E perguntam vocês: "Mas, beijo-de-mulata, a ti, que já estiveste em Moçambique no meio do mato e sempre conseguiste dormir de noite, agora é que te dão as insónias?"
É verdade, meus amigos, quem visita este mato há mais tempo sabe que já estive metida em assados muito complexos, quase sem meios nenhuns para socorrer os doentes e que sempre me desenrasquei sem perder o ânimo. Que num surto de sarampo me morreram quase tantas crianças como as que faleceram em Manchester e que num surto de cólera na Zambézia morriam por dia tantos ou mais do que ontem. Que "parto sem dor" no hospital no Gilé era um parto em que mãe e filho ficavam vivos.
E que quando achamos que já vimos de tudo, quando pensamos que já vimos todas as desgraças do mundo, que já vimos pessoas a morrer e a sofrer, a suportar aquilo que achamos que vai para além da força humana, parece que deixamos de estar preparados para aceitar que pode haver pior. Ainda pior. Foi isso que percebi quando, depois de 15 dias sem arredar pé da porta do Instituto Nacional de Apoio aos Refugiados (INAR) em Nampula, tive finalmente autorização para entrar o campo de refugiados às portas da cidade e tratar os doentes de lepra que estavam a ser literalmente enterrados vivos pelos familiares. Nunca vos falei destes dias horríveis de descida aos infernos no campo de refugiados de Maratane porque nem eu própria gosto de me lembrar deles. De como os guardas do campo nos apontavam uma metralhadora à entrada só porque sim, nos revistavam o carro para nos intimidar e no final nos pediam boleia para casa, como se nada fosse. De como se podia ver o desespero na face das pessoas que não eram imigrantes naquele país. Eram toleradas se ficassem naquele espaço, mas tratadas como criminosas e aprisionadas se tentassem fugir. E fugir para onde, se não havia caminho de volta para casa? Sim, e não vos vou falar dos doentes de lepra. Eu própria não saberia como fazê-lo sem perder o sono.
E perguntam vocês, meus amigos: "Mesmo nesses dias conseguiste dormir?" E eu respondo que sim. Com mais ou menos dificuldade, mas sempre dormi de noite. E voltei no dia seguinte com ânimo e vontade. Porque sempre consegui sentir que fazia algo pelos doentes, porque apesar dos que morriam e sofriam, havia sempre muitos mais que sobreviviam e se curavam.
Mas o mais importante de tudo, à noite, não era saber que tinha conseguido ajudar. O mais importante nesses dias difíceis era saber que à noite tinha uma casa para onde voltar. Um colo para onde correr se estivesse mais triste. Uma casa segura, onde havia mimo, carinho e alegria. E tinha a minha própria família, se bem que a milhares de quilómetros dali, para onde iria voltar.
Foi isso que me faltou a mim ontem às pessoas que vi em Manchester. Porque o terrorismo é isso mesmo. Deixamos de ter uma casa segura para onde voltar. Onde construir raízes e criar os filhos. Bolas, como é possível?
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terça-feira, 23 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
[beijo de mulata fashion] o ouro da zambézia
Os meus brincos de ouro, made in Gilé
(Zambézia, Moçambique)
Já vos contei esta história. Hoje, ao escolher os brincos, encontrei estes aqui acima e não resisto a contá-la de novo!
Próximo do grande Centro Hospitalar do Gilé (o paupérrimo hospital do distrito), na mesma rua da pousada do Sr. Pompisk (para ele, mesmo que não nos esteja a ouvir, um abraço!), vivia o único ourives, o Sr. Elvis Pires. Não sei muito bem onde é que ele adquiria o ouro, mas suponho que o comprasse aos garimpeiros das minas situadas a poucos quilómetros da vila. Por acaso isso não me choca nada... Nem tenho a certeza de que os próprios garimpeiros teriam perfeita noção de que a exploração das minas e a comercialização do ouro da sua própria terra era ilegal, de tal forma era feita às claras.
Mas como eu ia dizendo, o Sr. Elvis Pires, a quem eu tratava respeitosamente por Sr. Ourives porque não conseguia evitar sorrir com o nome improvável, era um homem em muitos aspetos admirável. Apesar do nome, que nos faria pensar numa família vanguardista, as suas origens eram as mais humildes. Oitavo filho de uma família de camponeses, viveu uma infância igual à da maioria das pessoas do país: dormiu no mato durante os anos da guerra civil para se esconder dos ataques dos "bandidos armados", teve a casa destruída inúmeras vezes, viu irmãos morrerem às mãos dos guerrilheiros e sucumbir a doenças banais, teve várias doenças e medo de morrer em todas elas, foi mordido por uma cobra e sobreviveu miraculosamente graças a um curandeiro (esta última parte talvez não seja assim tão comum, mas enfim...). Mas o que fazia a diferença, o que fazia dele um homem remediado, que conseguia sobreviver e ganhar a vida sem ser de mão estendida ou dentro da máquina do partido, era ser um homem de iniciativa, um homem de sonhos e de trabalho.
Mas, por muito suor que empregasse nas suas obras, o Sr. Ourives, com muita pena minha, não era um artista nato. Não era um criador genial e inspirado. Podia ser um bom homem de família, um empresário honesto, um executante razoável, mas um artista sem ideias e com um gosto sofrível...
Por isso, a Irmã Lurdes, que pelas minhas contas há de vir a ser santa, nas suas idas a Paris trazia-lhe sempre catálogos de grandes marcas para ele se inspirar. O último tinha sido o da Cartier. Mas nem assim... Por um lado é preciso bom gosto por parte do artesão e, por outro, é preciso bom gosto e poder de compra por parte do mercado. Ou seja, mesmo depois de ter tido contacto com peças de elevadíssimo gosto em comparação com as suas, as obras de Elvis Pires continuavam as mesmas bolinhas e argolinhas algo toscas de sempre, que ele guardava amorosamente em pequenos saquinhos de comprimidos surripiados da farmácia do hospital...
Felizmente, no último ano em que lá estive, a Irmã Lurdes teve uma ideia genial! Numa ida ao Carrefour de Paris lembrou-se de pedir o catálogo da ourivesaria... A face do Sr. Pires iluminou-se quando o viu! Era todo um novo mundo de pequenas ideias acessíveis, simples e baratas ao seu alcance. E foi também com base neste catálogo que o Sr. Ourives recebeu a sua primeira encomenda de uma médica portuguesa. Meus queridos amigos, eu tive de me esforçar genuinamente, mas no meio do catálogo do Carrefour consegui encontrar um modelo de brincos engraçado. Ele ficou a babar-se. Já antes me tinha tentado vender sem sucesso algumas das suas obras, mas eu, por muito boa vontade que tivesse, não tinha conseguido comprar nada.
A minha intenção com esta encomenda era apenas dar trabalho a um homem de família (e, vá, também queria uma história para contar, pronto, já me conhecem...). Não tinha a mais pálida intenção de os usar mais tarde. Mas... e não é que ficaram perfeitos? É que até que não são feios... Atualmente uso-os de vez em quando. Por graça, mas uso.
Ah, e a sobrinha do Sr. Elvis Pires chamava-se Angelina Júlio! É uma coisa de família...
domingo, 7 de maio de 2017
[mamãs africanas] dia da mãe sem medo, nem dó, nem drama...
Mamãs de Nampula e da Zambézia
(Moçambique)
Dizem os portugueses que "quem tem mãe tem tudo, que não tem mãe não tem nada". Dizem os africanos, em jeitos de sinónimo (que todos os provérbios importantes existem com tradução): "casa sem mãe é um deserto".
domingo, 23 de abril de 2017
[zambézia, uma história de origens] filhos do coração
Vistas do Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)
(continuando...)
Reconheceram-se ainda assim. O perfume dos
cabelos de Gigi era ainda o perfume delicado do céu e das flores do frangipani.
E a barba de Trovão guardava o cheiro a terra molhada e a raiz de
embondeiro. Reconheceram-se e amaram-se, como se tinham amado desde sempre. Mas
a criação divina estava ainda no seu início, e os métodos de gerar vida
eram ainda mais que imperfeitos. Os olhos de Gigi a cada dia transbordavam de
um mar maior, e os olhos quentes de Trovão iam arrefecendo o desejo de
criar filhos com olhos de céu e cabelos de embondeiro.
Procuraram em vão quem
lhes revelasse os segredos dos antepassados, mas gerar vida está só nas mãos de
Muluku, era a resposta invariável.
Foi então que decidiram aventurar-se a tornar a
subir o Monte Namúli. Mas o monte onde outrora corriam felizes
e despreocupados era agora o grande tabu da criação. Dizia-se que nenhum
adulto deveria subir ao monte de onde viera o primeiro homem, sob pena de
sucumbir ao mais pérfido desejo telúrico. Mas já só isso lhes fazia
sentido, para desfazer a tristeza e a maldição em que viviam. Não temiam nunca
mais encontrar o caminho de volta porque já só tinham um caminho. E era um caminho só de ida… Tinham
de ir devolver ao embondeiro as raízes que secavam o ventre de Gigi.
E, numa
madrugada, ainda cobertos de bruma e cinza, prostraram-se pedindo a Muluku
que os protegesse e perdoasse na subida. O peito pulava-lhes na ânsia do
interdito, num misto de medo e desejo, quando iniciaram a viagem... Mas a
montanha parecia chamá-los. Os espinhos encolhiam à sua passagem, as bagas
amadureciam, plenas de néctares açucarados e as folhas pareciam
cantar: "Não temam, pois tudo recomeça." Nunca o Namúli lhes parecera
tão convidativo, tão quente e húmido de vida.
Chegaram, por fim, ao cimo da montanha. Os olhos
de Gigi iluminaram-se de bons presságios quando viu que, da gruta revestida a
raiz de embondeiro, jorrava agora uma nascente de águas mornas. Os olhos de
Trovão prenderam-se num frangipani, cujas flores caíam,
delicadas sobre a nascente, perfumando o ar com o cheiro da sua doce mulher.
Sonhava por instantes, acordado, que Gigi estava em toda a parte, dissolvida e
pulverizada por todo o céu da montanha, quando um grito o fez despertar daquele
deslumbramento.
Gigi gritava, toda ela assombro e abismo, que aquela nascente
era de água salgada! Assistiram então, aturdidos, ao derradeiro jorro de água,
que secou a nascente, mar de súbito vazio, deixando em redor um manto de
sangue vivo. E depois de um momento, onde coube toda a dor, medo e desesperança
do mundo, ouviu-se, de dentro da gruta, um gemido. Seguido da gargalhada
inconfundível de uma criança. Precipitaram-se para dentro da gruta. Ao fundo,
ainda coberta de sangue e raízes, uma criança com olhos de céu, cabelos de
embondeiro e perfume de frangipani. Era uma menina. Uma menina linda e, espanto
dos espantos, já com dentes de leite. Os mesmos dentes de leite de seus pais. E
trazia dentro dela uma semente de embondeiro, sinal de que Muluku aperfeiçoara a criação e que não queria que os seus netos
tivessem de passar por todo aquele sofrimento para gerar vida. Felizes,
agradeceram a Muluku.
Mas Muluku avisou-os: Não vos esqueceis de que, a partir de hoje, toda a criação e futuro provirá desta criança, de cabelos perfumados e olhos de céu e de mar, mas lembrai-a sempre de honrar a seus pais, que tanto sofreram por terem filhos de sementes plantadas fora do corpo. Porque toda a criança é desejada e filha do coração.
Mas Muluku avisou-os: Não vos esqueceis de que, a partir de hoje, toda a criação e futuro provirá desta criança, de cabelos perfumados e olhos de céu e de mar, mas lembrai-a sempre de honrar a seus pais, que tanto sofreram por terem filhos de sementes plantadas fora do corpo. Porque toda a criança é desejada e filha do coração.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
[hoje foi o dia!] zambézia, uma história de encantar
O Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)
Fotos: Algumas são minhas, outras daqui.
As
Flores de Frangipani
Há muitos, muitos anos, a Zambézia era uma terra selvagem, quente de origens, onde nasciam fontes de águas mornas e perfumadas, onde a terra era tão fértil que as mais pequenas sementes podiam dar frutos e as montanhas se cobriam de um véu glaucomatoso todas as manhãs. Para que o céu só se mostrasse depois de todos estarem bem acordados para o poderem contemplar... Numa dessas montanhas, a que haveria de se chamar Namúli, o primeiro homem surgiu na bruma de uma madrugada, coberto de capim e de folhas, germinado nas raízes mornas de um embondeiro. E, depois de um urro de alvoradas, que só não faz parte da história porque ainda não estava lá mais ninguém para ouvir, olhou com espanto aquele céu de paraíso, agradeceu a Muluku, Deus dos antepassados, e desceu avidamente em direção à planície, começando a espalhar a sua semente pelo mundo.
Nessa terra verde, no coração de África, ainda a
criação divina não estava completa, nasceu anos depois, um menino de olhos
negros como a terra mais fértil, e cabelo crespo, como os irreverentes ramos de
um embondeiro. Era um menino com o coração doce e a cabeça cheia de aventuras,
a quem chamaram Trovão. A sua companheira de infância era uma menina terna, de
olhos azuis, transbordantes de futuros, e cabelos perfumados, cujo nome
seria Rosa, se nessa terra existissem rosas ou alguém já tivesse sonhado com flores
delicadas. Por isso lhe deram o nome das flores mais doces das árvores mais
altas, porque o seu perfume só poderia vir do céu. O seu nome era Frangipani,
mas todos lhe chamavam Gigi, como o som do seu sorriso.
Gigi e Trovão corriam felizes pelas montanhas,
trepavam ao cume do monte Namúli, comiam as bagas mais doces dos arbustos
espinhosos e construíam, entre segredos e gargalhadas, pequenas cabanas de
paus e de folhas, onde mal cabiam deitados e entrelaçados um no outro. Era lá
que se deixavam ficar em silêncio, na hora do calor, contemplando o céu pela
abertura no teto que Gigi queria manter descoberta a todo o custo, para
que o céu não lhe fugisse dos olhos e para sentir, nos dias de chuva, o sabor redondo
do sol. Por vezes, nos dias em que o calor se demorava e a terra estava
mais húmida e fértil, o próprio chão se entranhava entre os dois e criava
raízes, como pontes entre um e outro. E era quase difícil despegarem-se,
vestidos da mesma pele.
Os meninos foram crescendo, os dentes de leite
foram caindo e eles enterravam-nos no chão da cabana, onde, pouco a pouco, se
foi formando uma gruta, revestida a raiz de embondeiro. Mas, à medida que os meninos cresciam,
aqueles momentos de silêncio e cumplicidade foram-se tornando cada vez mais
raros. Já todos sabemos, mas eles não tinham quem lhes dissesse, e só depois
poderiam vir a descobrir, que na infância, a dada altura, há uma magia que
se quebra, uma gargalhada que se suspende, toda uma vida que se torna
memória... E no dia em que enterraram o último dente de leite, cada um seguiu o
seu caminho, porque desde que o mundo é mundo, para crescer é preciso
afastar-se da casa onde que se cresceu... Para se poder amadurecer
e depois poder amar e querer gerar vida...
Gigi e Trovão desceram do Monte Namúli e
cresceram em direções opostas, até que um dia, na planície se reencontraram.
Ele tornara-se um homem enorme, com a face e o peito cobertos de pelos, das
raízes do embondeiro que se lhe entranharam na pele nas longas tardes da sua
infância. Os olhos quentes continuavam doces e cheios de aventuras. Gigi
crescera para se tornar numa mulher linda, mas os olhos, outrora de céu, eram
agora olhos azuis de mar. As raízes do embondeiro cresciam no seu ventre,
secando-o por dentro. E o mar, que sonhava que um dia lhe cresceria no ventre,
para depois jorrar vida, só nos olhos lhe crescia todos os dias. E deles
transbordava todas as noites. Nos seus olhos já não se viam futuros por causa daquele
mar morto no seu ventre, onde só existia sangue e lodo…
(continua...)
quinta-feira, 20 de abril de 2017
[momentos para sempre] um dia deixo de escrever histórias clínicas...
... e escrevo uma história de encantar... Amanhã será o dia!
*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflacionista de águas gourmet
Houve tempos em que a viagem dos meus sonhos era ir até às plantações de chá do Gurué, perto das margens do rio Zambeze.
Um dia hei-de voltar... com o baby-de-mulata e Mr. Shaka e os que mais vierem!
(Gurué, Zambézia)
Como pano de fundo, o verde arrebatador e o mito da origem do primeiro homem ali mesmo, nas nascentes do Monte Namúli. Segundo a lenda macua-lomué, foi precisamente nesta montanha que a humanidade teve origem, e o primeiro homem terá surgido numa madrugada, germinado nas raízes de um embondeiro e, depois de beber das águas perfumadas das montanhas*, desceu calmamente em direção à planície e começou a espalhar a sua semente pelo mundo.
Hoje em dia, o Monte Namúli está envolto em mitos e tabus... Diz-se que só se pode subir depois de uma cerimónia longa e difícil levada a cabo por um régulo e com permissão dos antepassados, depois de rezas, oferendas e respeitos. Segundo o mito, e à maneira deliciosamente macua, o guardião do Monte Namúli começa a falar com os viajantes incautos de tal forma rápido que estes se baralham e nunca mais conseguem encontrar o caminho para casa...
(Adenda, por respeito à Prof. Doutora Ruiva, amiga deste mato: gostava que existisse um mito de origem da primeira mulher, mas suspeito que o primeiro homem macua se teve de desenrascar sozinho...)
*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflacionista de águas gourmet
quinta-feira, 10 de março de 2016
[inspiração para uma despedida] até sempre, irmã
Quem me conhece ou acompanha há mais tempo este blogue sabe que houve um blogue-antes-do-baby-blogue. Antes de ser mãe-do-baby-de-mulata eu era a beijo-de-mulata, e escrevia um blogue de aventura e saudade, um blogue que escrevia para manter vivas as recordações das missões em Moçambique, para que não me fugissem as imagens, nem os cheiros, nem as palavras, nem as músicas... nem a Irmã Lourdes. A irmã que me ajudou em tudo, que foi minha mãe, amiga, companheira, orientadora, animadora, mediadora cultural. Foi com os olhos dela que aprendi a amar o povo macua, compreender os seus paradoxos, as suas angústias, perdoar as suas negligências e atrocidades, admirar o amor incondicional que tinham pelas crianças, respeitar as tradições que protegiam as mulheres, as crianças e os idosos. Com ela aprendi a conhecer crenças, ritos, feitiços, aprendi a compreender de que falavam as pessoas no hospital quando me falavam de doença e o que esperavam de mim. E aprendi que só conhecendo a cultura podemos tratar verdadeiramente as pessoas, conquistar a sua confiança e comunicar.
Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."
Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.
"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.
Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.
Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.
Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.
Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.
E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!
Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!
Até sempre!"
Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."
Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.
"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.
Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.
Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.
Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.
Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.
E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!
Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!
Até sempre!"
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
[à beira do rio molócuè] anoitecer...
Uma mamã com o filho às costas tenta recuperar o seu precioso bidão de água que se lhe escapou no rio... Apesar de já existirem fontanários de água potável no Gilé, essa água é cara e as pessoas não se conseguem dar ao luxo de a utilizar para outros fins que não para beber. A água para cozinhar (que vai ser fervida), para lavar a roupa e tomar banho vem toda do rio... um rio onde eu não entraria sequer para molhar os pés porque, para além do perigo dos crocodilos, está infestado de doenças. A vida nem sempre é simples na Zambézia...
(Gilé, Zambézia)
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
[welcome to mozambique] o milagre da harmonia
Um exemplo do que vos disse ontem para que vejam como é verdade, verdadinha tudo o que vos contei (vêm muitas pessoas a este mato que não me deixam mentir, mas nem toda a gente sabe disso):
Uma madrugada eu, a minha amiga R. e as meninas que viviam connosco e com as irmãs fomos com um enorme grupo da comunidade a uma caminhada até ao cimo do monte Gilé. Esta atividade em grupo, intensa e animada, terminou numa missa campal em que as senhoras cantaram uma música que não conhecíamos.
Semanas depois, as meninas cantaram esta mesma música na missa. Precisamente no mesmo tom (haverá certamente algumas com ouvido absoluto, ou com uma capacidade de gravação notável, embora não o saibam). Com uma harmonia e segundas vozes irrepreensíveis! Nessa noite, quando as aplaudi e elogiei, olharam para mim, incrédulas do meu entusiasmo. Primeiro até pensaram que estava a brincar. Depois fizeram aquele olhar de adolescente: "Duh! Está aí alguém?" E eu continuei embasbacada e embevecida...
Uma madrugada eu, a minha amiga R. e as meninas que viviam connosco e com as irmãs fomos com um enorme grupo da comunidade a uma caminhada até ao cimo do monte Gilé. Esta atividade em grupo, intensa e animada, terminou numa missa campal em que as senhoras cantaram uma música que não conhecíamos.
Semanas depois, as meninas cantaram esta mesma música na missa. Precisamente no mesmo tom (haverá certamente algumas com ouvido absoluto, ou com uma capacidade de gravação notável, embora não o saibam). Com uma harmonia e segundas vozes irrepreensíveis! Nessa noite, quando as aplaudi e elogiei, olharam para mim, incrédulas do meu entusiasmo. Primeiro até pensaram que estava a brincar. Depois fizeram aquele olhar de adolescente: "Duh! Está aí alguém?" E eu continuei embasbacada e embevecida...
P. S. - Claro que o baby-de-mulata sabe esta música. Continuamos no nosso trabalho de inculturação e exercícios africanos. Há tempos hesitei em cantar-lhe uma música em inglês porque se calhar "ainda era muito cedo". Depois lembrei-me que ele já canta em Macua...
domingo, 20 de janeiro de 2013
[welcome to mozambique] o som de áfrica...
Para todos os que, como eu, têm saudades e gostariam de estar neste momento no meio de uma dança e de uma harmonia como esta, só com batuques, vozes, língua macua e menear de ancas. Para os que não conhecem, apreciem o pulsar das gentes, a inesperada harmonia espontânea criada só com vozes e aprendam como se faz o "Elulu" (alarido) das mulheres (2:40). Bom domingo!
(Gurué, Zambézia)
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
[pelo sonho é que vamos!] dobrando 2012
Até tenho pena de deixar este ano... É quase isso que eu sinto. Este 2012 começou turvo, cinzento e triste, mas foi o ano em que me reinventei, em que deixei de chorar todos os dias, de me entristecer com ausências, foi o ano em que me enamorei à primeira vista pelo baby-de-mulata, sonhei que seria mãe dele nesse mesmo dia e, ao contrário do meu enorme desgosto que aconteceu há quase dez anos, desta vez cheguei a tempo! Melhor, muito melhor: há quase dez anos não cheguei a tempo de me despedir do meu amor pequenino. Este ano cheguei a tempo de ser mãe de um menino encantador, e com uma força interior admirável!
Ao lado disso, tudo o resto que me aconteceu este ano, desde o lançamento do livro até ter sido eleita para a direção de uma das maiores ONG do país, nada me parece extraordinário! Mas, pronto, para que conste em ata e antes que venha a piadola: também já plantei uma árvore. Foi em 2010, na Zambézia, com o coração apertado, quase na despedida de Moçambique. Um momento simbólico, porque naquele momento acreditei, com todas as minhas forças, que se a árvore vingasse, voltaria àquele lugar que eu amo. Hoje continuo a acreditar que voltarei, até porque a árvore, dizem-me, já deu frutos. Só não vos provo o que vos digo com uma foto da minha pessoa a plantar a dita porque estou numa posição muito pouco digna e-eu-agora-sou-mãe-de-família-tenho-que-me-dar-ao-respeito... Mas vem aqui gente que não me deixa mentir!
Chego a 2013 sobretudo profundamente grata! Grata pela vida e grata a todos os que me provaram, mais uma vez, que a vida é simples. Desejo-vos a todos mais um ano muito feliz.
Ao lado disso, tudo o resto que me aconteceu este ano, desde o lançamento do livro até ter sido eleita para a direção de uma das maiores ONG do país, nada me parece extraordinário! Mas, pronto, para que conste em ata e antes que venha a piadola: também já plantei uma árvore. Foi em 2010, na Zambézia, com o coração apertado, quase na despedida de Moçambique. Um momento simbólico, porque naquele momento acreditei, com todas as minhas forças, que se a árvore vingasse, voltaria àquele lugar que eu amo. Hoje continuo a acreditar que voltarei, até porque a árvore, dizem-me, já deu frutos. Só não vos provo o que vos digo com uma foto da minha pessoa a plantar a dita porque estou numa posição muito pouco digna e-eu-agora-sou-mãe-de-família-tenho-que-me-dar-ao-respeito... Mas vem aqui gente que não me deixa mentir!
Chego a 2013 sobretudo profundamente grata! Grata pela vida e grata a todos os que me provaram, mais uma vez, que a vida é simples. Desejo-vos a todos mais um ano muito feliz.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
[a riqueza] feliz dia mundial da criança!
As crianças são, no dizer do povo, a riqueza mais preciosa de Moçambique...
(Murrupula e Gilé, Zambézia)
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
[zambézia versus paris versus new york] criaturas lendárias...
Nova Iorque tem o King Kong, Paris o Quasimodo, mas...
a Zambézia é exótica!
Este é um repost sobre o mito de origem dos macuas, o povo que habita algumas províncias do norte de Moçambique... Sobre o guardião do monte Namúli, vale a pena ler a explicação do Vítor, correspondente honoris causa deste mato, atualmente residente na Dinamarca, mas que viveu na Alta Zambézia durante anos...
Perto de Guruè, na Zambézia, fica o Monte Namúli, que é a segunda montanha mais alta de Moçambique e é, para as pessoas da região, os macuas-lómuès, o berço da Humanidade. Dizem que lá se podem ver as pegadas do primeiro homem. Mas não se devia poder. Quer dizer, ninguém devia poder vê-las. Parece que as coisas mudaram um bocado desde que eu vivi naquela província, e vi guias de viagens recentes que aconselham caminhadas no Monte Namúli. Antigamente só se podia escalar a montanha até um determinado sítio. A partir daí, era proibido, porque era terra sagrada. O castigo de quem se aventurasse até à parte de cima do monte era (como é muitas vezes, nesta parte do mundo, o castigo de quem viola alguma regra costumária) a pessoa perder-se e nunca mais encontrar o caminho para casa.
O que é original – e delicioso, na minha opinião – na lenda macua é a maneira como a pessoa se perde: se o guardião eterno da montanha lá apanhar alguém, começa a falar com essa pessoa tanto e tão depressa que a confunde completamente; e ela, de tão baralhada que fica, nunca mais encontra o caminho de volta.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
[zambézia revisitada] histórias para o baby-de-mulata
Houve tempos em que a viagem dos meus sonhos era ir até às plantações de chá do Gurué, perto das
margens do rio Zambeze... Um dia hei-de voltar... com o baby-de-mulata!
(Gurué, Zambézia)
Como pano de fundo, o verde arrebatador e o mito da
origem do primeiro homem mesmo ali ao lado, nas nascentes do Monte Namuli. Segundo a lenda macua, foi precisamente aqui que tudo começou, e o primeiro homem terá
surgido na bruma de uma madrugada glaucomatosa, coberto de capim e de folhas,
germinado a partir das raízes de um embondeiro e, depois de um urro original que
tenho para mim que só não faz parte do mito porque ainda não estava lá mais
ninguém para ouvir (porque homem que é homem grita quando nasce, e o primeiro
homem só pode ter gritado de prazer olhando aquele céu de paraíso), depois de agradecer a
Muluku, o Deus dos antepassados e beber das águas perfumadas das
montanhas*, desceu calmamente em direcção à planície e começou a espalhar a sua
semente pelo mundo.
(Adenda, por respeito à Prof. Doutora Ruiva, amiga deste mato: gostava que existisse um mito de origem da primeira mulher, mas suspeito que o primeiro homem macua se teve de desenrascar sozinho...)
*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflaccionista de águas gourmet.
domingo, 23 de setembro de 2012
[zambézia] a escola da aldeia
São estas as escolas das aldeias da missão do Gilé. Por vezes é atroz pensar nas condições em que estas crianças estudam... Mas chega a ser comovente quando percebemos que os estabelecimentos de ensino são construídas à força de braços dos próprios habitantes da aldeia, para que os seus filhos tenham onde aprender... E os professores?, perguntam vocês. Os professores são habitantes com mais estudos, vizinhos da mesma aldeia. Em vez de trabalharem na terra, toda a aldeia se organiza para lhe cuidar da machamba,* libertando-o para ensinar os filhos dos outros. São escolas comunitárias, uma ideia genial das irmãs...
(Gilé, Zambézia)
* Terreno de cultivo.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
[a força que um sorriso pode ter!] winnie the pooh na zambézia
Um menino com um sorriso delicioso brinca às casinhas num tronco de árvore, vestido com o que terá sido o pijama que deixou de servir a uma qualquer menina europeia. Na Zambézia ninguém conhece o Winnie the Pooh daquela camisola, e o que era adorno torna-se, para nós, apenas ironia. Para a criança nada disto importa. Só a árvore e a sua casinha de faz-de-conta.
(Gilé, Zambézia)
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
[welcome to mozambique] laços de família
Uma casa de família no Gilé, com panela, pilão e lenha à porta.
(Gilé, Zambézia)
Há dois dias, o comentador honoris causa deste mato (o lendário leitor que conseguiu provar-me, com provas de site meter, que era possível vir dar aqui, ao beijo-de-mulata, sem ser à procura de "mulatas nuas ou mulatas selvagens") colocou uma pergunta colectiva no facebook: Como seria que se dizia "irmã" em Changana*, alguém sabia?
Esta pergunta, aparentemente tão banal para um europeu, lançou o caos. Qualquer língua que se preze tem uma palavra para designar um filho da mesma mãe e do mesmo pai. Por vezes acrescenta-se uma expressão, mais ou menos sofisticada, para denotar um irmão que o seja apenas por parte do pai ou da mãe, como em Português**. E também não me choca que existam línguas em que a palavra irmão e irmã sejam a mesma, acrescentando-se em seguida uma partícula que defina o género, tal como em algumas línguas africanas em que, deliciosamente, se especifica se é um irmão "com azagaia" ou um irmão "com cesto".
Mas as relações de parentesco em Moçambique são complexas. E a relações determinantes para se considerar uma pessoa como "família" numa determinada cultura dependem da estrutura da sociedade. Por exemplo, numa sociedade matrilinear, como a sociedade macua***, que é a única que conheço mais ou menos bem, os descendentes de uma matriarca consideram-se todos irmãos. De tal modo que não existe a palavra "primo" e muito menos "primo em segundo ou terceiro grau".
E imagino até que esta situação não seja exclusiva dos macuas: uma vez, no meu hospital, estava eu a assistir ao parto de um bebé filho de pais naturais da Guiné-Bissau e a fazer-lhes as perguntas da praxe (se eram saudáveis, que idade tinham, se pertenciam a famílias diferentes), quando uma resposta me deixou estarrecida: eram irmãos! Irmãos?! Ai, valesse-me Santa Rita de Cássia...
Devo ter feito uma cara tão desconcertada que os pais também ficaram assustados. Mas foi então que me lembrei que as relações familiares podiam ter designações diferentes das nossas e eles ainda não saberem disso porque só viviam em Portugal havia dois ou três meses. Decidi-me a fazer a árvore genealógica e percebi que afinal eram primos em terceiro grau! Consanguíneos, é certo, mas enfim... podia ser muito pior!
A este propósito, a minha amiga M., voluntária durante quase dois anos em Moçambique, conta muitas vezes que houve um aluno que certa vez lhe disse que o colega com quem estava a brincar era seu irmão. "Mas vocês não vivem na mesma casa, pois não?", intrigou-se. Ao que ele lhe respondeu prontamente: "É meu irmão, mas é da barriga da minha tia, por isso não vive na minha casa, vive em casa dela!"
* Dialecto do sul de Moçambique.
** Os clássicos irmãos uterinos, irmãos consanguíneos ou irmãos germanos.
*** Etnia que habita as províncias do norte de Moçambique.
sábado, 1 de setembro de 2012
[welcome to mozambique] se queres ir longe...
Se queres ir rápido, vai sozinho, mas se queres ir longe, vai em grupo!
Provérbio Africano
(Subida ao Monte Gilé, Zambézia)
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
[zambézia] o meu hospital no gilé #11
Conversando e passando o tempo no pátio do hospital, à espera que a saúde dos familiares melhore...
(Gilé, Zambézia)
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
[zambézia] o meu hospital no gilé #10
A família de uma criança internada na enfermaria de Pediatria, deslocada em peso para acompanhar os pais, almoça calmamente no pátio do hospital enquanto aguarda a evolução da doença.
(Gilé, Zambézia)
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