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sexta-feira, 27 de abril de 2012

[iapala] os crocodilos e os perus...


O Rio Monapo
(Iapala, Nampula)


(continuando...)

Calei-me durante um bocado e tentei desviar a conversa, enquanto me sentia culpada por ter recordado assim de chofre àquela menina, ainda para mais em frente da sua amiga, que ela ainda não era mulher. E enquanto prosseguia a conversa sobre o dia a dia na escola, fui fazendo, angustiada, um filme sobre a desgraça que se abateria sobre aquela jovem.

Para qualquer adolescente de uma sociedade dita desenvolvida, não chegar à puberdade e não menstruar pode ser muito perturbador, mas em África, isso implica um total aniquilamento social! Não sendo menstruada não poderia participar nos ritos de iniciação e, portanto, nunca poderia ser tratada e reconhecida como adulta. Ficaria para sempre interditada de ter um lugar na sociedade, de tomar parte em cerimónias tradicionais, em festas de adultos, não poderia assistir a ritos fúnebres – os mais importantes ritos das sociedades africanas. Seria sempre tratada por todos como uma criança. E escusado será dizer que não se poderia casar porque nenhum homem aceitaria como esposa uma mulher que não tivesse cumprido a iniciação e, pior, que claramente não pudesse ter filhos. A única condição que confere estatuto social a uma mulher africana é a maternidade e as mulheres que não conseguem conceber são ostracizadas. Esta menina estava condenada a ser infeliz, sem apelo nem agravo...

– Desculpa, Artemisa, acho que te magoei quando te perguntei se já eras menstruada – disse-lhe por fim –, mas se quiseres falar sobre isso um dia, fica à vontade.
– Sim, tia P.

Estávamos a aproximar-nos de um rio, onde mulheres e crianças tomavam banho, lavavam roupa e chapinhavam, tentando refrescar-se do calor do fim de tarde. A vegetação perto do rio era cada vez mais densa. Comecei a ficar nervosa por não conseguir ver bem onde punha os pés.

– Costuma haver cobras por aqui, Artemisa?
– Não muito, tia P., só mesmo crocodilos…

Arrepiei-me, subitamente gelada. Crocodilos, valesse-me São Francisco de Assis?
– Estás a brincar?
– Não, tia P.
– Mas estão pessoas a lavar a roupa, crianças a tomar banho, não há perigo?
– Sim, há perigo, mas é d’fícil eles saírem a esta hora da tarde. Aqui há sombra e eles gostam di sol...
– Mas já tem havido acidentes?
– Sim, às vezes há acidentes com crocodilos.
– E mesmo assim as pessoas permanecem tanto tempo expostas ao pé do rio?
– Ah, tia P. – um sorriso condescendente –, os acidentes só dependem do destino das pessoas... 

Voltámos para casa quase ao anoitecer, depois de termos falado sobre muitas coisas, e visitado o bairro, a escola, o lar público onde os estudantes viviam acantonados, numa pobreza e desolação arrepiantes, o fontanário, o mercado… Eu vinha menos alegre, pensativa, perturbada com a miséria e a dureza do dia a dia com que me tinha deparado, perturbada com o diagnóstico de Síndrome de Turner que tinha acabado de fazer, com todas as suas implicações para a vida da menina, estava triste com a minha própria precipitação, por ter iniciado a conversa de forma tão desastrada e não ter sabido depois conduzi-la de forma construtiva.

Foram comigo até à porta do hospital e, num gesto de cortesia, encarregaram-se de enxotar por mim o casal de perus, que continuava no mesmo sítio.
– Vocês conhecem estes bicharocos?
– Sim, tia P., são perus!
– Não! Pergunto se conhecem estes mesmos perus. Costumam estar aqui?
– Sim, são do Senhor Ramos, comerciante do bairro. São muito mal-educados. Perseguem pessoas!
– Pois, já percebi… Mas pensei que poderia ser uma “praxe” para mim…
– Irmã?
– Ah, deixem estar… Obrigada pela companhia! Até logo.

Deixaram-me e voltaram para casa, que eram horas de fazer o jantar. Eu queria ir visitar o menino que tinha internado com diarreia. Já estaria melhor?
(continua...)

sábado, 21 de abril de 2012

[iapala] e a artemisa


A montanha mágica de Iapala...
(Iapala, Nampula)

(continuando...)

Nessa tarde, uma das irmãs veio chamar-me depois da sobremesa: “Venha tomar café aqui na varanda, que as meninas querem conhecê-la.” Saí para a varanda que dava para o pátio, onde sessenta meninas me esperavam, todas juntas e com um sorriso. Cumprimentei-as, apresentei-me, disse quem era e ao que vinha. Elas continuavam num silêncio envergonhado. Até que lhes perguntei: “E vocês, não se querem apresentar?”
Duas ou três começaram então, casualmente, a entoar uma música simples mas lindíssima, cantada em Macua, que queria dizer apenas: “Bem-vinda, você é linda, queremos conhecê-la.”  E aconteceu então aquele momento mágico que me deixou rendida àquelas meninas e a Iapala...
Recordo que foi nessa tarde que, no meio das meninas, houve uma que de raspão me fez reparar nela porque tinha uma face que me pareceu estranha. Uma face estranha mas ao mesmo tempo estranhamente familiar... [Os cinzentões da Pediatria chamar-lhe-iam facies sindromática, mas eu não costumo ter dessas pretensões, muito menos no meio da savana, e portanto não lhe chamei nada. De qualquer modo naquele momento estava demasiado ocupada a derreter-me com as danças, os cânticos e os batuques de boas-vindas e a deslumbrar-me com a algazarra que sessenta adolescentes conseguiam fazer...] Ficou-me apenas uma estranha sensação nas traseiras da mente.

Fui novamente ao hospital mas, como naquele momento não havia mais nenhuma urgência, voltei para casa para saber se alguém queria ir comigo dar um passeio de reconhecimento nos bairros das redondezas. Precisava de compreender, pelo menos de relance, as condições de vida das pessoas que acorriam ao hospital e os nomes dos bairros mais próximos. Por coincidência, uma das meninas que se ofereceu para me acompanhar era a mesma que me tinha chamado a atenção pouco tempo antes e, à segunda vez que olhei melhor para ela, percebi o que era que ela tinha de especial: um pescoço largo com uma espécie de "asas", um tronco também largo e uma face um pouco grosseira. Olhei para o peito dela e percebi uma total ausência de volume sob a blusa. Tinha Síndrome de Turner, de certeza. [Para quem não está familiarizado com doenças genéticas, posso explicar que ela era menina, mas tinha nascido sem um dos cromossomas X.]

Aproveitei para meter conversa:
– Como te chamas?
– Artemisa, tia P.
– Que nome tão bonito. É o nome de uma planta medicinal, sabias?
– Sabia, sim, as irmãs já me tinham dito.
– E sabes que remédio se pode fazer com ela?
– Remédio para a malária.
– Isso mesmo! E em que classe estás na escola?
– Estou na décima primeira.
– Ah, muito bem. E quantos anos tens?
– Tenho vinte.
– Olha... e diz-me uma coisa, já és menstruada?
– Não, tia P. – o seu olhar, subitamente infeliz, fez-me perceber a minha horrível falta de tacto –, ainda não... 

Calei-me durante um bocado e tentei desviar a conversa, enquanto me sentia culpada por ter recordado assim de chofre àquela menina, ainda para mais em frente da sua amiga, que ela ainda não era mulher. E enquanto prosseguia a conversa sobre o dia a dia na escola, fui fazendo, angustiada, um filme sobre a desgraça que se abateria sobre aquela jovem. 
(continua...)

terça-feira, 17 de abril de 2012

[no hospital de iapala] as meninas das irmãs




As "meninas das irmãs"...
(Iapala, Nampula)


(continuando...)



Ao início da tarde eu já estava sozinha a trabalhar, os enfermeiros e serventes tinham desaparecido da urgência quando perceberam que eu tinha mesmo intenção de atender as pessoas, deixando-me ali sem apoio nenhum.
A língua era uma barreira, mas de uma maneira ou de outra, com a ajuda de alguns familiares que falavam português e com uma linguagem gestual improvisada, já tinha orientado os mais de trinta doentes de forma mais ou menos satisfatória. Foi quando duas meninas me apareceram na sala de urgência para me dizer que a irmã Lurdes me chamava para almoçar. Nesse preciso momento chegou uma outra criança de dois anos trazida pelos jovens pais, que ostentavam a face mais desesperada que vira o dia todo.

– O que se passa com o menino?
– Tem diarreia, irmã.
– Eu não sou irmã, sou só médica – expliquei, sorrindo, pela enésima vez nesse dia.
– Sim, irmã médica.

A criança estava desidratada, mas não era muito grave. Não tinha outros sinais de doença. Ainda estava a ser amamentada pela mãe e não tinha vomitado o leite materno.

– Há quanto tempo está com diarreia? – peço às meninas para me traduzirem, já que neste momento não está mesmo mais ninguém por ali.

Ao que parece, desde hoje. São de uma aldeia a 20 quilómetros daqui onde na semana passada houve um surto de cólera e morreram algumas pessoas, na sua maioria crianças. Pergunto se alguma das pessoas afectadas pela cólera está agora internada no hospital, mas dizem-me que não. Ninguém veio ao hospital! Vieram com esta criança porque estão assustados. Já viram morrer muita gente com esta doença e estão ali para tentar fugir ao mesmo destino. Mando chamar o enfermeiro. Pergunto se tem um determinado antibiótico, se lhe pode colocar um soro na veia, se temos soro oral para lhe dar. Diz-me a tudo que sim. O menino só precisa de fazer o teste da malária, nada mais. A criança fica entregue.

As adolescentes que tinham vindo ter comigo eram duas das sessenta meninas que viviam com as irmãs, num lar anexo à casa, para poderem estudar na escola secundária durante o ano lectivo. Muitas eram órfãs, a maioria com famílias demasiado pobres para conseguirem pagar sequer um décimo da estadia, quase todas com histórias de vida tão terríveis que podiam fazer qualquer adolescente perder a vontade de se levantar da cama todas as manhãs, quanto mais de continuar a estudar. Só iam a casa nas férias e voltavam sempre mais magras, com doenças por tratar e com mais histórias tristes para contar... Mas tinham uma força e uma alegria de viver contagiantes. E se dançavam entusiasticamente todos os dias na missa, imaginem o que era às vezes aquela casa depois da missa... Uma animação indescritível que atraía metade da vizinhança!
 
 
(continua...)

domingo, 15 de abril de 2012

[et in iapala ego] os primeiros dias no mato...

(Há oito anos atrás, quando terminei o curso de Medicina, tive umas férias de três meses antes de começar o internato. Foi aí que, pela segunda vez, parti para Moçambique em voluntariado. Desta vez para Iapala, uma localidade no meio do mato, no Norte de Moçambique, a 180 km de Nampula. Já em tempos vos contei como foi o meu primeiro dia em Iapala. Agora conto-vos como foi começar a trabalhar no hospital...)


A enfermaria de Pediatria do hospital da missão.
(Iapala, Nampula)


Em Iapala o trabalho no hospital começava às 07:00 em ponto. No pátio do hospital, em frente à sala de triagem, dois perus enormes debicavam o chão, numa ciranda incessante e perseguiam os transeuntes menos cuidadosos que se atravessavam no seu território demarcado. Inchados e de cauda aberta, num glu-glu-glu trôpego e ameaçador. Desviei-me deles como pude, ante o olhar divertido dos presentes. “Será que isto é uma praxe dirigida aqui à caloira?”, ocorreu-me, e entrei no hospital.

 Os trabalhadores do hospital já me esperavam, todos de pé, perfilados na sala de urgência dos adultos. Pareciam um pouco nervosos. Ou desconfiados, não sabia bem… Era a primeira vez que iam ter uma médica a trabalhar com eles. [Sim, pode parecer inacreditável, mas o hospital ainda hoje não tem qualquer médico; funciona só com técnicos, enfermeiros e serventes…] Os enfermeiros do turno da noite empunhavam os livros de ocorrências, prontos para comunicar o que se passara com os doentes durante o turno e os serventes tinham já os livros de inventário abertos. Olhavam para mim de forma mais ou menos disfarçada e com curiosidade. Apresentei-me, disse que me sentia muito grata por estar ali a trabalhar com um povo tão amistoso num local tão lindo como Iapala, que só pelas montanhas e pela beleza da noite já tinha valido a pena uma viagem de tão longe, e que esperava poder ajudar em tudo o que estivesse ao meu alcance… Deram-se por satisfeitos e começaram a passar as ocorrências: a principal fora que as famílias de duas crianças internadas tinham fugido com elas nessa noite.

 – Fugiram? Mas porquê? – perguntei.
– Ainda estavam a piorar e a família já estava aqui há mais de um mês… – o director respondia-me, impassível.
– O que tinham os meninos?
– Estavam desnutridos. A recuperação estava a demorar muito tempo e a família deve ter resolvido ir procurar um curandeiro… 

Não perguntei mais nada. Engoli em seco. Algo me dizia que ia ser muito mais difícil trabalhar em Iapala do que em Maputo. Era uma cultura tão diferente... Pelos vistos era uma ocorrência normal, porque ninguém parecia ter ficado surpreendido por duas famílias terem fugido na mesma noite, levando consigo crianças doentes que provavelmente já não voltariam a ter oportunidade de ser tratadas.

(continua...)

domingo, 8 de abril de 2012

[histórias do fim do mundo] o fogo novo!

Já vos contei esta história. Hojo conto-a de novo. Porque vale a pena! É o relato da vigília Pascal em Murrupula, Moçambique contado na primeira pessoa pela minha amiga V. Deliciem-se!


Quando a noite cai, o teu amor é como um fogo!
(Murrupula, Moçambique)


"Salama owani? Miyo salama! [Estão todos bem em casa? Eu estou bem!]

Acabo de chegar de Murrupula, da missão, onde passei estes dias da Páscoa e gostaria de partilhar convosco a noite mais mágica da minha vida, que passei ao lado da minha família africana, o Pe. Jacob, o Irmão Tobias, o Irmão Rui, nove seminaristas, os vinte e três rapazes órfãos que vivem no lar da Missão, o cozinheiro Rosário (o homem que nos mantém a todos vivos), várias dezenas de trabalhadores das machambas da Missão, carpinteiros, guardadores de vacas e ovelhas, a minha grande amiga Eugénia... e o Tejo e o Tajo, que são, certamente, os dois macacos mais mimados do mundo!

Aqui a Páscoa é vivida de uma forma muito diferente da que eu estou habituada a viver em Portugal, no meu Alentejo. Não são só os sabores, os cheiros, as cores, as cerimónias, os cânticos, a espiritualidade… mas passa por outra forma de encarar a paixão, a morte e a ressurreição.

Tinha ouvido falar da magia que se vive durante as cerimónias da Páscoa mas vivenciá-la aqui e ao vivo tem outro sabor. A Páscoa para mim já tinha começado na tarde de Sexta-feira Santa, na vila, onde foi encenada a Via Sacra pelos seminaristas, pelo grupo de jovens e pelos rapazes do lar da Missão. À noite, depois da comemoração muito simples do aniversário da Eugénia, os futuros baptizados que já tinham chegado à missão, “apagaram o fogo velho”. Formaram uma fila, cada um com um pedaço de lenha com uma ponta a arder e foram apagá-la numa taça feita de barro com água. Isto é interpretado como um apagar dos pecados, para um início de vida nova. Uma vida que iria começar na noite seguinte.

Após o jantar e todos os preparativos que ocuparam todo o dia, os futuros baptizados e os futuros noivos, os padrinhos e familiares e os restantes membros das comunidades reuniram-se junto da igreja para assistir ao “acender do fogo novo”. E a magia de que alguém me tinha falado começou...

Tentem imaginar uma roda de pessoas, tendo no meio uma enorme pilha de madeira preparada à espera do “fogo novo” e uns grupinhos de cinco homens e três mulheres (eu também fui, incentivada pelo Pe. Jacob e movida pela minha curiosidade) de cócoras, junto de dois pedaços de madeira que cada um sem cessar e rotativamente ia friccionando para manualmente “fazer o fogo”. Todos na roda humana esperavam este “nascimento” para acender o círio pascal e assim iniciar as cerimónias pascais deste ano.

Para quem está habituado a estas andanças, diz que desta vez a pequena brasa, que se formou do trabalho conjunto de sete pessoas, nasceu rapidamente... E a pequena brasa, celebrada com gritos de espanto e de júbilo, foi aninhada com todo o cuidado em “raspas” de madeira e depois de bem “pegada” e forte, foi queimar a fogueira que ali estava à sua espera.

De pequena, a fogueira cresceu para dar lugar a um fogo vivo, para contentamento, cânticos, palmas e alarido de todos. O círio pascal foi aceso a partir deste “fogo novo”, iluminando o caminho até ao altar da igreja. Este deu a sua luz, em conjunto, com as velas, e foi com esta luz que se realizaram os 97 baptismos de adultos e os 56 casamentos (!), que ali aconteceram nessa noite. Para receber o baptismo tinham uma tina de latão e uma cabaça que serviram de pia e “concha” baptismal, mas num local onde nem luz eléctrica ainda há, estas condições não incomodam o povo, que se encontrava ávido pela presença de Deus em sua vidas. É curioso observar a fé e a persistência deste povo, quando pensamos que muitos vieram de muito longe, andaram muitos quilómetros a pé para estar nesta noite e nesta igreja para receber o seu baptismo ou matrimónio, para assinalar a ressurreição do Senhor, de uma forma tão bonita.

A missa prolongou-se por mais de cinco horas mas, para a maioria dos que estavam presentes, passou bem depressa, entre cânticos, leituras e muita alegria pela celebração que se estava a realizar, e no final da missa, com todos sentados cá fora em silêncio, o nascer do sol sobre o monte deixou-nos de lágrimas nos olhos."

sexta-feira, 2 de março de 2012

[bodas beijo-de-mulata] mais um ano!


A flor beijo-de-mulata.

Por entre Brufenes e Ben-u-rons, dores de cabeça e no resto do corpo (descansem que não é malária!), mais os medicamentos dos meus sobrinhos, que estão iguais a mim (ou eu é que estou igual a eles, melhor dizendo), quase me esquecia de que hoje faz dois anos que me instalei, de armas e bagagens, aqui no mato, para tentar sanar um pouco as saudades de África!

Chamei beijo-de-mulata a este longe, em honra à história do Levítico, que gosto de recordar. Obrigada a todos os que não me deixam aqui sozinha, em especial aos que vêm também matar saudades e partilhar histórias comigo!

(um) beijo de mulata


Um Chá de Beijo-de-Mulata

"Há alguns anos, ainda quase recém-licenciada em Medicina, quando estava em missão de voluntariado em Moçambique, vieram trazer-me um adolescente de 15 anos. Estávamos em Naheche, uma aldeia perdida no meio da savana, onde nos tínhamos deslocado para a campanha de vacinação. O jovem impressionava pelos olhos tristes de quem não dormia há muitos dias e pela face emagrecida, profundamente escavada pela ausência do apetite próprio de quem está a crescer. Vinha acompanhado por uma senhora idosa e afável, de olhos baços, que se movia com a desenvoltura dos que há muitos anos se habituaram à escuridão permanente da cegueira. Alguma coisa de muito grave se passava com ele, dizia-me aquela avó, num sorriso tão triste que quase parecia um pranto. Estendeu a mão para a minha e guiou-me para a face do neto, percorrendo comigo cada relevo, detendo-se, certeira, em cada uma das suas inquietações…

– Esta criança não está bem – sussurrava-me –, está a ficar sem corpo e a pele já sobra em toda a parte… O problema está aqui.

Os gânglios do pescoço e por cima da clavícula estavam muito aumentados, duros, aderentes às estruturas vizinhas… assustadoramente malignos! Era possivelmente um cancro do sistema linfático, um linfoma daqueles que se for tratado a tempo não tem mau prognóstico mas que, se não se tratar, o desfecho é fatal em pouco tempo… Um linfoma de Hodgkin, se quiserem muito saber-lhe o nome. Fiquei muito preocupada. A imagem do menino correu pelos meios que tínhamos à disposição e uma onda de solidariedade na cidade natal de um dos padres daquela missão conseguiu angariar o dinheiro suficiente para o enviar para Maputo, a milhares de quilómetros dali, para ser tratado.

Duas semanas depois, ainda a tentar organizar a sua transferência para o Hospital Central de Maputo, observei-o novamente e notei que os gânglios se tinham praticamente reduzido a metade. Nos entretantos a família tinha obviamente ido procurar um médico tradicional, que lhe dera a beber chá de beijo-de-mulata. Evidentemente duvidei do curandeiro. Duvidei de mim própria. Não confiei na prova que os meus olhos podiam testemunhar. Acreditei só no prognóstico que vinha nos meus livros e, com o acordo da família, transferi o menino para o Maputo.

Anos depois, inteiramente por acaso, vim a descobrir que desta flor selvagem, que cresce quase como erva daninha por todo o país, se extrai a vincristina, um agente de quimioterapia activo contra o linfoma...

A lição não veio a tempo de intervir em seu favor. De qualquer modo hoje voltaria a fazer tudo da mesma forma. O chá de beijo-de-mulata, isoladamente, nunca o poderia ter curado. São precisos vários agentes de quimioterapia, num cocktail injectado veias adentro para se conseguir modificar o curso terrível do linfoma de Hodgkin. Mas foi nesse momento que percebi o quanto há ainda a aprender com África."

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

[welcome to mozambique] notícias de iapala






Imagens de Iapala... A estação de comboios, a esplanada do Sr. Omar e a festa de aniversário da filha do Chefe de Posto.
(Iapala, Nampula)

Para os que vêm aqui ao mato para matar saudades de Iapala ou à procura de notícias frescas, aqui está uma reportagem sobre Iapala, enviada pela minha querida amiga Cloé. E ou muito me engano ou foi escrita por quem conhece mesmo a terra há bastante tempo!

Fala de todas as pessoas-chave de Iapala, o Sr. Omar, o dono do único restaurante local, a que ele pomposamente chama de "Complexo" e que ainda hoje me escreve a agradecer por o ter tratado de uma malária cerebral, o Sr. Rui Santos, um comerciante local rico e benemérito, a agricultura de rendimento e o papel da empresa João Ferreira dos Santos até há alguns anos no desenvolvimento local, o chefe de posto e as suas idiossincrasias, a necessidade constante de transferir doentes para o hospital distrital através de caminhos inimagináveis, o papel do caminho de ferro na afirmação da localidade no passado...

Vale mesmo a pena para quem conhece!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

[14 de fevereiro] dia europeu da disfunção eréctil



Hoje, como convém relembrar, é o Dia Europeu da Disfunção Eréctil. Não sou militante desta causa. Não posso dar o corpo a todos os manifestos [salvo seja]... Respeito e apoio, porém, quem se dedica a ela porque é um problema muito mais frequente do que se imagina, sobretudo entre os jovens e, devido a ele, há entre nós muitos casais infelizes. A disfunção eréctil é geradora de inúmeras tensões e mal-entendidos. E até deixo a pergunta para a qual não há resposta, quantos casais terão ficado por construir por causa deste tabu? Aliás, quando entre mulheres se diz: "Sabes, ele tem um problema..." Já se sabe a que nos referimos, não é verdade?

Por isso, vou novamente agarrar o mote e recuperar o que escrevi no ano passado, já que não me apraz falar de São Valentim, um santo que foi banido da Igreja no louco ano de 1969 porque se provou que nunca existiu. E também porque até tenho uma história para contar sobre o assunto.

(continua...)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

[iapala] um quase-milagre, ou o epílogo, pronto

(continuando a história que começou aqui...)

Assisti à transfusão ao fim da tarde, com o sangue ainda quente, acabado de colher, que não havia tempo a perder em contemplações. Já nem sabia por que estava a fazer aquilo. Era só por descargo de consciência, para não me sentir culpada depois, porque o menino não tinha quase hipótese nenhuma! Em coma profundo há mais de 48 horas, com uma anemia gravíssima e insuficiência cardíaca. Já tinha estado com hipertensão intracraniana tão grave que tinha quase morrido, não fosse uma viagem intempestiva ao hospital mais próximo para fazer uma medicação de emergência. Tínhamos decidido fazer transfusão de manhã e já eram cinco da tarde quando a começámos... Tudo a correr mal, como sempre! O Sr. Cachimo brincava com os pais:

- É sangui di branca! Branca bem alimentada. É sangui forte! Minino vai ficar bom.
- Não diga isso, Sr. Cachimo, o menino está muito doente, não devemos dar esperanças aos pais.
  
E posso poupar-vos aos pormenores do que se passou em seguida. Posso dizer-vos que continuámos o tratamento e, ou pela medicação, ou porque o menino ainda tinha a fontanela* aberta e portanto o crânio suportou todas as mudanças de volume do cérebro, ou por milagre… por mil razões que desconheço, na manhã seguinte, contra todas as expectativas, contra as minhas convicções mais profundas, quando o fui visitar não o encontrei na cama. Estava ao colo da mãe no pátio, em silêncio, a mamar olhando para ela... Não tinha metade do corpo paralisada, como eu temia. De facto, não aparentava sequelas nenhumas. Teve alta dias depois.

Eu não queria acreditar! Mais uma vez me reconciliava com o povo macua e com os seus valores de família e da vida. E admirava a calma e a sabedoria da Irmã Lurdes… Podem dizer-me que os doentes não lêem os livros. Eu também sei disso.

Mas só voltei a ver uma situação parecida uma vez no Gilé, na Zambézia. Um menino que também esteve em coma com malária cerebral. Depois de ter começado o tratamento e de o ter estabilizado constatei, horrorizada, que quando o estimulava, ele reagia em descerebração (um dos sinais mais graves de lesão cerebral e com prognóstico quase invariavelmente fatal; quando os doentes permanecem vivos ficam sempre com sequelas). Mais uma vez me arrependi em silêncio de o ter estabilizado e percebi que era fútil tentar medidas heróicas para o tratar. Mas, dias depois, o menino acordou enquanto eu o estava a observar, olhou para a mãe, sorriu e lançou as mãos ao meu estetoscópio vermelho, que balançava em frente aos seus olhos e começou a brincar com ele. Ainda estava um pouco lento… Mas dias depois brincava como uma criança normal! Sinceramente, meus amigos, não conheço nenhum médico que tenha visto uma criança recuperar sem sequelas depois de ter estado em descerebração. Já perguntei a muita gente que trabalha em cuidados intensivos e nunca ninguém viu um fenómeno destes. Não estou a inventar. Tenho testemunhas!
  
Mas não gosto de pensar que foi um milagre. Perturba-me ter de recorrer a uma explicação não científica para compreender um fenómeno destes. Por isso peço-vos, meus amigos, para eu não estar sozinha neste mato sem saber o que pensar, respondam-me: O que acham disto? Alguma vez se arrependeram amargamente de ter reanimado alguém e depois tiveram uma surpresa deste tipo?

Agradecida...

* Fontanela – Nome técnico dado à separação entre os ossos frontal e parietais na abóbada craniana, designado popularmente por “moleirinha”.

[iapala] os rumores de santidade...


(continuando a história que começou aqui...)

Quando, dias depois, o Sr. Cachimo me falou do rumor que corria em Iapala foi a minha vez de me intrigar. Fiquei desconcertada, confesso. Diria mais: de facto na altura fiquei um pouco desiludida até... Quase irritada. Porquê aquele alarido todo? Para quê aquela romaria ao hospital, alqueles olhares furtivos para dentro da enfermaria e do meu gabinete de consulta? Tinha sido apenas uma unidade de sangue. Um gesto banal que requer muito pouco esforço. Eu não tinha dado um rim, valha-me Deus! Não me tinha custado rigorosamente nada. Se eu tinha feito algum esforço tinha sido para estar ali em Iapala, longe de tudo e de todos, longe da minha família, de licença sem vencimento e com uma passagem de avião paga por mim. Tinha sido difícil vencer o receio, a inércia, a vontade de passar mais tempo com a família e com os amigos, o receio de sair da tal “zona de conforto”. Mas mesmo esse esforço, no fim de contas, não tinha sido assim tão grande. Somos felizes quando não desistimos e lutamos por aquilo que amamos! Mas claro, isso em Iapala ninguém se tinha questionado. Estava longe demais da sua própria realidade para perceberem o que quer que seja do esforço que tinha sido chegar ali. Dar sangue era um gesto que estava ao alcance de qualquer um e por isso conseguiam raciocinar sobre ele, colocar-se no meu lugar. Isto sim, deu-me que pensar…

(continua...)

[iapala] dar sangue é ser herói?


O Sr. Cachimo a colher-me sangue...
(Iapala, Nampula)

(continuando a história que começou aqui...)

Horas depois o Sr. Cachimo entrava na minha sala sem o sorriso habitual. Sem me olhar nos olhos, sem a vontade de me dar um beijo estampada do rosto. Estava preocupado.
– É mesmo preciso fazer transfusão?
– Sim, o que é que se passa?
– Já testei toda a família. Só a mãe e o tio são compatíveis.
– E então?
– A mãe está di grávida e tem anemia de 7 gramas, não pode dar sangue e o tio testou positivo.
– Positivo para quê?
– Para Hepatite B.
– E o menino não está vacinado?
– Nada, em Moçambique não se vacina para Hepatite B ainda. Talvez no próximo ano, agora não…
– Valha-me Deus, mas ele tem uma família tão grande, é um grupo de sangue assim tão raro?
– Nada, ele é A positivo, mas na família são todos B ou AB.
– Valha-me Deus e agora? Costuma haver voluntários?
Isshh, aqui em Iapala? Nada… Ninguém quer dar sangue, só se for para um familiar muito próximo! Dizem que os homens perdem a força para brincar com as esposas e que mulher não consegue nascer depois.
– Que disparate!
– Sim, mas aqui todos têm anemia, é um esforço muito grande, fica-se fraco mesmo!
– O que é que podemos fazer?
– Não sei também. Problema di sangue... Iapala é assim a toda a hora.
– Vou pedir ao Senhor Padre para dizer na missa que há um menino que precisa de sangue. Pode ser que apareçam voluntários.
Isshh, é uma batalha perdida…
– Bem… eu sou A positivo também! Acha que eles vão aceitar que eu dê sangue para o menino?
– Claro! Claro que sim, como não? Mas… mas… vai dar sangue? Não tem medo?
– Medo de quê?
– De não conseguir nascer depois…
– Cachimo, por favor! Não fale como os doentes! Eles não fizeram um curso técnico, não foram à escola, não sabem que o sangue se renova.

Baixou os olhos, envergonhado…
– Tem razão.
– Vamos lá então, vamos ver se eu sou compatível. 

A família nem queria acreditar! A notícia espalhou-se pela localidade inteira, mais rápida do que qualquer má notícia (dizem que as más notícias obedecem a leis especiais de propagação e que se difundem mais rapidamente do que qualquer outro tipo de informação, seja através de que meio de comunicação for, mas as fofocas também conseguem ser rápidas). A médica que tinha vindo de Portugal ia dar sangue para um menino que não conhecia! O que se passaria? Não estava a ter um caso com o pai da criança, não queria ganhar eleições, não estava a tentar ganhar reputação entre a população porque todos sabiam que se ia embora no final do mês… A que propósito estaria ela a fazer um gesto tão gratuito e tão generoso? As pessoas ficaram genuinamente comovidas. Passaram a olhar-me com outros olhos. Não só a família, mas toda a localidade.

(continua...)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

[instantes] à porta do centro de saúde...



À porta do Centro de Saúde de Ocua, esperando consulta...
(Ocua, Cabo Delgado)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

[instantes] brincando à porta de casa...


Brincando sozinho na rua...
(Iapala, Nampula)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

[iapala] de volta ao hospital...

(continuando, já que insistem...)
– Mas as pessoas não têm mais nada que fazer? Aceitam ir a todas as cerimónias? Isso acontece muitas vezes?
– Para aí uma vez por ano para cada menina…
– Bem, com estas famílias grandes as pessoas não devem fazer mais nada! Se morre alguém são três dias, se alguém está doente podem ser semanas no hospital, se uma menina acaba o namorico, são mais dois dias…
– Sim, mas isto é geralmente ao fim de semana. Não interfere muito com a vida das pessoas. Pior é mesmo quando têm de ir para o hospital longe de casa. Isso é que desloca a família toda muitos dias e não conseguem mesmo trabalhar nada nessa altura… Chegam a perder as colheitas todas por causa disso, infelizmente…
– Por isso mesmo, deviam trabalhar sempre que fosse possível.
– Mas eles trabalham. As pessoas aqui são trabalhadoras. Mas pensa assim: a cerimónia do “muru tokotokho” é como se fosse um pretexto para reunir a família por causa de alguém. Nós também fazemos isso. Nos aniversários, por exemplo. É bonito. Faz bem. Dá uma sensação de união, uma noção de que se é importante… Muita gente me critica por mandar as meninas fazer cerimónia a casa, mas eu acho importante que elas tenham o apoio da família.
– Tem razão, realmente… Mas deve ser difícil lidar com tudo isto.
– Às vezes é difícil, sim, amiga… Todos temos a nossa cruz e eu tenho a minha, que é ajudar estas meninas… Mas é preciso ter muita fé e acreditar muito que vai tudo correr bem. É como o teu menino de hoje.
– Ah, ele só se houver um milagre… Ele está muito mal, Irmã. Nem sei se fizemos bem em dar esperanças à família. Por falar nisso, já passou uma hora, tenho de lá ir outra vez ver se pelo menos ainda está vivo.
– Está de certeza, não se ouviram gritos…

Nem de propósito, naquele momento ouviu-se um alarido enorme vindo do hospital…
– Ai… foi ele, de certeza, Irmã!
– Não… deixa ouvir… Ah, foi uma menina que nasceu! Não foi o teu menino. Os gritos são diferentes…
– Bem, tenho de lá ir…

Voltei para o hospital. O menino continuava deitado no berço, sem se mover. A respiração estava mais tranquila, o coração batia mais certo, mas continuava em coma. Olhei melhor para ele... Alguma coisa na face se tinha alterado... Belisquei-o para ver se pelo menos reagia à dor e fiquei horrorizada! Em resposta à dor ele tinha mexido levemente apenas um dos braços… Tinha metade do corpo paralisada! As lágrimas começaram a correr-me. Tinha sofrido danos cerebrais graves…

(continua...)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

[desabafos de uma médica] proposta desonesta...

Confesso, meus queridos amigos, que já estou a ficar um pouco cansada da história da "cabeça grande", da gazela, dos tabus e da ética do povo macua... O problema é que não a podemos dar por terminada porque deixámos um menino em coma no hospital e ainda temos de ir cuidar dele quando acabarmos esta conversa.

Nem sei se alguém ainda se lembra por que é que estamos com esta conversa toda. Eu resumo-vos, então, se não quiserem ir ler a história a partir daqui: um menino de 15 meses chegou completamente em coma ao hospital de Iapala com malária cerebral e, quando percebi que ele estava em risco de vida e só havia um medicamento que o podia salvar, disseram-me que esse medicamento estava  trancado no armazém e que o director do hospital tinha ido à cidade e levado a chave com ele. Fiquei louca! Felizmente, a Irmã Lurdes, pragmática como sempre, acabou por tomar a iniciativa de nos meter a todos no carro até ao hospital mais próximo e conseguimos a medicação para o menino.

Chegámos ao hospital com ele vivo, mas ainda não percebi se fomos a tempo porque ele continua em coma. Neste momento só nos resta esperar e aqui estamos nós, à espera que o tempo passe, enquanto a Irmã Lurdes me tenta acalmar. Em conclusão, estamos num momento "Senhor, dai-me sabedoria para compreender este povo, porque se me derdes força eu vou desatar ao murro a toda a gente!".

Mas já estou cansada... Portanto, eis aqui a minha proposta [é desonesta, eu sei, mas quem diz a verdade não merece castigo]: eu digo-vos que acaba tudo em bem, que o menino fica bom, e passamos à próxima história. Que me dizem?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

[tabus e tradições] a cerimónia da gazela


Instante no Kruger Park
(África do Sul, foto da R.)


– Mas... e no meio disso tudo não há ninguém que fale claramente do que aconteceu, não há ninguém que clarifique os sentimentos ou que explique como é que se deve fazer para a próxima?
– Não, ninguém fala. Só às vezes os homens quando bebem.

– Mas não há ninguém com ética nesta terra? Ninguém que dê o exemplo?
– Há, claro! Muita gente. O que eu acho é que é muito injusto para as pessoas. Sobretudo para os jovens e para os adolescentes. Eles têm uma consciência e sofrem como toda a gente. Só que têm de aprender às próprias custas que sofrem menos se não fizerem certas coisas. Mesmo que essas acções não sejam condenadas pela sociedade. Ou mesmo que ninguém saiba.

– Pois!
– É isso que eu tento explicar às meninas todos os dias. Que podem evitar o “muru tokotokho”, ou os remorsos, como tu dizes, e vão sofrer muito menos se não brincarem com os afectos, se não se envolverem com alguém de quem não gostam, se não prejudicarem os outros, se não roubarem…

– E elas entendem isso?
– Acho que só entendem quando passam por isso.

– E o que é que faz quando elas apanham a tal “cabeça grande”?
– Eu mando-as fazer cerimónia, claro, senão não passa nunca mais…

– Mas isso é reforçar esse comportamento e essa tradição. Não se consegue mesmo desmontar estas crenças?
– Eu nem tento. Elas vão um fim de semana a casa fazer a cerimónia, têm colinho da família e vêm geralmente mais bem-dispostas. Mas depois falo muito com elas, tento fazer uma reflexão sobre o que fizeram e o que sentem.

– Mas elas dizem-lhe o que foi?
– Não, claro! Mas eu geralmente sei. Ou foi um namorado que as deixou, ou foi alguém de família que faleceu e com quem elas tinham discutido sem fazer as pazes, ou foi alguma coisa grave com as amigas… enfim… geralmente não é muito difícil de perceber.

– Pois, os adolescentes são iguais em todo o lado.
– Sim, só que acho que estes são mais frágeis… Têm de aprender muita coisa às suas próprias custas. E é preciso ser muito inteligente para perceber o que se passa e ter crítica sobre a sociedade e a cultura. Não é fácil ter crítica quando não se pode falar com medo do que possa acontecer…

– Pois… não deve ser fácil. Mas nessas cerimónias vem mesmo a família toda?
– Vêm os que podem. Mas sim, geralmente vêm todos.

– E deixam tudo o que têm a fazer porque a menina teve um namorico, está envergonhada e portanto é preciso ir matar uma gazela?
– Bem, se pões as coisas dessa forma…

(continua...)

[instantes] um banho no rio monapo


Tomando banho e lavando a roupa pela manhã no rio Monapo.
(Iapala, Nampula)

Sim, já bebi desta água... E também já uma vez banhei os pés neste rio. Miraculosamente, a única doença que apanhei foi aquela que já tinha: o feitiço de África.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

[educação estética] e a "cabeça grande"

(continuando...)

– Ou seja, vergonha não é roubar, vergonha é roubar e ser apanhado! O meu pai também teoriza sobre isso: ele diz que é a diferença entre a “Educação Ética” e a “Educação Estética".

– Exactamente! É isso mesmo. É verdade isto que te digo.

– Mas não é assim tão simples. Se ele é mesmo boa pessoa como a Irmã diz que é, não acredito que não lhe pese na consciência se depois vir que a medicação fez falta a alguém e houve gente a morrer por causa disso! Mesmo que ninguém descubra. Aí qualquer pessoa se apercebe de que fez mal.
– Pois… aí entra-se numa dissonância.

– E então, aí não percebe que agiu mal? Ou há mesmo um aniquilamento total da consciência nesta cultura?
– Não, não há. Eu acho até que é por isso que este povo tem tantas neuroses, tantas depressões, tantos problemas psicológicos.

– Como?
– Sim. Quando alguém se apercebe do mal que fez mas mais ninguém se deu conta, a pessoa sofre. E é um sofrimento igual ao de uma depressão ou de uma perda importante. Até há uma doença que se chama “muru tokotokho”, que quer dizer “cabeça grande”.

– Cabeça grande?
– Sim, é uma doença muito difícil de tratar. Muita gente nesta terra sofre disso. Não só por terem roubado, mas também por terem lançado feitiços a outra pessoa, ou terem prejudicado alguém, ou feito um aborto, ou quando morre alguém e se sentem culpados por isso, mesmo sem terem culpa nenhuma.

– Em Português isso chama-se remorsos. Ou escrúpulos!
– Pois, mas não é só isso. Eles não têm como reparar o erro. Não podem contar a ninguém e também não podem ir ter com a pessoa a quem fizeram mal e confessar e pedir desculpa. Ninguém pode saber, porque isso sim é que desonra a família e os antepassados! E portanto ficam num beco sem saída. É por isso que é tão difícil de tratar.

– Irmã, que disparate!
– É assim que o povo pensa.

– Pronto, está bem… Realmente assim não deve ser fácil. Quando não se pode falar fica-se muito sozinho, de facto. E se for alguma coisa importante não se consegue deixar de pensar nisso. Por acaso até é uma metáfora bem apanhada: “cabeça grande”!
– Pois, quando alguma das nossas meninas começa a andar cabisbaixa, triste, sem conseguir comer e a queixar-se de dores de cabeça eu já sei que é o “muru tokotokho”.

– E não tem cura?
– Tradicionalmente tem. É preciso ir ao curandeiro e fazer uma cerimónia muito complexa, que envolve a família toda. É preciso ir à caça de uma gazela, remover-lhe o fígado, prepará-lo e dá-lo a comer ao doente de uma forma especial.

– Mas isso não resolve nada!
– Às vezes ajuda, sobretudo quando a pessoa se sente culpada mas não teve culpa nenhuma. O pensamento mágico aqui também está muito enraizado. As pessoas pensam, por exemplo que, por desejarem mal a alguém, podem mesmo fazer-lhe mal.

– Sinceramente, não compreendo!
– Não compreendes o quê?

– Não compreendo então como é que comer as vísceras de uma gazela faz com que a pessoa se sinta melhor!
– Ora, no fundo, junta-se a família toda numa festa onde se come gazela e se dança e se canta. Aproveita-se e matam-se saudades, tem-se mimo, conversa-se com quem já não se via há muito tempo… As pessoas ficam confortadas…

– Mas isso não resolve o problema de fundo.
– Pois, por isso é que se diz que “quem não apanha sorte” não fica curado. É preciso “apanhar sorte”. Mesmo que a cerimónia seja bem feita e corra bem.

(continua...)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

[não é vergonha roubar] vergonha é roubar e ser apanhado!

(continuando...)

Fomos jantar. Eu estava perturbadíssima, mal conseguia falar. Se tivéssemos a chave do armazém não teria sido preciso tomar aquelas medidas heróicas [heróicas ou ridículas?] e tínhamos começado a medicação mais cedo. Podia ser que assim o menino sobrevivesse. Da forma como ele estava agora, era quase certo que estava condenado!

– Tens razão, mas isto está sempre a acontecer. Antes de o Sr. Sousa ir para Nampula eu pedi-lhe a chave do armazém. Já sabia que isto ia suceder. Mas ele disse que não, que não era preciso, que tinha abastecido os armários com os medicamentos essenciais e que não dava a chave a ninguém!
– Os medicamentos essenciais? Nem adrenalina havia… nem havia manitol!

– Pois, mas o que é que queres? A ti perguntou-te alguma coisa? Se sugerias algum medicamento para ficar à disposição?
– Não, claro. Nem sequer me avisou que ia a Nampula.

– É por isso que a Irmã Sarala está exausta. Ela é indiana e pertence a uma família muito importante na Índia. São ministros, directores de grandes empresas, donos de hospitais… Antes de ir de férias até foi uns dias para a praia para ver se recuperava um pouco a disposição e eles não a verem naquele estado. Qualquer dia a família não a deixa regressar…
– Pois… não admira.

– Mas possivelmente não nos deixou a chave porque ele próprio deve ter roubado muitos medicamentos e foi vendê-los a Nampula.
– Credo! O Sr. Sousa?

– Sim, o Sr. Sousa! Ele até é boa pessoa, trabalhador, interessa-se pelos doentes e é muito nosso amigo. Tem-nos ajudado muito. Mas quando rouba, não rouba só um ou dois comprimidos, é logo aos milhares.
– Mas... E não há ninguém que o denuncie?

– Para quê? Ele é do Partido*, portanto está protegido. Quando muito é transferido para outro lado e metem aqui um pior do que ele. Este ao menos interessa-se pelos doentes e trabalha.
– Nem sei o que diga, Irmã! Mas como é que ele é capaz? Ele está a roubar os irmãos dele! Ele sabe que vai haver gente a morrer por falta de medicação! Pode até ser alguém da família dele.

– Pois, mas é mesmo verdade, para eu estar a dizer isto é porque tenho a certeza.
– Eu sei, Irmã. Mas como é que ele é capaz?

– Ah… e não lhe pesa nada na consciência. Para ele é simples: de onde aqueles medicamentos vêm, hão de vir mais. É uma fonte que não seca. Quando ele voltar de Nampula vai estar na altura da entrega da próxima remessa e ninguém vai dar conta de nada.
– Mas como é que a Irmã consegue dizer que ele é boa pessoa e depois dizer que não lhe pesa na consciência roubar medicamentos que fazem tanta falta?

– É uma questão cultural. Os princípios deste povo não são os mesmos que os nossos. Por muito que nos custe, para eles o que é errado não é apropriar-se de uma coisa que não lhes pertence. O que é errado é que outras pessoas se apercebam disso.
– Ou seja, vergonha não é roubar, vergonha é roubar e ser apanhado! O meu pai também teoriza sobre isso: ele diz que é a diferença entre a “Educação Ética” e a “Educação Estética".

* "O Partido" refere-se, obviamente à Frelimo.
 
(continua...)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

[malária] para grandes males, grandes remédios...



No hospital de Ribáuè...
(Ribáuè, Nampula)

(continuando...)

Apesar de o menino estar claramente em perigo de vida, a família anuiu e pusemo-nos rapidamente a caminho. A Irmã Lurdes no seu pragmatismo habitual de “para grandes males grandes remédios” e eu com a cólera de quem vê uma desgraça prestes a acontecer por causa de incompetências e falta de planeamento.

Mas era quase de noite e tinha chovido, por isso demorámos muito tempo a chegar. Tempo demais… A criança ia quase morta… E claro, não há milagres. No hospital de Ribáuè os medicamentos também estavam no armazém, que já estava fechado. Foi preciso mandar chamar o farmacêutico a casa, o que só fizeram por especial consideração para com a Irmã Lurdes, o anjo da guarda daquele povo. Todas as pessoas das redondezas tinham pelo menos um familiar que já tinha sido ajudado por ela.

Quanto a mim… estava louca! De raiva, de preocupação e insegura por ter arrastado a Irmã Lurdes e a família toda para aquele devaneio. E suspeitava que o motor daquela atitude desesperada não tinha sido a convicção de que o menino ainda podia sobreviver, mas a fúria contra o director do hospital! Não teria sido melhor deixar o menino em paz, ao colo da família, em vez de estar a forçar toda a gente àquele suplício de solavancos, angústias e frustrações?

Começámos a medicação mesmo in extremis. Por fim, perguntei à família se queriam ficar ou voltar connosco para Iapala. Talvez fosse melhor o menino ficar em repouso e não regressar por aquela estrada horrível, onde o carro escorregava como se estivesse a dançar sobre sabão. Mas eles queriam voltar, claro. Nem lhes tinha passado pela cabeça que havia hipótese de ficar em Ribáuè, de outro modo, provavelmente não se teriam sequer metido no carro…

Tinham-se decidido a vir porque estavam desesperados e nós lhes tínhamos dado uma saída, mas o terror de qualquer família macua é que um ente querido morra longe do local onde estão enterrados os antepassados, e esta família não era excepção. Tinham de voltar. Era preciso estar mais perto de casa se uma desgraça acontecesse, sob pena de a família ficar assombrada para sempre pelo espírito do menino.

Voltámos para Iapala já era noite fechada. Com a medicação, o coração tinha voltado a bater mais rápido e o cérebro já não dava tantos sinais de sofrimento, mas o menino continuava em coma. Estava na hora da segunda dose de quinino. Não havia mais nada a fazer senão esperar…

(continua...)