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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

[de coração aberto] 2013...

 
Pescadores na madrugada...
(Praia das Chocas, Nampula)
 
 
Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama (1924-1952)

sábado, 22 de dezembro de 2012

[eu bem vi nascer o sol] algures no fim do mundo...



 O nascer do sol, vindo das águas mornas do Índico... São imagens do local mais próximo do fim do mundo onde alguma vez estive. Éramos as únicas pessoas naquela praia paradisíaca, para além de dois ou três pescadores que saíam de madrugada para tentar a sorte desse dia no mar.
A imagem perfeita de que todos os dias são um renascer! Boas festas!
(Praia das Chocas, Nampula)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

[nomes que dizem tudo #30] uma dupla imbatível



Missa dominical na Comunidade de Oito Quilómetros... Reparem no pormenor dos beijos-de-mulata suspensos no tecto, alegrando o ambiente!
(Ribáuè, Nampula)


Há alguns anos, na comunidade de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Oito Quilómetros*, em Ribáuè (Nampula), o Padre Gasolina nomeou como animador paroquial o Sr. Cinco Litros.

E durante os anos em que Gasolina e Cinco Litros foram parceiros, a paróquia de Oito Quilómetros foi de vento em popa e floresceu como nenhuma outra na província. Dezenas de jovens descobriram em Oito Quilómetros a sua vocação religiosa. É bonito ver como podem coexistir a harmonia, a fé, a esperança e a concordância sintáctica numa mesma comunidade...

* Uma aldeia assim designada por se situar ao quilómetro 8 da estrada que liga Iapala a Ribáuè. O nome da paróquia pode ler-se inscrito na parede atrás do altar na primeira foto. Para não pensarem que invento nomes e situações... É o problema do costume: a realidade não tem a menor obrigação de ser verosímil.

terça-feira, 15 de maio de 2012

[instantes] chocas-mar


Uma pausa ao início da tarde... estou tão fatigada...
(Praia das Chocas, Nampula)

sábado, 5 de maio de 2012

[momentos] nampula, a cidade linda!










Nampula, a linda!
(Cidade de Nampula, Moçambique)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

[rostos meninos] a força que um sorriso pode ter!


Um copo de água na escolinha...
(Itoculo, Nampula)
Imagem via Nakumi...

domingo, 15 de abril de 2012

[welcome to mozambique] inspira, retém... expira!




Como se atravessa esta estrada? Bem, primeiro reza-se o responso a São Cristóvão... Ah, não existe? Improvisa-se, ora essa! Depois inspira-se, mete-se a primeira, mete-se a tracção... avançamos, aceleramos, nada de embraiagem, nada de mudanças, nem sequer uma segunda, continuamos a acelerar, a olhar apenas em frente enquanto fechamos os ouvidos. É imprescindível não ligar aos suspiros e aos "Ai, Jesus!" de quem está ao nosso lado e, necessariamente, menos optimista. Continuamos, sem fechar os olhos, sem um pestanejo, sem respirar... Pronto, já passou tudo! Expiramos e agradecemos. O companheiro do lado, agora menos pessimista, engole em seco. Metemos a segunda - num devaneio quem sabe até uma terceira! - e a viagem continua.
(Algures perto de Nampula, Moçambique)
Fotos da Irmã Helena

Isto é para quem me pergunta por que vou sempre para Moçambique na estação seca...

terça-feira, 10 de abril de 2012

[vozes brancas* #63] na escolinha de nampula!



Na fila para lavar as mãos antes de almoço...
A escolinha onde estudam os nossos afilhados à distância.
(Nampula, Moçambique)

Eu e os meus colegas do hospital temos uma afilhada nesta escolinha de Nampula, a Esmeralda, uma menina amorosa... Há uns dias a Irmã Assunção, directora da escolinha, contou-nos a última dela:

"Estávamos no pátio, quando a Esmeralda se dirigiu a mim e me disse: Irmã, eu ontem ti vi! Logo a amiguinha, não querendo ficar atrás: Eu também ti vi! E a Esmeralda: Tu não tiviste nada!"

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

quinta-feira, 15 de março de 2012

[promessas] in sporting we trust



Eu serei uma das que engrossará as fileiras dos que vão cortar o cabelo a Nampula no dia da vitória! Com uma ou duas ressalvas, claro... Por um lado não prometo fazer a barba. Por outro talvez na hora da verdade só me atreva a "cortar as pontas". Mas é pela fé que vamos!
Mais promessas aqui...
(Bairro de Namutequeliwa, Nampula)

quinta-feira, 8 de março de 2012

[a força de um olhar...] mulheres macuas






Mulheres macuas, com o rosto coberto por mussiro...

Adenda: Em atenção à Dona Sorrisos, que teve de pedir ajuda ao Santo António do google para saber o que era isso de mussiro, sugiro-vos que leiam isto...

sexta-feira, 2 de março de 2012

[bodas beijo-de-mulata] mais um ano!


A flor beijo-de-mulata.

Por entre Brufenes e Ben-u-rons, dores de cabeça e no resto do corpo (descansem que não é malária!), mais os medicamentos dos meus sobrinhos, que estão iguais a mim (ou eu é que estou igual a eles, melhor dizendo), quase me esquecia de que hoje faz dois anos que me instalei, de armas e bagagens, aqui no mato, para tentar sanar um pouco as saudades de África!

Chamei beijo-de-mulata a este longe, em honra à história do Levítico, que gosto de recordar. Obrigada a todos os que não me deixam aqui sozinha, em especial aos que vêm também matar saudades e partilhar histórias comigo!

(um) beijo de mulata


Um Chá de Beijo-de-Mulata

"Há alguns anos, ainda quase recém-licenciada em Medicina, quando estava em missão de voluntariado em Moçambique, vieram trazer-me um adolescente de 15 anos. Estávamos em Naheche, uma aldeia perdida no meio da savana, onde nos tínhamos deslocado para a campanha de vacinação. O jovem impressionava pelos olhos tristes de quem não dormia há muitos dias e pela face emagrecida, profundamente escavada pela ausência do apetite próprio de quem está a crescer. Vinha acompanhado por uma senhora idosa e afável, de olhos baços, que se movia com a desenvoltura dos que há muitos anos se habituaram à escuridão permanente da cegueira. Alguma coisa de muito grave se passava com ele, dizia-me aquela avó, num sorriso tão triste que quase parecia um pranto. Estendeu a mão para a minha e guiou-me para a face do neto, percorrendo comigo cada relevo, detendo-se, certeira, em cada uma das suas inquietações…

– Esta criança não está bem – sussurrava-me –, está a ficar sem corpo e a pele já sobra em toda a parte… O problema está aqui.

Os gânglios do pescoço e por cima da clavícula estavam muito aumentados, duros, aderentes às estruturas vizinhas… assustadoramente malignos! Era possivelmente um cancro do sistema linfático, um linfoma daqueles que se for tratado a tempo não tem mau prognóstico mas que, se não se tratar, o desfecho é fatal em pouco tempo… Um linfoma de Hodgkin, se quiserem muito saber-lhe o nome. Fiquei muito preocupada. A imagem do menino correu pelos meios que tínhamos à disposição e uma onda de solidariedade na cidade natal de um dos padres daquela missão conseguiu angariar o dinheiro suficiente para o enviar para Maputo, a milhares de quilómetros dali, para ser tratado.

Duas semanas depois, ainda a tentar organizar a sua transferência para o Hospital Central de Maputo, observei-o novamente e notei que os gânglios se tinham praticamente reduzido a metade. Nos entretantos a família tinha obviamente ido procurar um médico tradicional, que lhe dera a beber chá de beijo-de-mulata. Evidentemente duvidei do curandeiro. Duvidei de mim própria. Não confiei na prova que os meus olhos podiam testemunhar. Acreditei só no prognóstico que vinha nos meus livros e, com o acordo da família, transferi o menino para o Maputo.

Anos depois, inteiramente por acaso, vim a descobrir que desta flor selvagem, que cresce quase como erva daninha por todo o país, se extrai a vincristina, um agente de quimioterapia activo contra o linfoma...

A lição não veio a tempo de intervir em seu favor. De qualquer modo hoje voltaria a fazer tudo da mesma forma. O chá de beijo-de-mulata, isoladamente, nunca o poderia ter curado. São precisos vários agentes de quimioterapia, num cocktail injectado veias adentro para se conseguir modificar o curso terrível do linfoma de Hodgkin. Mas foi nesse momento que percebi o quanto há ainda a aprender com África."

sábado, 11 de fevereiro de 2012

[instantes] a força que um sorriso pode ter!


A escolinha da Santa Cruz. As crianças são lindas em qualquer parte do mundo desde que tenham saúde e alguém que as ame!
(Nampula, Moçambique)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

[instantes] a vida a despontar!


Gémeos! Um dorme na capulana, encostado às costas da mãe e o outro mama enquanto espreita, curioso, aquela loira desconhecida que o fotografa, meio escondido pelo peito da mãe. Vieram buscar o irmão mais velho à escolinha.
(Escolinha de Muahivire, Nampula)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

[reabriu a escolinha!] dia de choro e colinho...




A escolinha onde andam os nossos afilhados à distância!
(Muahivire, Nampula)


A minha amiga Irmã Assunção mandou-me ontem um mail e aproveitou para me dar notícias dos nossos "afilhados":

"A escolinha reabriu ontem. Está cheia de crianças, quase 300, não temos nenhuma vaga. Estão ainda em fase de adaptação, muitos choram o tempo todo. É "dia de música", como dizem os educadores. "Kinrowa owani...", choram eles [Quero ir para casa]. Mas chamei as outras Irmãs, os empregados da Biblioteca, da portaria, da ATL, para virem "dar colinho" nestes primeiros dias de adaptação. Algumas senhoras do bairro com meninos mais velhos que já estão na escola primária também se ofereceram para nos vir ajudar a animar os mais pequeninos e foi uma boa experiência. Assim, com muitos colos, as coisas correm melhor.

Uma pequenita de 3 anos dizia-me muito entusiasmada: "Titia, eu já estudo! A minha sala é ali!". E outra: "Olha, eu já cantei, já dancei, já comi, já fiz desenho, agora chega! Quero ir para casa!" São uns queridos..."

sábado, 21 de janeiro de 2012

[sabes que és workaholic quando...]

Hoje perguntaram-me, para uma entrevista sobre a minha actividade de voluntariado em Moçambique, se cheguei a aprender a falar os dialectos das províncias onde trabalhei. Respondi que sim, o suficiente para me orientar minimamente no hospital. Felizmente tive sempre quem me ensinasse. É quase impossível trabalhar sem saber nada do dialecto local porque quase ninguém fala Português fora das grandes cidades.

Era uma entrevista para uma revista para jovens, portanto pediram-me que lhes dissesse quais tinham sido as primeiras palavras em cada um dos dialectos. Pensei um pouco... Pensei mais. Por fim lá me recordei:

- Em Changana, que é o dialecto de Maputo, foi Xikoxola*.
- Que quer dizer?
- "Tosse com expectoração."

[Desiludido] - Ah... E em Nampula, qual é o dialecto?
- Macua. E a primeira palavra foi: Mwikhusoleke!
- E o que quer dizer isso?
- "Faça força!"
- Faça força?
- Sim, no primeiro dia tive de ir para a maternidade porque houve muitas complicações de partos...

[Ainda mais desiludido] - Ah... e na Zambézia?
- Em Lomué foi uma frase inteira: Mwana ola olavula pama?
- Credo! E isso é o quê?
- "O seu filho fala bem?"
- Pronto, deixe lá estar... Como é que se diz "bom dia" em Lomué, por exemplo?

* Eu não sei escrever changana, isto é uma transcrição macarrónica.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

[a riqueza de moçambique] crescer!


- Irmã, meu minino já está crescido!
Imagens da festa de "finalistas" da escolinha das Irmãs, frequentada pelos meninos mais pobres do bairro e que têm padrinhos em Portugal. (Os meus afilhados ainda não completaram a pré-primária...) O último dia na escolinha foi o dia em que vestiram, orgulhosos, pela primeira vez, o uniforme azul para a escola primária que começa agora. Um bom ano para todos!
(Bairro de Muahivire, Nampula)

[moçambique] been there, got the t-shirt



Moçambique no seu melhor!
Como diria Mr. umBhalane, o sócio correspondente nº 1 deste mato: este é um vídeo que se destina a todos os que já "beberam água do Zambeze" ou, pelo menos, a todos os que não dizem que dessa água não beberão...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

[um abraço ao sr. pompisk] força!

Vá, Sr. Pompisk, muita força! Aguente-se que os seus medicamentos devem estar a chegar a qualquer momento... Partiram daqui na sexta-feira, na mala de um missionário [com a ajuda da minha amiga M., que sabe sempre quem vai e quem chega], que os entregou à chegada a Maputo às Irmãs da Apresentação, que o entregaram a uma voluntária, que partia para Nampula no dia seguinte, no voo da manhã. As Irmãs de São João Baptista, minhas amigas, foram a casa dela buscar os medicamentos e entregaram-nos ao Sr. Abdul, capataz da empresa que está a fazer as obras de reparação do reservatório municipal do Gilé, que foi a casa delas esta manhã. Partiu ainda hoje para o Gilé e comprometeu-se a levar-lhe os seus medicamentos assim que chegasse.

Não consigo deixar de sorrir com esta cadeia de transportes... Isto é uma autêntica máfia! Tráfico de influências e de sorrisos, comandado pela minha amiga M.... A quantidade de pessoas que eu já conheci por causa de medicamentos não tem conta, mesmo não fazendo a mais pálida ideia de quem era e onde vivia o destinatário. Quando há boa vontade, tudo funciona, não é verdade? Ainda há duas semanas conseguimos mais uma proeza em tempo record para um doente com diabetes.

É bom fazer parte disto... As melhoras, Sr. Pompisk! Um abraço.

[notícias de nampula] quando falta água num hospital...

(...) A rotina das famílias [de Nampula] conheceu nos últimos tempos uma mudança forçada, estando dependentes o início das suas actividades diárias da hora em que começa a jorrar água nos fontanários públicos, onde se tornou comum ver longas filas de pessoas, sobretudo mulheres e crianças, com vários tipos de recipientes às mãos, aguardando a sua vez que não se sabe quando chega para obter o precioso líquido.

Num contacto com o administrador do Hospital Central de Nampula, a maior unidade sanitária da região norte, soubemos que a restrição do abastecimento de água à urbe afecta fortemente a gestão do hospital.

Todo o hospital, com cerca de 400 camas, necessita de grandes quantidades de água para atender às suas necessidades e os sectores da maternidade, enfermarias e morgue consomem quantidades que não se podem estimar, até porque a procura depende do movimento e do nível de internamento e óbitos.

A limpeza duma casa que recebe diariamente cerca de dez mil utentes, sobretudo acompanhantes e doentes para consultas externas, afigura-se complexa, sendo a água o principal motor dessa actividade.

“Na lavandaria, colocámos um reservatório elevado para garantir que a lavagem de roupas não fique afectada e, na morgue, disponibilizámos baldes de reservas de água para responder à lavagem dos corpos. Não obstante, algumas famílias trazem consigo galões de água para o mesmo fim, o que achamos positivo porque revela sensibilidade em relação à crise que todos enfrentamos”, acrescentou Maurício Afai. (...)

O resto da notícia aqui.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

[para que não digam que neste blogue não se aprende nada] fevereiro 2011

Em Janeiro de 2011 se calhar ainda nos safámos com a prova de conhecimentos. Já em Fevereiro de 2011, vergonhosamente, não posso dizer que quem me veio visitar aqui ao mato tenha aprendido muito... Ao que parece, passei quase o mês todo a mostrar-vos fotografias, a babar-me com os meus meninos da consulta, a escolher a banda sonora do filme cigano que eu tenho a certeza que um dia a minha vida há-de dar, e a contar a história da minha primeira vez em África...

Ainda assim acho que, quem cá veio com mais devoção talvez possa ter adquirido algum conhecimento sobre:

1º - O conceito de disfunção eréctil entre o povo macua [de meter qualquer europeu/ asiático/ americano ou mesmo macho latino num chinelo!];

2º - O modo de funcionamento e marketing dos curandeiros da Zambézia [tem como bónus uma história hilariante, uma daquelas improbabilidade que só me acontecem a mim, valha-me Santa Rita de Cássia];

3º - Um remédio tradicional quase infalível para curar a asma: uma casca de cágado [mas atenção aos efeitos secundários...];

4º -  Os medicamentos tradicionais mais vendidos em Nampula [para que não venham dizer que eu só digo disparates...].