terça-feira, 25 de junho de 2013

[comentários que valem um post] doença...

Comentário da minha amiga Maria, que está no Niassa (norte de Moçambique) em missão de voluntariado sobre o post acerca da febre e relativismo cultural:

Tão típico! A mulher chegar, sentar no gabinete e dizer "Estou doente." E não abrir mais a boca.
- Mas o que sente? - pergunto eu.
E "aquele olhar" da mulher doente e da tradutora como quem olha para um extraterrestre: "Duh, está doente, não percebeste? Mas o que é que tu precisas de saber mais? Dá-lhe murrette* e manda-a embora. Ponto final, não se fala mais nisso!"

* Medicamento

sábado, 22 de junho de 2013

[sns we can!] uma ideia vencedora!

 
Já estivemos mais longe... Mas convenhamos que é uma ideia brilhante! SNS we can!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

[outras palavras] febre... pois...



Mitande, Niassa

A minha amiga Maria está desde Janeiro deste ano em Mitande, no Niassa (no norte de Moçambique), em missão de voluntariado através da ONG de que orgulhosamente faço parte... É enfermeira, tem um espírito prático e aventureiro como poucas pessoas têm e escreve deliciosamente! A propósito do post anterior sobre o conceito de febre na Guiné-Bissau, lembrei-me deste post dela, no Querida Lamparina:

No outro dia assisti à seguinte consulta de um jovem estudante no Centro de Saúde:
- Preciso de medicamento para malária.
- Como sabes que tens malária?
- Sinto uma malária muito forte.
- Mas o que sentes?
- Dói-me o corpo todo.
- E tens tido frio? [ter frio = febre]
- Não, só tenho uma malária que me faz doer o corpo todo. [e, baixinho, acrescenta] e comichão.
- Comichão onde?
- Aqui - diz rapidamente, sem apontar para sitio nenhum -, preciso de medicamento para a malária. Tenho malária muito grande.
- Comichão onde, mesmo?
- Aqui.

[Na realidade o que o moço tinha era uma infeção sexualmente transmissível...]
Para evitar estas coisas de culpar a Malária de todos os males, resolvi dar uma “aula” às minhas meninas acerca de febre.
- Sabem o que e isto?
- Um termómetro.
- E para que serve?
- Para saber se pessoa está doente. Por debaixo do braço, esperar e depois ler se está muito doente ou pouco doente.

Lá expliquei o que é um termómetro e o conceito de temperatura e de febre. Esforcei-me por deixar bem claro que febre não significa malária necessariamente: afinal era esse o meu objectivo com estas explicações todas. Sugeri que experimentassem colocar o termómetro, a mais pequena não quis, tinha medo que se descobrisse alguma doença, mas a mais velha, mais corajosa, colocou o tal aparelho na axila. “Tem 36,5ºC. Não está doente!”
- Então vamos ver na B.
- Tenho 39,2ºC...
- O que significa?
- Tem malária!
[Definitivamente não sou boa professora...]

domingo, 16 de junho de 2013

[relativismo cultural] febre e mal estar

Há dias, na reunião da manhã no meu hospital, ouvi falar de uma adolescente que tinha sido internada por febre e mal estar geral com cerca de 3 semanas de evolução.

Tratava-se de uma menina de 13 anos, frágil, magra, com olhos negros e tristes. Nascera na Guiné-Bissau, numa cidade longe da capital e ficara privada da mãe seis anos antes, altura em que esta tivera de vir para Lisboa, acompanhando um irmão mais novo com uma epilepsia grave e atraso de desenvolvimento. A mãe vivera os primeiros anos com o filho, entre casa e hospital, entre consultas e internamentos, entre enfermarias e cuidados intensivos, medicamentos com nomes esquisitos e efeitos secundários de que nunca ouvira falar mas que tinha de monitorizar diariamente.

Chorara apenas no primeiro dia, quando lhe disseram o menino poderia melhorar um pouco, mas nunca poderia vir a ter uma vida normal e que teria de fazer medicação para o resto da vida, medicação essa que não existia na sua cidade natal e que, por isso, mãe e filho nunca mais viveriam junto dos seus. Depois do primeiro dia, aceitou a doença e lutou com todas as suas forças pela vida do filho e pela sua, trabalhando de forma precária nos poucos dias que a doença do filho lhe dava tréguas. Perguntou se pelo menos poderia então reunir a família em Lisboa e criar os outros filhos, mas essa é uma situação que não está prevista na lei. A reunião familiar é imigração ilegal. Por mais relatórios que os médicos escrevessem atestando que o menino teria de ficar a viver para sempre em Portugal, isso não lhe dava o direito de trazer os outros filhos menores. O compromisso do estado português era apenas para com o filho doente. Os outros eram problema seu! Imagino o frio no coração daquela mãe, dividida entre um filho doente e que nunca poderia vir a ter uma vida independente, e os outros filhos lá longe e que ainda precisavam tanto dela.

Só ao fim de alguns anos é que a doença do filho estabilizara e conseguira um contrato de trabalho. Só depois a autorização de residência. Ao fim de seis anos conseguiu mandar vir as outras duas filhas, que deixara ainda meninas ao cuidado da avó materna e que agora vinham adolescentes, começar a vida por que tinham sonhado durante os primeiros anos, mas que agora já não sabiam se desejavam mesmo, pois já tinham aprendido a viver sem a mãe e iniciado a difícil tarefa que é crescer e ser adolescente entre os seus pares.

A mãe não explicara nada disto ao médico do serviço de urgência. Dissera apenas que não reconhecia a filha, que chegara dois meses antes, muito bem disposta, mas que desde há três semanas estava com febre, mal estar, apática, sem forças e sem apetite. Perdera peso. Deixara de ir à escola? perguntara o médico. Que não. Até porque nunca fora. Ainda não tinha tido oportunidade de ir inscrever a filha na escola. Provavelmente só entraria no ano letivo seguinte. Até lá passava o dia a cuidar da casa.

Na cabeça do meu colega surgiram muitas luzes vermelhas: febre arrastada, mal estar, perda de peso. África! Doenças exóticas. Tuberculose. Malária.

Durante todo o dia, a menina com um ar triste e assustado fez análises, ecografias, uma TAC crânio-encefálica, uma punção lombar sob anestesia geral. Por fim foi internada enquanto aguardava os resultados.

Na reunião da manhã, no dia seguinte, os meus colegas relatavam os resultados dos exames: todos normais à exceção de uma discreta anemia por falta de ferro. E que estava sem febre desde a entrada, há quase 24 horas.

Respirei fundo. Pedi a palavra. Não gosto de interromper as reuniões, mas desta vez achei importante dizer algo. Expliquei que na Guiné-Bissau, tal como no Moçambique que eu conheço, o conceito de febre é subjetivo. Quer apenas expressar um mal estar geral. Insisti que, para perguntar se a pessoa tem febre, devemos sempre indagar se o corpo ficou quente. São conceitos diferentes e independentes. A menina estava sem febre desde a entrada porque provavelmente nunca tinha tido febre nenhuma.

Não pude deixar de me sentir gelada por dentro. Aquela mãe coragem, que lutara seis anos para que a vida e a família lhe fosse devolvida, era ainda a mãe negra da canção de Paulo de Carvalho. A mãe negra que não sabe nada, analfabeta e longe dos seus códigos culturais. Ela sabia (como não?) o que se passava com a sua filha, desenraizada e triste, perdida num planeta desconhecido. Se estivesse na Guiné saberia a quem pedir ajuda. Levaria a filha à avó materna e ao curandeiro, para que entre rezas, feitiços, placebos, mimos e cuidados, a angústia se desvanecesse. Mas em Lisboa só podia ir pedir ajuda aos médicos.

Não interferira na investigação médica. Como qualquer mãe africana que se preze, suportou todos os exames e tratamentos firme à cabeceira da filha. Assistiu a tudo de perto, sofrendo por dentro, mas com esperança. Médico de Lisboa é muito sabedor. Os exames à cabeça talvez pudessem ler os maus pensamentos e as angústias da filha, talvez os pudessem apagar, dando lugar à alegria pueril com que a deixara seis anos antes...

Nesse dia continuei gelada. E triste. E envergonhada. Eu sei que pelo menos o problema foi identificado e a menina começou a ser tratada para aquela depressão grave. Com mais exame, menos exame, mais mal-entendido menos mal-entendido, o diagnóstico foi feito. Mas ninguém pode devolver os seis anos roubados a esta família. E a tantas outras na mesma situação...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

[vozes brancas] os descobrimentos


Na consulta dos cinco anos de um menino amoroso e envergonhado, com uma timidez sempre encoberta de sorrisos furtivos e tentativas dissimuladas de se apropriar do meu estetoscópio, do aparelho de medir a tensão ou da lupa, eu perguntava-lhe, em jeito de desbloqueador de conversa, quem eram os melhores amigos, como se chamava a educadora e a que gostava de brincar no recreio. Por fim, lá se resolveu a entabular uma conversa comigo e contou-me que estava a ensaiar um teatro para a festa do final de ano.

- Ah, muito bem, e é um teatro sobre o quê?
- É sobre os descobrimentos portugueses, doutora - apressou-se a responder a mãe.
- Ah, e tu vais ser quem?
- Vou ser a árvore nadadora.
- A árvore nadadora? Mas como é isso?
- Então, filho, a mãe já te explicou, não é nadadora é...
- Narradora - respondeu a sorrir.
- Vais fazer o quê?
- Vou ser eu a contar a história!
- Que maravilha! É um papel muito importante. E o teu amigo Gonçalo vai ser quem?
- Vai ser o Elefante Dom Henrique!

(Eu cá não sou de intrigas, mas as educadoras deviam ter tido mais atenção ao casting... Um elefante é capaz de fazer qualquer caravela ir por água abaixo, mesmo tendo depois uma árvore nadadora a que se agarrar...)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

[repost] o santo antónio no serviço de urgência

 
Santo António de Lisboa
A Urgência Pediátrica é, por definição, o serviço que tem o movimento mais imprevisível de cada hospital. Nunca se sabe o que vai acontecer, embora, dentro de certos limites, se possa prever, por exemplo, que à hora dos jogos do Benfica e da Seleção Nacional a afluência fique quase reduzida a zero, e que à segunda-feira, tal como em qualquer parte do mundo, o movimento seja significativamente mais elevado...

Já o 12 de Junho em Lisboa é o dia mais previsível do ano, com a seguinte ordem de trabalhos:

- Das 09:00 às 15:00 - Aumento de afluência de adolescentes com dor no peito. Investigando melhor, quase todos são marchantes com ansiedade de desempenho, e a crise passa à hora do ensaio geral das Marchas Populares, lá para as 16:00, altura em que, aconteça o que acontecer, eles nos desamparam a loja. Por vezes regressam depois da meia-noite...

- Das 15:00 às 20:00 - Aumento da afluência de crianças com menos de 3 anos. Motivo de admissão: ingestão acidental de folhas de manjerico. A curiosidade é a mãe de metade dos acidentes na infância. O pai também não é bem incógnito, como adiante se verá... Geralmente os meninos têm alta direta para o arraial do bairro.

- Das 19:30 às 23:00 - Aumento da afluência. Motivo de admissão: corpo estranho na faringe. Invariavelmente, o corpo estranho é uma espinha de sardinha assada. A avaliar pelos números do Grande Observatório Piscícola do Serviço de Urgência, trata-se do único dia do ano em que os meninos se engasgam com espinhas de sardinha. Por qualquer razão obscura, os adultos perdem a capacidade de reconhecer a sardinha como um alimento potencialmente perigoso e oferecem-na da maneira mais estapafúrdia às crianças pequenas - inteiras e sobre o pão. Os hábitos enraizados e as tradições são os pais quase incógnitos da outra metade dos acidentes na infância.

- Das 00:00 em diante - Motivo principal de admissão: adolescentes em coma alcoólico.

Acho que para o ano, para maior eficiência, vamos destinar um gabinete de atendimento especial para estes assados: o "Gabinete Acidentes de Santo António". E criamos a "Via Verde marchante-em-crise", a "Via Verde sardinhas-no-pão", a "Via Verde mamã-engoli-um-manjerico" e a "Via Verde coma-alcoólico-ou-alcoolicamente-mal-disposto-e-intoxicações-várias".

Este ano a urgência é hoje, dia 13. Vou ali ver ressacas e volto já...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

[as melhores do serviço de urgência] alergias...

(Atenção: piada para profissionais de saúde)

Na urgência, estava a observar um menino que vinha com uma otite supurada:
- O seu menino tem alergias?
- Não, doutora.
- E tem sido sempre saudável?
- Sim.
- Já teve alguma doença grave ou esteve internado?
- Sim, uma vez ficou internado aqui na urgência com uma reação alérgica grave.
- [Suspiro... De quantas maneiras diferentes é preciso perguntar a mesma coisa, valha-me São Pedro dos Sinónimos?!] Então? Como foi?
- Ele estava com outra otite, veio aqui às urgências e receitaram-lhe amoxicilina. Melhorou, mas passado duas semanas voltou a queixar-se do mesmo ouvido. Viemos cá outra vez e passaram-lhe o Clavamox. Começaram logo a aparecer umas erupções na pele e, de cada vez que dávamos o antibiótico, ele piorava, até que ao segundo dia ficou que parecia um bicho e muito prostrado. Viemos de urgência para cá e passou a noite ali internado a soro.
- E depois, foi a uma consulta de alergia medicamentosa?
- Não. Por isso ficámos sempre na dúvida se tinha sido alergia à amoxicilina ou ao ácido vulcânico...

(Como disse depois um amigo meu, claro que foi o ácido vulcânico que  lhe provocou as erupções, qual era a dúvida?)

terça-feira, 11 de junho de 2013

[as melhores do serviço de urgência] sinais de subida térmica

Na urgência, um bebé de 7 meses choramingava, desconfortável, deitado na marquesa enquanto a minha colega o observava.

- Ele tem tido febre? Parece-me quente...
- Pois, por acaso eu também acho que deve ter a febre a subir, doutora, porque tem a pilinha murcha.

Onde estão as saídas de emergência para quem não consegue conter o riso?
Comentário de outro colega: "E o que será que acontece ao menino quando tem uma hipotermia?"