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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

[cada mulher é uma ilha] ...que o mar só toca porque quer




O dia em que o Índico se tornou frio e distante e decidiu esquivar-se ao contacto íntimo e envolvente com o seu corpo... Nesse dia, a mulher, alheia a tudo quanto já tinha deixado de existir em seu redor, apanhava marisco na maré-vaza...



...no final do dia, a mulher, com o cesto cheio, levantou a cabeça e seguiu o seu caminho por entre as águas, acreditando ainda que pelo menos o mar e o céu são garantidos... e nunca chegou a perceber que o mar nos toca apenas porque quer. E o céu só ilumina quem ama...
(Ilha de Moçambique, Nampula)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

[o regresso a iapala] em jeito de epílogo...






O regresso a Iapala...
(Nampula, Moçambique)

(...continuando a história que começou aqui...)

E no final da semana voltámos para Iapala. Íamos todos eufóricos e de coração leve. O carro, que à ida tinha parecido o carro dos loucos, parecia agora o carro do circo, connosco a cantar estrada fora. Eu com uma alma nova, já com o sono atrasado em dia, a Inês e o Sr. Rafael totalmente renascidos e o Cachimo felicíssimo ao meu lado, amoroso e trocando comigo olhares cúmplices. A família a quem tínhamos dado boleia para o Hospital Central bateu-nos à porta dias antes da partida e partilharam o carro connosco. Claro que tivemos outro furo. No mesmo pneu, que não devia ter ficado bem consertado na oficina… Desta vez, sem crianças doentes e sem angústias, mudámo-lo nós. Todos juntos, num trabalho em equipa, os risos que se diluíam no meio do silêncio e do cheiro da savana. A Inês foi recebida em euforia pelas outras meninas da casa, a Irmã Lurdes ficou comovidíssima e a madrinha dela cumpriu de alma e coração a intenção de lhe pagar os estudos até ao fim da faculdade.

Foi na semana seguinte, em Iapala, que conheci o J. F., director da ONG com que colaboro. Chegou com um padre comboniano para visitar a Missão e o trabalho da Irmã Lurdes com os leprosos. Encontrou-me no hospital. Vinha a comentar, na sua boa disposição, que se devia ter inadvertidamente transformado num homem muito mais respeitável durante viagem, porque todos os polícias por que tinha passado o tinham tratado por “Sr. Padre”.

– Ou terá sido só da barriga? É que o Padre Alberto é muito mais magro do que eu e os polícias acharam todos que ele era o meu empregado. Ahaha!
– Sim, só pode ter sido isso – brincava o Padre Alberto – eu ao menos tenho cara de empregado de padre, sempre me “emprestas” alguma dignidade. Podia ser pior. Podia ter cara de empregado das finanças…

Foi uma noite de boa disposição! Falou-me do trabalho da associação na luta para a erradicação da lepra e na assistência médica e moral aos doentes. Eu estava tocadíssima pela história da Inês. Nunca antes tinha sentido tão na pele o sentido da palavra “estigma”. Daí que quando, meses depois, me convidaram para ir novamente para Moçambique integrada no programa de combate à lepra emocionei-me. Claro que aceitaria. Por pouco tempo que fosse. Se pudesse devolver a vida a alguém que ainda tivesse vida, a minha própria vida teria mais sentido.

E pronto, foi assim que tudo começou. O que se seguiu, talvez um dia vos conte... Acompanhei outros voluntários no seu trabalho lindíssimo. E fui testemunha de verdadeiros milagres. E assisti à alegria de ver devolvido um futuro a muitas vidas que afinal não tinham terminado!

No ano seguinte a Irmã Lurdes fundou a missão do Gilé, na Zambézia (como foi que ele teve coragem de deixar Iapala é coisa que ainda hoje me intriga...). A Inês foi com ela porque em Iapala só havia escola até à 7ª classe. Completou a 12ª no Gilé e foi depois estudar enfermagem para Quelimane. A última vez que soube dela, estava a trabalhar em Tete, já com o curso tirado e, imagino, casada e já com filhos. Os pais ainda hoje de vez em quando me telefonam ou mandam SMS a agradecer o que fiz pela filha. Por vezes, quando alguma das Irmãs vem a Portugal, mandam-me pequenos presentes: castanha de caju, café da sua machamba, desenhos feitos pelos irmãos mais novos da minha menina. Enchem-me a alma. Quero acreditar que ela é feliz.

Obrigada a todos os que vieram comigo nesta viagem...
(um) beijo de mulata

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

[aviso à navegação] a história da inês chegou ao fim!

Dois meses depois, com angústias pelo meio, reclamações, unhas roídas, desistências, risos e desesperos, a história da Inês e do Sr. Rafael chega ao fim com todos vivos e saudáveis. Há ainda umas pontas soltas e por isso vou ter de fazer um epílogo (sim, que qualquer história que se preze tem sempre um epílogo), até porque ainda vos vou contar como foi que regressámos a Iapala e, mais importante do que tudo o resto, o que foi que fiz com o que esta história me ensinou, que não foi nada pouco... A todos os que conseguiram chegar ao fim da história: os meus parabéns! A vida afinal também pode ser simples.

[welcome to mozambique] enfim, tudo se compõe...

(...continuando a história que começou aqui...)

Nessa noite a terra tremeu. Literalmente. Um terramoto violento, de 7,5 na escala de Richter, com epicentro em Manica, a 800 km do jardim da casa das Irmãs, onde eu passeava, olhando a lua e namorando a noite negra e ardente do Cruzeiro do Sul. [Já vos contei a história...]

No dia seguinte o Sr. Rafael acordou muito mais orientado. Comeu, colaborou em tudo, tomou os medicamentos. A Inês chegou logo às 8 da manhã, terminando com a minha ansiedade. Não me sentia capaz de esperar até à hora de almoço. Quando destapei as feridas, estava tudo muito melhor! Os olhos da Inês brilharam pela primeira vez em semanas e semanas.

– Ah… então não é lepra!
– Claro que não, Inês, já te tinha dito. E mesmo que fosse, princesa! Lepra tem cura.
– Pois… mas na trad’ção não tem.
– O que é que isso quer dizer?
– Quer dizer que a doença tem cura, mas a pessoa fica marcada.
– Pois… mas isso tem outro nome, Inês. Isso chama-se estigma. E é uma coisa muito feia e injusta. Ninguém tem culpa de ficar doente.

Os olhos dela fixaram-se. Como se alguém tivesse dito o que ela mal se atrevia a pensar, mas que também sentia…
– E só ficamos marcados se acreditarmos nisso! Se não acreditares não ficas marcada. Inês, não deixes que te digam que tens lepra. Nunca mais. Isso é psoríase. E mesmo que fosse, minha querida! Lepra é uma doença vulgar, não é “tradição”, como toda a gente diz.
– Sim, tia P…
– Mas mudaste as ligaduras?
– Sim, o meu tio mudou porque se molharam.
– O teu tio é enfermeiro?
– Não, é estofador. Tia P. conhece-o.
– Ah, sim, o “tio grande”! Jeitoso, o teu tio: estão mais bem colocadas do que as minhas… Deve ser da profissão. Ser estofador deve dar-lhe muito à-vontade com os tecidos…

Já só me apetecia brincar e rir… A Inês deu a sua primeira gargalhada. No resto da semana vi a Inês todos os dias. Parecia que renascia de dia para dia. Que voltava a endireitar a cabeça e a ter novamente carne para encher a pele que cicatrizava. Voltou a falar, a sorrir, a cantar. O Sr. Rafael também melhorava de dia para dia e estava feliz porque pela primeira vez em muitos anos não sentia vontade de beber! E lembrava-se do terror que tinha sentido quando vira os bichos no seu quarto. Lembrava-se da sensação de morte iminente que tivera nessa altura. Estava feliz por ainda estar vivo e por as alucinações se terem ido embora. Curiosamente repetia para quem o quisesse ouvir, que aquilo que vira não tinham sido espíritos. Que não fazia sentido. Não sabia bem explicar, mas parecia-lhe mais que tinham sido “coisas da sua cabeça”.

Já o Sr. Revenda, andava maravilhado… De cada vez que passava por mim, olhava-me, num misto de pasmo, admiração e medo… Afinal também havia feiticeiros brancos. Isso é que nunca lhe tinha passado pela cabeça. Uma das Irmãs ouviu-o, dias depois, a referir-se a mim em conversa com um outro empregado chamando-me Mukhulukana*. Às vezes, num momento de maior audácia, puxava o assunto e parecia que fazia menção de me perguntar como é que eu tinha conseguido exorcizar os espíritos do corpo do Sr. Rafael, mas arrependia-se de imediato e desviava a conversa. Por um lado, eu podia ser perigosa e usar os meus poderes contra ele, mas eu sentia que aquilo que o impedia de fazer “a pergunta” não era só isso. Provavelmente ele pressentia que talvez a minha resposta pudesse implicar rever os seus conceitos acerca do mundo tal como ele o entendia. Rever todas as ideias sobre os antepassados, o mundo dos vivos e dos mortos e as leis que regem a vida. E isso era ainda mais perigoso e ameaçador… Por isso continha-se.

Mas ele pressentia que tinha estado perante algo de muito raro. Por vezes parecia que tinha tido um vislumbre de um mundo para lá da tradição, onde a tradição podia não ter lugar, onde as doenças podem não ser castigos, onde pessoas comuns, como a Inês e o Sr. Rafael, podem ter uma segunda oportunidade sem recorrer a poderes especiais… Mas eu não insisti. A vida não é assim tão simples. Não se pode levar um homem a deixar de acreditar no conjunto de crenças que estruturaram todo o seu pensamento, sob pena de o deixar sem um sentido para a vida. Mas talvez estes exemplos pudessem ter lançado uma semente e, um dia, caso alguém da sua família viesse a padecer de uma doença grave, talvez ele se lembrasse de mim com esperança e procurasse ajuda de um médico e não de um curandeiro.

*Mukhulukana - Palavra macua para curandeiro ou médico tradicional.

(continua...)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

[o encontro] ...e a inês, finalmente, veio ter comigo...

(...continuando a história que começou aqui...)

Já passava das 19:00 quando regressámos a casa com o Sr. Rafael. Mas, para meu desespero, as Irmãs informaram-me de que a Inês tinha chegado às 17:00, tinha esperado, esperado, esperado e, por fim, vendo a hora do último chapa aproximar-se, tinha desistido e ido embora dez minutos antes…

– Dissemos-lhe que voltasse amanhã à hora de almoço.
– Oh, meu Deus, pobrezinha… E acha que ela volta?
– Acho que sim. Fartámo-nos de lhe dizer: “Aquela médica vai curar-te!” e ela ao fim quase que já sorria.
Quase que já sorria… Ela está deprimidíssima, não é?
– Sim, infelizmente… Prepare-se, P., que aquela menina está destruída. Está um frangalho autêntico! Faz mesmo impressão olhar para ela. Só pele e osso e coberta de chagas dos pés à cabeça. Feridas infectadas em cada centímetro de pele, não admira nada que as pessoas tenham pensado que era lepra. Mas só me parece que se calhar tem SIDA.
– Ah, isso não tem, que eu vi as análises dela no Anchilo. É negativa. Mas tem feridas?
– Sim, feridas horríveis, todas infectadas. Aquela menina é uma chaga viva… Pensámos mesmo que só podia ser SIDA. E acha que não é mesmo lepra? Às tantas uma pessoa já duvida…
– Ah, lepra também não é… Nem uma coisa nem outra.
– Então ainda bem. É uma excelente notícia… E conseguiu algum medicamento?
– Só um. Mas não é de todo o mais apropriado para a psoríase. E então com feridas infectadas pode impedir a cicatrização e agravar a infeção… Nem sei que faça…

Só me apetecia chorar por não ter chegado a tempo. Que provações, caramba! Mas podia ser que no dia seguinte tivesse mais sorte na farmácia…

Passei mais uma noite praticamente em claro, com um olho no Sr. Rafael e outro nos meus livros, a estudar a melhor maneira de tratar a minha menina com o que podia haver em Nampula e, de manhã, logo depois do mata-bicho fui plantar-me à porta da maior farmácia da cidade para ser a primeira a entrar assim que abrisse. Tinha duas horas para meter novamente o meu ar mais decidido, a minha voz "o-meu-pai-é-o-dono-disto-tudo", convencer o empregado a deixar-me vasculhar em todas as gavetas e tentar descobrir algum medicamento que me servisse. Depois tinha de ir ver os meninos da escolinha.

Ao fim de duas horas tinha encontrado corticóides de várias potências diferentes, um antibiótico para as infeções da pele, um antissético para as feridas e sabão de alcatrão. Não havia mais nada. Já estava mentalizada de que ia cometer o maior sacrilégio que existe: colocar um corticóide numa ferida infectada numa criança com psoríase. Valesse-me Nossa Senhora. Ou o antibiótico. Ou dos dois o que tivesse mais força… E à hora de almoço vi chegar a Inês.

Quando achamos que já vimos de tudo, quando pensamos que já vimos todas as desgraças do mundo, que já vimos pessoas a morrer e a sofrer, a suportar aquilo que achamos que vai para além da força humana, parece que deixamos de estar preparados para aceitar que pode haver pior. Ainda pior.

Quem eu vi chegar nesse dia, sozinha e a medo, foi uma menina que tinha sido literalmente enterrada em vida pelas pessoas que mais a amavam… Uma menina sem brilho no olhar, pálida, esquelética, sem voz, com as feridas infectadas cobertas por uma pasta negra e seca de medicamento tradicional, restos dos dias mais horríveis da sua vida que permaneciam colados à pele. E que só saíram arrastando quase metade da pele com eles.

– Inês, ainda bem que vieste, estou mesmo feliz por teres vindo, estava à tua espera!

Baixou os olhos e nem respondeu. Obviamente eu não podia estar a falar a sério, como é que se pode ficar feliz por ver uma leprosa?

– A Irmã Lurdes, em Iapala, está muito preocupada contigo porque não voltaste à escola depois das férias, pediu-me para te ir procurar. Ela quer muito que voltes para Iapala para completares os estudos.
– Mas eu não posso voltar, eu estou… doente – a voz quase apagada, depois de tantos dias sem falar com ninguém e a acreditar que a vida tinha terminado…
– Mas vais ficar boa, eu estou aqui para te tratar. Sabes, a tua madrinha escreveu à Irmã Lurdes para lhe dizer que se quiseres continuar a estudar, ela tem muito gosto em continuar a pagar-te os estudos. Ela também está muito preocupada contigo…

Não era bem verdade, claro, a madrinha da Inês, em Itália, por mais bem intencionada e preocupada que fosse com a sua afilhada, não conhecia certamente a realidade de Moçambique e provavelmente não fazia a menor ideia do que se passava com ela. Mas podia ser mais uma referência que fizesse a Inês voltar à realidade… Olhou-me com estranheza.

– Sabes, tu tens uma madrinha na Europa que te paga os estudos, que reza por ti e se preocupa contigo.
– Sim eu sei… é italiana… ela reza por mim?
– Claro, Inês. E eu também tenho rezado muito. E a Irmã Lurdes e as outras meninas também em Iapala.
– Mas eu tenho… lepra – ousava até dizer o nome da doença que a amaldiçoava.
– Sim, estás doente. Mas não tens lepra, já disse aos teus pais e ao teu tio que isso não é lepra. E eu e as Irmãs vamos cuidar de ti. Tu tens de ficar boa!

Baixou os olhos novamente, derrotada. Não ia ser fácil fazê-la voltar a acreditar em si própria e que o futuro ainda podia existir… Tinha a humilhação colada à pele. Fomos para o jardim para lhe darmos um banho de mangueira. Um banho que durou quase duas horas para lenta e delicadamente lhe descolar aquela papa horrível, negra e nauseabunda que lhe infectara as lesões. Com ela sentada numa cadeira no jardim, sob o sol tórrido da tarde, eu e as Irmãs lavámos-lhe cada centímetro de pele com uma paciência de Job e, por fim, enchi-me de coragem e, com um sorriso nos lábios e um pedido de ajuda a Deus (ou com um “Deus me perdoe”, nem sei bem…) apliquei-lhe o corticóide mais potente que tinha encontrado, em toda a pele, e envolvi-a em ligaduras. Tomou a primeira dose dos antibióticos à minha frente. À cautela dei-lhe dois diferentes não fosse a infecção piorar…

– Hoje vais de noiva, Inês, assim toda branquinha, vestida de ligaduras – a boa disposição da Irmã Conceição fê-la quase sorrir pela primeira vez…

Fiquei a vê-la desaparecer em direção ao chapa, com a pior dúvida que um médico pode ter: “Será que não lhe fiz pior?” Mas era a minha única opção… Ou pelo menos eu não tinha visto outra. Tinha-me resolvido a arriscar. A velha máxima da Medicina ecoava-me na mente: Primum non nocere, acima de tudo não fazer mal! Naquele momento só me lembrava das aulas de Dermatologia e da voz do meu professor que dizia: “Nunca se aplica um corticóide sem consultar um Dermatologista primeiro!” Claro que não era verdade, mas eu na altura ainda não tinha quase experiência nenhuma… Hoje, com vários anos de prática, esta angústia parece-me completamente despropositada, mas naquele dia acho que nem me consegui acalmar.

Quando voltei para o jardim para arrumar os medicamentos, vi uma das aspirantes a Irmãs que me ajudara a dar banho à Inês, também ela, curiosamente, natural do bairro de Napipine, a lavar energicamente as pernas e as mãos. Claramente tinha medo de que a água que lavara a Inês e lhe salpicara o corpo a contagiasse. Sim, não valia a pena ter a veleidade de pensar que tinha acreditado em mim quando lhe tinha dito que a Inês não tinha lepra. Fiquei triste, confesso. Mas pensando bem, já tinha sido um esforço incrível e louvável ter tocado e dado banho a uma leprosa.

– Não se preocupe, Irmã, a Inês não tem nenhuma doença contagiosa.
– Sim, obrigada, P..

(continua...)

sábado, 3 de dezembro de 2011

[à espera da inês] ...nada, não tem!




Na casa das Irmãs da Caridade...
(Nampula, Moçambique)

(...continuando a história que começou aqui...)

Acordei sobressaltada. Já era tarde. Tinha de me levantar e correr para a farmácia e depois para casa das Irmãs da Caridade porque precisava de estar em casa às 18:00 para receber a Inês, que viria hoje… quer dizer… será que vinha mesmo? Bem, podia ser que sim… Tinha de me preparar mentalmente para que não viesse, mas o tio que não pensasse que eu ia desistir. Ele que me aguardasse porque eu, nestas coisas, consigo ser chata como a potassa! Ó se consigo!

Mas se já me tinham advertido de que ia ser difícil encontrar algum medicamento contra a psoríase, procurá-lo foi uma autêntica tortura. Comecei numa ponta da cidade e fui correndo as farmácias todas que encontrava no caminho para casa das Irmãs. “Nada, não tem.”, era a resposta invariável para qualquer pergunta. Mas não era possível! Tinham de ter! E insistia, perguntava por todos os nomes comerciais de que me lembrava, perguntava pelos princípios activos, exigia falar com os donos das farmácias. “Nada, Dona, não tem esse medicamento aqui… Mesmo penso que em toda cidade de Nampula não tem. Nunca ouvi falar. Talvez só no Maputo…”

Eu zangava-me, na minha eterna dificuldade de aceitar um “não” como resposta. Empregados e patrões permaneciam impassíveis. Não era nada com eles. Se eu não encontrava o que precisava, isso era problema meu, não deles. Mas… mas… e não se poderia encomendar? “É d’fícil, Dona. Vai demorar muito tempo.” Acabei por interromper o périplo à quarta ou quinta farmácia. O tempo estava a passar e tinha de pelo menos ver a Inês, confirmar o diagnóstico e prometer-lhe, mais uma vez, que a haveria de curar, nem que mandasse vir os medicamentos de Portugal.

Cheguei esbaforida a casa das Irmãs da Caridade. Levava um nó na garganta e uma sensação terrível de derrota. Desde o princípio que a história da Inês me estava a deixar perturbada e com a sensação de que tudo podia correr mal. Mas, fossem as minhas angústias fundadas ou sem qualquer fundamento, a verdade é que aquela história macabra me estava a consumir...

Fui imediatamente rodeada pelas dezenas de crianças do orfanato, que brincavam no pátio e, desesperadamente, pediam colo a sorrir a quem quer que passasse por elas, numa carência de afectos e vinculação que só aumentava o meu nó na garganta. Recostado num dos bancos do pátio, o Sr. Revenda em pessoa ressonava num equilíbrio precário, quase desaparecido entre as crianças que lhe tinham saltado para o colo. De vez em quando abria um olho para lhes fazer uma festa ou acomodar mais um petiz, nem que fosse apenas encostado a ele, ou quando alguma criança mais obstinada lhe puxava por um braço ou uma perna, tentando “destronar” as donas do colo, e voltava a tentar adormecer naquela posição cómica de avô enorme, com um colo do tamanho de uma família inteira. Apontou-me a custo a porta por onde deveria entrar para encontrar as Irmãs e o Sr. Rafael. Peguei ao colo numa das meninas, que desde o portão não desistia de me sorrir, tentando trepar por mim acima e entrei em casa.

Duas Irmãs afadigavam-se em volta do Sr. Rafael, acompanhadas pelas “minhas” Irmãs. Só praticamente naquele instante tinham conseguido canalizar uma veia ao Sr. Rafael, que se debatia, cuspia, esperneava, mordia e blasfemava sem dar tréguas. Tinha tido duas convulsões. “Mas por hipoglicémia.”, garantiram-me, e tinham durado nem um minuto ao todo…

– Só quando entrou em coma depois das convulsões é que parou de se debater e conseguimos colocar-lhe o cateter, assim com um golpe de sorte. Tem umas veias péssimas e como está desidratado é ainda mais difícil…
Entretanto já recuperara a consciência. Mas a glicemia continuava instável.
– Irmãs, temos algum aparelho em casa para medir a glicemia?
– Não, não temos…
– Nós temos um a mais que vos podemos dispensar… Realmente, depois destas convulsões é mais seguro só levarem o doente para casa se tiverem maneira de medir a glicemia – as Irmãs da Caridade eram realmente extraordinárias! –, o problema é que não temos fitas para o aparelho…
– E será que se podem comprar em algum sítio?
– Sim, a farmácia Canani ou a Calêndula costumam ter fitas que dão para esta máquina.
– Ai, credo! Só de pensar que vou ter de lá voltar… Hoje já apanhei uma canseira de farmácias! E um desgosto tão grande que até estou angustiada…
– Então? Não conseguiu os medicamentos para a Inês?

Já todas sabiam da história da minha menina.
– Não… devo ter corrido umas cinco farmácias, mas nenhuma tinha um dos medicamentos que fosse. Nem sei como vou fazer…
– Mas que doença tem ela? Pode ser que nós tenhamos alguma coisa
– Não tenho a certeza, mas acho que tem psoríase.
– Ah, para a psoríase não temos nada…
– Pois… nem nas farmácias…
– Mas procurou bem?
– Bem… fui a umas quantas. E insisti muito em todas. Mas não vou desistir, vou procurar em todas as da cidade.
– Não, pergunto se procurou mesmo em cada farmácia.
– Como?
– Sim, eles dizem sempre “Nada, não tem." Sempre! E às vezes até sabem que têm, mas está na gaveta de cima e não lhes apetece ir buscar um banco. Ou outras vezes não sabem que têm. Os empregados das farmácias não são farmacêuticos, não sabem sequer os nomes dos medicamentos. Só sabem os mais conhecidos. Todos os outros só se vendem quando está o patrão. E mesmo assim às vezes até os donos têm surpresas!
– Por acaso apeteceu-me várias vezes vasculhar naquelas gavetas… Mas não tinha tempo…
– Ah, mas é isso que nós fazemos! Sem pejo nenhum.
– Bem, eu também não tenho vergonha de pedir para procurar. Mas acha que vou conseguir encontrar alguma coisa?
– Em último caso talvez encontre corticóides em pomada.
– Ah, isso não queria mesmo nada…
– Pois, não é o melhor, mas duvido que encontre mais alguma coisa. E mesmo os corticóides não se encontram facilmente. É preciso muita persistência.
– Ok, então lá vou eu outra vez. E rápido, que já são 17:30 e se não me despacho então é que nem Inês nem Sr. Rafael, não trato nenhum hoje!
– Sim, então vá, que as Irmãs da Caridade já perderam muito tempo connosco hoje e têm de ir cuidar dos meninos delas. Eu fico aqui a cuidar do Sr. Rafael e a Irmã Assunção vai consigo à farmácia comprar as fitas para a máquina.
– Vamos então…

Parecia que me tinha nascido uma alma nova! Se não fosse o delirium tremens do Sr. Rafael nunca nos teríamos lembrado de ir procurar as Irmãs da Caridade para saber o “truque” para encontrar medicamentos em Nampula! Não ia ser fácil, já sabia. Mas era possível.
A farmácia estava apinhada de gente àquela hora, próximo da hora do fecho, mas os empregados reconheceram a Irmã Assunção e chamaram-nos para trás do balcão.

– Tem fitas para este aparelho?
– Nada, não tem…
– Tem a certeza?
– Sim, Irmã.
– Mas olhe, dá-me licença que procure?
– Hum…
– Sim, não se preocupe que eu procuro – voltei a pôr o meu tom de voz de mulher-que-não-aceita-um-"não"-como-resposta –, se tiver as fita, estão arrumadas onde?
– Ali, nas gavetas junto ao tecto. Tem um escadote ali.

Troquei um sorriso com a Irmã Assunção, como quem diz: “Pois… confere!” E foi assim que depois de muito vasculhar naquelas gavetas caóticas encontrei as benditas fitas e uma pomada com corticóide.

– Bingo! Encontrei! Muito obrigada, Senhor. Agradecemos muito a gentileza – pus o meu melhor e mais diplomático sorriso forçado. Claro que o que me apetecia era apertar o pescoço àquele homem, mas enfim, pelo menos tinha-me deixado remexer em tudo. Se calhar arriscando-se a problemas com o patrão…
– De nada, Irmã…
– Podemos pagar rápido? Estamos com pressa.
– Sim, eu sei. Mukunyas* têm sempre pressa!

*Mukunya - Palavra macua que designa um indivíduo de pele clara.
 
(continua...)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

[a noite mais longa] e só quem vive no convento...

  (...continuando a história que começou aqui...)  

  – Doutora…
  – Sim, Sr. Cachimbo?
   – Eu tenho uma coisa para lhe dizer… Não me leve a mal. Eu até fico envergonhado, mas já lhe queria ter dito isto há muitos dias.

   – [Ó meu Deus, mas o que é que eu lhe vou responder? Será que deixei transparecer alguma coisa? Será que ele pensa que é possível? Ele não tem noção do mar de diferenças que nos separa?]…
   – Doutora, nós pertencemos a mundos diferentes e acho normal que eu não conheça nada do que a Doutora já viveu e que Doutora não saiba muito sobre a minha vida, por mais que falemos sobre isso… Nem sequer imaginamos, quer um quer outro, o que é o passado de cada um…
   – Isso é verdade, Sr. Cachimbo.
   – Sim, a Doutora fala de Lisboa e eu imagino uma cidade como Nampula, não consigo imaginar uma cidade maior do que essa. Mas sei que Lisboa é mil vezes melhor e maior, eu é que não tenho imaginação para chegar aí porque nunca vi outra cidade grande e os limites do meu pensamento são os limites do mundo que eu já percorri – era notório que se estava a esforçar para compor aquele raciocínio. – É o mesmo que eu tentar explicar à Doutora o que era a nossa vida durante a guerra. Dormir no mato, ter sempre medo, acordar e ter uma cobra debaixo da esteira ali aninhada porque estava quente ao pé de nós. E começar o dia a agradecer a Alá por a cobra não nos ter mordido… Eu posso explicar, mas Doutora não vai conseguir entender…
   – [Olha, agora deu-lhe para filosofar antes de me começar a falar de amor… Mas não está mal. Para um homem nascido no mato e criado numa sociedade e numa cultura tão machista, em que a mulher está garantida à partida e não tem de longe o mesmo valor que o homem, está a sair-se mesmo muito bem. Sorte da mulher que ele amar e acabar por ficar com ele… Mas, bolas, que responsabilidade, como é que eu agora lhe vou explicar que por mais que ele se esforce eu não vou querer nada, mas ainda assim transmitir-lhe que acho tudo muito bonito e que com uma mulher que o ame vai funcionar de certeza?] Sr. Cachimbo, é muito bonito o que me está a dizer… mas não é preciso, eu sei disso.
   – Mas eu quero dizer isto, Doutora, para Doutora não levar a mal o que eu tenho para dizer.
   – [Será que ainda consigo desviar a conversa?] Mas eu não levo a mal, acho normal que queira conversar. Eu também gosto de conversar consigo. E já viu como o Sr. Rafael está a melhorar com a medicação?
   – Ah, ainda bem… É que eu ando há muito tempo para lhe dizer isto…
   – [Bem, já não vou a tempo de chutar a conversa para canto… vamos lá agarrar o toiro pelos cornos!] O que é que tem para me dizer, Sr. Cachimbo?
   – Doutora, o meu nome não é Cachimbo…
   – [Hãn?!] Como?

   Um sorriso de alívio quase se transformou numa gargalhada sonora desconcertada. Tanta coisa para isto? Felizmente a penumbra do quarto era uma aliada.

   – Não é Cachimbo, é Cachimo.
   – Cachimo?
   – Sim, Cachimo, como Cássimo ou Kassim. É um nome muçulmano. Vem do Árabe. É nome de califas, quer dizer “aquele que pode dar" ou “aquele que divide”, não é cachimbo. Cachimbo é nome de vício.
   – Ah, desculpe, foi mesmo sem intenção de o ofender… Sabe que aqui é muito comum as pessoas terem nomes de objectos e Cachimbo podia ser um nome normal. Mas já podia ter dito há mais tempo, se isso o incomodava…
   – Sim, eu sei, Doutora, mas não queria fazê-la sentir mal.
   – Pois, mas não me envergonha, é um nome que eu não conhecia e percebi mal. Não foi de propósito.
   – Eu sei, Doutora… Doutora é uma mulher muito boa, com muito bom coração.
   – Obrigada, Sr. Cachimo... [Ah, graças a Deus, que alívio ele não me colocar numa situação tão constrangedora… Afinal era mais sensato do que eu pensava, felizmente.]
  
   O Sr. Rafael continuava a dormir mas a respiração dele, em muito pouco tempo, tinha deixado de estar tão tranquila e começava a agitar-se novamente. A duração de acção dos tranquilizantes estava a ser muito mais curta do que o que eu pensava. Nem duas horas depois, já se mexia novamente, quase acordado. Voltou a conseguir engolir água. Novamente a temperatura desregulada, a transpiração, os tremores e a agitação desorientada. Mas o coração continuava a bater rítmico e, desta vez, não chegou a estar consciente o suficiente para pensar que o estávamos a envenenar e não cuspiu água nenhuma. Dei-lhe nova dose de tranquilizantes, voltámos a arrefecê-lo com toalhas molhadas e a trocar os lençóis. Íamo-nos animando, numa conversa bem disposta sobre as nossas vidas, aquilo que gostávamos de fazer nas horas vagas. Ele falava-me da descoberta da internet num cibercafé de Nampula e de como tinha conseguido voltar a falar com o irmão que vivia em Cuba, eu falava-lhe de como gostava de música e de como me agradavam as músicas macuas que ouvia na igreja e à noite, no hospital, as mamãs a cantar aos filhos.

   Quanto ao resto da noite, acho que não a consigo contar propriamente. Lembro-me da ternura que foi caindo mansamente, envolvendo o quarto, lembro-me de uma penumbra interminável, de uma vela que bruxuleava e cansava os olhos, numa ameaça constante de se extinguir, de uma sensação de irrealidade, de um sol que nunca mais rompia, da cama ao lado da do Sr. Rafael, que foi muito mais do que uma cadeira desconfortável para os dois, de um sono e um cansaço tão intensos que mesmo com tudo o que foi acontecendo não saí daquele estado, entre o mareada e o letárgica. Tudo o resto, que relembro por vezes… a mim pertence. O que vos consigo contar também é que me recordo de um abraço forte ao início da madrugada, quando o Sr. Cachimo se foi embora, depois de ter estado comigo a noite inteira, de me ter impedido de adormecer e de ter dividido angústias e preocupações e esforços nos cuidados ao nosso doente, mesmo duvidando da minha explicação para a doença e provavelmente também com medo de ser “contaminado” pelos espíritos.

   Despediu-se com um “Obrigado por me ter chamado, fiquei muito feliz. Se precisar de mais alguma coisa volte a chamar-me.” Agradeci-lhe do fundo do coração. Não mencionei o assunto, mas tinha bem presente que ele me tinha ajudado a cuidar de um homem alcoólico, um homem totalmente impuro à luz da sua religião e com quem discutira dias antes.

(continua...)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

[com o sr. cachimbo e o sr. rafael] novamente a casa dos loucos...

(...continuando a história que começou aqui...)

Entretanto tínhamos conseguido arrefecê-lo um pouco. A tensão arterial não estava tão descontrolada como eu temia, não tinha arritmias por enquanto e já o tínhamos conseguido fazer tomar os tranquilizantes e alguma água. Não tanta quanto eu desejava, porque de vez em quando ele gritava “Murrette!” [veneno] e cuspia tudo o que tinha na boca. As Irmãs, felizmente, conservavam a boa disposição e não se importavam com aquele espectáculo, nem que a sua roupa fosse sistematicamente atingida pela água que ele de vez em quando acreditava que o podia matar. Iam-lhe falando mansamente e explicavam-lhe que era apenas água que lhe estavam a dar, que ninguém lhe ia fazer mal, que tudo estava a ser um sonho mau e que ia passar.

Já anoitecera e a luz do pátio não era suficiente para iluminar aquele quarto cheio de gente, mas preferi acender duas velas e não a lâmpada do tecto porque qualquer estímulo adicional equivalia, literalmente, a mandar mais achas para a fogueira daquele delírio assustador.

Pouco depois chegava o Sr. Cachimbo, com o seu habitual sorriso de orelha a orelha. Radiante por ter sido chamado e poder ser útil. Vinha com a mesma camisa e os calções com que se preparava para dormir no momento em que fora chamado, e a roupa justa deixava adivinhar o seu corpo enorme e enxuto de homem nascido no campo, habituado a esforços e que não conhecera abundâncias.

Já tinha sido devidamente informado pelo Sr. Revenda sobre o que se passava e concordava com ele. A primeira coisa que me disse, claramente instruído pelo guarda, foi que achava que o Sr. Rafael estava possuído por espíritos e que para ele sobreviver deveríamos chamar um curandeiro. E eu dei por mim a compreendê-los perfeitamente. É que o Sr. Rafael tremia num tremor grosseiro, que quase parecia voluntário, tinha uma fisionomia completamente alterada, mudava de expressão e de voz a cada momento, via bichos por todo o lado e dizia coisas completamente sem nexo. Como é que eu alguma vez lhes conseguiria explicar que aquilo era uma doença causada pela privação de álcool? Mas por fim o Sr. Cachimbo lá concordou, mais para me fazer a vontade do que por convicção, que sim, que podia ser isso. Eu que o tratasse como achasse bem. De qualquer modo agradava-lhe a ideia de que aquela doença era resultado de excesso de álcool. Assim poderia sempre voltar a frisar que com ele isto nunca aconteceria porque os muçulmanos não tocam em álcool.

O teste da malária foi negativo. Agradeci-lhe muito por ter vindo àquela hora tardia, mas ele fez-se desentendido. Agora que estava ali e me tinha feito um favor, não ia arredar pé assim sem mais nem ontem. Acabava de pagar o bilhete por inteiro, agora ficava até ao fim do espectáculo! Ofereceu-se para ficar por ali comigo a tratar do Sr. Rafael, que as Irmãs estavam cansadas. Elas acharam bem e despediram-se: eram horas de ir rezar. O guarda, vendo que não tinha de acompanhar novamente o Sr. Cachimbo a casa, tratou de dar de frosques e ir para o seu posto de vigia ao portão, aliviado por poder sair daquela casa de loucos, onde todos menos eu percebiam perfeitamente que havia espíritos maus e onde, mais tarde ou mais cedo, haveria de acontecer uma desgraça. Não percebia como é que mais ninguém tinha coragem de me dizer “o rei vai nu!”. Ele tinha tentado avisar-me, estava de consciência tranquila. Mas não queria estar dentro de casa e ser enrolado no furacão quando a desgraça acontecesse!

Lentamente, a expressão de terror cravada na face do Sr. Rafael ia cedendo, os tremores diminuindo, o coração abrandava e a tensão arterial estabilizou. Mudámos-lhe a roupa e os lençóis encharcados de água e suor. Realmente, sozinha teria sido impossível mudar uma cama com um homem tão pesado deitado sobre ela. Continuava a transpirar, mas já bastante menos e não me parecia muito desidratado. Íamos tentando dar-lhe água, mas já não era fácil porque agora estava quase a adormecer. Dentro de pouco tempo ia deixar de conseguir engolir. E depois… bem, depois era rezar para que a situação passasse antes que surgissem complicações, se não teria mesmo de o levar para o hospital e tudo seria ainda pior… Mas eu estava exausta. Era quase meia-noite de um dia que já durava há quase 72 horas e temia não me conseguir manter acordada. Mas também, vistas bem as coisas, agora não precisava de estar acordada. Precisava era de acordar dentro de algumas horas, quando o efeito dos tranquilizantes começasse a passar e tivesse de recomeçar o ciclo “mede-tensão-arterial-arrefece-com-toalhas-molhadas-troca-de-roupa-dá-lhe-mais-tranquilizantes-dá-lhe-mais-água-vê-se-surgiram-complicações-tenta-não-te-preocupar-tanto-confia-que-vai-tudo-correr-bem-tenta-dormir-mais-um-pouco-que-daqui-a-nada-tens-de-recomeçar-o-processo-todo-do-início”.

Mas agora como é que ia descalçar a bota do Sr. Cachimbo? Mas como é que as Irmãs me tinham deixado ali sozinha com ele sem uma pergunta, sem um sinal de estranheza, valha-me Nossa Senhora? Não lhes tinha passado nada pela cabeça? Quer dizer, elas deviam ter pensado que se tinha sido eu a mandá-lo chamar era porque sabia que ele era boa pessoa. Vá, calma. Estava tudo bem. A intensidade dos dias devia estar a toldar-me o pensamento… Sim, devia ser isso. A intensidade dos dias. Nada mais. Não se passava nada. Não se passava nada. Os cânticos em macua das Irmãs ecoavam através do pátio, enchendo a noite de paz e tranquilidade. Sempre os achei lindos, mas nessa noite os cânticos eram particularmente bonitos e as Irmãs, talvez por terem dois doentes mais por quem rezar, a Inês e o Sr. Rafael, estavam especialmente harmoniosas.

– Doutora…
– Sim, Sr. Cachimbo?
– Eu tenho uma coisa para lhe dizer… Não me leve a mal. Eu até fico envergonhado, mas já lhe queria ter dito isto há muitos dias.

(continua...)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

[à espera da inês] a vida não é simples... mas faz sentido


Sempre que um doente tem alta, vemos partir com ele um cortejo de familiares que estavam por ali, acantonados nas imediações, acompanhando-o pelo tempo que fosse necessário, à espera das melhoras...
(Gilé, Zambézia)

(...continuando a história que começou aqui...)

– Mas eles não sabem que a lepra tem cura?
– Claro que não! Para eles nem sequer é uma doença. Para eles é um castigo que vem dos antepassados.
– Começo a ficar cansada desta “tradição”!
– Então nós que já cá estamos há tantos anos… nem nos diga nada. Mas temos de os respeitar. Isto é uma outra religião completamente diferente. Não estamos aqui para impor nada, só queremos ajudar as pessoas.

– Outra religião? Mas os pais da Inês são católicos… ou não?
– Sim, são católicos. E praticantes. Mas isto é uma outra dimensão da espiritualidade. Uma outra dimensão que nós não temos. E que nem sequer compreendemos totalmente. Para os entendermos temos de perceber que cada família tem a sua religião. Cada família tem a sua história, os seus mortos e os seus ancestrais. Eles têm um Deus, que chamam de Muluku e a quem rezam na missa e em casa. Mas Deus para eles está muito longe. Nesta cultura quem os protege dos problemas do dia a dia não é Deus. Por mais que as tentemos fazer acreditar que sim, que Deus é amor e que vela por eles.
– Então porque é que rezam?
– Não sei muito bem, mas penso que rezam pela mesma razão que os meninos vão à escola. Porque têm esperança que um dia, num futuro longínquo, isso lhes vá trazer uma vida melhor. Mas para as coisas do dia a dia não contam com Deus.
– Então?
– Há intermediários entre Deus e as pessoas, que são os antepassados, os mortos da família. Cada família tem os seus antepassados. E por isso, cada família tem uma maneira de ver Muluku que é diferente das outras porque é influenciada pelo carácter dos seus defuntos e pela história da família. E por isso também compreendem que outras famílias tenham ideias diferentes e uma visão diferente do mundo. Acaba por ser uma espiritualidade muito tolerante nas diferenças e há muito respeito entre as pessoas…
– Isso é bonito…
– É muito bonito. É uma espiritualidade muito intensa e que dá um sentido muito forte de família e de união. Um sentido de continuidade e coerência entre as famílias. Nunca viu uma pessoa sozinha no hospital, pois não? Estão sempre muitas pessoas de família a acompanhá-la na doença.
– Sim, é verdade, nunca estão sozinhos. Estão sempre irmãos, tios, pais…
– Sim. Quando acompanham a família na doença, ou nos ritos de passagem, ou nos funerais, isso não é só solidariedade, não é só porque é correcto e é importante para o outro. Também é, claro, não duvido que o fazem porque é importante para o outro e porque querem estar presentes, mas é também uma manifestação da espiritualidade deste povo. São valores muito bonitos.
– Sim, é verdade, chega a ser comovente…
– Mas não é fácil aceitar que essa mesma espiritualidade tenha tantos mitos e tantos tabus que os impedem de viver a sua vida e andar para a frente.
– Pois… é isso mesmo… O tio da Inês estava mesmo convencido de que ela está doente porque eles não cumpriram bem o rito do funeral do tio mais novo, que morreu há poucos meses. Parece que faltava um dia para acabar quando uma tempestade destruiu a casa onde estavam e eles tiveram de se vir embora…
– Meus Deus, que desgraça… que sofrimento… e o que tem a menina?
– Acho que tem psoríase. Mas ainda não a vi, não tenho a certeza…
– Ai, credo, que doença para se ter aqui. Mas olhe que se calhar não a vai conseguir tratar… Aqui não há muitos medicamentos.
– Nem nas farmácias privadas?
– É uma doença rara. Duvido que tenham alguma coisa, mas pode sempre tentar…

Um murro no estômago. Mas será que não ia conseguir tratar a minha menina? Será que ia faltar à minha promessa e deixar que uma menina inteligente e cheia de potencial terminasse a sua vida assim humilhada?

Nem me estava a reconhecer naquelas preocupações… Para onde é que estava a ir a minha confiança, Santo Deus? Tudo o que tinha corrido mal nestes dois dias estava mesmo a influenciar-me e a deitar-me abaixo…

Tentei tranquilizar-me: no fundo ainda nada estava perdido. Dadas as circunstâncias até estava tudo a correr bastante bem. Tinha conseguido chegar a Nampula de carro sozinha, mesmo furando pineu pelo caminho, tinha tratado duas crianças quase mortas de desidratação e malária, conseguido fazer todas as compras, encontrar a Inês e compreender o que estava por detrás da sua ausência e da reclusão da família e ainda tinha começado a ver as crianças da escolinha. E, por milagre, o Vicente caíra-me do céu! Como é que eu me atrevia a perder a segurança se nada tinha corrido verdadeiramente mal? Lá porque tudo tinha sido difícil e delicado… Lá porque não me tinha tudo vindo parar às mãos de bandeja, como de costume em Moçambique, não queria dizer que não estivesse tudo bem. Sim, isto já devia ser o cansaço a falar… Estavam a ser muitas emoções ao mesmo tempo.

(continua...)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

[welcome to mozambique] a barbearia alvalade xxi



E a propósito da história que se vai passando (e já vai longa) por este mato adentro e a propósito do derby de sábado passado, queria comentar convosco que a casa do Sr. Cachimbo em Nampula era mesmo em frente à já sobejamente conhecida Barbearia Alvalade XXI...

E queria também dizer-vos que há actualmente um movimento absolutamente hilariante, com inscritos no facebook e na blogosfera nacional que, caso o Sporting Clube de Portugal seja - com a graça de Nossa Senhora de Fátima - sagrado campeão a 13 de Maio, têm como intenção ir aparar cabelo e/ou barba a esta mesma barbearia! Eu sou uma das inscritas e as saudades são tantas que tenciono cumprir o prometido, mesmo que não sejamos campeões. E, tal como a AL, apenas não prometo fazer a barba!

[continua a saga da inês e do sr. rafael] lepra e delirium tremens, isto não está fácil...

(...continuando a história que começou aqui...)

“Bonito!”, ironizei comigo própria. “Está um pobre homem aqui ao pé de ti em perigo de vida e tu nem ponderas levá-lo para o hospital, só te ocorre mandar chamar o rapaz que te fez bater o coração há dois dias… Isto está bonito, sim, senhora!”

– Mas tem razão, acho que nem sequer conseguíamos levá-lo para o hospital. Ele é tão pesado... Acha que o consegue tratar aqui?
– Sim, se ele não tiver malária e conseguir engolir água acho que sim, Irmã… Tenho ali tranquilizantes e tudo o resto que é preciso. E duvido que no Hospital Central saibam tratar um delirium tremens
– Pois, é melhor ele ficar aqui, então… O Sr. Rafael é um homem muito bom. Durante a guerra andou sempre connosco. Apesar dos perigos de andar na estrada, ele era incansável, defendeu-nos sempre, nunca houve dia nenhum em que saíssemos com o carro que ele não nos acompanhasse, às vezes até doente.
– Sim, é um homem muito bom, também já percebi isso.
– Uma vez ele estava com malária, mesmo no meio de uma crise, a tremer de frio e cheio de dores, quando caímos num buraco e furámos um pneu…
– Ui… Déjà vu
– Pois… Mas precisamente à frente desse buraco estava uma mina. Foi por Deus que não passámos por cima dela.
– Credo!
– E foi ele quem se levantou e nos foi ajudar a sair do buraco e trocar o pneu. Nem sei como é que ele teve coragem de fazer aquilo tudo a tremer com uma crise de paludismo a dois ou três centímetros da mina… Foi mesmo por um triz que não morremos todas. Ele conseguia fazer aquilo de olhos fechados. Se não fosse ele já nenhuma de nós estava aqui para contar estas histórias. E foram muitas vezes mesmo. É o mínimo que podemos fazer por ele…
– Parece que o estou a ver. Ainda hoje ele tem essa capacidade de se compor e entrar em ação quando é necessário. À vinda para cá fez precisamente o mesmo, mas estava alcoolizado, não estava com malária… Bem, temos de o despir e arrefecer.
– Sim, vamos a isso. Mas o que terá acontecido para ter isto agora? Ele já bebe há tanto tempo…
– Ele ontem de manhã disse-me que ia deixar de beber… Estava muito envergonhado pela figura que fez durante a viagem. E pelos vistos tentou cumprir…
– Sabe, nós já vimos isto acontecer muitas vezes. O alcoolismo é uma praga aqui em Moçambique. E o povo também conhece bem o delirium tremens. Sabem que mata mesmo. Mas acham que os bichos que eles vêem nas alucinações são os antepassados da família enfurecidos com qualquer coisa. E motivos para os espíritos se zangarem nunca faltam, claro, basta pensar um pouco e encontram logo duas ou três situações em que se quebraram tabus.
– Pois, ainda hoje o tio da Inês…
– Ah, é verdade, como é que correu a conversa com o tio?

As Irmãs iam-me ajudando a despir e a arrefecer o Sr. Rafael com toalhas molhadas.

– Parece-me que correu bem. Mas pode ser só impressão minha. Vamos ver se ele faz mesmo aquilo que disse, que já percebi que as pessoas aqui são muito de resistência passiva. Dizem sempre que sim e depois só fazem o que querem.
– Pois, é mesmo isso. Mas o que foi que ele disse?
– Disse que achava que a Inês tinha lepra…
– Ai, pobrezinhos… Sabe, aqui a lepra é uma humilhação que se estende à família inteira. A maior parte das vezes, quando alguém fica a saber, a vida das pessoas fica destroçada. Não admira que a tenham tentado esconder…
– Mas eles não sabem que a lepra tem cura?
– Claro que não! Para eles nem sequer é uma doença. Para eles é um castigo que vem dos antepassados.
– Começo a ficar cansada desta “tradição”!
– Então nós que já cá estamos há tantos anos… nem nos diga nada. Mas temos de respeitar. E temos de os compreender. Isto é uma outra religião completamente diferente. Não estamos aqui para impor nada, só queremos ajudar as pessoas.

(continua...)

domingo, 27 de novembro de 2011

[e agora, só para compor o ramalhete...] delirium tremens

(...continuando a história que começou aqui...)

Regressei a casa perturbada, mas feliz. Finalmente estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Só esperava poder cumprir a minha promessa de que haveria de curar a Inês. Será que encontraria algum medicamento para ela em Nampula? Que raio de doença para se ter no fim do mundo…


Mas o dia ainda não tinha terminado. E a noite era ainda uma criança… Ao portão, o guarda esperava-me com a notícia de que o Sr. Rafael estava doente. Que estava “com espíritos”, mas que as Irmãs não tinham dado autorização para ele ir buscar um curandeiro.

– Com espíritos, Sr. Revenda?
– Sim, Doutora, ele não está a falar certo, fala com os espíritos, treme as mãos e os braços e parece que vê bichos…
Delirium tremens! Valha-me Deus! E já estava a ficar assim ontem de manhã… Vi-o tremer quando lhe fui levar o mata-bicho, mas naquele momento nem sequer associei a nada, achei que seria fraqueza porque não tínhamos jantado… Ele hoje também continuava com as mãos a tremer?
– Não sei, Doutora, de manhã fomos ao Anchilo procurar a minina Inês e durante o resto do dia estive a dormir só...
– Pois... calculo. E eu hoje de manhã nem fui vê-lo, com a preocupação de irmos ao Anchilo. Era só o que nos faltava agora um delirium tremens...
Tremes? O que é isso, Doutora?
– É a doença dos homens que bebem muito. O corpo fica envenenado pelo álcool e já não passa sem ele. Basta ficar um ou dois dias sem beber e começa a tremer, a ver coisas e ouvir coisas…
– Não, Doutora, não é isso. Isto são espíritos maus. Maus mesmo. Quando os espíritos vêm na forma di bichos, as pessoas morrem quase sempre. É preciso chamar curandeiro para tirar os espíritos. As Irmãs não acreditam em mim!
– Sim, Sr. Revenda, tem razão, esta doença provoca alucinações com bichos e pode matar, é mesmo isso! Mas eu também sei tratar esta doença, não são só os curandeiros.

O guarda estava perplexo. Devia achar que eu era completamente tonta. Não compreendia como é que eu podia, na mesma frase, concordar com ele, que era um facto que o Sr. Rafael estava a ver bichos, e depois dizer que conseguia tratá-lo sem a ajuda de um curandeiro.

– Doutora não está a perceber… Isto é uma doença que vem da tradição! Ele vai morrer se não lhe tirarem os espíritos.
– Está bem, Sr. Revenda, mas não se preocupe que ele vai ficar bem…

O guarda olhava-me incrédulo e assustado. Claramente não acreditava em mim e provavelmente estava cheio de medo de morrer também, receoso de que aqueles espíritos violentos e malignos o atacassem por tabela, já que o Sr. Rafael estava em sua casa… Não valia a pena insistir na conversa. Não falávamos de todo a mesma linguagem e eu nesse dia já tinha tido irritação suficiente com a “tradição” para conseguir sentar-me e explicar-lhe com calma que raio era isso de delirium tremens. E no fundo não valia a pena, não ia conseguir. Era uma doença impressionante demais para alguém mudar assim de opinião.

Entrei no quarto. Deitado na cama, o Sr. Rafael tremia por todos os lados com uma expressão de terror, alagado em suor e, fazia movimentos bruscos com as mãos, como se tentasse apanhar insectos ou afastar qualquer coisa que só ele via e que parecia que o ameaçava. Tomei-lhe o pulso, que batia descompassado, ardia em febre e debatia-se sem me reconhecer… Tartamudeava qualquer coisa em macua que não entendia: “Massi, massi.”

– Que diz ele, Sr. Revenda?
– Está a dizer "água".
– Traga-me água, então, numa garrafa para beber e num alguidar também, que temos de o arrefecer. E depois vá buscar o Sr. Cachimbo a Namutequeliwa, é a terceira casa ao lado do portão das Irmãs da Apresentação. Diga-lhe que preciso que me venha fazer um teste de malária, que isto pode ser também malária cerebral…
– Sim, Doutora.

Minutos depois chegavam as Irmãs com a água que eu tinha pedido.

– Não acha que é melhor levá-lo para o hospital? Não sei se nós sozinhas conseguimos tratar dele…

“Bonito!”, ironizei comigo própria. “Está um homem aqui ao pé de ti em perigo de vida e tu nem sequer ponderas levá-lo para o hospital, só te ocorre mandar chamar o homem que te fez bater o coração há dois dias [e reflectir sobre a vida emocional dos pinguins]… Isto está bonito, sim, senhora!”

(continua...)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

[à procura da inês] lepra, valha-me santa rita de cássia?

(...continuando a história que começou aqui...)

– Que doença acham que ela tem?
– Irmã… Inês tem… – a voz sumiu-se-lhe na garganta, desaparecendo num sussurro.
– Tem o quê?
– Tem… tem lepra.

Fiquei fora de mim! Nem consegui disfarçar o que sentia… Nem me tinha passado pela cabeça que fosse isso de que suspeitavam. Disparei no mesmo momento:

– Senhor Mutaquela! Claro que não é lepra! Pelo acabou de dizer não pode ser. E de qualquer modo a lepra é uma doença que tem cura. E quase não é contagiosa! Mas a sua irmã, mãe de Inês sabe disso. Ela é técnica de farmácia, ela entrega os medicamentos para a lepra aos doentes. De certeza que vê as pessoas a melhorar.
– Sim, ela também disse que não era lepra, mas eu não acredito. E lepra é doença trad’cional. Eu estou a pagar pelo mal que fiz ao meu irmão…
– Por favor! Acha que lepra é assim, com feridas em todo o corpo? Já viu algum doente de lepra com feridas na cabeça ou no peito? Os doentes de lepra têm feridas nas mãos e nos pés, não é em todo o corpo, no resto do corpo têm é manchas. Ela tem manchas?
– Não, tem firida só.
– Pois, papá, a Inês tem uma doença de pele normal. Muitas vezes começa depois de uma malária ou de outra doença com febre. Ela não teve malária antes de isto tudo começar?
– Ah… sim, teve…
– Sim, papá, está a ver? Deve ser psoríase.
– Quê?
– É uma doença de pele. Uma doença normal! E lepra não é castigo por um crime, não tem de ser humilhação para a família. Lepra é uma doença e tem cura! Mas a Inês não tem lepra, tem psoríase, que é outra doença.

Calei-me. Olhei-o de frente. Deus sabe o que me custou não odiar naquele momento aquela cultura terrivelmente injusta. Injusta sobretudo para com as mulheres e as crianças. Bastava ter um tio pouco instruído e meio neurótico para deitar por terra todo o esforço que já tinha sido feito para criar uma menina, para que tivesse estudos, uma profissão e armas e confiança para enfrentar a vida.

Bem desabafavam as Irmãs que é muito difícil ajudar este povo porque a cultura de tradições, feitiços e castigos é um obstáculo enorme ao desenvolvimento. Aquele homem era o chefe da família e tinha sido o primeiro a ousar proferir o nome da doença na família. Sendo assim, não me espantava que tivessem tentado esconder a menina.

Às vezes o estigma instala-se e cola-se à pele, mais visível que a própria lepra, mais mutilante e corrosivo... E de que serve o tratamento se ele implicar exposição pública, mesmo que seja um internamento num hospital? De que serve ficar curado se depois não se puder voltar para casa e continuar a sua vida? A doença é lenta, mas a cura é mais longa ainda e o estigma... esse é cruel. O estigma enterra em vida quem ainda tinha força e vontade de viver.

Enfim, mas todos estavam a sofrer, era isso que não podia perder de vista. E aquele homem, apesar de tudo, estava a tentar tratar a sobrinha da forma que podia e achava correcta. Tinha investido no tratamento quase todas as suas poupanças e estava prestes a arruinar-se para que ela melhorasse. Merecia o meu respeito, por muito que discordasse de tudo o que tinha sido feito e me doesse a situação da menina. “Vá buscar Inês hoje mesmo. Vá buscá-la, que ela está a passar mal ali sozinha e leve-ma amanhã a casa das Irmãs. A doença dela tem cura, papá!" Vi os olhos dele iluminarem-se.

– Sim, Irmã. Obrigado.

Regressei a casa perturbada, mas feliz, apesar de tudo. Finalmente estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Será que encontraria algum medicamento para ela em Nampula? Que raio de doença para se ter no fim do mundo…

(continua...)

[à procura da inês] pronto, acho que é mesmo desta, podem começar a pensar em voltar...


A casa de um curandeiro na Zambézia...
(Muiane, Zambézia)

(...continuando a história que começou aqui...)

Aviso: Embora seja desta que percebemos o que se passa com a nossa menina, ainda não é aqui que nos encontramos cara a cara com ela. Se o vosso objectivo é conhecê-la assim cara a cara, então podem voltar amanhã, que ela já cá deve estar... Por hoje é só o tio, que por acaso engatámos com uma pinta descomunal! Adiante:


Quase tremia só de pensar que ia enfrentar o “tio grande” da Inês. Que mais me iria acontecer desta vez?

Mas, enfim, contra as minhas expectativas e seguindo à risca as indicações da Irmã Lurdes, consegui tranquilamente chegar à fala com ele. Quando percebeu o motivo que me trazia ali, já estava sentado, de garrafa de cerveja na mão e vi-o engolir em seco, mas não se levantou, ficou sentado a ouvir-me. Bendita Irmã Lurdes! Se na minha vida tivesse sempre quem me orientasse desta forma…

Depois do choque inicial, pareceu-me que o consegui acalmar e acabou por me dizer que a Inês tinha adoecido cerca de dois meses antes com feridas na pele. Inicialmente nos cotovelos e joelhos e que depois tinham alastrado por todo o corpo. A princípio ninguém tinha ligado muito, porque não tinham associado a doença a nenhum acontecimento mas, à medida que as chagas avançavam e lhe cobriam todo o corpo, começaram a associar a doença à morte recente do tio mais novo da Inês que vivia numa aldeia a 40 km dali. O ritos do funeral, desgraçadamente, não tinham sido cumpridos à risca. Um dia antes de terminarem chovera de tal modo que a casa tinha ficado destruída…

O rosto cobria-se-lhe de lágrimas à medida que ia falando. Estava profundamente culpabilizado porque tinha sido ele próprio a dar a ordem de terminar as cerimónias fúnebres e regressar a Nampula. O seu irmão sempre tinha sido um homem tão bom e compreensivo, sempre tão preocupado com o bem-estar e conforto dos outros e da família… Pensara que os antepassados e o falecido não se haveriam de importar. Que haveriam de compreender que não tinha sido com intenção de “fazer mal” mas porque não tinha mesmo havido condições para continuar de maneira nenhuma. Mas enganara-se e a sobrinha estava a pagar por isso. Soluçava agora sem conseguir parar.

– Mas, Sr. Mutaquela, não tentaram tratar as feridas da Inês? Nem sequer ao princípio?
– Claro, primeiro foi internada no Anchilo – e sublinhava “no Anchilo!” da mesma forma que alguém em Lisboa diria que tinha levado o filho a uma consulta “em Londres” para enfatizar como estava preocupado e tinha tentado investir na cura –, mas não melhorou nada... só piorou.
– Eu sei, Sr. Mutaquela, mas também sei que não deixaram a Irmã Maria vê-la. Nem sei quem foi que a tratou.
– Foi outro enfermeiro amigo da família. Não queríamos que se soubesse da doença. Se alguém sabe que esta doença apareceu na nossa família temos de ir todos embora…
– Mas não é assim, credo! Doença não é crime!
– Mas ela continuou a piorar e então percebemos que era uma doença trad’cional. E agora está internada na casa de um curandeiro, mas também não está a melhorar… A doença também não ajuda…
– A doença não ajuda? O que é que isso quer dizer?
– A doença é muito má. E pega-se. O curandeiro nem se aproxima dela. Ninguém se pode aproximar…
– O curandeiro não se aproxima dela? Então como é que ele espera tratá-la?
– Ele deixa-lhe os medicamentos ali e ela faz os tratamentos sozinha. E nós vamos lá levar comida para ela, mas também não podemos entrar…
– Então isso quer dizer que ela está lá completamente sozinha?
– Sim. E não pára de chorar. Eu nem consigo ir até lá, é a mãe que vai. E volta sempre a chorar: “Ah, mwanaka! Ah, mwanaka!*”, como se Inês já tivesse morrido.
– Que horror! Não pode ser, quem é esse curandeiro? Ao menos sabe o que faz?
– Não… Não é um curandeiro muito bom, porque os melhores curandeiros de Nampula não aceitaram tratá-la. Mas mesmo assim estamos a ficar sem dinheiro e ela ainda está a piorar…

Eu estava horrorizada, sem palavras e quase a chorar também, a imaginar o sofrimento da menina, sozinha, repelida e ostracizada como se alguém tivesse injustamente colado um crime horrendo à sua pele. Haveria maior humilhação? E sentia uma indignação crescer-me dentro do peito! Como era possível tratar assim uma adolescente? Mas tentei manter a calma.

– Mas porque é que acham que a doença se pega? Que doença acham que ela tem?
– Irmã… Inês tem… – a voz sumiu-se-lhe na garganta, desaparecendo num sussurro.
– Tem o quê?
– Tem… tem lepra.

Fiquei fora de mim! Estava fula! Nem consegui disfarçar o que sentia… Nem me tinha passado pela cabeça que fosse disso que suspeitavam.

Ah, mwanaka! – “O meu filho!” Grito das mulheres macuas quando morre um filho ou pressentem a sua morte iminente.

(continua...)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

[à procura da inês] finalmente no bom caminho...

(... continuando a história que começou aqui...)

Aviso: Ainda não é desta que encontramos a Inês. Em contrapartida, neste post aprende-se uma técnica infalível para engatar um homem macua*. E ensinada por uma freira de 70 anos com décadas de experiência em África! A não perder... Ou melhor, a não perder se forem meninas solteiras, casadoiras e com um homem macua em vista. De outro modo podem ir dar mais uma voltinha por aí, que quando encontrarmos a Inês eu aviso.

No final do lanche apareceu o Sr. Soares da EDM**, que tinha levado a minha mensagem à Irmã Lurdes em Iapala***. Não o esperava de todo, sobretudo tão cedo. Contava pedir ao guarda para ir procurá-lo à EDM no dia seguinte, mas só por descargo de consciência. As perguntas que eu tinha feito à Irmã Lurdes estavam a anos-luz do que agora já sabia e das angústias que teria gostado de partilhar. Eu tinha-lhe apenas perguntado se ela tinha a certeza de que era no Centro de Saúde 25 de Setembro que a mãe da Inês trabalhava e contava-lhe a conversa com o técnico de farmácia.

Não sei como foi que a partir daquela mensagem a Irmã Lurdes intuiu, com toda a certeza, aquilo que me tinha levado mais de 24 horas de esforço e desgaste a compreender. Respondeu-me que certamente havia um problema muito grave e que, para a mãe ter deixado de trabalhar, era porque a família tinha vergonha da situação e ia escondê-la a todo o custo. Que não valia a pena ir procurar a mãe ou o pai porque eles nunca me diriam o que se passava. Só o “tio grande”, o irmão mais velho da mãe, o verdadeiro responsável pela protecção da criança e pela tomada de decisões importantes, poderia desbloquear a situação e dar autorização para que eu a visse e a pudesse tratar.

Que fosse sozinha ter com ele ao local de trabalho, uma fábrica de móveis onde era estofador. Que fosse com tempo, que dissesse que tinha de falar com ele e o convidasse a sentar-se comigo. Aconselhava-me a levar uma garrafa de cerveja gelada e, quando estivesse sentada, a tirasse casualmente da carteira e lha oferecesse. Que apenas então dissesse ao que vinha. Uma vez sentados com uma senhora, os homens macuas só se levantam se ela se levantar primeiro ou se ela lhes der autorização. São muito poucos os que conseguem quebrar esta regra de ouro da boa educação que lhes é incutida desde meninos. E uma cerveja na mão seria mais uma garantia de que o senhor seria “bem educado”… Que lhe falasse com o coração e lhe dissesse que queria mesmo fazer alguma coisa pela menina. Que era preciso ter paciência, mas que estava no bom caminho.

E pronto, lá ia eu outra vez. Uma vergonha tinha-me invadido ao ler a carta. Nesta altura do campeonato já era mais do que suposto ter-me ocorrido precisamente perguntar pelo “tio grande” da menina, o irmão mais velho da mãe, mas desgraçadamente, mais uma vez constatava que ainda não tinha interiorizado a cultura macua e a organização matrilinear da sociedade. Mas até mesmo o Vicente, a viver em Nampula há mais de seis meses, não se tinha lembrado disso. Pelo contrário, ainda funcionava raciocinando como se estivesse na sociedade patriarcal do Sul, em que o pai é que tem a decisão sobre os destinos dos filhos e da família. Mas, caramba, bem que aquela estadia em Nampula podia estar a ser menos difícil!

Fui ter com o tio da Inês nessa mesma tarde. Uma das Irmãs ofereceu-se para me acompanhar até lá para me indicar o caminho, para não termos de acordar o guarda mais uma vez. Ele ia entrar ao trabalho dentro de poucas horas e já me devia andar a rogar pragas… Fizemos um desvio para ir ao supermercado comprar cerveja, que era coisa que não existia em casa das Irmãs [só havia o licor de pêssego feito por elas, famosíssimo em toda a província, mas não era a mesma coisa...]. Estacionámos no mesmo sítio onde eu e o Sr. Revenda tínhamos estado no dia anterior. Uma voz de criança bem disposta:
– Mamã, lembra di mim? Sou Gabriel, o chefe dos ladrões. Posso ficar a guardar o carro?

Impagável, aquele miúdo! Mas não lhe podia dar confiança…
– Não, obrigada, nós não precisamos.

Quase tremia só de pensar que ia enfrentar o “tio grande” da Inês. Que mais me iria acontecer desta vez?
 
* Macua - Grupo étnico que habita as Províncias de Nampula, Zambézia, Niassa e Cabo Delgado; a sua língua. Definição daqui.
** EDM - Electricidade de Moçambique.
*** Iapala não tinha rede de telemóvel, lembram-se? As mensagens tinham de ir transportadas em mão por portadores de confiança.
 
(continua...)

[à procura da inês] no hospital do anchilo





No hospital do Anchilo...
(Nampula)

(...continuando a história que começou aqui...)

Eu e o Vicente ficámos novamente a olhar um para o outro. Ambos com uma única ideia na mente: se alguém nos tivesse dito que podia salvar o nosso menino, qualquer de nós teria ido com ele até ao fim do mundo, se fosse preciso. Como é que aqueles pais desistiam assim de uma filha que adoravam e sempre tinha sido saudável? Não, não podia ser verdade… Eles não podiam ter desistido. E nós também não íamos desistir. O pai tinha dito que ela estava internada. Isso devia ser verdade… Mas onde estaria?

– Tia P., se é verdade que a menina está internada, só pode estar no Anchilo. É lá que todas as pessoas que trabalham na Saúde vão quando estão doentes. É o melhor hospital daqui.

No dia seguinte fui com o guarda, o Sr. Revenda, ao hospital do Anchilo. Mais uma vez o assunto da Inês queimava-me a língua, mas ao meu lado, o Sr. Revenda roncava o sono dos justos e eu mal tinha coragem de o acordar para lhe pedir indicações quando era mesmo preciso escolher o caminho...

Felizmente, a Irmã Maria, uma Irmã Comboniana e enfermeira do hospital, disponibilizou-se de imediato para me ouvir e ajudou-me a rever todos os processos das semanas anteriores. Descobrimos que a Inês tinha estado internada durante um mês inteiro numa das enfermarias de Medicina Interna. Mas o processo não tinha nada escrito. Nem sequer o motivo de admissão. A Irmã estava perplexa. Jurava-me a pés juntos que não a tinha visto nunca no período em que o processo dizia que tinha estado internada. Ela que controlava tudo. Absolutamente tudo. Quem entrava, quem saía, se a medicação estava a ser cumprida, se os doentes melhoravam ou pioravam, se as mamãs estavam a planear abandonar o hospital por os tratamentos se estarem a prolongar… Tudo! Eu já tinha ouvido falar dela. Era uma força da natureza, uma força de trabalho e competência. Não era possível a menina ter lá estado internada sem ela ter dado conta.

Fomos rever os registos da medicação e, de facto, lá estava o nome dela, com a referência de “cama extra”. Provavelmente os pais tinham pedido para a menina não ficar fisicamente internada e alguém ia ao hospital várias vezes por dia receber a medicação por ela. E deviam ter pedido especificamente para que a menina não fosse vista pela Irmã Maria, a profissional mais experiente de todo o hospital, porque pensaram que essa seria a única maneira de as Irmãs de Iapala não ficarem a saber da doença! Santo Deus, mas que maneira de agir mais arrevesada… Fomos ver que medicação correspondia àquela cama para ver se pelo menos chegávamos a um diagnóstico, mas segundo os registos, a menina tinha sido tratada com uma série de antibióticos, anti-fúngicos e anti-parasitários. Parecia que alguém tinha disparado em todas as direções sem saber rigorosamente nada do que estava a fazer. Pela medicação também não íamos a lado nenhum. A Irmã também não reconhecia a assinatura de quem a tinha administrado. Claramente tudo tinha sido feito para encobrir a menina e a sua doença tabu… Credo! Mas como é que era possível? Aquilo começava a parecer um romance policial de péssima qualidade. E havia uma vida à mistura! A vida e o futuro de uma menina, que lhe estavam a ser roubados de forma cruelmente injusta e injustificada por uma qualquer tradição… Se antes estava preocupada e compadecida pela família, agora estava genuinamente zangada.

– O que acha que posso fazer mais, Irmã?
– Não estou a ver, sinceramente… Se já foste falar com os pais e oferecer a tua ajuda e eles recusaram, então duvido que haja mais alguma coisa a fazer… Quando as pessoas não querem ser ajudadas é quase impossível alcançá-las. É assim em todo o mundo, não é só em Moçambique. E aqui a justiça não nos permite retirar a custódia da criança à família, como na Europa… Não há lei nenhuma que proteja as crianças dessa forma.
– Pois é, Irmã…
– Muitas vezes temos de aceitar que não podemos fazer mais nada pelas pessoas, por muito que nos custe. Lançamos uma semente. Podemos rezar para que dê fruto. Muitas vezes não podemos fazer mais. Mas pode ser que ainda caiam em si e te procurem…

Mas já eram 08:30 e dentro de meia hora ia começar o meu périplo na escolinha a ver as 150 crianças que me tinha proposto ver. Fazia por me esquecer disso, se não ainda me “dava a travadinha” e podia desistir à partida. Tinha de regressar rapidamente a Nampula. Não havia mais nada a fazer se não enviar outra mensagem à Irmã Lurdes e esperar que ela tivesse alguma ideia ou que as nossas investidas da noite anterior pudessem ter lançado alguma semente…

As consultas na escolinha decorreram sobre rodas, ao contrário das minhas expectativas. Sem problemas, sem choros, sem birras. Nunca tinha visto crianças como aquelas, disciplinadas, bem comportadas, com uma obediência sem reservas. E a alegria no final da consulta quando recebiam um balão era indescritível. Mas cheguei exausta ao fim da tarde. Faltavam-me ainda algumas compras para fazer, mas as Irmãs obrigaram-me a ficar a descansar e lanchar com elas. E tinham razão. Ainda não me tinha sentado como deve ser com elas em família…

(continua...)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

[à procura da inês] não, não vamos desistir!

(...continuando a história que começou aqui...)

Voltámos para a casa da Inês mesmo a tempo de encontrar o pai, que chegava de um biscate nocturno. Desta vez ele não associou a minha presença a nada e pude perguntar-lhe tranquilamente onde estava a menina. Respondeu-me que estava doente e internada. Só então caiu em si e me perguntou quem eu era e ao que vinha. A expressão do rosto mudou completamente. O semblante crispou-se e não voltou a abrir a boca, por mais que insistíssemos. Começou a chorar por fim.

– Papá, eu sou médica, estou com as Irmãs de São João Batista em Muahivire. Eu posso ajudar a sua filha. Pense nisso. Pense melhor. Não tem nada a perder. Eu estou lá até ao final da semana. Se for preciso até mando vir medicamentos de Portugal para ela. Mas leve-ma lá! Ela é tão boa aluna, tão boa menina. Tem uma vida inteira à sua frente. Ela merece, papá!

O choro transformou-se num choro convulsivo e alto… A mãe, ouvindo-o, abriu a porta ainda em lágrimas e puxou-o para dentro. Ficámos mais algum tempo a bater à porta e a ouvi-los soluçar dentro de casa, sem uma palavra. Provavelmente num abraço sofrido igual ao meu e do Vicente nessa tarde… Até que desistimos com um: “Esperamos por vocês. Todas as doenças têm tratamento. Por favor oiçam-nos, nós queremos mesmo ajudar! Boa noite.”

Ficámos novamente a olhar um para o outro. Ambos com uma única ideia na mente: se alguém nos tivesse dito que podia salvar o nosso menino, qualquer de nós teria ido com ele até ao fim do mundo, se fosse preciso. Como é que aqueles pais desistiam assim de uma filha que adoravam e sempre tinha sido saudável? Não, não podia ser verdade… Eles não podiam ter desistido. E nós também não íamos desistir. O pai tinha dito que ela estava internada. Isso devia ser verdade… Mas onde estaria?

– Tia P., se é verdade que a menina está internada, só pode estar no Anchilo. É lá que todas as pessoas que trabalham na Saúde vão quando estão doentes. É o melhor hospital daqui.
– Onde é o Anchilo? É perto?
– Não, é muito longe…
– Mas sabes o caminho?
– Não, tia P., mas todo o mundo sabe…
– Vou lá amanhã de manhazinha. Anda, agora vou levar-te a casa, que deves estar exausto. Olha, e esta capulana, queres levá-la para a tua namorada?
– Não tenho namorada, tia P., primeiro tenho de ter dinheiro para pedir em casamento!
– Pronto, pronto… Mas fica com ela na mesma. E diz-me o que precisas.
– Nada, tia P., muito obrigado…
– Está bem, Vicente. Mas havemos de falar mais vezes… Ficas bem?
– Sim, tia P., obrigado.
– Vem ter comigo lá a casa nos próximos dias. Quero muito ver-te outra vez…
– Sim, tia P...

(continua...)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

[em casa da inês] algo de muito grave se passava...

(...continuando a história que começou aqui...)

Após alguns minutos, a porta abriu-se e uma mulher, de seus trinta e poucos anos, emagrecida e despenteada, semi-despida abriu a porta, estremunhada. Não me deu tempo sequer de explicar ao que vinha. Assim que me viu, percebeu que eu só podia vir de parte das Irmãs, e fez menção de fechar a porta. Não tinha contado com isso. Nem me tinha passado pela cabeça que ela compreendesse de imediato o que é que eu fazia ali. Que ingenuidade a minha…

A vizinha e o Vicente, pelo contrário, não esperavam outra coisa. Precipitaram-se para a porta no mesmo momento, impedindo-a de se fechar. A vizinha dizia repetidamente qualquer coisa em macua, que não compreendia totalmente, mas que incluía a palavra “ajudar” e a mãe debatia-se, furiosa, com o ar indignado de quem está a ser invadida no seu espaço. E com toda a razão, que afinal de contas tínhamo-la acordado do seu primeiro sono para vir falar, sem pré-aviso nenhum, de um assunto delicadíssimo. Que fiasco mais uma vez, valha-me Deus!

A vizinha estava quase a desistir. Apesar de tudo não queria escândalos nem violência física, que era o que estava a um passo de acontecer. Naquele momento ocorreu-me perguntar, só para o caso de a mãe estar a pensar que eu lhe vinha cobrar alguma coisa: “O que se passa com a sua menina?”

Foi aí que algo no seu semblante mudou. Desmoronou-se e começou a chorar… Mais tarde explicaram-me que o que eu perguntei, na realidade, foi: “Porque é que está a sofrer assim pela sua filha?” Seja como for, foi um engano providencial. [Já tive enganos piores, oh se já tive! Como o da vez em que, no pátio do hospital disse para um adolescente: “Anda, despacha-te!” e toda a gente desatou a rir porque o que eu lhe ordenei, de facto foi: “Pede-me em casamento!” Ninguém merece, pobre miúdo… O ar de pânico dele foi indescritível!] A vizinha repetiu novamente a frase que lhe vinha dizendo insistentemente, agora em tom meigo e abraçou-se a ela… “Só estamos aqui para ajudar.”

– Mas Irmã não me pode ajudar. Betinha tem doença trad’cional a voz da mãe metia dó, de tão triste.
– E que doença é essa, mamã?
– Tem cabeça grande – respondeu, desviando o olhar.
Ishh, mamã! Fala a verdade! Dor di cabeça tem cura, não é para deixar de trabalhar, não. Fala verdade – a vizinha repreendia-a mansamente.
– Tem dor de cabeça há quanto tempo? – perguntei de imediato.

De repente a minha mente médica estava em ação, ao mesmo tempo que fazia um esforço enorme para seguir a conversa que agora se desenrolava à minha frente, num ritmo muito mais rápido, com meias palavras e sons engolidos, em sotaque moçambicano cada vez mais cerrado e com termos e conceitos que me escapavam totalmente. O que seria “cabeça grande”? De que estariam elas para ali a falar? Sentia que estava prestes a perder a minha única oportunidade para convencer a mãe a deixar-me ver a Inês.

– Não, Irmã – respondeu a vizinha –, não é dor di cabeça assim dor di cabeça mesmo, é dor di cabeça trad’cional. Para curar cabeça grande tem de caçar gazela e fazer cerimónia. Mas está a mentir. Não é cabeça grande, não.
– Então, mamã? Olhe, eu sou médica em Portugal, às vezes aquilo que as pessoas pensam que é doença tradicional e que não tem cura, são doenças que têm cura lá. E posso mandar vir medicamentos de Portugal para tratar a menina.
– Não, Irmã, não é preciso… Betinha está gráv’da, não quer estudar mais.
Ishh, mamã! Fala a verdade! Grav’dez é bonito, não é vergonha não! E minina anda di cabeça coberta. Grav’dez não é para cobrir cabeça… Ah, e há um mês Betinha estava a lavar pano no poço, que eu vi. Ela esteve menstruada!

A mãe recomeçou a chorar e a partir daí não lhe conseguimos arrancar mais palavra nenhuma. Claramente a doença era algo que mexia de tal forma com ela e tão humilhante que mesmo tendo ali alguém disposto a ajudar desconseguia sequer dizer-lhe o nome… Não conseguia aceitar a doença da filha. Que desespero. O nosso e o dela. Acabou por voltar para dentro de casa e nunca mais abriu a porta, por mais que batêssemos. Acompanhámos a vizinha a casa.

– E ela não tem mais ninguém de família por aqui? Uma irmã, uma tia, um pai? Vivem só as duas? – perguntei. Recusava-me a dar-me por achada.
– Vivem com o pai. Os outros irmãos também estão fora a estudar.
– E o pai onde está? Porque não apareceu à porta?
– Ainda não chegou, acho.
– Boa noite, mamã, muito obrigada mesmo!
– Boa noite.

Fiquei sozinha com o Vicente. Ficámos a olhar um para o outro, desconsolados. Eu sabia que ia ser difícil, mas tinha tanta esperança… A dada altura parecia que a mãe nos ia dizer o que se passava, mas havia mesmo algo de terrível, de certeza. Seria SIDA? Uma psicose? Epilepsia? Malditos tabus! Malditos estigmas… Sobretudo porque todas estas doenças têm tratamento! Podem não ter cura, mas tratamento têm todas. E uma técnica de farmácia tinha obrigação de saber isso, caramba!

– Tia P., vamos outra vez para lá esperar o pai? Pode ser que o pai consiga falar. Os homens às vezes falam melhor porque não sofrem tanto com os filhos. São um pouco mais distantes porque estão menos envolvidos… E a mãe não pode decidir nada sobre a filha. Se o pai tiver dito que não se pode falar da doença, a mãe não pode falar. Mas o pai pode. E talvez dê autorização para tia P. ver a menina.
– Vicente… – eu estava espantada com a sensibilidade daquele menino – mas não tens de te levantar cedo amanhã?
– Sim, mas é só hoje. Não tem problema.

(continua...)

domingo, 20 de novembro de 2011

[à procura da inês] no bairro de napipine...





Nampula, instantes da cidade...

(...continuando a história que começou aqui...)

As Irmãs tentaram demover-me de ir procurar a mãe da Inês a casa dela. “Podemos oferecer a nossa ajuda. Se as pessoas quiserem ser ajudadas acabam por vir…” Era verdade. Dolorosamente verdade.

Eu também sentia que ia ser intrusiva. Que me estava a aventurar por um mundo que não conhecia e que tinha todas as hipóteses contra mim nestas circunstâncias. Que provavelmente estava a agir de uma forma absolutamente desadequada. Mas tinha esperança de que se me conseguisse encontrar com a mãe e fazê-la olhar-me de frente, ela haveria de perceber, no fundo dos meus olhos, que eu estava a falar verdade e que a queria mesmo ajudar… Ou seria só uma fantasia minha? Será que a expressão do olhar tem a capacidade de vencer barreiras culturais e desconfianças com séculos de existência? Não seria só eu a confrontar-me, a lançar-me um desafio e a querer perceber até onde ia a minha própria capacidade de comunicar? E sem me colocar de todo em causa. É que ia estar numa posição em que se vencesse, isso seria mérito do meu olhar franco e se falhasse teria as desculpas perfeitas: precisamente as tais barreiras culturais e desconfianças com séculos de existência… Naquele momento vacilei a sério.

Mas a minha intuição dizia-me que se não fosse pessoalmente ter com ela, a mãe nunca viria por sua própria iniciativa a tempo de me encontrar. E já tinha combinado com o Vicente. E sobretudo não queria desiludir a Irmã Lurdes. Ela estava à espera da sua menina e tinha-me confiado essa missão. Com que cara chegaria a Iapala dizendo que só tinha mandado uma mensagem à mãe e não tinha feito mais nada por ela?

Chegámos a Napipine já passava das 21:00. Deixámos o carro quase à entrada do bairro porque as ruas, à medida que nos embrenhávamos mais para o coração do casario, quase desapareciam. Não era possível seguir com o carro por ruas tão estreitas, com casas quase pegadas umas às outras sem qualquer planeamento, sem ordenamento de qualquer espécie e cheias de lama e lixo nos entremeios. Seguimos a pé pelas ruas labirínticas, quase desertas. Nunca tinha entrado antes num bairro periférico. Acabava de me aperceber de que só tinha andado pelo centro, onde as casas eram de pedra e cal, embora muitas estivessem degradadas e descuidadas, algumas com vidros partidos, pintura a cair, buracos nas paredes e lixo por todo o lado, mas onde pelo menos havia uma sensação de urbanidade. Ali, pelo contrário, a maioria das casas eram de matope e telhado de capim. Algumas com chapa de zinco e paredes de cimento, mas nenhuma com casa de banho ou saneamento básico. Muitas casas não tinham janelas ou qualquer outra abertura para além da porta, já fechada àquela hora…

Lama e água corriam pelas ruas estreitíssimas e havia muito poucos candeeiros de rua. Mal conseguia acreditar que aquele era o local onde viviam muitas das pessoas com quem me tinha cruzado nessa manhã na cidade. Onde viviam pessoas que tinham tirado cursos e estavam empregadas há muitos anos… Como era possível viver com a família inteira em dez metros quadrados, sem acesso a água potável, sem meios de fazer despejos de forma condigna, e continuar a ser gente? A pobreza no mato pode ser triste, mas nas cidades consegue ser desumana…

À porta de algumas casas viam-se ainda pessoas a tomar a última refeição do dia, que cozinhavam num pequeno fogareiro a carvão, ouviam-se restos de conversa à volta da pequena chama, criada em família, que servira para aconchegar as barrigas e os ânimos, percebia-se a moleza de quem já lutava contra o sono mas teria de vencer a inércia e fazer um último esforço para estender as esteiras, despir e deitar os filhos mais novos, arrumar a loiça para lavar no dia seguinte no poço ao fundo da rua. Terrível, a monótona dureza do dia-a-dia.

Não fiz qualquer comentário. Tentei lutar contra o choque que sentia. Ali, naquele bairro, havia certamente pessoas de valor, pessoas que lutavam para que os filhos tivessem um futuro melhor, casais que se amavam, famílias que se construíam, pessoas que procuravam levar uma vida honesta e ajudavam a família e os amigos. Também ali, quis acreditar, era possível ser-se feliz, houvesse harmonia e saúde… As pessoas olhavam-nos e comentavam em macua à nossa passagem, mas nem eu nem o Vicente, cuja língua materna era o changana, os compreendíamos. Certamente estariam a especular sobre o motivo daquela visita…

A família do colega do Vicente era, felizmente, uma das famílias tardias, que se tinha demorado no jantar, depois do anoitecer e ainda estavam à porta de casa. Indicaram-nos sem dificuldade a casa da mãe da Inês. Sabiam, de facto, que algo se passava com a família e que a mãe tinha deixado de trabalhar. Ainda não passavam dificuldades, mas era certamente uma questão de tempo. Estavam preocupados com eles, de tal forma que a mãe do colega se ofereceu para ir connosco falar com ela.

A casa era quase ali ao lado. Tinha portas e janelas, que já estavam fechadas e não se via qualquer luz no interior. Hesitei, mas a mãe do colega do Vicente bateu à porta, convicta. Esperámos um pouco. Nada. Bateu novamente. Nada. Não estariam em casa? Que sim, que estavam de certeza, pois se tinha visto a mãe passar… Após alguns minutos, a porta abriu-se e uma mulher, de seus trinta e poucos anos, emagrecida e despenteada, semi-despida abriu a porta, estremunhada. Não me deu tempo sequer de explicar ao que vinha ou de lhe mostrar a capulana que trazia para a Inês, não me deu tempo sequer de a olhar nos olhos, como tinha imaginado. Assim que me viu, percebeu que eu só podia vir de parte das Irmãs, as únicas pessoas brancas que conhecia, e fez menção de fechar a porta. Não tinha contado com isso. Nem me tinha passado pela cabeça que ela compreendesse de imediato o que é que eu fazia ali. Que ingenuidade a minha…
 
(continua...)