Mostrar mensagens com a etiqueta medicina tradicional. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta medicina tradicional. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

[outras palavras] breve história de um desnutrido

Mais uma crónica da minha amiga Maria, voluntária pela minha ONG no Niassa, a província mais longínqua e abandonada de Moçambique. Tudo quanto ela escreve me faz vir à mente sons e cheiros longínquos. E só não me faz chorar porque agora tenho várias razões fortes e lindas para permanecer aqui e não fugir mais uma vez para essa terra miraculosa e cheia de vida!

 
O Bento, o menino protagonista desta história...
Mitande, Niassa


"Recordo a primeira vez que ouvi o Bento. Era de manhãzinha, aproximava-me da maternidade para iniciar mais um dia de trabalho quando ouvi um choro demasiado alto para ser o primeiro grito de um ser humano, demasiado sofrido também.
Não me enganei. Tratava-se de uma criança, dos seus 18 meses, que encarnava o dito popular “deve à pele a obrigação de lhe segurar os ossos”. A avó, sua cuidadora, a acrescentar a um discurso nada coerente, sofria de disfemia [gaguez], o que tornava o cenário no mínimo bizarro. Conseguimos convencê-la com muito custo que era mais importante internar a criança no Centro Nutricional do que afastar os macacos que teimavam em roubar-lhe a maçaroca: a sua principal preocupação naquele momento.

O Bento, que tivera a (in)felicidade de ter uma irmãzinha, agora de 5 meses, que lhe tirara cedo de mais o leite e o amor materno, surpreendeu logo nos primeiros dias de internamento por aliar uma teimosia deliciosa a uma inteligência incomum. Sabia perfeitamente qual era a colher em que estavam os medicamentos e não ingeria nada que a avó não colocasse primeiro na boca. O medo que demonstrava antes de provar qualquer alimento levou-me a suspeitar de longos tratamentos tradicionais impalatáveis. Exigia o seu espaço de mais de um metro e meio de raio, impenetrável para alguém que não fosse a avó, espaço este que consegui aos poucos diminuir seguindo à letra os conselhos que a raposa ensinou ao Principezinho na fantástica obra de Saint Exupéry: “É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas--te um bocadinho afastado de mim, assim, na [esteira]. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, de dia para dia, podes sentar-te cada vez mais perto….”

Cada dia me sentei mais perto e ao final de um mês tinha-o cativado. Bastava alguém dizer “a Fátima vem lá” para ele colocar um sorriso de orelha a orelha e espreitar… é certo que não fui só eu que o cativei, mas sobretudo as papas deliciosas com sabor a amendoim que lhe preparava.

 Hoje, após 10 semanas de tratamento, teve alta… saiu já ao entardecer, às costas da mãe. No lusco-fusco de um anoitecer colorido, dava gargalhadas ruidosas, brincando ao txipi-txipi (esconde-esconde) na capulana da mãe.

 O Bento foi, mas o trabalho continua, e agora devo dar toda a atenção à Vitória, uma bebé adorável cuja cara desnutrida se resume a uns grandes olhos negros e um sorriso desdentado de orelha a orelha, com peso aos 8 meses inferior ao meu peso de nascimento, consequência de falta de produção de leite materno tardiamente identificada. Há crianças que não podiam ter nomes mais adequados…
Em meu nome, por me permitirem ser agente ativa nestes milagres diários, em nome do Bento, da Vitória e de todas as “Vitórias” de África que sobrevivem graças às ajudas generosas dos benfeitores da APARF, deixo uma mensagem de sinceros agradecimentos e termino parafraseando Raoul Follereau “não sabe o bem que faz quem faz o bem.”

Obrigada, eu, Maria, por me trazeres, a cada crónica, mais um pouco do cheiro de África!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

[outras palavras] febre... pois...



Mitande, Niassa

A minha amiga Maria está desde Janeiro deste ano em Mitande, no Niassa (no norte de Moçambique), em missão de voluntariado através da ONG de que orgulhosamente faço parte... É enfermeira, tem um espírito prático e aventureiro como poucas pessoas têm e escreve deliciosamente! A propósito do post anterior sobre o conceito de febre na Guiné-Bissau, lembrei-me deste post dela, no Querida Lamparina:

No outro dia assisti à seguinte consulta de um jovem estudante no Centro de Saúde:
- Preciso de medicamento para malária.
- Como sabes que tens malária?
- Sinto uma malária muito forte.
- Mas o que sentes?
- Dói-me o corpo todo.
- E tens tido frio? [ter frio = febre]
- Não, só tenho uma malária que me faz doer o corpo todo. [e, baixinho, acrescenta] e comichão.
- Comichão onde?
- Aqui - diz rapidamente, sem apontar para sitio nenhum -, preciso de medicamento para a malária. Tenho malária muito grande.
- Comichão onde, mesmo?
- Aqui.

[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
Para evitar estas coisas de culpar a Malária de todos os males, resolvi dar uma “aula” às minhas meninas acerca de febre.
- Sabem o que e isto?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Para saber se pessoa está doente. Por debaixo do braço, esperar e depois ler se está muito doente ou pouco doente.

Lá expliquei o que é um termómetro e o conceito de temperatura e de febre. Esforcei-me por deixar bem claro que febre não significa malária necessariamente: afinal era esse o meu objectivo com estas explicações todas. Sugeri que experimentassem colocar o termómetro, a mais pequena não quis, tinha medo que se descobrisse alguma doença, mas a mais velha, mais corajosa, colocou o tal aparelho na axila. “Tem 36,5ºC. Não está doente!”
- Então vamos ver na B.
- Tenho 39,2ºC...
- O que significa?
- Tem malária!
[Definitivamente não sou boa professora...]

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

[welcome to mozambique] os feiticeiros de tete

 
Ritual de Feitiçaria.
(África do Sul, foto daqui)

Vem de muito longe esta notícia partilhada pelo Professor. Deliciosa para mim! Mas sei bem que fica distante demais esta África profunda, de curandeiros, feiticeiros e médicos tradicionais. É quase inacessível à compreensão dos europeus não só o significado daquela pequena trouxa que se despenhou num quintal como também o tempo de antena absurdo dedicado à cobertura de uma notícia deste calibre, sem qualquer perspetiva crítica ou orientação etnográfica para o leitor. Os comentários são ilustrativos de que isto se passou mesmo em outro ponto do planeta...

Mas se alguém se interessar pelos fenómenos antropológicos de Moçambique, siga os links do Prof. Paulo Granjo (Antropocoiso para os amigos).

sexta-feira, 8 de junho de 2012

[as melhores do serviço de urgência] vómitos persistentes

A propósito do post anterior, em que se fala da minha experiência de encontro imediato com a língua de Camões em momentos de estômago revolto, lembrei-me de outro encontro aqui há atrasado, desta feita com uma entidade nosológica da nossa cultura... Uma doença em que os meninos também "gomitam" e não comem de maneira nenhuma.

Ora, estava eu no serviço de urgência, quando chamei uma menina de 15 meses com um ar de quem tinha estado a chorar desesperadamente pouco tempo antes e a deitar pus e sangue dos dois ouvidos. Estava relativamente calma, mas os pais, jovens e cuidadosos, vinham absolutamente transtornados. Que a filha há vários dias que não comia, tinha náuseas quando lhe ofereciam comida, vomitava se a forçassem a comer, não dormia e passava as noites a chorar.

E mais alguma coisa que tivessem notado na menina?, perguntava eu. Que não, que mais nada, mas que esta tarde tinha tido uma crise de choro inconsolável e depois começara a sangrar dos ouvidos. Que tinham era de ir à bruxa, desabafava a mãe...

E eu lá ia respondendo, calma, então, que não era caso para isso, que havia doenças muito piores...

Pedi para despirem a menina. Olharam um para o outro, meio comprometidos, meio cúmplices, como quem se pergunta: "E agora, como é que vamos sair desta?" A mãe, envergonhada, lá começou literalmente a descalçar a bota... Por dentro da roupa, a menina tinha uma fralda enrolada na cintura, bem presa por um alfinete-de-ama que me custou a desapertar. "Mãe, porque é que lhe pôs esta fralda tão apertada? Olhe que isto não faz bem." E eis que, por dentro da fralda, me deparo com uma couve nauseabunda e cheia de gordura de azeite e óleo a toda a volta da barriga. Mas o que era aquilo, senhores, valesse-me São Gregório?!

 - Sabe, doutora, nós estávamos preocupados porque ela não comia e só vomitava e a minha sogra não parava de nos moer o juízo a dizer que o que a menina tinha era o "bucho virado", que é uma doença das crianças, a doutora já ouviu falar?
- Ah, e então?
- Então levámo-la a uma senhora em Caneças para lhe fazer umas rezas e "desvirar o bucho" com azeite na barriga e no fim ela enrolou-lhe esta couve "para o bucho não fugir". Mas a reza deve ter corrido mal, porque a menina agora começou a sangrar dos ouvidos.
- Está bem, está bem, vamos lá ver o que tem a menina. Mas olhe, o mais provável é que a menina não tivesse o "bucho virado", o que deve ter acontecido é que a menina já estava com uma infecção nos ouvidos há mais dias e por isso é que chorava tanto, vomitava e não queria comer.
Os pais entreolharam-se, genuinamente aliviados, como se tivessem visto Deus!

Afinal não é só em Moçambique que existem doenças tradicionais!

domingo, 6 de maio de 2012

[iapala] a semântica das doenças...

(continuando...)

A meio da tarde, o avô entrou novamente na enfermaria. Pediu novamente a palavra e sentou-se.

– Sim, papá?
– Vai continuar a dar “choro” à criança?
– Sim, claro. Até ele ficar melhor.
Isshhh… – abanava a cabeça em desaprovação.
– O que foi, papá?
Isshhh… criança sofre – lamentava-se tristemente.
– Papá, o seu neto é muito bonito. E tem muita vontade de viver! Ele está a lutar muito para continuar vivo no meio desta doença. Não há outra maneira de tratar o menino a não ser com soro!
– Sim, irmã. Mas criança sofre com “choro”!
– O soro é muito importante. Ele está a perder muitos líquidos, temos de lhe dar a mesma quantidade que está a perder – eu tentava explicar o melhor que conseguia. Pausadamente. Procurando palavras simples. Mas será que isto não é intuitivo? Será que não se consegue perceber estes conceitos sem se ter estudado Fisiologia?
– Mas criança sofre… Não tem outro tratamento? Quinino?
– Não, quinino é para a malária. Menino tem diarreia.
– Mas não tem quinino de diarreia?
– Não, papá. Remédio de diarreia é soro mesmo.
Isshh… criança sofre…
– Sim, está a sofrer, é verdade, mas vai morrer se não lhe dermos soro.
– Irmã, mas irmã não vê que quando lhe dá “choro”, a criança sofre e tem mais diarreia?
– Como?!

Foi então que me ocorreu uma ideia. Absolutamente improvável, mas plausível. Pouco tempo antes, ainda em Lisboa, tinha lido uma notícia no jornal que relatava que vários voluntários da Cruz Vermelha tinham sido mortos numa aldeia no norte de Moçambique, acusados de propagar a cólera quando estavam a distribuir cloro pela população para desinfetar a água. Um sociólogo, chamado a comentar o assunto, falava da importância das crenças e da linguagem. Ele aconselhava as pessoas a falar em lixívia porque, segundo a sua opinião, o que motivara aqueles crimes tinha sido em parte a confusão fonética entre “cólera” e “cloro”. A notícia parecera-me absurda, mas enfim… tudo era possível… E agora o avô dizia insistentemente a palavra “choro” e não “soro”… seria possível? Resolvi fazer a experiência.

– Mas papá, isto é “soro”, não é “choro”! Isto é medicamento. É remédio.

Pareceu surpreendido.
Af’nal? Soro é o quê?
– É remédio para a diarreia. Remédio líquido.
– Ah… mas menino chora quando toma. E tem mais diarreia.
– Mas diarreia não vai parar se ele deixar de beber, não é o soro que lhe está a provocar a diarreia. E ele chora porque quer mais! Ora pergunte-lhe se quer esta água.

Arrisquei demasiado. Deixar assim a decisão de um tratamento nas mãos de uma criança de dois anos... Por sorte, ele respondeu que sim à pergunta. A face do ancião iluminou-se. De repente tinha compreendido tudo, e o que eu dizia fazia sentido. Eu também finalmente compreendia um pouco melhor a atitude da mãe. Abracei-a. Pobre mamã… Ela tinha-me visto fazer mal ao seu menino durante horas seguidas e chorara em silêncio a dor que era assistir, impotente, ao menino a sofrer às minhas mãos… Pedi ao avô para lhe explicar o que eu dissera, mas fez-se desentendido. Voltou para o pátio e vi-o falar com os restantes homens da família. Aquilo era um assunto “importante”, era preciso analisar a questão e deliberar em conformidade. Era um assunto de homens! As mulheres só tinham de cuidar das crianças e do resto da família.

 (continua...)

domingo, 22 de abril de 2012

[medicina tradicional] são tomé e fé em deus



(Espaço CACAU, Cidade de São Tomé)

Em São Tomé, num espaço muito respeitável, com exposição de arte africana e restauração de qualidade, vende-se licor de limão anunciando propriedades medicinais, para "tratamento da gripe e tosse". O licor de limão "Levanta Maria" adiciona até uma frase que lhe dá credibilidade farmacológica: "tem vitamina C"! Ninguém duvidará, pois, de que é um medicamento possivelmente eficaz e razoavelmente inócuo...

A seu lado, um segundo medicamento de composição não especificada, 15 vezes mais caro, anuncia-se próprio para "tratamento da SIDA, quistos do útero, cancros e demais moléstias", doenças que, como é de senso comum, são inegavelmente aparentadas e com uma fisiopatologia comum. Sobretudo as "demais moléstias", que como sabemos, são uma variante da SIDA e dos cancros, mas em bom...

Tem apenas um senão... é um medicamento difícil de tomar até ao fim, porque durante o período de tratamento não se pode comer carne, peixe, ovos, leite ou gorduras, sob pena de não funcionar. Mas, diz a empregada do estabelecimento, se se conseguir chegar ao fim do tratamento vivo, tem casos em que funciona...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

[iapala] de volta ao hospital...

(continuando, já que insistem...)
– Mas as pessoas não têm mais nada que fazer? Aceitam ir a todas as cerimónias? Isso acontece muitas vezes?
– Para aí uma vez por ano para cada menina…
– Bem, com estas famílias grandes as pessoas não devem fazer mais nada! Se morre alguém são três dias, se alguém está doente podem ser semanas no hospital, se uma menina acaba o namorico, são mais dois dias…
– Sim, mas isto é geralmente ao fim de semana. Não interfere muito com a vida das pessoas. Pior é mesmo quando têm de ir para o hospital longe de casa. Isso é que desloca a família toda muitos dias e não conseguem mesmo trabalhar nada nessa altura… Chegam a perder as colheitas todas por causa disso, infelizmente…
– Por isso mesmo, deviam trabalhar sempre que fosse possível.
– Mas eles trabalham. As pessoas aqui são trabalhadoras. Mas pensa assim: a cerimónia do “muru tokotokho” é como se fosse um pretexto para reunir a família por causa de alguém. Nós também fazemos isso. Nos aniversários, por exemplo. É bonito. Faz bem. Dá uma sensação de união, uma noção de que se é importante… Muita gente me critica por mandar as meninas fazer cerimónia a casa, mas eu acho importante que elas tenham o apoio da família.
– Tem razão, realmente… Mas deve ser difícil lidar com tudo isto.
– Às vezes é difícil, sim, amiga… Todos temos a nossa cruz e eu tenho a minha, que é ajudar estas meninas… Mas é preciso ter muita fé e acreditar muito que vai tudo correr bem. É como o teu menino de hoje.
– Ah, ele só se houver um milagre… Ele está muito mal, Irmã. Nem sei se fizemos bem em dar esperanças à família. Por falar nisso, já passou uma hora, tenho de lá ir outra vez ver se pelo menos ainda está vivo.
– Está de certeza, não se ouviram gritos…

Nem de propósito, naquele momento ouviu-se um alarido enorme vindo do hospital…
– Ai… foi ele, de certeza, Irmã!
– Não… deixa ouvir… Ah, foi uma menina que nasceu! Não foi o teu menino. Os gritos são diferentes…
– Bem, tenho de lá ir…

Voltei para o hospital. O menino continuava deitado no berço, sem se mover. A respiração estava mais tranquila, o coração batia mais certo, mas continuava em coma. Olhei melhor para ele... Alguma coisa na face se tinha alterado... Belisquei-o para ver se pelo menos reagia à dor e fiquei horrorizada! Em resposta à dor ele tinha mexido levemente apenas um dos braços… Tinha metade do corpo paralisada! As lágrimas começaram a correr-me. Tinha sofrido danos cerebrais graves…

(continua...)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

[tabus e tradições] a cerimónia da gazela


Instante no Kruger Park
(África do Sul, foto da R.)


– Mas... e no meio disso tudo não há ninguém que fale claramente do que aconteceu, não há ninguém que clarifique os sentimentos ou que explique como é que se deve fazer para a próxima?
– Não, ninguém fala. Só às vezes os homens quando bebem.

– Mas não há ninguém com ética nesta terra? Ninguém que dê o exemplo?
– Há, claro! Muita gente. O que eu acho é que é muito injusto para as pessoas. Sobretudo para os jovens e para os adolescentes. Eles têm uma consciência e sofrem como toda a gente. Só que têm de aprender às próprias custas que sofrem menos se não fizerem certas coisas. Mesmo que essas acções não sejam condenadas pela sociedade. Ou mesmo que ninguém saiba.

– Pois!
– É isso que eu tento explicar às meninas todos os dias. Que podem evitar o “muru tokotokho”, ou os remorsos, como tu dizes, e vão sofrer muito menos se não brincarem com os afectos, se não se envolverem com alguém de quem não gostam, se não prejudicarem os outros, se não roubarem…

– E elas entendem isso?
– Acho que só entendem quando passam por isso.

– E o que é que faz quando elas apanham a tal “cabeça grande”?
– Eu mando-as fazer cerimónia, claro, senão não passa nunca mais…

– Mas isso é reforçar esse comportamento e essa tradição. Não se consegue mesmo desmontar estas crenças?
– Eu nem tento. Elas vão um fim de semana a casa fazer a cerimónia, têm colinho da família e vêm geralmente mais bem-dispostas. Mas depois falo muito com elas, tento fazer uma reflexão sobre o que fizeram e o que sentem.

– Mas elas dizem-lhe o que foi?
– Não, claro! Mas eu geralmente sei. Ou foi um namorado que as deixou, ou foi alguém de família que faleceu e com quem elas tinham discutido sem fazer as pazes, ou foi alguma coisa grave com as amigas… enfim… geralmente não é muito difícil de perceber.

– Pois, os adolescentes são iguais em todo o lado.
– Sim, só que acho que estes são mais frágeis… Têm de aprender muita coisa às suas próprias custas. E é preciso ser muito inteligente para perceber o que se passa e ter crítica sobre a sociedade e a cultura. Não é fácil ter crítica quando não se pode falar com medo do que possa acontecer…

– Pois… não deve ser fácil. Mas nessas cerimónias vem mesmo a família toda?
– Vêm os que podem. Mas sim, geralmente vêm todos.

– E deixam tudo o que têm a fazer porque a menina teve um namorico, está envergonhada e portanto é preciso ir matar uma gazela?
– Bem, se pões as coisas dessa forma…

(continua...)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

[iapala] malária... a malária é difícil


No pátio do hospital, com o menino a dormir...
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Ia voltar para casa mas, já na rua, assaltou-me um pressentimento e tive de dar meia volta. Voltei para a cabeceira do menino. De repente, apesar do cansaço (ou por causa dele, não sei bem…), fiquei insegura. E se ele afinal não estivesse assim tão bem? E se convulsivasse novamente sem ninguém dar conta? E se de repente a malária resolvesse fazer das suas e entrasse em coma? Ele ainda estava a dormir, não tinha sequer aberto os olhos e a febre ainda não tinha cedido completamente… Era melhor ficar por ali.

A malária assusta-me! Cada vez mais… É imprevisível. Nunca consigo ter a certeza de que vai mesmo tudo correr bem. Não tenho análises nem outros exames à disposição, só tenho os meus olhos e a minha intuição, mas esta semana fiquei ainda mais insegura e quase deixei de confiar nela… Foi por causa de uma criança de 15 meses com malária que chegou ao fim da tarde, aqui há uns cinco dias. O menino, quase bebé, vinha completamente inconsciente.

Segundo a mãe, mais uma vez, a doença tinha começado nesse dia e não tinha ido procurar tratamento tradicional. Mas nunca sei se é verdade ou não… e geralmente não é verdade. O problema é que muitas vezes, quando a situação é grave, é difícil perceber se o que se passa com a criança é resultado da doença, do tratamento tradicional ou das duas coisas… E alguns medicamentos que os curandeiros usam são terrivelmente tóxicos! Tudo se encontra na natureza: alcalóides, pesticidas, antibióticos, antiparasitários, medicamentos contra o cancro*...

E o bebé estava ali, em coma profundo e gelado. Não estava desidratado, mas tinha a respiração acelerada das doenças graves. E o coração não estava a bater como devia, estava lento…

– Teve febre hoje, mamã?
– Nada, não teve.
– O corpo ficou quente? – tenho sempre de perguntar a mesma coisa de várias maneiras, que há palavras que as pessoas não conhecem ou não atribuem o mesmo significado.
– Sim, muito quente, só arrefeceu agora.
– E quando é que deixou de estar acordado?
– Há bocado…
– Nada, mamã! A criança está assim há muito tempo! Olhe como está a respirar. Pode dizer, eu não fico zangada… quando começou a doença?
– De manhã, Irmã…
– E teve convulsões?
– Sim. Duas vezes.

Das duas uma, ou tinha malária cerebral ou uma infecção generalizada. Mas o exame neurológico mostrava-me que o cérebro também estava em sofrimento. O mais provável era que fosse malária cerebral. Mas à cautela comecei o tratamento para as duas coisas enquanto esperava o resultado do teste da malária e tentava estabilizar a criança. Mas, ao fim de algumas horas, o menino tinha piorado. A respiração estava mais lenta, o coração também mais lento, continuava em coma. Levantei-lhe novamente as pálpebras: as pupilas estavam diferentes… Estava a acontecer o que eu temia: o cérebro tinha inchado de tal maneira que estava comprimido contra as paredes do crânio. Perguntei ao enfermeiro se havia os medicamentos de que eu precisava.

– Não, Doutora, não tem.
– Mas não tem no hospital todo? Ou estão no armazém?

Ao que o enfermeiro respondia que não sabia, mas que achava que existiam no armazém. O problema é que quem tinha a chave era o Director, que estava em Nampula.
– Mas não há outra chave? – indignei-me.
– Nada, Doutora, ele não deixa a chave com mais ninguém, senão os funcionários roubam tudo.
– Valha-me Deus!

Mandei chamar a Irmã Lurdes… Estava desorientada. Capaz até de arrombar o armazém se me tivessem dado a certeza de que o medicamento existia mesmo por detrás daquela porta!

– Posso ir ao hospital de Ribáuè – ofereceu-se –, é um hospital maior, pode ser que tenham os medicamentos. Se eu pedir dão-mos de certeza, a mim nunca me negaram nada. Eles conhecem-me bem. Sabem que é para salvar uma vida…

Mas provavelmente não havia sequer tempo de ir ao hospital de Ribáuè pedir a medicação e voltar. Só se o levássemos connosco e ele fizesse a medicação lá.

– Isso é mais complicado… A família não deve querer, eles sabem que a situação é grave**.
– Temos de os convencer! Mamã, percebeu o que estamos a dizer? – perguntei.
– Não, Irmã.

(continua...)

* Aliás, o nome deste blogue vem precisamente de uma situação em que inesperadamente descobri que do beijo-de-mulata de extrai um medicamento contra o cancro...
** Já em tempos vos expliquei isto... para os Macuas, se alguém morrer longe de casa, o seu espírito nunca vai encontrar o caminho de volta e permanece para sempre retido "do lado de cá", assombrando e trazendo desgraças os vivos.

sábado, 21 de janeiro de 2012

[uma noite, em iapala] os meandros da malária...


Mamã com menino...
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Já no hospital, em dois minutos, a história clínica ficou colhida e iniciou-se a terapêutica da malária cerebral. Diagnósticos definitivos só no fim, que nestes casos não há tempo a perder à espera de análises laboratoriais. Nem o Sr. Cachimo, o técnico do laboratório se encontrava no hospital àquela hora...

Dizem-me que a doença começou hoje e que não foram ao curandeiro. Neste caso resolvi acreditar porque a doença parece ter começado agora mesmo. A malária cerebral costuma ter um início violento e provavelmente vieram ao hospital porque era de noite e não iam acordar o curandeiro àquela hora. [Sim, que curandeiro é criatura imponderável, poderosa, com contactos privilegiados com os mortos e legitimidade para influir no destino dos vivos. Quem, no seu perfeito juízo, se arriscaria a ir perturbar o sono de semelhante autoridade?] Por isso achei que era razoavelmente seguro dar-lhe o dobro da dose de quinino na primeira toma, como está preconizado na malária grave. Quase nunca o faço porque sei que os curandeiros usam precisamente o quinino para tratar a malária [o quinino extrai-se da casca de uma árvore] e duvido que consigam controlar as doses que preparam. E, portanto, se eu administrar uma dose mais “generosa” isso pode levar a uma intoxicação fatal! Ou seja, mais uma vez se confirmaria a crença do povo de que o “hospital é sítio para morrer”, onde apenas se deve ir em último caso…

Mas já descobri um truque para perceber se tomaram esses medicamentos ou não, desde que não venham inconscientes: o quinino provoca uma surdez transitória, portanto tudo quanto tenho de fazer é perguntar aos pais se a criança costuma ouvir bem e depois, de repente, bater palmas com muita força para ver se a criança se assusta. Se não se assustar nem olhar é porque tomou quinino e tenho de ter cuidado com a dose que lhe dou...

O menino está sonolento por causa da medicação que eu lhe dei, mas o exame neurológico não está muito alterado. Este caso também há de correr bem! Agora não há mais nada a fazer a não ser esperar que a medicação actue e rezar para que o menino reaja favoravelmente...

Só depois de termos a veia canalizada e o tratamento a correr é que arranjamos um colchão para instalar o menino. Apesar de estarmos na estação seca, em que a taxa de hospitalização é mínima, as camas estão todas ocupadas e temos de o acomodar no corredor... E então na estação das chuvas as condições são ainda mais precárias: o número de doentes hospitalizados é tal que têm de dormir no parrô, um abrigo amplo, com telhado mas sem parede completa até ao tecto, cheio de correntes de ar e onde a chuva entra livremente… Nem quero imaginar o que é este hospital durante os surtos de cólera…

Demoro-me um pouco a escrever no processo e só quando saio do gabinete me apercebo de que um homem ainda jovem chora baixinho, ajoelhado à cabeceira do menino.

– O senhor é o pai?
– Não, esse menino é meu sobrinho.
Talvez compreenda Português, pensei.
– O menino não está em coma, está só a dormir por causa do medicamento que nós lhe demos para parar as convulsões.

Não deu sinais de me ter compreendido. Fui chamar o enfermeiro, que traduziu a minha explicação para Macua. O tio afinal tinha-me compreendido, mas não acreditava que o menino pudesse sobreviver. Expliquei-lhe que ainda era muito cedo para saber o desenlace, mas que era muito possível que o menino ficasse bem. Parou de chorar.

– Obrigado.
Nem por um momento deixou de fitar o menino...

(continua...)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

[para que não digam que neste blogue não se aprende nada] fevereiro 2011

Em Janeiro de 2011 se calhar ainda nos safámos com a prova de conhecimentos. Já em Fevereiro de 2011, vergonhosamente, não posso dizer que quem me veio visitar aqui ao mato tenha aprendido muito... Ao que parece, passei quase o mês todo a mostrar-vos fotografias, a babar-me com os meus meninos da consulta, a escolher a banda sonora do filme cigano que eu tenho a certeza que um dia a minha vida há-de dar, e a contar a história da minha primeira vez em África...

Ainda assim acho que, quem cá veio com mais devoção talvez possa ter adquirido algum conhecimento sobre:

1º - O conceito de disfunção eréctil entre o povo macua [de meter qualquer europeu/ asiático/ americano ou mesmo macho latino num chinelo!];

2º - O modo de funcionamento e marketing dos curandeiros da Zambézia [tem como bónus uma história hilariante, uma daquelas improbabilidade que só me acontecem a mim, valha-me Santa Rita de Cássia];

3º - Um remédio tradicional quase infalível para curar a asma: uma casca de cágado [mas atenção aos efeitos secundários...];

4º -  Os medicamentos tradicionais mais vendidos em Nampula [para que não venham dizer que eu só digo disparates...].

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

[improbabilidades] os hipopótamos da zambézia


Um hipopótamo mansinho...

A propósito da notícia da improvável reencarnação do defunto régulo de Morrumbala em hipopótamo [de que já vos falei], o post genial de António Cabrita no Raposas a Sul fez-me lembrar a mulher que certa vez internámos no Hospital do Gilé com uma doença inflamatória pélvica muito grave. O marido explicava-nos que ela tinha ficado doente quando tinha dado à luz um peixe-gato, depois de uma gravidez complicadíssima, cheia de hemorragias e de outros sinais de maldição. "Um peixe-gato? Como assim um peixe-gato?" perguntávamos. Mas o marido era irredutível, ele tinha visto com os seus próprios olhos o peixe ainda vivo, mas agónico, e os bigodes que comprovavam a sua natureza felina. O curandeiro tinha-lhes dado uma explicação complexa para o sucedido, mas fora incapaz de a tratar, por isso acabaram por recorrer ao hospital e pedir-nos ajuda... No Raposas a Sul falou-se de ago parecido...
Se bem me lembro, foi em 2007 que a STV fez uma reportagem sobre a mulher que supostamente teria dado à luz um bule e três chávenas de chá. Durante essa semana, nas aulas da universidade, tive que debater as dúvidas dos alunos sobre se tal seria possível, porque na verdade a metade deles queria crer nessa possibilidade.


A mim o que me espantava era a falta de ambição da parturiente. Se se pode ser mãe de um serviço inteiro da Vista Alegre, porquê ficar-se por um bule e três chávenas? E parecia-me até um óptimo princípio para uma economia no casamento, as nubentes primeiro pariam o recheio da casa, mobílias, candelabros, carpetes, panelas e tachos, depois a própria casa, e só depois casariam.

Há coisas que não são do domínio das antinomias, de ser-se racionalista ou crédulo, mas simplesmente da ordem da sensatez e do conhecimento das coisas naturais: o adn humano e o “adn” da cerâmica não comportam qualquer tipo de coincidência ou de transitividade.

Não obstante, suponhamos que sim – também para os gregos do tempo do Aristóteles as mulheres podiam parir qualquer coisa, ostras ou ouriços, pois nunca se sabia que partidas podiam os deuses pregar – que uma mulher podia parir um bule. Onde foi registado? Como se chama a criatura? E como é que a STV abandonou um caso destes, não acompanhando a educação e infância do bule, vendendo para as televisões de fora um exclusivo desta monta? Que falta de inteligência comercial.

Agora há semanas que não ouço falar senão do régulo encarnado no hipopótamo. E que ouço quadros técnicos deste país porem as mãos no fogo em como é verdade… pois se o hipopótamo mudou de regime alimentar e agora come o picapau que fazia as delícias do régulo e encharca-se com o bom vinhito, pelo qual até o Santo Agostinho se pelava.

E eis-me na mesma encruzilhada: se comento, sou um racionalista desatado, se não comento sinto-me a observar os efeitos perniciosos uma alucinação colectiva.

Acontece, por outro lado, que literalmente acredito em tudo. Eu acredito piamente que o facto do régulo ter encarnado no hipopótamo constitui uma demonstração de vanidade total dos poderes sobrenaturais do régulo. Na cadeia evolutiva dos seres, para citar Pascal, estando o homem encravado entre a besta e o anjo (para dar o nome de uma figura ao espírito), qual a vantagem de voltar em hipopótamo?

É um retrocesso. Pode até ser verdade mas é absolutamente improdutivo. Vejam lá o extremo poder que alguém exibe voltando em hipopótamo! Não seria preferível possuir uma criança e voltar como mestre-escola, o maior da região e arredores? Voltar em hipopótamo parece-me o mais disparatado dispêndio de energias. Ainda por cima pervertendo a natureza sã do hipopótamo, tornando-o alcoólico. E o pior é que vejo a mesma absoluta inépcia comercial por parte da TVM. Como é que se tem um assunto desta natureza entre mãos e não se consegue fazer uma série de 18 episódios com ele, vendendo-o em todos os canais internacionais? Será que, na verdade, eles próprios não acreditam nas suas tradições? Há, em tanta improdutividade, qualquer coisa que me escapa.

Repito, eu acredito que o régulo tenha voltado em hipopótamo. Porém não vejo a utilidade do fenómeno. Nem para a comunidade, nem para o hipopótamo. Ou antes, para este até discirno um sinal positivo: magnificado em vinho, na próxima encarnação ressuscitará em régulo.

O que eu consegui enxergar, na reportagem, foi o aproveitamento político. O responsável provincial que lá foi prestar homenagem ao hipopótamo-régulo, confirmou a comunidade na identidade das suas tradições e deixou-a contentinha e refém do seu secular obscurantismo. E, aliviem-se as almas beatas, o dinheirinho gasto em vinho não foi desviado em sandálias para as crianças.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

[o regresso a iapala] em jeito de epílogo...






O regresso a Iapala...
(Nampula, Moçambique)

(...continuando a história que começou aqui...)

E no final da semana voltámos para Iapala. Íamos todos eufóricos e de coração leve. O carro, que à ida tinha parecido o carro dos loucos, parecia agora o carro do circo, connosco a cantar estrada fora. Eu com uma alma nova, já com o sono atrasado em dia, a Inês e o Sr. Rafael totalmente renascidos e o Cachimo felicíssimo ao meu lado, amoroso e trocando comigo olhares cúmplices. A família a quem tínhamos dado boleia para o Hospital Central bateu-nos à porta dias antes da partida e partilharam o carro connosco. Claro que tivemos outro furo. No mesmo pneu, que não devia ter ficado bem consertado na oficina… Desta vez, sem crianças doentes e sem angústias, mudámo-lo nós. Todos juntos, num trabalho em equipa, os risos que se diluíam no meio do silêncio e do cheiro da savana. A Inês foi recebida em euforia pelas outras meninas da casa, a Irmã Lurdes ficou comovidíssima e a madrinha dela cumpriu de alma e coração a intenção de lhe pagar os estudos até ao fim da faculdade.

Foi na semana seguinte, em Iapala, que conheci o J. F., director da ONG com que colaboro. Chegou com um padre comboniano para visitar a Missão e o trabalho da Irmã Lurdes com os leprosos. Encontrou-me no hospital. Vinha a comentar, na sua boa disposição, que se devia ter inadvertidamente transformado num homem muito mais respeitável durante viagem, porque todos os polícias por que tinha passado o tinham tratado por “Sr. Padre”.

– Ou terá sido só da barriga? É que o Padre Alberto é muito mais magro do que eu e os polícias acharam todos que ele era o meu empregado. Ahaha!
– Sim, só pode ter sido isso – brincava o Padre Alberto – eu ao menos tenho cara de empregado de padre, sempre me “emprestas” alguma dignidade. Podia ser pior. Podia ter cara de empregado das finanças…

Foi uma noite de boa disposição! Falou-me do trabalho da associação na luta para a erradicação da lepra e na assistência médica e moral aos doentes. Eu estava tocadíssima pela história da Inês. Nunca antes tinha sentido tão na pele o sentido da palavra “estigma”. Daí que quando, meses depois, me convidaram para ir novamente para Moçambique integrada no programa de combate à lepra emocionei-me. Claro que aceitaria. Por pouco tempo que fosse. Se pudesse devolver a vida a alguém que ainda tivesse vida, a minha própria vida teria mais sentido.

E pronto, foi assim que tudo começou. O que se seguiu, talvez um dia vos conte... Acompanhei outros voluntários no seu trabalho lindíssimo. E fui testemunha de verdadeiros milagres. E assisti à alegria de ver devolvido um futuro a muitas vidas que afinal não tinham terminado!

No ano seguinte a Irmã Lurdes fundou a missão do Gilé, na Zambézia (como foi que ele teve coragem de deixar Iapala é coisa que ainda hoje me intriga...). A Inês foi com ela porque em Iapala só havia escola até à 7ª classe. Completou a 12ª no Gilé e foi depois estudar enfermagem para Quelimane. A última vez que soube dela, estava a trabalhar em Tete, já com o curso tirado e, imagino, casada e já com filhos. Os pais ainda hoje de vez em quando me telefonam ou mandam SMS a agradecer o que fiz pela filha. Por vezes, quando alguma das Irmãs vem a Portugal, mandam-me pequenos presentes: castanha de caju, café da sua machamba, desenhos feitos pelos irmãos mais novos da minha menina. Enchem-me a alma. Quero acreditar que ela é feliz.

Obrigada a todos os que vieram comigo nesta viagem...
(um) beijo de mulata

[coisas da zambézia] a província mais africana de moçambique






Imagens do Gilé, Mulevala e Milevane, da província mais improvável e africana de Moçambique.
(Zambézia, Moçambique)

É também da Zambézia que nos chega uma das maiores improbabilidades da cultura africana. Uma notícia recente tem sido objecto de discussão acesa e recorrente...
Um régulo ter-se-á metamoforseado em hipopótamo após a sua morte, na localidade de Pinda, distrito de Morrumbala, na Zambézia. Trata-se do régulo Luis Dambuenda, que perdeu a vida em Fevereiro último, vítima de doença.

Segunda a Rádio Moçambique, que faz fé nos depoimentos dos familiares e dos residentes locais, uma semana após o funeral, "os seus espíritos transformaram-se num hipopótamo". Dados recolhidos no local pela Rádio Moçambique indicam que o "animal" é inofensivo e vive actualmente no rio Chire, junto à travessia de Pinda para Mutarara, distrito de Tete.

Por vezes, o "Régulo-hipopótamo" sai da água, pesseia pela povoação de Dambuenda, sem fazer mal aos seus subditos, consome vários alimentos, incluindo bebidas alcoólicas, além de brincar com crianças da zona. O insólito tornou-se um fenómeno de atracção para os residentes locais e pessoas que usam a travessia do rio Chire, de Pinda para Mutarara e vice-versa.

O Governador da Zambézia, Francisco Itai Meque, que se deslocou ao local, disse que foi informado de que é tradição naquela família as pessoas transformarem-se em animais depois da morte. Meque foi informado também que os anteriores régulos, já falecidos, transformaram-se também eles em leões ou cobras, conforme a sua escolha.

A história não acaba aqui, claro que continua...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

[welcome to mozambique] enfim, tudo se compõe...

(...continuando a história que começou aqui...)

Nessa noite a terra tremeu. Literalmente. Um terramoto violento, de 7,5 na escala de Richter, com epicentro em Manica, a 800 km do jardim da casa das Irmãs, onde eu passeava, olhando a lua e namorando a noite negra e ardente do Cruzeiro do Sul. [Já vos contei a história...]

No dia seguinte o Sr. Rafael acordou muito mais orientado. Comeu, colaborou em tudo, tomou os medicamentos. A Inês chegou logo às 8 da manhã, terminando com a minha ansiedade. Não me sentia capaz de esperar até à hora de almoço. Quando destapei as feridas, estava tudo muito melhor! Os olhos da Inês brilharam pela primeira vez em semanas e semanas.

– Ah… então não é lepra!
– Claro que não, Inês, já te tinha dito. E mesmo que fosse, princesa! Lepra tem cura.
– Pois… mas na trad’ção não tem.
– O que é que isso quer dizer?
– Quer dizer que a doença tem cura, mas a pessoa fica marcada.
– Pois… mas isso tem outro nome, Inês. Isso chama-se estigma. E é uma coisa muito feia e injusta. Ninguém tem culpa de ficar doente.

Os olhos dela fixaram-se. Como se alguém tivesse dito o que ela mal se atrevia a pensar, mas que também sentia…
– E só ficamos marcados se acreditarmos nisso! Se não acreditares não ficas marcada. Inês, não deixes que te digam que tens lepra. Nunca mais. Isso é psoríase. E mesmo que fosse, minha querida! Lepra é uma doença vulgar, não é “tradição”, como toda a gente diz.
– Sim, tia P…
– Mas mudaste as ligaduras?
– Sim, o meu tio mudou porque se molharam.
– O teu tio é enfermeiro?
– Não, é estofador. Tia P. conhece-o.
– Ah, sim, o “tio grande”! Jeitoso, o teu tio: estão mais bem colocadas do que as minhas… Deve ser da profissão. Ser estofador deve dar-lhe muito à-vontade com os tecidos…

Já só me apetecia brincar e rir… A Inês deu a sua primeira gargalhada. No resto da semana vi a Inês todos os dias. Parecia que renascia de dia para dia. Que voltava a endireitar a cabeça e a ter novamente carne para encher a pele que cicatrizava. Voltou a falar, a sorrir, a cantar. O Sr. Rafael também melhorava de dia para dia e estava feliz porque pela primeira vez em muitos anos não sentia vontade de beber! E lembrava-se do terror que tinha sentido quando vira os bichos no seu quarto. Lembrava-se da sensação de morte iminente que tivera nessa altura. Estava feliz por ainda estar vivo e por as alucinações se terem ido embora. Curiosamente repetia para quem o quisesse ouvir, que aquilo que vira não tinham sido espíritos. Que não fazia sentido. Não sabia bem explicar, mas parecia-lhe mais que tinham sido “coisas da sua cabeça”.

Já o Sr. Revenda, andava maravilhado… De cada vez que passava por mim, olhava-me, num misto de pasmo, admiração e medo… Afinal também havia feiticeiros brancos. Isso é que nunca lhe tinha passado pela cabeça. Uma das Irmãs ouviu-o, dias depois, a referir-se a mim em conversa com um outro empregado chamando-me Mukhulukana*. Às vezes, num momento de maior audácia, puxava o assunto e parecia que fazia menção de me perguntar como é que eu tinha conseguido exorcizar os espíritos do corpo do Sr. Rafael, mas arrependia-se de imediato e desviava a conversa. Por um lado, eu podia ser perigosa e usar os meus poderes contra ele, mas eu sentia que aquilo que o impedia de fazer “a pergunta” não era só isso. Provavelmente ele pressentia que talvez a minha resposta pudesse implicar rever os seus conceitos acerca do mundo tal como ele o entendia. Rever todas as ideias sobre os antepassados, o mundo dos vivos e dos mortos e as leis que regem a vida. E isso era ainda mais perigoso e ameaçador… Por isso continha-se.

Mas ele pressentia que tinha estado perante algo de muito raro. Por vezes parecia que tinha tido um vislumbre de um mundo para lá da tradição, onde a tradição podia não ter lugar, onde as doenças podem não ser castigos, onde pessoas comuns, como a Inês e o Sr. Rafael, podem ter uma segunda oportunidade sem recorrer a poderes especiais… Mas eu não insisti. A vida não é assim tão simples. Não se pode levar um homem a deixar de acreditar no conjunto de crenças que estruturaram todo o seu pensamento, sob pena de o deixar sem um sentido para a vida. Mas talvez estes exemplos pudessem ter lançado uma semente e, um dia, caso alguém da sua família viesse a padecer de uma doença grave, talvez ele se lembrasse de mim com esperança e procurasse ajuda de um médico e não de um curandeiro.

*Mukhulukana - Palavra macua para curandeiro ou médico tradicional.

(continua...)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

[o encontro] ...e a inês, finalmente, veio ter comigo...

(...continuando a história que começou aqui...)

Já passava das 19:00 quando regressámos a casa com o Sr. Rafael. Mas, para meu desespero, as Irmãs informaram-me de que a Inês tinha chegado às 17:00, tinha esperado, esperado, esperado e, por fim, vendo a hora do último chapa aproximar-se, tinha desistido e ido embora dez minutos antes…

– Dissemos-lhe que voltasse amanhã à hora de almoço.
– Oh, meu Deus, pobrezinha… E acha que ela volta?
– Acho que sim. Fartámo-nos de lhe dizer: “Aquela médica vai curar-te!” e ela ao fim quase que já sorria.
Quase que já sorria… Ela está deprimidíssima, não é?
– Sim, infelizmente… Prepare-se, P., que aquela menina está destruída. Está um frangalho autêntico! Faz mesmo impressão olhar para ela. Só pele e osso e coberta de chagas dos pés à cabeça. Feridas infectadas em cada centímetro de pele, não admira nada que as pessoas tenham pensado que era lepra. Mas só me parece que se calhar tem SIDA.
– Ah, isso não tem, que eu vi as análises dela no Anchilo. É negativa. Mas tem feridas?
– Sim, feridas horríveis, todas infectadas. Aquela menina é uma chaga viva… Pensámos mesmo que só podia ser SIDA. E acha que não é mesmo lepra? Às tantas uma pessoa já duvida…
– Ah, lepra também não é… Nem uma coisa nem outra.
– Então ainda bem. É uma excelente notícia… E conseguiu algum medicamento?
– Só um. Mas não é de todo o mais apropriado para a psoríase. E então com feridas infectadas pode impedir a cicatrização e agravar a infeção… Nem sei que faça…

Só me apetecia chorar por não ter chegado a tempo. Que provações, caramba! Mas podia ser que no dia seguinte tivesse mais sorte na farmácia…

Passei mais uma noite praticamente em claro, com um olho no Sr. Rafael e outro nos meus livros, a estudar a melhor maneira de tratar a minha menina com o que podia haver em Nampula e, de manhã, logo depois do mata-bicho fui plantar-me à porta da maior farmácia da cidade para ser a primeira a entrar assim que abrisse. Tinha duas horas para meter novamente o meu ar mais decidido, a minha voz "o-meu-pai-é-o-dono-disto-tudo", convencer o empregado a deixar-me vasculhar em todas as gavetas e tentar descobrir algum medicamento que me servisse. Depois tinha de ir ver os meninos da escolinha.

Ao fim de duas horas tinha encontrado corticóides de várias potências diferentes, um antibiótico para as infeções da pele, um antissético para as feridas e sabão de alcatrão. Não havia mais nada. Já estava mentalizada de que ia cometer o maior sacrilégio que existe: colocar um corticóide numa ferida infectada numa criança com psoríase. Valesse-me Nossa Senhora. Ou o antibiótico. Ou dos dois o que tivesse mais força… E à hora de almoço vi chegar a Inês.

Quando achamos que já vimos de tudo, quando pensamos que já vimos todas as desgraças do mundo, que já vimos pessoas a morrer e a sofrer, a suportar aquilo que achamos que vai para além da força humana, parece que deixamos de estar preparados para aceitar que pode haver pior. Ainda pior.

Quem eu vi chegar nesse dia, sozinha e a medo, foi uma menina que tinha sido literalmente enterrada em vida pelas pessoas que mais a amavam… Uma menina sem brilho no olhar, pálida, esquelética, sem voz, com as feridas infectadas cobertas por uma pasta negra e seca de medicamento tradicional, restos dos dias mais horríveis da sua vida que permaneciam colados à pele. E que só saíram arrastando quase metade da pele com eles.

– Inês, ainda bem que vieste, estou mesmo feliz por teres vindo, estava à tua espera!

Baixou os olhos e nem respondeu. Obviamente eu não podia estar a falar a sério, como é que se pode ficar feliz por ver uma leprosa?

– A Irmã Lurdes, em Iapala, está muito preocupada contigo porque não voltaste à escola depois das férias, pediu-me para te ir procurar. Ela quer muito que voltes para Iapala para completares os estudos.
– Mas eu não posso voltar, eu estou… doente – a voz quase apagada, depois de tantos dias sem falar com ninguém e a acreditar que a vida tinha terminado…
– Mas vais ficar boa, eu estou aqui para te tratar. Sabes, a tua madrinha escreveu à Irmã Lurdes para lhe dizer que se quiseres continuar a estudar, ela tem muito gosto em continuar a pagar-te os estudos. Ela também está muito preocupada contigo…

Não era bem verdade, claro, a madrinha da Inês, em Itália, por mais bem intencionada e preocupada que fosse com a sua afilhada, não conhecia certamente a realidade de Moçambique e provavelmente não fazia a menor ideia do que se passava com ela. Mas podia ser mais uma referência que fizesse a Inês voltar à realidade… Olhou-me com estranheza.

– Sabes, tu tens uma madrinha na Europa que te paga os estudos, que reza por ti e se preocupa contigo.
– Sim eu sei… é italiana… ela reza por mim?
– Claro, Inês. E eu também tenho rezado muito. E a Irmã Lurdes e as outras meninas também em Iapala.
– Mas eu tenho… lepra – ousava até dizer o nome da doença que a amaldiçoava.
– Sim, estás doente. Mas não tens lepra, já disse aos teus pais e ao teu tio que isso não é lepra. E eu e as Irmãs vamos cuidar de ti. Tu tens de ficar boa!

Baixou os olhos novamente, derrotada. Não ia ser fácil fazê-la voltar a acreditar em si própria e que o futuro ainda podia existir… Tinha a humilhação colada à pele. Fomos para o jardim para lhe darmos um banho de mangueira. Um banho que durou quase duas horas para lenta e delicadamente lhe descolar aquela papa horrível, negra e nauseabunda que lhe infectara as lesões. Com ela sentada numa cadeira no jardim, sob o sol tórrido da tarde, eu e as Irmãs lavámos-lhe cada centímetro de pele com uma paciência de Job e, por fim, enchi-me de coragem e, com um sorriso nos lábios e um pedido de ajuda a Deus (ou com um “Deus me perdoe”, nem sei bem…) apliquei-lhe o corticóide mais potente que tinha encontrado, em toda a pele, e envolvi-a em ligaduras. Tomou a primeira dose dos antibióticos à minha frente. À cautela dei-lhe dois diferentes não fosse a infecção piorar…

– Hoje vais de noiva, Inês, assim toda branquinha, vestida de ligaduras – a boa disposição da Irmã Conceição fê-la quase sorrir pela primeira vez…

Fiquei a vê-la desaparecer em direção ao chapa, com a pior dúvida que um médico pode ter: “Será que não lhe fiz pior?” Mas era a minha única opção… Ou pelo menos eu não tinha visto outra. Tinha-me resolvido a arriscar. A velha máxima da Medicina ecoava-me na mente: Primum non nocere, acima de tudo não fazer mal! Naquele momento só me lembrava das aulas de Dermatologia e da voz do meu professor que dizia: “Nunca se aplica um corticóide sem consultar um Dermatologista primeiro!” Claro que não era verdade, mas eu na altura ainda não tinha quase experiência nenhuma… Hoje, com vários anos de prática, esta angústia parece-me completamente despropositada, mas naquele dia acho que nem me consegui acalmar.

Quando voltei para o jardim para arrumar os medicamentos, vi uma das aspirantes a Irmãs que me ajudara a dar banho à Inês, também ela, curiosamente, natural do bairro de Napipine, a lavar energicamente as pernas e as mãos. Claramente tinha medo de que a água que lavara a Inês e lhe salpicara o corpo a contagiasse. Sim, não valia a pena ter a veleidade de pensar que tinha acreditado em mim quando lhe tinha dito que a Inês não tinha lepra. Fiquei triste, confesso. Mas pensando bem, já tinha sido um esforço incrível e louvável ter tocado e dado banho a uma leprosa.

– Não se preocupe, Irmã, a Inês não tem nenhuma doença contagiosa.
– Sim, obrigada, P..

(continua...)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

[a saga continua] ...ainda não desisti, mas estou exausta...


Os meninos da escolinha das Irmãs, na fila para o almoço.
(Nampula, Moçambique)

(...continuando a história que começou aqui...)

Depois da saída do Sr. Cachimo (comigo obviamente a tratá-lo por tu e sem o "senhor" antes do nome) e da terceira dose de tranquilizantes, o Sr. Rafael adormeceu finalmente pacífico e pude então dormir umas horas na cama ao seu lado, acalentada pela ternura que tinha descido sobre nós e invadido toda a madrugada, até que as Irmãs me vieram render. Daquele lado do convento, o chamamento da mesquita e o uivo da “cadela muçulmana” praticamente não se ouviam, e os cânticos das Laudes foram nessa manhã assim uma espécie de despertador de luxo, que teve o condão de trazer lentamente a luz de volta à parte do meu cérebro que quase tinha deixado de acreditar que o sol voltaria a romper um dia e continuava a repetir-me: "amanhã não existe!" Eram horas de me levantar para ir para a escolinha ver a segunda leva de meninos.

Não disse às Irmãs que praticamente não tinha dormido a noite inteira, mas o negrume por debaixo dos meus olhos quando aparece nunca engana ninguém e, enquanto eu mata-bichava*, elas trataram de reduzir para metade o número de crianças que eu veria nessa manhã. Quando cheguei à escolinha, deparei-me com uma fila muito menor de pedrinhas e pauzinhos à porta da secretaria, com que os pais marcavam a sua ordem de chegada, para se poderem tranquilamente sentar nas sombras por ali e não terem de estar de pé à torreira do sol enquanto esperavam a consulta. As senhas de vez estavam a começar a ser distribuídas pelo Sr. Rosário, numa cena hilariante, em que chamava as pessoas pelos objectos da fila: “Azulejo partido!” e alguém se levantava e gritava: “Presente!”

– Mas, Sr. Rosário, hoje há muito menos crianças do que ontem. O que foi que se passou? Fiz alguma coisa que tenha desagradado aos pais?
– Não, Doutora, as Irmãs disseram que hoje estava cansada e metade dos meninos passava para amanhã ou depois de amanhã.
– Ah, está bem…
– Doutora, estou a pidir um favor.
– Sim, se eu puder… diga.
– Meu sobrinho tem problema di olho…

[Lembram-se da história do Helder, que vos contei aqui há tempos? Foi uma história parecida com essa...]

E foi mais uma manhã intensa, passada entre histórias de pobreza, de fome, de orfandade e de viuvez, de irmãos e pais falecidos, de perdas tão difíceis para uma criança que acreditaríamos que não seria possível alguém voltar a levantar a cabeça, quanto mais sorrir e brincar com alegria, não fosse essas crianças estarem precisamente a sorrir e a brincar felizes lá fora no pátio antes de entrarem no meu gabinete de consulta e chegarem completamente afogueadas das correrias. Já não era coisa que me surpreendesse, a capacidade do ser humano, sobretudo das crianças, de recuperar a alegria de viver, desde que tivessem alguém que as amasse. E estas crianças eram, felizmente, muito amadas… Mais uma manhã a tentar falar macua entre a galhofa geral. Mas não me importava que se rissem de mim: era bom para desanuviar o ambiente, quebrar o gelo e aproximar-me dos pais.

Infeções, tuberculose, anemias, malárias… histórias de doenças de maus espíritos que faziam desmaiar as crianças e as punham a contorcer-se no chão, sacudidas por forças que quase as arrastavam para o outro lado do mundo e da vida. Para aquele lado de onde não se regressa mais, a não ser para cumprir rituais esquecidos ou para clamar justiça… Uma doença que para mim se chamava epilepsia, mas que para as famílias se chamava maldição ou punição… Com a ajuda dos tradutores tentei desmistificar a doença, convencer os pais de que epilepsia tinha tratamento e que não eram os espíritos que causavam as crises. Bastava tomar medicamentos todos os dias… Surpreendentemente consegui que aderissem. Pouco tempo depois vim a saber que os pais tinham ido agradecer às Irmãs porque os medicamentos tinham espantado os espíritos do corpo dos meninos!

Passei a manhã de tal forma embrenhada nas consultas, que só quando por fim me levantei para ir almoçar me lembrei novamente da Inês e do Sr. Rafael… Agora sim, estava exausta. Bendita intuição das Irmãs, que as tinha feito reduzir para metade o número de meninos que eu teria de ver nesse dia. Depois de almoço tinha de dormir a sesta, nem que fosse uma hora. Mas antes de me ir deitar fui ver como estava o Sr. Rafael. Abri a porta da casa, que estava só no trinco e tropecei desastradamente no Sr. Revenda que, por algum motivo bizarro que não descortinei de imediato, se deitara no chão encostado à porta de casa e dormia um sono sobressaltado. Acordou com um olhar apavorado e colocou-se de pé num segundo e só então me reconheceu.

– Doutora… – a voz meio perturbada, meio aliviada.
– Vinha ver como está o Sr. Rafael, Sr. Revenda. Desculpe tê-lo acordado… Mas não estaria mais confortável na sua cama?
– Não, Doutora. Mi deitei aqui porque estava cansado… Sr. Rafael está lá dentro.
– Obrigada.

Mas que local mais estranho para dormir… Quase parecia a história de uma tia minha, que se tornou anedota privada da família, quando uma tarde teve um ataque de sono tão grande que adormeceu nas escadas a caminho do quarto. Mas não, o Sr. Revenda, por mais sono que tivesse, não seria como a minha tia Maria José. Tinha-se deitado à porta de casa porque o terror do que estava a acontecer o deixara confuso: segundo a tradição, quando os espíritos rondam as casas, deve-se permanecer no interior, com as portas e janelas bem fechadas... mas onde ficar, para onde fugir quando é dentro da própria casa que está a ameaça? Não se tinha conseguido resolver, portanto acabara por decidir que provavelmente o local mais seguro seria perto da porta, por onde poderia ter de escapar a qualquer momento, quando os espíritos levassem o Sr. Rafael.

Apesar de as Irmãs o terem encarregado de continuar a dar soro oral ao doente, era uma ordem que não lhe fazia sentido nenhum. Em que é que beber soro ajudaria um homem obviamente já condenado à morte? Um homem que nem a intervenção do melhor curandeiro provavelmente já conseguiria salvar? Mas o problema é que o Sr. Rafael não tinha voltado a acordar desde a última dose de tranquilizantes que eu lhe tinha dado de manhã antes de sair. Também não tinha voltado a beber líquidos… e continuava agitado e a transpirar. Estava a ficar desidratado e podia estar em hipoglicémia… Se não o conseguisse fazer beber líquidos rapidamente ia acabar mesmo por ir para o hospital. E como é que ia ter tempo para procurar os medicamentos para a Inês com ele naquele estado?

Felizmente nesse momento chegaram as Irmãs com uma ideia brilhante: tinham ligado para as Irmãs da Caridade e elas, também habituadas a estas andanças, tinham-se disponibilizado imediatamente para lhe colocar um soro e, sorte das sortes, tinham recebido no dia anterior um tranquilizante apropriado para estes casos que se podia dar pela veia.

– Ah, que bom! É que acho que isto está mesmo a ficar incontrolável… E eu estou exausta. Há vários dias que não descanso nada.
– Deixe estar que nós o levamos. Vá lá ter depois para vermos se temos condições para o manter em casa ou se temos de o levar para o hospital… Esperemos que não. Sabe como é o Hospital Central, não sabe?
– Infelizmente sim…
– Então descanse, nem que seja uma ou duas horas…
– Obrigada!
– Obrigada nós! Sr. Revenda, precisamos da sua ajuda…

Continuava com mil preocupações, mas o cansaço era muito maior que qualquer aflição e no sossego do meu quarto, naquela cama estreita sob a rede mosquiteira que lhe dava um ar exótico, lá consegui adormecer num sono cheio de recordações dos momentos da noite anterior…

* Mata-bichar - Tomar o mata-bicho (pequeno-almoço). Não se esqueçam da mais fundamental regra de gramática em Moçambique: preferir sempre as conjugações divertidas às conjugações perifrásticas.

(continua...)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

[com o sr. cachimbo e o sr. rafael] novamente a casa dos loucos...

(...continuando a história que começou aqui...)

Entretanto tínhamos conseguido arrefecê-lo um pouco. A tensão arterial não estava tão descontrolada como eu temia, não tinha arritmias por enquanto e já o tínhamos conseguido fazer tomar os tranquilizantes e alguma água. Não tanta quanto eu desejava, porque de vez em quando ele gritava “Murrette!” [veneno] e cuspia tudo o que tinha na boca. As Irmãs, felizmente, conservavam a boa disposição e não se importavam com aquele espectáculo, nem que a sua roupa fosse sistematicamente atingida pela água que ele de vez em quando acreditava que o podia matar. Iam-lhe falando mansamente e explicavam-lhe que era apenas água que lhe estavam a dar, que ninguém lhe ia fazer mal, que tudo estava a ser um sonho mau e que ia passar.

Já anoitecera e a luz do pátio não era suficiente para iluminar aquele quarto cheio de gente, mas preferi acender duas velas e não a lâmpada do tecto porque qualquer estímulo adicional equivalia, literalmente, a mandar mais achas para a fogueira daquele delírio assustador.

Pouco depois chegava o Sr. Cachimbo, com o seu habitual sorriso de orelha a orelha. Radiante por ter sido chamado e poder ser útil. Vinha com a mesma camisa e os calções com que se preparava para dormir no momento em que fora chamado, e a roupa justa deixava adivinhar o seu corpo enorme e enxuto de homem nascido no campo, habituado a esforços e que não conhecera abundâncias.

Já tinha sido devidamente informado pelo Sr. Revenda sobre o que se passava e concordava com ele. A primeira coisa que me disse, claramente instruído pelo guarda, foi que achava que o Sr. Rafael estava possuído por espíritos e que para ele sobreviver deveríamos chamar um curandeiro. E eu dei por mim a compreendê-los perfeitamente. É que o Sr. Rafael tremia num tremor grosseiro, que quase parecia voluntário, tinha uma fisionomia completamente alterada, mudava de expressão e de voz a cada momento, via bichos por todo o lado e dizia coisas completamente sem nexo. Como é que eu alguma vez lhes conseguiria explicar que aquilo era uma doença causada pela privação de álcool? Mas por fim o Sr. Cachimbo lá concordou, mais para me fazer a vontade do que por convicção, que sim, que podia ser isso. Eu que o tratasse como achasse bem. De qualquer modo agradava-lhe a ideia de que aquela doença era resultado de excesso de álcool. Assim poderia sempre voltar a frisar que com ele isto nunca aconteceria porque os muçulmanos não tocam em álcool.

O teste da malária foi negativo. Agradeci-lhe muito por ter vindo àquela hora tardia, mas ele fez-se desentendido. Agora que estava ali e me tinha feito um favor, não ia arredar pé assim sem mais nem ontem. Acabava de pagar o bilhete por inteiro, agora ficava até ao fim do espectáculo! Ofereceu-se para ficar por ali comigo a tratar do Sr. Rafael, que as Irmãs estavam cansadas. Elas acharam bem e despediram-se: eram horas de ir rezar. O guarda, vendo que não tinha de acompanhar novamente o Sr. Cachimbo a casa, tratou de dar de frosques e ir para o seu posto de vigia ao portão, aliviado por poder sair daquela casa de loucos, onde todos menos eu percebiam perfeitamente que havia espíritos maus e onde, mais tarde ou mais cedo, haveria de acontecer uma desgraça. Não percebia como é que mais ninguém tinha coragem de me dizer “o rei vai nu!”. Ele tinha tentado avisar-me, estava de consciência tranquila. Mas não queria estar dentro de casa e ser enrolado no furacão quando a desgraça acontecesse!

Lentamente, a expressão de terror cravada na face do Sr. Rafael ia cedendo, os tremores diminuindo, o coração abrandava e a tensão arterial estabilizou. Mudámos-lhe a roupa e os lençóis encharcados de água e suor. Realmente, sozinha teria sido impossível mudar uma cama com um homem tão pesado deitado sobre ela. Continuava a transpirar, mas já bastante menos e não me parecia muito desidratado. Íamos tentando dar-lhe água, mas já não era fácil porque agora estava quase a adormecer. Dentro de pouco tempo ia deixar de conseguir engolir. E depois… bem, depois era rezar para que a situação passasse antes que surgissem complicações, se não teria mesmo de o levar para o hospital e tudo seria ainda pior… Mas eu estava exausta. Era quase meia-noite de um dia que já durava há quase 72 horas e temia não me conseguir manter acordada. Mas também, vistas bem as coisas, agora não precisava de estar acordada. Precisava era de acordar dentro de algumas horas, quando o efeito dos tranquilizantes começasse a passar e tivesse de recomeçar o ciclo “mede-tensão-arterial-arrefece-com-toalhas-molhadas-troca-de-roupa-dá-lhe-mais-tranquilizantes-dá-lhe-mais-água-vê-se-surgiram-complicações-tenta-não-te-preocupar-tanto-confia-que-vai-tudo-correr-bem-tenta-dormir-mais-um-pouco-que-daqui-a-nada-tens-de-recomeçar-o-processo-todo-do-início”.

Mas agora como é que ia descalçar a bota do Sr. Cachimbo? Mas como é que as Irmãs me tinham deixado ali sozinha com ele sem uma pergunta, sem um sinal de estranheza, valha-me Nossa Senhora? Não lhes tinha passado nada pela cabeça? Quer dizer, elas deviam ter pensado que se tinha sido eu a mandá-lo chamar era porque sabia que ele era boa pessoa. Vá, calma. Estava tudo bem. A intensidade dos dias devia estar a toldar-me o pensamento… Sim, devia ser isso. A intensidade dos dias. Nada mais. Não se passava nada. Não se passava nada. Os cânticos em macua das Irmãs ecoavam através do pátio, enchendo a noite de paz e tranquilidade. Sempre os achei lindos, mas nessa noite os cânticos eram particularmente bonitos e as Irmãs, talvez por terem dois doentes mais por quem rezar, a Inês e o Sr. Rafael, estavam especialmente harmoniosas.

– Doutora…
– Sim, Sr. Cachimbo?
– Eu tenho uma coisa para lhe dizer… Não me leve a mal. Eu até fico envergonhado, mas já lhe queria ter dito isto há muitos dias.

(continua...)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

[à espera da inês] a vida não é simples... mas faz sentido


Sempre que um doente tem alta, vemos partir com ele um cortejo de familiares que estavam por ali, acantonados nas imediações, acompanhando-o pelo tempo que fosse necessário, à espera das melhoras...
(Gilé, Zambézia)

(...continuando a história que começou aqui...)

– Mas eles não sabem que a lepra tem cura?
– Claro que não! Para eles nem sequer é uma doença. Para eles é um castigo que vem dos antepassados.
– Começo a ficar cansada desta “tradição”!
– Então nós que já cá estamos há tantos anos… nem nos diga nada. Mas temos de os respeitar. Isto é uma outra religião completamente diferente. Não estamos aqui para impor nada, só queremos ajudar as pessoas.

– Outra religião? Mas os pais da Inês são católicos… ou não?
– Sim, são católicos. E praticantes. Mas isto é uma outra dimensão da espiritualidade. Uma outra dimensão que nós não temos. E que nem sequer compreendemos totalmente. Para os entendermos temos de perceber que cada família tem a sua religião. Cada família tem a sua história, os seus mortos e os seus ancestrais. Eles têm um Deus, que chamam de Muluku e a quem rezam na missa e em casa. Mas Deus para eles está muito longe. Nesta cultura quem os protege dos problemas do dia a dia não é Deus. Por mais que as tentemos fazer acreditar que sim, que Deus é amor e que vela por eles.
– Então porque é que rezam?
– Não sei muito bem, mas penso que rezam pela mesma razão que os meninos vão à escola. Porque têm esperança que um dia, num futuro longínquo, isso lhes vá trazer uma vida melhor. Mas para as coisas do dia a dia não contam com Deus.
– Então?
– Há intermediários entre Deus e as pessoas, que são os antepassados, os mortos da família. Cada família tem os seus antepassados. E por isso, cada família tem uma maneira de ver Muluku que é diferente das outras porque é influenciada pelo carácter dos seus defuntos e pela história da família. E por isso também compreendem que outras famílias tenham ideias diferentes e uma visão diferente do mundo. Acaba por ser uma espiritualidade muito tolerante nas diferenças e há muito respeito entre as pessoas…
– Isso é bonito…
– É muito bonito. É uma espiritualidade muito intensa e que dá um sentido muito forte de família e de união. Um sentido de continuidade e coerência entre as famílias. Nunca viu uma pessoa sozinha no hospital, pois não? Estão sempre muitas pessoas de família a acompanhá-la na doença.
– Sim, é verdade, nunca estão sozinhos. Estão sempre irmãos, tios, pais…
– Sim. Quando acompanham a família na doença, ou nos ritos de passagem, ou nos funerais, isso não é só solidariedade, não é só porque é correcto e é importante para o outro. Também é, claro, não duvido que o fazem porque é importante para o outro e porque querem estar presentes, mas é também uma manifestação da espiritualidade deste povo. São valores muito bonitos.
– Sim, é verdade, chega a ser comovente…
– Mas não é fácil aceitar que essa mesma espiritualidade tenha tantos mitos e tantos tabus que os impedem de viver a sua vida e andar para a frente.
– Pois… é isso mesmo… O tio da Inês estava mesmo convencido de que ela está doente porque eles não cumpriram bem o rito do funeral do tio mais novo, que morreu há poucos meses. Parece que faltava um dia para acabar quando uma tempestade destruiu a casa onde estavam e eles tiveram de se vir embora…
– Meus Deus, que desgraça… que sofrimento… e o que tem a menina?
– Acho que tem psoríase. Mas ainda não a vi, não tenho a certeza…
– Ai, credo, que doença para se ter aqui. Mas olhe que se calhar não a vai conseguir tratar… Aqui não há muitos medicamentos.
– Nem nas farmácias privadas?
– É uma doença rara. Duvido que tenham alguma coisa, mas pode sempre tentar…

Um murro no estômago. Mas será que não ia conseguir tratar a minha menina? Será que ia faltar à minha promessa e deixar que uma menina inteligente e cheia de potencial terminasse a sua vida assim humilhada?

Nem me estava a reconhecer naquelas preocupações… Para onde é que estava a ir a minha confiança, Santo Deus? Tudo o que tinha corrido mal nestes dois dias estava mesmo a influenciar-me e a deitar-me abaixo…

Tentei tranquilizar-me: no fundo ainda nada estava perdido. Dadas as circunstâncias até estava tudo a correr bastante bem. Tinha conseguido chegar a Nampula de carro sozinha, mesmo furando pineu pelo caminho, tinha tratado duas crianças quase mortas de desidratação e malária, conseguido fazer todas as compras, encontrar a Inês e compreender o que estava por detrás da sua ausência e da reclusão da família e ainda tinha começado a ver as crianças da escolinha. E, por milagre, o Vicente caíra-me do céu! Como é que eu me atrevia a perder a segurança se nada tinha corrido verdadeiramente mal? Lá porque tudo tinha sido difícil e delicado… Lá porque não me tinha tudo vindo parar às mãos de bandeja, como de costume em Moçambique, não queria dizer que não estivesse tudo bem. Sim, isto já devia ser o cansaço a falar… Estavam a ser muitas emoções ao mesmo tempo.

(continua...)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

[continua a saga da inês e do sr. rafael] lepra e delirium tremens, isto não está fácil...

(...continuando a história que começou aqui...)

“Bonito!”, ironizei comigo própria. “Está um pobre homem aqui ao pé de ti em perigo de vida e tu nem ponderas levá-lo para o hospital, só te ocorre mandar chamar o rapaz que te fez bater o coração há dois dias… Isto está bonito, sim, senhora!”

– Mas tem razão, acho que nem sequer conseguíamos levá-lo para o hospital. Ele é tão pesado... Acha que o consegue tratar aqui?
– Sim, se ele não tiver malária e conseguir engolir água acho que sim, Irmã… Tenho ali tranquilizantes e tudo o resto que é preciso. E duvido que no Hospital Central saibam tratar um delirium tremens
– Pois, é melhor ele ficar aqui, então… O Sr. Rafael é um homem muito bom. Durante a guerra andou sempre connosco. Apesar dos perigos de andar na estrada, ele era incansável, defendeu-nos sempre, nunca houve dia nenhum em que saíssemos com o carro que ele não nos acompanhasse, às vezes até doente.
– Sim, é um homem muito bom, também já percebi isso.
– Uma vez ele estava com malária, mesmo no meio de uma crise, a tremer de frio e cheio de dores, quando caímos num buraco e furámos um pneu…
– Ui… Déjà vu
– Pois… Mas precisamente à frente desse buraco estava uma mina. Foi por Deus que não passámos por cima dela.
– Credo!
– E foi ele quem se levantou e nos foi ajudar a sair do buraco e trocar o pneu. Nem sei como é que ele teve coragem de fazer aquilo tudo a tremer com uma crise de paludismo a dois ou três centímetros da mina… Foi mesmo por um triz que não morremos todas. Ele conseguia fazer aquilo de olhos fechados. Se não fosse ele já nenhuma de nós estava aqui para contar estas histórias. E foram muitas vezes mesmo. É o mínimo que podemos fazer por ele…
– Parece que o estou a ver. Ainda hoje ele tem essa capacidade de se compor e entrar em ação quando é necessário. À vinda para cá fez precisamente o mesmo, mas estava alcoolizado, não estava com malária… Bem, temos de o despir e arrefecer.
– Sim, vamos a isso. Mas o que terá acontecido para ter isto agora? Ele já bebe há tanto tempo…
– Ele ontem de manhã disse-me que ia deixar de beber… Estava muito envergonhado pela figura que fez durante a viagem. E pelos vistos tentou cumprir…
– Sabe, nós já vimos isto acontecer muitas vezes. O alcoolismo é uma praga aqui em Moçambique. E o povo também conhece bem o delirium tremens. Sabem que mata mesmo. Mas acham que os bichos que eles vêem nas alucinações são os antepassados da família enfurecidos com qualquer coisa. E motivos para os espíritos se zangarem nunca faltam, claro, basta pensar um pouco e encontram logo duas ou três situações em que se quebraram tabus.
– Pois, ainda hoje o tio da Inês…
– Ah, é verdade, como é que correu a conversa com o tio?

As Irmãs iam-me ajudando a despir e a arrefecer o Sr. Rafael com toalhas molhadas.

– Parece-me que correu bem. Mas pode ser só impressão minha. Vamos ver se ele faz mesmo aquilo que disse, que já percebi que as pessoas aqui são muito de resistência passiva. Dizem sempre que sim e depois só fazem o que querem.
– Pois, é mesmo isso. Mas o que foi que ele disse?
– Disse que achava que a Inês tinha lepra…
– Ai, pobrezinhos… Sabe, aqui a lepra é uma humilhação que se estende à família inteira. A maior parte das vezes, quando alguém fica a saber, a vida das pessoas fica destroçada. Não admira que a tenham tentado esconder…
– Mas eles não sabem que a lepra tem cura?
– Claro que não! Para eles nem sequer é uma doença. Para eles é um castigo que vem dos antepassados.
– Começo a ficar cansada desta “tradição”!
– Então nós que já cá estamos há tantos anos… nem nos diga nada. Mas temos de respeitar. E temos de os compreender. Isto é uma outra religião completamente diferente. Não estamos aqui para impor nada, só queremos ajudar as pessoas.

(continua...)