a dor...
- ... [Semblante carregado... olhar ainda mais interrogativo...]
- Pensei que, como foi uma doença que apanhei aqui em Moçambique, talvez o Papá que conhece melhor as doenças daqui me possa ajudar a curar...
- ... [Silêncio... Olhar agora absolutamente neutro e impenetrável...]
- Mohiwè, Papá? [Compreendeu o que eu disse?]
- Ah, kohiwè. [Sim, compreendi. Um sorriso de quem nunca viu uma branca vestida de capulana e ainda por cima a falar macua.]
- E será que me pode ajudar? [A minha expectativa a crescer... Será que isto está a correr bem? Será que ele percebeu mesmo o que eu disse? Como é que ele vai reagir? Será que vai ficar ofendido? Ai, valha-me Nossa Senhora da Zambézia...]
- ... [Olhar agora enigmático... Será que se está a concentrar para iniciar o ritual de cura? Estará só a fazer-se difícil para eu começar a negociar um preço? Será que é suposto eu oferecer algo neste momento ou só no final? Ai que me devia ter preparado para isto com a ajuda de alguém daqui... Bem, o melhor é fazer o mesmo que ele: olhar para baixo e esperar que ele responda...]
- ... [Concentra-te, mulher, olha para baixo e mostra respeito...]
- Ainda bem que veio... [Encaro-o de frente. A resposta apanhou-me de surpresa...] Eu também estou doente... [Ó diacho, acho que não vinha preparada para isto... Então venho ao curandeiro e sai-me uma destas?]
- Então o que se passa, Papá?
- Quando mijo... sai sangue...
- Ah, deve ser bilharziose, Papá. Mas hoje não trouxe medicamentos para isso. Mas venha ter comigo ao hospital amanhã.
- Não, não posso ir ao hospital.
- ... [Ó valha-me São Vito, não só venho a um curandeiro que não me quer curar, como ainda tenho de o tratar e lhe preservar a reputação? Medicina científica 1 vs Medicina Tradicional 0! Isto só a mim! Mas bem feita, virou-se o feitiço contra o feiticeiro, que é para aprender a não ser cusca e não ir meter o nariz numa cultura alheia...]
- Mas não pode lá ir como se fosse visitar alguém? Depois fala comigo e eu dou-lhe os medicamentos.
- Está bem.
- Então apareça lá amanhã às 16:00. Eu vou estar no Banco de Socorro.
- Obrigado.
E foi assim o meu primeiro contacto directo com um curandeiro... Pode ser que da próxima vez tenha mais sorte...
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
[doutor galinha] natural do gilé
Anúncio de um curandeiro natural de Mamala, Gilé. Surripiei-a do Portal de Sena, um blog delicioso que encontrei graças ao primeiro homem que me descobriu aqui no mato (dito assim parece suspeito, mas pronto...), o Sr. umBhalane.
(Imagino que seja em Marromeu, Sofala)
E até me atreveria a perguntar, será que foi este o médico tradicional que conseguiu curar um padre meu conhecido de uma asma tesa que o afligia desde criança, utilizando para tal... uma casca de cágado?
E perguntam vocês: "Uma casca de cágado? Uma casca de cágado como?" Não se preocupem, perguntem à vontade, que eu também perguntei. E portanto sei a resposta:
- Uma casca de cágado, Padre Manuel?
- Sim, Doutora, uma casca de cágado.
- Mas uma casca de cágado é que o curou? Mas como é que a tomava? Pilada?
Ao que parece, não, não era pilada nem moída. Ele curou-o fazendo-o beber água exclusivamente por uma casca de cágado durante seis meses seguidos. Ah, meus amigos, não sorriam, é a mais pura das verdades. O Padre Manuel ficou completamente curado da tal asma tesa que o afligia desde criança! Mas, infelizmente, teve azar com o tratamento e ficou com o efeito secundário mais frequente do tratamento com casca de cágado... Ele por acaso descrevia-o muito bem:
- Tenho sempre uma espuma na garganta que me faz comichão todas as noites e às vezes amanheço a tossir muito... Mas nunca mais tive aquela aflição no peito. Só alguma dificuldade em respirar.
[Para quem não compreende o que isto quer dizer: o Sr. Padre, depois do tratamento rigoroso, ficou com uma rinite alérgica e... asma.]
Há um provérbio macua que assevera que só quem toma os medicamentos com convicção se curará. Mas enfim, como ele próprio dizia, apesar de não ter ficado totalmente satisfeito com o tratamento, sempre é melhor a tosse e a comichão na garganta do que a asma... Outros há que "apanham menos sorte" e ficam com asma a vida toda porque o tratamento "não lhes deu efeito"...
E perguntam vocês: "Uma casca de cágado? Uma casca de cágado como?" Não se preocupem, perguntem à vontade, que eu também perguntei. E portanto sei a resposta:
- Uma casca de cágado, Padre Manuel?
- Sim, Doutora, uma casca de cágado.
- Mas uma casca de cágado é que o curou? Mas como é que a tomava? Pilada?
Ao que parece, não, não era pilada nem moída. Ele curou-o fazendo-o beber água exclusivamente por uma casca de cágado durante seis meses seguidos. Ah, meus amigos, não sorriam, é a mais pura das verdades. O Padre Manuel ficou completamente curado da tal asma tesa que o afligia desde criança! Mas, infelizmente, teve azar com o tratamento e ficou com o efeito secundário mais frequente do tratamento com casca de cágado... Ele por acaso descrevia-o muito bem:
- Tenho sempre uma espuma na garganta que me faz comichão todas as noites e às vezes amanheço a tossir muito... Mas nunca mais tive aquela aflição no peito. Só alguma dificuldade em respirar.
[Para quem não compreende o que isto quer dizer: o Sr. Padre, depois do tratamento rigoroso, ficou com uma rinite alérgica e... asma.]
Há um provérbio macua que assevera que só quem toma os medicamentos com convicção se curará. Mas enfim, como ele próprio dizia, apesar de não ter ficado totalmente satisfeito com o tratamento, sempre é melhor a tosse e a comichão na garganta do que a asma... Outros há que "apanham menos sorte" e ficam com asma a vida toda porque o tratamento "não lhes deu efeito"...
Estes curandeiros, meus amigos, são sábios. São uns autênticos Voltaires do mato! Eles sabem como ninguém que uma parte importante da Medicina consiste precisamente em entreter o doente enquanto a natureza se encarrega da cura. E quando a doença não se cura sozinha é importante dar ao doente a certeza de que está muito melhor. O que o curandeiro conseguiu foi reduzir o impacto emocional das crises... Mas, caramba, uma casca de cágado é que não lembra ao careca!
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
[curar... curar é difícil...] sobretudo se a doença for cabeça grande*
A casa do curandeiro...
(Muiane, Zambézia)
Se tomas remédios sem convicção, não te curarás!
Sabedoria popular Macua
* Muru tokhotokho, à letra, cabeça grande, doença tradicional macua, equivalente a uma doença psicossomática cultural.
[welcome to mozambique] medicina tradicional
Uma banca de medicina tradicional numa rua de Nampula.
(Nampula, Moçambique)
E para quem se interessa pelo assunto: no plano mais afastado de quem aprecia a imagem está a famosa batata africana (namuassa para os macuas e Hypoxis rooperi para os entendidos, para os armados em bons e para os investigadores). Há alguns anos estava muito em voga para tratamento da SIDA, antes de os anti-retrovirais estarem tão disponíveis e difundidos no país. Eu própria também tive oportunidade de ver alguns doentes de SIDA que começaram a tomar batata africana em Iapala e verifiquei que, apesar de não melhorarem da doença, melhoravam do apetite e, consequentemente, do estado nutricional, acabando por quebrar um ciclo vicioso que a breve trecho seria fatal... Hoje em dia já se vê muito menos batata africana à venda pelas estradas. Curiosamente, na Europa, o grande boom da utilização da batata africana foi na Alemanha e para tratamento médico da hiperplasia benigna da próstata. Mas acho que entretanto foi abandonado porque não dava grande resultado...
Ao centro, uma casca de cinchona, de onde de extrai o quinino para tratamento da malária. Mais perto de nós, à esquerda, as "escovas de dentes macuas" para uma higiene dentária profunda e coloração da boca, língua e gengivas de um laranja quente, sinal de status na rara classe média do Norte de Moçambique (os mais pobres não lavam os dentes e os mais ricos utilizam dentífrico importado). À direita, carvão vegetal que imagino que seja utilizado para afecções intestinais. E, ao centro, umas plantas fibrosas que dizem que são incrivelmente eficazes nas parasitoses intestinais (ouvi descrições quase apocalípticas em primeira mão, a que vos vou obviamente poupar, sob pena de nunca mais ninguém querer vir aqui ao mato ouvir mais histórias de África...). Tudo o resto acho que não conheço.
sábado, 22 de janeiro de 2011
[alhos e blogalhos] valha-me nossa senhora do google!
O nosso correspondente honoris causa radicado no Chimoio (não, afinal não era na África do Sul, já tínhamos ultrapassado isso...) que nos desculpe mas desta não nos vamos poder conter... Então não é que houve um pobre senhor (azarado, para não dizer outro nome) que chegou aqui ao mato à boleia do google à procura de uma receita para preparar um "banho de maria-sem-vergonha para atrair mulheres"? Desta vez o meu StatsCounter não identificou país nenhum, mas identifico eu, que só um brasileiro poderia chamar maria-sem-vergonha ao meu beijo-de-mulata. Mas... um banho para atrair mulheres, valha-me a Santa do Pau Preto?! Isso não lembra ao careca, para não dizer que não lembra ao diabo nem ao Menino Jesus, que a este último certamente que nem lhe passa pela cabeça e ao diabo lembra de certeza, isso e muito mais...
Pobre homem... até aposto que foi precisamente uma mulher que lhe vendeu esta ideia peregrina para o convencer de que tomar banho era a única maneira de deixar de fazer o sexo oposto fugir espavorido... E não se lembrou de nada menos do que de uma flor com um nome tão sugestivo como maria-sem-vergonha para lhe preparar um banhinho. Tudo em nome do amor de uma maria, de preferência sem um pingo de vergonha (ler com sotaque brasileiro) para ser tudo mais rápido, que me parece que um homem que se dá ao trabalho de vir aqui tão longe para procurar uma receita é capaz de ser tomado de algumas urgências.
Mas até aqui tudo certo, vai um homem lavadinho, se calhar ainda não cheiroso, que as instruções não lhe deram para tanto, mas vá, lavadinho já não será mau, relaxado e cheio de auto-confiança, com o ego afagado por um banho com flores lindíssimas e a maria está no papo. Isto, obviamente, desde que a maria não tenha um gosto muito refinado e que também esteja para aí virada, que mulher desesperada foi coisa que sempre existiu desde que o mundo é mundo e esta maria bem que nos podia fazer o jeitinho que temos de terminar o post, que a nossa vida não é isto.
O problema é que (sim, eu não estaria com esta conversa toda se não houvesse um problema) a vincristina que se extrai do beijo-de-mulata, um medicamento para tratar a leucemia, pode ser absorvida através da pele e provocar anemias gravíssimas, disfunção eréctil e alterações na coordenação motora*... Portanto aqui fica o aviso, caros senhores que andam pelo google em busca de um banho de sex-appeal: tomem banho com outra coisa (sei lá, tipo gel de banho), seja para atrair mulheres, seja para a higiene pessoal, que só lhes faz bem. Já com o beijo-de-mulata tudo o que se ganha em desejo, auto-confiança e sex appeal perde-se em performance, sem apelo nem agravo... Seria um banho envenenado, um autêntico assassinato, valha-me Nossa Senhora do Saca-rolhas! E quem me avisa meu amigo é. Pronto. Tenho dito. (O que eu gosto de fazer serviço público!) A emissão seguirá assim que eu conseguir respirar fundo novamente.
* Não é à toa que para os Macuas, que são um povo sábio, as palavras medicamento e veneno são uma só (murrette).
Pobre homem... até aposto que foi precisamente uma mulher que lhe vendeu esta ideia peregrina para o convencer de que tomar banho era a única maneira de deixar de fazer o sexo oposto fugir espavorido... E não se lembrou de nada menos do que de uma flor com um nome tão sugestivo como maria-sem-vergonha para lhe preparar um banhinho. Tudo em nome do amor de uma maria, de preferência sem um pingo de vergonha (ler com sotaque brasileiro) para ser tudo mais rápido, que me parece que um homem que se dá ao trabalho de vir aqui tão longe para procurar uma receita é capaz de ser tomado de algumas urgências.
Mas até aqui tudo certo, vai um homem lavadinho, se calhar ainda não cheiroso, que as instruções não lhe deram para tanto, mas vá, lavadinho já não será mau, relaxado e cheio de auto-confiança, com o ego afagado por um banho com flores lindíssimas e a maria está no papo. Isto, obviamente, desde que a maria não tenha um gosto muito refinado e que também esteja para aí virada, que mulher desesperada foi coisa que sempre existiu desde que o mundo é mundo e esta maria bem que nos podia fazer o jeitinho que temos de terminar o post, que a nossa vida não é isto.
O problema é que (sim, eu não estaria com esta conversa toda se não houvesse um problema) a vincristina que se extrai do beijo-de-mulata, um medicamento para tratar a leucemia, pode ser absorvida através da pele e provocar anemias gravíssimas, disfunção eréctil e alterações na coordenação motora*... Portanto aqui fica o aviso, caros senhores que andam pelo google em busca de um banho de sex-appeal: tomem banho com outra coisa (sei lá, tipo gel de banho), seja para atrair mulheres, seja para a higiene pessoal, que só lhes faz bem. Já com o beijo-de-mulata tudo o que se ganha em desejo, auto-confiança e sex appeal perde-se em performance, sem apelo nem agravo... Seria um banho envenenado, um autêntico assassinato, valha-me Nossa Senhora do Saca-rolhas! E quem me avisa meu amigo é. Pronto. Tenho dito. (O que eu gosto de fazer serviço público!) A emissão seguirá assim que eu conseguir respirar fundo novamente.
* Não é à toa que para os Macuas, que são um povo sábio, as palavras medicamento e veneno são uma só (murrette).
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
[pequenos milagres] a fonte dos amores que jorra do peito
Criança e sua mãe na Ilha de Moçambique, Nampula.
Faz agora três meses que uma bela noite, na enfermaria do hospital do Gilé, fui vítima de um pequeno acidente...
E vamos agora dar início a um longo parêntesis, que explica muita coisa sobre este pequeno incidente, é certo, mas que é totalmente desnecessário para a compreensão do essencial da história, portanto se tiverem de ir trabalhar/ dormir/ dançar/ outra-coisa-qualquer-que-honestamente-se-possa-fazer-em-vez-de-ler-este-blog ou se se recusarem a ler um post com este título inacreditavelmente piroso e quiserem passar directamente ao post seguinte, estejam à vontade.
[Meus caros amigos, quem vem aqui ao mato desde a sua fundação, quem já andou a cuscar ali pelas colunas da direita no estórias antigas, saudades loucas [andam amigas a beijar de boca em boca*] e foi parar a um milagre que certa vez aconteceu em Iapala, ou até quem me conhece pessoalmente sabe que sou uma fervorosa entusiasta do aleitamento materno e uma apaixonada, uma deslumbrada pelo realeitamento. Ou bem... pior, muito pior. Quem me conhece melhor sabe que tenho a mania que consigo fazer com que as mães tornem a produzir leite depois de o terem perdido e que levo sempre comigo, na minha bagagem para África, um medicamento que estimula a produção de leite e que anuncio como a última coca-cola no deserto!
Pior... ainda pior: quem me conhece verdadeiramente sabe que em África me recuso a fornecer leite de lata às crianças enquanto não estiver convencida de que o leite não vai voltar. E que já fiz verdadeiras loucuras neste capítulo, tais como como fazer com que uma tia, cujo filho mais novo tinha quatro anos e que já não mamava há dois, voltasse a ter leite para amamentar a sobrinha, uma prematura de 900 gramas que entretanto tinha perdido 200, mas que mamava de olhos abertos e com o vigor de quem se recusa a morrer! Isto porque a mãe da criança estava a morrer de sida e estávamos num local onde não havia água potável para fazer leite artificial para aquela bebé.
Quem assistiu a este último episódio da minha vida em África sabe que ninguém acreditou naquilo ao princípio. Que eu própria duvidei da minha sanidade mental várias vezes (embora nunca o tivesse admitido, era só o que faltava!). Quem lá esteve sabe que, enquanto o leite não voltou, eu ia dando com a tia e com as enfermeiras da maternidade em doidas e que consegui, efectivamente, enlouquecer a colega que estava comigo na altura. Eu própria ia ficando louca e provavelmente nunca recuperei deste estado assim tem-te-não-caias... Ou já estaria antes? No meio daquilo tudo, o que tenho a dizer é que a tia foi uma autêntica heroína e a sobrinha bebé uma lutadora de mão cheia.
Naqueles dias de desgaste e angústia socorri-me de tudo o que me lembrei ou inventei que nos pudesse ajudar: dei-lhe o tal medicamento que vai sempre comigo, mandei chamar o curandeiro mais afamado das redondezas, mandei buscar a D. Catarina - a antiga parteira de Iapala, que entretanto se reformara - e dei-lhe a comer feijão-jugo** como se não houvesse amanhã, cozinhado pelo Sr. Barril, o cozinheiro das Irmãs, a quem a história passou completamente ao lado e que, portanto, se deu em doido foi por causas inteiramente estranhas a este episódio e declinamos qualquer responsabilidade pelo sucedido. Mas penso que ele por acaso não deu em doido. Só achou um pouco bizarra a minha insistência em comer feijão-jugo todos os dias, mas não fez perguntas...
A bebé, por fim, acabou por ser baptizada com o nome da minha colega, que passou a acreditar em milagres, embora eu lhe jurasse a pés juntos que aquilo que acontecera estava longe ser exótico e tinha bases científicas. O problema é que depois disto fiquei ainda mais convencida de que o realeitamento é possível. E se em Lisboa sou capaz de convencer as mães dos meus meninos de que a coisa resulta (e, efectivamente resulta muitas vezes!), muito mais em África, onde o aleitamento materno representa a única hipótese de sobrevivência das crianças.
Isto tudo para dizer, meus amigos, à laia de conclusão, que consigo ser chata-como-a-potassa no que concerne à problemática do realeitamento materno, que nutro particular interesse pelo fenómeno e que ele resulta muitas vezes.]
Ora, adiante!
(continua)
*Eu sei que no original é bailar e não beijar, não me arreliem... E quanto às amigas, não prescindo delas!
** Feijão-jugo é uma leguminosa africana que tem nome de feijão, cultiva-se como o amendoim, come-se como o tremoço e sabe a grão-de-bico. Dizem que também tem a capacidade de estimular a produção de leite materno.
sábado, 23 de outubro de 2010
[publicidade institucional] beijo-de-mulata pode ser medicamento
Vale a pena ver, embora contenha algumas imprecisões, nomeadamente a informação de que esta flor é rara... Como já vimos anteriormente, ela nasce em qualquer degredo, cria-se em qualquer chão...
(Obrigada à Márcia, minha correspondente no Instituto Ricardo Jorge, que me enviou o link)
terça-feira, 2 de março de 2010
[medicina tradicional] é tão triste ser loira...
Há alguns anos, estava eu a fazer voluntariado médico em Moçambique, quando me vieram trazer um menino de 15 anos com os gânglios do pescoço muito aumentados de volume - era possivelmente um linfoma.Duas semanas depois, ainda a tentar tratar da sua transferência para a capital, observei novamente o adolescente e notei que os gânglios se tinham reduzido a metade. Nos entretantos a família tinha procurado um curandeiro que lhe dera a beber chá de beijo-de-mulata. Obviamente duvidei do curandeiro, duvidei de mim mesma, acreditei só no prognóstico e nos meus livros e com o acordo da família transferi o menino para Maputo...
Anos depois, inteiramente por acaso, vim a descobrir que desta flor lindíssima se extrai a vincristina, um agente de quimioterapia activo contra o linfoma...
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