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sábado, 27 de julho de 2013

[músicas para o baby-de-mulata] rema para lá, lanchinha


 
Quando o baby-de-mulata "nasceu" cá para casa, na altura com 16 meses, reuni as mais belas canções de embalar que conhecia, desde o Candlelight Carol do Rutter até às canções que aprendi com as mamãs macuas nas longas noites que passei no hospital em Moçambique, à cabeceira dos meninos mais doentes. Recordei as músicas que aprendi com os senhores da "Música nos Hospitais", os tais de quem já vos falei uma vez, que quando apareciam deixávamos de necessitar de tanta medicação para a dor e os meninos descansavam sempre melhor nessa noite.
 
As primeiras noites comigo foram idílicas... Eu sentia-me inspirada, afinava a voz, que só na idade adulta se conformou às escalas e conseguiu começar a cantar, e ele quase adormecia nos meus braços. Depois era só pô-lo na cama, dar-lhe um beijinho e tapá-lo e ele ficava meio adormecido, com um sorriso de anjo.
 
Foi mesmo sol de pouca dura... É que havia um pequeno pormenor de que eu não me tinha lembrado: o baby-de-mulata é rapaz! Daqueles mesmo em que o cromossoma Y se nota à légua. E também não é muito amigo de dormir... Portanto o que era o Candlelight Carol comparado com as músicas muito mais interessantes que eu lhe cantava durante o dia, sobre popós, aviões e bicicletas? Ele queria excitação e ritmo e eu dava-lhe Brahms e Rutter? Que desgraça de mãe que lhe tinha caído em sorte...
 
E então no dia em que, já à míngua de músicas para rapazes, lhe cantei "O carro do meu chefe teve um furo no pneu", foi o descalabro total. Dom baby-de-mulata fez-me a derradeira desfeita de a eleger como a sua canção de embalar preferida! Eu merecia? Pelos vistos sim. E ele também... E foi assim que começou a demorar muito mais tempo a adormecer, mas as mais belas canções de embalar deram lugar às mais-belas-e-estapafúrdias-canções-e-coreografias-e-respetivas-variações de embalar. O que se perdeu em romantismo ganhou-se em riso e divertimento.
 
Até que há umas semanas o Senhor Édipo chegou cá a casa sem eu contar... E ele se aninhou no meu colo e com a sua voz mais fofa me pediu: "Canta, mãe..." "E que música queres", perguntei-lhe. E ele pediu-me a "Lanchinha". Agora, de vez em quando lá me deixa matar saudades do papel de mãe que idealizei para mim e que, confesso, não tem metade da graça do papel que ele me ensinou a desempenhar...

terça-feira, 23 de julho de 2013

[welcome to mozambique] de comer e chorar pelo ramadão


 
O Ramadão em Moçambique. 
Os praticantes da fé muçulmana pouco se afastam das mesquitas durante o dia, em todo o Ramadão. Ao cair da noite reúnem-se sob um céu que se deseja escuro, depois do tão desejado pôr-do-sol, para enfim renascer um pouco da letargia que assola corpos e mentes durante o dia, invadidos de fome, calor e cansaço...
 
Mas eis que desabafa a minha amiga Maria, em voluntariado em Mitande, no Niassa:
"Meus amigos, alguma vez desejaram ser muçulmanos? Alguma vez desejaram cumprir fervorosamente o Ramadão? Bem eu nunca. Até ontem.

Foi numa visita a uma comunidade, após ouvir todas e mais algumas preocupações, ter feito consultas, tratamentos, psicoterapia e ter sabido novidades de algumas mamãs e crianças que eu tinha tratado na minha visita anterior, as mamãs aldeia da chamaram-me para um almoço que tinham preparado especialmente para mim: xima* e peixe seco [um peixe-seco-insuportavelmente-mal-cheiroso-coberto-de-areia-e-moscas-nas-bancas-dos-mercados-e-só-de-pensar-nele-já-sinto-cólicas-e-os-intestinos-num-rebuliço], comida que se come à mão, sentada numa esteira, depois de lavar as mãos na mesma água em que já todos lavaram as suas, mãos essas que, obviamente, nunca são lavadas depois de satisfazer necessidades fisiológicas e afins. Agradeci com um sorriso nos lábios e um aperto no estômago.

Viro-me para o ativista que me acompanha nas saídas à comunidade: "Temos mesmo de comer, não é?" Ao que ele prontamente me responde: "Sim, a enfermeira tem de comer, eu estou a celebrar o Ramadão."

Pois.. Ainda ponderei responder que também estava a celebrar o Ramadão. Mas depois lembrei-me que vivo no pátio da igreja e que toda a gente me chama de irmã, portanto estava por terra a única desculpa culturalmente aceite para recusar uma refeição..."

Maria, minha princesa africana, se me estás a ouvir: dá sinais de vida, please! Mas tens aí, no kit de emergência que te preparei, alguns medicamentos que te podem servir nos próximos dias...
* Farinha de milho cozida e amassada, que serve para acompanhar o prato principal.

terça-feira, 25 de junho de 2013

[comentários que valem um post] doença...

Comentário da minha amiga Maria, que está no Niassa (norte de Moçambique) em missão de voluntariado sobre o post acerca da febre e relativismo cultural:

Tão típico! A mulher chegar, sentar no gabinete e dizer "Estou doente." E não abrir mais a boca.
- Mas o que sente? - pergunto eu.
E "aquele olhar" da mulher doente e da tradutora como quem olha para um extraterrestre: "Duh, está doente, não percebeste? Mas o que é que tu precisas de saber mais? Dá-lhe murrette* e manda-a embora. Ponto final, não se fala mais nisso!"

* Medicamento

sexta-feira, 21 de junho de 2013

[outras palavras] febre... pois...



Mitande, Niassa

A minha amiga Maria está desde Janeiro deste ano em Mitande, no Niassa (no norte de Moçambique), em missão de voluntariado através da ONG de que orgulhosamente faço parte... É enfermeira, tem um espírito prático e aventureiro como poucas pessoas têm e escreve deliciosamente! A propósito do post anterior sobre o conceito de febre na Guiné-Bissau, lembrei-me deste post dela, no Querida Lamparina:

No outro dia assisti à seguinte consulta de um jovem estudante no Centro de Saúde:
- Preciso de medicamento para malária.
- Como sabes que tens malária?
- Sinto uma malária muito forte.
- Mas o que sentes?
- Dói-me o corpo todo.
- E tens tido frio? [ter frio = febre]
- Não, só tenho uma malária que me faz doer o corpo todo. [e, baixinho, acrescenta] e comichão.
- Comichão onde?
- Aqui - diz rapidamente, sem apontar para sitio nenhum -, preciso de medicamento para a malária. Tenho malária muito grande.
- Comichão onde, mesmo?
- Aqui.

[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
Para evitar estas coisas de culpar a Malária de todos os males, resolvi dar uma “aula” às minhas meninas acerca de febre.
- Sabem o que e isto?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Para saber se pessoa está doente. Por debaixo do braço, esperar e depois ler se está muito doente ou pouco doente.

Lá expliquei o que é um termómetro e o conceito de temperatura e de febre. Esforcei-me por deixar bem claro que febre não significa malária necessariamente: afinal era esse o meu objectivo com estas explicações todas. Sugeri que experimentassem colocar o termómetro, a mais pequena não quis, tinha medo que se descobrisse alguma doença, mas a mais velha, mais corajosa, colocou o tal aparelho na axila. “Tem 36,5ºC. Não está doente!”
- Então vamos ver na B.
- Tenho 39,2ºC...
- O que significa?
- Tem malária!
[Definitivamente não sou boa professora...]

segunda-feira, 18 de março de 2013

[exercícios africanos] inculturação moçambicana

 
Padrão de uma capulana

Decidi, desde o primeiro dia do baby-de-mulata nesta casa, manter um programa diário de exercícios africanos. A noite não é exceção. Tenho sempre uma capulana para o tapar e servir de resguardo na cama de grades, que serve também para qualquer eventualidade: usamo-la como pano de tourear nas noites de insónia e agitação, para limpar lágrimas e babas nas raras noites de birra, enxugar salpicos de água ou leite, para cobrir os bonecos nas brincadeiras de esconde-esconde. Em  último caso, em algumas noites de festa brava, a cama transforma-se na casota de um cão de guarda feroz e a capulana faz de teto dessa casa quentinha e acolhedora, que acaba, enfim, por chamar um sono tranquilo...

Qualquer menino moçambicano que se preze sabe que pode usar a seu bel-prazer todas as capulanas de sua mãe. Por fim, depois de todas as loucuras e touradas, despeço-me com o último momento de inculturação do dia: "Boa noite! Não deixes que os mosquitos te piquem!"

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

[never take anything for granted] o próprio chão estará garantido?

 


 
Cheias na cidade de Chókwè...
(Gaza, Moçambique)
Fotos de sítios vários da net.
 

As enormes cheias que desde há uma semana estão a devastar a cidade de Chókwè, no Sul de Moçambique, deixaram quase cinquenta mil pessoas desalojadas, segundo o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (sim, existe um Instituto Nacional de Gestão de Calamidades em Moçambique, o que nos diz muito sobre o país e a forma como é gerido...).

Há dias, conversava com a minha amiga C., a minha mamã africana, sobre a forma como as pessoas muitas vezes resistem até ao último momento para aceitar que a catástrofe está iminente, que a vida vai mesmo mudar e que é preciso protegermo-nos e aos nossos, independentemente de todos os bens materiais que fiquem para trás.

(Em Moçambique esta situação é ainda mais difícil porque o futuro é território que pertence aos antepassados, o futuro é algo de quase sagrado e inviolável, portanto as pessoas muitas vezes não só não acreditam nas previsões, como se comportam ostensivamente como se não soubessem de nada. E continuam a pensar que as catástrofes só dependem do destino e não é possível fazer o que quer que seja para se protegerem.)

Mas eu e a C. concordávamos que, de qualquer forma, é muito difícil raciocinar quando está em causa o poder violento da natureza em situações limite. Foi então que ela me contou que no início dos anos '90, em plenas cheias de Maputo, foi buscar o marido ao aeroporto. Não havia taxis e não tinham motorista, portanto a única solução era ir buscá-lo. A rua quase tinha desaparecido, engolida pelas águas e havia muito pouca visibilidade por causa da chuva que não parava de cair.

- A minha mãe ficou com os meninos e eu fui com o meu pai ao aeroporto. E ele dizia-me: "Vai devagar, que a estrada está aqui mesmo em baixo, havemos de chegar." No dia seguinte, mesmo no cruzamento onde tínhamos parado, havia um buraco enorme onde podia cair um camião...

É difícil acreditar que mesmo o chão pode não estar sempre garantido. Por isso também não me espanta a atual situação da Zambézia... Rezemos...

[welcome to mozambique] nampula, a linda!

 
Nampula vista do ar, com um arco-íris fantástico sobre os montes-ilha, um relevo fascinante, quase absurdo. Montanhas que se erguem, súbitas e bruscas sobre a savana, transformando uma terra plana numa paisagem de conto de fadas.
(Nampula, Moçambique)
Foto da minha amiga J.

domingo, 20 de janeiro de 2013

[welcome to mozambique] o som de áfrica...


 
Para todos os que, como eu, têm saudades e gostariam de estar neste momento no meio de uma dança e de uma harmonia como esta, só com batuques, vozes, língua macua e menear de ancas. Para os que não conhecem, apreciem o pulsar das gentes, a inesperada harmonia espontânea criada só com vozes e aprendam como se faz o "Elulu" (alarido) das mulheres (2:40). Bom domingo!
(Gurué, Zambézia)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

[welcome to mozambique] os feiticeiros de tete

 
Ritual de Feitiçaria.
(África do Sul, foto daqui)

Vem de muito longe esta notícia partilhada pelo Professor. Deliciosa para mim! Mas sei bem que fica distante demais esta África profunda, de curandeiros, feiticeiros e médicos tradicionais. É quase inacessível à compreensão dos europeus não só o significado daquela pequena trouxa que se despenhou num quintal como também o tempo de antena absurdo dedicado à cobertura de uma notícia deste calibre, sem qualquer perspetiva crítica ou orientação etnográfica para o leitor. Os comentários são ilustrativos de que isto se passou mesmo em outro ponto do planeta...

Mas se alguém se interessar pelos fenómenos antropológicos de Moçambique, siga os links do Prof. Paulo Granjo (Antropocoiso para os amigos).

[ganhar forças e coragem] destino moçambique

Lido no mural da minha amiga que vai brevemente em voluntariado para Moçambique.

Parafraseando São Francisco:
Senhor, fazei-me instrumento da vossa messe.
Onde houver desidratação, que eu leve agua purificada e soros;
Onde houver fome, que eu leve pão;
Onde houver dor, que eu leve ao menos um paracetamol;
Onde houver febre, que eu leve testes rápidos de malária e quinino;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver crianças, que eu leve rebuçados;
Onde houver sordidez, que eu leve sabão.
Onde houver lepra, que eu leve tratamento e muita paciência;
Fazei que eu procure mais:
Consolar os ostracizados, que ser consolada pela impotência perante a vontade dos antepassados;
Compreender as doenças tradicionais, que ser compreendida pelos curandeiros;
Amar, que ser amada.
Pois, é dando tudo isto que se recebe a maior riqueza do nosso mundo.
 
Que oração tão bonita e que atitude tão positiva... Força, linda! Não sabes no que estás metida, é certo, mas se alguém soubesse o que quer que seja de antemão nunca arriscaria sequer o canal do parto, quanto mais uma viagem para outro mundo com um bilhete só de ida... Mas vai em frente, que tenho a certeza de que vale a pena!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

[a nova seleção de esperanças] destino moçambique!

 
A represa da Namaíta.
(Nampula, Moçambique)
 
Tenho uma amiga que vai partir em missão para Moçambique dentro de pouco tempo. Ou pelo menos assim o esperamos, que as burocracias são terríveis, lentas e imprevisíveis. E são muitos os chamados, mas poucos os escolhidos...
 
Vai para um lugar mágico, lindíssimo, próximo de Nampula, a Namaíta. Foi em tempos local onde se albergaram todos os leprosos de uma província, desterrados da família e dos antepassados, doentes de medo e de vergonha. Pobres de tudo, sobretudo de si mesmos. Muitos sucumbiram ao nojo e ao luto da própria vida. Outros reconstruiram a vida naquela paisagem de sonho, cultivaram campos, construiram casas, geraram filhos. Até que a guerra civil democratizou a vergonha e a morte em plena vida. Ter guerrilheiros e bandidos na família, parentes em parte incerta, mortos em desonra longe da terra dos antepassados, talvez tudo isto fosse tão mau como ser leproso. Deixou de haver leprosarias porque, pura e simplesmente, deixou de haver organização para desterrar os doentes e afastá-los das famílias. 
 
Mas ainda hoje a Namaíta é sinónimo de doença e não tanto de ostracismo. Ainda hoje quase todos os residentes são filhos ou netos de ex-doentes. São sensíveis ao tema. Gostam de ajudar os atingidos pela doença que teima em não abandonar aquele chão. A minha amiga não vai só para lá, como é óbvio, porque é o local onde vai ser menos necessária: lepra sem estigma é menos lepra! Mas é certamente lá que vai retemperar forças quando encontrar um homem são a apertar a mão sem medo nem nojo a um doente... E sim, meus amigos, perceberam bem: há lepra em Moçambique.

domingo, 6 de janeiro de 2013

[eu não mereço, eu sei] mas soube tão bem...

A Sónia Morais Santos, jornalista de mão cheia e uma força de trabalho impressionante, autora do blogue "Cocó na Fralda", como obviamente saberão (até porque com grande probabilidade vieram cá dar a partir dele), escreveu um artigo sobre esta apaixonada pelo mato moçambicano nas Selecções do Reader's Digest, a revista que eu lia quando era mais nova e que me ensinou tanta coisa. Julgava-a extinta, calculem...

Não sei como foi que ela, só com notas tiradas à mão, sem gravador, escreveu aquilo que eu disse, textualmente!, e ainda interpretou o que eu não disse mas gostaria de ter dito... Até fiquei com vontade de conhecer aquela senhora que descreve. Não devo ser eu, certamente. Mas soube mesmo bem.

P.S. - Antes que perguntem, o vestido, que eu adoro, é feito com panos africanos, mas infelizmente não foi feito em Moçambique. Foi comprado em Londres, no Spitalfields Market a uma tiazoca bem disposta.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

[de coração aberto] 2013...

 
Pescadores na madrugada...
(Praia das Chocas, Nampula)
 
 
Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama (1924-1952)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

[pelo sonho é que vamos!] dobrando 2012

Até tenho pena de deixar este ano... É quase isso que eu sinto. Este 2012 começou turvo, cinzento e triste, mas foi o ano em que me reinventei, em que deixei de chorar todos os dias, de me entristecer com ausências, foi o ano em que me enamorei à primeira vista pelo baby-de-mulata, sonhei que seria mãe dele nesse mesmo dia e, ao contrário do meu enorme desgosto que aconteceu há quase dez anos, desta vez cheguei a tempo! Melhor, muito melhor: há quase dez anos não cheguei a tempo de me despedir do meu amor pequenino. Este ano cheguei a tempo de ser mãe de um menino encantador, e com uma força interior admirável!

Ao lado disso, tudo o resto que me aconteceu este ano, desde o lançamento do livro até ter sido eleita para a direção de uma das maiores ONG do país, nada me parece extraordinário! Mas, pronto, para que conste em ata e antes que venha a piadola: também já plantei uma árvore. Foi em 2010, na Zambézia, com o coração apertado, quase na despedida de Moçambique. Um momento simbólico, porque naquele momento acreditei, com todas as minhas forças, que se a árvore vingasse, voltaria àquele lugar que eu amo. Hoje continuo a acreditar que voltarei, até porque a árvore, dizem-me, já deu frutos. Só não vos provo o que vos digo com uma foto da minha pessoa a plantar a dita porque estou numa posição muito pouco digna e-eu-agora-sou-mãe-de-família-tenho-que-me-dar-ao-respeito... Mas vem aqui gente que não me deixa mentir!

Chego a 2013 sobretudo profundamente grata! Grata pela vida e grata a todos os que me provaram, mais uma vez, que a vida é simples. Desejo-vos a todos mais um ano muito feliz.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

[se belém fosse em ocua] um conto de natal

 
Um Quase Conto de Natal

Já vos contei esta história. É verídica. É o mais bonito conto de Natal que conheço e passou-se em Ocua, Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique... Gosto de recordar esta história porque ela me ensinou que há pessoas (certamente mais felizes do que todos nós) que conseguem ver poesia e mistério em momentos únicos...
Em Dezembro, em Ocua, era Natal e entardecia sem que por perto qualquer sinal nos pudesse dar testemunho da data. Tempo de fome, de seca e calor asfixiante, em que a chuva tardava como uma noiva cruel, abandonando as sementeiras e o povo no altar, no desespero de uma boda por mil vezes não consumada, de uma promessa de frescura mil vezes adiada... Era Natal e o calor era irrespirável. Era Natal e ao entardecer não havia luzes nas ruas, ninguém a correr a comprar os presentes de última hora, nenhuma árvore ornamentada. Era Natal e, inquietantemente, faltava o cenário, faltava o tom que o pano de fundo imprime no estado de espírito... mas aparentemente só nós o sentíamos. Tudo o resto, alheio à inquietude que nos vivia por dentro, decorria na rotineira placidez de África. 
Se Jesus menino tivesse nascido em Dezembro em Moçambique, uma capulana teria bastado para o aquecer. E se Belém fosse em Ocua, em vez da vaquinha e do burrinho no estábulo, talvez uma qualquer ave do mato tivesse batido as asas num leque improvisado, oferecendo um sopro refrescante ao seu corpinho de menino... Que nestes casos a poesia da religião e o seu lado de Alice no País das Maravilhas, de fábula, magia e metáfora têm sempre forçosamente de assomar. 
Mas foi precisamente aqui que a Natureza nos declarou, estridentemente, o quanto tínhamos sido injustos. Que tudo quanto a Europa faz de uma forma sistemática, asséptica e geométrica, África improvisa e encanta.  
E foi quando, em Ocua, em frente à casa da Missão, o cajueiro se encheu de centenas de pirilampos, numa árvore de Natal natural erguida na noite, com mil pequenas luzes piscando.

sábado, 22 de dezembro de 2012

[eu bem vi nascer o sol] algures no fim do mundo...



 O nascer do sol, vindo das águas mornas do Índico... São imagens do local mais próximo do fim do mundo onde alguma vez estive. Éramos as únicas pessoas naquela praia paradisíaca, para além de dois ou três pescadores que saíam de madrugada para tentar a sorte desse dia no mar.
A imagem perfeita de que todos os dias são um renascer! Boas festas!
(Praia das Chocas, Nampula)

domingo, 2 de dezembro de 2012

[grande é a poesia, a bondade e as danças...] vidas pequeninas





 
Uma criança ainda pré-púbere toma conta do irmãozinho mais novo...
(Nampula, Moçambique)
As fotos não são minhas, mas não me recordo do link, mais uma vez as minhas desculpas... 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

[sagrada família] da bicicleta

 
Sagrada família da bicicleta.
Presépio Irmãos Baraça.

 
Família na bicicleta, Moçambique.
Imagem deliciosa daqui.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

[moçambique no seu melhor] o segredo da felicidade...

 
Que delícia, a "Casa do Liga Mais Tarde"! E calculem também que esta casa nos revela que o segredo da felicidade está numa barriga cheia.
(Quissico, Inhambane)
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

[alhos e blogalhos] valha-me nossa senhora do google


Meus queridos amigos, eu não gosto de vos importunar com "bloguices" aqui do mato, até porque qualquer vizinho de morada do blogspot também deve ter histórias igualmente engraçadas...

A verdade é que hoje venho aqui carpir as minhas mágoas. Muito me agradaria continuar a dizer que a maioria dos visitantes que aqui desagua, navegando à boleia do google, vem à procura de "mulatas nuas" e de "mulatas selvagens", mas infelizmente, nos últimos tempos, o top 10 das pesquisas tornou-se, lamentavelmente, mais educado e decente. Eu sempre confiei que o nome deste mato pudesse atrair para sempre pesquisas mais interessantes, mas parece que já não conseguimos enganar ninguém...

O que ainda me vale, para animar o sitemeter, são os senhores que têm a bússola cibernética avariada e vêm naufragar aqui ao mato com pesquisas que não lembram ao menino Jesus.

Ora então temos as últimas pesquisas pertinentes que vieram aqui aportar:

- Imagens de Santo Mé e Príncipe (!) - Oh, valha-me São Mé, santo padroeiro dos ovinos e caprinos, segundo o nosso comentador honoris causa.

- Lista de todas as vadias de Nampula até Cuamba - Credo, ó senhores... Mas precisava mesmo de ser uma lista de todas, todas? Se fosse assim umas quatro ou cinco ainda se conseguia arranjar. Eu própria conheci e tratei algumas no hospital de Iapala e ainda me recordo dos nomes, mas mais do que isso não conseguimos. De qualquer modo, aqui ficam os meus sinceros parabéns pelo otimismo! Acreditar que é possível, num qualquer recanto blogosférico, encontrar uma lista deste calibre é algo digno de um homem de fé!

A Santa do Eixo da Via - Ora que bela ideia! Deve ser a santa padroeira dos chapas! Eles andam a velocidades suicidas sem nunca se desviarem um milímetro do meio da estrada. E nós, os condutores com algum apego à vida, acabamos por ir parar à berma o mais rapidamente possível, mesmo arriscando a pele no voo lateral...

- Pode-se tomar pau de cabinda com o mata-bicho? - Bem, poder pode. Com o mata-bicho, com uma cerveja, com um café... Mas com a namorada penso que seria mais agradável. Mas cada um sabe de si.

- Baptiza Qualquer Rato - Meu senhor, não vejo por que não! Que mal pode haver nisso? Qualquer rato também é filho de Deus e produto da Sua divina criação, passe o pleonasmo. Em tempos houve um bispo em Utrecht que chegou a batizar uma mola hidatiforme! Uma mola hidatiforme de uma condessa, é certo, mas ainda assim... E aqui a história assevera-nos, mais uma vez, que um bispo nunca se atrapalha, que um bispo enrascado é pior que um anestesista bêbado. E reza, pois, a história que o digníssimo clérigo dividiu aquela massa vesiculosa em 365 partes iguais e batizou metade com o nome de João e a outra metade com o nome de Isabel e mandou depois fazer-lhes um funeral condigno.

- Banhos para atrair mulheres funcionam mesmo? - Por acaso esta já tinha aparecido antes... Bem, meus senhores, estudos científicos por acaso não temos. Mas temos uma teoria ...

Afinação para vinte vozes brancas - Ai, meu amigo, deixe-se disso... Esqueça! Mesmo. Dedique-se a outra coisa. Vai ser uma canseira sem proveito nenhum. O próprio Bach nunca passou da afinação para quatro vozes. E mesmo assim sabe Deus!

A todos estes senhores, que conseguiram cá chegar com apenas estas coordenadas, os meus parabéns e o meu mais sincero obrigada pelos sorrisos que me proporcionaram!