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domingo, 27 de maio de 2012

[o pior cego...] os brinquedos dos pobres fazem-se com lixo...





Recordemos algumas das fotos magistrais do André, um dos bloggers que mais admiro, autor do Tertúlia Africana, blogue que, parafraseando o Irmão Lúcia, é para ir de joelhos. Ou recordemos este post, publicado aqui há atrasado, no decurso da improvável rubrica Zambézia vs New York.

Este último brinquedo em particular é leve e salta como uma bola profissional, asseguro-vos. E é fabricado com sacos de plástico, câmaras-de-ar de bicicleta e... preservativos. Novinhos em folha. Em África, meus amigos, os brinquedos fazem-se com lixo ou com coisas que não servem para nada. Com canas, desperdícios de madeira, farrapos de tecido, restos de cordel... Os adultos nunca deixariam as crianças fabricar brinquedos com objectos que ainda pudessem ter alguma utilidade...

Que valor é, necessariamente, atribuído ao preservativo? Por adultos e crianças? Lixo. Lixo! Três vezes lixo! Sem apelo nem agravo. E adianta distribuir lixo gratuitamente, Valha-me Nossa Senhora de Souselas? O que podem, então, concluir o Ministério da Saúde de Moçambique, a OMS, as ONG e os decisores políticos?  O pior cego, meus amigos, é aquele que não quer ver...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

[the right to complain!] dior



- No, sir, it's not a calf pain. It's MY CALF! Both, actually. And whoever Mr. Christian may be, I want to have a word with him!

(Peep-toe sandals, humpf... This would never happen in a marriage in Zambezia.)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

[últimas tendências] moda paris-nova-iorque-zambézia


Mozambique is easier!

Longe de haver a oferta estonteante dos centros da moda mundiais - uma trabalheira das antigas para a mulher mediana que aspira a manter-se mais ou menos à tona das novas tendências - em Moçambique a moda resume-se a dois ou três novos padrões de capulana lançados todos os anos de forma transversal em todo o país. Cómodo e simples para quem quer ter sempre o último grito. Uma ideia fantástica para garantir a felicidade das mulheres e a salvaguarda da carteira dos homens, mesmo que não existam cartões de crédito (nem de microcrédito, quanto mais). A vida é simples, meus amigos. E quem não concorda é porque não percebe o que realmente interessa nesta vida...*

O corolário desta moda igualitária é que os padrões das capulanas são também uma maneira cómoda e prática de datar fotos e vídeos... Por exemplo, o vídeo que vos mostrei há dias sobre o "Expresso do Oriente", o improvável comboio entre Nampula e o Niassa, só pode ter sido filmado depois de 2010, altura em que foi lançado o padrão da capulana da senhora que aparece ao minuto 01:24. Muito bonito por sinal... E que bem que ficava à tia da pequena Beatriz...

* Gosto genericamente de argumentos irrefutáveis, são cómodos e transmitem-me segurança... É mais ou menos como os protocolos, mas em simples.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

[the pests of three cities] na sua casa de banho


O que é o pior que pode encontrar na sua casa de banho?

Depois das reacções de várias famílias totalmente horrorizadas sobre a minha simpática companheira de quarto, a Amélia, que zelava pela minha saúde preservando o meu sangue livre de Plasmodia da malária, comecei a pensar que este post se calhar deveria levar bolinha no canto superior direito...

Mas... bem, meus queridos amigos, como diria o Sr. Pompisk: África não é para meninos!

Em Milevane, após um dia lindo, lindo, fui tomar banho e, como sempre, antes de me despir inspeccionei cuidadosamente todas as paredes e o chão da casa de banho - sim, que pior do que um encontro imediato de terceiro grau no duche, só mesmo a triste figura de uma loira encharcada e desnuda a gritar pelo corredor de um convento, sob o olhar quase apocalíptico de padres e freiras... Já quase despida dei de caras com um escorpião que trepava pacatamente pela parede mais recôndita do duche. Mas de onde é que ele teria saído, valesse-me Santa Rita de Cássia. Meu Deus, porque sois tão bom? Tenho muita pena, mas vou cometer um crime... Peguei no chinelo e em menos de um segundo havia mais uma escorpiã viúva no convento... O problema foi que de imediato me assaltou a ideia peregrina de que os escorpiões poderiam ser como as cobras cuspideiras e andar sempre aos pares. Mas depois de uns bons minutos de rabo para o ar à procura do buraco de onde o falecido poderia ter saído e onde poderia estar escondida a sua fiel viúva [quer dizer, quase de certeza fiel, que na viúva de um escorpião nunca se confia, mas assim como assim não teriam passado mais de cinco minutos e, a menos que estivesse outro escorpião no buraco, poderíamos presumir com quase toda a certeza que ela ainda lhe seria fiel...], acabei por me vestir e fui acordar a Irmã Lurdes, que já dormia a sono solto no quarto ao lado do meu:

- Irmã, os escorpiões costumam andar aos pares? - perguntei do lado de fora da porta.
- Não, não necessariamente... - foi a resposta [quase que podia ver a cara de pasmo estremunhado].
- Obrigada e desculpe... Boa noite. Durma bem.
- Sim, dorme bem também. [Uma santa! Não tenho dúvidas de que vai ser santa.]

Já no Gilé, o problema eram os sapos. Eu e a R. quase nos convencemos de que nos tinham lançado um feitiço... Todas as noites, quer na minha casa de banho quer na da R. aparecia invariavelmente um sapo e tínhamos de chamar alguém para o ir enxotar para a rua. Chegámos mesmo a pensar em ir buscar à socapa um curandeiro para quebrar o feitiço dos sapos, já que não estávamos interessadas em nenhum príncipe que nos aparecesse durante o banho - convenhamos que não era um bom princípio para qualquer relação, quanto mais para um casamento... Mas a lembrança do flop absoluto com o curandeiro de Nahavara não nos deixou prosseguir. E também nunca poderíamos explicar à Irmã Lurdes por que raio é que queríamos levar um curandeiro para o nosso quarto. Portanto, lá me rendi à evidência de que os sapos nos haveriam de acompanhar durante a estadia no Gilé e lá mais para o final, apanhei-lhe o jeito e já era eu quem pegava na pá e na vassoura e os fazia saltar à minha frente até à rua. Só não os conduzia até aos charcos porque confiava cegamente na sapiência dos sapos para os encontrar rapidamente [quase que juraria que a palavra sapiência vem de sapo, tal era o engenho com que encontravam o caminho para dentro do meu balde].

Quanto à história da cobra cuspideira e da centopeia, o melhor é nem falar. Em resumo, meus amores, a regra em África é: nunca se dispam sem ter a certeza de que estão sozinhos!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

[mozambique is greener] as pragas de insectos


Como é que eles controlam uma praga de insectos?

em tempos vos contei, mas alguns de vocês só chegaram agora aqui ao mato e ainda não foram chafurdar ali no pântano da coluna da direita, onde estão as histórias antigas, sodades loucas (andam amigas a beijar de boca em boca): no meu quarto em Iapala havia uma osga - a Amélia -, minha discreta companheira de todas as noites, trazida uma tarde pelo cozinheiro, ante o meu olhar de ponto de interrogação... Eu tinha-lhe pedido insecticida porque não tinha rede mosquiteira no quarto.

- Não sei o que é 'setcida, Doutóra - fora a resposta atabalhoada.
- Remédio para os mosquitos - reformulei.
- Ah, não tem problema!
E horas depois regressou com a Amélia!

A verdade é que a minha dama de companhia era melhor que um insecticida e mil vezes melhor que um exterminador (a não ser, obviamente, pelo pequeno pormenor de não ser um homem como o da fotografia mas, géneros e espécies aparte, como controladora de insectos era absolutamente fantástica, com as vantagens adicionais de ser verde, limpa, não necessitar de salário e não ser preciso mandá-la baixar a tampa da sanita. Bem... entre outras coisas.).

domingo, 8 de maio de 2011

[a tale of three cities] estacionamento para loiras


I love New York, I'd live in Paris but...
In Mozambique there is always a place for us!

Eu, beijo-de-mulata, me confesso. Eu sou uma mulher que raramente conseguia estacionar à primeira.

Eu sou uma mulher que continua a achar que em qualquer parque de estacionamento deveriam existir lugares reservados para deficientes e grávidas e outros lugares destinados às loiras. Obviamente que não seriam uns lugares quaisquer. Esses lugares seriam aqueles em que se estaciona directamente de frente e sem manobras. Por uma questão de delicadeza para com este nicho de mercado, que existe, tem poder de compra e capacidade de influenciar a opinião pública. E também por uma questão de segurança para os outros utentes dos parques. Aliás, a minha definição de gentleman é um homem forte que me estende delicadamente a mão para pegar nas chaves do meu carro e me diz, olhos nos olhos, com um sorriso envolvente: "Não se preocupe que eu estaciono o carro por si". O Sr. Lino, segurança no meu hospital, era um gentleman! Que grande perda quando se reformou... Agora sou uma mulher que estaciona mais ou menos, é certo (a necessidade aguça o engenho), mas suspiro pelo país onde todos os lugares são lugares para loiras, sem os apertos alarves de Paris, sem os parking lots de Nova Iorque ou sem as duplas-filas-e-quatro-piscas-e-o-dono-que-só-aparece-se-buzinarmos-com-muita-força de Lisboa! Ah, Moçambique do espaço aberto!

Nota - As imagens no Blogger perdem qualidade. Pode clicar no botão esquerdo do rato para as visualizar com maior nitidez.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

[a tale of three cities] o táxi e o chapa


I love New York, I'd live in Paris but...
Mozambique is eco friendly!

Já em tempos vos falei dele... do chapa. O chapa é o ubíquo e famosíssimo meio de transporte moçambicano, cartão de visita do país e já várias vezes considerado o paradigma do espírito moçambicano (uma vez vi um chapa que se chamava, precisamente Welcome to Mozambique, mas geralmente têm nomes mais improváveis, como Uma mão lava a outra, Siga-me, Inveja mata e outras pérolas do género...). Dentro destas carrinhas de nove lugares cabe um número inconstante de pessoas, dependendo do conceito de lebensraum do dono (no máximo de alguns centímetros quadrados) e das dimensões e natureza da carga (que pode variar de exclusivamente composta por pessoas até ovinos e galináceos vivos em coexistência pacífica com os restantes passageiros, que se encarregam de os manter vivos até à chegada. Bem... quando morrem pelo caminho também nunca vi ninguém preocupar-se muito: "Se morrer come-se!", parece ser o lema...).

Segundo a lei, os chapas podem transportar até 15 pessoas, mas nunca começam a andar com menos de 20, pelo que os atrasos são constantes porque é preciso esperar que cheguem passageiros suficientes. Certa vez, um amigo meu contou-me, quase incrédulo, que tinha sido literalmente "vendido" a outro chapa em plena viagem, porque aquele onde seguia levava apenas 10 pessoas e o dono achou que a viagem não era rentável naquelas condições!

Geralmente para sobreviver a uma viagem de várias horas de chapa são precisos:

a) Um estômago forte (em alternativa, uma rinite crónica ou uma febre dos fenos aguda, que tire mais de 90% do olfacto ou ainda, a alternativa mais improvável, um fetiche muito particular com o cheiro a catinga associado ao cheiro a animais domésticos).

b) Dois cromossomas X*, sem os quais provavelmente ninguém terá a delicadeza de nos deixar viajar na cabine, onde habitualmente o conceito de espaço vital do dono é preterido em favor do conceito do motorista de esta-gaja-tem-de-se-chegar-para-lá-para-eu-conseguir-meter-as-mudanças!

c) Uma grande flexibilidade e resistência física, senão corremos o sério risco de desejar ficar em qualquer sítio próximo de onde Judas perdeu as botas, seja lá onde isso for... De facto, depois de oito horas de solavancos num chapa já ninguém se importa muito com Judas, quanto mais com o misterioso facto de ele ter perdido as botas. Aliás, com este calor, se não as tivesse perdido, provavelmente até já as tinha atirado borda fora!.

d) Um dia de antecedência em relação aos nossos compromissos no local de destino, para qualquer imprevisto ou para poder ficar de molho, caso a nossa resistência física provar não ser tão elevada quanto pensávamos, que isto já se sabe: Áfrrica... não é parra todos...

*Ser mulher 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

[a tale of three markets] os mercados, a especulação e o sr. pompisk


I love New York, I'd live in Paris but...
Mozambique is easier!

No centro do mundo há a bolsa de valores, a especulação e a manipulação financeiras, há a subida e descida do preço das acções e do petróleo de acordo com o nervosismo dos mercados... A lei da oferta e da procura seria uma lei natural e básica se não existissem todos os outros factores estranhos e parasitas que a impedem de funcionar de forma linear. No Gilé há o Sr. Pompisk e a sua barraca "Só Basta Viver". O Sr. Pompisk é o garante da estabilidade da oferta e da ausência de oscilações dos preços. Para ele, mesmo que não nos esteja a ouvir, um grande abraço!

É ele quem compra quase todos os produtos agrícolas da região, garantindo o escoamento dos pequenos produtores e controlando a oferta de bens alimentares de primeira necessidade. Assim, enquanto o Sr. Pompisk tiver stock, todos os outros comerciantes mantêm os preços a um nível acessível. De tal forma é importante a sua actividade para a estabilidade do nível de vida do Gilé, que foi impedido pelo Governador de fechar a loja durante os períodos das suas férias, precisamente para evitar a especulação e subida de preços por parte dos outros comerciantes, situação que poderia, literalmente, precipitar uma catástrofe alimentar!

P.S. - Tenciono continuar a escrever posts sobre o Sr. Pompisk até que alguém se decida, finalmente, a perguntar: "Mas afinal, quem raio é o Sr. Pompisk, podes explicar-nos, beijo-de-mulata? Se faz favor."

segunda-feira, 25 de abril de 2011

[a tale of three cakes] o doce mais intenso

I love New York, I'd live in Paris but...
Mozambique is tastier... and lighter!

Mokotto era uma iguaria que as mamãs das crianças internadas no hospital de Iapala (Nampula) me preparavam de vez em quando. Ou melhor, não a preparavam exclusivamente para mim, mas ofereciam-me para ser eu a primeira a provar, antes delas próprias ou dos filhos. Mas antes de mais tenho de fazer uma ressalva... Não tentem fazer isto em casa. Para além de ser um flop garantido (a não ser que tenham em casa um pilão, dois homens fortes e uns vizinhos de baixo um pouco surdos e bem dispostos - e não, a Bimby não amassa da mesma maneira), o Mokotto é uma iguaria apenas para estômagos experientes!

Eu aceitava porque seria impensável fazer uma desfeita dessas às mamãs e porque tenho a convicção inabalável de que tenho um bucho duro de roer, capaz de digerir os alimentos mais improváveis. Até mesmo os alimentos que quase ultrapassam aquele limiar que separa os alimentos dos não-alimentos... Isso e porque também tenho uma confiança cega em toda e qualquer mãe cujos filhos pareçam felizes e bem cuidados. "Se os filhos delas são saudáveis é porque a comida que elas preparam é boa." Raciocínio básico mas que nunca me falhou. Bem... e em abono da verdade tenho de admitir que há ainda mais uma razão. É que eu sou loira. Não é que seja muito burra, mas sou... vá, distraída. E quando pela primeira vez me lembrei que tinha comido um doce que incluía arroz cru na sua composição já tinham passado dois dias e era tarde demais para me doer a barriga...

Mas ultrapassada a questão digestiva, o Mokotto era absolutamente delicioso. E, curiosamente, pouco calórico! Feito de uma massa informe, preparada no pilão, amassando arroz pilado, leite de coco e açúcar (e outros ingredientes para dar sabor e cheiro, cujo nome não conheço em Português). Aprendi a saboreá-lo com a calma de quem beija... ia-se desfazendo dentro da minha boca, lentamente, com pequenos movimentos e pequenas mordidas, e descobria a cada centímetro um sabor e uma consistência diferentes...

sábado, 23 de abril de 2011

[a tale of two plastic surgeries] zambezia vs new york

I'd love to work in New York but...
Mozambique makes you keen on improvisation!

Duas cirurgias reconstrutivas... A primeira no Hospital de Mount Sinai em Nova Iorque e outra na Zambézia, na tenda da Unicef que já vos mostrei uma vez (antes de me insultares publicamente, R. Maria, a tua imagem está pixelada, não é possível que alguém te reconheça, ok?).

Meus queridos amigos, isto é apenas uma imagem para dizer que sim, é possível! Tudo bem, ter material adequado ajuda, é certo. Ter uma luz regulável e forte e não uma lanterna na mão de uma enfermeira também dá jeito, é outro facto. Mas ultrapassado o patamar do... como direi... não é bem do aceitável mas, pronto... do plausível, podemos afirmar que quem faz as cirurgias são os cirurgiões, não os blocos operatórios... E com um pouco de boa vontade, improvisação e savoir-faire tudo se faz!

Um dia conto-vos esta história improvável de uma cirurgia plástica no Gilé...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

[a tale of four worlds] as crianças são iguais em todo o lado?

[a tale of two cities] momentos de vida

Newborns are beautiful in New York!
But in Mozambique they have precisely the same beauty...

Quando correm bem, os partos e os recém-nascidos são absolutamente iguais em todo o lado. Lindos, indefesos, cheios de fome e de frio, ávidos de alimento e conforto... Quando correm mal prefiro não falar...

Coreografia inventada, rodopio,
Nascer é vertigem, é magia e movimento
Tudo é náusea, fome e frio...
Só tu és deslumbramento.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

[a tale of three cities] o café


I love New York, I'd live in Paris but...
in Mozambique everything is natural!

Para uma verdadeira apreciadora de café, como é o meu caso, ainda hoje é intensa a recordação do aroma do café de Iapala, colhido de madrugada pelo Sr. Trinta e torrado e moído em casa para estar pronto às sete da manhã, antes de começar as primeiras consultas no hospital... Depois de Iapala, o conceito de "fast coffee", começou a ter sentido...

domingo, 17 de abril de 2011

[a tale of three cities] as notícias


I love New York, I'd live in Paris but...
in Zambezia you can also have first-hand news... with Mr. Pompisk!

Fácil. Muito fácil! E, de facto, muito mais divertido. Nas palavras dos próprios habitantes do Gilé: "Se o Sr. Pompisk não sabe de nada é porque não aconteceu!" Para ele, se nos estiver a ouvir, um grande abraço!

[maputo e new york] artigos de papelaria

BORRACHA ERASER

Com uma borracha Eraser o tempo
apagou a ava gardner, a janis joplin,
a hilda hilst, com quem eu subiria
três vezes em todos os elevadores
de Manhatthan, o tempo apagou
as gencianas que havia num poema
de d.h.lawrence e os beijos-de-mulata
naquele canteiro da Malhangalene
que agora se amodorra numa tonelada de brita.
Com uma detestável borracha Eraser,
o tempo apagou o teu nome
de todos os meus cadernos e deslaçou
o meu rosto do teu sistema arterial.

Nunca mais compro esta merda.
 
António Cabrita in Artigos de Papelaria

[a tale of three cities] criaturas lendárias


I love New York, I would live in Paris but...
Mozambique is exotic!

Sobre isto, vale a pena ler a explicação do Vítor, correspondente honoris causa deste mato, residente no Chimoio, mas infelizmente quase longe do paraíso...

Perto de Guruè, na Alta Zambézia, fica o Monte Namúli, que é a segunda montanha mais alta de Moçambique e é, para as pessoas da região, os lómuès, o berço da Humanidade. Dizem que lá se podem ver as pegadas do primeiro homem. Mas não se devia poder. Quer dizer, ningém devia poder vê-las. Parece que as coisas mudaram um bocado desde que eu vivi na Alta Zambézia, e vi guias de viagens recentes que aconselham caminhadas no Monte Namúli, mas antigamente só se podia escalar a montanha até um determinado sítio. Ou antes só se devia. A partir daí, era proibido, porque era terra sagrada. O castigo de quem se aventurasse até à parte de cima do monte era (como é muitas vezes, nesta parte do mundo, o castigo de quem viola alguma regra costumária) a pessoa perder-se e nunca mais encontrar o caminho para casa. O que é original – e delicioso, na minha opinião – na lenda lómuè é a maneira como a pessoa se perde: se o guardião eterno da montanha lá apanhar alguém, começa a falar com essa pessoa tanto e tão depressa que a confunde completamente; e ela, de tão baralhada que fica, nunca mais encontra o caminho de volta.

sábado, 16 de abril de 2011

[a kiss is just a kiss] maputo vs new york


I love New York but...
Mozambique is sweeter to me!

Eu podia dizer que Nova Iorque é uma cidade genuinamente feita à minha medida. Não dorme, fervilha de actividade, tem uma das melhores óperas do mundo e podemos à vontade ter uma crise de "ai que não tenho nada para vestir hoje" em tudo igual àquela que me deu no Gilé em 2008 sem que tenhamos de ir ao mercado a dezenas de quilómetros de casa deprimir-nos a comprar capulanas para enrolar à cintura (lindíssimas, é verdade que são lindíssimas, mas ainda assim, para quem acordou com um "ai que não tenho nada para vestir hoje", deixam o coração desconsolado...).

Mas não é por isso que Nova Iorque foi feita à minha medida. Estas nunca seriam razões suficientes. É preciso algo mais do que uma ópera e dois pares de sapatos para me fazer feliz. É preciso a cidade fazer-me sentir bem comigo própria. A razão é outra. Única e ainda mais comezinha, mas incontornável: Nova Iorque é uma cidade para loiras! Mas loiras mesmo daquelas que não têm um pingo de androgénios no cérebro. Daquelas cujas mães também já não tinham uma gota de androgénios que fosse. Nem as mães das mães delas. Daquelas que nunca-aprendem-o-caminho-para-lado-nenhum-à-terceira-quanto-mais-à-primeira. Daquelas que já mandaram três GPS para o lixo "porque não prestavam para nada" e que "para estarem sempre a dizer recalculando e inverta assim que possível mais valia estarem caladinhos na lixeira municipal onde no máximo só iam poder irritar gaivotas! E mesmo assim só se as apanhassem num dia mau, que as gaivotas são bichos reconhecidamente calmos e orientadinhos no espaço e não são animais para se deixar abater por um recalculando quando estão com pressa para ir apanhar um peixinho para o jantar..."* 

Nova Iorque, meus amigos, está organizada de modo a até uma loira conseguir orientar-se. As ruas começam no número um e vão por aí acima por ordem, muito certinhas e ordeiras até às muitas dezenas e as avenidas cortam-nas em ângulo recto igualmente por ordem (à excepção de uma ou outra, mas vá, não há cidades perfeitas!)... Em suma, não há maneira de uma pessoa, por menos melanina que tenha no cabelo, se perder!

No fundo eu até podia dizer que Nova Iorque é a minha cidade. Mas não digo. É verdade que sou bairrista e parcial. É verdade que as minhas coisas são sempre as melhores porque são minhas e eu gosto delas incondicionalmente. Perdoem-me. Isto se calhar são circularidades de uma rapariga loira... Mas a verdade é que Moçambique é muito melhor do que isto tudo. E ainda por cima Moçambique mima-me a cada esquina... Obrigada ao Pedro! A kiss from not so far.

* Estou a brincar, não foram três GPS, foram só dois...

[o fim do mundo em bicicleta] nampula vs new york


I love the glamour of New York but...
Ok, I really love New York.

Não resisto à beleza de certos momentos... Mas em Moçambique a bicicleta, longe de ser um objecto de glamour e devaneios, serve para transportar tudo. E quando digo tudo quero mesmo dizer tudo! Desde um familiar doente até famílias inteiras, desde grandes fardos de lenha e carvão para ir vender à feira até mobília e animais de grande porte. Por vezes vivos. Sim, leram bem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

[brinquedos] zambézia vs new york


I love New York but...
Mozambican children are more skillful!

[passear com os filhos] nampula vs new york


I love New York but...
in Mozambique babies are happier!