quinta-feira, 30 de agosto de 2012

[welcome to africa] como viajam as crianças

 
A menina disse que lhe doía a cabeça e estava cansada. A mamã colocou-a às costas e ela adormeceu, embalada pelo bambolear das coxas e o vozear alegre das crianças da rua... Acordou meia hora depois, muito bem disposta, que a vida é simples e uma sesta ao colo da mãe vale mais que um analgésico!
Via Afritorial

terça-feira, 28 de agosto de 2012

[a força que um sorriso pode ter!] alegria masaai

 
O olhar irresistível de uma criança masaai!
Via Afritorial.

[vozes brancas* #76] traição!

Foto da net. Site não identificado.

Há tempos, uma colega minha, pediatra de mão-cheia, num dia em que a empregada adoeceu, não tendo com quem deixar o filho mais novo, na altura com três anos e meio, levou-o para o consultório. O menino adorava a recepcionista, amiga da família e frequentadora assídua da sua casa. Era uma companheira de brincadeiras que lhe fazia as vontades todas e lhe amparava todas as quedas. Estar ali era uma festa, sobretudo porque podia ir para a enorme sala de brincadeiras e fazer o que bem lhe apetecia: "A minha mãe é que manda aqui!", respondia aos meninos que o queriam destronar das brincadeiras.

De súbito, no gabinete médico, a porta abriu-se para uma das crianças ir à casa de banho com o pai. Curioso, foi espreitar quem lá tinha ficado dentro e foi então que, deu de caras com a mãe, a sua própria mãe!, com um estetoscópio ao pescoço e de otoscópio em punho a observar os ouvidos da criança que lhe sorria da marquesa. Traição! Não era possível! Traição!

E de olhos arregalados, mão à frente da boca e olhar indignado, encarou a mãe, infamemente trajada com a vestimenta mais visceralmente odiada pelas crianças:

- Mãe! Tu és "ménica"!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

[arina] boa semana para todos!

video
 
Um vídeo delicioso da nossa princesa praticando o nome com a mãe e as enfermeiras, todas incansáveis. Nós acreditamos que existe um dador e portanto temos de a preparar para o futuro, para quando ficar bem para voltar ao mundo cá fora. Boa semana para todos!

domingo, 26 de agosto de 2012

[arina] temos de acreditar!



Temos de continuar a  acreditar! O improvável não é impossível, já tive mil vezes a experiência disso. Não nos podemos esquecer da nossa menina. Nem desistir. A campanha já foi, mas a vida continua.

Ontem a minha amiga M. lançou-me um desafio: temos de acreditar que existe um dador compatível. E vamos procurá-lo! Só temos de olhar bem à nossa volta, olhar bem para o nosso lado e tentar perceber onde é que ele está, de que lado é que vem a solução para dar vida a esta criança! Vamos procurar pessoas naturais de Cabo Verde, pessoas que tenham ascendência cabo-verdiana, entre os 18 e os 45 anos e conduzi-las à Estefânia ou ao Centro de Histocompatibilidade.

Muita força e obrigada a todos!

[nomes que dizem tudo #31] irmãos

 
Os gémeos Teté e Paizinho. Ao centro o irmão mais novo, de seu nome Online.
(Cahama, Angola)

sábado, 25 de agosto de 2012

[o mato em lisboa #10] a junta médica

E então, ainda íamos na história do Lázaro, não é verdade? Num post ali abaixo ficámos na parte em que, depois de um documento redigido pelo nosso serviço (e carimbado com tudo o que de remotamente oficial havia lá na enfermaria), o passaporte do seu irmão foi emitido para que viesse para Portugal doar medula óssea e assim salvá-lo de uma aplasia medular gravíssima...

Faltava que a Junta Médica desbloqueasse a verba para permitir a vinda do Lito-afinal-Alexandre para Lisboa. O missionário, que tinha conseguido a proeza de mandar emitir um passaporte em poucos dias, inicialmente pensou que seria rápido. Mas rapidamente voltámos à estaca zero. O pai não conseguia sequer chegar à fala com ninguém. Diariamente caminhava para o gabinete onde teria de expôr a situação, mas ninguém o recebia. Eficazmente instruído pelo senhor padre, ia sempre no seu uniforme de polícia, aprumadíssimo, formal, bem arranjado, mas em vão... Já calculávamos. Tudo o que implique dinheiro é lento em qualquer parte do mundo, quanto mais num país pejado de burocracia e corrupção...

Mas, que diabo!, naquele país onde falta tudo menos dinheiro? Que não nos viessem dizer que não conseguiam enviar o menino e o seu pai para Lisboa! Os dias somavam-se e o Lázaro, como que prevendo o que estava para acontecer, parecia que, por fim, estava a querer voltar a "ligar" a medula óssea. Pouco a pouco, a hemoglobina foi subindo, deixámos de precisar de lhe transfundir plaquetas. Nunca mais teve infecções porque os glóbulos brancos, mesmo sendo poucos, chegavam para toda a bicheza da enfermaria. Até passou a ter autorização para sair do quarto e brincar no corredor de máscara...

Mesmo assim achávamos prudente continuar as diligências em Angola. Era melhor o menino vir, pelo sim pelo não... As notícias que enviávamos omitiam propositadamente o facto de ele estar a melhorar: não sabíamos se não seria apenas um fenómeno fortuito e temporário...

O Padre Agostinho em resposta queixava-se que estava a ser difícil. Muito difícil. "Dos pobres ninguém se lembra... não têm voz nem peso..."

Foi então que ele se lembrou de uma estratégia. Não me perguntem como foi que ele teve aquela ideia genial, mas a verdade é que um padre nunca se atrapalha, que um padre atrapalhado é pior que um anestesista bêbado.

Depois de quase dois meses, descobriu quem lhe haveria de resolver o problema: teria de ser o Exmo. Sr. Director da Polícia do Cacuaco a falar com o mui alto e digníssimo Médico Prelsidente da Junta. O assunto assim passava a ser entre chefias. E entre chefias as coisas tinham de se resolver, ou ele não se chamasse Agostinho e não fosse confessor de meio mundo! E foi assim que o processo foi desbloqueado. Pouco mais de uma semana depois de ele ter tido aquele arranque de génio, fomos avisados que o menino já vinha a caminho, provando-nos, mais uma vez que, com muita vontade, os milagres lá vão acontecendo!

(E a história podia ter terminado aqui, mas não, meus amigos, não terminou...)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

[zambézia] o meu hospital no gilé #11

 
Conversando e passando o tempo no pátio do hospital, à espera que a saúde dos familiares melhore...
(Gilé, Zambézia)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

[o mato em lisboa #9] fintar a burocracia



(continuando a história do Lázaro...)

Foi então que percebemos o que estava a bloquear a vinda do irmão do Lázaro de Angola para Portugal para lhe doar medula óssea. Até aí tudo nos tinha passado pela cabeça... A embaixada garantia que não havia problema nenhum, mas não tinha conhecimento de nada. Ainda nem sequer tinha sido formalizado o pedido do visto da criança. Seria então a família que estava a bloquear o processo? Será que o pai não podia ou não queria acompanhar o filho a Portugal? Será que pensavam que o procedimento podia pôr em risco a vida do irmão? Pensariam que o menino podia ficar sem ossos ou "contaminado" com a mesma doença?

Não, não era nada disso. O problema era muito mais simples, mas praticamente intransponível: o passaporte não tinha sido emitido porque o pai não tinha apresentado nenhum documento da Junta Médica dizendo que o menino precisava de vir. E a Junta Médica não emitia esse documento sem o passaporte. Ah, a burocracia no seu melhor!

Mas o missionário amigo da minha querida M., habituadíssimo a estes assados, no mesmo dia engendrou a solução: tínhamos de ser nós a emitir um documento a atestar a necessidade premente de enviar o Lito-aliás-Alexandre o mais rápido possível para Portugal.

Pronto, se era esse o problema, era para já! Documento nós fôssemos, que já lá estávamos! Escrevi o texto mais assertivo da minha vida (só faltou mencionar que o meu pai era o dono daquilo tudo) e enviámos o documento por mail no mesmo minuto.

Horas depois vinha a resposta: não, o documento não estava em conformidade! A pessoa que assinava não tinha título, não estava lá escrito que era director de nada e nestas coisas é sempre preciso um director. Não tinha carimbos suficientes nem selos bastantes. Podia ser verdadeiro mas, aos olhos da máquina burocrática, não era credível. Não passaria! Claro, mas que cabeça a nossa... Pedimos à secretária da enfermaria para carimbar o documento com tudo o que tivesse à mão (até os carimbos do centro de custo foram naquele documento!), digitalizámo-lo e enviámo-lo.

Agora estava tudo certo, respondia o Sr. Padre! Agora achava que sim, que já passaria. Pouco dias depois, o passaporte estava emitido.

Faltava a Junta Médica...

(continua...)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

[nomes que dizem tudo #30] uma dupla imbatível



Missa dominical na Comunidade de Oito Quilómetros... Reparem no pormenor dos beijos-de-mulata suspensos no tecto, alegrando o ambiente!
(Ribáuè, Nampula)


Há alguns anos, na comunidade de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Oito Quilómetros*, em Ribáuè (Nampula), o Padre Gasolina nomeou como animador paroquial o Sr. Cinco Litros.

E durante os anos em que Gasolina e Cinco Litros foram parceiros, a paróquia de Oito Quilómetros foi de vento em popa e floresceu como nenhuma outra na província. Dezenas de jovens descobriram em Oito Quilómetros a sua vocação religiosa. É bonito ver como podem coexistir a harmonia, a fé, a esperança e a concordância sintáctica numa mesma comunidade...

* Uma aldeia assim designada por se situar ao quilómetro 8 da estrada que liga Iapala a Ribáuè. O nome da paróquia pode ler-se inscrito na parede atrás do altar na primeira foto. Para não pensarem que invento nomes e situações... É o problema do costume: a realidade não tem a menor obrigação de ser verosímil.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

[as melhores do serviço de urgência] doença mística...



Ontem uma colega minha, cardiologista de adultos, foi abordada no serviço de urgência pela mulher de um doente internado. Vinha visitar o marido, que acabava de fazer um catecismo* ao coração porque tinha tido uma homilia** no cérebro...

Técnica pioneira, meus amigos, e absolutamente genial! Foi preciso deixar passar a idade média, o renascimento, a idade moderna e mais uns bons aninhos para se passar do exorcismo, que removia demónios do corpo, para o catecismo, que remove homilias alojadas do cérebro, atraindo-as para um catecismo estrategicamente colocado no coração... Não tem como falhar!

* Cateterismo;
** Embolia.

domingo, 19 de agosto de 2012

[outras palavras] confissão de nãozinha, a feiticeira


Mulher curandeira...
(Malema, Nampula)

Sou Nãozinha, a feiticeira. Minhas lembranças são custosas de chamar. Não me peça para desenterrar passados. A serpente engole a própria saliva? Tenho que falar, por sua obrigação? Está certo. Mas fica a saber, senhor. Ninguém obedece senão em fingimento. Não destine ordem em minha alma. Senão quem vai falar é só o meu corpo.
Primeiro, lhe digo: não devíamos falar assim de noite. Quando se contam coisas no escuro é que nascem mochos. Quando terminar a minha história todos os mochos do mundo estarão suspensos sobre essa árvore onde o senhor se encosta. Não tem medo? Eu sei, você mesmo, sendo preto, é lá da cidade. Não sabe nem respeita.
Vamos então escavar nesse cemitério. Digo certo: cemitério. Todos os que eu amei estão mortos. Minha memória é uma campa onde eu me vou enterrando a mim mesmo. As minhas lembranças são seres morridos, sepultados não em terra mas em água. Remexo nessa água e tudo se avermelha. Lhe inspiro medo? Por essa mesma razão, o medo, eu fui expulsa de casa. Me acusaram de feitiçaria. Na tradição, lá nas nossas aldeias, uma velha sempre arrisca a ser olhada como feiticeira. Fui também acusada, injustamente. Me culparam de mortes que sucediam em nossa família. Fui expulsa. Sofri. Nós, mulheres, estamos sempre sob a sombra da lâmina: impedidas de viver enquanto novas; acusadas de não morrer quando já velhas. Mas hoje me aproveito dessa acusação. Me dá jeito pensarem que sou feiticeira. Está ver? Meus poderes nascem da mentira. 
Mia Couto in A Varanda do Frangipani

sábado, 18 de agosto de 2012

[a melhor piada blogosférica] pickwickian syndrome

Na quinta feira passada, a São João escreveu:
Resumo do dia de ontem: acordei, tomei o pequeno almoço, fui dar uma volta a pé, almocei, dormi a sesta, bebi um chá com torradas, tentei ler o Pickwick mas adormeci (...)
Bem... se calhar só eu é que dei pela piada, mas é muito boa*!

* Pronto, pronto, não digam que sou hermética. Os que não estudaram Medicina podem ir ali documentar-se sobre o assunto.

[o mato em lisboa #8] catch-22


O double bind da burocracia...

Continuando a história do Lázaro, o menino de Angola internado no nosso hospital em Outubro de 2011, por uma aplasia medular... se bem se recordam, ele precisava de um transplante de medula óssea e tinha um irmão compatível em Luanda. O problema era que a burocracia para trazer o irmãozinho de Angola para Lisboa estava a tornar-se intransponível e o Lázaro piorava de dia para dia...

Foram semanas, que se transformaram em meses. Volta e meia contactávamos a embaixada e... nada. Nem sequer tinham conhecimento da vinda do menino. Não tinha entrado nenhum pedido de visto para Portugal com aquele nome, respondiam. Não sabiam de nada. Não podiam fazer nada. E nós não entendíamos. Pedíamos, questionávamos, enfurecíamo-nos, praguejávamos baixinho, mas em vão. De que é que nos servia ter tudo para tratar e voltar a dar vida ao nosso menino se o dador estava a milhares de quilómetros dali, sem meio de vir para salvar o irmão?

Ora então, estávamos na parte em que me lembrei que a minha querida amiga M. nos poderia ajudar e ela me respondeu que sim, que era amiga do bispo da diocese onde vivia a família dele.

Dias depois recebi o mail de um missionário que num fim-de-semana tórrido se meteu no carro e foi procurar a família para ver se conseguíamos perceber o que estava a bloquear a vinda do irmão. As referências que lhe tínhamos dado eram unicamente estas: viviam "no Cacuaco, ao pé da Praça do Kikolo". Fomos ao Google Earth espreitar o bairro para perceber se com aquelas coordenadas seria provável que os encontrasse, mas ficámos desolados. O bairro era intrincado demais, labiríntico demais, povoado demais... Só com um milagre. Mas pronto, já sabemos que é precisamente nestas circunstâncias que a magia acontece. E o missionário dizia-nos:

O pai ficou imensamente feliz por eu ter ido lá, ao fim do mundo, à procura da sua casa. Foi uma manhã inteira no meio do inferno de trânsito que Luanda se tornou, horas de perguntas aos transeuntes. Persegui todas as pistas como um louco. Mas valeu a pena. "Ainda bem que há gente que se interessa pelos pobres!", - foi a sua exclamação e agradecimento.

O missionário foi então aos serviços onde o passaporte do menino estava retido há meses. Os funcionários não o tinham emitido porque não lhes tinha sido apresentado um documento da Junta Médica dizendo que o menino iria para Portugal para doar medula óssea ao irmão. Mas a Junta Médica só podia emitir o tal documento em face do passaporte.

Pois... there was only one catch and that was Catch 22...

(continua...)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

[zambézia] o meu hospital no gilé #10


A família de uma criança internada na enfermaria de Pediatria, deslocada em peso para acompanhar os pais, almoça calmamente no pátio do hospital enquanto aguarda a evolução da doença.
(Gilé, Zambézia)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

[outras palavras] inspiração para uma despedida



Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes, como uma moeda,
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que só tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
E porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?

Caiu o livro que sempre escolhíamos ao crepúsculo
e como um cão ferido rolou a meus pés a minha capa.

Sempre, sempre te afastas nas tardes
para onde o crepúsculo corre, apagando as estátuas.

Pablo Neruda in Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada

terça-feira, 14 de agosto de 2012

[zambézia] mais um momento arrebatador!



Mais um momento para quem, como eu, ama a língua Macua e se encanta com as músicas e as danças... E, já rendidos a esta alegria, ao minuto 04:38, eis que vemos o bispo a dançar e um albino adulto (adulto!) a dançar também no meio do povo! [Para os que não entenderam de imediato o que isto tem de raro e extraordinário, sugiro que vão um pouco mais às profundezas deste mato.] Quem pode dizer que a Zambézia não é uma província maravilhosa?
(Gurué, Zambézia)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

[zambézia] momentos de alegria na comunidade



Ontem descobri este vídeo no youtube e não resisto a partilhá-lo convosco! A Zambézia é, de facto, fantástica. Quase me emocionei de ouvir cantar em Macua, de ver as crianças a dançar... e saber que isto foi filmado no Gurué, a minha terra de sonho... No final vemos D. Francisco Lerma, que conheci pessoalmente, era ele bispo havia pouco mais de um ano. Vi-o nas vésperas de partir para Roma. Dizia com muito boa disposição que ia a Roma "fazer o curso obrigatório para aprender a ser bispo, que estava a conduzir a diocese sem carta".
Boa semana para todos!
(Gurué, Zambézia)

domingo, 12 de agosto de 2012

[das coisas realmente importantes] um sorriso

Eu sou uma pessoa que acredita piamente que a boa disposição é determinante para sobreviver às provações da vida, acredito que o sorriso e o bom-humor melhoram o prognóstico de qualquer doença, acredito que um sorriso ou, nos mais afoitos, uma gargalhada, liberta, refocaliza e aumenta a produção de endorfinas*. Um sorriso fortalece o sistema imunitário e dá-nos força anímica para lutar! Aliás, de que serve vencer o que quer que seja, se não for com um sorriso nos lábios?

Uma das coisas que sempre fiz, mesmo quando ainda não era médica, foi tentar fazer rir as pessoas mais tristes. Se estivesse algum doente em fase terminal, aproximava-me dele, e ia ver de que precisava. Na altura tinha mais tempo, claro, porque não contavam comigo para trabalhar e portanto estava por minha conta. Eram estes os doentes de que ninguém queria cuidar por estarem a morrer. Não é fácil lidar com os próprios sentimentos e com os dos outros. E é difícil descortinar um sentido no fim da vida. Mas, por pior que estivessem, conseguia quase sempre fazê-los rir com qualquer coisa e apaziguá-los no meio da angústia final. Sem desrespeito pelo momento, claro. É uma questão de sentir o outro e intuir a oportunidade.

Ontem descobri que felizmente ainda não perdi essa capacidade. Ontem, no funeral de uma doente minha, uma menina que eu conhecia há seis anos, depois de um abraço e de rezar com a mãe, consegui dizer-lhe uma frase que a fez sorrir. E depois de lhe arrancar um sorriso, via-a levantar a cabeça e encarar novamente as pessoas ali presentes...

* Assim uma espécie de anticorpos contra a dor, quer da alma quer do corpo.

[casa do gaiato] instantes



Já vos falei várias vezes da Casa do Gaiato de Maputo. Assim uma espécie de Fundação Gulbenkian em Moçambique, com um orfanato, escolas, centros de saúde, projectos de microcrédito e mil outras actividades que ajudam a casa a auto-sustentar-se e onde os meninos podem aprender o gosto pelas profissões que vão desempenhar no futuro. Agora, por causa da crise, estão a passar dificuldades porque muitos dos apoios foram cortados, no meio da política de contenção de despesas da UE... Deixo-vos com algumas imagens do que é aquela mini-cidade!
(Boane, Maputo)

sábado, 11 de agosto de 2012

[outras paragens] momento national geographic



Uma improvável crise maníaca nas profundezas do Quénia...
Via Nunca é Tarde, um site que só descobri ontem, quando estes simpáticos senhores me vieram visitar... mas enfim, nunca é tarde.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

[welcome to africa] o alfaiate maasai


Improbabilidades da savana...  Fashionism a toda a prova!
Via Afri Tailor

[zambézia] o meu hospital no gilé #9




Mais imagens da antiga enfermaria de Medicina (felizmente já demolida), palco dos cenários mais tristes a que já assisti na minha vida...
(Gilé, Zambézia)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

[zambézia] o meu hospital no gilé #8



O telheiro vergonhoso que servia de enfermaria de Medicina no hospital do Gilé, onde ficavam internados, quase a céu aberto, os doentes mais graves. Isto antes de o Sr. Pompisk (um beijinho e saudades para ele) mandar, a suas próprias expensas, construir uma enfermaria de pedra e cal, com electricidade e água canalizada...
(Gilé, Zambézia)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

[alhos e blogalhos] ousadias...

Todos os dias chega a este mato gente angustiada com uma questão a que eu já respondi diversas vezes. E, mesmo assim, muitos ainda conseguem errar o post. Todos os dias sai daqui gente cabisbaixa, sem um sim, sem um sopas, sem uma pista de qualquer tipo quando tudo o que bastava era rezar um responso ao meu Santo Antoninho do Google ali naquele quadradinho à direita, que ele fazia o trabalho todo...

Estou cansada, meus amigos, será que ainda não chega? Será que, por mais que tranquilize as pessoas que vêm de propósito aqui ao mato buscar respostas como se eu fosse um curandeiro, tenho de voltar sempre a responder à mesma pergunta? E tudo por culpa desta história.

Mas hoje resolvi responder novamente. Uma senhora ganhou a minha simpatia porque veio parar aqui tão longe com a seguinte pergunta:

- É possível beijar ousando prótese dentária?

E a minha resposta de hoje é, sem qualquer sombra de dúvida: Ouse, minha amiga, ouse sempre! Não tenha medo de ser ousada, que o mundo é dos ousados e a sorte protege os audazes! E o que se leva desta vida é o que se fez com o coração. De qualquer forma, minha querida, eu digo-lhe mais um segredo: ninguém beija com os dentes, sossegue. Esteja tranquila, que vai tudo correr bem.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

[vozes brancas* #75] e o polvo da enfermaria

Há tempos, numa das enfermarias do meu hospital, tínhamos um menino internado desde o nascimento por problemas de saúde vários. Era um dos nossos muitos bijous... Um espertalhaço! Falava imenso. Queria estar sempre acompanhado, fazia birras de meia noite quando não lhe dávamos atenção. Um dia, tinha ele quase dois anos, uma colega minha estava a calçá-lo depois de o observar e perguntou-lhe:

- Vasquinho, quantos pés tens?
- Oto.
- Oito? Hahaha, temos um polvo na enfermaria!
- Não, oto!
- Não, Kinho, são dois, conta lá.
- Não: um e outo.

Um e o outro. Claro! A vida é simples, pois então!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

[outras palavras] olhares de paixão



Mulher macua com pasta de mussiro na face.
(Ilha de Moçambique, Nampula)
“She walked with measured steps, draped in striped and fringed cloths, treading the earth proudly, with a slight jingle and flash of barbarous ornaments.
She carried her head high; her hair was done in the shape of a helmet; she had brass leggings to the knee, brass wire gauntlets to the elbow, a crimson spot on her tawny cheek, innumerable necklaces of glass beads on her neck; bizarre things, charms, gifts of witch-men, that hung about her, glittered and trembled at every step.
She must have had the value of several elephant tusks upon her. She was savage and superb, wild-eyed and magnificent; there was something ominous and stately in her deliberate progress. And in the hush that had fallen suddenly upon the whole sorrowful land, the immense wilderness, the colossal body of the pensive, as though it had been looking at the image of its own tenebrous and passionate soul.” 
Joseph Conrad in Heart of Darkness

domingo, 5 de agosto de 2012

[o mato em lisboa #7] vencer a distância

Já prometi que vos voltaria a dar notícias do Lázaro, o menino Angolano internado há meses e meses no meu hospital com uma aplasia medular. Tem a mesma doença que a Arina, a menina de Cabo Verde que mobilizou recentemente a sociedade civil natural de Cabo Verde e residente em Lisboa.

O Lázaro, porém, tinha a sorte milionária de ter um irmão compatível! E o seu pai percorreu durante meses os caminhos da burocracia, da humilhação e da indiferença para tentar trazer o irmão do mato para Lisboa. "Dos pobres ninguém se lembra", lamentava-se por telefone à mãe desolada que, impotente e aprisionada no quarto do filho, rezava e via o tempo passar, enquanto o marido desesperava no caminho...

Foi então que me lembrei da minha amiga M. Não sei se já vos falei dela, meus amigos. A minha amiga M. conhece toda a gente, sabe de tudo o que se passa, é amiga de toda a gente e toda a gente lhe pede e lhe deve favores. Estão a ver a Agência Reuters? É mais ou menos ela, mas para os países Lusófonos. É uma pessoa absolutamente fantástica. Sabe sempre quem vem e que parte. Como quando e onde. É a pessoa de quem me valho quando estou preocupada com os meus afilhados em Moçambique, quando preciso de lhes enviar alguma coisa, quando me pedem algum medicamento que não existe lá, quando quero saber como está alguém. É a pessoa que tenho por garantida e com quem sei que posso sempre contar!

E foi, portanto, assim que me lembrei de pedir ajuda à minha amiga M. O Lázaro já merecia que eu a fosse incomodar mais uma vez. Enviei-lhe um SMS a explicar a situação e ela respondeu-me, simplesmente: "Diz-me como se chamam, tenta saber onde é que vivem e um ponto de referência da casa dentro do bairro".

Fomos perguntar à mãe do Lázaro. A família Mandimba vivia no Cacuaco, ao pé da Praça do Kikolo... onde quer que isso fosse. A resposta não se fez esperar: "Bem, o Cacuaco pertence à Diocese do Caxito. O Bispo é meu amigo!" Ah... a M. no seu melhor!

O Bispo do Caxito era amigo da minha amiga M. Afinal havia esperança!

(continua...)

[welcome to mozambique] o fenómeno sporting em moçambique


In Sporting we trust! Everyone else has to work hard to prove his worth!
(Ilha de Moçambique, Nampula)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

[vozes brancas* #74] ruídos hidro-aéreos

Esta manhã, no serviço de urgência, um menino de quatro anos, amoroso e sorridente, muito embora a dor de cabeça e os vómitos que o acometiam desde a madrugada... Geralmente os vómitos e as dores de cabeça deixam os meninos absolutamente knock-out, mas este menino não se podia dar a esse luxo, que tinha uma mãe nervosíssima. Mal continha as lágrimas à sua frente, sempre a pensar no pior e a verbalizar a catástrofe. Aquele pequeno homem tinha de andar direito, levantar a cabeça e confortar a mãe.

Observei-o deitado na marquesa, com a mãe a abraçá-lo e quase a implorar-lhe que ficasse melhor. Palpei-lhe a barriga, ouviu-se um gorgolejar por debaixo dos meus dedos e ele gemeu um pouco. A mãe, aflitíssima:
- Filho, dói-te a barriga, não dói? Ainda não tinhas dito à mãe!
- Não, mãe, não é nada. Isto são barulhos de comer!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

[improbabilidades] conversas de snack-bar

No bar do meu hospital:
- Boa tarde, por favor, tem batatas fritas de pacote?
- Sim, que sabor?
- Batata frita simples, sabor a batata frita.
- Isso não temos. Temos batata frita com sabor a presunto, batata frita com sabor a ketchup, batata frita com sabor queijo...

Pronto. Era só isto. Estamos na silly season e temos de nos comportar como tal. Fiquem também com esta... Maravilhosa!