Há alguns dias reencontrei uma pessoa que conheci fugazmente no aeroporto de Mavalane, em Maputo, no verão passado. Há exactamente um ano, curiosamente. Conheci-o porque ele tinha tido um contratempo com um voo para a Tanzânia. Uma daquelas improbabilidades que só acontecem em Moçambique... E por favor não me digam que é exagero. Isto é apenas um blog, não é jornalismo de investigação e eu gosto de falar do meu país do coração como absolutamente único em tudo... Don't ask, meus amigos, and don't judge, respeitem quem sofre profundamente todos os dias por não estar lá!
Eu própria também já tive contratempos com voos em Maputo, como sabem - ou se não sabem basta darem-se ao trabalho de ir ler um post ligeiramente mais abaixo -, mas claro, se isto me aconteceu é apenas porque sou loira e há coisas que dou como garantidas... nada que se compare com este episódio...
Ele tinha conseguido o voo perfeito. Podia trabalhar no dia da partida, descolava de Maputo às 21:00 e assim podia apanhar em Dar es Salaam o voo das 02:00 para Nairobi, dormia na viagem e, no dia seguinte, fresco e retemperado por quatro horas de sono, estaria pronto para trabalhar novamente no Quénia.
Estava tudo programado. Ele era um homem experiente neste mundo a sul do equador. E um homem experiente nestas lides de voos e ligações meridionais sabe que deve chegar ao aeroporto com duas horas de antecedência para dar margem aos imprevistos. Sabe que não deve ficar em filas sem saber o que se passa do outro lado do balcão. Sabe que se transportar objectos de valor ou artísticos se deve fazer acompanhar por uma autorização de exportação (em alternativa poderá levar um acompanhante alto e entroncado, de preferência com a barba por fazer e olhar um pouco vago, assim a raiar o psicótico... mas um homem independente e recto prefere papéis em ordem!). Conhece os seus direitos e os locais onde pode reclamar caso alguma coisa corra mal. Sabe que se lhe negarem lugar no voo pode sempre usar a sua voz mais grossa e afirmar "O problema é seu, não é meu, o senhor é que tem de resolver a situação! Ou precisa que lhe explique com quem é que está a falar?" Sim, porque um homem informado não aceita um não como resposta! Mas sabe ainda que, em qualquer circunstância, tem de deixar assegurada uma reserva eventual para mais uma noite para o caso de tudo isto falhar. Um homem experiente sabe que, abaixo do equador, nada é absolutamente garantido e que à última da hora o destino lhe pode sempre pregar uma rasteira.
O que ele não sabia, meus amigos, é que podia chegar ao aeroporto e dar de caras com um edifício-fantasma. Luzes apagadas, silêncio absoluto, um deserto autêntico, à excepção de um guarda dormitando encostado a uma porta. Sem qualquer movimento. Sem sinal de que poderia a qualquer momento chegar ou descolar um avião. Sem um aviso em qualquer parede. Pois é, meus amigos, um homem experiente deu de caras com um aeroporto internacional fechado. Tinha comprado um bilhete nas Linhas Aéreas de Moçambique para um voo que já não existia. Tinha sido anulado pura e simplesmente. De forma unilateral.
E foi assim que um homem experiente voltou nessa noite para trás. Porque sabia mexer-se como ninguém naquele mundo, mas esse mundo nessa noite estava encerrado.
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sábado, 6 de agosto de 2011
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
[silly season in mozambique] mavalane
(Aeroporto de Mavalane, Maputo)
Já uma vez vos contei esta história. Hoje volto a ela porque é o aniversário da véspera desse dia... Ou melhor - há que admiti-lo! - hoje volto a ela porque sim....
Cheguei pela primeira vez a Nampula no dia 5 de Agosto, dia de Nossa Senhora de África, em vez do dia 4 de Agosto, como tinha planeado. Mais de 24 horas de atraso porque em Maputo não consegui apanhar o avião à primeira. Não sei se me compreendem. Eu sou loira, começa tudo por aí...
Não era a minha primeira vez em África, mas das vezes anteriores tinha sempre tido acompanhantes, motoristas, amigos para me ajudar e não tinha entrado completamente na dinâmica do país... Confiava nas coisas que sempre dei como garantidas e nunca na minha vida tinha colocado em causa. Por exemplo, pensem comigo: se estiverem várias pessoas numa fila para um balcão, podemos acreditar que essas pessoas querem ser atendidas, certo? Concretizando, se essa fila for a fila do check-in cujo balcão ostenta o número do nosso voo, por exemplo - isto é só um "supônhamos" - e estiverem várias pessoas com malas nessa mesma fila, poderemos assumir que essas pessoas estão para embarcar connosco. Ou não? Não sei quanto a vocês, mas foi isso que eu assumi. Coloquei-me na fila e aguardei pela minha vez. Erro crasso!
Os estimados leitores com alguma experiência de aeroportos em África talvez estejam agora a sorrir - está-se mesmo a ver porque é que ela perdeu o avião! Pois é... Só algum tempo depois de estar naquela fila é que me apercebi que:
a) o empregado do balcão que estava a falar com a primeira pessoa da fila não a estava a atender (estavam apenas a conversar);
b) a fila em que eu estava não avançava e não iria avançar de todo porque as pessoas à minha frente não tinham bilhete (elas estavam na fila há vários dias!)*;
c) já todos os passageiros do meu voo tinham feito o check-in várias horas antes, não fosse acontecer-lhes o que me veio a acontecer a mim;
d) os empregados do balcão tinham decidido, à hora em que o voo estava quase completo (duas horas antes do embarque), que eu já não viria e tinham vendido o meu bilhete a outra pessoa (possivelmente ao primeiro da mesma fila onde eu então me encontrava);
e) o meu voo já estava completo, fechado e pronto para partir com meia hora de antecedência.
Não entrei em pânico. Nem me preocupei. No fundo eu já ia avisada: que esperasse de tudo, que não esperasse bons serviços, que não esperasse mesmo quaisquer serviços, que não me surpreendesse com nada. Que em África tudo acontece, mas geralmente tudo se resolve também.
Quando fui reclamar ao balcão do check-in, os senhores olharam-me com indiferença e nem se dignaram a responder-me. Fui a um balcão da companhia: que não era nada com eles. Tinham-me chamado e eu não estava, portanto tinham vendido o meu bilhete. (!)
Seria então altura para entrar em pânico? Não, isso seria mais um erro crasso. Irritei-me! Fui reclamar, desta vez em voz mais alta e mais grossa, a um terceiro balcão e lembro-me de ver a senhora empalidecer quando utilizei a palavra "overbooking".
- Venha outra vez amanhã, disse simplemente.
- Ok.
No dia seguinte passei à frente de tudo e de todos, dirigi-me directamente ao balcão do check-in e a senhora com quem eu tinha falado no dia anterior lá descobriu um lugar vago em classe executiva no voo Maputo-Pemba dessa tarde, com escala no meu destino... Quanto a mim, foi a primeira e última vez que me coloquei numa fila sem saber com toda a certeza o que se passava do outro lado do balcão!
*E perguntam vocês: Mas se não tinham bilhete, o que estavam as pessoas e as malas a fazer naquela fila de embarque? Pois... Isso já tem a ver com a cultura de um povo. Por acaso até tenho uma teoria. A minha teoria é que na verdade eles provavelmente não estavam ali a fazer nada. Nem seria ali que iriam arranjar bilhete, mas no balcão da companhia. Eles estavam ali apenas... à espera. Foram esperar para ali porque seria dali que iriam partir. É isto.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
[subitamente, em xipamanine] try walking in my shoes
Se um dia fosses às compras a Xipamanine e te oferecessem laranjas cor-de-rosa, reconhecê-las-ias? E será que lhes conseguirias chamar laranjas? E saberiam a laranja? Obviamente que uma laranja cor-de-rosa não pode cheirar a laranja... Nem uma laranja roxa. Ou será que pode?
(Mercado de Xipamanine, Maputo)
Serve esta imagem para vos contar o que me aconteceu na semana passada. Era fim de tarde, depois de muitas consultas e estava finalmente num momento de boa disposição com uns amigos no ensaio do coro para o casamento de uma amiga minha. Entre duas músicas, no meio de muita conversa e galhofa, distraí-me e comecei a tocar o Jesu bleibet meine Freude, uma das poucas músicas que sei de cor, sem precisar de olhar para a partitura... É quase um automatismo quando estou com a guitarra sem nada para tocar.
Ao meu lado, um amigo meu, um músico fantástico, olhou para mim e sorriu. Quando terminei, perguntou-me: "Que música é essa? Estavas a improvisar?" Ri-me às gargalhadas. Não porque tivesse graça, mas porque ele tinha conseguido manter de tal forma a entoação, que parecia mesmo não ter reconhecido a música. Era como se eu tivesse comentado Deus quer, o homem sonha, a obra nasce com um estudante de literatura brilhante e ele me tivesse perguntado a sorrir: "Ai que frase tão bonita, é sua?" O cómico vem apenas do eu-sei-que-tu-sabes-que-eu-sei.
Mas, no mesmo momento, o olhar dele não se cruzou com o meu: ele tinha ficado confuso. Eu também fiquei confusa. Como era? Um fervoroso admirador de Bach, a quem eu já tinha ouvido tocar várias cantatas inteiras de memória, agora não reconhecia esta? Sorri:
- Estás a ter uma branca... É o Jesu bleibet meine Freude.
Ele ficou ainda mais confuso. Quase me parecia agitado...
- Não, isso não é o Jesu bleibet! De maneira nenhuma!
Pareceu-me que de repente tinha ficado com o olhar vago, pálido, como se o tivessem ferido...
- Miguel, o que é que se passa contigo?!
E foi só naquele instante que ambos percebemos ao mesmo tempo o que se tinha passado. Que momento de imbecilidade, Santo Deus! O Miguel tem ouvido absoluto e eu tinha tido preguiça de tirar o transpositor da guitarra e portanto tinha tocado a música meio-tom acima. Foi o suficiente para ele não a reconhecer... É incrivel como o nosso cérebro às vezes nos prega partidas destas com coisas tão básicas!
Adenda: Ao contrário do post sobre a televisão, este contém uma moral. E tem um motivo. [Eu sou como a Duquesa do País das Maravilhas: "Tut, tut, child! Everything's got a moral, if only you can find it..."] Se isto acontece com coisas básicas como cores e meios-tons de uma escala, que dizer de emoções e sentimentos e seus significados para cada um? Às vezes para compreender alguém e nos colocarmos na pele do outro, temos de sair de todo um referencial de ideias e valores e não aceitar a imagem em espelho que à primeira vista nos pode parecer que vemos... Pronto era só isto. Isto e laranjas cor-de-rosa. E roxas. Voltamos para o mato já a seguir.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
[welcome to mozambique] o mercado das calamidades
Vendendo e comprando a roupa usada, doada por países mais a norte do equador... São estes os mercados das "calamidades". Suspeito, aliás, que em Moçambique, para a maioria das pessoas, a palavra "calamidade" é sinónimo não de catástrofe mas de roupa barata usada, vinda da Europa.
(Maputo, Moçambique)
[outras palavras] a loira do jeep parado no semáforo
Crianças...
(Maputo, Moçambique)
Um post de Eduardo Castro, do ElefanteNews (o link está ali na coluna da direita, sob a vénia de olavula sana), tão real e tão verdadeiro que não resisto a partilhá-lo.
Parado no sinal fechado, voltando do almoço, vi a loirinha abrir a janela do Jeepão 4×4 e fazer um gesto pra menino que estava ali, no cruzamento das avenidas Mao Tse Tung (ele mesmo) e Julius Nyerere (ex-presidente da Tanzânia), zona nobre de Maputo. O garoto veio, correndo entre os carros. A moça deu a ele dois saquinhos – um azul e outro rosa. Eram de algodão doce. Os olhos do menino ficaram bem arregalados, e muitos foram os sorrisos e agradecimentos.Ler o resto do post aqui.
Abriu o sinal, o trânsito andou, o Jeepão foi embora, e eu, sem vaga pra parar o carro, acabei por ter que dar outra volta no quarteirão, parando quase no mesmo sinal fechado, uns dois minutos depois da cena inicial. Tempo suficiente para ver o mesmo menino, os mesmos saquinhos. Só que agora, ele já estava tentando vendê-los.
Decepcionado com tanta “ganância”? Não fique. Sorriso e algodão doce podem até preencher o coração do menino de amor, mas não mata a fome dele. O que mata a fome dele é xima: água e farinha de milho, base da alimentação de milhões e milhões de africanos.
“Quebra um pouco o encanto”, mas pobreza não tem encanto. Olhos azuis cercados por cabelos amarelos, quando encontram olhos pretinhos num rosto tristonho, costumam brilhar de compaixão e piscar intensamente, cheios de doçura – mas não enchem barriga.
Pra alguns também “quebra o encanto” saber que aquele agasalho velho que foi doado para “os pobres da África” não é entregue a um “pobre da África”. É destinado a instituições (em alguns países é mesmo o governo que faz isso) que – segure seu queixo, loirinha – vendem essas roupas, aos fardos, para revendedores locais.
Há verdadeiros mercados só com as roupas doadas. Aqui em Moçambique chamam a isso de “Calamidades”. “Comprei nas Calamidades”, é a frase. Camisas, calças, cintos, vestidos, agasalhos, sapatos, cobertores, tecidos, chapéus, toalhas, sacos de dormir, barracas de lona, fogareiros. Tem de tudo nas Calamidades.
Sim, loirinha: eles vendem aquele vestidinho que você doou “com tanto carinho”. E isso é ótimo. Gera emprego e renda pro vendedor, distribuidor, revendedor, costureira que conserta o que não vem bom, motorista do caminhão. Alguém usa a roupa, mas alguém também ganha dinheiro – e compra farinha pra fazer xima.
“Mas estão lucrando em cima de mim! Da doação que fiz com tanto carinho!” Bom, chegamos ao ponto da indignação, então: é que eles ganham, e não você – que doou “com tanto carinho”.
domingo, 10 de julho de 2011
[outras palavras] ndihamba nawe
O meu amigo Francisco Campos, sj já deixou Moçambique... Este foi o seu presente para nós e para todos os curiosos, saudosos ou apaixonados por África, um conjunto de olhares seus... Nas suas palavras:
Deixo aqui uma série de fotografias que fui tirando neste tempo. A música que as acompanha, apesar de sul africana, ouviu-se muito nestes dois anos em Moçambique. Ndihamba Nawe quer dizer literalmente “Eu vou contigo”, mas na cultura Zulu também tem um significado de uma escolha que se faz por alguém. Por mim sinto-me escolhido e acompanhado por tantas caras e paisagens que aqui aparecem e por tantas outras que ficaram gravadas na minha memória e no meu coração.
Obrigada, Francisco!
domingo, 17 de abril de 2011
[maputo e new york] artigos de papelaria
BORRACHA ERASER
Com uma borracha Eraser o tempo
apagou a ava gardner, a janis joplin,
a hilda hilst, com quem eu subiria
três vezes em todos os elevadores
de Manhatthan, o tempo apagou
as gencianas que havia num poema
de d.h.lawrence e os beijos-de-mulata
naquele canteiro da Malhangalene
que agora se amodorra numa tonelada de brita.
Com uma detestável borracha Eraser,
o tempo apagou o teu nome
de todos os meus cadernos e deslaçou
o meu rosto do teu sistema arterial.
Nunca mais compro esta merda.
António Cabrita in Artigos de Papelaria
Com uma borracha Eraser o tempo
apagou a ava gardner, a janis joplin,
a hilda hilst, com quem eu subiria
três vezes em todos os elevadores
de Manhatthan, o tempo apagou
as gencianas que havia num poema
de d.h.lawrence e os beijos-de-mulata
naquele canteiro da Malhangalene
que agora se amodorra numa tonelada de brita.
Com uma detestável borracha Eraser,
o tempo apagou o teu nome
de todos os meus cadernos e deslaçou
o meu rosto do teu sistema arterial.
Nunca mais compro esta merda.
António Cabrita in Artigos de Papelaria
sábado, 16 de abril de 2011
[a kiss is just a kiss] maputo vs new york
I love New York but...
Mozambique is sweeter to me!
Eu podia dizer que Nova Iorque é uma cidade genuinamente feita à minha medida. Não dorme, fervilha de actividade, tem uma das melhores óperas do mundo e podemos à vontade ter uma crise de "ai que não tenho nada para vestir hoje" em tudo igual àquela que me deu no Gilé em 2008 sem que tenhamos de ir ao mercado a dezenas de quilómetros de casa deprimir-nos a comprar capulanas para enrolar à cintura (lindíssimas, é verdade que são lindíssimas, mas ainda assim, para quem acordou com um "ai que não tenho nada para vestir hoje", deixam o coração desconsolado...).
Mas não é por isso que Nova Iorque foi feita à minha medida. Estas nunca seriam razões suficientes. É preciso algo mais do que uma ópera e dois pares de sapatos para me fazer feliz. É preciso a cidade fazer-me sentir bem comigo própria. A razão é outra. Única e ainda mais comezinha, mas incontornável: Nova Iorque é uma cidade para loiras! Mas loiras mesmo daquelas que não têm um pingo de androgénios no cérebro. Daquelas cujas mães também já não tinham uma gota de androgénios que fosse. Nem as mães das mães delas. Daquelas que nunca-aprendem-o-caminho-para-lado-nenhum-à-terceira-quanto-mais-à-primeira. Daquelas que já mandaram três GPS para o lixo "porque não prestavam para nada" e que "para estarem sempre a dizer recalculando e inverta assim que possível mais valia estarem caladinhos na lixeira municipal onde no máximo só iam poder irritar gaivotas! E mesmo assim só se as apanhassem num dia mau, que as gaivotas são bichos reconhecidamente calmos e orientadinhos no espaço e não são animais para se deixar abater por um recalculando quando estão com pressa para ir apanhar um peixinho para o jantar..."*
Nova Iorque, meus amigos, está organizada de modo a até uma loira conseguir orientar-se. As ruas começam no número um e vão por aí acima por ordem, muito certinhas e ordeiras até às muitas dezenas e as avenidas cortam-nas em ângulo recto igualmente por ordem (à excepção de uma ou outra, mas vá, não há cidades perfeitas!)... Em suma, não há maneira de uma pessoa, por menos melanina que tenha no cabelo, se perder!
No fundo eu até podia dizer que Nova Iorque é a minha cidade. Mas não digo. É verdade que sou bairrista e parcial. É verdade que as minhas coisas são sempre as melhores porque são minhas e eu gosto delas incondicionalmente. Perdoem-me. Isto se calhar são circularidades de uma rapariga loira... Mas a verdade é que Moçambique é muito melhor do que isto tudo. E ainda por cima Moçambique mima-me a cada esquina... Obrigada ao Pedro! A kiss from not so far.
* Estou a brincar, não foram três GPS, foram só dois...
domingo, 27 de março de 2011
quarta-feira, 9 de março de 2011
[conta-me como foi que aconteceu] história de um amor difícil
Batik africano.
(continuando...)E, entre mimos e rezas da mãe e das Irmãs, lá tinha voltado a levantar a cabeça e a olhar novamente o céu de frente.
Fora então que “aquele senhor” entrara na sua vida. Antes da Independência tinham-se conhecido vagamente em jantares de amigos comuns, mas depois da revolução foram poucos os amigos que tinham ficado e, inevitavelmente, acabaram por se aproximar. Ele era divorciado, pai de dois filhos que a ex-mulher levara para Portugal após a Independência, livre e absolutamente apaixonado por ela. Era um homem pragmático, com uma visão pombalina da vida em geral e do amor em particular. Tinha reconstruído a vida várias vezes e, de cada vez que saía dos escombros de uma vida anterior, apressava-se a enterrar as memórias dos mortos e desaparecidos e a procurar um novo futuro, cuidando de tudo o que ficara inteiro. Ela nem do próprio estado civil tinha a certeza, quanto mais dos sentimentos contraditórios que a assolavam permanentemente deixando-lhe a cabeça e o coração revoltos.
Quando ele dizia que o que era preciso era enterrar os mortos e cuidar dos vivos e que tinha pena que o Marquês de Pombal não estivesse vivo e em Maputo, porque ele sim, haveria de lhe explicar o que fazer, ela respondia que se o Marquês de Pombal estivesse vivo haveria engarrafamentos de meia-noite nas avenidas novas de Lisboa. E não saíam disto…
Não conseguia admitir-se viúva e a última coisa que queria imaginar era que o marido, horrorizado, a encontrasse com outro homem em casa se algum dia regressasse. Por um lado agradecia a presença de um homem íntegro, bem-disposto, europeu e culto ao seu lado, mas por outro, a sua permanência lembrava-a a cada instante da ausência do marido. Durante mais anos do que seria razoável ela proibiu-o de dormir em sua casa, por mais que ele lhe prometesse que se o marido voltasse ele se iria embora. Só a guerra lá fora e o recolher obrigatório estiveram do seu lado nessa batalha, e acabou por vencê-la, numa noite de aceso tiroteio vindo não sei de que bairro dos arredores, em que amanheceram juntos rezando para que a cidade não fosse arrasada. Ele aturou mais birras e maus-fígados do que provavelmente qualquer homem aturaria, incondicional no seu apoio ao desgosto e a todas as perdas, que a cada dia sem sinais de vida do marido se renovavam.
No coração dela ficou sempre um pouco de raiva irracional (aquela que parece que define o sexo feminino) por ele ter representado a confirmação de que o marido estava morto. E da parte dele, claro, nunca se leva pontapé atrás de pontapé, por mais compreensíveis que sejam as razões, sem se ficar um bocadinho magoado. Por isso, à medida que ele ia conquistando terreno e ela ia cedendo àquele amor impossível, à medida que o amor de impossível passava a apenas improvável, à medida que para além de improvável se tornava evidentemente inevitável, ele ia ficando um pouco mais exigente, ela um pouco menos tolerante, ele mais revoltado por ser sempre tratado como um pervertido apatetado, ou como o mau da fita, ela porque em primeiro lugar nunca lhe tinha pedido para ir viver lá para casa, não sabia de que é que ele se queixava. Ele porque queria que ela o amasse da mesma forma louca que ele, ela porque não queria admitir nem para si própria que o amava como ao primeiro marido. Ele porque se queria casar com ela, ela porque nunca se casaria com ele, nem que o marido fosse encontrado morto…
O resultado era um casal em guerra permanente. Uma guerra com patine, que já tinha feito bodas de prata, ora latente e velada, ora uma autêntica batalha campal, em que ele não perdia uma oportunidade de a esmagar com a sua superioridade intelectual, de raça e de género e ela lhe respondia, invariavelmente, com um amuo seguido de uma acusação fortíssima.
Acabaram por nunca ter filhos. Acabaram por nunca oficializar a relação. Viviam em pecado. Um pecado quase palpável, quase visível, de tal maneira estava instalado naquela casa. Não penso que mais alguém, para além deles, acreditasse que existia algum pecado em viverem juntos e quererem reconstruir a sua vida. Mas era esse sentimento infinito de culpa, de interdito, de desejo que não tinham conseguido conter, de cheiro a corpos impossível de disfarçar – sob o pretexto de que os perfumes lhes provocavam dores de cabeça –, era esse sabor a delito depois das primeiras horas da noite que transbordava naquele apartamento enorme no bairro da Polana, cheio de recordações de vidas anteriores e uma vista arrebatadora sobre a baía de Maputo.
terça-feira, 8 de março de 2011
[conta-me como foi que aconteceu] dias terríveis...
(continuando...)
Só quase vinte anos depois é que tinha conseguido saber de fonte segura que tinha ficado viúva poucos meses depois de lhe terem levado o marido…
Um mês depois da fatídica madrugada em que dez homens cobardes armados até aos dentes lhe tinham arrombado a casa e, em poucos minutos, destruído metade da sua vida, descobrira que estava à espera de um segundo filho. No mesmo dia tinha ido à consulta com o obstetra de onde regressara com uma esperança renovada e com o pressentimento feliz de que aquela gravidez era um sinal de que o marido poderia estar vivo e que ainda haveriam de voltar a ser uma família unida e tranquila. Pela primeira vez em semanas saía-lhe do pensamento a imagem terrível e intrusiva do marido a ser violentamente torturado. Mas a alegria durou um momento. Quando regressou a casa, encontrou a sua mãe a chorar agarrada à neta, que convulsivava ininterruptamente há mais de uma hora com malária cerebral. O mundo caía-lhe aos pés pela segunda vez em tão pouco tempo...
Ainda teve forças para pegar na menina e levá-la para o Hospital Central, desafiando os perigos da rua e o recolher obrigatório mas, apesar dos tratamentos e de todas as tentativas para a reanimar, a sua princesa nunca mais recuperou a consciência e faleceu menos de 24 horas depois. Talvez pelo esforço físico, pelo desgosto, pela desistência ou, simplesmente, porque já estava escrito no seu destino, acabou por perder a gravidez, ficando absolutamente à deriva numa depressão profunda. Revoltada por uma revolução com cujos princípios concordava, mas que tinha sido cega e profundamente injusta para com ela e para com as pessoas que antes viviam honestamente, fazendo o país funcionar, sem prejudicar ninguém. Perdida por a justiça não estar do seu lado, por não poder apresentar queixa por lhe terem raptado e possivelmente morto o marido, sob pena de ser presa também e colocar em risco a família de ambos. Revoltada por não ter como recuperar a sua vida, por a maioria dos amigos ter saído do país aproveitando qualquer pretexto para obter a nacionalidade Portuguesa e assim levar os filhos para longe da guerra civil que já despontava. Por o mundo ter deixado de fazer sentido nas regras e valores em que acreditava. De tal maneira ficara perdida, dizia ela, que na altura nem morrer lhe passava pela cabeça.
Refugiou-se durante meses no convento das Irmãs da Consolata, com quem anteriormente colaborava como voluntária na assistência aos mais pobres e às crianças órfãs da guerra colonial e as Irmãs tinham sido incansáveis na tentativa de restituir-lhe um sentido para a vida. E, entre mimos e rezas da mãe e das Irmãs, lá tinha voltado a levantar a cabeça e a olhar novamente o céu de frente.
(continua)
Só quase vinte anos depois é que tinha conseguido saber de fonte segura que tinha ficado viúva poucos meses depois de lhe terem levado o marido…
Um mês depois da fatídica madrugada em que dez homens cobardes armados até aos dentes lhe tinham arrombado a casa e, em poucos minutos, destruído metade da sua vida, descobrira que estava à espera de um segundo filho. No mesmo dia tinha ido à consulta com o obstetra de onde regressara com uma esperança renovada e com o pressentimento feliz de que aquela gravidez era um sinal de que o marido poderia estar vivo e que ainda haveriam de voltar a ser uma família unida e tranquila. Pela primeira vez em semanas saía-lhe do pensamento a imagem terrível e intrusiva do marido a ser violentamente torturado. Mas a alegria durou um momento. Quando regressou a casa, encontrou a sua mãe a chorar agarrada à neta, que convulsivava ininterruptamente há mais de uma hora com malária cerebral. O mundo caía-lhe aos pés pela segunda vez em tão pouco tempo...
Ainda teve forças para pegar na menina e levá-la para o Hospital Central, desafiando os perigos da rua e o recolher obrigatório mas, apesar dos tratamentos e de todas as tentativas para a reanimar, a sua princesa nunca mais recuperou a consciência e faleceu menos de 24 horas depois. Talvez pelo esforço físico, pelo desgosto, pela desistência ou, simplesmente, porque já estava escrito no seu destino, acabou por perder a gravidez, ficando absolutamente à deriva numa depressão profunda. Revoltada por uma revolução com cujos princípios concordava, mas que tinha sido cega e profundamente injusta para com ela e para com as pessoas que antes viviam honestamente, fazendo o país funcionar, sem prejudicar ninguém. Perdida por a justiça não estar do seu lado, por não poder apresentar queixa por lhe terem raptado e possivelmente morto o marido, sob pena de ser presa também e colocar em risco a família de ambos. Revoltada por não ter como recuperar a sua vida, por a maioria dos amigos ter saído do país aproveitando qualquer pretexto para obter a nacionalidade Portuguesa e assim levar os filhos para longe da guerra civil que já despontava. Por o mundo ter deixado de fazer sentido nas regras e valores em que acreditava. De tal maneira ficara perdida, dizia ela, que na altura nem morrer lhe passava pela cabeça.
Refugiou-se durante meses no convento das Irmãs da Consolata, com quem anteriormente colaborava como voluntária na assistência aos mais pobres e às crianças órfãs da guerra colonial e as Irmãs tinham sido incansáveis na tentativa de restituir-lhe um sentido para a vida. E, entre mimos e rezas da mãe e das Irmãs, lá tinha voltado a levantar a cabeça e a olhar novamente o céu de frente.
(continua)
domingo, 6 de março de 2011
[conta-me como foi que aconteceu] os dias "atrapalhados"
(continuando)
Aquelas duas aves raras eram… os meus anfitriões! O casal mais disfuncional que alguma vez conheci...
Ela moçambicana, mulata, muito bonita, bem arranjada e sempre maldisposta, com cara de poucos amigos. Ele português, mas já auto-proclamado moçambicano, branco, afável mas com um humor sádico e brejeiro, com a pele tisnada do sol, pouco arranjado e uns óculos enormes de aros de tartaruga que já tinham saído de moda antes de ele os comprar nos anos 70… E enquanto ele ia buscar "a carroça", ela olhava para o tamanho da minha mala com um ar reprovador e ia dizendo, com voz irritada, que estava com uma dor de costas horrível porque o burro “daquele senhor” [sic, referindo-se ao marido] a tinha feito sair de casa para irem para o aeroporto com quatro horas de antecedência!
- Que aborrecido… mas não havia maneira de ter confirmado a hora do voo?
- Desconseguimos… Tentámos telefonar para a TAP, mas ninguém atendeu… E ele tinha tanta certeza de que vínhamos atrasados que quase acidentámos no caminho...
E continuava, resmungava, rabujava, desabafava como uma adolescente com birra. Que estava muito zangada e com uma dor de cabeça excruciante por causa daquela gente toda a barulhar por ali... [As conjugações verbais moçambicanas começavam a entrar-me pelos ouvidos adentro, numa cacofonia divertida.] E que não podia ter dores de cabeça por causa dos nervos, porque tinha os nervos muito sensíveis desde que o marido morrera.
E como se eu olhasse para ela com um ar levemente confuso apressou-se a acrescentar:
- Sim, tenho sofrido muito... "Aquele senhor" não é o meu marido.
E ali mesmo, nem dois minutos depois de nos termos visto pela primeira vez, fiquei a saber o essencial da sua história trágica. Que se tinha casado pela primeira vez aos vinte e um anos com um homem também moçambicano, mulato, inteligente e romântico, com um coração profundamente generoso que a fizera muito feliz nos anos que precederam a Independência. Na altura eram ambos funcionários públicos e tinham uma filha saudável e lindíssima.
Mas, no período “atrapalhado” que se seguiu à revolução da Independência, o marido tinha sido preso e levado para um campo de extermínio, acusado de ser contra-revolucionário por ter estado do lado dos colonos, quando o seu único crime era ter pertencido à classe média moçambicana e ter sido funcionário público do governo Português. Juntamente com centenas de outros homens tinha sido torturado e nunca mais fora encontrado. Nem morto nem com vida. Só quase vinte anos depois é que ela tinha conseguido saber de fonte segura que tinha ficado viúva poucos meses depois de lhe terem levado o marido…
(continua...)
Aquelas duas aves raras eram… os meus anfitriões! O casal mais disfuncional que alguma vez conheci...
Ela moçambicana, mulata, muito bonita, bem arranjada e sempre maldisposta, com cara de poucos amigos. Ele português, mas já auto-proclamado moçambicano, branco, afável mas com um humor sádico e brejeiro, com a pele tisnada do sol, pouco arranjado e uns óculos enormes de aros de tartaruga que já tinham saído de moda antes de ele os comprar nos anos 70… E enquanto ele ia buscar "a carroça", ela olhava para o tamanho da minha mala com um ar reprovador e ia dizendo, com voz irritada, que estava com uma dor de costas horrível porque o burro “daquele senhor” [sic, referindo-se ao marido] a tinha feito sair de casa para irem para o aeroporto com quatro horas de antecedência!
- Que aborrecido… mas não havia maneira de ter confirmado a hora do voo?
- Desconseguimos… Tentámos telefonar para a TAP, mas ninguém atendeu… E ele tinha tanta certeza de que vínhamos atrasados que quase acidentámos no caminho...
E continuava, resmungava, rabujava, desabafava como uma adolescente com birra. Que estava muito zangada e com uma dor de cabeça excruciante por causa daquela gente toda a barulhar por ali... [As conjugações verbais moçambicanas começavam a entrar-me pelos ouvidos adentro, numa cacofonia divertida.] E que não podia ter dores de cabeça por causa dos nervos, porque tinha os nervos muito sensíveis desde que o marido morrera.
E como se eu olhasse para ela com um ar levemente confuso apressou-se a acrescentar:
- Sim, tenho sofrido muito... "Aquele senhor" não é o meu marido.
E ali mesmo, nem dois minutos depois de nos termos visto pela primeira vez, fiquei a saber o essencial da sua história trágica. Que se tinha casado pela primeira vez aos vinte e um anos com um homem também moçambicano, mulato, inteligente e romântico, com um coração profundamente generoso que a fizera muito feliz nos anos que precederam a Independência. Na altura eram ambos funcionários públicos e tinham uma filha saudável e lindíssima.
Mas, no período “atrapalhado” que se seguiu à revolução da Independência, o marido tinha sido preso e levado para um campo de extermínio, acusado de ser contra-revolucionário por ter estado do lado dos colonos, quando o seu único crime era ter pertencido à classe média moçambicana e ter sido funcionário público do governo Português. Juntamente com centenas de outros homens tinha sido torturado e nunca mais fora encontrado. Nem morto nem com vida. Só quase vinte anos depois é que ela tinha conseguido saber de fonte segura que tinha ficado viúva poucos meses depois de lhe terem levado o marido…
(continua...)
terça-feira, 1 de março de 2011
[conta-me como foi que aconteceu] valha-me nossa senhora das alfândegas...
(continuando)
Aproximei-me do tapete da alfândega. Respirei fundo uma última vez: “Calma!”, repeti para mim própria. “Close your eyes and think of Africa!”
Abri a minha mala à senhora da alfândega e, resignadamente, deixei que ela ma escrutinasse de uma ponta à outra, desligando-me completamente para observar, expectante, o que se passava do lado de lá das chegadas.
Um caos indescritível quase na penumbra, com dois ou três motoristas fardados exibindo bem à vista papéis com erros ortográficos nos nomes mais simples, pessoas abraçando-se, tentando simultaneamente evitar aos gritos que os bagageiros lhes levassem as malas, um casal de meia-idade que discutia violentamente como se estivessem prestes a romper o casamento, um casal que se diria pronto para se amar ali mesmo, tal era a sede com que se exploravam mutuamente, famílias inteiras gritando na alegria do reencontro.
E, enquanto tentava entrever os meus anfitriões, que tinham combinado comigo que levariam um papel com o meu nome escrito, ia-me apercebendo de que não havia ninguém por ali à vista com um papelinho, por mal amanhado que fosse, com a minha graça, e pensava como raio nos haveríamos então de reconhecer se nunca nos tínhamos visto... ou pior, se eles afinal não se teriam esquecido de me ir buscar. Felizmente, com toda esta angústia, a senhora da alfândega deve ter-se apercebido pelo meu olhar vago de que não teria a menor hipótese de estabelecer um clima de extorsão porque eu estava com o pensamento muito longe dali! Aquela angústia súbita foi o melhor que me podia ter acontecido, porque devo ter sido a única pessoa dessa noite que passou incólume na alfândega por não se encontrar em condições de negociar e fui mandada seguir rapidamente, acabando de vez com as minhas preocupações e expectativas…
Foi então que, do outro lado da alfândega, dei de caras com um papel com o meu nome escrito e compreendi, com um baque, que tinha estado em negação aquele tempo todo. Eu não olhara para aquele papel porque ele estava precisamente na mão da mulher do casal de meia-idade que discutia violentamente. Aquelas duas aves raras eram… os meus anfitriões... O casal mais disfuncional que alguma vez conheci!
(continua)
Aproximei-me do tapete da alfândega. Respirei fundo uma última vez: “Calma!”, repeti para mim própria. “Close your eyes and think of Africa!”
Abri a minha mala à senhora da alfândega e, resignadamente, deixei que ela ma escrutinasse de uma ponta à outra, desligando-me completamente para observar, expectante, o que se passava do lado de lá das chegadas.
Um caos indescritível quase na penumbra, com dois ou três motoristas fardados exibindo bem à vista papéis com erros ortográficos nos nomes mais simples, pessoas abraçando-se, tentando simultaneamente evitar aos gritos que os bagageiros lhes levassem as malas, um casal de meia-idade que discutia violentamente como se estivessem prestes a romper o casamento, um casal que se diria pronto para se amar ali mesmo, tal era a sede com que se exploravam mutuamente, famílias inteiras gritando na alegria do reencontro.
E, enquanto tentava entrever os meus anfitriões, que tinham combinado comigo que levariam um papel com o meu nome escrito, ia-me apercebendo de que não havia ninguém por ali à vista com um papelinho, por mal amanhado que fosse, com a minha graça, e pensava como raio nos haveríamos então de reconhecer se nunca nos tínhamos visto... ou pior, se eles afinal não se teriam esquecido de me ir buscar. Felizmente, com toda esta angústia, a senhora da alfândega deve ter-se apercebido pelo meu olhar vago de que não teria a menor hipótese de estabelecer um clima de extorsão porque eu estava com o pensamento muito longe dali! Aquela angústia súbita foi o melhor que me podia ter acontecido, porque devo ter sido a única pessoa dessa noite que passou incólume na alfândega por não se encontrar em condições de negociar e fui mandada seguir rapidamente, acabando de vez com as minhas preocupações e expectativas…
Foi então que, do outro lado da alfândega, dei de caras com um papel com o meu nome escrito e compreendi, com um baque, que tinha estado em negação aquele tempo todo. Eu não olhara para aquele papel porque ele estava precisamente na mão da mulher do casal de meia-idade que discutia violentamente. Aquelas duas aves raras eram… os meus anfitriões... O casal mais disfuncional que alguma vez conheci!
(continua)
domingo, 27 de fevereiro de 2011
[como foi que tudo aconteceu] a primeira vez em áfrica...
(continuando)
A minha estreia em Moçambique não podia ter sido pior… O meu avião tinha descolado da Portela com duas horas de atraso e ainda tinha ido primeiro a Joanesburgo, uma rota programada mas não habitual para aquele dia, pelo que chegámos a Maputo duas horas depois do previsto e quatro horas depois de os meus anfitriões terem chegado ao aeroporto para me buscar. Como se isso não bastasse, a fila para carimbar vistos e passaportes era interminável (os vistos e passaportes à primeira nunca estão bem, é sempre preciso fazer muitas contas, de cabeça, de papel e, às vezes, de carteira, para fazer ver aos funcionários da imigração que os dias que lá vou ficar são os dias que constam no bilhete de regresso e que não, não tenho de lhes dar dinheiro para me fazerem entrar no país porque o vou fazer legalmente!).
Logo a seguir, sem tempo para respirar fundo, tive de enfrentar sozinha o problema seguinte, que foi passar na alfândega com a bagagem, sem fazer a menor ideia do que era a alfândega de Mavalane. Eu sempre fui optimista, mas do meu estado de espírito na altura só me recordo de uma vaga sensação de pânico, porque afinal de contas estava completamente sozinha. E em África pela primeira vez…
A angústia confirmou-se quando me deparei frente-a-frente com um cartaz já amarelecido que numa das paredes anunciava em letras garrafais: “Senhor passageiro, suborno é crime!” Ai, valesse-me Nossa Senhora das Alfândegas, que aquilo não augurava nada de bom… O aeroporto de Maputo era conhecido na altura ser muito difícil de atravessar sem ficar com objectos de valor apreendidos pelos funcionários, a quem quase sempre era necessário oferecer dinheiro e presentes para se poder passar com a bagagem. Assim mesmo, à descarada... Ou melhor, era conhecido mas - passe o pleonasmo à Marquês de la Palice - apenas por quem conhecia o facto… Eu não conhecia nada e a primeira vez que tal me passou pela cabeça foi mesmo segundos antes do confronto final. Ou seja, com tudo isto, já passava das 23 horas, numa jornada que para mim começara às 4 da manhã quando, exausta e transpirada, apreensiva com o que me esperava assim que transpusesse aquela última barreira que me separava de Maputo, furiosa pelo que tinha acabado de passar na imigração e desesperando por um banho e por uma cama me aproximei do tapete da alfândega. Respirei fundo uma última vez: “Calma!”, repeti para mim própria. “Close your eyes and think of Africa!”
(continua)
A minha estreia em Moçambique não podia ter sido pior… O meu avião tinha descolado da Portela com duas horas de atraso e ainda tinha ido primeiro a Joanesburgo, uma rota programada mas não habitual para aquele dia, pelo que chegámos a Maputo duas horas depois do previsto e quatro horas depois de os meus anfitriões terem chegado ao aeroporto para me buscar. Como se isso não bastasse, a fila para carimbar vistos e passaportes era interminável (os vistos e passaportes à primeira nunca estão bem, é sempre preciso fazer muitas contas, de cabeça, de papel e, às vezes, de carteira, para fazer ver aos funcionários da imigração que os dias que lá vou ficar são os dias que constam no bilhete de regresso e que não, não tenho de lhes dar dinheiro para me fazerem entrar no país porque o vou fazer legalmente!).
Logo a seguir, sem tempo para respirar fundo, tive de enfrentar sozinha o problema seguinte, que foi passar na alfândega com a bagagem, sem fazer a menor ideia do que era a alfândega de Mavalane. Eu sempre fui optimista, mas do meu estado de espírito na altura só me recordo de uma vaga sensação de pânico, porque afinal de contas estava completamente sozinha. E em África pela primeira vez…
A angústia confirmou-se quando me deparei frente-a-frente com um cartaz já amarelecido que numa das paredes anunciava em letras garrafais: “Senhor passageiro, suborno é crime!” Ai, valesse-me Nossa Senhora das Alfândegas, que aquilo não augurava nada de bom… O aeroporto de Maputo era conhecido na altura ser muito difícil de atravessar sem ficar com objectos de valor apreendidos pelos funcionários, a quem quase sempre era necessário oferecer dinheiro e presentes para se poder passar com a bagagem. Assim mesmo, à descarada... Ou melhor, era conhecido mas - passe o pleonasmo à Marquês de la Palice - apenas por quem conhecia o facto… Eu não conhecia nada e a primeira vez que tal me passou pela cabeça foi mesmo segundos antes do confronto final. Ou seja, com tudo isto, já passava das 23 horas, numa jornada que para mim começara às 4 da manhã quando, exausta e transpirada, apreensiva com o que me esperava assim que transpusesse aquela última barreira que me separava de Maputo, furiosa pelo que tinha acabado de passar na imigração e desesperando por um banho e por uma cama me aproximei do tapete da alfândega. Respirei fundo uma última vez: “Calma!”, repeti para mim própria. “Close your eyes and think of Africa!”
(continua)
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
[conta-me como foi que aconteceu...] the days before
Maputo, Moçambique
(continuando...)
Na altura ainda não existia internet de banda larga em Moçambique. No local para onde eu ia só alguns meses antes é que tinham colocado electricidade e telefone, as comunicações eram caras, difíceis e pouco fiáveis e só tinha conseguido falar pessoalmente uma única vez com o Padre Zé Maria, director da Casa do Gaiato de Maputo. A única coisa que ele tinha ficado a saber sobre mim era que eu era estudante de Medicina, que queria muito ir e que estava disposta a ajudar no que fosse preciso. A única coisa que eu tinha ficado a saber sobre a Casa do Gaiato era que a minha ajuda – ou qualquer ajuda – seria sempre bem-vinda e que trabalho não me faltaria.
Não conhecia ninguém em Moçambique. Não conhecia ninguém que já tivesse feito voluntariado em Moçambique e a pessoa que me tinha ajudado a estabelecer o contacto pouco me tinha adiantado sobre o país, o dia-a-dia ou mesmo sobre a Casa do Gaiato…
Algumas vezes pensei se não seria loucura da minha parte meter-me num avião para o outro lado do mundo nestas condições. Ainda hoje penso que foi loucura da minha parte ter-me metido no avião nestas condições. Mas nunca dei parte de fraca, isso teria sido a morte dos meus sonhos, sobretudo se tivesse vacilado perante a minha família, que nunca me teria deixado ir se me visse angustiada... Só falei dos meus medos ao meu melhor amigo (sim, meus queridos amigos, esse mesmo, o da crise de soluços...), que me respondeu simplesmente: "Princesa, close your eyes and think of England*!" E pronto, com esta me fui, lá fiz das tripas coração, arregacei as mangas e fiz-me ao caminho.
Eu não tinha qualquer ideia romântica sobre África. Não tinha curiosidade em conhecer parques naturais, praias lindíssimas, areais brancos a perder de vista, ver o nascer do sol no Índico, aprender línguas africanas ou assistir a danças e rituais de iniciação.
Já tinha visto nascer crianças, mas nunca tinha visto ninguém morrer, nunca tinha estado num campo de refugiados, não sabia que era possível crianças irem à guerra e pegarem em armas, nunca tinha visto pessoas a viver numa lixeira e fazer disso um modo de vida. Mas também nunca tinha tido a sensação arrebatadora de que a vida podia fazer sentido a cada instante, desde uma criança que brinca depois de ter estado dois dias em coma, desde um abraço ao nascer do sol até a uma improvável, mas bíblica, chuva de sapos no final de um dia de sonho.
O que eu queria, na altura, era apenas dedicar as minhas férias a trabalhar como voluntária e ter uma experiência com crianças desfavorecidas. Estava, portanto, na ingenuidade dos meus vinte e poucos anos, a anos-luz de imaginar que tinha partido por um caminho sem volta para me apaixonar irremediavelmente...
(continua)
* Conselho habitualmente dado às jovens noivas da Era Vitoriana na noite de núpcias, erroneamente atribuído à própria Rainha Vitória. E como é que uma frase desta crueza aparente me conseguiu confortar assim? Isso, meus amores, é mesmo outra história...
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
[áfrica, meu amor impossível] como foi que tudo aconteceu...
A baía de Maputo, Moçambique.
O meu primeiro contacto com Moçambique foi enquanto ainda estava na faculdade, nas férias do quinto ano de Medicina, antes do meu ano de finalista. Fui para a Casa do Gaiato, na província de Maputo, onde passei um mês na savana, com encantos de primeira vez em África...
E a história começa com Moçambique a 12ºC, numa noite sem lua e pouco iluminada, onde a única coisa que se podia sentir era o cheiro largo a espaço aberto (imaginava eu, nos meus pensamentos românticos de primeira vez, que estava a sentir o “cheiro de África” e, de facto, o que sentia era algum do cheiro de África – o cheiro de um Aeroporto africano misturado com o cheiro a diesel de um avião da TAP...). O pouco que conseguia distinguir distintamente era AE OPO TO IN ERNACI NAL DE MAP TO, o letreiro de néon do aeroporto de Mavalane, literalmente com algumas luzes avariadas... E desta história só posso dizer que adorei, que não estava nada à espera do que acabou por ser e que, à medida que o tempo passava, mais eu ficava rendida a tudo quanto via...
(continua)
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