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quinta-feira, 22 de junho de 2017

[welcome to mozambique] a seleção de esperanças!


"Os meninos das Irmãs" - Escolinha da Santa Cruz, Nampula
Não sei quais deles são meus filhados, possivelmente nenhum, porque só tenho rapazes e veem-se sobretudo meninas a dançar, mas sei que são felizes e lhes é permitido ser criança!
(Moçambique)

No mês da criança, no dia em que é divulgado o relatório da OCDE em que se faz a revelação bombástica de que "uma melhor educação na primeira infância aumenta as hipóteses das crianças desenvolverem todo o seu potencial, ao mesmo tempo que reduz as desigualdades sociais e é a principal determinante da mobilidade social" (como se ninguém o soubesse há anos), as irmãs de São João Baptista postaram este vídeo delicioso! Podia ser qualquer jardim de infância de qualquer país do mundo, mas fica num dos bairros mais pobres de Nampula e se vos disser que há anos que fazem coisas tão extraordinárias e defendem a infância com unhas e dentes podem crer que é verdade!

Coisas extraordinárias como combater o tráfico e rapto de crianças. Sabem como? Chamam o senhor da conservatória de 6 em 6 meses à escolinha e registam cada uma das crianças que nasce no bairro! Desde que o fazem nunca mais houve um único rapto de crianças, que era um flagelo que assolava toda a província! Desapareceram os raptores. Foram para a Tanzânia, diz-se. Mas nunca mais! Podem rir-se. É um ovo de Colombo, é certo, mas como todos os ovos postos por esse senhor, absolutamente genial.

Na escolinha asseguram que todas as crianças aprendem a falar Português e se familiarizam com livros, letras e números antes de iniciar o primeiro ciclo. Porque nenhuma criança consegue aprender a ler numa língua estrangeira (e em Nampula, nas casa de família, fala-se Macua). A biblioteca das irmãs, por pobre que seja, tem um movimento de 400 pessoas diariamente! É uma ilha, um oásis! E o número de crianças que consegue aprender efetivamente a ler é incomensuravelmente superior aos meninos de outras escolas.

Proporcionam a alimentação, vestuário e material escolar a cada uma das crianças. Por escassa que seja a alimentação, todas as crianças (e asseguro-vos que as observei a todas, uma por uma!) estavam dentro das curvas de crescimento da OMS.

Quanto gastam as irmãs com cada uma das crianças? Com cada um dos nossos afilhados? Preparem-se: 70 euros por ano! Em roupa, alimentação, educação e material escolar. E acima de tudo, as crianças têm sempre um sorriso! Digo-vos, que só quem lá esteve sabe a força que um sorriso pode ter.

É isto. A vida é simples. Os 70 euros por ano que gasto com os meus afilhados valem cada cêntimo! Tenham um bom dia!

(Se me perguntarem: Beijo-de-mulata, alguma coisa te custa, nisto de ser mãe? Eu respondo que há uma coisa. É não poder tão cedo voltar a Moçambique... A saudade aperta tantas vezes... Mas não se aflijam que sou feliz do lado de cá!)

sábado, 27 de maio de 2017

[cada mulher é uma ilha] o dia em que o mar desapareceu...


 O dia em que o Índico se tornou frio e distante e decidiu esquivar-se ao contacto íntimo e envolvente com o seu corpo... Nesse dia, a mulher, alheia a tudo quanto já tinha deixado de existir em seu redor, apanhava marisco na maré-vaza...


...no final do dia, a mulher, com o cesto cheio, levantou a cabeça e seguiu o seu caminho por entre as águas, acreditando ainda que pelo menos o mar e o céu são garantidos... e nunca chegou a perceber que o mar nos toca apenas porque quer. E o céu só ilumina quem ama...

(Ilha de Moçambique, Nampula)

[Agradecendo as graças desta vida, passe o pleonasmo, e abraçando a saudade que o Índico nos imprime na pele*! Como diria a Helena Araújo, a primeira dama dos dois dedos de conversa: "Da minha vida vê-se o Índico..."]

* Não vivemos sem uma vírgula de Oxford.

terça-feira, 23 de maio de 2017

[mas porque foi que não dormiste esta noite, beijo-de-mulata?] silêncio...

E perguntam vocês: "Mas, beijo-de-mulata, a ti, que já estiveste em Moçambique no meio do mato e sempre conseguiste dormir de noite, agora é que te dão as insónias?"

É verdade, meus amigos, quem visita este mato há mais tempo sabe que já estive metida em assados muito complexos, quase sem meios nenhuns para socorrer os doentes e que sempre me desenrasquei sem perder o ânimo. Que num surto de sarampo me morreram quase tantas crianças como as que faleceram em Manchester e que num surto de cólera na Zambézia morriam por dia tantos ou mais do que ontem. Que "parto sem dor" no hospital no Gilé era um parto em que mãe e filho ficavam vivos.

E que quando achamos que já vimos de tudo, quando pensamos que já vimos todas as desgraças do mundo, que já vimos pessoas a morrer e a sofrer, a suportar aquilo que achamos que vai para além da força humana, parece que deixamos de estar preparados para aceitar que pode haver pior. Ainda pior. Foi isso que percebi quando, depois de 15 dias sem arredar pé da porta do Instituto Nacional de Apoio aos Refugiados (INAR) em Nampula, tive finalmente autorização para entrar o campo de refugiados às portas da cidade e tratar os doentes de lepra que estavam a ser literalmente enterrados vivos pelos familiares. Nunca vos falei destes dias horríveis de descida aos infernos no campo de refugiados de Maratane porque nem eu própria gosto de me lembrar deles. De como os guardas do campo nos apontavam uma metralhadora à entrada só porque sim, nos revistavam o carro para nos intimidar e no final nos pediam boleia para casa, como se nada fosse. De como se  podia ver o desespero na face das pessoas que não eram imigrantes naquele país. Eram toleradas se ficassem naquele espaço, mas tratadas como criminosas e aprisionadas se tentassem fugir. E fugir para onde, se não havia caminho de volta para casa? Sim, e não vos vou falar dos doentes de lepra. Eu própria não saberia como fazê-lo sem perder o sono.

E perguntam vocês, meus amigos: "Mesmo nesses dias conseguiste dormir?" E eu respondo que sim. Com mais ou menos dificuldade, mas sempre dormi de noite. E voltei no dia seguinte com ânimo e vontade. Porque sempre consegui sentir que fazia algo pelos doentes, porque apesar dos que morriam e sofriam, havia sempre muitos mais que sobreviviam e se curavam.

Mas o mais importante de tudo, à noite, não era saber que tinha conseguido ajudar. O mais importante nesses dias difíceis era saber que à noite tinha uma casa para onde voltar. Um colo para onde correr se estivesse mais triste. Uma casa segura, onde havia mimo, carinho e alegria. E tinha a minha própria família, se bem que a milhares de quilómetros dali, para onde iria voltar.

Foi isso que me faltou a mim ontem às pessoas que vi em Manchester. Porque o terrorismo é isso mesmo. Deixamos de ter uma casa segura para onde voltar. Onde construir raízes e criar os filhos. Bolas, como é possível?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

[o milagre dos pastorinhos] e os meus milagres particulares



I once had a hospital in Africa...
(Gilé, Zambézia)

Confesso que ainda não consigo ler ou ouvir a história do menino Lucas, que sustenta a canonização dos pastorinhos de Fátima, sem me emocionar. Eu sou médica e ainda para mais trabalhei no meio do mato em Moçambique numa zona completamente desprovida de meios, onde a fé das pessoas é enorme, só superada pelo amor pelas crianças. Um povo fascinante, tem de concordar quem já lá viveu. É obvio que já vi e vivi muitas situações-limite! Assisti a curas prodigiosas. Posso dizer, em tom metafórico, que já vi muitos milagres na vida! Mas não. Não vi.

Milagres autênticos, não explicáveis pela fisiopatologia, acho que só vi um. Ou dois, pronto. Um e meio, já que para o primeiro ainda ponho hipóteses explicativas. Já vos contei as histórias (podem ir ali atrás ler esta história, e a outra também, mas aviso desde já que esta última é longa e difícil), talvez um pouco parecida com a do Lucas: Uma criança em descerebração acabou por recuperar sem sequelas! A situação era de tal forma grave que me cheguei a arrepender de ter insistido no tratamento. Quando vi que o menino estava reagir em descerebração fiquei horrorizada. A minha convicção foi apenas que o menino haveria de ficar com sequelas gravíssimas. Da mesma forma que os médicos que reanimaram o Lucas antes de o operar pela primeira vez poderão ter duvidado se tinham feito o que era correto... Não sei o que sentiram neste caso. Eu pessoalmente sei que reanimaria, mas haveria de duvidar por dentro se estaria a fazer o que era melhor para o menino.

Mas depois avisaram os pais do Lucas de que o menino poderia ficar com sequelas muito graves, possivelmente em estado vegetativo antes de o transferir para um hospital maior. Talvez tenham mesmo chegado a fazer a pergunta que este aviso quer dizer: "Querem mesmo que se continue o tratamento ou preferem que paremos por aqui, já que a situação é desesperada? No final vão aceitar cuidar o menino se ele ficar com sequelas graves?" Eu própria fiz a mesma pergunta aos pais do meu menino. Eu não tinha para onde o transferir, perguntei apenas se queriam que o menino fosse morrer a casa. Mas tudo o resto foi igual. Tenho a imagem do milagre gravada na minha mente. O menino acordou, horas depois, e começou a brincar com o meu estetoscópio vermelho. A minha cara de espanto e felicidade deve ter sido muito expressiva, porque a mãe sorriu e chorou comigo. Não sei se se chegou a aperceber do quão extraordinária foi a cura do filho.

Aquilo a que assisti não tenho a certeza se foi milagre, mas já perguntei a muitos colegas especialistas nesta área e ninguém viu semelhante coisa. O cérebro é plástico, isso eu sei e não é novidade para ninguém. Mas há limites. E a descerebração é onde eu traço o meu.

Se foi milagre de algum santo em particular não sei. Nunca saberei. Nem me ocorreu rezar, de tal forma estava convencida de que o desfecho seria trágico. Não tenho registos. Por acaso tenho uma testemunha, mas não há maneira de haver provas. Sei que a Irmã Lurdes rezou por ele ao seu santo de particular devoção. Mas não sei mais nada. Isto para dizer que todos os dias há milagres. E quando não são milagres, são graças enormes. E que vale a pena acreditar, porque quem não acredita (que é quase sempre o meu caso,  infelizmente) sofre mais!

Se aprendi a rezar por milagres? Acho que não. Mas devia. Talvez ainda vá a tempo...

domingo, 7 de maio de 2017

[mamãs africanas] dia da mãe sem medo, nem dó, nem drama...









Mamãs de Nampula e da Zambézia
(Moçambique)

Dizem os portugueses que "quem tem mãe tem tudo, que não tem mãe não tem nada". Dizem os africanos, em jeitos de sinónimo (que todos os provérbios importantes existem com tradução): "casa sem mãe é um deserto".

quinta-feira, 4 de maio de 2017

[welcome to mozambique] as pulseiras mais fashion



Feira do Pau Preto, fotos daqui, que nem por sombras levaria a minha máquina fotográfica para as compras na feira... O que ganharia em registo gráfico perderia em poder negocial.
(Nampula, Moçambique)

[Esta manhã o facebook teve a gentileza de me recordar este episódio. E não resisto a contar-vos de novo a mesma história!]

Uma das coisas que mais gosto de comprar e que sei que as minhas amigas mais apreciam são as pulseiras exóticas, feitas em pau preto, sândalo e pau rosa que se vendem na chamada Feira do Pau Preto, aos domingos em Nampula, onde se pode comprar de tudo, desde vassouras feitas com fibra de coco até lamparinas feitas de latas de conserva vazias, passando pelas inevitáveis capulanas e medicamentos tradicionais e, claro, aquilo que dá nome à feira, as famosas obras de arte lindíssimas em pau preto, feitas de uma só peça, apenas com um canivete, por homens que aprenderam sozinhos, ou com alguém próximo, a difícil e paciente arte de talhar a madeira.

Certa vez, uma amiga pediu-me que lhe trouxesse como lembrança uma pulseira de rabo de elefante. Segundo ela, era do mais fashion que existia, em termos de acessórios exóticos africanos. Fiquei horrorizada. Eu não sou capaz de comprar marfim ou tartaruga, por mais bonitas que sejam as peças de arte. Por mais que me digam que os elefantes não são mortos para lhes retirar as presas, só as retiram de elefantes encontrados já mortos acidentalmente e que as tartarugas não são mortas de propósito. É fácil iludirmo-nos com estas desculpas ingénuas... Mas uma pulseira de cauda de elefante? Que estranho e, ao mesmo tempo, que curioso. É que não lembra ao menino Jesus, quanto mais ao rabudo... Certo domingo, quando já estava a regressar a casa vinda da feira, mesmo em frente ao delicioso estádio do Sporting Clube de Nampula, vi estas pulseiras a vender e resolvi parar o carro e investigar por conta própria, num rasgo de inspiração:

- Bom dia, senhor, novidades*?
- Tudo bem, não sei do seu lado...
- Salama**, obrigada.
- Ah... Senhora, estou a vender pulseira.
- Sim estou a ver, estas pulseiras são de quê?
- Rabo de elefante...
- Ah, muito bem. E custam quanto?
- Está a 20 cada uma...
- A 20 meticais? E quanto me faz se levar cinco?
- Fica a 15 cada uma.
. Está bem... E quem fez as pulseiras?
- Eu mesmo, mamã!
- Ah, muito bem, parabéns, são muito bonitas! Mas onde é que arranjou o rabo de elefante?
- É um caçador que vende.
- Um caçador? E onde é que ele caça?
- Não sei, mamã...
- Mas ele mata os elefantes para lhes cortar o rabo?
- [Atrapalhado, sem saber o que dizer a esta mukunya***, que nem comprava nem desgrudava literalmente do seu pé...] Não... corta o rabo, só.
- Hum... Olhe, pode dizer, que eu levo na mesma...
- O quê, mamã?
- Não são de elefante, pois não?
- [Com pouca convicção] São sim...
- Mas pode dizer, não tem problema...
- [Baixando os olhos, envergonhado e baixando também a voz...] Ah, mamã... São di pineu...
- De quê?
- Di pineu, mamã.
- Mas o que é um pineu?
- Um pineu, mamã!
- Pineu? Mas isso é um bicho? É parecido com quê?
- Pineu... Não sabe o que é pineu? Pineu di carro!
- De pneu?!
- Sim, mamã. Nós corta o pineu di carro e dentro do pineu tem o miolo que faz o fio...
- Ah... Levo cinco, então!

* Novidades - Como está [de saúde]?

** Tudo bem.
*** Mukunya - Branca

terça-feira, 2 de maio de 2017

[welcome to mozambique] always dancing


Moçambique, país de danças e sorrisos!

Enquanto não me volta a vontade de escrever, fiquem com este vídeo de danças deliciosas em Nampula e Iapala (norte de Moçambique). Palavras para quê? A emissão segue dentro de momentos...

domingo, 16 de abril de 2017

[iapala revisitada] as flores do frangipani


Esta é a flor do frangipani, uma árvore de xicuembos* e xipocos**, a árvore dos deuses e dos antepassados, de flores românticas e perfumes noturnos... O frangipani tem as flores das manhãs claras, que vêm enfeitar os cabelos das jovens, das noivas, das virgens e os adros das igrejas nos dias felizes.
(Iapala, Nampula)

Como diria o meu amigo Lépido, nós não temos estilos, temos momentos... E eu também tenho direito a dias pirosos! Pronto, era só isto. Aqui no mato-que-já-não-é-mato não temos livro de reclamações. Nem mesmo o Sr. Pompisk, o maior comerciante da Zambézia tinha tal modernice! Para ele, se nos estiver a ouvir, aquele abraço. Tenham um bom dia e que a Páscoa  (ou a Primavera, o que vos disser mais) vos renove.

* Deuses
** Fantasmas

sexta-feira, 31 de março de 2017

[outras palavras] hoje apetece-me...


"Não há nada de mais parecido com a musicoterapia do que a culinária! Mas é impossível uma pessoa chegar a casa e pensar: «Agora vou por um sabor a cabrito assado...», por isso temos a música."
Maestro Virgílio Caseiro. Conferência em Coimbra (Citado de memória).

E por falar em prazeres e sabores, hoje estava mesmo com saudades da xima de Moçambique. Não a tradicional xima de milho, mas a que as irmãs faziam na Zambézia, Moçambique, com mandioca, coco e açafrão... Ou melhor, quem fazia era o senhor Ramos, o cozinheiro, que todos os dias subia ao coqueiro para ir buscar o tempero mais especial e único da comida zambeziana... Parece que os sabores, os cheiros e a música são o que de mais visceral nos liga às memórias de afeto... E melhor do que cozinhar, só cozinhar ao som de cânticos africanos.

sábado, 19 de novembro de 2016

[oh happy day!] então, beijo-de-mulata, não falas do casamento?

É verdade, meus queridos amigos... casei-me com Mr. Shaka no dia 12 de novembro. Ganhei toda uma nova credibilidade, um anel de noivado, uma aliança de casada, dois apelidos novos (agora chamo-me Senhora Dona beijo-de-mulata-de-Shaka-Zulu, valha-me Deus, beijo-de-mulata Maria, onde é que tu estavas com a cabeça?), uma despedida de solteira de sonho e um dia de princesa! E quinze dias (just say it!, quinze!) de licença!

Eu nunca tinha sonhado com esse dia. A minha felicidade não passava por aí... É verdade, meus amigos, garanto-vos. Mas enfim, os milagres acontecem na minha vida e tenho de os aceitar... O dia foi simplesmente perfeito para mim... foi quase mágico entrar mais uma vez na Basílica da Estrela, onde ia à missa em criança e ouvir o órgão histórico que acompanhava as missas da minha infância. E onde Mr. Shaka foi organista durante anos. E recordar que foi ali que eu e Mr. Shaka nos reconhecemos, vários anos depois de nos termos visto apenas uma vez... Ouvir a música de entrada, que era a pièce de resistance do concerto em que nos conhecemos (traduzida e adaptada por mim, claro, porque eu não queria que se falasse nos moinhos satânicos de Inglaterra no casamento, valha-me Nossa Senhora da Língua Portuguesa), cantada pelo melhor coro feminino que alguma vez poderíamos ter. E foi uma quase-surpresa ouvir as músicas que Mr. Shaka escreveu e orquestrou para a missa do casamento (não tenho autorização para as divulgar, que são apenas para consumo doméstico, um quase-segredo de família, diz ele).

Também o meu amigo João Andrade Nunes, para mim o melhor compositor da atualidade, não me desiludiu. Como aliás, nunca desilude em nada do que faz ou escreve. Já tinha escrito a ação de graças para o batismo do meu sobrinho, Baby M., com a letra da canção de embalar que eu ouvia cantar às mamãs macuas no hospital em Moçambique. Lembram-se?

Quero agradecer-te por teres nascido
Dorme, meu amor, fica tranquilo
Porque enquanto estiveres a dormir
eu fico aqui a repetir o teu nome
E Deus vela por todos nós...

Desta vez escreveu-nos uma ação de graças de ir às lágrimas. Podem ouvi-la aqui, desde que a ouçam até ao fim...



E perguntam vocês, e o baby-de-mulata, como se portou? Ah, esse foi um querido! Quer-se dizer... foi um querido depois de passado o choque inicial, semanas antes. O drama e o horror aconteceram quando descobriu que o tal de vestido de noiva com cauda, de que tanto se falava, tinha uma cauda sim, mas não como os dragões ou os dinossauros. Era de renda, acredite-se! E ele que estava tão entusiasmado... Como era possível? Traição! De renda, mãe? E... branco?! Ai valesse-lhe São Jorge...

Mas como eu dizia, passado o choque inicial, ainda demorou a aceitar que não podia ir vestido de dragãozinho, a fazer pendant com sua mãe. Mas, por fim, depois de várias negociações (e de alguns subornos, confesso, que nestes casos não há que olhar a meios), lá aceitou ir à baixa experimentar um fato a condizer com o papá. Mas sempre a ameaçar que só entrava na igreja se fosse ao meu colo. Menino das alianças é que ele não queria ser. Ainda por cima para me dar de mão beijada ao pai... Como se sabe, Freud pode ter dito muitos disparates, mas nisto não falhou!

Passou-me de tudo pela cabeça, que fugisse da basílica, que se me atirasse para o colo, que se borrifasse para as alianças e fosse jogar à bola para o adro da igreja. Tudo menos a forma irrepreensível como se portou! No momento certo olhou para mim e para o avô, que me dava o braço, e lá foi à minha frente, no compasso certo, ao lado dos primos, Mr. B. e Baby M., com a salva de prata na mão, direitinho até ao altar. Só vacilou no consentimento, quando eu e Mr. Shaka trocámos as alianças. Vi bem na cara dele que ficou triste quando percebeu que a mãe só se casou com o pai. Mas bastou sairmos do nosso lugar, mesmo a meio da missa, para lhe irmos dar um abraço e o baby lá se animou outra vez.

Não me apetecia despegar dali no fim, ao ouvir mais um cântico de Mr. Shaka, o cântico de vida nova... Mas lá fora aguardavam-me aqueles que amo incondicionalmente. Não estavam todos, é certo, porque não é possível nunca que venham todos os que queremos, por variadíssimas razões. Mas todos os que estavam eram muito, muito especiais. E isso basta.

quinta-feira, 10 de março de 2016

[inspiração para uma despedida] até sempre, irmã

Quem me conhece ou acompanha há mais tempo este blogue sabe que houve um blogue-antes-do-baby-blogue. Antes de ser mãe-do-baby-de-mulata eu era a beijo-de-mulata, e escrevia um blogue de aventura e saudade, um blogue que escrevia para manter vivas as recordações das missões em Moçambique, para que não me fugissem as imagens, nem os cheiros, nem as palavras, nem as músicas... nem a Irmã Lourdes. A irmã que me ajudou em tudo, que foi minha mãe, amiga, companheira, orientadora, animadora, mediadora cultural. Foi com os olhos dela que aprendi a amar o povo macua, compreender os seus paradoxos, as suas angústias, perdoar as suas negligências e atrocidades, admirar o amor incondicional que tinham pelas crianças, respeitar as tradições que protegiam as mulheres, as crianças e os idosos. Com ela aprendi a conhecer crenças, ritos, feitiços, aprendi a compreender de que falavam as pessoas no hospital quando me falavam de doença e o que esperavam de mim. E aprendi que só conhecendo a cultura podemos tratar verdadeiramente as pessoas, conquistar a sua confiança e comunicar.

Há dois dias, depois de quase um ano de luta contra uma leucemia debilitante, não resistiu mais e partiu... Desgraçadamente não pude estar presente no funeral, porque o baby-de-mulata anda adoentado e com mãezite agudizada e porque tinha uma sessão da "Oficina de Pais" para crianças com atraso de desenvolvimento de que era responsável. Mas como ela própria dizia lá em Moçambique, quando eu chegava atrasada à missa depois de um dia longo no hospital: "Não te preocupes, trabalhar também é rezar..."

Felizmente a minha mensagem de despedida chegou a tempo para ser lida no funeral. Foi o meu milagre desta manhã.

"Meus queridos amigos, é com muito pesar que por motivos familiares e profissionais não posso estar presente nesta última despedida da nossa querida Irmã Lurdes, mas gostaria de deixar o meu testemunho como leiga que conheceu uma mulher santa, uma mulher de coragem, absolutamente extraordinária.

Conheci-a em Iapala, província de Nampula, em Moçambique, quando a missão estava no seu apogeu. Para quem a conheceu, a missão era um paraíso no meio de uma paisagem avassaladora, com montanhas, savana verde e céu a perder de vista. Era também um oásis num mar de dor e devastação, de doença a pobreza. E a Irmã Lurdes tinha passado a guerra com o povo. Tinha comido à mesma mesa que os habitantes locais, tinha passado fome com a população, tinha dormido no mato muitas vezes, para no dia seguinte descobrir que uma cobra ou um escorpião se tinha ido aninhar no meio da esteira com ela. Nunca teve medo. No tempo da guerra as cobras não mordiam porque o homem fazia parte da paisagem. Durante a guerra sofreu ataques de bandidos, pilhagens sucessivas, tratou feridos, consolou órfãos e viúvas, tratou doenças até ao limite das suas forças.

Quando conheci a Irmã Lurdes, a guerra já tinha acabado, já não havia minas, já se podia andar com o jipe pelas picadas. A irmã, baixinha, frágil e com voz um pouco trémula, era a última pessoa que eu imaginava ver num jipe enorme a atravessar pontes feitas de bambu, atravessar areais onde se podia ficar enterrado sem dó nem piedade, e a fugir com destreza de buracos no meio da estrada capazes de partir um camião. Dava assistência no hospital, cuidava das meninas do lar, assistia a população envolvente e deslocava-se quase diariamente às quase cem comunidades distantes para vacinar as crianças e as grávidas, pesar os bebés, confortar quem tinha visto morrer os seus entes mais queridos, tratar os doentes que sabia tratar, com os medicamentos da sua bolsa verde-tropa de onde saiam os artigos mais improváveis... e transportar para o hospital da missão quem só no hospital pudesse receber assistência.

Mas a Irmã ia deixar Iapala. Na altura em que a conheci, já estava de partida. Ia fundar a missão do Gilé, na Zambézia. E eu perguntava-me como seria possível deixar Iapala, aquele paraíso fantástico, e ir para uma terra onde não havia nada, onde até as mandiocas eram raquíticas, onde até o terreno tinha areia, onde nem a fé nem a esperança vingavam e a morte espreitava atrás de cada cajueiro. Mas a sua coragem e confiança era inabaláveis: Se era para lá que Deus a mandava... seria para lá que iria! Com a alegria de quem vai ver nascer um novo mundo! E foi o que aconteceu. Podem não acreditar, mas eu vi o "antes" e o "depois". Todo o distrito se desenvolveu com a chegada das irmãs. A Irmã Lurdes tinha fama de santa entre as pessoas. Todos a procuravam e respeitavam. Vinham partilhar dores, preocupações e depois trazer alegrias.

Quando a sua doença começou, cedo percebeu que o fim da vida se aproximava. Mas a sua fé permaneceu inabalável. Se Deus a chamava, pois com certeza que iria! Quando Deus quisesse. E continuou espalhando fé e esperança por onde passava, desde casa até ao hospital, menos por palavras do que pelo exemplo de força e coragem.

E tenho a certeza de que partiu para casa do Pai com a mesma confiança de sempre. E podemos ter a certeza de que de hoje em diante, o próprio céu será um local ainda melhor com a sua presença!

Deixa-me desolada, ainda assim, por não me ter conseguido despedir de si... Parece que é a minha cruz, a de por vezes não chegar a tempo... Mas bem-haja por todo o bem que fez e por tudo quanto me fez descobrir!

Até sempre!"

terça-feira, 20 de agosto de 2013

[welcome to mozambique] a música é a alma de um povo!



Já vos falei disto dezenas de vezes. Assistir a uma cerimónia ou uma celebração em Moçambique é coisa para nos deixar sem ar de tal forma os nossos sentidos são intensamente invadidos. Pelas cores vivas das capulanas das mulheres e das flores que dão vida ao espaço (onde nunca faltam os ubíquos beijos-de-mulata, que, como sabemos, nascem em qualquer degredo e se criam em qualquer chão!) e que parecem flutuar, suspensos nos fios que cruzam o espaço bem acima das nossas cabeças. Somos quase impercetivelmente inebriados pelo suave perfume das flores do frangipani que nos evoca o cheiro exótico da noite africana e pelo cheiro da terra, da erva, dos rios que correm próximo e das flores silvestres, a que se mistura o odor a corpos, que longe de ser desagradável, subitamente faz sentido naquela mescla de sensações que nos prende com toda a força à realidade!

E a música é arrebatadora! O ritmo quente dos batuques e a harmonia espontânea das várias vozes preenche-nos a mente e instiga-nos a dançar, nem que seja em fantasias, numa energia que nos sacode a alma. Tudo parece um milagre, de tão fácil e intuitivo que aparenta. Quase diríamos que não era possível haver quem cantasse ou tocasse assim sem nunca ter tido aulas de música. Mas várias vezes assisti ao prodígio de ensinar uma música às meninas que viviam com as irmãs e, à quarta ou quinta vez que a cantavam, já havia duas ou três que entoavam uma segunda voz, criada no momento, acrescentando à melodia cores e profundidades anteriormente insuspeitadas. São dons de quem, "desde a capulana de sua mãe"*, foi ensinado a que saber cantar e dançar é tão importante como saber falar ou ter boas maneiras em sociedade.

* Expressão equivalente a "desde o berço".

sábado, 17 de agosto de 2013

[nomes que afinal não dizem tudo] welcome to mozambique

 
Mamã com crianças...
(Iapala, Nampula)

A pedido de várias famílias, aqui fica um pequeno excerto do meu livro. É sobre um episódio no dia da chegada à missão de Iapala...
"Antes do jantar, recebemos a visita de uma jovem com um bebé de poucos meses adormecido às costas. O menino vinha no seu traje de gala, com um conjunto de gorro e meias de lã, amarelo com uma risquinha verde, amorosamente tricotado à mão por uma das irmãs.  
– A touquinha e as peuguinhas de lã são o melhor presente que se pode dar a uma mamã – explicou-me depois a irmã Lurdes.  
– Com este calor?
– Não me perguntes porquê, mas todas as mamãs adoram. 
Realmente, como diria Mark Twain, os costumes mais absurdos são sempre os que permanecem mais enraizados... A "touquinha", como a irmã lhe chamava, era um gorro de inverno, de aspeto bastante quente, com direito a pompom e tudo! A jovem era mulher de um dos empregados da missão. Sabia que a irmã Conceição tinha chegado e vinha dar notícias da sua ida a Nampula para registar o menino.
– Não me deixaram pôr o nome que a irmã disse – lamuriou-se.
– Porquê? – Espantou-se a irmã Conceição.
– Disseram que não era nome normal. 
 Mas que estranho...
A jovem mamã tinha ido, dias antes, ter com as irmãs a Nampula porque estava com dificuldades na escolha do nome do bebé. Era o primeiro filho, o que tornava o processo muito mais complexo, com uma grande responsabilidade. Queria dar-lhe o nome de um padre, porque os missionários eram as pessoas mais importantes da região, mas não sabia que nome escolher. A irmã lembrara-se então que o pai do menino, em tempos, trabalhara para um padre em Nampula e tinham ficado particularmente amigos.

– Porque não lhe põe o nome dele?
A sugestão tinha sido bem aceite...
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar? – Perguntei, curiosa.
– Padre Arlindo...  
A jovem estava desolada, mas eu tive de deixar cair um brinco no chão para poder esconder a cara, porque só me apetecia sorrir às gargalhadas com aquela cena digna de uma comédia dos anos ’30. Depois de uma longa explicação das irmãs, a jovem saiu um pouco mais conformada.
– Acho que não vai muito convencida... Só Arlindo parece que não diz tudo – notei.
– Também me parece... Mas ainda bem que o funcionário do Registo Civil foi sensato, senão o menino tinha ficado com um Arlindo nome! E se fôssemos jantar?"

in A Missão - Diário de uma Médica em Moçambique

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

[ser criança em moçambique] brincando ao faz de conta...


 
Na escolinha das Irmãs de São João Batista, em Nampula, onde estão os meus "afilhados à distância", que só conheço por fotografia... As Irmãs lutam todo o ano para lhes dar roupa, bibes, comida, assistência médica e educação. Para que a vida destas crianças seja simples e o desenvolvimento se faça dentro da família, mas longe do trabalho, da exploração e dos maus tratos, num ambiente acolhedor e intelectualmente estimulante! Tudo a que todas as crianças deveriam ter direito!
(Bairro de Muahivire, Nampula)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

[refrões de uma vida] a força que um sorriso pode ter!

 
A irmãzinha bebé de um dos meus afilhados de Nampula foi fazer a sua primeira visita à escolinha ao fim da tarde, para ir buscar o irmão.
(Escolinha da Santa Cruz, Nampula)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

[moçambique no seu melhor] do rovuma ao maputo!

Para todos os que têm saudades do tempo em que este blogue era mato... para os que têm saudades da sombra dos cajueiros, para os que já fizeram o luto de um blogue que era quase exclusivamente monopolizado pela saudade de Moçambique que me assolava o coração de alto a baixo (embora com algumas incursões pelas improváveis histórias da Estefânia) e, sobretudo, para Mr. Umbhalane, o primeiríssimo comentador deste mato, que já se manifestou contra o facto se ter infamemente transformado num baby-blog (prometo que é temporário, Mr. 1B, as circunstâncias são incontornáveis!): dedico-vos este post do André, o genial autor do Tertúlia Africana, sobre uma experiência rodoviária Moçambique afora (ou Moçambique abaixo, se preferirem uma expressão mais indicativa dos pontos cardeais que estiveram envolvidos no trajeto)... Quase do Rovuma ao Maputo dentro de um machimbombo sobrelotado, conduzido por um motorista meio louco, meio ébrio de sono.
 
 
 
 
 
 
Imagens daqui.
"Talvez só agora tenha tido coragem de escrever esta história, ou talvez ela precisasse de amadurecer para ser contada. Era um objetivo meu: fazer Pemba – Maputo por estrada, de autocarro. Porque não? É preciso tempo, já sei, espírito de aventura, tudo, mas, como seria?

Na bilheteira, de notas meio dobradas, firmes na mão, parecendo coletores de dinheiro de apostas ilegais, respondem positivamente a todas as nossas questões de segurança. “Trocam de condutor?” – sim; “Dorme-se no caminho?” – sim; “Pára-se para comer?” – sim. Talvez devesse ter reformulado as perguntas para os fintar, mas se calhar fiz as perguntas da forma como queria ouvir as respostas...
O autocarro tem lugares sentados, para todos. Sim, porque coloquei a hipótese de fazer uma longa jornada de pé, ou sentado na coxia em cima de alguns sacos. Nada disso, bancos individuais e cinto de segurança. O espaço para as pernas não era muito, mas se vinha naquela viagem para me queixar do conforto tinha apanhado um avião!
Arrancam num grupo de 4 para fazer face às exigências natalícias e buzinam uns para os outros. Parece que vamos em caravana, mas na realidade é uma disputa entre motoristas que se vão ultrapassando pelo caminho. Em cada manobra o alcatrão fica ainda mais fino e apenas uma reduzida percentagem de passageiros fica entusiasmada com as manobras, gritando e batendo palmas. Os outros 80% ficam em silêncio, engolindo em seco.
Aquilo que por fora parece um robusto autocarro, por dentro parece uma minhoca, serpenteando as estradas e saltitando nos buracos. Como nos sentamos no piso de cima (o de baixo é para bagagens) dá a ideia que a cada curva vamos tombar. Talvez a fraca suspensão, talvez seja apenas psicológico...mas bolas, como assusta!
Assim que começámos a rolar a sério em plena estrada nacional, percebi que tinha escolhido um péssimo lugar: a coxia. Inevitavelmente ia com os olhos presos na estrada e assustado com a velocidade com que um monstro daqueles se fazia às curvas. Dava por mim a travar com o pé a bater no chão ou a tentar virar, agarrado às pontas dos meus calções. Tinha que me distrair, pois a viagem é longa, iria durar pelo menos 24 horas! A minha alternativa era olhar para o lado, para a Yumi [a noiva do André], que inexplicavelmente dormia...como se sobrevoássemos as nuvens, em vez de cavalgar buracos.

Pessoal com sérios lanches preparados. Frango, chamuças caseiras, cerveja. Nós levávamos bolachas que mal me passavam pela goela, tal era o nó que tinha. O tipo do meu lado era comerciante em Pemba. Ia visitar a família e voltava dentro de 4 dias. Na mesma estrada, com o mesmo autocarro. Gabo-lhe a coragem.
O autocarro vai à mesma velocidade, independentemente das condições do piso, de dia ou de noite. Quando chove a visibilidade reduz-se para níveis que não entendo. Suspeito que o motorista tem poderes adivinhatórios ou que já conhece tão bem a estrada que nem sempre precisa de olhar para ela. Não é que o limpa para brisas não funcione, ele simplesmente não existe, fazendo acumular uma camada de insetos mortos, que se transforma numa pasta opaca quando se lhe adiciona água!
Com o fim do dia começaram os planos de onde iríamos parar, pernoitar, pensei. A fazer cálculos às barreiras policiais, que proíbem a passagem de transportes públicos a partir de certa hora, a ideia era “pisar”...para conseguir passar mais cedo pelos “gajos” e conduzir mais umas horas. A sério? O condutor tinha os olhos vermelhos, bem cansados, mas era o primeiro a incentivar a estratégia de velocidade.
É bonito viajar por Moçambique relativamente devagar. Pelo menos por terra. À medida que descemos o desenvolvimento sobe. Palhotas tradicionais passam a casa sólidas, pontes precárias para robustas. A paisagem tem um pouco de tudo: os inselbergs em Nampula, coqueiros e arrozais na Zambézia, campos cultivados em Sofala, a imensidão de coqueiros em Inhambane, casas e agitação logo em Gaza.
Com o aproximar da meia-noite o autocarro abranda e estamos agora a entrar numa vila qualquer, com alguns candeeiros na rua. Inchope, o grande cruzamento das estradas em Moçambique. Quando nós saímos do autocarro já várias pessoas descansam os ossos numa vala, à beira da estrada. Sem perceber se é avaria ou paragem, o condutor diz: “saímos daqui a três horas”. Uau...avizinha-se uma noite de descanso...de 3 horas! Dá que pensar se queremos reentrar no autocarro ou não, mas não há muitas condições para pensar: a noite de sono é curta e o cansaço vence-nos facilmente.
A buzina do autocarro (inconfundível e difícil de esquecer) arranca-nos do sono e como múmias voltamos para dentro daquela máquina infernal, sem pensar, apenas com o destino na mente.
No segundo dia continua o mesmo motorista, que no dia anterior conduziu mais de 900 km. Obviamente que, com o sol rasante de frente e extensões das retas a aumentar, a sonolência aparece. Não há heróis. O motorista começa a coçar com maior frequência os olhos, a cabecear e sente-se que o volante dança mais do que devia para um troço que é sempre a direito! Alguns passageiros, a aperceberem-se disso, oferecem bebidas e conversa ao motorista, sentando-se ao seu lado e largando gargalhadas suficientes para entrar nos tímpanos e agitar o cérebro...
Quando saí do autocarro em Maxixe renasci. Não acredito em Deus, mas se acreditasse, neste caso diria que Ele estava a olhar por nós naquela viagem.
Era um objetivo e cumpri. Aventura feita, que escreverei no meu diário. A não repetir..."

André, bem-hajas por este pedaço de vida e de mundo! 

sábado, 27 de julho de 2013

[músicas para o baby-de-mulata] rema para lá, lanchinha


 
Quando o baby-de-mulata "nasceu" cá para casa, na altura com 16 meses, reuni as mais belas canções de embalar que conhecia, desde o Candlelight Carol do Rutter até às canções que aprendi com as mamãs macuas nas longas noites que passei no hospital em Moçambique, à cabeceira dos meninos mais doentes. Recordei as músicas que aprendi com os senhores da "Música nos Hospitais", os tais de quem já vos falei uma vez, que quando apareciam deixávamos de necessitar de tanta medicação para a dor e os meninos descansavam sempre melhor nessa noite.
 
As primeiras noites comigo foram idílicas... Eu sentia-me inspirada, afinava a voz, que só na idade adulta se conformou às escalas e conseguiu começar a cantar, e ele quase adormecia nos meus braços. Depois era só pô-lo na cama, dar-lhe um beijinho e tapá-lo e ele ficava meio adormecido, com um sorriso de anjo.
 
Foi mesmo sol de pouca dura... É que havia um pequeno pormenor de que eu não me tinha lembrado: o baby-de-mulata é rapaz! Daqueles mesmo em que o cromossoma Y se nota à légua. E também não é muito amigo de dormir... Portanto o que era o Candlelight Carol comparado com as músicas muito mais interessantes que eu lhe cantava durante o dia, sobre popós, aviões e bicicletas? Ele queria excitação e ritmo e eu dava-lhe Brahms e Rutter? Que desgraça de mãe que lhe tinha caído em sorte...
 
E então no dia em que, já à míngua de músicas para rapazes, lhe cantei "O carro do meu chefe teve um furo no pneu", foi o descalabro total. Dom baby-de-mulata fez-me a derradeira desfeita de a eleger como a sua canção de embalar preferida! Eu merecia? Pelos vistos sim. E ele também... E foi assim que começou a demorar muito mais tempo a adormecer, mas as mais belas canções de embalar deram lugar às mais-belas-e-estapafúrdias-canções-e-coreografias-e-respetivas-variações de embalar. O que se perdeu em romantismo ganhou-se em riso e divertimento.
 
Até que há umas semanas o Senhor Édipo chegou cá a casa sem eu contar... E ele se aninhou no meu colo e com a sua voz mais fofa me pediu: "Canta, mãe..." "E que música queres", perguntei-lhe. E ele pediu-me a "Lanchinha". Agora, de vez em quando lá me deixa matar saudades do papel de mãe que idealizei para mim e que, confesso, não tem metade da graça do papel que ele me ensinou a desempenhar...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

[welcome to mozambique] nampula, a linda!

 
Nampula vista do ar, com um arco-íris fantástico sobre os montes-ilha, um relevo fascinante, quase absurdo. Montanhas que se erguem, súbitas e bruscas sobre a savana, transformando uma terra plana numa paisagem de conto de fadas.
(Nampula, Moçambique)
Foto da minha amiga J.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

[ganhar forças e coragem] destino moçambique

Lido no mural da minha amiga que vai brevemente em voluntariado para Moçambique.

Parafraseando São Francisco:
Senhor, fazei-me instrumento da vossa messe.
Onde houver desidratação, que eu leve agua purificada e soros;
Onde houver fome, que eu leve pão;
Onde houver dor, que eu leve ao menos um paracetamol;
Onde houver febre, que eu leve testes rápidos de malária e quinino;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver crianças, que eu leve rebuçados;
Onde houver sordidez, que eu leve sabão.
Onde houver lepra, que eu leve tratamento e muita paciência;
Fazei que eu procure mais:
Consolar os ostracizados, que ser consolada pela impotência perante a vontade dos antepassados;
Compreender as doenças tradicionais, que ser compreendida pelos curandeiros;
Amar, que ser amada.
Pois, é dando tudo isto que se recebe a maior riqueza do nosso mundo.
 
Que oração tão bonita e que atitude tão positiva... Força, linda! Não sabes no que estás metida, é certo, mas se alguém soubesse o que quer que seja de antemão nunca arriscaria sequer o canal do parto, quanto mais uma viagem para outro mundo com um bilhete só de ida... Mas vai em frente, que tenho a certeza de que vale a pena!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

[a nova seleção de esperanças] destino moçambique!

 
A represa da Namaíta.
(Nampula, Moçambique)
 
Tenho uma amiga que vai partir em missão para Moçambique dentro de pouco tempo. Ou pelo menos assim o esperamos, que as burocracias são terríveis, lentas e imprevisíveis. E são muitos os chamados, mas poucos os escolhidos...
 
Vai para um lugar mágico, lindíssimo, próximo de Nampula, a Namaíta. Foi em tempos local onde se albergaram todos os leprosos de uma província, desterrados da família e dos antepassados, doentes de medo e de vergonha. Pobres de tudo, sobretudo de si mesmos. Muitos sucumbiram ao nojo e ao luto da própria vida. Outros reconstruiram a vida naquela paisagem de sonho, cultivaram campos, construiram casas, geraram filhos. Até que a guerra civil democratizou a vergonha e a morte em plena vida. Ter guerrilheiros e bandidos na família, parentes em parte incerta, mortos em desonra longe da terra dos antepassados, talvez tudo isto fosse tão mau como ser leproso. Deixou de haver leprosarias porque, pura e simplesmente, deixou de haver organização para desterrar os doentes e afastá-los das famílias. 
 
Mas ainda hoje a Namaíta é sinónimo de doença e não tanto de ostracismo. Ainda hoje quase todos os residentes são filhos ou netos de ex-doentes. São sensíveis ao tema. Gostam de ajudar os atingidos pela doença que teima em não abandonar aquele chão. A minha amiga não vai só para lá, como é óbvio, porque é o local onde vai ser menos necessária: lepra sem estigma é menos lepra! Mas é certamente lá que vai retemperar forças quando encontrar um homem são a apertar a mão sem medo nem nojo a um doente... E sim, meus amigos, perceberam bem: há lepra em Moçambique.