Mostrar mensagens com a etiqueta Maputo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maputo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de maio de 2017

[a vida é curta, a arte é longa] batik



Hoje mandei emoldurar um batik moçambicano que encontrei no fundo de uma gaveta, comprado a caminho do Hospital Central de Maputo, numa tarde de despedida... talvez por ter sabor a tristeza e a regresso me tenha esquecido dele... até o som dos batuques me bateu mais forte no coração! É preciso abraçar a saudade...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

[mozambique revisitado] um surto de sarampo





A Casa do Gaiato de Maputo (a capela, os meninos, o refeitório e o berçário para as crianças desnutridas da aldeia mais próxima).

(Boane, Maputo)

Em 2003, era ainda estudante de Medicina quando parti pela primeira vez para Moçambique em voluntariado. Já contei muitas vezes estas histórias, mas nunca contei a história do surto de sarampo que por lá aconteceu na minha estadia. Não é, de facto, algo que goste de recordar... Mas também nunca pensei, confesso, que a haveria de contar nestas circunstâncias, em plena ameaça de surto de sarampo no nosso país...

Há mais de 10 anos, no meu hospital, quando o diretor perguntou a todos os internos mais novos se alguém já tinha visto um caso de sarampo fui a única a levantar a mão. Os meus colegas olharam-me com curiosidade, meios incrédulos. "Onde?", perguntaram. "Vi mais de 100 casos em Moçambique. Em Portugal nunca." "Ah", responderam, "em Moçambique está bem." 

Foi ali, em Boane, próximo da barragem dos Pequenos Libombos, a 50 km de Maputo, que conheci Moçambique... Foram os encantos de primeira vez em África. Na Casa do Gaiato, com o Padre Zé Maria, a Irmã Quitéria, a tia Cármen, a D. Virgínia, de quem já vos falei, e os meninos mais adoráveis que alguma vez tinha conhecido e que viviam no orfanato... Rendi-me a eles no primeiro dia, em que me vieram adornar a mesa-de-cabeceira com uma flor selvagem que crescia numa casca de coco, "para titia sentir o cheiro da terra antes de dormir". Se me pedissem uma só prova de que é possível crescer e que vale a pena investir em Moçambique, eu saberia o que responder.

Era no centro de saúde, a 5 km da Casa do Gaiato, que começavam os meus dias. Depois do mata-bicho* com os meninos, o António, um dos mais velhos, que já tinha carta de condução, ia levar-me ao centro de saúde através de uma picada fabulosa, quase desaparecida por uma vegetação rasteira de savana seca a perder de vista, e onde, a espaços, emergiam as micaias, as árvores que eu amo desde o primeiro dia, com os seus espinhos e a sensação de serem as únicas sobreviventes no meio da secura atroz da planície.
 
Eu ia à frente no machibombo**, ao lado do António. Os meninos que não tivessem aulas nesse dia também iam connosco atrás, para ajudarem em pequenas tarefas do centro de saúde: encarregavam-se da inscrição dos doentes, ver temperaturas, medir tensões arteriais, varrer o pátio, ajudar os doentes a perceber como se tomava a medicação.

Um dia vieram-me mostrar um menino que estava muito doente. Era filho de um professor da escola da aldeia. Tinha 8 meses e não parava de tossir. Prostrado. Não mamava e não aceitava comer mais nada. Tinha os olhos injetados, o nariz congestionado e, desde essa manhã, tinha-lhe aparecido um exantema (borbulhas). Não era fácil ver o exantema, dada pigmentação escura do bebé, mas à luz via-se perfeitamente que as borbulhas lhe cobriam todo o corpo. A história fez-me soar os três C do livro de microbiologia (cough, coryza and conjunctivitis). Procurei o sinal de Koplik, inequívoco, diziam os meus livros, patognomónico, dizia a minha professora


Peguei na lanterna e procurei pequenos grãos de sal na mucosa junto aos dentes molares... Estavam lá, de facto, mas eram muito mais pequenos do que eu tinha ideia. "Como grãos de sal" lembrava-me eu das aulas da faculdade. Mas... só se fosse sal de mesa e não sal de cozinha, ocorreu-me... Ai, valesse-me Nossa Senhora dos aflitos, então o menino estava ali doentíssimo, prostrado, quase sem respirar e eu com dúvidas se o sinal de Koplik era do tamanho de grãos de sal de mesa ou de sal de cozinha?! Mas como era possível? No meio da savana uma dúvida existencial deste calibre... Mas tinha de ir esclarecer a dúvida. Não tinha outro meio de diagnóstico. Não havia net móvel em Moçambique. Muito menos banda larga ou satélite para me valer do meu Santo António do Google. Fui à sala onde tinha deixado os meus livros, que por sorte tinha levado nesse dia. E lá estava: "like table-salt grains". Era mesmo sarampo, caramba! 

Mas o menino, Ângelo era o seu nome, apesar de filho de um professor e de uma funcionária do centro de saúde, estava ligeiramente desnutrido. Tinha nascido com baixo peso e os pais, apesar de terem um salário que os mantinha ligeiramente acima do limiar da pobreza, comiam carne apenas duas vezes por semana e muito poucas verduras e fruta. O preço destes géneros alimentares, luxuosos em Moçambique, era abolutamente proibitivo para eles. Mas era uma alimentação manifestamente insuficiente para uma grávida, já mãe de quatro filhos mais velhos. Para agravar a situação o bebé ainda mamava quase exclusivamente e a diversificação alimentar apenas começara no mês anterior...

Estava com febre. O teste da malária foi positivo, infelizmente, compondo o quadro. Prescrevi-lhe tudo o que pude que o pudesse ajudar: antibiótico para a pneumonia óbvia, broncodilatador, antimalárico, polivitamínico, vitamina A em dose gigante. E uma solução de reabilitação nutricional. Os olhos do pai escureceram quando leu "desnutrição ligeira" na ficha do filho: "Nós damos tudo o que podemos, mas a comida é muito cara..."
 - Eu sei, pai...

 Foi difícil tratá-lo nestas circunstâncias. Eu fiquei horas à cabeceira do menino, com medo que me morresse ali mesmo... tenho sempre a fantasia de que se não arredar pé dali, a morte não se atreve a ir buscá-los. O menino melhorou lentamente. Veio novamente no final da minha estadia para se vacinar. Já tinha 9 meses. E o pai perguntou-me então:
- Lá em Portugal também há sarampo?
- Não, senhor professor, lá em Portugal não há sarampo.
- Mas como? Vacinam os meninos à nascença? Aqui em Moçambique só se vacina aos 9 meses.
- Não, em Portugal vacinamos aos 15 meses [Em 2003 o Programa Nacional de Vacinação era mais otimista do que agora e a nossa cobertura vacinal ainda maior...]
- Afinal?! Então como não têm sarampo?
- Todas as pessoas estão vacinadas. Não há sarampo em Portugal!

Os olhos dele brilharam, como se lhe tivesse confirmado que o paraíso existia na terra:
- Gostava de conhecer Portugal, Doutora. Deve ser um país lindo...
- Ora, professor, lindo é Moçambique! - respondi.

Mas nas semanas que mediaram estes dois episódios, tive alguns dos piores dias da minha estadia. A mãe do Ângelo tinha-o levado dias antes do seu agravamento à enfermaria das crianças desnutridas. Tinha lá ido levar umas roupinhas que já não lhe serviam para oferecer às mães dos bebés desnutridos. O filho tinha ido com ela, obviamente, às suas costas na capulana...

Já estão a imaginar o que aconteceu naqueles dias... O pior surto que já vi, entre os meninos mais vulneráveis de todos. O Padre José Maria ia desesperando... tanto esforço humano e económico para reabilitar aquelas crianças e uma doença maldita vinha agora dizimá-las. Ainda assim tivemos "apenas" 10% de mortalidade! E digo "apenas" porque o que dizem os livros é mortalidade de 50% em crianças desnutridas. Era essa a taxa de mortalidade no Hospital Central de Maputo... Ainda sei de cor, passados estes anos todos, o nome dos meninos que não resistiram apesar dos nossos esforços naqueles dias negros... 

Foi preciso ir a Maputo comprar mais antibióticos e mais antimaláricos e mais polivitamínicos e mais não sei quantos medicamentos para reforçar a reserva que quase se esgotou nos dois primeiros dias. Foi difícil convencer os responsáveis do distrito de que era necessário vacinar de emergência todas as crianças que ainda não tinham sido vacinadas. Demorou semanas a conter o surto... Mas graças ao esforço de todos, o surto apagou-se, tal como veio... 

Mas ainda nem posso acreditar que ontem uma adolescente foi ligada a um ventilador no meu hospital por esta mesma doença, anacrónica e maldita!

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

[improbabilidades] nomes que dizem tudo

 
Mais um impagável táxi/ chapa em Maputo!
Foto da querida Daniela. Obrigada!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

[never take anything for granted] o próprio chão estará garantido?

 


 
Cheias na cidade de Chókwè...
(Gaza, Moçambique)
Fotos de sítios vários da net.
 

As enormes cheias que desde há uma semana estão a devastar a cidade de Chókwè, no Sul de Moçambique, deixaram quase cinquenta mil pessoas desalojadas, segundo o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (sim, existe um Instituto Nacional de Gestão de Calamidades em Moçambique, o que nos diz muito sobre o país e a forma como é gerido...).

Há dias, conversava com a minha amiga C., a minha mamã africana, sobre a forma como as pessoas muitas vezes resistem até ao último momento para aceitar que a catástrofe está iminente, que a vida vai mesmo mudar e que é preciso protegermo-nos e aos nossos, independentemente de todos os bens materiais que fiquem para trás.

(Em Moçambique esta situação é ainda mais difícil porque o futuro é território que pertence aos antepassados, o futuro é algo de quase sagrado e inviolável, portanto as pessoas muitas vezes não só não acreditam nas previsões, como se comportam ostensivamente como se não soubessem de nada. E continuam a pensar que as catástrofes só dependem do destino e não é possível fazer o que quer que seja para se protegerem.)

Mas eu e a C. concordávamos que, de qualquer forma, é muito difícil raciocinar quando está em causa o poder violento da natureza em situações limite. Foi então que ela me contou que no início dos anos '90, em plenas cheias de Maputo, foi buscar o marido ao aeroporto. Não havia taxis e não tinham motorista, portanto a única solução era ir buscá-lo. A rua quase tinha desaparecido, engolida pelas águas e havia muito pouca visibilidade por causa da chuva que não parava de cair.

- A minha mãe ficou com os meninos e eu fui com o meu pai ao aeroporto. E ele dizia-me: "Vai devagar, que a estrada está aqui mesmo em baixo, havemos de chegar." No dia seguinte, mesmo no cruzamento onde tínhamos parado, havia um buraco enorme onde podia cair um camião...

É difícil acreditar que mesmo o chão pode não estar sempre garantido. Por isso também não me espanta a atual situação da Zambézia... Rezemos...

domingo, 12 de agosto de 2012

[casa do gaiato] instantes



Já vos falei várias vezes da Casa do Gaiato de Maputo. Assim uma espécie de Fundação Gulbenkian em Moçambique, com um orfanato, escolas, centros de saúde, projectos de microcrédito e mil outras actividades que ajudam a casa a auto-sustentar-se e onde os meninos podem aprender o gosto pelas profissões que vão desempenhar no futuro. Agora, por causa da crise, estão a passar dificuldades porque muitos dos apoios foram cortados, no meio da política de contenção de despesas da UE... Deixo-vos com algumas imagens do que é aquela mini-cidade!
(Boane, Maputo)

sábado, 21 de julho de 2012

[outras palavras] imposto de pele...



Mercado em Maputo.
(Xipamanine, Maputo)


Artigo escrito pelo Manuel Cardoso, sj, que vive na Beira (Moçambique) há quase um ano. Daqui.


Sou branco, "muzungu" – em língua Sena. Em Portugal já me chamaram copinho de leite, branquela, desmaiado, e tantas outras coisas! A verdade é que a melanina da minha pele não me permite passar um dia inteiro na praia. Pronto, está dito!

Ora, um muzungu em Moçambique tem a vida mesmo acrescentada! Eu chamo-lhe Imposto de Pele: se a banana custa “10-10” (lê-se «dez dez», e significa que um cacho custa 10 meticais, e cada outro cacho outros 10 mt), para um muzungu custa 20-20! Se o tomate custa 15mt a latinha (uma lata de feijões serve de medida: os que cabem dentro constituem a quantidade a adquirir), para muzungo custa 30 mt! Se a alface custa 10-10, para muzungu pode custar 30-30!

O preconceito é: muzungu tem dinheiro! Muzungu é imediatamente chamado de «boss», mas esta subserviência aparente engana: o muzungu desprevenido acaba por pagar muito caro os produtos que compra (caro quando comparado com os preços locais... ).
Como lidar com isto? Há muzungus que não se importam nada: uns porque gostam de ser tratados como reizinhos, gente superior, e ter povo que os bajule e que eles podem tratar mal sem terem consequências nenhumas; outros muzungus não se importam de ser aldrabados nos preços, porque vêem a miséria das pessoas que vendem nas ruas e nos bazares. Para este segundo grupo de muzungus, deixar-se enganar é uma forma de ajudar a família daquele vendedor a passar melhor o dia de hoje, e “a diferença de preços também não é assim tão grande para quem tem bons ordenados” – argumentam eles. Há ainda um terceiro grupo, o meu, o grupo dos muzungus que odeiam ser roubados, aldrabados, enganados e extorquidos, mesmo que por necessidade! Se me pedem ajuda é uma coisa, roubar-me é outra! Percebo as carências que muitas famílias passam, aliás muitos dos meus vizinhos vivem com grandes dificuldades, mas tirarem-me dinheiro à má-fé custa-me horrores!

É importante explicar que esta não é uma questão racial, não se trata de racismo: com africanos bem vestidos, ou que conduzam bons carros, a compra também é acrescentada! Aí não pode chamar-se Imposto de Pele, mas é qualquer coisa como uma Taxa Adicional sobre os Altos Rendimentos… O Imposto de Pele apenas se aplica ao muzungu, mas esse, mesmo que esteja vestido de pedinte, ninguém acredita que não tenha dinheiro! Há dias, contava-me uma mamã moçambicana: “Ouvi dizer que na África do Sul já há mendigos brancos, mas não acredito nisso…”
Continua...

segunda-feira, 5 de março de 2012

[aviso à navegação] ignore este aviso




Imagens da Casa do Gaiato...

Ontem comecei a contar uma história. Uma das mais importantes e dolorosas da minha vida... e ao mesmo tempo a mais bonita. Vinha na sequência da história da tia Cármen. Mas depois olhei para o que tinha escrito, entre um post sobre vestuário suburbano e outro sobre musicoterapia e cabrito assado e tive pudor de continuar. Achei que não queria ver essa história derramada aqui nestas páginas, onde tantas histórias e tantos disparates a podem tornar indigna... E cheguei à conclusão de que prefiro guardá-la para mim e para quem faz parte da minha vida. Pelo menos por enquanto. Os meus amigos sabem o que se passou depois e como isso mudou a minha vida. Às pessoas que não me conhecem peço desculpa: a história da Casa do Gaiato afinal não continua... é minha.

Outras histórias virão...

sexta-feira, 2 de março de 2012

[bodas beijo-de-mulata] mais um ano!


A flor beijo-de-mulata.

Por entre Brufenes e Ben-u-rons, dores de cabeça e no resto do corpo (descansem que não é malária!), mais os medicamentos dos meus sobrinhos, que estão iguais a mim (ou eu é que estou igual a eles, melhor dizendo), quase me esquecia de que hoje faz dois anos que me instalei, de armas e bagagens, aqui no mato, para tentar sanar um pouco as saudades de África!

Chamei beijo-de-mulata a este longe, em honra à história do Levítico, que gosto de recordar. Obrigada a todos os que não me deixam aqui sozinha, em especial aos que vêm também matar saudades e partilhar histórias comigo!

(um) beijo de mulata


Um Chá de Beijo-de-Mulata

"Há alguns anos, ainda quase recém-licenciada em Medicina, quando estava em missão de voluntariado em Moçambique, vieram trazer-me um adolescente de 15 anos. Estávamos em Naheche, uma aldeia perdida no meio da savana, onde nos tínhamos deslocado para a campanha de vacinação. O jovem impressionava pelos olhos tristes de quem não dormia há muitos dias e pela face emagrecida, profundamente escavada pela ausência do apetite próprio de quem está a crescer. Vinha acompanhado por uma senhora idosa e afável, de olhos baços, que se movia com a desenvoltura dos que há muitos anos se habituaram à escuridão permanente da cegueira. Alguma coisa de muito grave se passava com ele, dizia-me aquela avó, num sorriso tão triste que quase parecia um pranto. Estendeu a mão para a minha e guiou-me para a face do neto, percorrendo comigo cada relevo, detendo-se, certeira, em cada uma das suas inquietações…

– Esta criança não está bem – sussurrava-me –, está a ficar sem corpo e a pele já sobra em toda a parte… O problema está aqui.

Os gânglios do pescoço e por cima da clavícula estavam muito aumentados, duros, aderentes às estruturas vizinhas… assustadoramente malignos! Era possivelmente um cancro do sistema linfático, um linfoma daqueles que se for tratado a tempo não tem mau prognóstico mas que, se não se tratar, o desfecho é fatal em pouco tempo… Um linfoma de Hodgkin, se quiserem muito saber-lhe o nome. Fiquei muito preocupada. A imagem do menino correu pelos meios que tínhamos à disposição e uma onda de solidariedade na cidade natal de um dos padres daquela missão conseguiu angariar o dinheiro suficiente para o enviar para Maputo, a milhares de quilómetros dali, para ser tratado.

Duas semanas depois, ainda a tentar organizar a sua transferência para o Hospital Central de Maputo, observei-o novamente e notei que os gânglios se tinham praticamente reduzido a metade. Nos entretantos a família tinha obviamente ido procurar um médico tradicional, que lhe dera a beber chá de beijo-de-mulata. Evidentemente duvidei do curandeiro. Duvidei de mim própria. Não confiei na prova que os meus olhos podiam testemunhar. Acreditei só no prognóstico que vinha nos meus livros e, com o acordo da família, transferi o menino para o Maputo.

Anos depois, inteiramente por acaso, vim a descobrir que desta flor selvagem, que cresce quase como erva daninha por todo o país, se extrai a vincristina, um agente de quimioterapia activo contra o linfoma...

A lição não veio a tempo de intervir em seu favor. De qualquer modo hoje voltaria a fazer tudo da mesma forma. O chá de beijo-de-mulata, isoladamente, nunca o poderia ter curado. São precisos vários agentes de quimioterapia, num cocktail injectado veias adentro para se conseguir modificar o curso terrível do linfoma de Hodgkin. Mas foi nesse momento que percebi o quanto há ainda a aprender com África."

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

[outras palavras] os tumultos na grécia

A propósito dos graves acontecimentos na Grécia, podemos recordar as palavras de Mia Couto sobre a revolta popular em Maputo em Setembro de 2010. Um excelente artigo, intitulado "A Pobreza Sai Muito Caro", que reproduzo parcialmente. A totalidade do texto aqui.
Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.
E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo actuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, excepto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.
A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este parodoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.
Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutoras e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos (...). Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. (...)
Mia Couto, artigo n'O País

sábado, 21 de janeiro de 2012

[sabes que és workaholic quando...]

Hoje perguntaram-me, para uma entrevista sobre a minha actividade de voluntariado em Moçambique, se cheguei a aprender a falar os dialectos das províncias onde trabalhei. Respondi que sim, o suficiente para me orientar minimamente no hospital. Felizmente tive sempre quem me ensinasse. É quase impossível trabalhar sem saber nada do dialecto local porque quase ninguém fala Português fora das grandes cidades.

Era uma entrevista para uma revista para jovens, portanto pediram-me que lhes dissesse quais tinham sido as primeiras palavras em cada um dos dialectos. Pensei um pouco... Pensei mais. Por fim lá me recordei:

- Em Changana, que é o dialecto de Maputo, foi Xikoxola*.
- Que quer dizer?
- "Tosse com expectoração."

[Desiludido] - Ah... E em Nampula, qual é o dialecto?
- Macua. E a primeira palavra foi: Mwikhusoleke!
- E o que quer dizer isso?
- "Faça força!"
- Faça força?
- Sim, no primeiro dia tive de ir para a maternidade porque houve muitas complicações de partos...

[Ainda mais desiludido] - Ah... e na Zambézia?
- Em Lomué foi uma frase inteira: Mwana ola olavula pama?
- Credo! E isso é o quê?
- "O seu filho fala bem?"
- Pronto, deixe lá estar... Como é que se diz "bom dia" em Lomué, por exemplo?

* Eu não sei escrever changana, isto é uma transcrição macarrónica.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

[welcome to mozambique] o terramoto de 2006

Nessa noite a terra tremeu. Violentamente. Um terramoto de 7,5 na escala de Richter, com epicentro em Manica, a 800 km do jardim da casa das Irmãs, onde eu passeava, olhando a lua e namorando a noite negra e tórrida do Cruzeiro do Sul. Nesse momento pensava na Inês e no Sr. Rafael, os dois doentes a meu cargo, tentava mentalizar-me de que tudo haveria de correr bem e que, se só tinha aquelas armas para combater as doenças, eram essas armas que haveriam de funcionar!

Maputo abanou violentamente. A força do terramoto teria sido suficiente para arrasar a cidade, se Maputo fosse mais perto de Manica. Felizmente o epicentro foi numa zona de palhotas, casas térreas e de densidade populacional muito baixa. “Estragos apenas materiais em todo o país”, garantiam as notícias que no dia seguinte interrompiam a emissão da TVM a cada instante e me deixaram colada à televisão durante o mata-bicho. Havia o relato de dois feridos, um que, com o pânico, saltara pela janela do primeiro andar onde se encontrava e outro que caíra das escadas ao tentar fugir para a rua transportando uma pesada peça de mobiliário. Nampula quase não tremeu. Só os cães e os galos é que acordaram de repente, por pouco tempo. Eu, felizmente não dei conta de nada. Só soube meia hora depois, ainda nessa noite, quando a minha irmã me telefonou com uma voz apavorada:

– P., houve um terramoto! Está tudo bem?

Tive um baque no coração. A voz tremia-me… Eu tão preocupada com a minha vidinha e todo o meu mundo em risco de desabar…

– O quê? Houve um terramoto? Vocês estão bem?
– Não. O terramoto foi aí!
– Aqui? Não, aqui não houve terramoto nenhum!
– Houve sim, deu agora nas notícias, com epicentro no Chimoio.
– Bem, não senti nada, fica descansada que por aqui está tudo bem! Ah, mas agora que falas nisso, há pouco ouvi de repente os cães a ladrar. Deve ter sido isso…
– Óptimo! Então vai lá dormir… Mas ainda estás acordada a esta hora?
– Grande lata, telefonas-me a esta hora e depois refilas que estava acordada! Mas sim, claro que estava. Eu e tu somos aves da noite! Vai dormir também.
– Boa noite.

domingo, 25 de setembro de 2011

[outras palavras] inspiração para uma despedida...


Mulher na rua...
(Maputo)
Foto daqui, agora que passa um ano sobre a onda de violência contra o aumento do custo de vida, que no ano passado encheu hospitais e morgues em Maputo...

A Moça das Docas

Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço,
Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,
viemos do outro lado da cidade
com nossos olhos espantados,
nossas almas trancadas,
nossos corpos submissos escancarados.
De mãos ávidas e vazias,
de ancas bamboleantes, lâmpadas vermelhas se acendendo,
de corações amarrados de repulsa,
descemos atraídas pelas luzes da cidade,
acenando convites aliciantes
como sinais luminosos na noite,

Viemos...
Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,
do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,
do doer de espádua todo o dia vergadas
sobre sedas que outros exibirão,
dos vestidos desbotados de chita,
da certeza terrível do dia de amanhã
retrato fiel do que passou,
sem uma pincelada verde forte
falando de esperança,

Viemos...
E para além de tudo,
por sobre Índico de desespero e revoltas,
fatalismos e repulsas,
trouxemos esperança.
Esperança de que a xituculumucumba* já não virá
em noites infindáveis de pesadelo,
sugar com seus lábios de velha
nossos estômagos esfarrapados de fome,
E viemos....
Oh sim, viemos!
Sob o chicote da esperança,
nossos corpos capulanas quentes
embrulharam com carinho marítimos nómadas de outros portos,
saciaram generosamente fomes e sedes violentas...
Nossos corpos pão e água para toda a gente.

Viemos...
Ai mas nossa esperança
venda sobre nossos olhos ignorantes,
partiu desfeita no olhar enfeitiçado de mar
dos homens loiros e tatuados de portos distantes,
partiu no desprezo e no asco salivado
das mulheres de aro de oiro no dedo,
partiu na crueldade fria e tilintante das moedas de cobre
substituindo as de prata,
partiu na indiferença sombria da caderneta...

E agora, sem desespero nem esperança,
seremos em breve fugitivas das ruas marinheiras da cidade...
E regressaremos,
Sombrias, corpos floridos de feridas incuráveis,
rangendo dentes apodrecidos de tabaco e álcool,
voltaremos aos telhados de zinco pingando cacimba,
ao sem sabor do caril de amendoim
e ao doer do corpo todo, mais cruel, mais insuportável...

Mas não é a piedade que pedimos, vida!
Não queremos piedade
daqueles que nos roubaram e nos mataram
valendo-se de nossas almas ignorantes e de nossos corpos macios!
Piedade não trará de volta nossas ilusões
de felicidade e segurança,
não nos dará os filhos e o luar que ambicionávamos.
Piedade não é para nós.

Agora, vida, só queremos que nos dês esperança
para aguardar o dia luminoso que se avizinha
quando mãos molhadas de ternura vierem
erguer nossos corpos doridos submersos no pântano,
quando nossas cabeças se puderem levantar novamente
com dignidade
e formos novamente mulheres!
Noémia de Sousa, a mãe de todos os poetas moçambicanos.

* Xituculumucumba (do Xironga) - Papão; animal imaginário (fêmea) com um olho, um braço e uma perna que os adultos usam para assustar as crianças. Isto é para não dizerem que aqui no mato não se aprende nada...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

[inspiração para uma despedida] uma última vez

Meu amor, lá onde estiveres, seja onde for, por favor não cresças! Não cresças sem mim! Deixa-me chegar a tempo quando for a minha vez… Não te custa nada continuar a gostar de legos e das canções dos anúncios da televisão, e de carrinhos e de aviões.
Se eu tivesse sabido que aquela era a última noite que te ia ter nos meus braços, que no dia seguinte te levariam de mim sem me avisarem, como se eu não fosse a tua mãe e não tivesse de ser tida ou achada no processo, se eu soubesse que depois não chegaria a Moçambique a tempo de te ver uma vez mais… Se eu soubesse, meu amor…

Se eu soubesse que aquela noite ia ser a última, tinha-te deixado chapinhar um pouco mais no banho e não me teria importado que os outros meninos da enfermaria esperassem uns minutos mais. Eles não gostavam tanto do banho como tu. Não ficavam fascinados com uma banheira cheia de água morna e bolhinhas de sais de banho perfumadas, e óleos que deixavam a pele macia. Eles não sabiam que lá onde nasceste a água não vem das torneiras da casa de banho e que a água quente é um luxo que ninguém tem. Os outros meninos não ligavam aos brinquedos no banho. Tu conseguias tirar som e ritmo de qualquer brinquedo que caísse na água e dançar sob qualquer pretexto. Repetias qualquer frase minha ao acaso, fazias dela um refrão e dançavas ao som daquela música improvável, no prazer de gozar comigo, de ver chegar a minha paciência ao limite e de me fazer rir ao mesmo tempo: “Deixa-me só pôr-te o champô. Deixa-me só pôr-te o champô. Deixa-me só pôr-te o champô.”

Tu tinhas os teus tempos, deixavas-te lavar, mas só de vez em quando. Tinhas de fazer pausas para dançar e continuar aquele jogo comigo. No hospital nunca soube respeitar esses tempos porque me sentia pressionada pelos outros doentes. Só lá em casa brincámos a sério, lembras-te? Mas se eu soubesse que era a nossa última noite não te tinha apressado. Até te tinha deixado comer os morangos e os chocolates que me tinhas pedido ali mesmo. Há lá coisa melhor do que um banho de imersão com chocolate e morangos?

Se eu soubesse que era a última noite não te tinha posto na cama, tinha-te deixado adormecer nos meus braços, tinha-te deixado lutar contra o sono o tempo que quisesses. Às vezes, à noite, partias-me o coração porque estavas sempre a abrir os olhos para ver se eu ainda estava ali contigo, se não me ia embora. Estavas sempre de vigia. Tivesse eu sabido e não te tinha dito para fazer silêncio porque os outros meninos do quarto já dormiam e os outros pais precisavam de descansar. Não me tinha importado com o exame de Cirurgia III na semana seguinte e teria passado a noite contigo ao colo a olhar para ti, a sentir-te respirar, como na primeira noite em que te vi… Não te lembras, eu sei. Ainda bem que não te lembras. Quase me morreste nessa noite…

Se eu ao menos suspeitasse, meu amor… Tinha telefonado à enfermeira Susana, aquela que tu adoravas e brincava contigo e te fazia rir como eu nunca consegui. Ela também teria ficado contente de te ver uma vez mais… A Susana deixava-te correr e brincar à vontade, sem ir atrás de ti como eu, sempre com medo que essa perna marota que tinha deixado de se mexer te traísse, e caísses e te magoasses. Mas claro, quando estavas com ela defendias-te mais, andavas com cuidado. Assim que eu chegava afoitavas-te como se o chão não existisse, seguro de que te agarrava em voo, seguro de que não te deixaria cair, mesmo que tivesse de parecer uma barata tonta a correr atrás de ti. E depois gozavas comigo porque mais uma vez tinhas visto que eu estava garantida. E estava, meu amor. Mas comigo eras tão esquivo… Sempre a fazer birras e exigências, como que a ver se eu queria mesmo estar ali contigo, se não te ia deixar, se gostava mesmo de ti. Mas sabias que sim. Eu, aliás, não sei ser de outra maneira. Só sei ser incondicional. Mas isso terias compreendido muitos anos mais tarde, não naquela altura… Com os outros eras o menino mais doce e mais tranquilo da enfermaria. Mas eu sempre compreendi isso, sempre percebi que se agias assim era porque dos outros não te importava saber se gostavam mesmo de ti. 

Se soubesse que era a última vez, tinha-te deixado comer as gomas que a mãe do Bernardo te trouxe naquela noite. Ela adorava ver-te comer! Aliás, todos os outros pais ficavam magnetizados com o prazer com que comias, ainda para mais porque os meninos deles estavam doentes e sem apetite nenhum… E o Bernardo já não conseguia comer desde que tinha tido o traumatismo craniano. Alimentava-se por uma sonda. Lembras-te do dia em que entraste no quarto dele e me perguntaste o que era aquele tubo que ele tinha no nariz? Expliquei-te o melhor que soube, mas olhaste depois a mãe dele com estranheza. Como é que ela, que te dava tantos chocolates a ti, não os dava ao filho dela? Será que não gostava dele? Que espécie de mãe seria aquela? Não sei se te consegui fazer entender que era precisamente por isso que ela adorava ver-te comer as guloseimas que te dava. E até sabia que tinhas passado fome em pequeno, daí o teu fascínio por comida. Mas nessa noite já tinhas lavado os dentes. E sabe Deus o que eu penava todas as noites e que histórias tinha de inventar para te convencer a lavá-los…

Se eu soubesse, meu querido, não me tinha demorado no jantar a falar com a mãe do Diogo, que estava destroçada porque o filho tinha a mesma doença que tu. Procurava conforto em mim porque me achava forte e sabia que eu não era tua mãe biológica. Aliás, saltava à vista que não podias ser meu filho. Mas eras. Sempre foste, desde o primeiro dia, o meu menino do coração. Nunca me achei no direito de chorar à tua frente ou à frente de quem quer que fosse, mesmo quando me lembrava que estavas doente. De qualquer modo tu não me davas vontade de chorar, fazias-me esquecer a doença com o teu sorriso e acreditar que esse sorriso que me derretia era uma conquista minha. Que tinha sido eu a conseguir limpar a tristeza do teu olhar.

E quase acreditava genuinamente que amanhã não viria. “Amanhã não existe!”, repetia para mim mesma de todas as vezes que as angústias me assaltavam. Tu só me fazias rir com as tuas brincadeiras e com as danças africanas que gostavas de imitar. Se tivesses crescido tinhas sido um actor talentoso, tinhas continuado a fazer sorrir às gargalhadas os pais mais tristes do mundo.

Perdoa-me, meu amor, mas eu também não sabia… Naquela noite tinha-te por garantido e estava no meu papel de mãe. Se soubesse, ter-te-ia explicado para onde ias. Eu sei que querias voltar para a tua casa em Moçambique, apesar de os teus pais não estarem lá. Era naquela casa que estava o teu irmão e todas as tuas referências. Mas tenho a certeza de que tiveste medo quando te puseram no avião. Não sabias para onde ias. Como poderias acreditar que ias para casa se da última vez que te tinham posto num avião sozinho te levaram para aquele hospital, para um quarto de isolamento? O que foi que pensaste de mim? Eu sei que os cinco anos são a idade da angústia e da culpabilidade. Claro que ninguém te explicou que eu não desapareci da tua vida por te teres portado mal. Claro que ninguém te explicou que não te abandonei e que sofri horrores quando te foste embora. Ninguém te disse que não estava a mentir quando te respondi nessa manhã, depois de uma noite mal dormida naquelas cadeiras horríveis, que sim, que voltaria nessa tarde. Que só ia trabalhar para outro hospital, ver outros meninos e já voltava.

Eu voltei, meu amor, juro que voltei. Com mais um livro de animais, daqueles que tu adoravas. Ainda o tenho lá em casa… Tu é que já não estavas. As enfermeiras nessa tarde abanaram a cabeça, perplexas. “Mas não sabia? Nós também não sabíamos… Não sabíamos que ele ia voltar hoje para Moçambique. Ninguém sabia. Até foi sem nota de alta e tudo. Parece que lhe arranjaram lugar num voo muito mais barato e aproveitaram. Vieram buscá-lo logo ao fim da manhã. De qualquer forma já tinha terminado os tratamentos, já não estava cá a fazer muito mais…” Agora compreendes, não compreendes? Por isso peço-te, por favor, não cresças sem mim. Deixa-me um dia, ao menos uma vez, chegar a tempo.