Mostrar mensagens com a etiqueta Moçambique. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Moçambique. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de junho de 2017

[que farei quando tudo arde?] a minha amiga catarina


A minha amiga Catarina em cima do telhado, rodeada pelas chamas...
(Foto daqui)

Tenho estado à espera que ela nos conte como foi. Como foi que sobreviveu a todo aquele capítulo mais horrível da Divina Comédia. O que a fez nunca voltar costas à luta e, no princípio, meio e fim manter o sentido de humor, a compostura, o sangue-frio, a preocupação em dar notícias e o antirrugas. Uma mulher Chanel nunca se atrapalha, que uma mulher atrapalhada é pior que um anestesista bêbado. E mais inflamável.

Tenho uma amiga que esteve encurralada pelo fogo em Castanheira de Pera. Uma amiga que me fez chorar desesperada e rezar por um milagre durante mais de 12 horas. Não vejam isto como uma força de expressão. Eu não costumo rezar por milagres. Mesmo nos milagres a que já assisti (verdadeiros e inexplicáveis para mim, que sou uma mulher de ciência, acho que vi um - um e meio, vá, já vos falei sobre isto), não rezei por um milagre. Foi mesmo o desespero, a impotência e a incredulidade que me fez rezar pelo que não se pode pedir. E fazer refresh de minuto a minuto na sua página do facebook à espera do notícias, enquanto via apenas os apelos de outros amigos por notícias. Porque as ligações estiveram interrompidas durante horas!

No sábado o meu marido chegou a casa e eu estava deitada a chorar. E como é que lhe ia explicar ou sequer admitir a vergonhosa circunstância de que a pessoa por quem chorava não era sequer minha conhecida? Não a conheço pessoalmente, mas é minha amiga! Conheci-a aqui neste mato! Somos amigas e apaixonadas por Moçambique. Acabei por fazer uma promessa a Santa Escolástica (achei que Santa Bárbara e todos os outros milagreiros das catástrofes estariam assoberbados), que espero que ela agora me ajude a cumprir. Mas estava longe de imaginar como foi. O desespero de ter de proteger os seus sozinha, com uma mangueira em cima de um telhado, cercada pelo fogo que consumia as suas memórias de infância e a tranquilidade de ter uma casa segura onde criar raízes, quase sem meios e sem saber com quem contar. E no fim fazer-me rir a dizer que foi como a peça de Tennessee Williams, Gata em Telhado de Zinco Quente. Mas com sérum e antirrugas.

Espero que ainda nos conte como foi. E sei que um dia vai fazer qualquer coisa maior com isto que aconteceu, como é seu habitual. Coragem, Catarina! E obrigada por continuares por cá!

[Não sou silvicultora de bancada. Tenho muitas dúvidas e uma grande mágoa. Espero que algumas respostas venham a ser dadas por fim. Não tenho mais nada a dizer porque genuinamente não sei e não posso. Só posso ajudar no que está ao meu alcance...]

quinta-feira, 22 de junho de 2017

[welcome to mozambique] a seleção de esperanças!


"Os meninos das Irmãs" - Escolinha da Santa Cruz, Nampula
Não sei quais deles são meus filhados, possivelmente nenhum, porque só tenho rapazes e veem-se sobretudo meninas a dançar, mas sei que são felizes e lhes é permitido ser criança!
(Moçambique)

No mês da criança, no dia em que é divulgado o relatório da OCDE em que se faz a revelação bombástica de que "uma melhor educação na primeira infância aumenta as hipóteses das crianças desenvolverem todo o seu potencial, ao mesmo tempo que reduz as desigualdades sociais e é a principal determinante da mobilidade social" (como se ninguém o soubesse há anos), as irmãs de São João Baptista postaram este vídeo delicioso! Podia ser qualquer jardim de infância de qualquer país do mundo, mas fica num dos bairros mais pobres de Nampula e se vos disser que há anos que fazem coisas tão extraordinárias e defendem a infância com unhas e dentes podem crer que é verdade!

Coisas extraordinárias como combater o tráfico e rapto de crianças. Sabem como? Chamam o senhor da conservatória de 6 em 6 meses à escolinha e registam cada uma das crianças que nasce no bairro! Desde que o fazem nunca mais houve um único rapto de crianças, que era um flagelo que assolava toda a província! Desapareceram os raptores. Foram para a Tanzânia, diz-se. Mas nunca mais! Podem rir-se. É um ovo de Colombo, é certo, mas como todos os ovos postos por esse senhor, absolutamente genial.

Na escolinha asseguram que todas as crianças aprendem a falar Português e se familiarizam com livros, letras e números antes de iniciar o primeiro ciclo. Porque nenhuma criança consegue aprender a ler numa língua estrangeira (e em Nampula, nas casa de família, fala-se Macua). A biblioteca das irmãs, por pobre que seja, tem um movimento de 400 pessoas diariamente! É uma ilha, um oásis! E o número de crianças que consegue aprender efetivamente a ler é incomensuravelmente superior aos meninos de outras escolas.

Proporcionam a alimentação, vestuário e material escolar a cada uma das crianças. Por escassa que seja a alimentação, todas as crianças (e asseguro-vos que as observei a todas, uma por uma!) estavam dentro das curvas de crescimento da OMS.

Quanto gastam as irmãs com cada uma das crianças? Com cada um dos nossos afilhados? Preparem-se: 70 euros por ano! Em roupa, alimentação, educação e material escolar. E acima de tudo, as crianças têm sempre um sorriso! Digo-vos, que só quem lá esteve sabe a força que um sorriso pode ter.

É isto. A vida é simples. Os 70 euros por ano que gasto com os meus afilhados valem cada cêntimo! Tenham um bom dia!

(Se me perguntarem: Beijo-de-mulata, alguma coisa te custa, nisto de ser mãe? Eu respondo que há uma coisa. É não poder tão cedo voltar a Moçambique... A saudade aperta tantas vezes... Mas não se aflijam que sou feliz do lado de cá!)

sábado, 27 de maio de 2017

[cada mulher é uma ilha] o dia em que o mar desapareceu...


 O dia em que o Índico se tornou frio e distante e decidiu esquivar-se ao contacto íntimo e envolvente com o seu corpo... Nesse dia, a mulher, alheia a tudo quanto já tinha deixado de existir em seu redor, apanhava marisco na maré-vaza...


...no final do dia, a mulher, com o cesto cheio, levantou a cabeça e seguiu o seu caminho por entre as águas, acreditando ainda que pelo menos o mar e o céu são garantidos... e nunca chegou a perceber que o mar nos toca apenas porque quer. E o céu só ilumina quem ama...

(Ilha de Moçambique, Nampula)

[Agradecendo as graças desta vida, passe o pleonasmo, e abraçando a saudade que o Índico nos imprime na pele*! Como diria a Helena Araújo, a primeira dama dos dois dedos de conversa: "Da minha vida vê-se o Índico..."]

* Não vivemos sem uma vírgula de Oxford.

terça-feira, 23 de maio de 2017

[mas porque foi que não dormiste esta noite, beijo-de-mulata?] silêncio...

E perguntam vocês: "Mas, beijo-de-mulata, a ti, que já estiveste em Moçambique no meio do mato e sempre conseguiste dormir de noite, agora é que te dão as insónias?"

É verdade, meus amigos, quem visita este mato há mais tempo sabe que já estive metida em assados muito complexos, quase sem meios nenhuns para socorrer os doentes e que sempre me desenrasquei sem perder o ânimo. Que num surto de sarampo me morreram quase tantas crianças como as que faleceram em Manchester e que num surto de cólera na Zambézia morriam por dia tantos ou mais do que ontem. Que "parto sem dor" no hospital no Gilé era um parto em que mãe e filho ficavam vivos.

E que quando achamos que já vimos de tudo, quando pensamos que já vimos todas as desgraças do mundo, que já vimos pessoas a morrer e a sofrer, a suportar aquilo que achamos que vai para além da força humana, parece que deixamos de estar preparados para aceitar que pode haver pior. Ainda pior. Foi isso que percebi quando, depois de 15 dias sem arredar pé da porta do Instituto Nacional de Apoio aos Refugiados (INAR) em Nampula, tive finalmente autorização para entrar o campo de refugiados às portas da cidade e tratar os doentes de lepra que estavam a ser literalmente enterrados vivos pelos familiares. Nunca vos falei destes dias horríveis de descida aos infernos no campo de refugiados de Maratane porque nem eu própria gosto de me lembrar deles. De como os guardas do campo nos apontavam uma metralhadora à entrada só porque sim, nos revistavam o carro para nos intimidar e no final nos pediam boleia para casa, como se nada fosse. De como se  podia ver o desespero na face das pessoas que não eram imigrantes naquele país. Eram toleradas se ficassem naquele espaço, mas tratadas como criminosas e aprisionadas se tentassem fugir. E fugir para onde, se não havia caminho de volta para casa? Sim, e não vos vou falar dos doentes de lepra. Eu própria não saberia como fazê-lo sem perder o sono.

E perguntam vocês, meus amigos: "Mesmo nesses dias conseguiste dormir?" E eu respondo que sim. Com mais ou menos dificuldade, mas sempre dormi de noite. E voltei no dia seguinte com ânimo e vontade. Porque sempre consegui sentir que fazia algo pelos doentes, porque apesar dos que morriam e sofriam, havia sempre muitos mais que sobreviviam e se curavam.

Mas o mais importante de tudo, à noite, não era saber que tinha conseguido ajudar. O mais importante nesses dias difíceis era saber que à noite tinha uma casa para onde voltar. Um colo para onde correr se estivesse mais triste. Uma casa segura, onde havia mimo, carinho e alegria. E tinha a minha própria família, se bem que a milhares de quilómetros dali, para onde iria voltar.

Foi isso que me faltou a mim ontem às pessoas que vi em Manchester. Porque o terrorismo é isso mesmo. Deixamos de ter uma casa segura para onde voltar. Onde construir raízes e criar os filhos. Bolas, como é possível?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

[o milagre dos pastorinhos] e os meus milagres particulares



I once had a hospital in Africa...
(Gilé, Zambézia)

Confesso que ainda não consigo ler ou ouvir a história do menino Lucas, que sustenta a canonização dos pastorinhos de Fátima, sem me emocionar. Eu sou médica e ainda para mais trabalhei no meio do mato em Moçambique numa zona completamente desprovida de meios, onde a fé das pessoas é enorme, só superada pelo amor pelas crianças. Um povo fascinante, tem de concordar quem já lá viveu. É obvio que já vi e vivi muitas situações-limite! Assisti a curas prodigiosas. Posso dizer, em tom metafórico, que já vi muitos milagres na vida! Mas não. Não vi.

Milagres autênticos, não explicáveis pela fisiopatologia, acho que só vi um. Ou dois, pronto. Um e meio, já que para o primeiro ainda ponho hipóteses explicativas. Já vos contei as histórias (podem ir ali atrás ler esta história, e a outra também, mas aviso desde já que esta última é longa e difícil), talvez um pouco parecida com a do Lucas: Uma criança em descerebração acabou por recuperar sem sequelas! A situação era de tal forma grave que me cheguei a arrepender de ter insistido no tratamento. Quando vi que o menino estava reagir em descerebração fiquei horrorizada. A minha convicção foi apenas que o menino haveria de ficar com sequelas gravíssimas. Da mesma forma que os médicos que reanimaram o Lucas antes de o operar pela primeira vez poderão ter duvidado se tinham feito o que era correto... Não sei o que sentiram neste caso. Eu pessoalmente sei que reanimaria, mas haveria de duvidar por dentro se estaria a fazer o que era melhor para o menino.

Mas depois avisaram os pais do Lucas de que o menino poderia ficar com sequelas muito graves, possivelmente em estado vegetativo antes de o transferir para um hospital maior. Talvez tenham mesmo chegado a fazer a pergunta que este aviso quer dizer: "Querem mesmo que se continue o tratamento ou preferem que paremos por aqui, já que a situação é desesperada? No final vão aceitar cuidar o menino se ele ficar com sequelas graves?" Eu própria fiz a mesma pergunta aos pais do meu menino. Eu não tinha para onde o transferir, perguntei apenas se queriam que o menino fosse morrer a casa. Mas tudo o resto foi igual. Tenho a imagem do milagre gravada na minha mente. O menino acordou, horas depois, e começou a brincar com o meu estetoscópio vermelho. A minha cara de espanto e felicidade deve ter sido muito expressiva, porque a mãe sorriu e chorou comigo. Não sei se se chegou a aperceber do quão extraordinária foi a cura do filho.

Aquilo a que assisti não tenho a certeza se foi milagre, mas já perguntei a muitos colegas especialistas nesta área e ninguém viu semelhante coisa. O cérebro é plástico, isso eu sei e não é novidade para ninguém. Mas há limites. E a descerebração é onde eu traço o meu.

Se foi milagre de algum santo em particular não sei. Nunca saberei. Nem me ocorreu rezar, de tal forma estava convencida de que o desfecho seria trágico. Não tenho registos. Por acaso tenho uma testemunha, mas não há maneira de haver provas. Sei que a Irmã Lurdes rezou por ele ao seu santo de particular devoção. Mas não sei mais nada. Isto para dizer que todos os dias há milagres. E quando não são milagres, são graças enormes. E que vale a pena acreditar, porque quem não acredita (que é quase sempre o meu caso,  infelizmente) sofre mais!

Se aprendi a rezar por milagres? Acho que não. Mas devia. Talvez ainda vá a tempo...

quinta-feira, 11 de maio de 2017

[querido, vesti o miúdo] semana mundial do babywearing


Esta é a Semana Mundial do Babywearing!


[Ainda bem que os meus amigos moçambicanos não me leem habitualmente, de outro modo achariam tudo isto ridículo e estariam a olhar para mim com cara de "Duh, qualquer dia nós também fazemos a Semana Nacional de Comer a Sopa com Colher ou a Semana Mundial de Usar Roupa Interior só para gozar convosco! Há lá outra maneira de transportar as crianças!"]

Eu sou uma fervorosa adepta do babywearing, que tem inúmeras vantagens para as crianças e o seu desenvolvimento e usava sempre uma capulana moçambicana para transportar o baby-de-mulata. Era pro em colocar o menino às costas, num exercício africano de equilíbrio e destreza que deixava sempre a minha mãe sem respirar e a conter-se para não dizer "Cuidado que me deixas cair o desgraçado!", mas depois de o colocar nas costas (não há outra maneira, com uma capulana), trazia-o sempre para a frente porque prefiro olhar o meu filho nos olhos. Não o deixava nas costas, embora até achasse que ele não se importaria de ir a apreciar a paisagem. Depois rendi-me a uma solução mais prática, com panos que dão para colocar diretamente à frente. Quase tive pena de deixar a tradição moçambicana, mas as minhas costas e as coronárias da minha família (que, vá se lá saber porquê, não confia na minha fantástica agilidade e destreza corporal*) agradeceram.

* E têm razão, pronto...

quarta-feira, 10 de maio de 2017

[a vida é curta, a arte é longa] batik



Hoje mandei emoldurar um batik moçambicano que encontrei no fundo de uma gaveta, comprado a caminho do Hospital Central de Maputo, numa tarde de despedida... talvez por ter sabor a tristeza e a regresso me tenha esquecido dele... até o som dos batuques me bateu mais forte no coração! É preciso abraçar a saudade...

terça-feira, 9 de maio de 2017

[beijo de mulata fashion] o ouro da zambézia



Os meus brincos de ouro, made in Gilé
(Zambézia, Moçambique)

Já vos contei esta história. Hoje, ao escolher os brincos, encontrei estes aqui acima e não resisto a contá-la de novo!

Próximo do grande Centro Hospitalar do Gilé (o paupérrimo hospital do distrito), na mesma rua da pousada do Sr. Pompisk (para ele, mesmo que não nos esteja a ouvir, um abraço!), vivia o único ourives, o Sr. Elvis Pires. Não sei muito bem onde é que ele adquiria o ouro, mas suponho que o comprasse aos garimpeiros das minas situadas a poucos quilómetros da vila. Por acaso isso não me choca nada... Nem tenho a certeza de que os próprios garimpeiros teriam perfeita noção de que a exploração das minas e a comercialização do ouro da sua própria terra era ilegal, de tal forma era feita às claras. 

Mas como eu ia dizendo, o Sr. Elvis Pires, a quem eu tratava respeitosamente por Sr. Ourives porque não conseguia evitar sorrir com o nome improvável, era um homem em muitos aspetos admirável. Apesar do nome, que nos faria pensar numa família vanguardista, as suas origens eram as mais humildes. Oitavo filho de uma família de camponeses, viveu uma infância igual à da maioria das pessoas do país: dormiu no mato durante os anos da guerra civil para se esconder dos ataques dos "bandidos armados", teve a casa destruída inúmeras vezes, viu irmãos morrerem às mãos dos guerrilheiros e sucumbir a doenças banais, teve várias doenças e medo de morrer em todas elas, foi mordido por uma cobra e sobreviveu miraculosamente graças a um curandeiro (esta última parte talvez não seja assim tão comum, mas enfim...).  Mas o que fazia a diferença, o que fazia dele um homem remediado, que conseguia sobreviver e ganhar a vida sem ser de mão estendida ou dentro da máquina do partido, era ser um homem de iniciativa, um homem de sonhos e de trabalho.

Mas, por muito suor que empregasse nas suas obras, o Sr. Ourives, com muita pena minha, não era um artista nato. Não era um criador genial e inspirado. Podia ser um bom homem de família, um empresário honesto, um executante razoável, mas um artista sem ideias e com um gosto sofrível...

Por isso, a Irmã Lurdes, que pelas minhas contas há de vir a ser santa, nas suas idas a Paris trazia-lhe sempre catálogos de grandes marcas para ele se inspirar. O último tinha sido o da Cartier. Mas nem assim... Por um lado é preciso bom gosto por parte do artesão e, por outro, é preciso bom gosto e poder de compra por parte do mercado. Ou seja, mesmo depois de ter tido contacto com peças de elevadíssimo gosto em comparação com as suas, as obras de Elvis Pires continuavam as mesmas bolinhas e argolinhas algo toscas de sempre, que ele guardava amorosamente em pequenos saquinhos de comprimidos surripiados da farmácia do hospital...

Felizmente, no último ano em que lá estive, a Irmã Lurdes teve uma ideia genial! Numa ida ao Carrefour de Paris lembrou-se de pedir o catálogo da ourivesaria... A face do Sr. Pires iluminou-se quando o viu! Era todo um novo mundo de pequenas ideias acessíveis, simples e baratas ao seu alcance. E foi também com base neste catálogo que o Sr. Ourives recebeu a sua primeira encomenda de uma médica portuguesa. Meus queridos amigos, eu tive de me esforçar genuinamente, mas no meio do catálogo do Carrefour consegui encontrar um modelo de brincos engraçado. Ele ficou a babar-se. Já antes me tinha tentado vender sem sucesso algumas das suas obras, mas eu, por muito boa vontade que tivesse, não tinha conseguido comprar nada.

A minha intenção com esta encomenda era apenas dar trabalho a um homem de família (e, vá, também queria uma história para contar, pronto, já me conhecem...). Não tinha a mais pálida intenção de os usar mais tarde. Mas... e não é que ficaram perfeitos? É que até que não são feios... Atualmente uso-os de vez em quando. Por graça, mas uso.

Ah, e a sobrinha do Sr. Elvis Pires chamava-se Angelina Júlio! É uma coisa de família...

domingo, 7 de maio de 2017

[mamãs africanas] dia da mãe sem medo, nem dó, nem drama...









Mamãs de Nampula e da Zambézia
(Moçambique)

Dizem os portugueses que "quem tem mãe tem tudo, que não tem mãe não tem nada". Dizem os africanos, em jeitos de sinónimo (que todos os provérbios importantes existem com tradução): "casa sem mãe é um deserto".

sábado, 6 de maio de 2017

[welcome to gorongosa] encontro com um pangolim


Pôr do sol na Gorongosa e Pangolim
(Gorongosa, Sofala, Moçambique)


Transcrevo uma parte de um texto que me tocou particularmente. A Gorongosa representa a parte de mim que acredita que há de regressar a Moçambique: é que eu sei que vou voltar porque nunca fui à Gorongosa! Daqui.

1 Maio, 2017


Maximillian Prager, Harvard University, Turma de 2019, Biologia Orgânica e Evolutiva

No verão de 2014 encontrei-me pela primeira vez em África, pela primeira vez vivendo longe dos meus pais, e pela primeira vez colocando a fascinação da minha vida pela fauna bravia em ação. Eu era um estudante do ensino médio de Nova York, a estudar no Laboratório de Biodiversidade E. O. Wilson, com os biólogos e conservacionistas do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. Mais especificamente eu estava a trabalhar com Piotr Naskrecki, um entomologista, fotógrafo de natureza, diretor do Laboratório Wilson, e meu mentor e amigo. Ao voar para o Parque, eu não sabia que iria “gastar” os meus dois verões seguintes neste lugar, e que ficaria tão encantado com a paisagem, a fauna bravia, as pessoas e a causa da conservação da natureza.

A minha primeira curta visita ficou repleta de experiências inesquecíveis. No meu breve tempo no Parque, segui bandos de leões acompanhado por especialistas, segurei uma inhala que dava coices enquanto um veterinário a tentava anestesiar e colocar uma coleira de rádio, apanhei morcegos em redes de malha fina, e fui continuamente mordido, arranhado, picado e pulverizado por uma miríade de pequenos répteis e invertebrados. No entanto, o episódio mais memorável desse primeiro verão em Moçambique foi o meu envolvimento no resgate de uma mãe pangolim e do seu bebé.

O pangolim terrestre (Smutsia temminckii) é um mamífero bizarro nativo da África subsaariana. O pangolim movimenta-se lentamente mas é surpreendentemente elusivo, e alimenta-se de térmites; preenche um nicho ecológico semelhante, embora totalmente alheio, aos tatus das Américas. Com a sua cauda longa, garras escavadoras arredondadas, e uma armadura de placas queratinosas, o pangolim é uma verdadeira quimera. Pode ser encontrado em várias formas em toda a Ásia e África, algumas terrestres e outras arbóreas. Nunca poderíamos supor que o pangolim é o mamífero mais traficado ilegalmente do planeta. Os pangolins têm muita procura na China e no Vietname, onde sua carne é considerada uma guloseima, e as suas escamas são falsamente acreditadas como a cura para o reumatismo e a artrite. A prevalência de uma infeliz e desnecessária causa de morte dessa incrível criatura não passa de uma farsa.

Os pangolins não são fáceis de encontrar. Ao longo dos seus anos de investigação, não só em Moçambique, mas em toda a metade sul da África, Piotr nunca “tropeçou” num pangolim. Na verdade, parecia que o pangolim sempre se escapava à sua vista; ao voltar ao acampamento uma noite, ele poderia ouvir dizer que outro cientista tinha visto um, mas que não sabia onde Piotr estava na altura, ou que não tinha uma câmara à mão. O pangolim era a baleia branca de Piotr, como me foi lembrado repetidamente nos dias que antecederam o encontro.

No dia anterior ao que eu tinha programado para deixar a Gorongosa, recebemos a notícia de que um caçador furtivo numa aldeia próxima tinha dois pangolins na sua posse, uma mãe e um bebé. Ele estava anunciar a sua venda por 23.000 Meticais, na altura o equivalente a cerca de $750 US. Alguns guardas do Parque partiram para prender o ladrão e recuperar os animais. O par foi recuperado com segurança, pelo que soubemos naquela noite, e permaneceu num quarto de armazenamento até à sua libertação. Seria nossa responsabilidade encontrar um lar adequado para eles e entregá-los de volta ao Parque.

Na manhã seguinte, horas antes de sair do Parque, eu saltei para a nossa Toyota Hilux com o Piotr e a Jen Guyton, uma mamalogista, e fomos buscar os pangolins. Estacionámos o carro, e Piotr entrou na pequeno quarto de armazenamento para ir buscar os pangolins. Minutos mais tarde, ele ressurgiu com os braços em torno de uma esfera pesada e com escamas que se assemelhava a uma alcachofra gigante. Colocou-a nos braços de Jen e ligou o carro. Depois de algum tempo o esfera descontraiu-se, e um focinho longo, semelhante ao de um galgo, emergiu para provar o ar exterior pela primeira vez em poucos dias. Levantando mais a cabeça, revelou um pálido recém-nascido, coberto por uma pele de escamas que lembravam unhas frágeis. As mães pangolins, quando ameaçadas, enrolam-se em torno dos seus bebés para os proteger. O odor do bebé era mais comparável ao cheiro de uma caixa de parto após um cão ou gato ter dado à luz, ligeiramente suave, mas acentuado pelo aroma do leite doce. Sobressaltada pelos solavancos da condução, a mãe desdobrou-se mais uma vez, derramando o bebé no meu colo. Piotr disse-me para agir rapidamente - eu tinha que segurar o bebé perto do meu peito e protegê-lo. O bebé tremia nos meus braços. Ele era muito delicado para ser movimentado. Assim segurei-o de forma apertada enquanto acelerávamos em direção ao nosso destino.

O ponto de libertação foi uma área de mato arenoso pontilhada com termiteiras; a mãe pangolim teria muita comida aqui. Jen colocou o par no chão, com a mãe desenrolada. O poderoso pangolim parecia um gigante de madeira, como uma montanha com garras, apenas encolhido para o tamanho de um cão de raça “beagle”. Ela colocou o bebé às costas tal como esperávamos. A montanha em miniatura ergueu o seu longo focinho e começou a caminhar para o mato. Quando ela desapareceu, o farfalhar da relva e o estalar de pequenos galhos foram ficando cada vez mais fracos.

(Ler mais aqui)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

[welcome to mozambique] as pulseiras mais fashion



Feira do Pau Preto, fotos daqui, que nem por sombras levaria a minha máquina fotográfica para as compras na feira... O que ganharia em registo gráfico perderia em poder negocial.
(Nampula, Moçambique)

[Esta manhã o facebook teve a gentileza de me recordar este episódio. E não resisto a contar-vos de novo a mesma história!]

Uma das coisas que mais gosto de comprar e que sei que as minhas amigas mais apreciam são as pulseiras exóticas, feitas em pau preto, sândalo e pau rosa que se vendem na chamada Feira do Pau Preto, aos domingos em Nampula, onde se pode comprar de tudo, desde vassouras feitas com fibra de coco até lamparinas feitas de latas de conserva vazias, passando pelas inevitáveis capulanas e medicamentos tradicionais e, claro, aquilo que dá nome à feira, as famosas obras de arte lindíssimas em pau preto, feitas de uma só peça, apenas com um canivete, por homens que aprenderam sozinhos, ou com alguém próximo, a difícil e paciente arte de talhar a madeira.

Certa vez, uma amiga pediu-me que lhe trouxesse como lembrança uma pulseira de rabo de elefante. Segundo ela, era do mais fashion que existia, em termos de acessórios exóticos africanos. Fiquei horrorizada. Eu não sou capaz de comprar marfim ou tartaruga, por mais bonitas que sejam as peças de arte. Por mais que me digam que os elefantes não são mortos para lhes retirar as presas, só as retiram de elefantes encontrados já mortos acidentalmente e que as tartarugas não são mortas de propósito. É fácil iludirmo-nos com estas desculpas ingénuas... Mas uma pulseira de cauda de elefante? Que estranho e, ao mesmo tempo, que curioso. É que não lembra ao menino Jesus, quanto mais ao rabudo... Certo domingo, quando já estava a regressar a casa vinda da feira, mesmo em frente ao delicioso estádio do Sporting Clube de Nampula, vi estas pulseiras a vender e resolvi parar o carro e investigar por conta própria, num rasgo de inspiração:

- Bom dia, senhor, novidades*?
- Tudo bem, não sei do seu lado...
- Salama**, obrigada.
- Ah... Senhora, estou a vender pulseira.
- Sim estou a ver, estas pulseiras são de quê?
- Rabo de elefante...
- Ah, muito bem. E custam quanto?
- Está a 20 cada uma...
- A 20 meticais? E quanto me faz se levar cinco?
- Fica a 15 cada uma.
. Está bem... E quem fez as pulseiras?
- Eu mesmo, mamã!
- Ah, muito bem, parabéns, são muito bonitas! Mas onde é que arranjou o rabo de elefante?
- É um caçador que vende.
- Um caçador? E onde é que ele caça?
- Não sei, mamã...
- Mas ele mata os elefantes para lhes cortar o rabo?
- [Atrapalhado, sem saber o que dizer a esta mukunya***, que nem comprava nem desgrudava literalmente do seu pé...] Não... corta o rabo, só.
- Hum... Olhe, pode dizer, que eu levo na mesma...
- O quê, mamã?
- Não são de elefante, pois não?
- [Com pouca convicção] São sim...
- Mas pode dizer, não tem problema...
- [Baixando os olhos, envergonhado e baixando também a voz...] Ah, mamã... São di pineu...
- De quê?
- Di pineu, mamã.
- Mas o que é um pineu?
- Um pineu, mamã!
- Pineu? Mas isso é um bicho? É parecido com quê?
- Pineu... Não sabe o que é pineu? Pineu di carro!
- De pneu?!
- Sim, mamã. Nós corta o pineu di carro e dentro do pineu tem o miolo que faz o fio...
- Ah... Levo cinco, então!

* Novidades - Como está [de saúde]?

** Tudo bem.
*** Mukunya - Branca

terça-feira, 2 de maio de 2017

[welcome to mozambique] always dancing


Moçambique, país de danças e sorrisos!

Enquanto não me volta a vontade de escrever, fiquem com este vídeo de danças deliciosas em Nampula e Iapala (norte de Moçambique). Palavras para quê? A emissão segue dentro de momentos...

domingo, 23 de abril de 2017

[zambézia, uma história de origens] filhos do coração



Vistas do Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)

(continuando...)

Reconheceram-se ainda assim. O perfume dos cabelos de Gigi era ainda o perfume delicado do céu e das flores do frangipani. E a barba de Trovão guardava o cheiro a terra molhada e a raiz de embondeiro. Reconheceram-se e amaram-se, como se tinham amado desde sempre. Mas a criação divina estava ainda no seu início, e os métodos de gerar vida eram ainda mais que imperfeitos. Os olhos de Gigi a cada dia transbordavam de um mar maior, e os olhos quentes de Trovão iam arrefecendo o desejo de criar filhos com olhos de céu e cabelos de embondeiro.

Procuraram em vão quem lhes revelasse os segredos dos antepassados, mas gerar vida está só nas mãos de Muluku, era a resposta invariável.

Foi então que decidiram aventurar-se a tornar a subir o Monte Namúli. Mas o monte onde outrora corriam felizes e despreocupados era agora o grande tabu da criação. Dizia-se que nenhum adulto deveria subir ao monte de onde viera o primeiro homem, sob pena de sucumbir ao mais pérfido desejo telúrico. Mas já só isso lhes fazia sentido, para desfazer a tristeza e a maldição em que viviam. Não temiam nunca mais encontrar o caminho de volta porque já só tinham um caminho. E era um caminho só de ida… Tinham de ir devolver ao embondeiro as raízes que secavam o ventre de Gigi.

E, numa madrugada, ainda cobertos de bruma e cinza, prostraram-se pedindo a Muluku que os protegesse e perdoasse na subida. O peito pulava-lhes na ânsia do interdito, num misto de medo e desejo, quando iniciaram a viagem... Mas a montanha parecia chamá-los. Os espinhos encolhiam à sua passagem, as bagas amadureciam, plenas de néctares açucarados e as folhas pareciam cantar: "Não temam, pois tudo recomeça." Nunca o Namúli lhes parecera tão convidativo, tão quente e húmido de vida.

Chegaram, por fim, ao cimo da montanha. Os olhos de Gigi iluminaram-se de bons presságios quando viu que, da gruta revestida a raiz de embondeiro, jorrava agora uma nascente de águas mornas. Os olhos de Trovão prenderam-se num frangipani, cujas flores caíam, delicadas sobre a nascente, perfumando o ar com o cheiro da sua doce mulher. Sonhava por instantes, acordado, que Gigi estava em toda a parte, dissolvida e pulverizada por todo o céu da montanha, quando um grito o fez despertar daquele deslumbramento.

Gigi gritava, toda ela assombro e abismo, que aquela nascente era de água salgada! Assistiram então, aturdidos, ao derradeiro jorro de água, que secou a nascente, mar de súbito vazio, deixando em redor um manto de sangue vivo. E depois de um momento, onde coube toda a dor, medo e desesperança do mundo, ouviu-se, de dentro da gruta, um gemido. Seguido da gargalhada inconfundível de uma criança. Precipitaram-se para dentro da gruta. Ao fundo, ainda coberta de sangue e raízes, uma criança com olhos de céu, cabelos de embondeiro e perfume de frangipani. Era uma menina. Uma menina linda e, espanto dos espantos, já com dentes de leite. Os mesmos dentes de leite de seus pais. E trazia dentro dela uma semente de embondeiro, sinal de que Muluku aperfeiçoara a criação e que não queria que os seus netos tivessem de passar por todo aquele sofrimento para gerar vida. Felizes, agradeceram a Muluku.

Mas Muluku avisou-os: Não vos esqueceis de que, a partir de hoje, toda a criação e futuro provirá desta criança, de cabelos perfumados e olhos de céu e de mar, mas lembrai-a sempre de honrar a seus pais, que tanto sofreram por terem filhos de sementes plantadas fora do corpo. Porque toda a criança é desejada e filha do coração.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

[hoje foi o dia!] zambézia, uma história de encantar








O Monte Namúli
(Zambézia, Moçambique)
Fotos: Algumas são minhas, outras daqui.


As Flores de Frangipani

Há muitos, muitos anos, a Zambézia era uma terra selvagem, quente de origens, onde nasciam fontes de águas mornas e perfumadas, onde a terra era tão fértil que as mais pequenas sementes podiam dar frutos e as montanhas se cobriam de um véu glaucomatoso todas as manhãs. Para que o céu só se mostrasse depois de todos estarem bem acordados para o poderem contemplar... Numa dessas montanhas, a que haveria de se chamar Namúli, o primeiro homem surgiu na bruma de uma madrugada, coberto de capim e de folhas, germinado nas raízes mornas de um embondeiro. E, depois de um urro de alvoradas, que só não faz parte da história porque ainda não estava lá mais ninguém para ouvir, olhou com espanto aquele céu de paraíso, agradeceu a Muluku, Deus dos antepassados, e desceu avidamente em direção à planície, começando a espalhar a sua semente pelo mundo.

Nessa terra verde, no coração de África, ainda a criação divina não estava completa, nasceu anos depois, um menino de olhos negros como a terra mais fértil, e cabelo crespo, como os irreverentes ramos de um embondeiro. Era um menino com o coração doce e a cabeça cheia de aventuras, a quem chamaram Trovão. A sua companheira de infância era uma menina terna, de olhos azuis, transbordantes de futuros, e cabelos perfumados, cujo nome seria Rosa, se nessa terra existissem rosas ou alguém já tivesse sonhado com flores delicadas. Por isso lhe deram o nome das flores mais doces das árvores mais altas, porque o seu perfume só poderia vir do céu. O seu nome era Frangipani, mas todos lhe chamavam Gigi, como o som do seu sorriso.

Gigi e Trovão corriam felizes pelas montanhas, trepavam ao cume do monte Namúli, comiam as bagas mais doces dos arbustos espinhosos e construíam, entre segredos e gargalhadas, pequenas cabanas de paus e de folhas, onde mal cabiam deitados e entrelaçados um no outro. Era lá que se deixavam ficar em silêncio, na hora do calor, contemplando o céu pela abertura no teto que Gigi queria manter descoberta a todo o custo, para que o céu não lhe fugisse dos olhos e para sentir, nos dias de chuva, o sabor redondo do sol. Por vezes, nos dias em que o calor se demorava e a terra estava mais húmida e fértil, o próprio chão se entranhava entre os dois e criava raízes, como pontes entre um e outro. E era quase difícil despegarem-se, vestidos da mesma pele.

Os meninos foram crescendo, os dentes de leite foram caindo e eles enterravam-nos no chão da cabana, onde, pouco a pouco, se foi formando uma gruta, revestida a raiz de embondeiro. Mas, à medida que os meninos cresciam, aqueles momentos de silêncio e cumplicidade foram-se tornando cada vez mais raros. Já todos sabemos, mas eles não tinham quem lhes dissesse, e só depois poderiam vir a descobrir, que na infância, a dada altura, há uma magia que se quebra, uma gargalhada que se suspende, toda uma vida que se torna memória... E no dia em que enterraram o último dente de leite, cada um seguiu o seu caminho, porque desde que o mundo é mundo, para crescer é preciso afastar-se da casa onde que se cresceu... Para se poder amadurecer e depois poder amar e querer gerar vida...

Gigi e Trovão desceram do Monte Namúli e cresceram em direções opostas, até que um dia, na planície se reencontraram. Ele tornara-se um homem enorme, com a face e o peito cobertos de pelos, das raízes do embondeiro que se lhe entranharam na pele nas longas tardes da sua infância. Os olhos quentes continuavam doces e cheios de aventuras. Gigi crescera para se tornar numa mulher linda, mas os olhos, outrora de céu, eram agora olhos azuis de mar. As raízes do embondeiro cresciam no seu ventre, secando-o por dentro. E o mar, que sonhava que um dia lhe cresceria no ventre, para depois jorrar vida, só nos olhos lhe crescia todos os dias. E deles transbordava todas as noites. Nos seus olhos já não se viam futuros por causa daquele mar morto no seu ventre, onde só existia sangue e lodo…


(continua...)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

[momentos para sempre] um dia deixo de escrever histórias clínicas...

... e escrevo uma história de encantar... Amanhã será o dia!

 Houve tempos em que a viagem dos meus sonhos era ir até às plantações de chá do Gurué, perto das margens do rio Zambeze.
Um dia hei-de voltar... com o baby-de-mulata e Mr. Shaka e os que mais vierem!
(Gurué, Zambézia)

Como pano de fundo, o verde arrebatador e o mito da origem do primeiro homem ali mesmo, nas nascentes do Monte Namúli. Segundo a lenda macua-lomué, foi precisamente nesta montanha que a humanidade teve origem, e o primeiro homem terá surgido numa madrugada, germinado nas raízes de um embondeiro e, depois de beber das águas perfumadas das montanhas*, desceu calmamente em direção à planície e começou a espalhar a sua semente pelo mundo.

Hoje em dia, o Monte Namúli está envolto em mitos e tabus... Diz-se que só se pode subir depois de uma cerimónia longa e difícil levada a cabo por um régulo e com permissão dos antepassados, depois de rezas, oferendas e respeitos. Segundo o mito, e à maneira deliciosamente macua, o guardião do Monte Namúli começa a falar com os viajantes incautos de tal forma rápido que estes se baralham e nunca mais conseguem encontrar o caminho para casa...

(Adenda, por respeito à Prof. Doutora Ruiva, amiga deste mato: gostava que existisse um mito de origem da primeira mulher, mas suspeito que o primeiro homem macua se teve de desenrascar sozinho...)


*Que séculos depois alguém venderia sob a designação comercial genericamente inflacionista de águas gourmet

segunda-feira, 17 de abril de 2017

[mozambique revisitado] um surto de sarampo





A Casa do Gaiato de Maputo (a capela, os meninos, o refeitório e o berçário para as crianças desnutridas da aldeia mais próxima).

(Boane, Maputo)

Em 2003, era ainda estudante de Medicina quando parti pela primeira vez para Moçambique em voluntariado. Já contei muitas vezes estas histórias, mas nunca contei a história do surto de sarampo que por lá aconteceu na minha estadia. Não é, de facto, algo que goste de recordar... Mas também nunca pensei, confesso, que a haveria de contar nestas circunstâncias, em plena ameaça de surto de sarampo no nosso país...

Há mais de 10 anos, no meu hospital, quando o diretor perguntou a todos os internos mais novos se alguém já tinha visto um caso de sarampo fui a única a levantar a mão. Os meus colegas olharam-me com curiosidade, meios incrédulos. "Onde?", perguntaram. "Vi mais de 100 casos em Moçambique. Em Portugal nunca." "Ah", responderam, "em Moçambique está bem." 

Foi ali, em Boane, próximo da barragem dos Pequenos Libombos, a 50 km de Maputo, que conheci Moçambique... Foram os encantos de primeira vez em África. Na Casa do Gaiato, com o Padre Zé Maria, a Irmã Quitéria, a tia Cármen, a D. Virgínia, de quem já vos falei, e os meninos mais adoráveis que alguma vez tinha conhecido e que viviam no orfanato... Rendi-me a eles no primeiro dia, em que me vieram adornar a mesa-de-cabeceira com uma flor selvagem que crescia numa casca de coco, "para titia sentir o cheiro da terra antes de dormir". Se me pedissem uma só prova de que é possível crescer e que vale a pena investir em Moçambique, eu saberia o que responder.

Era no centro de saúde, a 5 km da Casa do Gaiato, que começavam os meus dias. Depois do mata-bicho* com os meninos, o António, um dos mais velhos, que já tinha carta de condução, ia levar-me ao centro de saúde através de uma picada fabulosa, quase desaparecida por uma vegetação rasteira de savana seca a perder de vista, e onde, a espaços, emergiam as micaias, as árvores que eu amo desde o primeiro dia, com os seus espinhos e a sensação de serem as únicas sobreviventes no meio da secura atroz da planície.
 
Eu ia à frente no machibombo**, ao lado do António. Os meninos que não tivessem aulas nesse dia também iam connosco atrás, para ajudarem em pequenas tarefas do centro de saúde: encarregavam-se da inscrição dos doentes, ver temperaturas, medir tensões arteriais, varrer o pátio, ajudar os doentes a perceber como se tomava a medicação.

Um dia vieram-me mostrar um menino que estava muito doente. Era filho de um professor da escola da aldeia. Tinha 8 meses e não parava de tossir. Prostrado. Não mamava e não aceitava comer mais nada. Tinha os olhos injetados, o nariz congestionado e, desde essa manhã, tinha-lhe aparecido um exantema (borbulhas). Não era fácil ver o exantema, dada pigmentação escura do bebé, mas à luz via-se perfeitamente que as borbulhas lhe cobriam todo o corpo. A história fez-me soar os três C do livro de microbiologia (cough, coryza and conjunctivitis). Procurei o sinal de Koplik, inequívoco, diziam os meus livros, patognomónico, dizia a minha professora


Peguei na lanterna e procurei pequenos grãos de sal na mucosa junto aos dentes molares... Estavam lá, de facto, mas eram muito mais pequenos do que eu tinha ideia. "Como grãos de sal" lembrava-me eu das aulas da faculdade. Mas... só se fosse sal de mesa e não sal de cozinha, ocorreu-me... Ai, valesse-me Nossa Senhora dos aflitos, então o menino estava ali doentíssimo, prostrado, quase sem respirar e eu com dúvidas se o sinal de Koplik era do tamanho de grãos de sal de mesa ou de sal de cozinha?! Mas como era possível? No meio da savana uma dúvida existencial deste calibre... Mas tinha de ir esclarecer a dúvida. Não tinha outro meio de diagnóstico. Não havia net móvel em Moçambique. Muito menos banda larga ou satélite para me valer do meu Santo António do Google. Fui à sala onde tinha deixado os meus livros, que por sorte tinha levado nesse dia. E lá estava: "like table-salt grains". Era mesmo sarampo, caramba! 

Mas o menino, Ângelo era o seu nome, apesar de filho de um professor e de uma funcionária do centro de saúde, estava ligeiramente desnutrido. Tinha nascido com baixo peso e os pais, apesar de terem um salário que os mantinha ligeiramente acima do limiar da pobreza, comiam carne apenas duas vezes por semana e muito poucas verduras e fruta. O preço destes géneros alimentares, luxuosos em Moçambique, era abolutamente proibitivo para eles. Mas era uma alimentação manifestamente insuficiente para uma grávida, já mãe de quatro filhos mais velhos. Para agravar a situação o bebé ainda mamava quase exclusivamente e a diversificação alimentar apenas começara no mês anterior...

Estava com febre. O teste da malária foi positivo, infelizmente, compondo o quadro. Prescrevi-lhe tudo o que pude que o pudesse ajudar: antibiótico para a pneumonia óbvia, broncodilatador, antimalárico, polivitamínico, vitamina A em dose gigante. E uma solução de reabilitação nutricional. Os olhos do pai escureceram quando leu "desnutrição ligeira" na ficha do filho: "Nós damos tudo o que podemos, mas a comida é muito cara..."
 - Eu sei, pai...

 Foi difícil tratá-lo nestas circunstâncias. Eu fiquei horas à cabeceira do menino, com medo que me morresse ali mesmo... tenho sempre a fantasia de que se não arredar pé dali, a morte não se atreve a ir buscá-los. O menino melhorou lentamente. Veio novamente no final da minha estadia para se vacinar. Já tinha 9 meses. E o pai perguntou-me então:
- Lá em Portugal também há sarampo?
- Não, senhor professor, lá em Portugal não há sarampo.
- Mas como? Vacinam os meninos à nascença? Aqui em Moçambique só se vacina aos 9 meses.
- Não, em Portugal vacinamos aos 15 meses [Em 2003 o Programa Nacional de Vacinação era mais otimista do que agora e a nossa cobertura vacinal ainda maior...]
- Afinal?! Então como não têm sarampo?
- Todas as pessoas estão vacinadas. Não há sarampo em Portugal!

Os olhos dele brilharam, como se lhe tivesse confirmado que o paraíso existia na terra:
- Gostava de conhecer Portugal, Doutora. Deve ser um país lindo...
- Ora, professor, lindo é Moçambique! - respondi.

Mas nas semanas que mediaram estes dois episódios, tive alguns dos piores dias da minha estadia. A mãe do Ângelo tinha-o levado dias antes do seu agravamento à enfermaria das crianças desnutridas. Tinha lá ido levar umas roupinhas que já não lhe serviam para oferecer às mães dos bebés desnutridos. O filho tinha ido com ela, obviamente, às suas costas na capulana...

Já estão a imaginar o que aconteceu naqueles dias... O pior surto que já vi, entre os meninos mais vulneráveis de todos. O Padre José Maria ia desesperando... tanto esforço humano e económico para reabilitar aquelas crianças e uma doença maldita vinha agora dizimá-las. Ainda assim tivemos "apenas" 10% de mortalidade! E digo "apenas" porque o que dizem os livros é mortalidade de 50% em crianças desnutridas. Era essa a taxa de mortalidade no Hospital Central de Maputo... Ainda sei de cor, passados estes anos todos, o nome dos meninos que não resistiram apesar dos nossos esforços naqueles dias negros... 

Foi preciso ir a Maputo comprar mais antibióticos e mais antimaláricos e mais polivitamínicos e mais não sei quantos medicamentos para reforçar a reserva que quase se esgotou nos dois primeiros dias. Foi difícil convencer os responsáveis do distrito de que era necessário vacinar de emergência todas as crianças que ainda não tinham sido vacinadas. Demorou semanas a conter o surto... Mas graças ao esforço de todos, o surto apagou-se, tal como veio... 

Mas ainda nem posso acreditar que ontem uma adolescente foi ligada a um ventilador no meu hospital por esta mesma doença, anacrónica e maldita!