sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

[outras palavras] na procura de uma resposta...



Todos nós andamos a aprender a ser felizes. Acredito que andaremos toda a vida a fazer ensaios e experiências para encontrarmos verdadeiramente a felicidade. Um dia deste, numa das minhas visitas às comunidades, encontrei um ancião que me perguntou: “olhe para este povo como é pobre e feliz, o seu povo também é assim?” eu fiquei a olhar para aquele velho maconde. Não, porque não tivesse entendido a pergunta, mas o porquê de a ter feito a mim, que acabava de chegar àquela aldeia e pouco ou nada ainda tinha visto. Fiquei calado durante bastante tempo, a olhar para tudo e para todos. Depois de alguns minutos, de conversa comigo mesmo, respondi: “por agora não poderei dar uma resposta, talvez no fim da minha visita.” A visita durou três dias.

Alguém me tinha dito na sede da missão, para ter muito cuidado com as minhas respostas, de um modo especial, aos mais velhos das comunidades. Porque são pessoas que se preocupam com a grandeza dos corações que os visitam. Por isso, fazem muitas perguntas e analisam ao pormenor as respostas. Não se pode falar de qualquer maneira. Eles estão fartos de gente que lhes rouba os segredos, como os sociólogos, os antropólogos e os historiadores. Para eles, esses não sabem, nem entendem a sua forma de viver. Só vêm a realidade com a cabeça, sem o coração. Vão muito preocupados, em querer entender tudo, mas não sentem nada. Deixam o coração em casa, dizia um animador zonal, a propósito da pergunta que me tinha sido feita. Certamente, que aquele ancião olhou para mim como um possível ladrão de segredos. Ele queria que eu visse a cor das coisas não por fora, mas por dentro.

Aqui, o pulsar da vida é muito diferente do nosso. Nesta terra vermelha somos convidados a partilhar gestos simples: como um sorriso, um aperto de mão, um parar para escutar o que o outro tem para dizer... realidades que no nosso mundo ocidental já perderam alguma cor e encanto.

A vida deste povo tem muitos segredos. Ela manifesta-se como vêm as coisas; como as sentem; como as usam e apreciam; como vivem o dia-a-dia; como olham para a natureza, para a vida e para a morte; como se relacionam com os outros e com o mundo; como festejam as suas vitórias, nascimentos, derrotas, tristezas e mortes.

Durante aqueles dias, em que fui um deles, observei que ninguém estava triste, apesar de terem muitos motivos, para estarem aborrecidos com a vida. Muita gente, dias antes, tinha perdido familiares, que morreram de malária e de sida. A chuva caiu tão forte que destruiu as sementeiras, o que fazia prever mais fome, mais miséria e mais morte... Nenhum daqueles rostos tinha uma boa casa, uma mesa farta, automóvel na garagem, trabalho certo, ordenado ao fim do mês... mas mesmo assim, eu via nos seus olhos o brilho da vida, a esperança, a alegria de estarem vivos.

Este povo é rico em humanidade, porque sabem olhar sem protectores de luz, sabem comer sem talheres, sabem dançar sem sapatos, sabem falar com os outros que vivem longe sem necessitar de telemóvel, sabem dormir sem a preocupação do que vão vestir e comer no dia seguinte e sabem falar sem dizer palavras...

A sua forma de estar no mundo permite captar, sentir e viver uma felicidade, que os bens não nos permite ver, sentir nem viver. Por isso, observam mais com o coração do que com a cabeça. Acho que o grande segredo deles é esse. Não fazem muitos cálculos sobre o que têm ou o que podem vir a ter. Vivem o presente com intensidade e com muita humanidade.

Cada um vale por aquilo que é e não por aquilo que tem. Talvez essa seja a grande diferença que existe entre os nossos mundos. Estou a ver algumas pessoas, do nosso denominado primeiro mundo, que em humanidade deixam muito a desejar, mas porque têm muito dinheiro, são muitas vezes, apresentadas como modelos a seguir. Afinal a nossa pobreza é outra e a nossa felicidade é muitas vezes aparente.

Durante aqueles três dias em Bilibiza, uma aldeia no norte de Moçambique, vi como este povo sabe angariar tesouros como a gratuidade do encontro, a partilha do pouco que têm, os laços familiares que os unem e a ligação com o sagrado e a natureza. Tudo é misterioso.

Não quero generalizar raciocínios, nem muito menos dizer, que este mundo em que estou, é melhor do que aquele onde nasci. Já deve estar farto de ler e ouvir este tipo de assuntos... não se zangue, estou apenas a conversar consigo...ajudá-lo a pensar e pedir-lhe que responda comigo aquele velho maconde. Quero que olhe para si e para a sua vida e veja se é feliz. Isto tudo, porque ainda não dei uma resposta aquele maconde de 70 anos.

Eu continuo a aprender verdadeiras lições de vida no silêncio dos olhares e no mastigar simples das palavras. O livro da vida escreve-se com gestos de amor e de partilha, porque esses tesouros ficam para sempre nos nossos corações.

Texto do Pe. J. Torres, Missionário que viveu em Cabo Delgado no meio de Macuas e Macondes e, felizmente, ficou a amá-los como poucos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

[happy birthday, mr. v.]



E porque uma gargalhada às vezes é o melhor presente que se pode oferecer, aqui ficam os meus votos de muitas felicidades para Mr. V. L., correspondente honoris causa deste blogue, e que afinal não reside na África do Sul, mas nessa grande localidade que é o Chimoio! Muitos parabéns e votos de um excelente ano para si e para a sua família!

[beijo-de-mulata é puericulta] exercícios africanos

video

Ora repitam com a Dona Catarina estes exercícios básicos de puericultura africana: como colocar uma recém-nascida na capulana em dois simples passos.
(Iapala, Nampula)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

[improbabilidades] das coisas que, decididamente, só me acontecem a mim...

Os meus anti-retrovirais...

(continuando e concluindo)

Telefonei ao director do hospital, que foi um querido e, em menos de meia hora, arrancou o farmacêutico da cama e foi ao hospital entregar-me pessoalmente os medicamentos que tinha disponíveis para profilaxia: um esquema triplo, com zidovudina, lamivudina e... efavirenz. Não havia mais nada. Era o melhor que tinha. O esquema mais sofisticado! Anti-retrovirais dentro do prazo de validade (por pouco, mas pronto...), em genérico e made in India. Um autêntico milagre, considerando que há muito poucos anos não era sequer possível encontrar anti-retrovirais em todo o território moçambicano, quanto mais assim do pé para a mão e no meio do mato... Agradeci-lhe a amabilidade e a disponibilidade, desculpei-me pelo incómodo e voltámos para casa.

Já em casa, eu e a R. sentámo-nos a fazer aquilo que qualquer médico abomina que os doentes façam: lemos as bulas de uma ponta à outra para nos inteirarmos das reacções adversas possíveis que a medicação me poderia provocar. E do exame cuidado da literatura inclusa concluímos que a reacção adversa mais provável que eu poderia ter era... uma crise psicótica! Isto, com a agravante de estar já a tomar mefloquina para profilaxia da malária, também ela sobejamente conhecida por conseguir provocar psicoses assim gratuitamente. Valesse-me São Vito se para além da infâmia de vir a ter insónias de meia-noite, ainda fosse desta que havia de dar em doida. 

Acho que nem dei pelo dia seguinte. Passei-o a dormir profundamente, com um sono quase patológico. Só me lembro de acordar de quando em vez com o pensamento absurdamente reconfortante de não estar a ter insónias, contente por ainda não ter dado em doida e com a imagem amorosa da R., que não arredou pé dali o dia inteiro, sentada na minha cama, ao meu lado, a ler um livro e a olhar para mim tentando descortinar uma réstia de sentido no absurdo que estava a acontecer. Tudo isto enquanto tentava acalmar as Irmãs, explicando-lhes que aquilo era tudo normal. Que era normalíssimo eu não acordar há quase 24 horas e que só estava a tomar aqueles medicamentos por excesso de zelo, já que a bem dizer, no fundo, no fundo não havia perigo nenhum...

No dia seguinte o sono já não era nada comigo. Insónias também não. Quanto aos outros efeitos secundários possíveis, as náuseas, vómitos, dores de cabeça, diarreia, crises psicóticas, crises maníacas, depressão, ansiedade, mucosites, icterícia, falência hepática, pedras nos rins e o diabo a quatro (ou a sete, que como sabem um diabo nunca vem só e quatro diabos trazem no mínimo mais três, atrelados, como damas de companhia), nem ao de leve me pegaram! E foi assim que concluí que estava certamente a tomar um placebo. Também, o que é que eu havia de querer de uns pobres anti-retrovirais genéricos made in India adquiridos pela Direcção Distrital da Saúde do Gilé? Mas à cautela lá os fui tomando.

Só comecei a pensar que se calhar os medicamentos afinal talvez não fossem só Farinha Amparo quando uma madrugada acordei a vomitar e percebi, horas depois, que estava com malária: os anti-retrovirais tinham-me certamente baixado os níveis de mefloquina no sangue e portanto tinha deixado de estar protegida. Mas a confirmação de que afinal os anti-retrovirais não eram de contrafacção só a tive em Lisboa quando fiz as análises da praxe: 350 de colesterol, 300 de triglicéridos, função hepática pelas ruas da amargura e... VIH negativo! Decididamente os medicamentos tinham funcionado. Thank you, India!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

[improbabilidades] das coisas que só me acontecem a mim...

Uma criança amorosa e sua mãe no hospital do Gilé (Zambézia, Moçambique).
Não são as protagonistas desta história, tal como se vê pelo olhar vivo de ambas e pelo seu bom estado nutricional.


(continuando...)

Ora, como eu ia dizendo no post anterior antes de me ter perdido, certa noite, no hospital do Gilé, na enfermaria de Pediatria, sofri um pequeno incidente. Um incidente tão peculiar e improvável que se tivesse corrido mal talvez até se tornasse num caso clínico para publicar. Mas como tudo acabou em beleza, foi só mais uma aventura moçambicana e uma história para contar...

Nessa noite, como habitual, eu e a R. fomos ao hospital depois de jantar para ver como estavam os meninos e reparámos que havia uma nova criança na enfermaria, de seus 5 ou 6 meses, que tinha sido internada umas horas antes. Motivo de internamento: desnutrição grave. A mãe, que a acompanhava, estava também visivelmente desnutrida e doente e ia contando à R., no meio de tosse e calafrios, que a sua menina estava desnutrida porque ela tinha deixado de ter leite havia três semanas... Arrebitei a orelha! Que ouvira eu de raspão, voltada de costas a observar uma outra criança? Aquela mãe perdera o leite?! Metida em brios, entrei em acção de imediato:

- Mas, mamã, não tem nem uma gota que possa estimular? - perguntei.
- Não, não tem mais leite.
- Mas, mostre, mamã, não tem mesmo nem uma gota? - já vos disse que consigo ser chata-como-a-potassa? Só para confirmar...
- [Com um olhar infinitamente triste] Não...
- [No meu macua macarrónico] Mas olhe, nós podemos dar-lhe um medicamento para fazer o leite voltar. Não tem mesmo nem uma gota? Mostre lá...

Consegui, então, convencer a senhora a fazer a expressão do leite para ver se pelo menos teria "uma gotinha que pudesse estimular" e ela mandou-me, sem cerimónias, um esguicho de leite materno, abundante e certeiro, para o meu olho direito! E, pronto, meus amigos, foi então que compreendi que afinal, neste caso, o problema não era de todo ausência de leite materno. A menina tinha deixado de aumentar de peso porque estava doente e não porque a mãe tivesse perdido o leite!

Fiquei para morrer... Aquela senhora pálida, emagrecida, com feridas na boca e olhos mortiços bradava a quem a olhasse com mais atenção que estava infectada com o vírus da sida. Tinha uma carga viral certamente elevadíssima porque de outro modo a filha não estaria desnutrida e, portanto, juntando dois mais dois, isto queria dizer que eu tinha acabado de levar com um esguicho de leite materno, certeiro e abundante, carregadíssimo de VIH, directamente nos olhos...

A R., que assistira a tudo como que em câmara lenta e previra o acidente fracções de segundos antes, só não me esganou com o estetoscópio porque não calhou... Como pudera eu ser tão loira, tão imprudente, ó valesse-lhe a Santa do Pau Preto, repreendia-me enquanto me lavava os olhos com soro fisiológico e pegava na ficha da criança para confirmar o diagnóstico que literalmente se metia pelos olhos adentro... A ficha da criança confirmava a nossa suspeita: filha de mãe VIH positiva! Terminámos o que tínhamos a fazer e fomos para casa tentando acalmar-nos. Que a probabilidade de contágio era ínfima, que nunca tal se vira, Santo Deus, e então logo com leite materno, haveria coisa mais improvável? É que nem valia a pena pensar mais no assunto...

Mas eu estava com os cabelos em pé... Enfim, vocês já me conhecem. Eu até sou uma optimista por natureza. E sou católica. No fundo, eu estou quase sempre plenamente convencida de que "o meu pai é o dono disto tudo" e portanto nada de mal me pode acontecer, mas daquela vez, talvez pelo adiantado da hora, pelo modo como me dera conta do diagnóstico ou pela sensação de ter sido apanhada desprevenida, não estava descansada... E também sou da opinião de que, apesar de ser filha do dono disto tudo, nunca nos devemos fiar na Virgem sem tentar fugir. E instalou-se a dúvida, deveria ou não fazer profilaxia com anti-retrovirais? Lá peguei no telemóvel e telefonei para Lisboa a uma colega especialista nestes assados, que foi peremptória: era mesmo para fazer terapêutica. Tripla se possível, mas que não tomasse efavirenz porque aquilo dava umas insónias desgraçadas, que me poderiam arruinar o resto da estadia.

E pronto, lá me rendi à evidência de que tinha pouco mais de duas horas para começar profilaxia e teria de procurar arranjar anti-retrovirais, esquema triplo sem efavirenz, dentro do prazo de validade, àquela hora da noite, em que já mais de metade do Gilé estava deitado e a outra metade estaria a pensar que também já iam sendo horas de procurar a horizontal...

(continua)

[pequenos milagres] a fonte dos amores que jorra do peito

Criança e sua mãe na Ilha de Moçambique, Nampula.

Faz agora três meses que uma bela noite, na enfermaria do hospital do Gilé, fui vítima de um pequeno acidente...

E vamos agora dar início a um longo parêntesis, que explica muita coisa sobre este pequeno incidente, é certo, mas que é totalmente desnecessário para a compreensão do essencial da história, portanto se tiverem de ir trabalhar/ dormir/ dançar/ outra-coisa-qualquer-que-honestamente-se-possa-fazer-em-vez-de-ler-este-blog ou se se recusarem a ler um post com este título inacreditavelmente piroso e quiserem passar directamente ao post seguinte, estejam à vontade.

[Meus caros amigos, quem vem aqui ao mato desde a sua fundação, quem já andou a cuscar ali pelas colunas da direita no estórias antigas, saudades loucas [andam amigas a beijar de boca em boca*] e foi parar a um milagre que certa vez aconteceu em Iapala, ou até quem me conhece pessoalmente sabe que sou uma fervorosa entusiasta do aleitamento materno e uma apaixonada, uma deslumbrada pelo realeitamento. Ou bem... pior, muito pior. Quem me conhece melhor sabe que tenho a mania que consigo fazer com que as mães tornem a produzir leite depois de o terem perdido e que levo sempre comigo, na minha bagagem para África, um medicamento que estimula a produção de leite e que anuncio como a última coca-cola no deserto!

Pior... ainda pior: quem me conhece verdadeiramente sabe que em África me recuso a fornecer leite de lata às crianças enquanto não estiver convencida de que o leite não vai voltar. E que já fiz verdadeiras loucuras neste capítulo, tais como como fazer com que uma tia, cujo filho mais novo tinha quatro anos e que já não mamava há dois, voltasse a ter leite para amamentar a sobrinha, uma prematura de 900 gramas que entretanto tinha perdido 200, mas que mamava de olhos abertos e com o vigor de quem se recusa a morrer! Isto porque a mãe da criança estava a morrer de sida e estávamos num local onde não havia água potável para fazer leite artificial para aquela bebé.

Quem assistiu a este último episódio da minha vida em África sabe que ninguém acreditou naquilo ao princípio. Que eu própria duvidei da minha sanidade mental várias vezes (embora nunca o tivesse admitido, era só o que faltava!). Quem lá esteve sabe que, enquanto o leite não voltou, eu ia dando com a tia e com as enfermeiras da maternidade em doidas e que consegui, efectivamente, enlouquecer a colega que estava comigo na altura. Eu própria ia ficando louca e provavelmente nunca recuperei deste estado assim tem-te-não-caias... Ou já estaria antes? No meio daquilo tudo, o que tenho a dizer é que a tia foi uma autêntica heroína e a sobrinha bebé uma lutadora de mão cheia.

Naqueles dias de desgaste e angústia socorri-me de tudo o que me lembrei ou inventei que nos pudesse ajudar: dei-lhe o tal medicamento que vai sempre comigo, mandei chamar o curandeiro mais afamado das redondezas, mandei buscar a D. Catarina - a antiga parteira de Iapala, que entretanto se reformara - e dei-lhe a comer feijão-jugo** como se não houvesse amanhã, cozinhado pelo Sr. Barril, o cozinheiro das Irmãs, a quem a história passou completamente ao lado e que, portanto, se deu em doido foi por causas inteiramente estranhas a este episódio e declinamos qualquer responsabilidade pelo sucedido. Mas penso que ele por acaso não deu em doido. Só achou um pouco bizarra a minha insistência em comer feijão-jugo todos os dias, mas não fez perguntas...

A bebé, por fim, acabou por ser baptizada com o nome da minha colega, que passou a acreditar em milagres, embora eu lhe jurasse a pés juntos que aquilo que acontecera estava longe ser exótico e tinha bases científicas. O problema é que depois disto fiquei ainda mais convencida de que o realeitamento é possível. E se em Lisboa sou capaz de convencer as mães dos meus meninos de que a coisa resulta (e, efectivamente resulta muitas vezes!), muito mais em África, onde o aleitamento materno representa a única hipótese de sobrevivência das crianças.

Isto tudo para dizer, meus amigos, à laia de conclusão, que consigo ser chata-como-a-potassa no que concerne à problemática do realeitamento materno, que nutro particular interesse pelo fenómeno e que ele resulta muitas vezes.]

Ora, adiante!

(continua)

*Eu sei que no original é bailar e não beijar, não me arreliem... E quanto às amigas, não prescindo delas!
** Feijão-jugo é uma leguminosa africana que tem nome de feijão, cultiva-se como o amendoim, come-se como o tremoço e sabe a grão-de-bico. Dizem que também tem a capacidade de estimular a produção de leite materno.

domingo, 26 de dezembro de 2010

[as melhores do serviço de urgência] o meu natal dos hospitais

Fernando Botero, 1981

Na noite de Natal, estava com a minha equipa de banco no hospital, já a meia-noite se aproximava e nós com mais de três horas de espera e quarenta meninos ainda por ver, e chamo pelo intercomunicador um adolescente cuja ficha de triagem dizia que vinha ao Serviço de Urgência por vómitos "persistentes" desde há... uma hora.

Entra-me, então, pelo gabinete de consulta uma família de obesos. Daquelas que fazem lembrar a história da menina rica: o pai era obeso, a mãe era obesa, a filha era obesa, o jardineiro era obeso, o cozinheiro era obeso... E dizia a mãe:
- Pois, doutora, eu nem queria vir. Eu até disse ao meu marido, é melhor não irmos, que vi na televisão que aquilo nas "orgências" está tudo tão entupido que a gente ainda apanha para lá uma anorexia nervosa!

[E era verdade, meus amigos! Aquilo foi para lá uma salada tão grande, valha-me Santa Rita de Cássia, que nessa noite ninguém jantou uma folhinha de alface sequer... Isto, obviamente, até às tantas da madrugada, altura em que me atraquei às pataniscas de bacalhau e ao pão-de-ló que a D. Teresa - a santa senhora que mantém a minha casa habitável - amorosamente tinha preparado de véspera para a nossa ceia natalícia.]

sábado, 25 de dezembro de 2010

[improbabilidades de natal] gémeos

Nossa Senhora teve gémeos! "Dupla encarnação de Deus" disseram espantados São José, o burrinho e a vaquinha. (Serão biologicamente monozigóticos?)

Post dedicado à Ana, à Sara, à Catarina e à Marta porque se o Natal tivesse sido assim, a história da religião católica poderia ser hoje ainda mais profunda e rica... Sejam muito felizes! Para a Marta: tenho a certeza de que vai tudo correr bem! Beijinhos.

Foto genial da Malguitcha...

[welcome to mozambique] deus é moçambicano!

... mas o menino desconseguiu!

(Texto de Francisco Campos, sj)

Já todos percebemos isso há muito tempo. De outro modo, como poderíamos ver nesta terra, que poderia ser um paraíso para todos e ainda não o é, milagres daqueles enormes, que nos permitem sobreviver?

Já Jesus não é moçambicano. Tentou, mas não conseguiu. Mas essa é uma história de há muito, muito tempo:

- Pai!
- Sim, meu Filho?
- Quero encarnar moçambicano.
- Isshhh[1]!! A doidice entrou donde nessa cabeça?
- Falo a sério, Pai. Quero nascer em Moçambique.
- ‘Cê, ‘cê!! Estás-me a dificultar!... Como pode?... Moçambicano??... Nada!!
- Sim, moçambicano. Que outro sítio poderia eu escolher?
- Actualiza-me[2] lá das tuas razões.
- Há sítio na terra mais perfeito para um presépio? Não há!
- Como quer, você? Os Reis Magos vão desconsiguir encontrá-lo lá! É muito grande aí! Nem com grande estrela!

Aparece, entretanto, o Espírito Santo com preocupações mais pragmáticas por causa da época que se avizinha.

- Bom dia!
- Bom dia, bom dia, obrigado! Da minha parte está tudo bem. E você aí do seu lado?
- Tudo bem. Vinha saber se posso fazer uma máquina de roupa.
- O quê??
- Posso fazer uma máquina de roupa com os paninhos que o Menino vai usar?
- E como se faz?
- Bom...
- Você sabe?
- Acho que sim...
- Então estou a pidir fazer uma máquina, que tenho aqui outros problema.
- Até já, então.
- Está bem.

A atenção virou-se de novo para Jesus:

- Xii Jesus... Está mal!... Moçambique? Eu já sou moçambicano. Não pode todos ser moçambicanos.
- Mas já foram pensadas outras possibilidades?
- Ainda. Mas essa está desquestionada.
- E a pressa? Temos de ser rápidos!
- Afinal? Que dia é?
- Será 25 de Dezembro, como combinámos.
- Issch! Não é? Assim não anima! Preciso de tempo p’ra pensar nisso.
- Na eternidade não há isso do tempo.
- Não é? Maningue nice[3] essa invenção!
- Sim... Mas Moçambique poderia ser considerada ainda uma última vez antes da decisão final...
- Não. Moçambique já tem muitos presépios perdidos.

E é verdade.

Muitos meninos e meninas nascem todos os dias em Moçambique sem nada, embrulhados na capulana[4] suja que servia de saia da sua mãe, com fome, calor, esquecidos por todos e sem uma estrela que guie alguém até si.

Parece que é um Natal que se repete ingloriamente[5], todos os dias e ninguém dá por ele. Mesmo que o bebé chore com todos os seus pulmões. Mesmo que a mãe chore por não ter nada para lhe dar. Mesmo até, que seja dia 25 de Dezembro.

Só se dá pelo calor, pelo suor que teima em correr pelos corpos em diamânticas gotas preciosas que jorram da vida e a salgam. É esse o último esforço e reduto do esplendor do Céu que encarna na terra.

E por isso é Natal em Moçambique. Porque estes “Jesuses” são profundamente amados pelo Pai, nosso Deus, que afinal também é moçambicano. Desejo um Feliz Natal, cheio desta experiência de sermos filhos muito amados pelo Pai, mesmo que por vezes não nos chamemos Jesus, ou sejamos moçambicanos.

[1] Grito de dor, indignação, típico destas bandas.
[2] Informa-me, fala-me.
[3] Muito boa.
[4] Panos típicos mais ou menos coloridos, mas sempre com um padrão, utilizados para tudo o que for preciso, desde roupa, a porta-bebés nas costas, panos de limpeza,...
[5] Não se ouve Gloria in excelsis Deo em quase parte nenhuma.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

[vozes brancas* #34] santa claus ou santa ingenuidade...

No Serviço de Urgência, nos momentos em que temos de entreter crianças que não conhecemos enquanto lhe espreitamos para dentro dos ouvidos à procura de Noddys e Bobs-o-Construtor imaginários e enquanto lhes palpamos as barrigas, a conversa de circunstância (vulgo conversa de elevador, vulgo conversa de chacha) gira habitualmente em torno dos mesmos assuntos, os nomes das educadoras, os namorados, os melhores amigos... Felizmente, nos últimos dias pudemos variar de assunto e falou-se animadamente sobre presentes, pedidos especiais ao Pai Natal e a tão aguardada vinda do senhor das barbas.

Ontem, uma amiga minha ia sempre perguntando a cada criança:
- E então, pediste muitos presentes ao Pai Natal?
Todos iam mais ou menos respondendo que sim, que tinham pedido muita coisa, que tinham pedido isto e mais aquilo, até que, lá para as três da madrugada veio uma menina de quatro anos, deliciosa, que respondeu que tinha pedido apenas um presente.
- Só um?! E o que foi que tu pediste?
- Pedi o Nenuco cabeleireiro.
- Olha, mas sabes, o Pai Natal pode não encontrar aquilo que tu lhe pediste...
- Encontra sim! Até há no Continente!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

[se belém fosse em ocua] o cajueiro de natal



Pequeno Conto de Natal
Porque a vida é mais bonita do que pensamos...

Em Dezembro, em Ocua, era Natal e entardecia sem que por perto qualquer sinal nos pudesse dar testemunho da data. Tempo de fome, de seca e calor asfixiante, em que a chuva tardava como uma noiva cruel, abandonando as sementeiras e o povo no altar, no desespero de uma boda por mil vezes não consumada, de uma promessa de frescura mil vezes adiada... Era Natal e o calor era irrespirável. Era Natal e ao entardecer não havia luzes nas ruas, ninguém a correr a comprar os presentes de última hora, nenhuma árvore ornamentada. Era Natal e, inquietantemente, faltava o cenário, faltava o tom que o pano de fundo imprime no estado de espírito... mas aparentemente só nós o sentíamos. Tudo o resto, alheio à inquietude que nos vivia por dentro, decorria na rotineira placidez de África.

Se Jesus menino tivesse nascido em Dezembro em Moçambique, uma capulana teria bastado para o aquecer. E se Belém fosse em Ocua, em vez da vaquinha e do burrinho no estábulo, talvez uma qualquer ave do mato tivesse batido as asas num leque improvisado, oferecendo um sopro refrescante ao seu corpinho de menino... Que nestes casos a poesia da religião e o seu lado de Alice no País das Maravilhas, de fábula, magia e metáfora têm sempre forçosamente de assomar.

Mas foi precisamente aqui que a Natureza nos declarou, estridentemente, o quanto tínhamos sido injustos. Que tudo quanto a Europa faz de uma forma sistemática, asséptica e geométrica, África improvisa e encanta. E foi quando, em Ocua, em frente à casa da Missão, o cajueiro se encheu de centenas de pirilampos, numa árvore de Natal natural erguida na noite, com mil pequenas luzes piscando.

Post dedicado à Sandra e ao Padre J. Torres, que viveram em Ocua (Cabo Delgado, Moçambique) alguns dos melhores anos das suas vidas. A história é verídica. Foi a Mila quem ma contou.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

[sophia] post onde se explica por que é que todos os santos têm um passado

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

Sofia de Mello Breyner Andresen

(Ainda bem que foste tu quem o disse, Sophia...)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

[bem, e já que o assunto era este...]



...e porque hoje me apetece praguejar! E porque estou tão amarga que coloquei uma vírgula de Oxford e nem me dei conta...

[vozes brancas* #33] momentos que ficam gravados a fogo

Durante uma consulta na semana passada, duas irmãs, uma de quatro anos e outra de sete, afadigavam-se em competição desenfreada para ver quem seria a primeira a conseguir pôr a cabeça da pediatra em água ou a levar dois berros da mãe. O que acontecesse primeiro seria certamente, naquele contexto, uma vitória pessoal... A princípio, como se o assunto que as trazia lá fosse sério, eu e a mãe ainda tentámos fazer-nos desentendidas. Os desacatos à ordem pública iam acontecendo de forma mais ou menos pacífica. Os risinhos dissimulados, o trepar pacato pela minha secretária acima, os desportos radicais em cima da marquesa e as tentativas de furto do estetoscópio directamente do meu pescoço iam acontecendo sem demasiado ruído ou agitação e nós lá íamos fingindo que aquilo não era nada connosco e que os cabelos que, lenta e progressivamente, se nos iam pondo em pé não eram nossos. Até que a mais nova, certamente mais pragmática ou com menos preserverança, resolveu que para grandes males grandes remédios e se lembrou de recorrer à arma que definitivamente nunca falhava para enfurecer a mãe: os palavrões. E vá de desatar num chorrilho tal, que se fosse dito por um adulto poderia ter feito corar um carroceiro.

[Bem, já tivemos algures esta conversa... já não existem carroceiros, eu sei. Uma vez até chegámos em conjunto à conclusão de que uma comparação mais adequada seria qualquer coisa como "um chorrilho de palavrões capaz de fazer corar um taxista pouco delicado que tivesse sofrido um AVC do lobo frontal", mas enfim, não seria fácil encontrar um taxista com essas características... sobretudo com aquele pormenor do AVC do lobo frontal... Mas pronto, se calhar arrematávamos por aqui, que já toda a gente percebeu a ideia e todos temos de ir trabalhar.]

E foi então que eu dei a minha gargalhada pedagógica (sim, eu acho que a melhor maneira de desarmar uma criança que diz palavrões é achar-lhe graça) e a mãe, ou por não partilhar da minha pedagogia ou por já ter os cabelos em pé, se enfureceu. Ficaram as duas princesas com cara de "desculpa-mãe-se-calhar-fomos-longe-demais-desculpa-desculpa-desculpa" e a mais velha resolveu tentar ver se ainda salvava a situação: pegou na mais nova pela mão, sentou-a na cadeirinha de brincar e disse-lhe com o ar mais grave que que os seus sete anos lhe permitiam:
- Sabes, as meninas que dizem palavrões, quando crescerem não vão ser pincesas... vão ser vacas e porcas!

Ah, o sentido certeiro de oportunidade... Quer-me parecer que esta família nunca mais vai ter de se preocupar com o assunto dos palavrões...

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

[gajas...] não há quem as ature!

Dizia o mentor espiritual desta vossa humilde serva mulata (não, não é o que fez anos aqui há atrasado, esse é o mentor espiritual da loira e por vezes até me vem visitar aqui ao mato, o mentor espiritual da mulata é o senhor da crise de soluços)... Eeerr, se calhar é melhor começar de novo... Dizia o mentor espiritual desta vossa humilde serva que a misoginia podia ser fundamentada por evidência científica. E que até havia um gene, o gene xist - x inactivation specific transcript - que explicava tudo!

Ora, como é do conhecimento dos meus queridos amigos, que são certamente pessoas cultas e avisadas, o genoma feminino inclui dois cromossomas X e o masculino um cromossoma X e um cromossoma Y. Mas há um segredo negro que ensombra esta verdade... Em todas as células das mulheres há um dos cromossomas X  que tem de ser forçosamente inactivado. Parece que nenhuma célula feminina aguenta um cromossoma X em dose dupla... Ou seja, há sempre um deles que é silenciado, amordaçado, oprimido, estrafegado. E é o gene xist quem se encarrega de lhe torcer o pipo. E então, concluía o meu amigo, triunfante, um cromossoma X é bom, dois é demais, nem as próprias mulheres aguentam, não me venham cá com lérias!

Mas pronto, ele era o Lépido...

[pensamentos profundos]

Loucura pior do que se pensar que se está melhor sozinho, só o delírio de pensar que o outro está melhor sem ti...

Mas, como diria o Lépido, nós não temos verdades absolutas. Temos momentos...

[casamentos felizes] por miguel esteves cardoso

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade. Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.

O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais. Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.

Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.

O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.

Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.

Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.

Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.

Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.

Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!

Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.

É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.

Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor. Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.

Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados. Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.

E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.

Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.
Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados. Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios. Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.

Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.

As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.

As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.

Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.

Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.

Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.

No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.

Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.

Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar.

Miguel Esteves Cardoso in Público, citado por esta senhora.

domingo, 19 de dezembro de 2010

[milagres pequeninos] arrefecer os olhos de uma criança

Ontem - ou já terá sido anteontem? Os dias fogem-me na vertigem das urgências e nas angústias das noites sem dormir... - tive uma notícia fantástica! Meus queridos amigos, lembram-se do Helder, o menino que tinha frio nos olhos? O menino que estava em risco de ficar cego porque só conseguia ver o mundo por uma nesguinha de luz? O menino a quem as pálpebras pesavam tanto que preferia andar de olhos fechados e a quem a luz incomodava a ponto de, certo dia, quando o forçaram a abrir os olhos para testar a visão, ter chorado dizendo que os olhos se lhe enregelavam?

Em Nampula há um oftalmologista... o problema é que ele não sabia fazer a cirurgia de correcção de que o menino precisava. Mas em Agosto, precisamente enquanto eu e a R. lá estávamos, surgiu uma oportunidade fantástica: um grupo de médicos espanhóis iria em voluntariado a Maputo durante uma semana para avaliar e operar casos cirúrgicos seleccionados, vindos de todo o país. Uma vinda mil vezes adiada porque o antigo Ministro da Saúde, recentemente deposto, não aprovava a vinda de médicos estrangeiros ao país. Ainda que em voluntariado. Ainda que para servir o seu povo. Ainda que proporcionassem formação de qualidade e gratuita aos seus profissionais... Bem, mas isso são outros quinhentos e o senhor já abandonou o poleiro. Não sei se este novo Ministro aprova a vinda de médicos estrangeiros, mas pelo menos estes vieram sob a sua jurisdição. A ver...

Enfim, mas depois de mil e uma peripécias, as Irmãs conseguiram que o menino fosse um dos seleccionados para ser operado pelos oftalmologistas espanhóis e, com a ajuda dos padrinhos, enviaram o menino e a sua mãe para o Maputo, onde foi operado no Hospital Central. As Irmãs telefonaram-me esta semana a dar a boa notícia e fiz questão de ser eu própria a informar a madrinha do menino em Portugal: ele ficou óptimo! Com uma miopia muito grande mas vai ficar a ver! Só que nos primeiros dias teve dificuldade em adormecer porque, segundo ele, não sabia como é que se fechava os olhos...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

[outras palavras]


"Faz hoje cinco anos que Vaheja morreu. Recordo o dia em que me veio pedir ajuda. Eram 6 horas da manhã, quando abri a porta da minha velha casa paroquial e a vi ali sentada a chorar como uma criança. Era magra e parecia que já não comia à vários dias. Mal ouviu o barulho da porta a abrir-se, disse a choramingar: “Padiri estou só. Não tenho nada, nem mãe, nem irmãos. Não cheguei a conhecer o meu pai. Estou sozinha neste mundo. A única pessoa que tinha, que era a minha tia, morreu ontem à noite”. Olhei para ela e tentei acalmá-la, mas ela estava com demasiada escuridão na sua vida, para entender o pequeno raio de sol, das minhas palavras.

Continuava ali a chorar e de repente como que a gritar a sua própria perdição, disse: “Quero morrer. Quero morrer depressa. Quero tomar veneno, dá-me dinheiro para comprar a minha morte. Sabes, se tivesse tido um pai e uma mãe como tu tiveste, hoje não teria a minha vida arruinada aos 22 anos. Diz-me, porque é que não tive a graça de ter um pai e uma mãe, como tu tiveste?”. Não tinha palavras para dar uma resposta. Perante a dor de alguém sentimo-nos, muitas vezes, vazios por dentro. Naquele momento, o rosto do meu pai e da minha mãe estavam espelhados nas suas lágrimas. Descobri, mais tarde que ela não queria uma resposta de palavras, mas que o cumprimento da minha missão de pastor fosse a resposta ao seu sofrimento.

Vaheja, era o seu nome, que em makhua quer dizer “não tem sorte”. Era órfã de pai e de mãe. Ambos tinham morrido de SIDA, quando ela ainda era criança. Foi entregue aos cuidados de uma velha tia. Era uma rapariga inteligente, mas como não tinha dinheiro foi vítima da prostituição. Alguns professores, mesmo que os alunos sejam inteligentes, exigem dinheiro para ficarem aprovados na sua disciplina. As raparigas que não têm dinheiro, oferecem o seu corpo como moeda de troca. Um desses professores, que violou a inocência de Vaheja, estava infectado com HIV/SIDA. Muitas histórias como esta, estão espalhadas por este Moçambique fora. Parece que não há regras e as meninas ficam entregues à sua própria sorte. Depois de conversar um pouco com ela. Levei-a ao hospital para verem qual era verdadeiramente o seu problema. Estaria com malária ou tuberculose, pensei eu naquele momento. Nem sequer, imaginei que poderia estar infectada com o vírus da SIDA. Ficou internada num hospital a 30 km da sede da missão.

Passados alguns dias, escreveram-me um bilhete do hospital, que dizia friamente. “Padre, venha buscar a doente que aqui deixou. Ela tem SIDA. Não a queremos aqui.” Fui buscá-la com o animador da caridade, da comunidade cristã, onde ela e a tia tinham vivido. Quando alguém fica muito doente e não tem família é a comunidade cristã, que tem de cuidar dela. Deixei-a na sua antiga casa e pedi a toda a comunidade cristã, que enquanto ela estivesse ali, o sacrário da comunidade era ela. Por isso, deviam visitá-la, alimentá-la, como se fosse o próprio Corpo de Cristo, que estivesse ali exposto para adoração de todos.

Todas as semanas a comunidade mandava um mensageiro, para me informar como estava Vaheja. Fui visitá-la algumas vezes. Das últimas vezes que a visitei, sabia que ela não duraria muito mais tempo e ela tinha consciência disso. No seu rosto viam-se todos os ossos, como se fosse uma caveira revestida de pele. Mesmo assim, conseguia sorrir. Eu não falava muito, para que ela não se cansasse. Sentava-me na esteira a contemplar aquele Cristo em grande sofrimento.

Quando viu que era eu que estava ali, pediu-me para que eu encostasse o meu ouvido à sua boca, para me comunicar alguma coisa. Falando muito baixinho e pausadamente disse-me: “Padiri, quero me baptizar e comer o Cristo que tu ofereces aos cristãos”. Perante, aquele pedido, que para mim parecia ser o último da sua vida, disse-lhe que ia à missão buscar o pão e o vinho e que não me demoraria muito.

Corri a grande velocidade para a missão. Sabia, que não podia perder tempo, pois podia chegar tarde. Quando cheguei à comunidade, já tinham arranjado uma madrinha para a Vaheja e um pequeno altar, que colocaram dentro da sua palhota. Baptizei Vaheja e celebrei a Eucaristia, partilhamos o pão como os discípulos de Emaús. Quando lhe dei o Corpo de Cristo, senti uma lágrima sua a cair nas minhas mãos. No fim, da celebração adormeceu com uma expressão de felicidade gravada no seu rosto. No dia seguinte, morreu nos braços da sua madrinha de baptismo.

O mundo é muito mais terrível do que imaginamos e as pessoas são muito mais bondosas do que pensamos. Neste Moçambique há tanta gente que dá do melhor de si, para que as Vahejas que aqui existem, tenham um futuro melhor, tenham mais sorte. O meu povo tem uma solidariedade que ultrapassa a noção real da palavra.

Somos capazes de arranjar muitas e muitas coisas para os pobres, de levantar muitas obras para os pobres. No entanto vivemos distante deles, nunca comemos com eles o pão da amargura, o pão da angústia, o pão da dor, o pão da miséria, o pão da solidão, pão das dificuldades de cada dia, o pão da fome. Senti, que o que Vaheja queria era que eu também comesse o pão do sofrimento com ela. Que fosse no exercício do ministério sacerdotal, que me está confiado, o pai daqueles que não têm ou que precisam dele. Por isso, é que ela me chamava “padiri”, papá, paizinho. Hoje agradeço-te Vaheja por essa grande lição que me ensinaste. Ser pai dos que não têm sorte..."

Padre J. Torres, Missionário da Boa Nova em Ocua (Cabo Delgado)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

[adagio] con motto próprio

Only those who will risk going too far can possibly find out how far one can go.
TS Eliot

[Curiosamente, o meu sobrinho de dois anos e meio em plena "fase do não" parece levar este mote à letra e põe-nos a cabeça em água... Será que vai um dia declamar The Waste Land com um megafone no alto da torre de uma igreja em Oxford?]

[cenas da vida familiar] o natal


Pontualmente, no primeiro domingo do Advento, costumo montar o presépio e a árvore de Natal (artificial, claro está, que não quero alergias aos pólenes ou à lagarta do pinheiro cá em casa...). Este ano esmerei-me na decoração e nas luzes porque o meu sobrinho já tem dois anos e meio e eu estava em pulgas para ver a reacção daquele piratinha à decoração, às luzes e à música de Natal... Mas, para meu profundíssimo desgosto, aquela alma aventureira que se atira do berço como se tivesse areia por baixo, aquele explorador dos armários da cozinha, o grande engenhocas dos Tupperwares e das panelas teve medo da árvore de Natal e recusou-se a entrar na sala enquanto as luzes e a música estiveram ligadas (devo confessar que foi uma machadada na minha auto-estima de fada-do-lar em geral e de decoradora natalícia em particular, mas enfim, cada um é para o que nasce e eu, pelos visto, não nasci para decoradora de interiores...).

No dia seguinte, eu e ele mais recompostos, levei-o novamente à sala, desta feita ao meu colo e com as luzes de Natal apagadas para ter a certeza de que não haveria azar e ele já me pareceu mais ambientado. Fomos cumprimentar o pinheiro e explorar a decoração. Mostrei-lhe as bolas de Natal, os anjinhos e a estrela, mas ele pareceu muito mais interessado na própria árvore e comentou que o senhor pinheiro tinha pés, cabelo, braços e cauda... Ia rebentando a rir com aquela capacidade projectiva e congratulei-me com a falta de paciência do meu sobrinho para as pirosices de Natal da sua tia...

Só que os dias foram passando e o senhor pinheiro continuava a não ser amigo. Podia ter pés, cabelo e cauda, mas amigo é que ele não era... Assim, esta noite resolvi assumir que as luzes seriam um obstáculo à aceitação da árvore e retirei-as. Mas mal viu o pinheiro sem as luzes, o pirata atracou-se a ele como se não houvesse amanhã e ia destruindo, sem apelo nem agravo, a árvore de Natal juntamente com os enfeites.

E foi assim que, por motivos de força maior, me vi obrigada a recolocar as luzes e a acendê-las, garantindo um perímetro de segurança e preservando assim a integridade física do Senhor Pinheiro de Natal que enfim, isto de educar uma criança nos valores da tolerância e da coexistência pacífica é coisa que se vai aprendendo por tentativa e erro...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

[vozes brancas* #32] e vidas pequeninas

No Serviço de Urgência há alguns dias, a minha amiga R. estava a ver um menino de três anos e meio, com um ligeiro atraso de desenvolvimento mas com um ar vivo e reguila que fazia derreter qualquer um. E ela perguntava-lhe enquanto lhe ia espreitando os ouvidos:

- Então, como é que se chama a tua namorada lá da escola?
- [Com um sorriso malandro] É a mãe...
- Então, mas diz lá, como é que se chama a tua namorada?
- É a mãe! A mãe é que é a mais bonita de todas...
- Vá lá, diz-me só a mim, aqui ao meu ouvido.
- É a mãe. [E aproximando-se do ouvido dela, em segredo] É a Inês Campos. E quando eu crescer vou casar com ela e dar-lhe muitos beijinhos na boca!

* Timbre da voz de uma criança antes da puberdade.

[coisas que me fazem sorrir]

Acho graça, pronto! Visto no blog de Mr. Lindegaard, meu correspondente no Chimoio.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

[pássaros feridos] improbabilidades da vida no mato

A avenida do hospital
(Gilé, Zambézia)

E a propósito de traficantes de ouro... Há dois anos um negociante holandês, numa viagem de avioneta para o Gilé, teve uma avaria no trem de aterragem e ficou a sobrevoar a vila durante tempos infindos para tentar esgotar o diesel e procurar um local de aterragem mais plano e seguro do que o descampado onde costumava aterrar. A chegada de um avião é sempre um acontecimento empolgante no mato e uma meia hora em djika-djika sobre a vila foi suficiente para colocar metade do Gilé na rua em polvorosa e de nariz no ar, tentando perceber que raio é que se passava com aquele passarão branco que rosnava de perto, ameaçadoramente perto, parecendo lutar contra a gravidade sem se atrever a arriscar o inevitável encontro com o solo. Que lhe valesse Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis, se os estivesse a ouvir...

Por fim, o grande pássaro ferido resolveu-se a aterrar... em plena avenida principal! E, apesar de ter visto homens, mulheres e crianças no meio da rua, "arreda que lá vai aço!", de repente, e sem qualquer aviso prévio, poisou no início da avenida e iniciou um sprint interminável de 300 metros digno de um filme de terror, no meio de poeira, gritos e aflições, acabando por embater contra o muro do hospital.

Miraculosamente, toda a gente escapou ilesa, desde as pessoas na avenida até ao piloto da avioneta, passando pelo impagável casal de perus que vive acantonado à porta do hospital e que persegue afincadamente os transeuntes, num glu-glu-glu trôpego e ameaçador. [Nota mental: escrever sobre esta dupla improvável. Será um post algo arriscado porque pode ter efeitos colaterais, não para o casal de perus, que não tem nada a perder, mas para a minha própria reputação. Mas enfim, talvez arrisque... Sabem que geralmente não resisto a uma boa história. E há uma contra-ameaça que talvez me proteja...]

Minutos depois, no meio do silêncio incrédulo que se seguiu àquele acidente odioso mas felizmente sem consequências, o povo viu sair, com apenas duas ou três escoriações na face, o piloto holandês. Mal recomposto do susto, procurou bebida e pousada na residencial do Sr. Pompisk (para ele, mesmo que não nos esteja a ouvir, um abraço!), que lhe disse, obviamente, que nessa noite estariam lotados e que a cerveja estava esgotada. Não se atrapalhou. No mato, para o bem ou para o mal, há sempre alternativas. Pagou regiamente a três agentes da polícia para ficarem a guardar a sua avioneta durante três dias, salvando-a assim da pilhagem mais que certa, pernoitou em casa do administrador e, no dia seguinte, partiu num jeep alugado para regressar dois dias depois com um camião e um grupo de mecânicos que desmontou o aparelho e o levou dali, para nunca mais regressar.

[welcome to mozambique] das minas e suas armadilhas

Garimpo
(Foto surripiada de um outro site, provavelmente com direitos de autor, mas cuja origem não me recordo. Desculpem qualquer coisinha, sim? Se me lembrasse punha aqui o link, juro!)

Uma das riquezas do Gilé, a par com a reserva de caça turística e os cajueiros a perder de vista, são as minas de ouro e de pedras preciosas... Exploradas, obviamente, por grandes multinacionais estrangeiras, que nem por sombras investem no distrito ou nas pessoas. Criam alguns postos de trabalho, é certo, embora altamente precários, mas podiam talvez formar uma ou outra parceria com o Governo para, por exemplo, melhorar as vias de comunicação e assim até escoar mais facilmente o minério... Ganhavam todos... As multinacionais não são a Santa Casa da Misericórdia, disso já toda a gente sabe, mas estão a explorar a riqueza de um país em vias de desenvolvimento, valha-me a Santa! Podiam ter uma conduta ética e demonstrar alguma sensibilidade pela situação do povo, tanto mais que a actividade é extremamente lucrativa. Mas enfim, estou a repetir-me e até já sabemos que eu não gosto de falar sobre este tipo de coisas... E de qualquer modo eu não sou de cá, só cá vim ver a bola...

E onde há minas de ouro há sempre garimpeiros, homens que exploram ilegalmente o solo, numa actividade rudimentar, mas extremamente arriscada e, se possível, ainda mais destruidora do meio ambiente e poluente. As minas são uma atracção enorme para os jovens e são muitos os que lá deixam ficar a vida ou ficam mutilados em acidentes violentos com explosivos ou nos desabamentos de que ouvimos falar quase diariamente... Nunca me vou esquecer que no mesmo dia em que 33 mineiros ficaram soterrados no Chile e meio mundo se mobilizou para os resgatar, vimos chegar um jovem de vinte anos inconsciente, trazido por quatro homens, após ter estado soterrado durante uma manhã inteira na sequência do desabamento de um túnel. Minutos depois percebemos que o absoluto desconhecimento de como fazer um desencarceramento e o transporte em caso de traumatismo vértebro-medular tinha arruinado a vida daquele rapaz para sempre. Tinha ficado tetraplégico... Ainda tentámos fazer-lhe corticóides em altas doses e transferimo-lo para um centro com Neurocirurgia, mas não foi possível fazer mais nada por ele... Aquele acidente horrível e a operação de resgate desastrosa teriam impossibilitado a sua recuperação em qualquer parte do mundo...

E depois também há os traficantes estrangeiros que transaccionam ilegalmente o ouro e as pedras preciosas. Há uns anos ouvíamo-los chegar nas suas avionetas. Aterravam num descampado que hoje é o campo da bola, deixavam o seu guarda particular a tomar conta da aeromáquina, ficavam alojados na residencial do Sr. Pompisk (para ele, se nos estiver a ouvir, mais um grande abraço!) e, um ou dois dias depois, pela calada da noite, ouviamo-los levantar voo levando a riqueza extraída da terra vermelha com o sangue dos homens na força da vida. Tudo isto às claras, com os administradores impávidos, sem impostos e impune (como devem ser irresistíveis estas aliterações para alguém sem escrúpulos na conta bancária)...

Agora já não vemos chegar avionetas... desde que as estradas estão melhores que os traficantes chegam por terra, em jeeps com logotipos pintados que tento não ler nem fixar (não quero nem pensar que existem ONG e lavagens de dinheiro metidas no meio disto tudo...).

domingo, 12 de dezembro de 2010

[nomes que dizem tudo #13] e que nos fazem sorrir...

Não vos disse, mas o Sr. Elvis Pires, o ourives do Gilé, era tio de uma menina chamada Angelina Júlio!

[beijo-de-mulata fashion] o ouro da zambézia


Próximo do grande Centro Hospitalar do Gilé, na mesma rua da pousada do Sr. Pompisk (para ele, se nos estiver a ouvir, aquele abraço!), vivia o único ourives, o Sr. Elvis Pires. Não sei muito bem onde é que ele adquiria o ouro, mas suponho que o comprasse aos garimpeiros das minas situadas a poucos quilómetros da vila. Por acaso isso não me choca nada... Nem tenho a certeza de que os próprios garimpeiros teriam perfeita noção de que a exploração das minas e a comercialização do ouro da sua própria terra era ilegal, de tal forma era feita às claras. Choca-me é o lucro desenfreado das multinacionais que não ajudam o país e a quem o governo oferece a exploração de mão beijada a troco de benefícios que o povo não chega a ver... Mas adiante, que eu não tenho pretensões de Wikileaks. Nem sequer gosto muito de falar de assuntos sérios, sobretudo quando estou a contar uma história. Já bem me bastam tantos problemas que tenho de resolver no dia-a-dia e eu sem poder mudar de assunto...

Mas como eu ia dizendo, o Sr. Elvis Pires, a quem eu tratava respeitosamente por Sr. Ourives porque não conseguia evitar sorrir com o nome improvável, era um homem em muitos aspectos admirável. Apesar do nome, que nos faria pensar numa família vanguardista e com algumas pretensões, as suas origens eram as mais humildes. Oitavo filho de uma família de camponeses, viveu uma infância igual à da enorme maioria das pessoas do país: ajudava os pais no cultivo da terra, ia irregularmente à escola, dormiu no mato durante os anos da guerra civil para se esconder dos ataques dos "bandidos armados", teve a casa destruída inúmeras vezes, viu irmãos morrerem às mãos dos guerrilheiros e sucumbir a doenças banais, teve várias doenças graves e medo de morrer em todas elas, foi mordido por uma cobra e sobreviveu miraculosamente graças a um curandeiro (esta última parte talvez não seja assim tão comum, mas enfim...).  Mas o que fazia a diferença, o que fazia dele um homem remediado, que conseguia sobreviver e ganhar a vida sem ser de mão estendida ou dentro da máquina do partido, era ser um homem de iniciativa, um homem de sonhos e de trabalho.

Mas, por muito suor que empregasse nas suas obras, o Sr. Ourives, com muita pena minha, não era um artista nato. Não era um criador genial e inspirado. O melhor que posso dizer dele é que era um excelente homem de família, um empresário honesto, um executante razoável, mas um artista sem ideias e com um gosto sofrível...

Por isso, a Irmã Lurdes, que pelas minhas contas há-de vir a ser santa, nas suas idas a Paris trazia-lhe sempre catálogos de grandes marcas para ele se inspirar. O último tinha sido o da Cartier. Mas nem assim... Por um lado é preciso bom gosto por parte do artesão e, por outro, é preciso bom gosto e poder de compra por parte do mercado. Ou seja, mesmo depois de ter tido contacto com peças de elevadíssimo gosto em comparação com as suas, as obras de Elvis Pires continuavam as mesmas bolinhas e argolinhas algo toscas de sempre, que ele guardava amorosamente em pequenos saquinhos de comprimidos surripiados da farmácia do hospital...

Felizmente, este ano, a Irmã Lurdes teve uma ideia genial! Numa ida ao Carrefour de Paris lembrou-se de pedir o catálogo da ourivesaria... A face do Sr. Pires iluminou-se quando o viu! Era todo um novo mundo de pequenas ideias acessíveis, simples e baratas ao seu alcance. E foi também com base neste catálogo que o Sr. Ourives recebeu a sua primeira encomenda de uma médica europeia. Meus queridos amigos, eu tive de me esforçar genuinamente, mas no meio do catálogo do Carrefour de Paris consegui encontrar um modelo de brincos engraçado. Ele ficou a babar-se. Já antes me tinha tentado vender sem sucesso algumas das suas obras, mas eu, por muito boa vontade que tivesse, não tinha conseguido comprar nada. A minha intenção com esta encomenda era apenas dar trabalho a um homem de família (e, vá, também queria uma história para contar, pronto, já me conhecem...). Não tinha a mais pálida intenção de os usar mais tarde. Mas... e não é que ficaram perfeitos? É que até que não são feios... Actualmente uso-os de vez em quando. Por graça, mas uso.

[boas festas!] à luz das velas...

como se canta o silvo das ondas?
como contar as estrelas do céu?
como se mede o amor de uma mãe?
ou como anotar o nascer de um bebé?

luz do anjos, luar,
luz da'strelas do céu,
velem o berço até romper a aurora...
gloria, gloria in excelsis deo
o deus menino veio ao mundo agora!

vamos vê-lo a belém
na noite fria...
o redentor do mundo
entre animais.
deus encarnado
e ‘sperança dos homens
ao colo da mãe
no primeiro dos natais


luz do anjos, luar,
luz da'strelas do céu,
velem o berço até romper a aurora...
gloria, gloria in excelsis deo
o deus menino veio ao mundo agora!

depois de ter decretado cinco dias de luto no mato e de ter passado um fim-de-semana meio adoentado (don't ask...), deixo-vos com a música de natal mais bonita que existe (a tradução é a possível... o sentido é uma reinterpretação e as vogais estão no sítio certo, mais do que isto não sei fazer... ou pior, muito pior: não sei sequer se é possível traduzir melhor...).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

[estado em que se encontra este blog]

Encerrado por tempo indeterminado. Lamentamos, mas a vida afinal não é simples...
(Grief is the price to pay for love.)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

[improbabilidades] e infortúnios

Esta manhã vi um adolescente de 15 anos com alergia alimentar ao tremoço, aos caracóis, ao amendoim e à cevada. E a rigorosamente mais nada. Lamentei-me profundamente. Não consigo sequer imaginar combinação mais infeliz. Talvez até mereça uma orientação vocacional... Será que se consegue tirar um curso superior sem participar no Rally das Tascas?